Entrevista com D. Sebastião Soares e D. Luiz Cappio
(Publicado em IHU – Unisinos - Instituto Humanitas Unisinos – www.adital.com.br )
Pe. José Comblin vivia em Barra, no interior da Bahia, há dois anos. Escolheu viver lá porque achava que a diocese da cidade era uma das poucas que estava, efetivamente, ao lado dos pobres. D. Luiz Cappio conviveu com ele durante esses últimos anos de vida e conta, na entrevista que concedeu por telefone à IHU On-Line, sobre como foram esses últimos momentos da vida de Comblin. "Nós estabelecemos um entrosamento muito grande por ocasião do meu segundo jejum em Sobradinho, quando ele esteve lá comigo durante um tempo bastante grande, sendo muito solidário e muito fraterno na nossa luta contrária ao projeto de transposição de águas do rio São Francisco”, conta D. Cappio que, então convidou Comblin para residir na diocese de Barra.
Dom Luiz Flávio Cappio vive na Bahia, onde está à frente da diocese de Barra. Em 2005 e 2007 fez jejum em protesto contra o projeto do governo federal de transposição do rio São Francisco. Em 2008, a organização Pax Christi Internacional (Bélgica) lhe deu o prêmio da Paz do mesmo ano, por sua luta em defesa da vida na região do São Francisco. Em 2009, recebeu o Prêmio Kant de Cidadão do Mundo, da Fundação Kant (Alemanha).
"Sem dúvida a morte de José Comblin é um momento de grande dor para a Igreja e particularmente para quem o conheceu mais de perto". Dom Sebastião Armando Gameleira Soares, bispo da Diocese Anglicana do Recife,reconhece que falar postumamente sobre o grande teólogo e amigo é desafiador. Porém, "ouso acrescentar que é um grande momento de ressaltar a relevância da profecia na Igreja e na sociedade". Ele também concedeu uma entrevista, por e-mail, à IHU On-Line sobre Pe. Comblin.
Nascido em Alagoas, Dom Sebastião Armando Gameleira Soares é bispo da Diocese Anglicana do Recife (região Nordeste), da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil. É mestre em teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana, Roma, e em Ciências Bíblicas, pelo Instituto Bíblico de Roma, e em Filosofia, pela Universidade Lateranense, também em Roma. É também especialista em sociologia e bacharel em direito. Há mais de 25 anos, assessora o Centro de Estudos Bíblicos - Cebi, tendo assumido sua Direção Nacional e sua Coordenação Nacional do Programa de Formação, além da coordenação e da assessoria do Curso Extensivo de Formação de Biblistas. Também colabora na assessoria ao Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e à Educação Popular - Cesep, de São Paulo.
Confira a entrevista com Sebastião Gameleira Soares.
IHU On-Line – Na sua opinião, qual foi a contribuição de José Comblin à teologia e ao pensamento teológico contemporâneo?
Sebastião Gameleira Soares – Comblin foi, durante muitos anos, professor de Teologia em seminários e universidades. Por isso, teve de lidar também com os chamados tratados clássicos nos quais se organiza normalmente o ensino e a formação teológica de estudantes. Mas, desde cedo, seus olhos se voltaram para a realidade viva da Igreja e do mundo. No que fazia e nos temas que abordava, estava a indicar claramente que não pretendia trabalhar por uma "teologia de corte" que atendesse aos "interesses do príncipe". O edifício clássico da Teologia cristã era para ele como o depósito de grandes tesouros das intuições milenares do Cristianismo, as quais deviam ser resgatadas de modo a dizerem hoje uma palavra nova e relevante à sociedade.
Não pretendia fazer como tantos que apenas elaboram Teologia para respaldar afirmações do Magistério eclesiástico e consolidar o sistema estabelecido e, desse modo, nada dizem de novo ao mundo, só repetem, o que é um péssimo serviço à Tradição. O Evangelho nos diz que apenas repetir, sem provocar nada de novo na vida das pessoas e da sociedade, é palavra vazia, sem novidade e, sobretudo, sem autoridade para afastar de nós os "espíritos impuros" e destrutivos, o contrário de Jesus (cf. Mc 1, 21-28).
Ao chegar a nosso continente, pelo que escrevia e por suas brilhantes conferências, estava bem claro qual era a direção de seu olhar, o horizonte no qual se daria sua reflexão entre nós. Ou seja, o horizonte hermenêutico de preocupações e perguntas a partir das quais olhava a herança milenar do Cristianismo. Teologia para ele era momento teórico da prática cristã na história. Não se tratava de mero discurso religioso, mas de momento da práxis humana e cristã, isto mesmo antes de a Teologia da Libertação elaborar seus conhecidos princípios metodológicos.
Teologia para ele tinha particularmente a função de criticar, à luz da Bíblia e da experiência cristã, a prática missionária, pastoral e sociopolítica. É por isso que se entende que, desde o começo, se preocupou por pesquisar a história e o processo de evangelização da América Afrolatíndia e as marcas que configuraram o Cristianismo no Continente.
Hoje, se acende o debate em torno da importância de uma "Teologia Pública". Ora, já o vemos antecipar, quando lança obras de fôlego como Teologia da Cidade, Teologia da Paz, Teologia da Revolução. Foi por isso que resolveu enfrentar a Ideologia da Segurança Nacional e denunciá-la como idolatria. Em suas conferências, a análise dos sistemas econômicos e políticos e seu julgamento teológico estavam sempre presentes. E, naturalmente, a denúncia da vinculação das estruturas do Cristianismo a esses sistemas, com a indicação inclusive de suas raízes históricas. Nisso, foi mestre.
IHU On-Line – O site da sua diocese destacou a notícia sobre a morte do teólogo, que era padre católico. Sem dúvida, um sinal ecumênico por parte da sua comunidade. Qual a importância de Comblin para o ecumenismo, especialmente na região do Recife, onde ele viveu por alguns anos?
Sebastião Gameleira Soares – Não se pode dizer que tenha sido um "militante" do Ecumenismo. O que se deve dizer é que foi, como gente e como intelectual e pedagogo (como educador é que foi pastor), uma pessoa radicalmente ecumênica. O foco de todo o seu trabalho intelectual e pedagógico não era a instituição eclesiástica, mas sim a relevância do Cristianismo na vida das pessoas e na sociedade em geral. Estava presente onde o Cristianismo estivesse querendo recuperar-se como fermento de animação de uma sociedade nova e onde pessoas de quaisquer procedências estivessem dispostas a lutar pela justiça. Não é por acaso que recebia convites de seminários e faculdades protestantes e, nos últimos anos, reunia periodicamente em sua casa um grupo de pastores protestantes para reflexão e debates.
Sua atitude ecumênica tem tudo a ver com o que hoje se chama de "Ecumenismo de Base", ou a partir da vida do povo. Porque tocava justamente nos problemas que a todo mundo interessam, os problemas do dia a dia da vida e que não perguntam primeiro por confissões de fé, mas por soluções de fé, como eu gosto de dizer.
Ora, particularmente no Nordeste do Brasil, como no tempo de Jesus em Sua terra, só quem estava interessado em discutir em primeiro lugar questões religiosas e "de Teologia" eram os segmentos integrados no sistema estabelecido (escribas, fariseus, saduceus), o povo mesmo procurava Jesus para sentir a dignidade recuperada, as enfermidades curadas ou pelo menos cuidadas, a fome saciada... Comblin o compreendeu muito bem, tratou dessas questões e assim assumiu a largueza "ecumênica" do coração de Deus, à imitação de Jesus. Sua paróquia realmente era o mundo, no dizer do grande profeta John Wesley, inspirador do Metodismo.
IHU On-Line – Pessoalmente, como o senhor analisa a teologia e a obra de Comblin? Pelo que sabemos, o senhor foi seu aluno. É isso? Que recordações e lembranças desse grande teólogo ficarão gravadas em sua memória?
Sebastião Gameleira Soares – Na verdade, não tive a graça de ser seu aluno. Quando ele se tornou professor do Instituto de Teologia do Recife - Iter, trazido por convite de Dom Helder [Câmara] depois do golpe militar, eu estava a estudar em Roma, aonde cheguei em outubro de 1964. Só o conheci pessoalmente depois que já era eu mesmo professor do Iter e em seguida também Coordenador dos Estudos.
Às vezes, quando tinha algum intervalo que coincidisse com sua aula, procurava escutá-lo. Também tive a felicidade de escutá-lo em conferências ou em seminários de estudo que promovíamos, especialmente no Departamento de Pesquisa e Assessoria - Depa. Impressionava-nos a capacidade que tinha de escutar as questões e discorrer sobre os mais variados temas por toda uma jornada sem ter nas mãos uma folha de papel sequer. Dizíamos que era cabeça de computador. Amplíssimo nível de informações, tanto de história quanto da conjuntura mundial, e agilidade para refletir e aprofundar os temas com intuições originais.
Um dos aspectos que mais me fascinavam em seu jeito de fazer Teologia é sua capacidade de ir ao tesouro da Tradição e penetrar além da letra, "por trás das palavras", como gosta de dizer nosso amigo Carlos Mesters, na busca de resgatar as intuições mais profundas que estão por detrás das afirmações doutrinais, sempre naturalmente condicionadas pela consciência possível de cada época. De alguns professores em Roma e, especialmente dele, algo disso eu aprendi, de modo que um dia cheguei a mostrar a um amigo luterano que a doutrina católica do purgatório, rejeitada pela Reforma, é, na verdade, uma das afirmações mais luteranas no Catolicismo, uma forma bem da cultura medieval de reconhecer o princípio de simul justus et peccator (simultaneamente justo e pecador), um dos princípios basilares do Protestantismo. Se fizéssemos esse esforço sistematicamente, quantos equívocos desmascararíamos, como foi feito há alguns anos com a questão da "justificação pela fé" no documento conjunto católico-luterano!
IHU On-Line – Quais são as grandes fontes matriciais do pensamento de Comblin (teológicas ou não)? Que pensadores e obras fundamentaram a sua teologia?
Sebastião Gameleira Soares – Primeiramente, dominava a bibliografia teológica mundial e tinha aguda capacidade de síntese pessoal. Conhecia a história da Teologia, e não só da teologia católica romana. Além disso, era doutor em Ciências Bíblicas com tese sobre O Cristo no Apocalipse, em um tempo em que muito pouca gente se interessava por esse livro da Bíblia. Quem sabe, já era a intuição de que o grande confronto da atualidade é entre Cristo e o Império...
Tinha formação em Sociologia e amplo conhecimento da História da sociedade ocidental, particularmente da História da Cultura, ajudada pela Sociologia da Cultura, e da História da Igreja, especialmente da grande trajetória do Catolicismo. Conhecia muito bem o Marxismo. Seu raio de leituras era amplíssimo, inclusive na área de Economia e da Política. Finalmente, tinha nítida percepção da importância do papel da Igreja na formação da sociedade ocidental (Europa) e na empresa colonial legitimada pelas missões (outros continentes). Sua luta se dava no sentido de resgatar a relevância da herança da Igreja na reconstrução de uma sociedade onde os pobres achassem seu lugar e fossem sujeitos da recuperação de sua dignidade.
Entre os fundamentos de sua obra teológica, não por último, deve ser mencionada a profunda fé no Deus da história – o Deus bíblico – e sua espiritualidade centrada no discipulado de Jesus, o que lhe dava o poder de ser simples e modesto, pobre, e de sentir-se bem entre os pobres e dedicar a eles e elas sua vida.
IHU On-Line – Comblin sempre esteve perto dos leigos e leigas cristãos, como indicam alguns de seus livros como Curso Básico para Animadores de Comunidades de Base (Paulus, 1997), Cristãos Rumo ao Século XXI (Paulus, 1997) e O Povo de Deus (Paulus, 2002). Que laicato desponta do pensamento de Comblin?
Sebastião Gameleira Soares – Seu profundo vínculo com o laicato se revela particularmente quando seus projetos de educação teológica visam a formar pessoas, clérigos e pessoas leigas que cheguem a optar por estar em caminhada missionária junto com o povo pobre das comunidades, especialmente a gente camponesa humilhada do interior. Para ele, isso seria um golpe certeiro no que se faz habitualmente com os estudos teológicos, a saber, servem para criar e fortalecer uma elite que, "entronizada" acima do povo, o domina. A seu ver, ordinariamente, os estudos teológicos são um dos fortes sustentáculos do sistema clerical, do qual o povo de Deus em geral está excluído.
Já no Chile, foi um formulador desse novo sistema de formação. No Nordeste do Brasil, junto com um grupo de seminaristas e do saudoso Padre René Guerre (francês, ex-assistente nacional da Juventude Operária Católica - JOC francesa, trazido ao Recife por Dom Helder), orientou a famosa "Teologia da Enxada", que supunha os estudantes cursarem Teologia estando inseridos no meio de camponeses, junto aos quais, como primeiro passo dos estudos, pesquisavam qual era a formulação popular da fé cristã.
Com o amadurecimento de suas experiências e de sua análise do sistema eclesiástico, tomou a decisão de não mais colaborar em seminários para formação do clero e dedicar-se totalmente à educação teológica e missionária de gente leiga. Fazia isso especialmente no interior da Paraíba e da Bahia, ao lado de suas conferências e seminários de estudo em outras partes do Brasil e no Exterior.
Várias são as iniciativas das quais era o grande inspirador e pedagogo: Centro de Formação Missionária, Associação de Missionários e Missionárias do Nordeste, Curso da Árvore, "Seminário" de formação para gente leiga dos sertões da Bahia, Fraternidade do Discípulo Amado... Recomendou e escreveu sobre isto: o povo leigo das Comunidades de Base devem organizar-se em associações autônomas para assim resistir ao poder do sistema eclesiástico. Tinha plena razão. Muito de todo o esforço das comunidades ficou prejudicado por falta de terem dado esse passo. Sem autonomia jurídica, que seria dada por associações civis legalmente constituídas, é fácil, como tem sido, para o poder na Igreja anular a iniciativa do laicato, sobretudo do laicato mais pobre e frequentemente iletrado.
É bom ressaltar que em torno dele sempre estiveram muitas mulheres que assim têm sentido a dignidade resgatada e sua capacidade de influir na Igreja e na sociedade, tanto leigas como freiras.
IHU On-Line – Que figuras foram centrais na vida de Comblin, como impulsionadoras ou críticas ao seu pensamento?
Sebastião Gameleira Soares – Penso que há outras pessoas com bem mais autoridade para responder sobre isso. Ousaria lembrar que admirava sobremaneira a figura do "Apóstolo do Nordeste", o Padre [José Antônio Maria] Ibiapina. Sobre ele chegou a escrever um livro e trabalhou intensamente pela restauração do Memorial com seu nome em Santa Fé, na serra paraibana. Lá quis ser enterrado. Padre Ibiapina assumiu o ministério depois de aposentado como juiz de Direito e viúvo. Dedicou a vida ao povo dos sertões e teve a intuição de que é o povo sertanejo, pobre, que deve ser o agente missionário de sua região.
Em função disso, por exemplo, fundou as famosas "casas de caridade", onde se reuniam em comunidade mulheres do lugar para estarem a serviço das necessidades do povo. Ele, Ibiapina, era inspirador e orientador. Esse modelo correspondia justamente aos ideais de Comblin, uma Igreja que nascesse do Espírito Santo a partir da iniciativa do povo agindo autonomamente a serviço de seus iguais.
Depois vêm figuras como Dom Helder Camara, Dom Oscar Romero, Dom Leonidas Proaño e tantas outras dentre os Pais da Igreja da América Afrolatíndia. Sem falar de seus e suas colegas de tarefa de elaboração teológica. Nestes últimos anos, aproximou-se intimamente de Dom Fr. Luis Cappio, Bispo da Barra, na Bahia, confessor da fé e apóstolo do povo ribeirinho do São Francisco. Transferiu-se mesmo para a Bahia e foi lá que faleceu. Tinha dito que no curso final de sua vida queria estar perto de um santo filho de São Francisco para ter perto de si um exemplo de santidade e assim se preparar melhor para a grande viagem...
IHU On-Line – Alguns dos livros de Comblin abordam especificamente questões bíblicas. Que aspectos centrais o senhor destacaria na "leitura bíblica” de Comblin?
Sebastião Gameleira Soares – Sobretudo desde vários anos para cá, Comblin compreendeu sua tarefa de escritor como dever produzir livros que falassem de Teologia da Missão, da Palavra como elemento dinâmico e transformador da vida e da sociedade, do Espírito Santo como suscitador de iniciativas de missão, de Jesus como centro em redor do qual estamos nós em atitude de discipulado.
Esses escritos têm uma fortíssima inspiração bíblica e espiritual. Querem colher na raiz o testemunho que nos deixaram as Escrituras e suscitar em nós atitudes novas, à imitação de Jesus. Lembremos de livros como Cristãos do Século XXI, Povo de Deus, A Liberdade Cristã, O Caminho.
Sobre Jesus, escreveu sempre e a partir dos evangelhos. Participou do Comentário Ecumênico Brasileiro com alguns livros sobre as Epístolas Paulinas e os Atos dos Apóstolos. Estava no mesmo rumo do que chamamos de Leitura Popular e Comunitária da Bíblia. A vida como contexto de leitura da Bíblia e a Bíblia como testemunho da vida de nossos pais e mães na fé, para que possamos perceber a força transformadora da Palavra que Deus nos dirige hoje, na atualidade de nossa existência.
IHU On-Line – Para finalizar, deseja acrescentar mais alguma coisa sobre Comblin?
Sebastião Gameleira Soares – Acrescentaria apenas o seguinte: é impressionante perceber em Comblin – Padre José ou Padre Zé, como o povo lhe chamava – uma personalidade paradoxal. Quase tímido e ao mesmo tempo de coragem e determinação de aço. Até na morte não caiu aos poucos, mas tombou de repente, como as palmeiras que caem de um só golpe, trabalhou até morrer. "O justo é como a palmeira plantada nos átrios de Deus". Quase silencioso, de voz mansa e fina ironia, a arma dos pobres, e ao mesmo tempo voz que soava por cima dos telhados e atravessava continentes.
Diante de sua palavra crítica, isto é, que instaura a crisis, a ditadura militar tremeu e por isso o expulsou do país, e as hierarquias eclesiásticas ainda agora tremem temerosas da influência que pode ter na mente dos fiéis. Privilegiadamente inteligente, teólogo famoso, e ao mesmo tempo modesto, pobre, quase escondido. Fiel aos pobres, ao ser convidado para conferências e seminários, ao que me consta, nunca se interessou pelo que teria de gratificação financeira, nunca teve "preço" nem cedeu ao sistema de mercado, permaneceu pobre a serviço de pobres.
Escreveu para teólogos e letrados e com mais amor ainda escreveu para pobres e gente de poucas letras. Fez conferências em grandes auditórios de universidades e gastou precioso tempo com freiras tão sem poder nas estruturas eclesiásticas, camponeses, missionários e missionárias do campo, mulheres pobres. Grande intelectual e, ao mesmo tempo, de profunda espiritualidade radicada na fé e no amor a Jesus e a Seu caminho, por isso capaz de celebrar a fé junto com o povo.
Viveu da tarefa de formular pensamentos e teoria, suas aulas eram "monótonas", isto é, sua voz tinha sempre o mesmo tom, só as seguia quem era capaz de se encantar pelo conteúdo e não dependia tanto de "recursos didáticos", e ao mesmo tempo foi um dos maiores pedagogos que temos conhecido por sua capacidade de inspirar e suscitar iniciativas e comunicar às pessoas a perspectiva de se tornarem autônomas no pensamento e na ação.
Foi "pedagogo", isto é, Guia para a descoberta da Verdade da vida. Foi Profeta para denunciar a mentira dos sistemas de opressão e anunciar a Verdade do Reino de Deus. É santo para nos inspirar a perseverar no Caminho.
Confira a entrevista com Dom Cappio.
IHU On-Line – Onde o senhor conheceu José Comblin?
Dom Cappio – Falar do Padre José Comblin é falar de um grande amigo e irmão que eu tive a felicidade de ter nos últimos dois anos de sua vida, quando ele decidiu vir morar aqui comigo na cidade da Barra, na Bahia. Esta convivência com ele foi uma convivência muito amiga, muito fraterna e de identificação mútua. Eu o conheci através dos seus livros, dos seus gritos como estudante de Teologia. Muitos dos assuntos de pesquisa eu estudava em seus livros, pois ele era uma fonte de pesquisa para mim. Ele me ajudou muito no curso de Teologia que fiz. E depois, ao longo da minha vida sacerdotal e também episcopal, sempre procurei em seus livros um enriquecimento para o meu conhecimento e atualização teológica.
Além dos livros, também o conheci pessoalmente quando fiz o curso de bispos. Fui convidado a participar desta formação há mais ou menos dez anos. Depois nós estabelecemos um entrosamento muito grande por ocasião do meu segundo jejum em Sobradinho, quando ele esteve lá comigo durante um tempo bastante grande, sendo muito solidário e muito fraterno na nossa luta contrária ao projeto de transposição de águas do rio São Francisco. Foi desta maneira que conheci o Padre José Comblin. Fiz o convite para que ele viesse residir aqui na nossa diocese e ele prontamente aceitou e aqui permaneceu até os seus últimos dias.
IHU On-Line – Por que ele decidiu viver em Barra, na Bahia?
Dom Cappio – Segundo o que Padre Comblin dizia, era porque ele entendia que Barra era uma das últimas dioceses do Brasil que tinha feito a opção pelos mais pobres, mais carentes, por um povo bastante esquecido e bastante empobrecido. E ele, no seu desejo muito grande de viver à risca e até os limites o evangelho de Jesus, optou passar os seus últimos dias, os seus últimos tempos de vida, aqui na diocese da Barra, onde se concentrava certa porção de uma das partes mais carentes do povo de Deus. Ele sempre dizia: "eu vim para a diocese da Barra porque aqui residem os pobres, aqui é uma igreja que está a serviço dos pobres e às comunidades que são organizadas para servir aos pobres. É por isso que vim para a diocese da Barra, para viver com eles”.
IHU On-Line – A vontade de Comblin era ser enterrado no mesmo santuário onde Pe. Ibiapina foi sepultado. Quem foi este padre? O senhor sabia desse desejo do Pe. Comblin?
Dom Cappio – Padre Ibiapina, padre mestre Ibiapina, foi um grande missionário que viveu no Nordeste. Ele nasceu em Sobral, no Ceará, em 1806, e morreu em Santa Fé, na Paraíba, em 1883. Ibiapina se tornou padre já bem idoso, ele primeiro foi advogado, depois foi juiz de direito, mas quando percebeu que a Justiça estava apenas a serviço dos grandes senhores da época, ele abandonou a sua carreira jurídica e se ordenou padre. Assim, ele se embrenhou pelos interiores do sertão nordestino, criando toda uma infraestrutura que possibilitasse a vida das comunidades mais carentes do sertão do Nordeste, construindo açudes, construindo os primeiros hospitais da região, construindo casas para acolher crianças que morriam, para acolher pessoas idosas que não tinham quem as cuidasse.
Foi um homem que dedicou toda a sua vida na prática da caridade e de ações direcionadas aos mais carentes da sociedade. Padre Ibiapina está em processo de beatificação, é um grande missionário do sertão do Nordeste, pouco ainda conhecido e Padre José Comblin, que também possuía a mesma vocação de viver em função dos pobres e fazer da sua vida uma vida profundamente comprometida com o evangelho de Cristo, viu na vida do Padre Ibiapina um exemplo para sua própria vida. Comblin foi um dos grandes divulgadores da biografia do Pe. Ibiapina e hoje este vem sendo cada vez mais conhecido como um homem de Deus, o grande missionário dos sertões do Nordeste brasileiro graças às pesquisas e ao trabalho de divulgação que Comblin fez. Padre José Comblin era um grande admirador de Padre Ibiapina e um grande devoto de Padre Cícero, por causa do compromisso que este tinha com os mais pobres. Estes são os ícones que viveram do nordeste brasileiro e que serviram para Comblin como exemplos de vida e é por isso que ele escolheu ser sepultado onde o Padre Ibiapina está sepultado. Homens que deram a sua vida pelos homens do Nordeste.
Ele manifestou por diversas vezes essa vontade de ser enterrado junto ao túmulo do Padre Ibiapina, lá no santuário de Santa Fé, na Paraíba.
IHU On-Line – Qual sua impressão da cerimônia de enterro do Pe. Comblin?
Dom Cappio – Dia 27 de março, domingo, ele acordou logo cedinho, tomou o seu banho, se vestiu e saiu. Ele estava no Recanto da Transfiguração, que é uma casa de encontros dirigidos por Gisa Maia, uma leiga consagrada aqui na Bahia. Comblin gostava muito daquele recanto, um lugar que inspira muito a espiritualidade. Como estava chuviscando, ele retornou da caminhada e Gisa o viu e pediu que uma das moças que cuidava da casa fosse levar um guarda-chuva para que ele pudesse vir para a oração da manhã.
Quando a moça chegou aos seus aposentos, ele já estava reclinado, sentado meio deitado, já morto. Foi um enfarte fulminante logo na manhã do domingo. Naquele mesmo dia, celebramos a missa de corpo presente, a funerária levou o seu corpo para ser preparado para o enterro e fizemos a viagem por terra até Santa Fé-PB, onde chegamos na madrugada de terça-feira. Durante toda a manhã deste dia, ele foi velado. Centenas de pessoas da região vieram visitá-lo e, à tarde, às três horas, tivemos uma celebração com seis bispos, aproximadamente 60 padres e muita gente da redondeza, porque ele era muito querido, muito amado por aquele povo. E assim foi o sepultamento dele no santuário de Santa Fé, com a participação de muitos bispos, padres e fiéis. E houve também diversas missas de sétimo dia em muitos lugares onde ele era reconhecido e muito valorizado.
IHU On-Line – Padre Comblin vivia em Barra também. Vocês conversavam sobre a transposição do São Francisco? O que ele dizia sobre sua luta em relação à vida do rio?
Dom Cappio – Sempre conversávamos. Padre Comblin era um profundo defensor da vida, da vida do povo nordestino, da vida do povo ribeirinho, e ele sempre foi contrário ao projeto de transposição, porque ele via que este iria defender os interesses dos grandes grupos da oligarquia econômica, contrária aos interesses populares. Padre José Comblinsempre foi um defensor dos direitos do povo. Quando ele via que este projeto era contrário aos direitos do povo, Comblin se colocou contrário ao projeto de transposição de águas do rio São Francisco e de todos estes projetos faraônicos que agridem a natureza e agridem os direitos da população de ter os seus bens necessários para sua sobrevivência.
Ele via nesse projeto uma agressão à natureza e ao povo que necessita de água. Padre Comblin não conseguia admitir que essa água fosse tirada do povo para servir aos grandes projetos agroindustriais. Ele sempre foi contrário a estes projetos e, por isso, veio à diocese da Barra por ver que aqui havia uma postura muito forte, clara e transparente a defesa dos direitos da população.
IHU On-Line – E, nesse momento, como estão as obras de transposição do São Francisco? Continuam em pé? Que problemas já vêm se apresentando?
Dom Cappio – Elas continuam, mas com muita demora, muita delonga, com muitos contratos sendo revistos. O Ministério da Integração Nacional agora já postergou todos os prazos, não se têm mais datas previstas para a inauguração e nós sempre dizíamos que essas previsões eram um efeito político eleitoreiro, mas o pessoal não acreditava. Agora todas as datas foram postergadas e muitas atividades do projeto de transposição que estavam sendo realizadas foram paradas.
Os grandes canais que foram abertos diante de um Sol clemente, estão com as placas de concreto rachando; os técnicos já estão dizendo que as placas não vão aguentar e que todos os canais terão de ser refeitos. É uma tristeza. Aquilo que nós sempre dizíamos, que o projeto não chegaria ao fim, e eu ainda acredito nisso, está acontecendo. Na medida em que ele vai sendo construído vão aparecendo tantos problemas paralelos que os custos estão sendo tão aumentados, os prazos estão sendo cada vez maiores, por isso tenho certeza de que o projeto não terá condições de chegar ao fim. Portanto, confirma-se aquilo que sempre dissemos: que este projeto era eleitoreiro, ou seja, para garantir as eleições de 2010. O projeto já cumpriu a sua função de garantir os recursos necessários para as eleições presidenciais do ano passado, então agora se ele vai ser levado adiante ou não isso pouco importa para o governo.
IHU On-Line – Sua luta, as greves de fome que o senhor fez em protesto contra as obras de transposição, como o senhor vê agora, diante desse cenário das obras?
Dom Cappio – Eu vejo que foi graças a todas aquelas lutas, àquele grito que foi dado, que fez mostrar para o Brasil e para o mundo o absurdo deste projeto. Na medida em que este projeto avança, a população está percebendo que tudo aquilo que se dizia sobre o projeto é verdadeiro. Há uma total falta de respeito para com as comunidades por onde os canais passam, uma total falta de respeito para com os municípios e estados por onde os canais estão sendo abertos. Também a presença massiva do exército brasileiro que intimida as populações, as indenizações que não estão acontecendo... Na medida em que o projeto avança, está se mostrando para que ele veio, e toda aquela propaganda feita pelo governo –de que seria a redenção do Nordeste–, cada vez mais o povo percebe o quanto era enganosa.
Tudo aquilo que dizíamos, tudo aquilo que apontamos na época em relação ao projeto, tudo isso está se concretizando. Pelo menos o Brasil e o mundo tiveram a oportunidade de saber a verdade a respeito do projeto. Infelizmente, ele foi iniciado e, com o tempo, vai mostrar o grande engano pela qual toda a sociedade brasileira passou com a viabilização do projeto que, tenho certeza, não chegará ao fim.
Um abraço afetuoso. Gilvander Moreira, frei Carmelita.
e-mail: gilvander@igrejadocarmo.com.br
www.gilvander.org.br
www.twitter.com/gilvanderluis
skype: gilvander.moreira
As forças progressistas, da Teologia da Libertação, incluindo teólogos/as, pastorais sociais, Cebs, agentes de pastoral, religiosos/as, leigos e leigas, se mobilizaram para participar da Conferencia de Aparecida (2007) - uma des suas ações foi a Tenda dos Mártires, como espaço aberto, celebrativo, por 15 dias, enquanto durou a Conferência. A Tenda dos Mártires foi um alerta à toda Igreja para não esquecer seus mártires, sua caminhada, sua identidade de libertação.
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terça-feira, 12 de abril de 2011
terça-feira, 5 de abril de 2011
AGRADECIMENTO A UM MESTRE
José Comblin deixou-nos no dia 27 de março último, depois de completar 88 anos de idade, vividos de modo despojado, fraterno e ecumênico. Pediu para ser enterrado em Solânea, PB, ao lado do grande apóstolo dos sertões nordestinos, o Pe. Ibiapina, para ele, um modelo para a missão, para a promoção humana, espiritual e apostólica dos pequenos e das mulheres e um verdadeiro santo, para nossos tempos.
Louvamos a Deus por sua vida e damos testemunho de sua entrega ao estudo e à formação a serviço dos pobres. Sua lúcida contribuição nos campos bíblico, teológico, pastoral e do compromisso cristão no mundo, sempre foi marcada pela busca da justiça e da transformação social. A partir dos últimos e excluídos, interpelava corajosa e profeticamente os grandes do mundo e da Igreja e as estruturas de opressão e exclusão.
A opção pelos pobres, que marcou sua vida, é um exemplo para nós. Por causa dos pobres, deixou a Bélgica e veio para a América Latina. Aqui, optou pelo nordeste, não o das capitais e sim o do sertão. Da experiência vivida entre os pobres, ele retirou o material básico para sua leitura da bíblia, sua espiritualidade, sua teologia, suas orientações pastorais. Nisso, tornou-se nosso mestre: nunca esquecer que o primeiro lugar no reino de Deus pertence aos pobres.
Comprometido com o projeto comunitário de igreja, Comblin dedicou especial atenção à formação de seminaristas em contato com o povo, visitando suas comunidades para com eles conviver e orientar nos estudos. Pensou num tipo de sacerdote nascido ou vivendo na zona rural, membro atuante de uma comunidade de base, e assim brotou a Teologia da Enxada que evoluiu para a fundação do Seminário rural. Para completar o quadro, Pe Comblin iniciou em Mogeiro-PB, o Centro de Formação para Missionárias do Meio Popular. Durante anos ele se desdobrou indo a pé ou de jipe para orientar a formação dos missionários do Campo e das missionárias do meio popular.
Escreveu muito. Fez inúmeras palestras e conferências. Assumiu uma enormidade de cursos formais ou intensivos para toda categoria de pessoas. Sua palavra foi dirigida a lavradores analfabetos e a doutores em teologia, mulheres da periferia e seminaristas, religiosas inseridas e bispos em assembléia, porque seu desejo era estar presente onde pudesse provocar ou renovar em seus ouvintes e leitores a conversão ao reino de Deus. Não poderemos jamais subestimar o valor dessa lição de disponibilidade como missionário e evangelizador.
Sua radical opção pelos pobres fez de Comblin um severo crítico do sistema capitalista e de seus instrumentos de dominação. Basta lembrar sua crítica lúcida e corajosa à lei de segurança nacional. Não contente com a crítica teórica, ele dedicou seu ministério presbiteral à construção de instrumentos de libertação dos pobres, como comunidades eclesiais de base, pastorais sociais e movimentos populares.
A maior lição do mestre Comblin talvez seja sua teimosa fidelidade à igreja. Foi nela e por meio dela que ele decidiu trabalhar a vida toda.
Este nosso testemunho é apenas pálido eco de milhares de pessoas, comunidades, dioceses e movimentos populares que estão agradecendo a Deus por sua vida e seus trabalhos. Sua palavra, seus escritos, sua coerência intelectual e pastoral são para a Igreja da Libertação uma verdadeira herança que devemos fazer frutificar.
(seguem inúmeras assinaturas)
Louvamos a Deus por sua vida e damos testemunho de sua entrega ao estudo e à formação a serviço dos pobres. Sua lúcida contribuição nos campos bíblico, teológico, pastoral e do compromisso cristão no mundo, sempre foi marcada pela busca da justiça e da transformação social. A partir dos últimos e excluídos, interpelava corajosa e profeticamente os grandes do mundo e da Igreja e as estruturas de opressão e exclusão.
A opção pelos pobres, que marcou sua vida, é um exemplo para nós. Por causa dos pobres, deixou a Bélgica e veio para a América Latina. Aqui, optou pelo nordeste, não o das capitais e sim o do sertão. Da experiência vivida entre os pobres, ele retirou o material básico para sua leitura da bíblia, sua espiritualidade, sua teologia, suas orientações pastorais. Nisso, tornou-se nosso mestre: nunca esquecer que o primeiro lugar no reino de Deus pertence aos pobres.
Comprometido com o projeto comunitário de igreja, Comblin dedicou especial atenção à formação de seminaristas em contato com o povo, visitando suas comunidades para com eles conviver e orientar nos estudos. Pensou num tipo de sacerdote nascido ou vivendo na zona rural, membro atuante de uma comunidade de base, e assim brotou a Teologia da Enxada que evoluiu para a fundação do Seminário rural. Para completar o quadro, Pe Comblin iniciou em Mogeiro-PB, o Centro de Formação para Missionárias do Meio Popular. Durante anos ele se desdobrou indo a pé ou de jipe para orientar a formação dos missionários do Campo e das missionárias do meio popular.
Escreveu muito. Fez inúmeras palestras e conferências. Assumiu uma enormidade de cursos formais ou intensivos para toda categoria de pessoas. Sua palavra foi dirigida a lavradores analfabetos e a doutores em teologia, mulheres da periferia e seminaristas, religiosas inseridas e bispos em assembléia, porque seu desejo era estar presente onde pudesse provocar ou renovar em seus ouvintes e leitores a conversão ao reino de Deus. Não poderemos jamais subestimar o valor dessa lição de disponibilidade como missionário e evangelizador.
Sua radical opção pelos pobres fez de Comblin um severo crítico do sistema capitalista e de seus instrumentos de dominação. Basta lembrar sua crítica lúcida e corajosa à lei de segurança nacional. Não contente com a crítica teórica, ele dedicou seu ministério presbiteral à construção de instrumentos de libertação dos pobres, como comunidades eclesiais de base, pastorais sociais e movimentos populares.
A maior lição do mestre Comblin talvez seja sua teimosa fidelidade à igreja. Foi nela e por meio dela que ele decidiu trabalhar a vida toda.
Este nosso testemunho é apenas pálido eco de milhares de pessoas, comunidades, dioceses e movimentos populares que estão agradecendo a Deus por sua vida e seus trabalhos. Sua palavra, seus escritos, sua coerência intelectual e pastoral são para a Igreja da Libertação uma verdadeira herança que devemos fazer frutificar.
(seguem inúmeras assinaturas)
quarta-feira, 30 de março de 2011
JOSÉ PROFETA
(Pe. Alfredo J. Gonçalves, CS)
De uns tempos para cá, os profetas estão fora de moda. Prevalece o espetáculo recheado de câmeras, holofotes e microfones. Em tempo de mídia, a visibilidade do fantástico ganha terreno sobre o silêncio da semente e do fermento. Com frequência se confunde mudança com show ilusionista, profusamente iluminado e ruidoso, com luzes, sons e imagens. José Comblin viveu, lutou e morreu para mostrar que a profecia continua viva e ativa. E que o Evangelho só é Boa Nova na exata medida em que se faz profecia renova em cada contexto histórico. E, ainda, que profetizar e evangelizar é promover a libertação integral do ser humano.
Três características marcam o movimento profético no Antigo Testamento: memória, denúncia e anúncio. A memória está associada a um reiterado “lembra-te” que remonta à abertura do decálogo: “Eu sou Iahewh teu Deus, que te fez sair da terra do Egito, da casa da escravidão” (Ex 20,2). O decálogo, por sua vez, vem precedido do código da aliança. Assim, os profetas procuravam, em primeiro lugar, trazer para o contexto do reinado e do exílio o espírito de libertação fundamentado na memória do êxodo. Ali se encontram suas raízes. Em outras palavras, se foste escravo no Egito, como podes agora submeter teus próprios irmãos ao mesmo regime? Enquanto sob o Faraó, os hebreus eram subjugados por uma nação estrangeira, agora era o próprio Estado de Israel que escravizava seu povo através de pesados impostos e do trabalho de corvéia. Contra isso se insurgem o movimento profético, retomando e atualizando as exigências do Deus que os tirou da condição de escravos.
Um Deus que “vê a aflição, ouve o clamor, conhece o sofrimento e desce para libertar” marca profundamente a experiência religiosa do Povo de Israel. Ou seja, esse povo vivenciou o contato vivo com um Deus único: atento, sensível e solidário com as condições de vida e trabalho dos oprimidos. Numa palavra, um Deus que caminha pelo deserto da história pessoal e coletiva. Os profetas tentam reviver e recriar essa mesma experiência num novo contexto de opressão e exploração.
Aqui entra em cena a segunda palavra chave do movimento profético. A denúncia tem uma força devastadora em figuras como Isaías, Jeremias, Amós, Oséias e Miquéias. Na mira de seus ataques estão os poderosos dos reinados do Norte e do Sul. São os “chefes da casa de Jacó e magistrados da casa de Israel”, na medida em que desconhecem o “direito e a justiça”, “comeram a carne de meu povo, arrancam-lhe a pele, quebram-lhe os ossos, cortaram-no como carne na panela” (Mq 3,1-3). Aos mesmos chefes e magistrados, o profeta acusa: “vós que detestais o direito, que torceis o que é reto; vós que edificais Sião com sangue e Jerusalém com injustiça” (Mq 3,9-10). Mas estão também na mira os líderes religiosos: “seus chefes julgam por suborno, seus sacerdotes ensinam por salário e seus profetas vaticinam por dinheiro” (Mq 3,11).
A veemência de Miquéias irá repetir-se nos demais representantes do profetismo vetero-testamentário. Sobrecarregados de tributos, os camponeses gemiam sob o reinado. O templo representava uma espécie de coração político e econômico da Israel, para o qual convergiam os esforços dos trabalhadores em forma de numerosos impostos. Daí a dureza das palavras proféticas contra chefes e magistrados, de um lado, falsos profetas e sacerdotes, de outro, todos circulando na órbita do tempo e de seus rendimentos. Daí também as profecias sobre a destruição do tempo e do exílio.
A denúncia, porém, vinha acompanhada por um anúncio. Este se expressa de forma particular nos poemas de Isaías sobre a “Nova Jerusalém”. “Vou criar novos céus e nova terra” – diz o profeta – “nela não se tornará a ouvir choro nem lamentação. Já não haverá ali criancinhas que vivam apenas alguns dias, nem velhos que não completem a sua idade; com efeito, o menino morrerá com cem anos”. E prossegue: “Os homens construirão casas e as habitarão; plantarão videiras e comerão seus frutos (...). A duração da vida do meu povo será como os dias de uma árvore, os meus eleitos consumirão eles mesmos o fruto do trabalho de suas mãos” (Is 65,17-25)
A imagem de Isaías, que se repete com outras cores e graus nas páginas de vários profetas, será retomada pelo Apocalipse, no capítulo 21: “Vi então um céu novo e uma nova terra (...). Eis a tenda de Deus com os homens. Ele habitará com eles; eles serão o seu povo, e Ele, Deus-com-eles, será seu Deus. Ele enxugará toda lágrima de seus olhos, pois nunca mais haverá morte, nem luto, nem clamor e nem dor haverá mais. Sim! As coisas antigas se foram!” (Ap 21,1-4).
Nas últimas décadas da história brasileira, poucas pessoas representam esse tríplice terreno da profecia como o belga José Comblin. Memória viva, denúncia vigorosa e anúncio de esperança e liberdade – assim se poderia resumir sua trajetória histórica. Ele que seguramente já conhece “o novo céu e a nova terra”, deixa-nos muitas veredas para trilhar o caminho da fonte e da Boa Nova. José está vivo! O profeta com sotaque estrangeiro e com nome e alma brasileira, segue entre nós. Sua fala mansa e seus escritos proféticos seguem clamando por justiça. Nosso ponto final resume-se a um muito obrigado José!
De uns tempos para cá, os profetas estão fora de moda. Prevalece o espetáculo recheado de câmeras, holofotes e microfones. Em tempo de mídia, a visibilidade do fantástico ganha terreno sobre o silêncio da semente e do fermento. Com frequência se confunde mudança com show ilusionista, profusamente iluminado e ruidoso, com luzes, sons e imagens. José Comblin viveu, lutou e morreu para mostrar que a profecia continua viva e ativa. E que o Evangelho só é Boa Nova na exata medida em que se faz profecia renova em cada contexto histórico. E, ainda, que profetizar e evangelizar é promover a libertação integral do ser humano.
Três características marcam o movimento profético no Antigo Testamento: memória, denúncia e anúncio. A memória está associada a um reiterado “lembra-te” que remonta à abertura do decálogo: “Eu sou Iahewh teu Deus, que te fez sair da terra do Egito, da casa da escravidão” (Ex 20,2). O decálogo, por sua vez, vem precedido do código da aliança. Assim, os profetas procuravam, em primeiro lugar, trazer para o contexto do reinado e do exílio o espírito de libertação fundamentado na memória do êxodo. Ali se encontram suas raízes. Em outras palavras, se foste escravo no Egito, como podes agora submeter teus próprios irmãos ao mesmo regime? Enquanto sob o Faraó, os hebreus eram subjugados por uma nação estrangeira, agora era o próprio Estado de Israel que escravizava seu povo através de pesados impostos e do trabalho de corvéia. Contra isso se insurgem o movimento profético, retomando e atualizando as exigências do Deus que os tirou da condição de escravos.
Um Deus que “vê a aflição, ouve o clamor, conhece o sofrimento e desce para libertar” marca profundamente a experiência religiosa do Povo de Israel. Ou seja, esse povo vivenciou o contato vivo com um Deus único: atento, sensível e solidário com as condições de vida e trabalho dos oprimidos. Numa palavra, um Deus que caminha pelo deserto da história pessoal e coletiva. Os profetas tentam reviver e recriar essa mesma experiência num novo contexto de opressão e exploração.
Aqui entra em cena a segunda palavra chave do movimento profético. A denúncia tem uma força devastadora em figuras como Isaías, Jeremias, Amós, Oséias e Miquéias. Na mira de seus ataques estão os poderosos dos reinados do Norte e do Sul. São os “chefes da casa de Jacó e magistrados da casa de Israel”, na medida em que desconhecem o “direito e a justiça”, “comeram a carne de meu povo, arrancam-lhe a pele, quebram-lhe os ossos, cortaram-no como carne na panela” (Mq 3,1-3). Aos mesmos chefes e magistrados, o profeta acusa: “vós que detestais o direito, que torceis o que é reto; vós que edificais Sião com sangue e Jerusalém com injustiça” (Mq 3,9-10). Mas estão também na mira os líderes religiosos: “seus chefes julgam por suborno, seus sacerdotes ensinam por salário e seus profetas vaticinam por dinheiro” (Mq 3,11).
A veemência de Miquéias irá repetir-se nos demais representantes do profetismo vetero-testamentário. Sobrecarregados de tributos, os camponeses gemiam sob o reinado. O templo representava uma espécie de coração político e econômico da Israel, para o qual convergiam os esforços dos trabalhadores em forma de numerosos impostos. Daí a dureza das palavras proféticas contra chefes e magistrados, de um lado, falsos profetas e sacerdotes, de outro, todos circulando na órbita do tempo e de seus rendimentos. Daí também as profecias sobre a destruição do tempo e do exílio.
A denúncia, porém, vinha acompanhada por um anúncio. Este se expressa de forma particular nos poemas de Isaías sobre a “Nova Jerusalém”. “Vou criar novos céus e nova terra” – diz o profeta – “nela não se tornará a ouvir choro nem lamentação. Já não haverá ali criancinhas que vivam apenas alguns dias, nem velhos que não completem a sua idade; com efeito, o menino morrerá com cem anos”. E prossegue: “Os homens construirão casas e as habitarão; plantarão videiras e comerão seus frutos (...). A duração da vida do meu povo será como os dias de uma árvore, os meus eleitos consumirão eles mesmos o fruto do trabalho de suas mãos” (Is 65,17-25)
A imagem de Isaías, que se repete com outras cores e graus nas páginas de vários profetas, será retomada pelo Apocalipse, no capítulo 21: “Vi então um céu novo e uma nova terra (...). Eis a tenda de Deus com os homens. Ele habitará com eles; eles serão o seu povo, e Ele, Deus-com-eles, será seu Deus. Ele enxugará toda lágrima de seus olhos, pois nunca mais haverá morte, nem luto, nem clamor e nem dor haverá mais. Sim! As coisas antigas se foram!” (Ap 21,1-4).
Nas últimas décadas da história brasileira, poucas pessoas representam esse tríplice terreno da profecia como o belga José Comblin. Memória viva, denúncia vigorosa e anúncio de esperança e liberdade – assim se poderia resumir sua trajetória histórica. Ele que seguramente já conhece “o novo céu e a nova terra”, deixa-nos muitas veredas para trilhar o caminho da fonte e da Boa Nova. José está vivo! O profeta com sotaque estrangeiro e com nome e alma brasileira, segue entre nós. Sua fala mansa e seus escritos proféticos seguem clamando por justiça. Nosso ponto final resume-se a um muito obrigado José!
segunda-feira, 28 de março de 2011
Faleceu nosso querido Pe. Comblin
José Comblin morreu nesta madrugada, em Salvador, na Bahia, aos 88 anos.
Ele nasceu no dia 22 de março de 1923, na Bélgica. Desde 1958 trabalhava no Brasil, especialmente em Pernambuco, na Paraíba e na Bahia.
Padre Comblin estava em tratamento médico na capital baiana. Foi encontrado morto, sentado, em seu quarto, quando era esperado para a oração da manhã e não apareceu na capela. Ele tinha problemas cardíacos e usava marcapasso. Apesar da doença, parecia bem disposto e estava trabalhando.
Ele veio para o Brasil em 1958, atendendo a apelo do papa Pio XII, que no documento Fidei domum(O Dom da Fé) pedia missionários voluntários para regiões com falta de sacerdotes.
Comblin, em 1993, na celebração de seus 70 anos, ao lado de Helder Câmara,Depois de trabalhar em Campinas e, em seguida, passar uma temporada no Chile, foi para Pernambuco, em 1964, quando d. Helder Câmara foi nomeado arcebispo de Olinda e Recife. Perseguido pelo regime militar, foi detido e deportado, em 1972, ao desembarcar no aeroporto de volta de uma viagem à Europa.
José Comblin participou do primeiro grupo da Teologia da Libertação. Esteve na raiz das equipes de formação de seminaristas no campo em Pernambuco e na Paraíba (1969), do seminário rural de Talca, no Chile (1978) e, depois, na Paraíba, em Serra Redonda (1981). Estas iniciativas deram origem à chamada Teologia da enxada.
Além disso, esteve na origem da criação dos Missionários do Campo (1981), das Missionárias do Meio Popular (1986), dos Missionários formados em Juazeiro da Bahia (1989), na Paraíba (1994) e em Tocantins (1997).
É autor de inúmeros livros, dentre eles A ideologia da segurança nacional: o poder militar na América Latina (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978)
Domingo, 27 de março de 2011 - 19h53min
Notícia postada no site do IHU.
Ele nasceu no dia 22 de março de 1923, na Bélgica. Desde 1958 trabalhava no Brasil, especialmente em Pernambuco, na Paraíba e na Bahia.
Padre Comblin estava em tratamento médico na capital baiana. Foi encontrado morto, sentado, em seu quarto, quando era esperado para a oração da manhã e não apareceu na capela. Ele tinha problemas cardíacos e usava marcapasso. Apesar da doença, parecia bem disposto e estava trabalhando.
Ele veio para o Brasil em 1958, atendendo a apelo do papa Pio XII, que no documento Fidei domum(O Dom da Fé) pedia missionários voluntários para regiões com falta de sacerdotes.
Comblin, em 1993, na celebração de seus 70 anos, ao lado de Helder Câmara,Depois de trabalhar em Campinas e, em seguida, passar uma temporada no Chile, foi para Pernambuco, em 1964, quando d. Helder Câmara foi nomeado arcebispo de Olinda e Recife. Perseguido pelo regime militar, foi detido e deportado, em 1972, ao desembarcar no aeroporto de volta de uma viagem à Europa.
José Comblin participou do primeiro grupo da Teologia da Libertação. Esteve na raiz das equipes de formação de seminaristas no campo em Pernambuco e na Paraíba (1969), do seminário rural de Talca, no Chile (1978) e, depois, na Paraíba, em Serra Redonda (1981). Estas iniciativas deram origem à chamada Teologia da enxada.
Além disso, esteve na origem da criação dos Missionários do Campo (1981), das Missionárias do Meio Popular (1986), dos Missionários formados em Juazeiro da Bahia (1989), na Paraíba (1994) e em Tocantins (1997).
É autor de inúmeros livros, dentre eles A ideologia da segurança nacional: o poder militar na América Latina (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978)
Domingo, 27 de março de 2011 - 19h53min
Notícia postada no site do IHU.
sexta-feira, 25 de março de 2011
Fórum Mundial de Teologia e os seus desafio(II): teoria da transformação social
Jung Mo Sung
Uma das novidades da Teologia da Libertação Latino-Americana (TLLA) nas suas origens não foi simplesmente criticar o “mundo”, falar em favor dos pobres ou propor ações de “caridade”, mas sim a de propor (a) o uso metódico das ciências sociais para compreender as razões das injustiças e opressões e (b) práticas de transformação das estruturas sociais e culturais.
O desejo de luta e de transformações que nasce da indignação ética diante das injustiças e sofrimentos das pessoas mais vulneráveis pode se perder em discursos vazios e em ações bem intencionadas, mas ineficazes. Para tentar evitar isso, a TLLA deveria se assumir como o momento segundo, sendo o primeiro as práticas de libertação, e que o primeiro passo deste momento segundo deveria ser o diálogo com as ciências do social para compreender as causas da situação. O segundo passo seria interpretar à luz da fé, da Bíblia e da tradição teológica a situação e as práticas realizadas, para no terceiro passo elaborar novas práticas dentro de estratégias de ação transformadora. E esta reflexão teológica deveria estar a serviço das práticas de libertação, com reflexões críticas sobre o mundo, o cristianismo, teologias, e até mesmo da religiosidade do povo.
Passadas quatro décadas do início da TLLA, podemos dizer que equívocos foram cometidos, mas não podemos negar que esta forma de fazer teologia iluminou as práticas e “deu razão da nossa esperança” para muitas comunidades cristãs e não-cristãs espalhadas pela AL e mundo afora.
Há um ponto que acho fundamental retomarmos: o debate sobre as teorias de transformação social. A teoria mais utilizada pela TLLA para compreender as injustiças e opressões sociais foi a “teoria da dependência” de inspiração marxista. Esta teoria não oferecia somente o diagnóstico, mas também uma linha de ação. A dominação era vista como resultado da dependência e subordinação dos países periféricos aos países centrais do capitalismo e a manutenção dessa relação era resultado (a) de uma elite nacional que se beneficiava disso (b) da alienação do povo diante dessa realidade política. Assim, a estratégia alternativa era (a) conscientizar o povo; (b) organizar o povo; (c) ir para política para “tomar o Estado” em favor dos pobres, (d) promover profundas mudanças econômicas e sociais. Por isso tanto esforço em promover cursos bíblicos, análises de conjuntura, cursos de fé e política, atuação em partidos políticos e movimentos sociais. As pequenas ações eram compreendidas e realizadas dentro deste grande perspectiva estratégica.
Hoje, o capitalismo se tornou globalizado e as lutas de libertação se ampliaram e se complexificaram (pobres, gênero, etnia, etc – tema tratado no artigo anterior), porém penso que não temos uma nova teoria sobre as transformações econômicas, sociais e culturais articulando nossas análises e ações. Isso ficou aparente no Fórum Mundial de Teologia ocorrida em Dakar. Nas mais diversas exposições e debates, era possível ver claramente contra o que lutamos e onde queremos chegar, mas muito pouco sobre como transformar a situação e qual a contribuição específica das religiões e teologias críticas neste processo.
Esta falta de visão estratégica de transformação também tem a ver com a precariedade das nossas análises sobre as atuais dinâmicas de dominação econômica, étnica, de gênero etc. Por ex, como o patriarcalismo, machismo e racismo penetraram de uma forma tão profunda no inconsciente das culturas asiáticas marcada por confucionismo, budismo, filosofia de complementaridade (ying e yang)? Como se articulou historicamente a relação entre racismo, dominação de gênero e a exploração capitalista na AL? Como transformar isso? Ou então, por que os povos dos países pobres sonham adentrar no mercado de consumo global, ao invés de desejarem um outro mundo? De onde vem o fascínio do atual Império Capitalista Global? Quais contribuições que as religiões em geral e cristianismo em particular podem e devem fazer nestas lutas?
São perguntas difíceis. Mas devemos enfrentá-las. Esta é uma das funções da teologia e das teorias críticas. Se não assumirmos este debate, nossos discursos teológicos e religiosos serão marcados por idealismos, abstrações e visões românticas, mas com pouca concreticidade e dialeticidade da história. Com discursos abstratos, sem mediações históricas, – que sempre encontra o seu público que aplaude–, a eficiência das nossas práticas ficarão aquém das possibilidades.
(Co-autor com Hugo Assmann do livro “Deus em nós: o reinado que acontece no amor solidário aos pobres”, Paulus.)
Uma das novidades da Teologia da Libertação Latino-Americana (TLLA) nas suas origens não foi simplesmente criticar o “mundo”, falar em favor dos pobres ou propor ações de “caridade”, mas sim a de propor (a) o uso metódico das ciências sociais para compreender as razões das injustiças e opressões e (b) práticas de transformação das estruturas sociais e culturais.
O desejo de luta e de transformações que nasce da indignação ética diante das injustiças e sofrimentos das pessoas mais vulneráveis pode se perder em discursos vazios e em ações bem intencionadas, mas ineficazes. Para tentar evitar isso, a TLLA deveria se assumir como o momento segundo, sendo o primeiro as práticas de libertação, e que o primeiro passo deste momento segundo deveria ser o diálogo com as ciências do social para compreender as causas da situação. O segundo passo seria interpretar à luz da fé, da Bíblia e da tradição teológica a situação e as práticas realizadas, para no terceiro passo elaborar novas práticas dentro de estratégias de ação transformadora. E esta reflexão teológica deveria estar a serviço das práticas de libertação, com reflexões críticas sobre o mundo, o cristianismo, teologias, e até mesmo da religiosidade do povo.
Passadas quatro décadas do início da TLLA, podemos dizer que equívocos foram cometidos, mas não podemos negar que esta forma de fazer teologia iluminou as práticas e “deu razão da nossa esperança” para muitas comunidades cristãs e não-cristãs espalhadas pela AL e mundo afora.
Há um ponto que acho fundamental retomarmos: o debate sobre as teorias de transformação social. A teoria mais utilizada pela TLLA para compreender as injustiças e opressões sociais foi a “teoria da dependência” de inspiração marxista. Esta teoria não oferecia somente o diagnóstico, mas também uma linha de ação. A dominação era vista como resultado da dependência e subordinação dos países periféricos aos países centrais do capitalismo e a manutenção dessa relação era resultado (a) de uma elite nacional que se beneficiava disso (b) da alienação do povo diante dessa realidade política. Assim, a estratégia alternativa era (a) conscientizar o povo; (b) organizar o povo; (c) ir para política para “tomar o Estado” em favor dos pobres, (d) promover profundas mudanças econômicas e sociais. Por isso tanto esforço em promover cursos bíblicos, análises de conjuntura, cursos de fé e política, atuação em partidos políticos e movimentos sociais. As pequenas ações eram compreendidas e realizadas dentro deste grande perspectiva estratégica.
Hoje, o capitalismo se tornou globalizado e as lutas de libertação se ampliaram e se complexificaram (pobres, gênero, etnia, etc – tema tratado no artigo anterior), porém penso que não temos uma nova teoria sobre as transformações econômicas, sociais e culturais articulando nossas análises e ações. Isso ficou aparente no Fórum Mundial de Teologia ocorrida em Dakar. Nas mais diversas exposições e debates, era possível ver claramente contra o que lutamos e onde queremos chegar, mas muito pouco sobre como transformar a situação e qual a contribuição específica das religiões e teologias críticas neste processo.
Esta falta de visão estratégica de transformação também tem a ver com a precariedade das nossas análises sobre as atuais dinâmicas de dominação econômica, étnica, de gênero etc. Por ex, como o patriarcalismo, machismo e racismo penetraram de uma forma tão profunda no inconsciente das culturas asiáticas marcada por confucionismo, budismo, filosofia de complementaridade (ying e yang)? Como se articulou historicamente a relação entre racismo, dominação de gênero e a exploração capitalista na AL? Como transformar isso? Ou então, por que os povos dos países pobres sonham adentrar no mercado de consumo global, ao invés de desejarem um outro mundo? De onde vem o fascínio do atual Império Capitalista Global? Quais contribuições que as religiões em geral e cristianismo em particular podem e devem fazer nestas lutas?
São perguntas difíceis. Mas devemos enfrentá-las. Esta é uma das funções da teologia e das teorias críticas. Se não assumirmos este debate, nossos discursos teológicos e religiosos serão marcados por idealismos, abstrações e visões românticas, mas com pouca concreticidade e dialeticidade da história. Com discursos abstratos, sem mediações históricas, – que sempre encontra o seu público que aplaude–, a eficiência das nossas práticas ficarão aquém das possibilidades.
(Co-autor com Hugo Assmann do livro “Deus em nós: o reinado que acontece no amor solidário aos pobres”, Paulus.)
sexta-feira, 4 de março de 2011
CARTA DE ELAINE ANDRADE ao arcebispo Dom Walmor Oliveira e ao bispo Dom Joaquim Mol.
Belo Horizonte, 26 de fevereiro de 2011
Prezados bispos Dom Walmor Oliveira e Dom Joaquim Mol, nossos pastores, tudo bem com vocês? Espero que sim. Que o Deus da vida continue abençoando vocês. Infelizmente nós das comunidades Camilo Torres e Irmã Dorothy, aqui no Barreiro, em Belo Horizonte, não estamos nada bem. Afinal estamos prestes a perder nossos lares e ir para rua com nossas crianças.
No último dia 16 de fevereiro de 2011, data inclusive que a Comunidade Camilo
Torres completou seu terceiro aniversário, tivemos uma reunião no 5o Batalhão de Polícia a respeito do despejo. A reunião foi convocada pelo coronel Carvalho, comandante das polícias especializadas (tropa de choque), com diversas autoridades religiosas, judiciais, municipais e representantes das comunidades, para uma suposta negociação. Uso essa expressão, Dom Walmor e Dom Joaquim, porque participei da reunião e ouvi claramente o Oficial de Justiça dizer que o despejo deve ser feito em caráter de urgência, com uso de força policial. Disse que já conseguiu transporte e galpões para nossos pertences. Fiquei congelada ao ouvir isso.
Prezados Dom Walmor e Dom Joaquim, é de entrar em estado de pânico. Onde colocaremos nossas crianças? Essa pergunta martela na minha cabeça o tempo todo.
O desespero tem tomado conta não só de nós adultos, mas dominado nossas crianças que mais uma vez se vêem nessa situação. Andam tristes, deprimidas e adoecendo. Nas escolas, elas expressam seus sentimentos em desenhos que mostram a chegada da polícia com tratores, casas sendo derrubadas, seus pais e elas ensangüentadas. Infelizmente, Dom Walmor e Dom Joaquim, será muito pesado ver. Ai a mim! Pergunto-me o que fazer, pois até minha filha de três anos se assusta quando vê polícia e tratores, perguntando se é para derrubar nossa casa.
O médico do Posto de Saúde diz que a causa das doenças que vêm tomando conta dos moradores das comunidades Camilo Torres e Irmã Dorothy se chama despejo. Afinal os moradores andam tensos e nervosos o tempo todo. Todos dizem que não abrirão mão do direito de morar e viver com dignidade. Sabemos que é melhor morrer lutando do que sobreviver humilhado. Sem alternativa digna, resistiremos. Não nos resta outra opção.
Estou assustada e com medo dessa ação desumana que pode ocorrer a qualquer momento. Eles se preocuparam com nossos fogões e camas, mas nas nossas crianças eles não querem nem saber. Realmente o desespero é um péssimo conselheiro. Cadê o nosso direito à paz? Cadê o nosso direito de viver em paz?
Dom Walmor e Dom Joaquim, fico tentando prever qual será nossa reação ao ver nossa dignidade ser pisoteada simplesmente porque nossos governantes se negam a ouvir o clamor dos pobres pedindo que se faça valer o direito constitucional à moradia. Não nos negamos, Dom Walmor e Dom Joaquim, a sair do terreno, mas desde que tenhamos casa digna para morarmos com nossos filhos.
Caros Dom Walmor e Dom Joaquim, diante dessa situação desesperadora, venho clamar que os senhores nos ajudem a sermos ouvidos e que nossos gritos de misericórdia cheguem aos ouvidos daqueles que possam impedir essa tragédia anunciada, um massacre. Dom Walmor e Dom Joaquim, vocês visitaram nossas comunidades (Dandara, Camilo Torres e Irmã Dorothy), também Dom Aloísio, e vocês puderam ver que se trata de mães em sua maioria e pais de família que investiram não só em tijolos, mas que vivem verdadeiramente o amor ao próximo, algo que sabemos que se esfriou em muitos locais. Clamamos aos senhores que gritem conosco por misericórdia. Sei que a voz de nossos pastores, junto com a nossa, acenderá uma luz no fundo do túnel, pois neste momento, Dom Walmor e Dom Joaquim, apenas o abismo está presente. É claro que nossa fé está voltada à justiça de Deus e acreditamos que a justiça reinará.
Termino esta carta recordando que somos 277 famílias clamando por misericórdia a Deus e às autoridades. Na Dandara estão outras 887 famílias que também clamam por justiça e pelo direito à moradia.
Aos senhores, Dom Walmor e Dom Joaquim, reafirmo que a voz de vocês nos ajudará a impedir que essa cidade seja manchada com sangue de nós trabalhadoras que lutamos todos os dias para garantir um teto que cubra a cabeça de nossos filhos.
Um grande abraço e que Deus abençõe os senhores cada vez mais. Somos eternamente gratas pelo apoio e solidariedade que temos recebido da igreja.
“Dá ouvido SENHOR às minhas palavras e acode ao meu gemido!” (salmos 5)
Elaine Andrade
Rua 16 de fevereiro, 3
Comunidade Camilo Torres,
Barreiro
Belo Horizonte, MG, Brasil.
Prezados bispos Dom Walmor Oliveira e Dom Joaquim Mol, nossos pastores, tudo bem com vocês? Espero que sim. Que o Deus da vida continue abençoando vocês. Infelizmente nós das comunidades Camilo Torres e Irmã Dorothy, aqui no Barreiro, em Belo Horizonte, não estamos nada bem. Afinal estamos prestes a perder nossos lares e ir para rua com nossas crianças.
No último dia 16 de fevereiro de 2011, data inclusive que a Comunidade Camilo
Torres completou seu terceiro aniversário, tivemos uma reunião no 5o Batalhão de Polícia a respeito do despejo. A reunião foi convocada pelo coronel Carvalho, comandante das polícias especializadas (tropa de choque), com diversas autoridades religiosas, judiciais, municipais e representantes das comunidades, para uma suposta negociação. Uso essa expressão, Dom Walmor e Dom Joaquim, porque participei da reunião e ouvi claramente o Oficial de Justiça dizer que o despejo deve ser feito em caráter de urgência, com uso de força policial. Disse que já conseguiu transporte e galpões para nossos pertences. Fiquei congelada ao ouvir isso.
Prezados Dom Walmor e Dom Joaquim, é de entrar em estado de pânico. Onde colocaremos nossas crianças? Essa pergunta martela na minha cabeça o tempo todo.
O desespero tem tomado conta não só de nós adultos, mas dominado nossas crianças que mais uma vez se vêem nessa situação. Andam tristes, deprimidas e adoecendo. Nas escolas, elas expressam seus sentimentos em desenhos que mostram a chegada da polícia com tratores, casas sendo derrubadas, seus pais e elas ensangüentadas. Infelizmente, Dom Walmor e Dom Joaquim, será muito pesado ver. Ai a mim! Pergunto-me o que fazer, pois até minha filha de três anos se assusta quando vê polícia e tratores, perguntando se é para derrubar nossa casa.
O médico do Posto de Saúde diz que a causa das doenças que vêm tomando conta dos moradores das comunidades Camilo Torres e Irmã Dorothy se chama despejo. Afinal os moradores andam tensos e nervosos o tempo todo. Todos dizem que não abrirão mão do direito de morar e viver com dignidade. Sabemos que é melhor morrer lutando do que sobreviver humilhado. Sem alternativa digna, resistiremos. Não nos resta outra opção.
Estou assustada e com medo dessa ação desumana que pode ocorrer a qualquer momento. Eles se preocuparam com nossos fogões e camas, mas nas nossas crianças eles não querem nem saber. Realmente o desespero é um péssimo conselheiro. Cadê o nosso direito à paz? Cadê o nosso direito de viver em paz?
Dom Walmor e Dom Joaquim, fico tentando prever qual será nossa reação ao ver nossa dignidade ser pisoteada simplesmente porque nossos governantes se negam a ouvir o clamor dos pobres pedindo que se faça valer o direito constitucional à moradia. Não nos negamos, Dom Walmor e Dom Joaquim, a sair do terreno, mas desde que tenhamos casa digna para morarmos com nossos filhos.
Caros Dom Walmor e Dom Joaquim, diante dessa situação desesperadora, venho clamar que os senhores nos ajudem a sermos ouvidos e que nossos gritos de misericórdia cheguem aos ouvidos daqueles que possam impedir essa tragédia anunciada, um massacre. Dom Walmor e Dom Joaquim, vocês visitaram nossas comunidades (Dandara, Camilo Torres e Irmã Dorothy), também Dom Aloísio, e vocês puderam ver que se trata de mães em sua maioria e pais de família que investiram não só em tijolos, mas que vivem verdadeiramente o amor ao próximo, algo que sabemos que se esfriou em muitos locais. Clamamos aos senhores que gritem conosco por misericórdia. Sei que a voz de nossos pastores, junto com a nossa, acenderá uma luz no fundo do túnel, pois neste momento, Dom Walmor e Dom Joaquim, apenas o abismo está presente. É claro que nossa fé está voltada à justiça de Deus e acreditamos que a justiça reinará.
Termino esta carta recordando que somos 277 famílias clamando por misericórdia a Deus e às autoridades. Na Dandara estão outras 887 famílias que também clamam por justiça e pelo direito à moradia.
Aos senhores, Dom Walmor e Dom Joaquim, reafirmo que a voz de vocês nos ajudará a impedir que essa cidade seja manchada com sangue de nós trabalhadoras que lutamos todos os dias para garantir um teto que cubra a cabeça de nossos filhos.
Um grande abraço e que Deus abençõe os senhores cada vez mais. Somos eternamente gratas pelo apoio e solidariedade que temos recebido da igreja.
“Dá ouvido SENHOR às minhas palavras e acode ao meu gemido!” (salmos 5)
Elaine Andrade
Rua 16 de fevereiro, 3
Comunidade Camilo Torres,
Barreiro
Belo Horizonte, MG, Brasil.
segunda-feira, 17 de janeiro de 2011
O novo Primaz do Brasil e mais um movimento no tabuleiro
“A nomeação de Dom Murilo Krieger, como arcebispo de Salvador e novo Primaz, é mais um movimento que visa não só as eleições da CNBB, mas talvez a consolidação do programa ratzingeriano para a Igreja do Brasil”. A afirmação é do historiador Sérgio Ricardo Coutinho em artigo que reproduzimos na íntegra.
Sérgio Ricardo Coutinho é mestre em História pela UnB; professor de História da Igreja no Instituto São Boaventura em Brasília; professor de História da Igreja Antiga no Curso de especialização em História do Cristianismo Antigo na UnB; membro da Associação Brasileira de História das Religiões (ABHR) e presidente do Centro de Estudos em História da Igreja na América Latina (Cehila-Brasil).
Eis o artigo.
Qual a importância do “Bispo Primaz” na condução da Igreja de um determinado território? De que modo contribui para a colegialidade-sinodalidade de toda a Igreja daquela mesma região?
Estas perguntas surgem no momento em que recebemos mais uma notícia no “movimento do bispo” no tabuleiro de xadrez da Igreja no Brasil: a nomeação de Dom Murilo Sebastião Ramos Krieger como bispo “Primaz”.
Na tradição do primeiro milênio da História da Igreja, o primeiro Bispo entre os Bispos de uma província, de uma região, de um patriarcado, garante a unidade das Igrejas locais a estes diversos níveis e a canonicidade do funcionamento sinodal. Na concepção antiga da Igreja, a sinodalidade e a primazia a diversos níveis são dois conceitos interdependentes.
Já antes do primeiro concílio ecumênico de Nicéia (325), quando o cristianismo esteve suficientemente espalhado pelo território do Império Romano, cada cidade era a sede de um bispo. O bispo da capital da província, a metrópole (a cidade-mãe), começou então a assumir determinadas prerrogativas sobre os bispos da própria circunscrição civil: ele presidia o órgão colegiado formado por todos os bispos da região (o sínodo provincial), que provia a eleição dos titulares das sedes vacantes e podia também julgar a depor os bispos indignos.
Esse bispo da capital, cuja autoridade estendia-se, de formas diversas, não só sobre a própria eparquia (diocese), mas também sobre toda a província, tinha o nome de metropolita. O historiador da Igreja antiga, Eusébio de Cesaréia, falava dos Bispos que se reuniam por “províncias”, em Sínodos por causa de diversas controvérsias como, por exemplo, a definição da data da Páscoa.
No entanto, na eclesiologia das Igrejas ortodoxas é conhecido o axioma latino “primus inter pares” para definir o papel do Bispo de Roma. Sem dúvida no âmbito sacramental não existe nada, na Igreja, que seja hierarquicamente superior ao episcopado; pelo que todos os Bispos são “pares” no episcopado, e o “primus” entre eles é apenas “primus inter pares”. Mas o termo “primus”, nos diversos níveis da organização das Igrejas, não deixa de ter significado teológico e canônico na tradição da Igreja indivisa. De fato também os Patriarcas orientais, bem como os Metropolitas das Províncias Eclesiásticas possuem direitos que os outros Bispos não têm, e isto, obviamente, não provém diretamente do poder de ordem, mas de iure canonico.
Em 25 de fevereiro de 1551, o papa Júlio III erigiu o Bispado de São Salvador da Bahia, desmembrando-o integralmente do Arcebispado de Funchal. Em 1676, São Salvador adquiriu status de arcebispado, tendo como dioceses sufragâneas Rio de Janeiro, Olinda, São Tomé e Angola, as duas últimas no continente africano. Seu titular passou a chamar-se também “Primaz do Brasil”.
No século XVIII, a figura mais destacada, sem dúvida nenhuma, do arcebispado da Bahia foi D. Sebastião Monteiro da Vide. De sólida formação jurídica, planejou inicialmente a realização de um concílio provincial. Dada, porém, a ausência do bispo do Rio de Janeiro, contentou-se com um sínodo diocesano onde se promulgaram as Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia. Essa foi a única legislação eclesiástica elaborada no Brasil durante o período colonial e as mesmas ganhavam relevância porque a sociedade brasileira colonial era essencialmente sacral e as leis da Igreja eram oficialmente reconhecidas pelo Estado e tinham vigência plena [n.1].
No período da proclamação da República (1889), havia no Brasil apenas uma arquidiocese e onze dioceses para uma população de aproximadamente treze milhões de habitantes. Com a liberdade religiosa concedida pela Constituição de 1891, era possível criar novas circunscri¬ções eclesiásticas.
A Bula Ad universas orbis ecclesias (27/4/1892), do Papa Leão XIII, deu início a uma reorganização da Igreja no Brasil. Surgiram duas províncias eclesiásticas: a do Norte ou Setentrional, com sede na Bahia, e a do Sul ou Meridional, com sede no Rio de Janeiro, tendo cada uma dessas províncias sete bispados sufragâneos (subordinados ao ar¬cebispo metropolitano).
No entanto, foram os últimos 45 anos que os ocupantes da Sede Primacial do Brasil começaram a ter um papel mais contundente, muitas vezes mais como “primus” que como “primus inter pares”. Em função de conflitos pessoais entre o cardeal do Rio de Janeiro, Dom Jaime de Barros Câmara, e seu bispo auxiliar, Dom Helder Camara, o Núncio Apostólico, Dom Armando Lombardi, encarregou-se de fazer os contatos com o Vaticano para conseguir o melhor lugar possível para o seu amigo pessoal. Logo chegou a notícia de que provavelmente Dom Hélder iria para Salvador, onde seria nomeado Administrador Apostólico. Mas o cardeal Dom Augusto Álvaro da Silva, embora já estivesse à frente da arquidiocese de Salvador havia quarenta anos (desde 1924), reagiu contra essa articulação do Núncio, por achar que passaria a ter uma função apenas honorífica.
Mas não teve jeito. Enquanto Dom Helder fora nomeado para a Arquidiocese de Olinda-Recife, seu amigo próximo, outro do grupo dos “Bispos Nordestinos”, foi para Salvador: Dom Eugênio de Araújo Salles. Ficou como Administrador Apostólico até 1968 e, depois, como cardeal-arcebispo e Primaz do Brasil até 1971.
Quando do golpe de 1964, Dom Eugênio Sales se colocou na ala minoritária em relação ao posicionamento da grande maioria do episcopado brasileiro que deu apoio incondicional ao movimento dos militares. Além dos que rejeitavam totalmente o golpe, Dom Eugênio buscou a “neutralidade e expectativa”, “sem comprometer-se nem com vencedores nem com vencidos”, como declarou ainda no início de abril de 1964. Este também era o posicionamento de Dom Helder Camara.
Dada a gravidade da situação política, Dom Helder e Dom Eugênio conseguiram um encontro confidencial com o articulador e condutor da “revolução” Marechal Castelo Branco onde foram pedir a atenção para as arbitrariedades, injustiças e violências por conta do expurgo que estava sendo praticado pelas Forças Armadas contra as pessoas consideradas suspeitas de comunismo [n.2].
Dom Avelar Brandão Vilela foi arcebispo de Teresina (PI) entre 1955 a 1971. Foi transferido a São Salvador da Bahia como Primaz do Brasil em 25/03/1971, onde ficou até 1986. Foi eleito cardeal pelo Papa Paulo VI em 05/03/1973. Oscar Beozzo descreve suas várias atividades: “Vice-Presidente da CNBB (1965); Delegado junto ao CELAM; Membro da Comissão Representativa; Presidente da Comissão de Ação Social; Presidente da Comissão de Opinião Pública; Presidente da Comissão Nacional do Clero; Presidente do SCAI; Vice-Presidente do CELAM (1966-1967); Presidente do CELAM pelo falecimento de Dom Manuel Larrain do Chile (1966-1967), Presidente eleito (1968-1969; 1969-1970 e 1971-1972), um dos presidentes da II Conferência Geral do Episcopado Latino-americano em Medellín (1968); Presidente da Comissão Organizadora da Assembléia Geral de Medellín, Colômbia (1976); Membro da Sagrada Congregação para a causa dos santos; Membro da Sangrada Congregação para a Educação Católica; Vice-Presidente da COGECAL (Conselho Geral da Pontifícia Comissão para América Latina); Grão Chanceler da Universidade Católica de Salvador” [n.3].
Durante o Governo Militar, Dom Avelar procurou estabelecer diálogo entre os bispos e os militares e, por sua diplomacia, tornou-se na CNBB o principal elo das relações entre a Igreja e o Estado [n.4]. Assumiu a tarefa de negociar, esclarecer os fatos, manter o diálogo com a cúpula governista naquilo que fosse necessário, desde a regulamentação dos contratos de repasse de verbas para manter alguns projetos sociais, como o do MEB, até mesmo a solução de algum conflito quando padres, bispos e religiosos eram acusados ou presos como suspeitos de atos subversivos pelos militares.
Um fato soou como punição a Dom Avelar por parte do governo militar. No ano de 1973, quando o Arcebispo já era o Primaz do Brasil, foi indicado em Pernambuco para receber a medalha de mérito pernambucano na qualidade de Bispo de Petrolina, ao tempo em que em Salvador foi escolhido para receber o título de Cidadão Honorário. Aqueles dois eventos que aconteceria em locais diferentes foram automaticamente suspensos pelos governadores dos seus respectivos Estados logo após uma entrevista de Dom Avelar, onde ele defendia o respeito aos diretos fundamentais do ser humano e aos princípios éticos sobre os quais deve reger a consciência coletiva [n.5].
Na seqüência de Dom Avelar Brandão teremos, de fato, dois homens de “Cúria”: Dom Lucas Moreira Neves e Dom Geraldo Magela Agnelo.
Convocado por Paulo VI, Dom Lucas foi vice-presidente do Conselho para os Leigos (1974-79) e secretário da Congregação para os Bispos e do Colégio dos Cardeais (1979-87). Ainda na Cúria Romana, foi também consultor do Consilium de Laicis (1971-74); membro do Comitê para a Família (1971-76); membro do Conselho do Sínodo dos Bispos (1976-77); membro da Comissão “Justiça e Paz” (1976-81); consultor da Congregação para a Doutrina da Fé (1978-87); membro da Pontifícia Comissão para a Pastoral da Migração e do Turismo (1980-87); membro da Pontifícia Comissão para a América Latina (1980-87) e membro do Comitê para os Congressos Eucarísticos Internacionais (1982). Em 9 de julho de 1987 foi nomeado arcebispo de Salvador e Primaz do Brasil. No ano seguinte eleito cardeal.
Participou diretamente das discussões sobre a Teologia da Libertação e que culminou numa reunião de diálogo entre os bispos brasileiros e o papa João Paulo II, conforme Oscar Beozzo descreve: “A culminação deste processo de diálogo [entre a Cúria Romana e a CNBB após a divulgação do documento “Instrução sobre alguns aspectos da Teologia da Libertação” – 1984] foi o encontro de três dias (13 a 15 de março de 1986) entre o papa e os responsáveis dos dicastérios romanos, a presidência da CNBB, os cinco cardeais do Brasil e os bispos presidentes dos 14 regionais da CNBB, num total de 21 bispos, para uma avaliação das visitas ‘ad limina’, cumpridas pelos bispos do Brasil durante o ano de 1985 e início de 1986; para uma verificação dos principais problemas pastorais enfrentados pela Igreja no Brasil e um balanço das relações entre Santa Sé e a Igreja do Brasil. Proc edimento novo e inédito que permitiu que muitos pontos de tensão e mal-entendidos fossem aclarados diante do próprio papa ou nos intervalos das reuniões ou ainda em refeições tomadas com o papa, como a que reuniu, na última noite, D. Ivo Lorscheiter, D. Aloísio Lorscheider e D. Paulo Evaristo Arns, que haviam aceito intermediar o impasse em que se encontrava a coleção ‘Teologia e Libertação’, cuja publicação fora interrompida por ordem do cardeal Ratzinger em janeiro de 1986. No mesmo jantar, tomaram parte os que faziam restrições à coleção: os cardeais Dom Eugênio Sales e Ratzinger e o bispo brasileiro Dom Lucas Moreira Neves, secretário da Congregação dos Bispos” [n.6].
Apesar deste “diálogo”, o “movimento dos bispos” visava um xeque-mate na Igreja do Brasil: a conquista da presidência da CNBB. O “jogo de xadrez”, pacientemente planejado pelo para João Paulo II nos dez anos anteriores (1984-1994), ao substituir bispos de linha progressista por outros de perfil mais moderado-conservador, proporcionou a vitória de Dom Lucas: o cardeal-arcebispo de Salvador quebrou a longa hegemonia dos progressistas. Com ele, sem voltar às costas para o social, a prioridade era a evangelização (no sentido doutrinal e magisterial) e a defesa intransigente dos valores da família, com tudo o que isso envolve: condenação do uso de métodos contraceptivos e do aborto, mesmo em caso de estupro, e administração restrita de sacramentos como a comunhão a casais de segunda união. No entanto, em 1998, Dom Lucas é convocado para retornar à Roma e trabalhar como prefeito da C ongregação para os Bispos.
Nas eleições de 1999 da CNBB, Dom Jayme Chemello, bispo de Pelotas (RS), candidato dos progressistas e foi reconduzido à presidência da entidade depois de tê-la exercido interinamente por nove meses. Deste modo, ficava assim adiado, pelo menos até as próximas eleições, em 2003, o projeto papal de confiar o pastoreio de seu rebanho brasileiro à porção do clero mais preocupada em “salvar almas” que em “lutar contra as injustiças” – ou, ao menos, capaz de isolar a chamada “Igreja da caminhada”.
De fato, veio mesmo em 2003 o retorno do grupo mais conservador, quando novamente um cardeal-arcebispo de Salvador, e (não custa lembrar) Primaz do Brasil, chega novamente à presidência da CNBB. Depois de mais de oito anos como Secretário da Sagrada Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos (16/09/1991 a 12/01/1999), Dom Geraldo Magela Agnelo toma posse da arquidiocese de Salvador em março de 1999. No Consistório de fevereiro de 2001, eleito cardeal.
No entanto, o que se viu foi muito mais a atuação do secretário-geral, na época Dom Odilo Pedro Scherer, que propriamente de seu presidente. O objetivo talvez tenha sido a de implantar os novos Estatutos da CNBB para asseguara a direção das atividades da Conferência aos bispos e diminuindo a interferência dos assessores, e isto deveria ficar mesmo à cargo do secretário-geral.
Pois bem, em 2007, nova vitória da ala moderada-progressista da CNBB com Dom Geraldo Lyrio Rocha.
A nomeação de Dom Murilo Krieger, como arcebispo de Salvador e novo Primaz, é, ao nosso ver, mais um movimento que visa não só as eleições da CNBB, mas talvez a consolidação do programa ratzingeriano para a Igreja do Brasil (cf. artigos “As Visitas Ad limina” e “Brasileiros na Cúria Romana e seus desdobramentos” de minha autoria, todos publicados aqui no IHU). Porém, fica a expectativa de algum sinal de vida dos demais bispos para que possa se realizar a colegialidade-sinodalidade do “primus i nter pares”.
___________________________________
Notas:
1 - CEHILA. História da Igreja no Brasil, São Paulo: Paulinas, 1992 (4ªed.), tomo II/1, p. 177.
2 - PILETTI, N. & PAXEDES, W. Dom Hélder Câmara: entre o poder e a profecia, São Paulo: Ática, 1997, pp. 290-291 e 296-297.
3 - BEOZZO, José Oscar. A Igreja do Brasil no Concílio Vaticano II (1959-1965), São Paulo: Paulinas, 2005, pp. 410-411.
4- PRANDINI, Fernando. PETRUCI, Vitor A. DALI, Frei Romeu (orgs). As relações Igreja Estado no Brasil: durante o governo do Marechal Costa e Silva (1967-1970). Vol. II (Coleção Igreja-Estado), São Paulo: Edições Loyola, 1986, pp.43-44.
5 - Id. Ibid., Vol. III (Coleção Igreja-Estado), pp. 63-65.
6 - BEOZZO, José Oscar. A Igreja do Brasil: de João XXIII a João Paulo II, de Medellín a Santo Domingo, Petrópolis: Vozes, 1994, p. 250. Os grifos em negrito são nossos.
Fonte:
http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=39976 17/1/2011
Sérgio Ricardo Coutinho é mestre em História pela UnB; professor de História da Igreja no Instituto São Boaventura em Brasília; professor de História da Igreja Antiga no Curso de especialização em História do Cristianismo Antigo na UnB; membro da Associação Brasileira de História das Religiões (ABHR) e presidente do Centro de Estudos em História da Igreja na América Latina (Cehila-Brasil).
Eis o artigo.
Qual a importância do “Bispo Primaz” na condução da Igreja de um determinado território? De que modo contribui para a colegialidade-sinodalidade de toda a Igreja daquela mesma região?
Estas perguntas surgem no momento em que recebemos mais uma notícia no “movimento do bispo” no tabuleiro de xadrez da Igreja no Brasil: a nomeação de Dom Murilo Sebastião Ramos Krieger como bispo “Primaz”.
Na tradição do primeiro milênio da História da Igreja, o primeiro Bispo entre os Bispos de uma província, de uma região, de um patriarcado, garante a unidade das Igrejas locais a estes diversos níveis e a canonicidade do funcionamento sinodal. Na concepção antiga da Igreja, a sinodalidade e a primazia a diversos níveis são dois conceitos interdependentes.
Já antes do primeiro concílio ecumênico de Nicéia (325), quando o cristianismo esteve suficientemente espalhado pelo território do Império Romano, cada cidade era a sede de um bispo. O bispo da capital da província, a metrópole (a cidade-mãe), começou então a assumir determinadas prerrogativas sobre os bispos da própria circunscrição civil: ele presidia o órgão colegiado formado por todos os bispos da região (o sínodo provincial), que provia a eleição dos titulares das sedes vacantes e podia também julgar a depor os bispos indignos.
Esse bispo da capital, cuja autoridade estendia-se, de formas diversas, não só sobre a própria eparquia (diocese), mas também sobre toda a província, tinha o nome de metropolita. O historiador da Igreja antiga, Eusébio de Cesaréia, falava dos Bispos que se reuniam por “províncias”, em Sínodos por causa de diversas controvérsias como, por exemplo, a definição da data da Páscoa.
No entanto, na eclesiologia das Igrejas ortodoxas é conhecido o axioma latino “primus inter pares” para definir o papel do Bispo de Roma. Sem dúvida no âmbito sacramental não existe nada, na Igreja, que seja hierarquicamente superior ao episcopado; pelo que todos os Bispos são “pares” no episcopado, e o “primus” entre eles é apenas “primus inter pares”. Mas o termo “primus”, nos diversos níveis da organização das Igrejas, não deixa de ter significado teológico e canônico na tradição da Igreja indivisa. De fato também os Patriarcas orientais, bem como os Metropolitas das Províncias Eclesiásticas possuem direitos que os outros Bispos não têm, e isto, obviamente, não provém diretamente do poder de ordem, mas de iure canonico.
Em 25 de fevereiro de 1551, o papa Júlio III erigiu o Bispado de São Salvador da Bahia, desmembrando-o integralmente do Arcebispado de Funchal. Em 1676, São Salvador adquiriu status de arcebispado, tendo como dioceses sufragâneas Rio de Janeiro, Olinda, São Tomé e Angola, as duas últimas no continente africano. Seu titular passou a chamar-se também “Primaz do Brasil”.
No século XVIII, a figura mais destacada, sem dúvida nenhuma, do arcebispado da Bahia foi D. Sebastião Monteiro da Vide. De sólida formação jurídica, planejou inicialmente a realização de um concílio provincial. Dada, porém, a ausência do bispo do Rio de Janeiro, contentou-se com um sínodo diocesano onde se promulgaram as Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia. Essa foi a única legislação eclesiástica elaborada no Brasil durante o período colonial e as mesmas ganhavam relevância porque a sociedade brasileira colonial era essencialmente sacral e as leis da Igreja eram oficialmente reconhecidas pelo Estado e tinham vigência plena [n.1].
No período da proclamação da República (1889), havia no Brasil apenas uma arquidiocese e onze dioceses para uma população de aproximadamente treze milhões de habitantes. Com a liberdade religiosa concedida pela Constituição de 1891, era possível criar novas circunscri¬ções eclesiásticas.
A Bula Ad universas orbis ecclesias (27/4/1892), do Papa Leão XIII, deu início a uma reorganização da Igreja no Brasil. Surgiram duas províncias eclesiásticas: a do Norte ou Setentrional, com sede na Bahia, e a do Sul ou Meridional, com sede no Rio de Janeiro, tendo cada uma dessas províncias sete bispados sufragâneos (subordinados ao ar¬cebispo metropolitano).
No entanto, foram os últimos 45 anos que os ocupantes da Sede Primacial do Brasil começaram a ter um papel mais contundente, muitas vezes mais como “primus” que como “primus inter pares”. Em função de conflitos pessoais entre o cardeal do Rio de Janeiro, Dom Jaime de Barros Câmara, e seu bispo auxiliar, Dom Helder Camara, o Núncio Apostólico, Dom Armando Lombardi, encarregou-se de fazer os contatos com o Vaticano para conseguir o melhor lugar possível para o seu amigo pessoal. Logo chegou a notícia de que provavelmente Dom Hélder iria para Salvador, onde seria nomeado Administrador Apostólico. Mas o cardeal Dom Augusto Álvaro da Silva, embora já estivesse à frente da arquidiocese de Salvador havia quarenta anos (desde 1924), reagiu contra essa articulação do Núncio, por achar que passaria a ter uma função apenas honorífica.
Mas não teve jeito. Enquanto Dom Helder fora nomeado para a Arquidiocese de Olinda-Recife, seu amigo próximo, outro do grupo dos “Bispos Nordestinos”, foi para Salvador: Dom Eugênio de Araújo Salles. Ficou como Administrador Apostólico até 1968 e, depois, como cardeal-arcebispo e Primaz do Brasil até 1971.
Quando do golpe de 1964, Dom Eugênio Sales se colocou na ala minoritária em relação ao posicionamento da grande maioria do episcopado brasileiro que deu apoio incondicional ao movimento dos militares. Além dos que rejeitavam totalmente o golpe, Dom Eugênio buscou a “neutralidade e expectativa”, “sem comprometer-se nem com vencedores nem com vencidos”, como declarou ainda no início de abril de 1964. Este também era o posicionamento de Dom Helder Camara.
Dada a gravidade da situação política, Dom Helder e Dom Eugênio conseguiram um encontro confidencial com o articulador e condutor da “revolução” Marechal Castelo Branco onde foram pedir a atenção para as arbitrariedades, injustiças e violências por conta do expurgo que estava sendo praticado pelas Forças Armadas contra as pessoas consideradas suspeitas de comunismo [n.2].
Dom Avelar Brandão Vilela foi arcebispo de Teresina (PI) entre 1955 a 1971. Foi transferido a São Salvador da Bahia como Primaz do Brasil em 25/03/1971, onde ficou até 1986. Foi eleito cardeal pelo Papa Paulo VI em 05/03/1973. Oscar Beozzo descreve suas várias atividades: “Vice-Presidente da CNBB (1965); Delegado junto ao CELAM; Membro da Comissão Representativa; Presidente da Comissão de Ação Social; Presidente da Comissão de Opinião Pública; Presidente da Comissão Nacional do Clero; Presidente do SCAI; Vice-Presidente do CELAM (1966-1967); Presidente do CELAM pelo falecimento de Dom Manuel Larrain do Chile (1966-1967), Presidente eleito (1968-1969; 1969-1970 e 1971-1972), um dos presidentes da II Conferência Geral do Episcopado Latino-americano em Medellín (1968); Presidente da Comissão Organizadora da Assembléia Geral de Medellín, Colômbia (1976); Membro da Sagrada Congregação para a causa dos santos; Membro da Sangrada Congregação para a Educação Católica; Vice-Presidente da COGECAL (Conselho Geral da Pontifícia Comissão para América Latina); Grão Chanceler da Universidade Católica de Salvador” [n.3].
Durante o Governo Militar, Dom Avelar procurou estabelecer diálogo entre os bispos e os militares e, por sua diplomacia, tornou-se na CNBB o principal elo das relações entre a Igreja e o Estado [n.4]. Assumiu a tarefa de negociar, esclarecer os fatos, manter o diálogo com a cúpula governista naquilo que fosse necessário, desde a regulamentação dos contratos de repasse de verbas para manter alguns projetos sociais, como o do MEB, até mesmo a solução de algum conflito quando padres, bispos e religiosos eram acusados ou presos como suspeitos de atos subversivos pelos militares.
Um fato soou como punição a Dom Avelar por parte do governo militar. No ano de 1973, quando o Arcebispo já era o Primaz do Brasil, foi indicado em Pernambuco para receber a medalha de mérito pernambucano na qualidade de Bispo de Petrolina, ao tempo em que em Salvador foi escolhido para receber o título de Cidadão Honorário. Aqueles dois eventos que aconteceria em locais diferentes foram automaticamente suspensos pelos governadores dos seus respectivos Estados logo após uma entrevista de Dom Avelar, onde ele defendia o respeito aos diretos fundamentais do ser humano e aos princípios éticos sobre os quais deve reger a consciência coletiva [n.5].
Na seqüência de Dom Avelar Brandão teremos, de fato, dois homens de “Cúria”: Dom Lucas Moreira Neves e Dom Geraldo Magela Agnelo.
Convocado por Paulo VI, Dom Lucas foi vice-presidente do Conselho para os Leigos (1974-79) e secretário da Congregação para os Bispos e do Colégio dos Cardeais (1979-87). Ainda na Cúria Romana, foi também consultor do Consilium de Laicis (1971-74); membro do Comitê para a Família (1971-76); membro do Conselho do Sínodo dos Bispos (1976-77); membro da Comissão “Justiça e Paz” (1976-81); consultor da Congregação para a Doutrina da Fé (1978-87); membro da Pontifícia Comissão para a Pastoral da Migração e do Turismo (1980-87); membro da Pontifícia Comissão para a América Latina (1980-87) e membro do Comitê para os Congressos Eucarísticos Internacionais (1982). Em 9 de julho de 1987 foi nomeado arcebispo de Salvador e Primaz do Brasil. No ano seguinte eleito cardeal.
Participou diretamente das discussões sobre a Teologia da Libertação e que culminou numa reunião de diálogo entre os bispos brasileiros e o papa João Paulo II, conforme Oscar Beozzo descreve: “A culminação deste processo de diálogo [entre a Cúria Romana e a CNBB após a divulgação do documento “Instrução sobre alguns aspectos da Teologia da Libertação” – 1984] foi o encontro de três dias (13 a 15 de março de 1986) entre o papa e os responsáveis dos dicastérios romanos, a presidência da CNBB, os cinco cardeais do Brasil e os bispos presidentes dos 14 regionais da CNBB, num total de 21 bispos, para uma avaliação das visitas ‘ad limina’, cumpridas pelos bispos do Brasil durante o ano de 1985 e início de 1986; para uma verificação dos principais problemas pastorais enfrentados pela Igreja no Brasil e um balanço das relações entre Santa Sé e a Igreja do Brasil. Proc edimento novo e inédito que permitiu que muitos pontos de tensão e mal-entendidos fossem aclarados diante do próprio papa ou nos intervalos das reuniões ou ainda em refeições tomadas com o papa, como a que reuniu, na última noite, D. Ivo Lorscheiter, D. Aloísio Lorscheider e D. Paulo Evaristo Arns, que haviam aceito intermediar o impasse em que se encontrava a coleção ‘Teologia e Libertação’, cuja publicação fora interrompida por ordem do cardeal Ratzinger em janeiro de 1986. No mesmo jantar, tomaram parte os que faziam restrições à coleção: os cardeais Dom Eugênio Sales e Ratzinger e o bispo brasileiro Dom Lucas Moreira Neves, secretário da Congregação dos Bispos” [n.6].
Apesar deste “diálogo”, o “movimento dos bispos” visava um xeque-mate na Igreja do Brasil: a conquista da presidência da CNBB. O “jogo de xadrez”, pacientemente planejado pelo para João Paulo II nos dez anos anteriores (1984-1994), ao substituir bispos de linha progressista por outros de perfil mais moderado-conservador, proporcionou a vitória de Dom Lucas: o cardeal-arcebispo de Salvador quebrou a longa hegemonia dos progressistas. Com ele, sem voltar às costas para o social, a prioridade era a evangelização (no sentido doutrinal e magisterial) e a defesa intransigente dos valores da família, com tudo o que isso envolve: condenação do uso de métodos contraceptivos e do aborto, mesmo em caso de estupro, e administração restrita de sacramentos como a comunhão a casais de segunda união. No entanto, em 1998, Dom Lucas é convocado para retornar à Roma e trabalhar como prefeito da C ongregação para os Bispos.
Nas eleições de 1999 da CNBB, Dom Jayme Chemello, bispo de Pelotas (RS), candidato dos progressistas e foi reconduzido à presidência da entidade depois de tê-la exercido interinamente por nove meses. Deste modo, ficava assim adiado, pelo menos até as próximas eleições, em 2003, o projeto papal de confiar o pastoreio de seu rebanho brasileiro à porção do clero mais preocupada em “salvar almas” que em “lutar contra as injustiças” – ou, ao menos, capaz de isolar a chamada “Igreja da caminhada”.
De fato, veio mesmo em 2003 o retorno do grupo mais conservador, quando novamente um cardeal-arcebispo de Salvador, e (não custa lembrar) Primaz do Brasil, chega novamente à presidência da CNBB. Depois de mais de oito anos como Secretário da Sagrada Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos (16/09/1991 a 12/01/1999), Dom Geraldo Magela Agnelo toma posse da arquidiocese de Salvador em março de 1999. No Consistório de fevereiro de 2001, eleito cardeal.
No entanto, o que se viu foi muito mais a atuação do secretário-geral, na época Dom Odilo Pedro Scherer, que propriamente de seu presidente. O objetivo talvez tenha sido a de implantar os novos Estatutos da CNBB para asseguara a direção das atividades da Conferência aos bispos e diminuindo a interferência dos assessores, e isto deveria ficar mesmo à cargo do secretário-geral.
Pois bem, em 2007, nova vitória da ala moderada-progressista da CNBB com Dom Geraldo Lyrio Rocha.
A nomeação de Dom Murilo Krieger, como arcebispo de Salvador e novo Primaz, é, ao nosso ver, mais um movimento que visa não só as eleições da CNBB, mas talvez a consolidação do programa ratzingeriano para a Igreja do Brasil (cf. artigos “As Visitas Ad limina” e “Brasileiros na Cúria Romana e seus desdobramentos” de minha autoria, todos publicados aqui no IHU). Porém, fica a expectativa de algum sinal de vida dos demais bispos para que possa se realizar a colegialidade-sinodalidade do “primus i nter pares”.
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Notas:
1 - CEHILA. História da Igreja no Brasil, São Paulo: Paulinas, 1992 (4ªed.), tomo II/1, p. 177.
2 - PILETTI, N. & PAXEDES, W. Dom Hélder Câmara: entre o poder e a profecia, São Paulo: Ática, 1997, pp. 290-291 e 296-297.
3 - BEOZZO, José Oscar. A Igreja do Brasil no Concílio Vaticano II (1959-1965), São Paulo: Paulinas, 2005, pp. 410-411.
4- PRANDINI, Fernando. PETRUCI, Vitor A. DALI, Frei Romeu (orgs). As relações Igreja Estado no Brasil: durante o governo do Marechal Costa e Silva (1967-1970). Vol. II (Coleção Igreja-Estado), São Paulo: Edições Loyola, 1986, pp.43-44.
5 - Id. Ibid., Vol. III (Coleção Igreja-Estado), pp. 63-65.
6 - BEOZZO, José Oscar. A Igreja do Brasil: de João XXIII a João Paulo II, de Medellín a Santo Domingo, Petrópolis: Vozes, 1994, p. 250. Os grifos em negrito são nossos.
Fonte:
http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=39976 17/1/2011
sexta-feira, 14 de janeiro de 2011
UMA REVOLUÇÃO AINDA POR FAZER
Leonardo Boff
2011-01-14
Toda mudança de paradigma civilizatório é precedida por uma revolução na cosmologia (visão do universo e da vida). O mundo atual surgiu com a extraordinária revolução que Copérnico e Galileo Galilei introduziram ao comprovarem que a Terra não era um centro estável, mas que girava ao redor do sol. Isso gerou enorme crise nas mentes e na Igreja, pois parecia que tudo perdia centralidade e valor. Mas lentamente impôs-se a nova cosmologia que fundamentalmente perdura até hoje nas escolas, nos negócios e na leitura do curso geral das coisas. Manteve-se, porém, o antropocentrismo, a idéia de que o ser humano continua sendo o centro de tudo e as coisas são destinadas ao seu bel-prazer. Se a Terra não é estável –pensava-se – o universo, pelo menos, é estável. Seria como uma incomensurável bolha dentro da qual se moveriam os astros celestes e todas as demais coisas.
Eis que esta cosmologia começou a ser superada quando em 1924 um astrônomo amador Edwin Hubble comprovou que o universo não é estável. Constatou que todas as galáxias bem como todos os corpos celestes estão se afastando uns dos outros. O universo, portanto, não é estacionário como ainda acreditava Einstein. Está se expandindo em todas as direções. Seu estado natural é a evolução e não a estabilidade.
Esta constatação sugere que tudo tenha começado a partir de um ponto extremamente denso de matéria e energia que, de repente, explodiu (big bang) dando origem ao atual universo em expansão. Isso foi proposto em 1927 pelo padre belga, o astrônomo George Lemaître, o que foi considerado esclarecedor por Einstein e assumido como teoria comum. Em 1965 Arno Penzias e Robert Wilson demonstraram que, de todas as partes do universo, nos chega uma radiação mínima, de três graus Kelvin, que seria o derradeiro eco da explosão inicial. Analisando o espectro da luz das estrelas mais distantes, a comunidade científica concluiu que esta explosão teria ocorrido há 13,7 bilhões de anos. Eis a idade do universo e a nossa própria, pois um dia estávamos, virtualmente, todos juntos lá naquele ínfimo ponto flamejante.
Ao expandir-se, o universo se auto-organiza, se auto-cria e gera complexidades cada vez maiores e ordens cada vez mais altas. É convicção de notáveis cientistas que, alcançado certo grau de complexidade, em qualquer parte, a vida emerge como imperativo cósmico. Assim também a consciência e a inteligência. Todos nós, com a nossa capacidade de amar e de inventar, não estamos fora da dinâmica geral do universo em cosmogênese. Somos partes deste imenso todo. Uma energia de fundo insondável e sem margens – abismo alimentador de tudo - sustenta e perpassa todas as coisas, ativando as energias fundamentais sem as quais nada existe do que existe.
A partir desta nova cosmologia, nossa vida, a Terra e todos os seres, nossas instituições, a ciência, a técnica, a educação, as artes, as filosofias e as religiões devem ser resignificadas. Tudo e todos são emergências deste universo em evolução, dependem de suas condições iniciais e devem ser compreendidas no interior deste universo vivo, inteligente, auto-organizativo e ascendente rumo a ordens ainda mais altas.
Esta revolução não provocou ainda uma crise semelhante a do século XVI, pois não penetrou suficientemente nas mentes da maioria da humanidade, nem da inteligentzia, muito menos dos empresários e dos governantes. Mas ela está presente no pensamento ecológico, sistêmico, holístico e em muitos educadores, fundando o paradigma da nova era, o ecozóico.
Por que é urgente que se incorpore esta revolução paradigmática? Porque é ela que nos fornecerá a base teórica necessária para resolvemos os atuais problemas do sistema-Terra em processo acelerado de degradação. Ela nos permite ver nossa interdependência e mutualidade com todos os seres. Formamos junto com a Terra viva a grande comunidade cósmica e vital. Somos a expressão consciente do processo cósmico e somos responsáveis por esta porção dele, a Terra, sem a qual tudo o que estamos dizendo seria impossível. Porque não nos sentimos parte da Terra, a estamos destruindo. O futuro do século XXI e de todas as COPs dependerá da assunção ou não desta nova cosmologia. Na verdade só ela nos poderá salvar
Leonardo Boff e Mark Hathway escreveram “The Tao of Liberation:exploring the ecology of transformation”,N.Y.2010.
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2011-01-14
Toda mudança de paradigma civilizatório é precedida por uma revolução na cosmologia (visão do universo e da vida). O mundo atual surgiu com a extraordinária revolução que Copérnico e Galileo Galilei introduziram ao comprovarem que a Terra não era um centro estável, mas que girava ao redor do sol. Isso gerou enorme crise nas mentes e na Igreja, pois parecia que tudo perdia centralidade e valor. Mas lentamente impôs-se a nova cosmologia que fundamentalmente perdura até hoje nas escolas, nos negócios e na leitura do curso geral das coisas. Manteve-se, porém, o antropocentrismo, a idéia de que o ser humano continua sendo o centro de tudo e as coisas são destinadas ao seu bel-prazer. Se a Terra não é estável –pensava-se – o universo, pelo menos, é estável. Seria como uma incomensurável bolha dentro da qual se moveriam os astros celestes e todas as demais coisas.
Eis que esta cosmologia começou a ser superada quando em 1924 um astrônomo amador Edwin Hubble comprovou que o universo não é estável. Constatou que todas as galáxias bem como todos os corpos celestes estão se afastando uns dos outros. O universo, portanto, não é estacionário como ainda acreditava Einstein. Está se expandindo em todas as direções. Seu estado natural é a evolução e não a estabilidade.
Esta constatação sugere que tudo tenha começado a partir de um ponto extremamente denso de matéria e energia que, de repente, explodiu (big bang) dando origem ao atual universo em expansão. Isso foi proposto em 1927 pelo padre belga, o astrônomo George Lemaître, o que foi considerado esclarecedor por Einstein e assumido como teoria comum. Em 1965 Arno Penzias e Robert Wilson demonstraram que, de todas as partes do universo, nos chega uma radiação mínima, de três graus Kelvin, que seria o derradeiro eco da explosão inicial. Analisando o espectro da luz das estrelas mais distantes, a comunidade científica concluiu que esta explosão teria ocorrido há 13,7 bilhões de anos. Eis a idade do universo e a nossa própria, pois um dia estávamos, virtualmente, todos juntos lá naquele ínfimo ponto flamejante.
Ao expandir-se, o universo se auto-organiza, se auto-cria e gera complexidades cada vez maiores e ordens cada vez mais altas. É convicção de notáveis cientistas que, alcançado certo grau de complexidade, em qualquer parte, a vida emerge como imperativo cósmico. Assim também a consciência e a inteligência. Todos nós, com a nossa capacidade de amar e de inventar, não estamos fora da dinâmica geral do universo em cosmogênese. Somos partes deste imenso todo. Uma energia de fundo insondável e sem margens – abismo alimentador de tudo - sustenta e perpassa todas as coisas, ativando as energias fundamentais sem as quais nada existe do que existe.
A partir desta nova cosmologia, nossa vida, a Terra e todos os seres, nossas instituições, a ciência, a técnica, a educação, as artes, as filosofias e as religiões devem ser resignificadas. Tudo e todos são emergências deste universo em evolução, dependem de suas condições iniciais e devem ser compreendidas no interior deste universo vivo, inteligente, auto-organizativo e ascendente rumo a ordens ainda mais altas.
Esta revolução não provocou ainda uma crise semelhante a do século XVI, pois não penetrou suficientemente nas mentes da maioria da humanidade, nem da inteligentzia, muito menos dos empresários e dos governantes. Mas ela está presente no pensamento ecológico, sistêmico, holístico e em muitos educadores, fundando o paradigma da nova era, o ecozóico.
Por que é urgente que se incorpore esta revolução paradigmática? Porque é ela que nos fornecerá a base teórica necessária para resolvemos os atuais problemas do sistema-Terra em processo acelerado de degradação. Ela nos permite ver nossa interdependência e mutualidade com todos os seres. Formamos junto com a Terra viva a grande comunidade cósmica e vital. Somos a expressão consciente do processo cósmico e somos responsáveis por esta porção dele, a Terra, sem a qual tudo o que estamos dizendo seria impossível. Porque não nos sentimos parte da Terra, a estamos destruindo. O futuro do século XXI e de todas as COPs dependerá da assunção ou não desta nova cosmologia. Na verdade só ela nos poderá salvar
Leonardo Boff e Mark Hathway escreveram “The Tao of Liberation:exploring the ecology of transformation”,N.Y.2010.
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terça-feira, 11 de janeiro de 2011
Vaticano perde o monopólio da Teologia e esta ciência ganha espaço em centros acadêmicos laicos
09/01/2011 - El País
Juan G. Bedoya
A teologia, a disciplina acadêmica que já foi considerada a imperatriz das ciências, hoje parece encerrada em uma capela de catequistas que repetem o que o Vaticano decide a cada momento. É só uma aparência. Grandes pensadores cristãos produzem sua obra abrigados em centros universitários laicos, ou publicam em editoras livres do controle eclesiástico. Um exemplo é o teólogo suíço Hans Küng, especialista no Concílio Vaticano 2º junto com Joseph Ratzinger (hoje papa Bento 16). Execrado sem contemplações por Roma, que lhe retirou inclusive a categoria de "teólogo católico", Küng continua sendo uma referência mundial. No próximo mês de janeiro será investido doutor "honoris causa" pela Universidade à Distância (Uned), por proposta de sua Faculdade de Filosofia.
Na Espanha já funcionam uma dezena de centros superiores onde a teologia ou as ciências das religiões não têm qualquer odor eclesiástico. São cátedras criadas sem interferência religiosa e dirigidas por professores das próprias universidades. Entre outras, contam com centros desse tipo as Universidades Complutense e Carlos 3º (Madri), a Pablo de Olavide (Sevilha), Pompeu Fabra de Barcelona, Universidade de Valência e a cátedra de filosofia da religião e história das religiões na própria Uned.
A perda do tradicional monopólio teológico da hierarquia católica foi pacífica. Ninguém discute mais a competência do Estado para criar faculdades de teologia, muito menos a existência de universidades católicas com o mesmo fim. Nem sempre foi assim. A sabedoria popular, a mais afetada pelas ferozes guerras de religião que assolaram a Europa durante séculos, cunhou a expressão "E se armou a de Deus é Cristo" [um grande alvoroço] para representar as consequências das disputas teológicas sobre se Jesus de Nazaré era filho de Deus e não um simples Messias.
Velhas lembranças da Inquisição, entre outras. Agora a Igreja de Roma tem um núcleo irrenunciável de doutrina e o guarda a sete chaves, sem discussão, mas sem violência. Para fora, entretanto, florescem teólogos que escapam da caverna, livres de ameaças de tortura ou fogueira. São poucos, mas costumam ter o favor do público. É a atração da dissidência.
Entre os que na Espanha pagaram pela ousadia de ser livres destacam-se nos últimos anos José María Díez-Alegría, José María Castillo, Benjamín Forcano, José Antonio Pagola, Juan Masiá e Juan Antonio Estrada, afastados da docência através de processos tortuosos. O último caso é o do teólogo franciscano José Arregi, obrigado a abandonar a congregação de Francisco de Assis para evitar males maiores a seus superiores.
"Humiliter se subiecti" - submeteu-se humildemente. Essa era a fórmula de submissão dos censurados por Roma. Persiste. O Vaticano 2º suprimiu em 1965 o Santo Ofício da Inquisição, mas ressurgiu com força, agora com o nome de Congregação para a Doutrina da Fé. Também há uma latinada para enunciar a nova intransigência. "Roma locuta, causa finita" - uma vez que Roma tenha se pronunciado, o assunto fica decidido. É difícil encontrar outra instituição que trate de modo tão desdenhoso os que defendem outros pontos de vista em suas fileiras.
O Vaticano 2º proclamou que haviam terminado os métodos do Santo Ofício - cruéis, muitas vezes criminosos, com dezenas de milhares de pessoas queimadas vivas ou assassinadas por outros meios -, diante do escândalo de que três dos principais papas do século passado tivessem sido molestados pelo inquisidor de turno como suspeitos de heresia ou desvios pastorais. Foram Bento 15, João 23 e Paulo 6º. Grandes teólogos do famoso concílio também sofreram o indizível nas garras do Santo Ofício. Décadas mais tarde, observaram com estupor que um dos melhores peritos do Vaticano 2º, o alemão Joseph Ratzinger, iria ressuscitar algumas das práticas inquisitoriais repudiadas em 1965.
Foi o cardeal austríaco Franz König quem deu o alarme, e expressou bem alto sua perplexidade. Ele o fez quando Ratzinger caiu sobre o teólogo jesuíta belga Jacques Dupuis por "desvios doutrinários" no livro "Para uma Teologia Cristã do Pluralismo Religioso". Em uma disputa com Ratzinger muito instigada nos meios católicos, o grande König saiu à forra. "Minha função não consiste em aconselhar à congregação doutrinal, mas não posso permanecer em silêncio porque meu coração se parte quando vejo causar um dano tão evidente ao bem comum da Igreja de Deus. A congregação tem perfeito direito de salvaguardar a fé - embora ainda o fizesse melhor se a promovesse. No presente caso, entretanto, é um sinal de que estão se ampliando a desconfiança e a suspeita sobre um autor que tem as melhores intenções e que adquiriu grandes méritos em seu serviço à Igreja Católica", escreveu em um depoimento intitulado "Em Defesa do P. Dupuis".
König, um dos grandes aberturistas do Vaticano 2º, tinha motivos para se dizer escandalizado. Não só estavam pisoteando a proclamação conciliar da liberdade religiosa e de consciência, como a ideia de que se devia proteger o trabalho dos teólogos. König chegou a lembrar a Ratzinger o discurso de Paulo 6º à Cúria Romana em pleno concílio: "Temos de aceitar com humildade a crítica, com reflexão e também com reconhecimento" .
Ratzinger mantinha então a mesma ideia. Escreveu em 1968: "Ainda acima do papa encontra-se a própria consciência, à qual é preciso obedecer primeiro, se for necessário inclusive contra o que diga a autoridade eclesiástica. O que faz falta na Igreja não são panegiristas da ordem estabelecida, mas homens cuja humildade e obediência não sejam menores que sua paixão pela verdade, e que amem a Igreja mais que a comodidade de sua própria carreira".
Essas palavras foram levadas pelo vento assim que Ratzinger ascendeu em 1981 à presidência da Congregação Doutrinal, convertida pouco a pouco em férrea polícia da fé. Desde então, a teologia é tratada como criada do magistério episcopal.
Obediência e unidade são as palavras que justificam tudo. E também a vontade de Deus. Mas os teólogos não fazem caso. Seguem nisso o Evangelho, mais que a seus superiores. É o que afirma Hans Küng, companheiro e amigo de Ratzinger quando coincidiram como docentes na Universidade de Tubingen, na Alemanha. "Jesus tampouco obedeceu às cegas. Já com 12 anos, no templo, demonstrou que não obedecia cegamente a seus pais."
A verdade os fará livres, proclama Jesus. É em nome dessa liberdade que o teólogo Küng se rebelou. "Não poderia seguir outro caminho, não só pela liberdade, que sempre me foi querida, como pela verdade, que está acima de minha liberdade. Se o tivesse feito, teria vendido minha alma pelo poder na Igreja."
Durante séculos a Igreja romana se opôs à tradução dos textos sagrados para as línguas de cada povo. Quando Lutero publicou a Bíblia em alemão, o papa intensificou suas exigências de que levassem a Roma a cabeça do monge agostiniano. Com as ideias de Jesus nas mãos do povo, Roma não poderia justificar seu poder terreno, nem suas pompas e vaidades, nem o afã de dominação ou a marginalização da mulher. Por isso, como afirma Küng, "parece que Jesus goza de maior estima fora da Igreja do que dentro dela". Acrescenta: "Nunca se pergunta o que Jesus teria feito ou dito; tal pergunta torna-se nesse contexto tão estranha que a maioria as julgaria pouco menos que absurda".
Foi o que destacou bem alto o teólogo José María Díez-Alegría, expulso da Universidade Pontifícia Gregoriana em Roma e refugiado em uma das barracas do Pozo del Tío Raimundo, junto ao mítico José María Llanos. "Jesus entrou em Jerusalém no lombo de um burrico. Papas viajam coroados com a tiara pontifícia."
Não houve um só aspecto da vida em que a Igreja não se considerasse com direito a impor seu ditame. Monarcas autocráticos, os papas praticaram durante séculos a doutrina de Gregório 7º em "Dictatus Papae", de 1075: só o pontífice romano pode usar insígnias imperiais, "unicamente do papa beijam os pés todos os príncipes", só a ele compete depor imperadores, suas sentenças não devem ser reformadas por ninguém, enquanto ele pode reformar as de todos.
O último desses imperadores (ou assim se acreditava) foi Pio 12, soberano entre 1939 e 1958. Obcecado pelo protocolo tradicional, os funcionários deviam ajoelhar-se quando o papa começava a falar, dirigir-se a ele ajoelhados e sair do aposento andando para trás.
São lembranças do brasileiro Leonardo Boff, forçado a abandonar a ordem franciscana. "Minha experiência de 20 anos de relação com o poder doutrinário é esta: é cruel e impiedoso. Não esquece nada, não perdoa nada, exige tudo. E para alcançar seu fim toma o tempo necessário e escolhe os meios oportunos."
Boff nunca esquecerá que inclusive tentaram queimar seus livros. Depois de muitas disputas, silêncios e humilhações, chegou o dia em que teve "a sensação de ter chegado diante de um muro". Então abandonou também o sacerdócio. "Há momentos em que uma pessoa, para ser fiel a si mesma, tem de mudar. O próprio Jesus foi morto por dizer que nem tudo é lícito neste mundo. Nem tudo é lícito na Igreja. Existem limites intransponíveis: a dignidade e a liberdade da pessoa. Deixei o ministério sacerdotal, não a Igreja. Afastei-me da ordem franciscana, não do sonho terno e fraterno de são Francisco de Assis. A Igreja hierárquica não possui o monopólio dos valores evangélicos, nem a ordem franciscana é a única herdeira do Sol de Assis."
O hoje papa Bento 16 foi professor de Boff em Munique, Alemanha, e inclusive lhe deu de seu bolso o dinheiro para que pudesse publicar a tese de doutorado porque a considerava uma grande contribuição teológica. "Ratzinger é uma pessoa muito complexa e ao mesmo tempo muito negativa para a Igreja. É um homem muito influenciado pela teologia agostiniana, com uma visão pessimista do ser humano. Não é um homem que ilumine o caminho, mas que o obscurece, impedindo transitar por ele. Duvido que creia no ser humano, e portanto também duvido que confiasse em mim. Por isso me condenou."
"Gestapo eclesiástica", "máquina de estrangular", "camarilha indecente e ignorante"... Esses são alguns qualificativos contra a Inquisição romana na boca do dominicano francês Yves Congar. Afastado do ensino, mandado ao exílio, humilhado, Congar chegou a se sentir destruído, à beira do suicídio. "Desproveram-me de tudo aquilo em que acreditei e a que me entreguei", disse. Mas resistiu e venceu. Como compensação aos anos de silenciamento e em reconhecimento a sua profundidade teológica (um dos grandes inspiradores do Vaticano 2º), João Paulo 2º o fez cardeal em 1994. De Congar é esta frase: "Pode-se condenar uma solução, mas não se pode condenar um problema".
O jesuíta Juan Masiá, expulso da cátedra de bioética na Universidade Pontifícia de Comillas, afirma que a Igreja Católica fala de direitos humanos para fora, mas não os respeita dentro. "Renunciar ao espírito inquisitorial é uma questão pendente. Quando impera um sistema de pensar - na realidade, de não pensar - estritamente regulamentado pelos cânones da ortodoxia, quem quiser subir em sua ordenação não terá outro recurso além de calar-se. A perfeita ortodoxia levada ao extremo daria destaque ao silêncio e notabilidade à repetição de papagaio; uma aprovação por pouco a quem insinuar timidamente perguntas proibidas. E certamente uma suspensão a toda divergência, por mais fiel, responsável, inteligente, meditada e ponderada que seja."
Fonte: El País, 09 / janeiro / 2011-01-09
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Juan G. Bedoya
A teologia, a disciplina acadêmica que já foi considerada a imperatriz das ciências, hoje parece encerrada em uma capela de catequistas que repetem o que o Vaticano decide a cada momento. É só uma aparência. Grandes pensadores cristãos produzem sua obra abrigados em centros universitários laicos, ou publicam em editoras livres do controle eclesiástico. Um exemplo é o teólogo suíço Hans Küng, especialista no Concílio Vaticano 2º junto com Joseph Ratzinger (hoje papa Bento 16). Execrado sem contemplações por Roma, que lhe retirou inclusive a categoria de "teólogo católico", Küng continua sendo uma referência mundial. No próximo mês de janeiro será investido doutor "honoris causa" pela Universidade à Distância (Uned), por proposta de sua Faculdade de Filosofia.
Na Espanha já funcionam uma dezena de centros superiores onde a teologia ou as ciências das religiões não têm qualquer odor eclesiástico. São cátedras criadas sem interferência religiosa e dirigidas por professores das próprias universidades. Entre outras, contam com centros desse tipo as Universidades Complutense e Carlos 3º (Madri), a Pablo de Olavide (Sevilha), Pompeu Fabra de Barcelona, Universidade de Valência e a cátedra de filosofia da religião e história das religiões na própria Uned.
A perda do tradicional monopólio teológico da hierarquia católica foi pacífica. Ninguém discute mais a competência do Estado para criar faculdades de teologia, muito menos a existência de universidades católicas com o mesmo fim. Nem sempre foi assim. A sabedoria popular, a mais afetada pelas ferozes guerras de religião que assolaram a Europa durante séculos, cunhou a expressão "E se armou a de Deus é Cristo" [um grande alvoroço] para representar as consequências das disputas teológicas sobre se Jesus de Nazaré era filho de Deus e não um simples Messias.
Velhas lembranças da Inquisição, entre outras. Agora a Igreja de Roma tem um núcleo irrenunciável de doutrina e o guarda a sete chaves, sem discussão, mas sem violência. Para fora, entretanto, florescem teólogos que escapam da caverna, livres de ameaças de tortura ou fogueira. São poucos, mas costumam ter o favor do público. É a atração da dissidência.
Entre os que na Espanha pagaram pela ousadia de ser livres destacam-se nos últimos anos José María Díez-Alegría, José María Castillo, Benjamín Forcano, José Antonio Pagola, Juan Masiá e Juan Antonio Estrada, afastados da docência através de processos tortuosos. O último caso é o do teólogo franciscano José Arregi, obrigado a abandonar a congregação de Francisco de Assis para evitar males maiores a seus superiores.
"Humiliter se subiecti" - submeteu-se humildemente. Essa era a fórmula de submissão dos censurados por Roma. Persiste. O Vaticano 2º suprimiu em 1965 o Santo Ofício da Inquisição, mas ressurgiu com força, agora com o nome de Congregação para a Doutrina da Fé. Também há uma latinada para enunciar a nova intransigência. "Roma locuta, causa finita" - uma vez que Roma tenha se pronunciado, o assunto fica decidido. É difícil encontrar outra instituição que trate de modo tão desdenhoso os que defendem outros pontos de vista em suas fileiras.
O Vaticano 2º proclamou que haviam terminado os métodos do Santo Ofício - cruéis, muitas vezes criminosos, com dezenas de milhares de pessoas queimadas vivas ou assassinadas por outros meios -, diante do escândalo de que três dos principais papas do século passado tivessem sido molestados pelo inquisidor de turno como suspeitos de heresia ou desvios pastorais. Foram Bento 15, João 23 e Paulo 6º. Grandes teólogos do famoso concílio também sofreram o indizível nas garras do Santo Ofício. Décadas mais tarde, observaram com estupor que um dos melhores peritos do Vaticano 2º, o alemão Joseph Ratzinger, iria ressuscitar algumas das práticas inquisitoriais repudiadas em 1965.
Foi o cardeal austríaco Franz König quem deu o alarme, e expressou bem alto sua perplexidade. Ele o fez quando Ratzinger caiu sobre o teólogo jesuíta belga Jacques Dupuis por "desvios doutrinários" no livro "Para uma Teologia Cristã do Pluralismo Religioso". Em uma disputa com Ratzinger muito instigada nos meios católicos, o grande König saiu à forra. "Minha função não consiste em aconselhar à congregação doutrinal, mas não posso permanecer em silêncio porque meu coração se parte quando vejo causar um dano tão evidente ao bem comum da Igreja de Deus. A congregação tem perfeito direito de salvaguardar a fé - embora ainda o fizesse melhor se a promovesse. No presente caso, entretanto, é um sinal de que estão se ampliando a desconfiança e a suspeita sobre um autor que tem as melhores intenções e que adquiriu grandes méritos em seu serviço à Igreja Católica", escreveu em um depoimento intitulado "Em Defesa do P. Dupuis".
König, um dos grandes aberturistas do Vaticano 2º, tinha motivos para se dizer escandalizado. Não só estavam pisoteando a proclamação conciliar da liberdade religiosa e de consciência, como a ideia de que se devia proteger o trabalho dos teólogos. König chegou a lembrar a Ratzinger o discurso de Paulo 6º à Cúria Romana em pleno concílio: "Temos de aceitar com humildade a crítica, com reflexão e também com reconhecimento" .
Ratzinger mantinha então a mesma ideia. Escreveu em 1968: "Ainda acima do papa encontra-se a própria consciência, à qual é preciso obedecer primeiro, se for necessário inclusive contra o que diga a autoridade eclesiástica. O que faz falta na Igreja não são panegiristas da ordem estabelecida, mas homens cuja humildade e obediência não sejam menores que sua paixão pela verdade, e que amem a Igreja mais que a comodidade de sua própria carreira".
Essas palavras foram levadas pelo vento assim que Ratzinger ascendeu em 1981 à presidência da Congregação Doutrinal, convertida pouco a pouco em férrea polícia da fé. Desde então, a teologia é tratada como criada do magistério episcopal.
Obediência e unidade são as palavras que justificam tudo. E também a vontade de Deus. Mas os teólogos não fazem caso. Seguem nisso o Evangelho, mais que a seus superiores. É o que afirma Hans Küng, companheiro e amigo de Ratzinger quando coincidiram como docentes na Universidade de Tubingen, na Alemanha. "Jesus tampouco obedeceu às cegas. Já com 12 anos, no templo, demonstrou que não obedecia cegamente a seus pais."
A verdade os fará livres, proclama Jesus. É em nome dessa liberdade que o teólogo Küng se rebelou. "Não poderia seguir outro caminho, não só pela liberdade, que sempre me foi querida, como pela verdade, que está acima de minha liberdade. Se o tivesse feito, teria vendido minha alma pelo poder na Igreja."
Durante séculos a Igreja romana se opôs à tradução dos textos sagrados para as línguas de cada povo. Quando Lutero publicou a Bíblia em alemão, o papa intensificou suas exigências de que levassem a Roma a cabeça do monge agostiniano. Com as ideias de Jesus nas mãos do povo, Roma não poderia justificar seu poder terreno, nem suas pompas e vaidades, nem o afã de dominação ou a marginalização da mulher. Por isso, como afirma Küng, "parece que Jesus goza de maior estima fora da Igreja do que dentro dela". Acrescenta: "Nunca se pergunta o que Jesus teria feito ou dito; tal pergunta torna-se nesse contexto tão estranha que a maioria as julgaria pouco menos que absurda".
Foi o que destacou bem alto o teólogo José María Díez-Alegría, expulso da Universidade Pontifícia Gregoriana em Roma e refugiado em uma das barracas do Pozo del Tío Raimundo, junto ao mítico José María Llanos. "Jesus entrou em Jerusalém no lombo de um burrico. Papas viajam coroados com a tiara pontifícia."
Não houve um só aspecto da vida em que a Igreja não se considerasse com direito a impor seu ditame. Monarcas autocráticos, os papas praticaram durante séculos a doutrina de Gregório 7º em "Dictatus Papae", de 1075: só o pontífice romano pode usar insígnias imperiais, "unicamente do papa beijam os pés todos os príncipes", só a ele compete depor imperadores, suas sentenças não devem ser reformadas por ninguém, enquanto ele pode reformar as de todos.
O último desses imperadores (ou assim se acreditava) foi Pio 12, soberano entre 1939 e 1958. Obcecado pelo protocolo tradicional, os funcionários deviam ajoelhar-se quando o papa começava a falar, dirigir-se a ele ajoelhados e sair do aposento andando para trás.
São lembranças do brasileiro Leonardo Boff, forçado a abandonar a ordem franciscana. "Minha experiência de 20 anos de relação com o poder doutrinário é esta: é cruel e impiedoso. Não esquece nada, não perdoa nada, exige tudo. E para alcançar seu fim toma o tempo necessário e escolhe os meios oportunos."
Boff nunca esquecerá que inclusive tentaram queimar seus livros. Depois de muitas disputas, silêncios e humilhações, chegou o dia em que teve "a sensação de ter chegado diante de um muro". Então abandonou também o sacerdócio. "Há momentos em que uma pessoa, para ser fiel a si mesma, tem de mudar. O próprio Jesus foi morto por dizer que nem tudo é lícito neste mundo. Nem tudo é lícito na Igreja. Existem limites intransponíveis: a dignidade e a liberdade da pessoa. Deixei o ministério sacerdotal, não a Igreja. Afastei-me da ordem franciscana, não do sonho terno e fraterno de são Francisco de Assis. A Igreja hierárquica não possui o monopólio dos valores evangélicos, nem a ordem franciscana é a única herdeira do Sol de Assis."
O hoje papa Bento 16 foi professor de Boff em Munique, Alemanha, e inclusive lhe deu de seu bolso o dinheiro para que pudesse publicar a tese de doutorado porque a considerava uma grande contribuição teológica. "Ratzinger é uma pessoa muito complexa e ao mesmo tempo muito negativa para a Igreja. É um homem muito influenciado pela teologia agostiniana, com uma visão pessimista do ser humano. Não é um homem que ilumine o caminho, mas que o obscurece, impedindo transitar por ele. Duvido que creia no ser humano, e portanto também duvido que confiasse em mim. Por isso me condenou."
"Gestapo eclesiástica", "máquina de estrangular", "camarilha indecente e ignorante"... Esses são alguns qualificativos contra a Inquisição romana na boca do dominicano francês Yves Congar. Afastado do ensino, mandado ao exílio, humilhado, Congar chegou a se sentir destruído, à beira do suicídio. "Desproveram-me de tudo aquilo em que acreditei e a que me entreguei", disse. Mas resistiu e venceu. Como compensação aos anos de silenciamento e em reconhecimento a sua profundidade teológica (um dos grandes inspiradores do Vaticano 2º), João Paulo 2º o fez cardeal em 1994. De Congar é esta frase: "Pode-se condenar uma solução, mas não se pode condenar um problema".
O jesuíta Juan Masiá, expulso da cátedra de bioética na Universidade Pontifícia de Comillas, afirma que a Igreja Católica fala de direitos humanos para fora, mas não os respeita dentro. "Renunciar ao espírito inquisitorial é uma questão pendente. Quando impera um sistema de pensar - na realidade, de não pensar - estritamente regulamentado pelos cânones da ortodoxia, quem quiser subir em sua ordenação não terá outro recurso além de calar-se. A perfeita ortodoxia levada ao extremo daria destaque ao silêncio e notabilidade à repetição de papagaio; uma aprovação por pouco a quem insinuar timidamente perguntas proibidas. E certamente uma suspensão a toda divergência, por mais fiel, responsável, inteligente, meditada e ponderada que seja."
Fonte: El País, 09 / janeiro / 2011-01-09
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sexta-feira, 7 de janeiro de 2011
A Igreja abandonou as classes populares'', afirma José Comblin
6 de janeiro de 2011
José Comblin, um dos criadores da Teologia da Libertação, afirmou que a eleição de João Paulo II e de Bento XVI foi manejada pelo Opus Dei "praticando a chantagem, intimidando os cardeais", e que na América Latina o Papa "é mais divino do que Deus". Comblin, belga que vive no Brasil e acaba de visitar o Chile, país em que esteve exilado em 1972, durante o governo da Unidade Popular, explicou ainda que os teólogos da libertação têm hoje mais de 80 anos e "não apareceu uma nova geração" que desse continuidade a esse pensamento.
A reportagem é do sítio Religión Digital, 05-01-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
"A repressão foi muito forte, terrível, e a ditadura do Papa aqui na América Latina é total e global. Aqui, pode-se criticar Deus, mas não o Papa. O Papa é mais divino do que Deus", asseverou o teólogo.
Segundo Comblin, a Igreja Católica "abandonou as classes populares, salvo os velhos e algumas relíquias do passado".
"Hoje, as universidades e os colégios católicos são para a burguesia. O porvir da América Latina é ser um continente evangélico protestante, salvo sua classe alta. Assim, a Opus Dei e os Legionários de Cristo e todas essas associações que existem de ultradireita vão crescendo nesse setor", opinou, em declarações no Chile à revista El Periodista.
"Onde há um ou dois bispos da Opus Dei no episcopado, intimidam a todos os demais. Os outros ficam calados e só um fala. Esse é um problema de psicologia típico de ditaduras", defendeu.
Segundo Comblin, "foi a Opus el que elegeu João Paulo II e o atual, praticando a chantagem, intimidando os cardeais. O próximo Papa será igual porque a Opus tem um poder muito forte".
O teólogo, de 87 anos, defende que Deus está "em La Victoria e em La Legua (dois bairros populares de Santiago) e na prisão, mas de Roma desapareceu há muito tempo".
"Agora, sempre fica mais claro que o problema é o Papa, ou seja, a função do Papa, uma ditadura implacável com muitas formas de doçura e amabilidade, mas implacável", defendeu.
Comblin defendeu que "o porvir do cristianismo está na China, Coreia, Filipinas, Indonésia. Estima-se que só na China há 130 milhões de cristãos martirizados, porque estão praticamente perseguidos".
O teólogo criticou a eventual canonização de João Paulo II porque seu papado "foi catastrófico".
"Todos os que fizeram sua carreira com ele puderam ser cardeais, apesar de sua mediocridade pessoal. Não mereciam nada, mas ele os promoveu. Claro que agora querem canonizá-lo! Uma vez que canonizaram Escrivá, todo mundo sabe que se pode ser santo sem ter virtude alguma", destacou.
Sobre a Opus Dei e os Legionários de Cristo, Comblin afirmou que "têm a confiança da Cúria Romana e depois representam a plena liberdade dada a personalidades que são como os grandes Rockefeller, os conquistadores".
"Como Escrivá de Balaguer, que era um capitalista, o homem que vai triunfar, que vai desfrutar o mundo, que vai ganhar, ser rico, poderoso e que é capaz de criar pessoas totalmente subordinadas, soldados com mentalidade de soldado, esses são todos homens deformados psicologicamente, como são os futuros ditadores", detalhou.
Depois de recordar que do mexicano Marcial Maciel, dos Legionários de Cristo, foi descoberta uma vida paralela e uma fortuna de 50 bilhões de dólares, afirmou que "sua chantagem, sua palavra e sua exigência chegaram aos milionários".
"Hoje, os que trabalharam com ele, seus colaboradores, todos dizem e afirmam que não sabiam nada da vida paralela (de Maciel). Como? Trabalham 40 anos com ele e não sabem de nada, que ele tem uma família, três filhos, que praticou a pedofilia com as crianças, alunos de sua formação, de seus colégios, que tinha um mundo de amantes. Não sabiam de tudo isso? Supõe-se, então, que eles são cúmplices e também têm uma vida paralela", concluiu.
José Comblin, um dos criadores da Teologia da Libertação, afirmou que a eleição de João Paulo II e de Bento XVI foi manejada pelo Opus Dei "praticando a chantagem, intimidando os cardeais", e que na América Latina o Papa "é mais divino do que Deus". Comblin, belga que vive no Brasil e acaba de visitar o Chile, país em que esteve exilado em 1972, durante o governo da Unidade Popular, explicou ainda que os teólogos da libertação têm hoje mais de 80 anos e "não apareceu uma nova geração" que desse continuidade a esse pensamento.
A reportagem é do sítio Religión Digital, 05-01-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
"A repressão foi muito forte, terrível, e a ditadura do Papa aqui na América Latina é total e global. Aqui, pode-se criticar Deus, mas não o Papa. O Papa é mais divino do que Deus", asseverou o teólogo.
Segundo Comblin, a Igreja Católica "abandonou as classes populares, salvo os velhos e algumas relíquias do passado".
"Hoje, as universidades e os colégios católicos são para a burguesia. O porvir da América Latina é ser um continente evangélico protestante, salvo sua classe alta. Assim, a Opus Dei e os Legionários de Cristo e todas essas associações que existem de ultradireita vão crescendo nesse setor", opinou, em declarações no Chile à revista El Periodista.
"Onde há um ou dois bispos da Opus Dei no episcopado, intimidam a todos os demais. Os outros ficam calados e só um fala. Esse é um problema de psicologia típico de ditaduras", defendeu.
Segundo Comblin, "foi a Opus el que elegeu João Paulo II e o atual, praticando a chantagem, intimidando os cardeais. O próximo Papa será igual porque a Opus tem um poder muito forte".
O teólogo, de 87 anos, defende que Deus está "em La Victoria e em La Legua (dois bairros populares de Santiago) e na prisão, mas de Roma desapareceu há muito tempo".
"Agora, sempre fica mais claro que o problema é o Papa, ou seja, a função do Papa, uma ditadura implacável com muitas formas de doçura e amabilidade, mas implacável", defendeu.
Comblin defendeu que "o porvir do cristianismo está na China, Coreia, Filipinas, Indonésia. Estima-se que só na China há 130 milhões de cristãos martirizados, porque estão praticamente perseguidos".
O teólogo criticou a eventual canonização de João Paulo II porque seu papado "foi catastrófico".
"Todos os que fizeram sua carreira com ele puderam ser cardeais, apesar de sua mediocridade pessoal. Não mereciam nada, mas ele os promoveu. Claro que agora querem canonizá-lo! Uma vez que canonizaram Escrivá, todo mundo sabe que se pode ser santo sem ter virtude alguma", destacou.
Sobre a Opus Dei e os Legionários de Cristo, Comblin afirmou que "têm a confiança da Cúria Romana e depois representam a plena liberdade dada a personalidades que são como os grandes Rockefeller, os conquistadores".
"Como Escrivá de Balaguer, que era um capitalista, o homem que vai triunfar, que vai desfrutar o mundo, que vai ganhar, ser rico, poderoso e que é capaz de criar pessoas totalmente subordinadas, soldados com mentalidade de soldado, esses são todos homens deformados psicologicamente, como são os futuros ditadores", detalhou.
Depois de recordar que do mexicano Marcial Maciel, dos Legionários de Cristo, foi descoberta uma vida paralela e uma fortuna de 50 bilhões de dólares, afirmou que "sua chantagem, sua palavra e sua exigência chegaram aos milionários".
"Hoje, os que trabalharam com ele, seus colaboradores, todos dizem e afirmam que não sabiam nada da vida paralela (de Maciel). Como? Trabalham 40 anos com ele e não sabem de nada, que ele tem uma família, três filhos, que praticou a pedofilia com as crianças, alunos de sua formação, de seus colégios, que tinha um mundo de amantes. Não sabiam de tudo isso? Supõe-se, então, que eles são cúmplices e também têm uma vida paralela", concluiu.
sexta-feira, 17 de dezembro de 2010
IGREJA DA LIBERTAÇÃO NO BRASIL. UM CATOLICISMO PARA O SÉCULO XXI
REPORTAGEM ESPECIAL - 2010-12-02 - Adital
Sempre existe uma pré-história
A nova experiência das Comunidades Eclesiais de Base, CEBs e da Teologia da Libertação que a Igreja do Brasil está vivendo, começa nos anos 50. Reinava, na Igreja, uma necessidade forte de renovação, mas o espírito era de quem se preocupa mais com suas questões internas e menos com a sociedade. Existia, por exemplo, um caminho paralelo entre ligas camponesas e sindicatos católicos, Movimento de Educação de Base e metodologia de Paulo Freire. Na mesma linha vai a fundação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, CNBB, em 1952. Movimento de renovação semelhante se deu em meados da década de 1960, quando nasceram as primeiras CEBs, pensadas como alternativas e/ou complementação ao trabalho paroquial.
Novos ventos
Mas, elementos novos entram e se fundem na vida da Igreja. O Concílio Vaticano II (1962-1965) funcionou como elemento-chave para a participação de leigos, abrindo-lhes o acesso à Bíblia, à palavra de Deus. Ganhava força a proposta de uma Igreja povo de Deus. No seu olhar interno, o Concílio pensou uma Igreja plural, flexível e, diante de uma estrutura até então centralizada e clerical, sonhou com uma instituição participativa. Ao olhar para fora, o Concílio comprometeu-se num diálogo com todas as culturas e povos, e com a libertação dos pobres.
Muitos padres e dezenas de religiosos foram procurar novas modalidades de trabalho pastoral nas periferias urbanas e nas zonas rurais, motivados pela opção pelos pobres que surge em Medellín. É em agosto de 1968 que a Conferência Episcopal de Medellín, na Colômbia, reforçando as decisões do Concílio, abre um novo tempo na história da Igreja da América Latina. Exemplo deste impulso inovador registrou-se no Brasil no início dos anos 70. A sociedade era submetida ao Ato Institucional nº 5, que extinguiu as liberdades civis. Sindicatos, movimentos e associações populares já não podiam atuar livremente. Foi nesse período que as CEBs se multiplicaram e abriram as portas para pessoas que, sem participar diretamente de uma prática sacramental, estimulam sua presença nos movimentos de reivindicação.
Começa a tomar corpo a Teologia da Libertação
Um mês antes da Conferência de Medellín, numa palestra na cidade de Chimbote, no Peru, o teólogo Gustavo Gutiérrez lançou a primeira semente da Teologia da Libertação. O texto, publicado em 1969 com o título Rumo à Teologia da Libertação, deu origem ao livro Teologia da Libertação, editado em Lima, em dezembro de 1971.
O momento político que o Brasil vivia, de violenta repressão, funcionou como fermento para a nova teologia. A CNBB que, com o decorrer dos anos e o afastamento de D. Hélder Câmara, como seu secretário-geral, havia se burocratizado, assumiu papel preponderante com a posse de D. Aloísio Lorscheider na presidência, no início dos anos 70. As posições firmes do cardeal nas denúncias de torturas a presos políticos ganharam espaço na imprensa e tiveram o apoio dos bispos.
Teve início um verdadeiro embate entre Igreja e regime militar. Em 1975, a CNBB publicou um documento contundente intitulado Comunicação Pastoral ao Povo de Deus, em que os bispos afirmavam: "Ao cristão é proibido ficar triste e ter medo".
No mesmo ano, realizou-se o 1º Encontro Intereclesial de CEBs. Era a primeira tentativa de se fazer uma sistematização sobre as CEBs, que pode ser resumida numa frase: uma nova forma de ser Igreja e uma nova forma de a Igreja ser. Elas passaram a representar a concretização do Vaticano II, por ser uma presença transformadora do mundo.
É nesse diálogo e na vivência no meio popular que a igreja percebe a necessidade de estar ao lado das pessoas que já estavam lutando por justiça e solidariedade. Essa intuição nova propiciou o surgimento das pastorais sociais, que ganharam expressão nacional com a criação da Comissão Pastoral da Terra (CPT). De início, chamava-se apenas Comissão da Terra. Mas os bispos da Amazônia, e o próprio D. Aloísio, defenderam a inclusão da palavra Pastoral. Configurava-se, na verdade, um olhar novo da Igreja em relação ao mundo, visto não mais como lugar profano, mas como lugar onde Deus se faz presente para caminhar com seu povo e libertá-lo. E foi nesse intercâmbio que a Igreja assumiu sua maior proximidade com o povo. No caso da CPT, por exemplo, com os lavradores. As pastorais sociais, portanto, não surgiram como um trabalho supletivo, e sim como fonte de autenticidade da própria igreja. Enquanto as CEBs se expandiram, formando uma rede de aproximadamente 80 mil comunidades espalhadas por todo o Brasil, as pastorais aglutinaram um número de pessoas muito menor, porém com atuação expressiva, competente e de grande repercussão.
Fundiram-se, assim, até 1977-78, quatro elementos fundamentais: a CNBB, as CEBs, as Pastorais Sociais e a Teologia da Libertação. É neste período que o teólogo Leonardo Boff escreve a obra A Igreja que nasce do povo, e o também teólogo Carlos Mesters publica o livro A flor sem defesa, um ensaio de um novo jeito de ler a Bíblia, a partir do povo.
Evolução e involução
Os anos que se seguiram, até a segunda metade da década de 80, foram de esperança, de construção, de entusiasmo, às vezes, de ingenuidade. Muitos cristãos e não cristãos acreditaram na possibilidade de uma mudança radical e rápida das estruturas sociais e eclesiais. Os caminhos da história, porém, nunca são lineares e o barco de Pedro, desde que se meteu nas tempestades da história, começou a balançar.
E o 11 de setembro de 1973 tinha acontecido e devia ser um marco na história da América Latina. O bombardeio do Palácio de La Moneda e o assassinato de Salvador Allende deviam representar o declínio da revolução social, do socialismo, dos movimentos populares de libertação, da esperança dos pobres e oprimidos, e uma advertência à Teologia da Libertação, que acabava de nascer já condenada. Uma certa ansiedade se espalhou em ondas sucessivas na sociedade e na igreja.
Várias pessoas que fizeram opção pelos pobres por causa de sua força histórica, depois, resfriaram sua atuação; pouco dispostas a compartilhar sua fraqueza. Mas, na sociedade, continuaram crescendo a consciência e a organização e, na igreja, os setores da escolha pelos pobres firmaram o passo, apesar das hostilidades da cúria vaticana, que já não fazia mais bispos como antigamente.
A globalização econômica e religiosa
Ao final do século XX, foram grandes os desafios da humanidade. Na década de 90, o neoliberalismo atingiu o auge e apareceu como indestrutível; como a fase final da história. A cultura individualista do capitalismo norte-americano invadiu o mundo, inundou a América Latina.
No plano mundial, a globalização ampliou a distância entre ricos e pobres e trouxe significativas mudanças na divisão social do trabalho; aumentou o peso do império norte-americano, a especulação financeira, a violência e a miséria.
A religião ocupa lugar determinante nesta nova cultura. Ela se adequa e oferece receitas de bem-estar e de felicidade. É uma religião light na linha do New Age, sem exigências, com promessas de felicidade imediata, feita de emoções agradáveis. As Igrejas seguem o movimento da sociedade. A geração de jovens que não conheceu as esperanças e os movimentos sociais dos anos 50 e 60 vive a nova cultura sem complexo. Afinal, é a cultura em que eles nasceram.
Não se podem omitir, porém, os avanços tecnológicos positivos e, sobretudo, o surgimento de uma sociedade civil mundial.
Fraquezas e desafios da igreja católica no final do século XX
No que se refere à Igreja Católica, alguns elementos, tais como o fundamentalismo, o integrismo, a cristandade e a perda do profetismo, impediram o cumprimento de sua missão. Em nome de uma tradição e para manter sua influência nas sociedades, opôs-se à separação Igreja e Estado-Nação, ao advento da modernidade, à plena emancipação da mulher, às mudanças democratizadoras da sua própria organização.
Outras dificuldades vêm dos problemas do poder, de querer manter certos privilégios históricos, de influir na vida política, de assegurar a existência do Estado do Vaticano com sua representação oficial pelas Nunciaturas. A tentação de colonizar a vida civil continua presente em círculos importantes de Roma e em dioceses de todo o mundo. Há o perigo, inclusive, de o projeto Evangelização do Novo Milênio, com que a CNBB quer renovar a vida cristã, se transformar em mais uma tentativa de neocristandade.
Paralelamente, entretanto, setores lúcidos conseguem articular fé e política, e colocam a religião a serviço de todos, principalmente das minorias abandonadas e excluídas. O próprio projeto citado acima, poderá transformar-se numa boa oportunidade para multiplicar por 3 ou por 4 as 80.000 CEBs do Brasil.
"Cristãos orgânicos"
Um ponto fundamental nesta reflexão é o papel de segmentos expressivos do catolicismo no relacionamento com os modelos de desenvolvimento vigentes. Não se pode esquecer que grande número de católicos integra as classes dominantes e defende a globalização dirigida pelo capital financeiro, impondo o neoliberalismo, os ajustes estruturais, as regras do Banco Mundial e do FMI. Esses católicos, muitos formados em escolas católicas, são funcionais ao sistema. Talvez ignorem as conseqüências perversas da globalização, expressas na pobreza absoluta e relativa, no desemprego estrutural, na desqualificação e provisoriedade do trabalho, na exclusão social.
Diálogo com outras religiões
No plano do diálogo e da convivência com as outras religiões mundiais, surgiram tensões, especialmente com as de grande crescimento numérico (como o islamismo) e com aquelas que têm um perfil agressivo na conquista de adeptos e nos ataques ao prestígio da Igreja Católica. Também foram tensas as relações com as religiões que atingem setores populares e que abrigam um sincretismo, como as de origem afro-brasileira. Persistem ainda seqüelas dos conflitos do passado com as religiões protestantes históricas.
A publicação da Dominus Iesus pela Cúria Romana, argumentando que a Igreja Católica é a única realmente verdadeira e completa, não expressou o sentimento de vastos contingentes católicos, e pior: trouxe velhos ressentimentos e colocou sérios obstáculos ao entendimento. Nas esferas oficiais, o ecumenismo não avançou muito, mas vem criando raízes nas práticas de ações conjuntas e na convivência em comunidades, como nas CEBs. A imensa dificuldade da Igreja Católica é guardar a sua identidade sem se posicionar como única dona da verdade.
Compromisso social
A involução atual da igreja não a deixa ser sal da terra e luz do mundo. Agora, o desafio está em como permanecer no seu engajamento em prol dos direitos humanos e das lutas pela justiça social, por meio das pastorais sociais, das campanhas da fraternidade, do resgate das dívidas sociais, da atuação em partidos políticos, movimentos sociais, e mesmo dentro dos organismos governamentais.
Este compromisso social mais efetivo estará ameaçado se a Igreja privilegiar movimentos originários do exterior que, em nome da fidelidade estritamente espiritual, adquirem popularidade numa conjuntura de grandes incertezas existenciais e políticas e de extremado individualismo.
A democratização interna da instituição eclesial, revendo, inclusive, as funções papais, é um desafio a ser vencido (Box 1). A Igreja precisa também resguardar o papel específico dos leigos e mudar suas posições anacrônicas sobre a presença da mulher nas instâncias decisórias.
Que cristãos hoje?
Esses problemas, evidentemente, não se inscrevem somente no âmbito da hierarquia católica, mas refletem uma situação mais geral da Igreja. Entre os cristãos, hoje, podemos identificar um grupo formado pelos saudosistas, que acreditam que o futuro já aconteceu, que o melhor está no passado. Querem que todos os católicos fiquem dentro de sacristias, evitem as ruas, as fábricas e os conflitos políticos do presente que estragariam, com certeza, o futuro que deve simplesmente re-criar o passado e reformar o presente.
Outro grupo de cristãos vive o dia-a-dia e olha para o futuro que se faz no presente. Jogam suas vidas no cotidiano. Valorizam o passado sem ficar eternamente olhando pelo espelho retrovisor da vida. Querem também eles experimentar novas receitas na Igreja que se refaz em Cristo a cada dia. Estão próximos das mulheres, dos negros, dos índios e das crianças que vêem e pensam a Igreja e o mundo com outro olhar e maneira de ser. Por isso, o catolicismo deles não é mais infantil, é ecumênico, é crítico e exigente, é dinâmico e, às vezes, discordante (Box 2).
Uma nova estrutura eclesial
Dentro da experiência vivida por estes cristãos, nos últimos cinqüenta anos, uma nova estrutura eclesial vem sendo gerada no Brasil e em outros países da América Latina. A embrionária estrutura pastoral formada pelo tripé CNBB-CEBs-Pastorais, apoiada na sistematização dada pela Teologia da Libertação, representa uma inovação criativa face à antiga estrutura clerical herdada do século XI. Cada um desses elementos tem a sua especificidade e autonomia; mas, na medida em que se articulam criam um espaço eclesial novo.
A CNBB expressa a consciência da grande comunidade católica brasileira e sua influência na sociedade deve-se à articulação com as CEBs e Pastorais Sociais. Hoje, embora o pontificado do papa João Paulo II não revele simpatias pela colegialidade da CNBB, o episcopado brasileiro não se tem curvado à pressão de Roma, resiste à centralização imposta pelo Vaticano e à tentativa sistemática de desmonte da entidade. É inegável, porém, que a CNBB já não tem a influência que tinha no período de 1970 a 1988, quando foi promulgada a Constituição Federal, fruto de um incansável trabalho da Igreja. Atualmente, a CNBB vive uma fase de retração, mas, apesar das tensões internas, ainda é uma das principais instituições com postura crítica no país.
As CEBs congregam pessoas que se organizam para cultivar a fé cristã pela reflexão bíblica em pequenos grupos, e atuar na melhoria das condições do lugar onde vivem. A participação de seus membros em organismos da sociedade civil indica sua penetração capilar na sociedade brasileira. Sua ligação com a CNBB lhes dá a identidade eclesial, mesmo quando não são reconhecidas pelo bispo ou pároco local. Delas vêm a maior adesão aos projetos e propostas da CNBB.
As Pastorais Sociais e organismos equivalentes estabelecem uma ponte entre a Igreja e os setores específicos da sociedade e dão à Igreja incidência sobre os temas de ponta da realidade através de pessoas de liderança e de assessores qualificados.
Esta nova proposta de Igreja, Povo de Deus, tem em si uma potencialidade que não visa oferecer receitas prontas aos complexos e novos desafios éticos da sociedade moderna; mas tem, isso sim, uma nova visão para ensaiar rumos de colaboração e integração com o mundo. Ela entende que só dentro do mundo e da história acontece o processo de salvação (Box 3).
Crise neoliberal e novos tempos
E se faz urgente encarar esses desafios porque, agora, os sinais mudaram de novo. No limiar do terceiro milênio, é a sociedade neoliberal que entra em crise. O dia 11 de setembro de 2001, com os atentados de Nova York e de Washington, pode representar um novo marco histórico, indício do declínio da sociedade ocidental liderada pelos Estados Unidos. Há sinais de uma revolta das massas de excluídos do Terceiro Mundo, tendo à frente novas elites. Estas se manifestam tanto no Primeiro Mundo, como no Terceiro, confirmando o surgimento de uma sociedade civil mundial. Tudo indica que entre os jovens e adolescentes, que agora vão às ruas contra o imperialismo dos Estados Unidos, surgirão lideranças que promoverão novos movimentos populares, provavelmente bem diferentes dos anteriores. Junto a eles um exército de personalidades, técnicos, humanistas, pensadores, ativistas políticos, movimentos populares que o neoliberalismo sempre dizimou e relegou às margens dos centros decisionais, estão se impondo com a força de quem tem propostas e capacidade de encaminhar soluções. Esta perspectiva é bem clara e o Fórum Social Mundial de Porto Alegre não deixa dúvidas.
Pode-se presumir que a Igreja seguirá esses movimentos, porque uma parte dela já está neles e porque, possivelmente, dentre os jovens seminaristas "angélicos", que os atuais métodos de formação pretendem orientar para dirigir uma "Igreja feliz e bem protegida", podem surgir líderes com vocação revolucionária. Quando os povos se organizarem em novas lutas, desta vez, mundiais, haverá cristãos e católicos no meio deles, haverá religiosas, sacerdotes e, possivelmente, alguns bispos, porque os núncios também podem "errar" na escolha dos bispos.
Esse grande processo histórico terá de criar novas estruturas sociais e sistemas de pensamento, novas teologias e modos de agir. A década que se inicia será a da constituição de novas forças sociais. Essas novidades podem aparecer bem antes do previsto, pois a história é mais forte do que os projetos dos homens, e tudo muda.
[*M. Helena G. Pereira: redação e edição. Jornalista, MTPS 11872.
Colaboraram: Luiz Eduardo Wanderley, sociólogo, ex-reitor e professor na PUC-SP; José Comblin, teólogo; Fernando Altemeyer, mestre em ciências religiosas (Louvaina) e professor na PUC-SP; João Batista Libanio, professor de teologia na faculdade jesuíta (Belo Horizonte); Pedro A. Ribeiro de Oliveira, sociólogo, professor na Universidade Católica (Brasília); e Ermanno Allegri, Diretor de ADITAL].
Box 1:
E O FUTURO PAPA?
Por Virgílio Uchôa
É difícil imaginar a figura do papa apenas como autoridade restrita ao serviço da Igreja. Nesta hora histórica, o desafio fundamental é construir a globalização da humanidade, é pensar a missão da Igreja Católica dentro do contexto de diálogo com as religiões e com as pessoas de boa vontade no esforço de criar um novo humanismo. É o desafio de exercer a autoridade como fator de união para fazer do serviço a fonte que legitima o poder.
A sociedade de hoje, cada vez mais, requer pessoas dinâmicas na sua maneira de dar testemunho e de agir e se é difícil pensar num papa como autoridade fora do conjunto dos bispos, mais difícil será imaginá-lo sem a atitude de com-paixão pelo homem e pela mulher, não importa quem sejam.
O Evangelho define a fidelidade de Pedro, homem frágil como qualquer outro, no exercício do poder: "Simão, você me ama...? Cuida dos meus cordeiros..." (Jo. 21, 15).
A autoridade do papa, assim concebida, exige cada vez mais que ele se liberte da figura de chefe de Estado e se comprometa a ser o pastor da humanidade globalizada, angustiada e carente de uma profunda experiência da ternura humana solidária.
Que seja ele alguém capaz de descortinar o novo caminho e de ajudar a recolocar no seu devido lugar o homem e a mulher alienados pela globalização hegemônica do dinheiro, pelo poder autoritário da força e da violência de todos os terrorismos.
[*Virgílio L. Uchôa, da Comissão Brasileira de Justiça e Paz e do Conselho Nacional das Igrejas Cristãs].
Box 2:
IGREJA É ALVO DE CRÍTICAS SEVERAS
Acusada de ter abandonado as populações carentes e excluídas e de discriminar negros, homossexuais e as religiões afro-brasileiras, a Igreja Católica é alvo de severas críticas de diversos representantes da população brasileira. Preconceito, autoritarismo e hipocrisia são expressões usadas pelas pessoas entrevistadas que analisam sua prática, nas últimas décadas, e apontam caminhos que lhe permitiriam resgatar seu compromisso com as populações pobres e marginalizadas.
Para a sem-terra Fátima Ribeiro, do Rio Grande do Norte, a Igreja deveria retomar as deliberações de Puebla, e caminhar junto com as organizações populares, incentivar as pastorais e, inserida no meio do povo, ajudar a organizá-lo para tornar realidade um projeto popular para o Brasil. Fátima salienta o papel fundamental das CEBs nas décadas de 1970 e 1980.
Membro da Pastoral Operária e diretor do Sindicato dos Sapateiros do Ceará, Antônio Caetano da Silva acusa a hierarquia da Igreja de fechar-se para manter o poder e de ignorar o sofrimento das populações trabalhadoras. Na sua opinião, "diante das mudanças que estão ocorrendo em todos os cantos da terra, a Igreja deveria ter a sensibilidade de Jesus e caminhar ao lado dos excluídos. Do contrário, corre o risco de se tornar uma instituição irrelevante para a sociedade".
Outra voz crítica é a de Regina Célia dos Santos Ferrari. Trabalhando como leiga na pastoral há 20 anos na periferia de São Paulo, ela afirma que parte da Igreja sempre esteve ao lado dos pobres, mas, como um todo, ainda não conseguiu propor um projeto que leve os cristãos a uma única prática evangélica. "Oração e ação, esta é a questão", diz Regina Célia, que defende "mudança na estrutura da Igreja, para que todos pratiquem a pastoral da vida".
Embora reconheça algumas contribuições dadas pela Igreja, por exemplo, a Missa dos Quilombos e o trabalho que a Pastoral do Negro desenvolve, Valnízia de Ayra, mãe-de-santo do terreiro do Cobre, em Salvador, reivindica uma atitude mais respeitosa em relação ao candomblé. "A Igreja sempre negou a religião do povo negro e forçou o sincretismo. Mas, soubemos resistir e, até hoje, lutamos contra a intolerância religiosa", disse Mãe Val, como Valnízia é chamada.
Menos contundente em suas críticas, Jonatas Conceição, diretor do Movimento Negro Ilê Aiyê, na Bahia, afirma que a ala progressista da Igreja tem uma relativa aproximação com as entidades negras. Cita como exemplo a parceria entre o Ilê Aiyê e a Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE), que colabora financeiramente com as ações do Projeto de Extensão Pedagógica desde sua criação, em 1995.
Para que esta aproximação se amplie, Jonatas defende a realização de "ações práticas e a abertura de canais de comunicação com os movimentos negros. Nós, afro-descendentes, queremos ser respeitados e aceitos como diferentes culturalmente. Pedir perdão na comemoração dos 500 anos da descoberta do Brasil não basta", afirma. Ainda assim, espera que o Vaticano venha a contribuir para um mundo mais tolerante.
Regina, cujo sobrenome preferiu omitir, ganha a vida com a prostituição. Ligada à Associação das Prostitutas do Ceará, a jovem classifica a Igreja como preconceituosa e diz que só conseguiu batizar um filho porque mentiu. Condena o autoritarismo de Roma, que proíbe o uso de preservativos e o casamento de religiosas/os. "O celibato não deveria ser obrigatório. Se fosse opcional, padres e freiras não seriam forçados a fazer tudo às escondidas, como vemos. Essa hipocrisia denigre a imagem da Igreja, que vem, aos poucos, perdendo seus fiéis".
Apesar de suas restrições, Regina vai à missa aos domingos, outro motivo de críticas. Na sua opinião, as celebrações são repetitivas e raramente se ouve um sermão bem preparado. "Os padres parecem celebrar por obrigação e não por amor", diz ela.
A jovem defende uma Igreja voltada para os pobres, livre de sua pesada estrutura, rica e burocrática, seguindo o exemplo de Cristo. "Se Jesus voltasse e visse como a Igreja é hoje, não iria concordar", assegura.
Box 3:
ESPIRITUALIDADE: O CAMINHO DA COMPAIXÃO
A experiência espiritual do cristianismo é fundamentalmente experiência de alteridade e experiência de um Deus encarnado. Fora destes dados centrais e absolutamente necessários, não há cristianismo. Toda tentativa de escapar disto descaracteriza a espiritualidade cristã. Acreditar que Deus se fez carne implica buscar a experiência e a união com Deus, no seio da humanidade através da carne do "outro" que sofre opressão e injustiça, e cujo rosto revela o Deus que se constitui em seu defensor e advogado.
A espiritualidade cristã, portanto, tem em seu centro o rosto do pobre: ela está longe de ser um fruir das delícias e maravilhas da contemplação dos mistérios eternos. A experiência do cristão nada mais é do que encarnar-se nas angústias do mundo para transformá-lo segundo o coração de Deus. E é por isso que se trata de uma espiritualidade que anda junto com a política e encontra sua origem e sua fecundidade na interpelação feita pela pobreza do outro e pela com-paixão que ela origina.
Este movimento não é apenas ético, mas também místico; elementos estes que não se dissociam na Revelação bíblica e no Cristianismo. É aí que mística e política mostram mais claramente sua possibilidade de integração. Encontrar a Deus é encontrar o mundo e os outros. Fugir do mundo significa afastar-se do próprio Deus. E contemplar a Deus é sinônimo de fazer acontecer o Reino de Deus no meio da realidade, com todas as suas ambigüidades e angústias.
A experiência da relação com Deus e de união com Ele no rosto do pobre, a experiência de padecer com aquele que sofre injustiça e opressão continua sendo, para a espiritualidade cristã, via privilegiada de encontro com Aquele que "não se aferrou à sua igualdade com Deus, mas despojou-se e foi encontrado como um de tantos", conforme a Carta aos Filipenses (2, 5-11). Tomar sobre si o peso e a dor em lugar do outro, em solidariedade com o outro, é não só esforço ascético e voluntarista, mas experiência espiritual das mais profundas e autênticas em todos os tempos, particularmente neste, repleto de injustiça e de violência.
[*Maria Clara L. Bingemer, Professora do Dep. de Teologia da PUC-RJ e Coordenadora do Centro de Fé e Cultura].
Sempre existe uma pré-história
A nova experiência das Comunidades Eclesiais de Base, CEBs e da Teologia da Libertação que a Igreja do Brasil está vivendo, começa nos anos 50. Reinava, na Igreja, uma necessidade forte de renovação, mas o espírito era de quem se preocupa mais com suas questões internas e menos com a sociedade. Existia, por exemplo, um caminho paralelo entre ligas camponesas e sindicatos católicos, Movimento de Educação de Base e metodologia de Paulo Freire. Na mesma linha vai a fundação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, CNBB, em 1952. Movimento de renovação semelhante se deu em meados da década de 1960, quando nasceram as primeiras CEBs, pensadas como alternativas e/ou complementação ao trabalho paroquial.
Novos ventos
Mas, elementos novos entram e se fundem na vida da Igreja. O Concílio Vaticano II (1962-1965) funcionou como elemento-chave para a participação de leigos, abrindo-lhes o acesso à Bíblia, à palavra de Deus. Ganhava força a proposta de uma Igreja povo de Deus. No seu olhar interno, o Concílio pensou uma Igreja plural, flexível e, diante de uma estrutura até então centralizada e clerical, sonhou com uma instituição participativa. Ao olhar para fora, o Concílio comprometeu-se num diálogo com todas as culturas e povos, e com a libertação dos pobres.
Muitos padres e dezenas de religiosos foram procurar novas modalidades de trabalho pastoral nas periferias urbanas e nas zonas rurais, motivados pela opção pelos pobres que surge em Medellín. É em agosto de 1968 que a Conferência Episcopal de Medellín, na Colômbia, reforçando as decisões do Concílio, abre um novo tempo na história da Igreja da América Latina. Exemplo deste impulso inovador registrou-se no Brasil no início dos anos 70. A sociedade era submetida ao Ato Institucional nº 5, que extinguiu as liberdades civis. Sindicatos, movimentos e associações populares já não podiam atuar livremente. Foi nesse período que as CEBs se multiplicaram e abriram as portas para pessoas que, sem participar diretamente de uma prática sacramental, estimulam sua presença nos movimentos de reivindicação.
Começa a tomar corpo a Teologia da Libertação
Um mês antes da Conferência de Medellín, numa palestra na cidade de Chimbote, no Peru, o teólogo Gustavo Gutiérrez lançou a primeira semente da Teologia da Libertação. O texto, publicado em 1969 com o título Rumo à Teologia da Libertação, deu origem ao livro Teologia da Libertação, editado em Lima, em dezembro de 1971.
O momento político que o Brasil vivia, de violenta repressão, funcionou como fermento para a nova teologia. A CNBB que, com o decorrer dos anos e o afastamento de D. Hélder Câmara, como seu secretário-geral, havia se burocratizado, assumiu papel preponderante com a posse de D. Aloísio Lorscheider na presidência, no início dos anos 70. As posições firmes do cardeal nas denúncias de torturas a presos políticos ganharam espaço na imprensa e tiveram o apoio dos bispos.
Teve início um verdadeiro embate entre Igreja e regime militar. Em 1975, a CNBB publicou um documento contundente intitulado Comunicação Pastoral ao Povo de Deus, em que os bispos afirmavam: "Ao cristão é proibido ficar triste e ter medo".
No mesmo ano, realizou-se o 1º Encontro Intereclesial de CEBs. Era a primeira tentativa de se fazer uma sistematização sobre as CEBs, que pode ser resumida numa frase: uma nova forma de ser Igreja e uma nova forma de a Igreja ser. Elas passaram a representar a concretização do Vaticano II, por ser uma presença transformadora do mundo.
É nesse diálogo e na vivência no meio popular que a igreja percebe a necessidade de estar ao lado das pessoas que já estavam lutando por justiça e solidariedade. Essa intuição nova propiciou o surgimento das pastorais sociais, que ganharam expressão nacional com a criação da Comissão Pastoral da Terra (CPT). De início, chamava-se apenas Comissão da Terra. Mas os bispos da Amazônia, e o próprio D. Aloísio, defenderam a inclusão da palavra Pastoral. Configurava-se, na verdade, um olhar novo da Igreja em relação ao mundo, visto não mais como lugar profano, mas como lugar onde Deus se faz presente para caminhar com seu povo e libertá-lo. E foi nesse intercâmbio que a Igreja assumiu sua maior proximidade com o povo. No caso da CPT, por exemplo, com os lavradores. As pastorais sociais, portanto, não surgiram como um trabalho supletivo, e sim como fonte de autenticidade da própria igreja. Enquanto as CEBs se expandiram, formando uma rede de aproximadamente 80 mil comunidades espalhadas por todo o Brasil, as pastorais aglutinaram um número de pessoas muito menor, porém com atuação expressiva, competente e de grande repercussão.
Fundiram-se, assim, até 1977-78, quatro elementos fundamentais: a CNBB, as CEBs, as Pastorais Sociais e a Teologia da Libertação. É neste período que o teólogo Leonardo Boff escreve a obra A Igreja que nasce do povo, e o também teólogo Carlos Mesters publica o livro A flor sem defesa, um ensaio de um novo jeito de ler a Bíblia, a partir do povo.
Evolução e involução
Os anos que se seguiram, até a segunda metade da década de 80, foram de esperança, de construção, de entusiasmo, às vezes, de ingenuidade. Muitos cristãos e não cristãos acreditaram na possibilidade de uma mudança radical e rápida das estruturas sociais e eclesiais. Os caminhos da história, porém, nunca são lineares e o barco de Pedro, desde que se meteu nas tempestades da história, começou a balançar.
E o 11 de setembro de 1973 tinha acontecido e devia ser um marco na história da América Latina. O bombardeio do Palácio de La Moneda e o assassinato de Salvador Allende deviam representar o declínio da revolução social, do socialismo, dos movimentos populares de libertação, da esperança dos pobres e oprimidos, e uma advertência à Teologia da Libertação, que acabava de nascer já condenada. Uma certa ansiedade se espalhou em ondas sucessivas na sociedade e na igreja.
Várias pessoas que fizeram opção pelos pobres por causa de sua força histórica, depois, resfriaram sua atuação; pouco dispostas a compartilhar sua fraqueza. Mas, na sociedade, continuaram crescendo a consciência e a organização e, na igreja, os setores da escolha pelos pobres firmaram o passo, apesar das hostilidades da cúria vaticana, que já não fazia mais bispos como antigamente.
A globalização econômica e religiosa
Ao final do século XX, foram grandes os desafios da humanidade. Na década de 90, o neoliberalismo atingiu o auge e apareceu como indestrutível; como a fase final da história. A cultura individualista do capitalismo norte-americano invadiu o mundo, inundou a América Latina.
No plano mundial, a globalização ampliou a distância entre ricos e pobres e trouxe significativas mudanças na divisão social do trabalho; aumentou o peso do império norte-americano, a especulação financeira, a violência e a miséria.
A religião ocupa lugar determinante nesta nova cultura. Ela se adequa e oferece receitas de bem-estar e de felicidade. É uma religião light na linha do New Age, sem exigências, com promessas de felicidade imediata, feita de emoções agradáveis. As Igrejas seguem o movimento da sociedade. A geração de jovens que não conheceu as esperanças e os movimentos sociais dos anos 50 e 60 vive a nova cultura sem complexo. Afinal, é a cultura em que eles nasceram.
Não se podem omitir, porém, os avanços tecnológicos positivos e, sobretudo, o surgimento de uma sociedade civil mundial.
Fraquezas e desafios da igreja católica no final do século XX
No que se refere à Igreja Católica, alguns elementos, tais como o fundamentalismo, o integrismo, a cristandade e a perda do profetismo, impediram o cumprimento de sua missão. Em nome de uma tradição e para manter sua influência nas sociedades, opôs-se à separação Igreja e Estado-Nação, ao advento da modernidade, à plena emancipação da mulher, às mudanças democratizadoras da sua própria organização.
Outras dificuldades vêm dos problemas do poder, de querer manter certos privilégios históricos, de influir na vida política, de assegurar a existência do Estado do Vaticano com sua representação oficial pelas Nunciaturas. A tentação de colonizar a vida civil continua presente em círculos importantes de Roma e em dioceses de todo o mundo. Há o perigo, inclusive, de o projeto Evangelização do Novo Milênio, com que a CNBB quer renovar a vida cristã, se transformar em mais uma tentativa de neocristandade.
Paralelamente, entretanto, setores lúcidos conseguem articular fé e política, e colocam a religião a serviço de todos, principalmente das minorias abandonadas e excluídas. O próprio projeto citado acima, poderá transformar-se numa boa oportunidade para multiplicar por 3 ou por 4 as 80.000 CEBs do Brasil.
"Cristãos orgânicos"
Um ponto fundamental nesta reflexão é o papel de segmentos expressivos do catolicismo no relacionamento com os modelos de desenvolvimento vigentes. Não se pode esquecer que grande número de católicos integra as classes dominantes e defende a globalização dirigida pelo capital financeiro, impondo o neoliberalismo, os ajustes estruturais, as regras do Banco Mundial e do FMI. Esses católicos, muitos formados em escolas católicas, são funcionais ao sistema. Talvez ignorem as conseqüências perversas da globalização, expressas na pobreza absoluta e relativa, no desemprego estrutural, na desqualificação e provisoriedade do trabalho, na exclusão social.
Diálogo com outras religiões
No plano do diálogo e da convivência com as outras religiões mundiais, surgiram tensões, especialmente com as de grande crescimento numérico (como o islamismo) e com aquelas que têm um perfil agressivo na conquista de adeptos e nos ataques ao prestígio da Igreja Católica. Também foram tensas as relações com as religiões que atingem setores populares e que abrigam um sincretismo, como as de origem afro-brasileira. Persistem ainda seqüelas dos conflitos do passado com as religiões protestantes históricas.
A publicação da Dominus Iesus pela Cúria Romana, argumentando que a Igreja Católica é a única realmente verdadeira e completa, não expressou o sentimento de vastos contingentes católicos, e pior: trouxe velhos ressentimentos e colocou sérios obstáculos ao entendimento. Nas esferas oficiais, o ecumenismo não avançou muito, mas vem criando raízes nas práticas de ações conjuntas e na convivência em comunidades, como nas CEBs. A imensa dificuldade da Igreja Católica é guardar a sua identidade sem se posicionar como única dona da verdade.
Compromisso social
A involução atual da igreja não a deixa ser sal da terra e luz do mundo. Agora, o desafio está em como permanecer no seu engajamento em prol dos direitos humanos e das lutas pela justiça social, por meio das pastorais sociais, das campanhas da fraternidade, do resgate das dívidas sociais, da atuação em partidos políticos, movimentos sociais, e mesmo dentro dos organismos governamentais.
Este compromisso social mais efetivo estará ameaçado se a Igreja privilegiar movimentos originários do exterior que, em nome da fidelidade estritamente espiritual, adquirem popularidade numa conjuntura de grandes incertezas existenciais e políticas e de extremado individualismo.
A democratização interna da instituição eclesial, revendo, inclusive, as funções papais, é um desafio a ser vencido (Box 1). A Igreja precisa também resguardar o papel específico dos leigos e mudar suas posições anacrônicas sobre a presença da mulher nas instâncias decisórias.
Que cristãos hoje?
Esses problemas, evidentemente, não se inscrevem somente no âmbito da hierarquia católica, mas refletem uma situação mais geral da Igreja. Entre os cristãos, hoje, podemos identificar um grupo formado pelos saudosistas, que acreditam que o futuro já aconteceu, que o melhor está no passado. Querem que todos os católicos fiquem dentro de sacristias, evitem as ruas, as fábricas e os conflitos políticos do presente que estragariam, com certeza, o futuro que deve simplesmente re-criar o passado e reformar o presente.
Outro grupo de cristãos vive o dia-a-dia e olha para o futuro que se faz no presente. Jogam suas vidas no cotidiano. Valorizam o passado sem ficar eternamente olhando pelo espelho retrovisor da vida. Querem também eles experimentar novas receitas na Igreja que se refaz em Cristo a cada dia. Estão próximos das mulheres, dos negros, dos índios e das crianças que vêem e pensam a Igreja e o mundo com outro olhar e maneira de ser. Por isso, o catolicismo deles não é mais infantil, é ecumênico, é crítico e exigente, é dinâmico e, às vezes, discordante (Box 2).
Uma nova estrutura eclesial
Dentro da experiência vivida por estes cristãos, nos últimos cinqüenta anos, uma nova estrutura eclesial vem sendo gerada no Brasil e em outros países da América Latina. A embrionária estrutura pastoral formada pelo tripé CNBB-CEBs-Pastorais, apoiada na sistematização dada pela Teologia da Libertação, representa uma inovação criativa face à antiga estrutura clerical herdada do século XI. Cada um desses elementos tem a sua especificidade e autonomia; mas, na medida em que se articulam criam um espaço eclesial novo.
A CNBB expressa a consciência da grande comunidade católica brasileira e sua influência na sociedade deve-se à articulação com as CEBs e Pastorais Sociais. Hoje, embora o pontificado do papa João Paulo II não revele simpatias pela colegialidade da CNBB, o episcopado brasileiro não se tem curvado à pressão de Roma, resiste à centralização imposta pelo Vaticano e à tentativa sistemática de desmonte da entidade. É inegável, porém, que a CNBB já não tem a influência que tinha no período de 1970 a 1988, quando foi promulgada a Constituição Federal, fruto de um incansável trabalho da Igreja. Atualmente, a CNBB vive uma fase de retração, mas, apesar das tensões internas, ainda é uma das principais instituições com postura crítica no país.
As CEBs congregam pessoas que se organizam para cultivar a fé cristã pela reflexão bíblica em pequenos grupos, e atuar na melhoria das condições do lugar onde vivem. A participação de seus membros em organismos da sociedade civil indica sua penetração capilar na sociedade brasileira. Sua ligação com a CNBB lhes dá a identidade eclesial, mesmo quando não são reconhecidas pelo bispo ou pároco local. Delas vêm a maior adesão aos projetos e propostas da CNBB.
As Pastorais Sociais e organismos equivalentes estabelecem uma ponte entre a Igreja e os setores específicos da sociedade e dão à Igreja incidência sobre os temas de ponta da realidade através de pessoas de liderança e de assessores qualificados.
Esta nova proposta de Igreja, Povo de Deus, tem em si uma potencialidade que não visa oferecer receitas prontas aos complexos e novos desafios éticos da sociedade moderna; mas tem, isso sim, uma nova visão para ensaiar rumos de colaboração e integração com o mundo. Ela entende que só dentro do mundo e da história acontece o processo de salvação (Box 3).
Crise neoliberal e novos tempos
E se faz urgente encarar esses desafios porque, agora, os sinais mudaram de novo. No limiar do terceiro milênio, é a sociedade neoliberal que entra em crise. O dia 11 de setembro de 2001, com os atentados de Nova York e de Washington, pode representar um novo marco histórico, indício do declínio da sociedade ocidental liderada pelos Estados Unidos. Há sinais de uma revolta das massas de excluídos do Terceiro Mundo, tendo à frente novas elites. Estas se manifestam tanto no Primeiro Mundo, como no Terceiro, confirmando o surgimento de uma sociedade civil mundial. Tudo indica que entre os jovens e adolescentes, que agora vão às ruas contra o imperialismo dos Estados Unidos, surgirão lideranças que promoverão novos movimentos populares, provavelmente bem diferentes dos anteriores. Junto a eles um exército de personalidades, técnicos, humanistas, pensadores, ativistas políticos, movimentos populares que o neoliberalismo sempre dizimou e relegou às margens dos centros decisionais, estão se impondo com a força de quem tem propostas e capacidade de encaminhar soluções. Esta perspectiva é bem clara e o Fórum Social Mundial de Porto Alegre não deixa dúvidas.
Pode-se presumir que a Igreja seguirá esses movimentos, porque uma parte dela já está neles e porque, possivelmente, dentre os jovens seminaristas "angélicos", que os atuais métodos de formação pretendem orientar para dirigir uma "Igreja feliz e bem protegida", podem surgir líderes com vocação revolucionária. Quando os povos se organizarem em novas lutas, desta vez, mundiais, haverá cristãos e católicos no meio deles, haverá religiosas, sacerdotes e, possivelmente, alguns bispos, porque os núncios também podem "errar" na escolha dos bispos.
Esse grande processo histórico terá de criar novas estruturas sociais e sistemas de pensamento, novas teologias e modos de agir. A década que se inicia será a da constituição de novas forças sociais. Essas novidades podem aparecer bem antes do previsto, pois a história é mais forte do que os projetos dos homens, e tudo muda.
[*M. Helena G. Pereira: redação e edição. Jornalista, MTPS 11872.
Colaboraram: Luiz Eduardo Wanderley, sociólogo, ex-reitor e professor na PUC-SP; José Comblin, teólogo; Fernando Altemeyer, mestre em ciências religiosas (Louvaina) e professor na PUC-SP; João Batista Libanio, professor de teologia na faculdade jesuíta (Belo Horizonte); Pedro A. Ribeiro de Oliveira, sociólogo, professor na Universidade Católica (Brasília); e Ermanno Allegri, Diretor de ADITAL].
Box 1:
E O FUTURO PAPA?
Por Virgílio Uchôa
É difícil imaginar a figura do papa apenas como autoridade restrita ao serviço da Igreja. Nesta hora histórica, o desafio fundamental é construir a globalização da humanidade, é pensar a missão da Igreja Católica dentro do contexto de diálogo com as religiões e com as pessoas de boa vontade no esforço de criar um novo humanismo. É o desafio de exercer a autoridade como fator de união para fazer do serviço a fonte que legitima o poder.
A sociedade de hoje, cada vez mais, requer pessoas dinâmicas na sua maneira de dar testemunho e de agir e se é difícil pensar num papa como autoridade fora do conjunto dos bispos, mais difícil será imaginá-lo sem a atitude de com-paixão pelo homem e pela mulher, não importa quem sejam.
O Evangelho define a fidelidade de Pedro, homem frágil como qualquer outro, no exercício do poder: "Simão, você me ama...? Cuida dos meus cordeiros..." (Jo. 21, 15).
A autoridade do papa, assim concebida, exige cada vez mais que ele se liberte da figura de chefe de Estado e se comprometa a ser o pastor da humanidade globalizada, angustiada e carente de uma profunda experiência da ternura humana solidária.
Que seja ele alguém capaz de descortinar o novo caminho e de ajudar a recolocar no seu devido lugar o homem e a mulher alienados pela globalização hegemônica do dinheiro, pelo poder autoritário da força e da violência de todos os terrorismos.
[*Virgílio L. Uchôa, da Comissão Brasileira de Justiça e Paz e do Conselho Nacional das Igrejas Cristãs].
Box 2:
IGREJA É ALVO DE CRÍTICAS SEVERAS
Acusada de ter abandonado as populações carentes e excluídas e de discriminar negros, homossexuais e as religiões afro-brasileiras, a Igreja Católica é alvo de severas críticas de diversos representantes da população brasileira. Preconceito, autoritarismo e hipocrisia são expressões usadas pelas pessoas entrevistadas que analisam sua prática, nas últimas décadas, e apontam caminhos que lhe permitiriam resgatar seu compromisso com as populações pobres e marginalizadas.
Para a sem-terra Fátima Ribeiro, do Rio Grande do Norte, a Igreja deveria retomar as deliberações de Puebla, e caminhar junto com as organizações populares, incentivar as pastorais e, inserida no meio do povo, ajudar a organizá-lo para tornar realidade um projeto popular para o Brasil. Fátima salienta o papel fundamental das CEBs nas décadas de 1970 e 1980.
Membro da Pastoral Operária e diretor do Sindicato dos Sapateiros do Ceará, Antônio Caetano da Silva acusa a hierarquia da Igreja de fechar-se para manter o poder e de ignorar o sofrimento das populações trabalhadoras. Na sua opinião, "diante das mudanças que estão ocorrendo em todos os cantos da terra, a Igreja deveria ter a sensibilidade de Jesus e caminhar ao lado dos excluídos. Do contrário, corre o risco de se tornar uma instituição irrelevante para a sociedade".
Outra voz crítica é a de Regina Célia dos Santos Ferrari. Trabalhando como leiga na pastoral há 20 anos na periferia de São Paulo, ela afirma que parte da Igreja sempre esteve ao lado dos pobres, mas, como um todo, ainda não conseguiu propor um projeto que leve os cristãos a uma única prática evangélica. "Oração e ação, esta é a questão", diz Regina Célia, que defende "mudança na estrutura da Igreja, para que todos pratiquem a pastoral da vida".
Embora reconheça algumas contribuições dadas pela Igreja, por exemplo, a Missa dos Quilombos e o trabalho que a Pastoral do Negro desenvolve, Valnízia de Ayra, mãe-de-santo do terreiro do Cobre, em Salvador, reivindica uma atitude mais respeitosa em relação ao candomblé. "A Igreja sempre negou a religião do povo negro e forçou o sincretismo. Mas, soubemos resistir e, até hoje, lutamos contra a intolerância religiosa", disse Mãe Val, como Valnízia é chamada.
Menos contundente em suas críticas, Jonatas Conceição, diretor do Movimento Negro Ilê Aiyê, na Bahia, afirma que a ala progressista da Igreja tem uma relativa aproximação com as entidades negras. Cita como exemplo a parceria entre o Ilê Aiyê e a Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE), que colabora financeiramente com as ações do Projeto de Extensão Pedagógica desde sua criação, em 1995.
Para que esta aproximação se amplie, Jonatas defende a realização de "ações práticas e a abertura de canais de comunicação com os movimentos negros. Nós, afro-descendentes, queremos ser respeitados e aceitos como diferentes culturalmente. Pedir perdão na comemoração dos 500 anos da descoberta do Brasil não basta", afirma. Ainda assim, espera que o Vaticano venha a contribuir para um mundo mais tolerante.
Regina, cujo sobrenome preferiu omitir, ganha a vida com a prostituição. Ligada à Associação das Prostitutas do Ceará, a jovem classifica a Igreja como preconceituosa e diz que só conseguiu batizar um filho porque mentiu. Condena o autoritarismo de Roma, que proíbe o uso de preservativos e o casamento de religiosas/os. "O celibato não deveria ser obrigatório. Se fosse opcional, padres e freiras não seriam forçados a fazer tudo às escondidas, como vemos. Essa hipocrisia denigre a imagem da Igreja, que vem, aos poucos, perdendo seus fiéis".
Apesar de suas restrições, Regina vai à missa aos domingos, outro motivo de críticas. Na sua opinião, as celebrações são repetitivas e raramente se ouve um sermão bem preparado. "Os padres parecem celebrar por obrigação e não por amor", diz ela.
A jovem defende uma Igreja voltada para os pobres, livre de sua pesada estrutura, rica e burocrática, seguindo o exemplo de Cristo. "Se Jesus voltasse e visse como a Igreja é hoje, não iria concordar", assegura.
Box 3:
ESPIRITUALIDADE: O CAMINHO DA COMPAIXÃO
A experiência espiritual do cristianismo é fundamentalmente experiência de alteridade e experiência de um Deus encarnado. Fora destes dados centrais e absolutamente necessários, não há cristianismo. Toda tentativa de escapar disto descaracteriza a espiritualidade cristã. Acreditar que Deus se fez carne implica buscar a experiência e a união com Deus, no seio da humanidade através da carne do "outro" que sofre opressão e injustiça, e cujo rosto revela o Deus que se constitui em seu defensor e advogado.
A espiritualidade cristã, portanto, tem em seu centro o rosto do pobre: ela está longe de ser um fruir das delícias e maravilhas da contemplação dos mistérios eternos. A experiência do cristão nada mais é do que encarnar-se nas angústias do mundo para transformá-lo segundo o coração de Deus. E é por isso que se trata de uma espiritualidade que anda junto com a política e encontra sua origem e sua fecundidade na interpelação feita pela pobreza do outro e pela com-paixão que ela origina.
Este movimento não é apenas ético, mas também místico; elementos estes que não se dissociam na Revelação bíblica e no Cristianismo. É aí que mística e política mostram mais claramente sua possibilidade de integração. Encontrar a Deus é encontrar o mundo e os outros. Fugir do mundo significa afastar-se do próprio Deus. E contemplar a Deus é sinônimo de fazer acontecer o Reino de Deus no meio da realidade, com todas as suas ambigüidades e angústias.
A experiência da relação com Deus e de união com Ele no rosto do pobre, a experiência de padecer com aquele que sofre injustiça e opressão continua sendo, para a espiritualidade cristã, via privilegiada de encontro com Aquele que "não se aferrou à sua igualdade com Deus, mas despojou-se e foi encontrado como um de tantos", conforme a Carta aos Filipenses (2, 5-11). Tomar sobre si o peso e a dor em lugar do outro, em solidariedade com o outro, é não só esforço ascético e voluntarista, mas experiência espiritual das mais profundas e autênticas em todos os tempos, particularmente neste, repleto de injustiça e de violência.
[*Maria Clara L. Bingemer, Professora do Dep. de Teologia da PUC-RJ e Coordenadora do Centro de Fé e Cultura].
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