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quarta-feira, 11 de maio de 2011

MATER ET MAGISTRA – 50 ANOS - 15 DE MAIO DE 1961

– Entrevista para o IHU

• Em 2011, completam-se os 50 anos de um dos principais documentos oficiais da Igreja sobre a questão social, a encíclica “Mater et Magistra” de João XXIII. A que conjuntura mundial o Papa buscava se dirigir com esse texto, especificamente nesse momento?

O subtítulo da MM apontava como horizonte de sua conjuntura “a recente evolução da questão social”, tomando como ponto de partida a mensagem de Pio XII, na festa de Pentecostes de 1941, por ocasião do cinquentésimo aniversário da Rerum Novarum de Leão XIII .
Para os vinte anos que se seguiram, João XXIII assinalou mudanças em três diferentes áreas:
1. No campo científico, técnico e econômico: “a descoberta da energia nuclear, as suas primeiras aplicações para fins bélicos e depois a sua utilização cada vez maior para fins pacíficos; as possibilidades ilimitadas abertas pela química aos produtos sintéticos; a difusão da automatização e da automação no setor industrial e no dos serviços de utilidade geral; a modernização do setor agrícola; o quase desaparecimento das distâncias nas comunicações, sobretudo por causa do rádio e da televisão; a rapidez crescente dos transportes; e o princípio da conquista dos espaços interplanetários” (MM 47).
2. No campo social: “a difusão dos seguros sociais e, nalgumas Nações, economicamente desenvolvidas, o estabelecimento de sistemas de previdência social; a formação e extensão, nos movimentos sindicais, duma atitude de responsabilidade perante os maiores problemas econômicos e sociais; a elevação progressiva da instrução de base; um bem-estar cada vez mais generalizado; a crescente mobilidade social e a conseqüente remoção das barreiras entre as classes; o interesse do homem de cultura média pelos acontecimentos diários de repercussão mundial. Além disso, o aumento da eficiência dos sistemas econômicos, em cada vez maior número de Países, evidencia mais ainda os desequilíbrios econômicos e sociais entre o setor agrícola, por um lado, e o setor da indústria e dos serviços de utilidade geral, por outro; e entre zonas economicamente desenvolvidas e zonas menos desenvolvidas no interior de cada País. No plano internacional são mais melindrosos ainda, os desequilíbrios econômicos e sociais entre países economicamente desenvolvidos e Países em via de desenvolvimento” (MM 48).
3. No campo político: “em muitos Países, a participação na vida pública dum número cada vez maior de cidadãos de diversas condições sociais: a difusão e a penetração da atividade dos poderes públicos no campo econômico e social. Acresce, além disso, no plano internacional, o declínio dos regimes coloniais e a conquista da independência política conseguida pelos povos da Ásia e da África; a multiplicação e a complexidade das relações das relações entre os povos e o aumento da sua interdependência; a criação e o desenvolvimento de uma rede cada vez mais estreita de organismos de projeção mundial, com tendência a inspirar-se em critérios supranacionais: organismos de finalidades econômicas, sociais, culturais e políticas” (MM 49).

Por detrás de cada um dos campos mencionados, encontravam-se eventos, alguns dramáticos, outros espetaculares: na área técnica e científica, a entrada do mundo na era nuclear, com o holocausto da população civil de Hiroshima e Nagasaki, nos dias 6 e 9 de agosto de 1945; e sua entrada na era espacial, com o lançamento, em 1957, do Sputnik, o primeiro satélite artificial da terra, e a 12 de abril de 1961, do primeiro homem ao espaço, o cosmonauta soviético, Yuri Gagarin, a bordo da nave Vostok 1.
No campo social, o Papa apontava o papel crescente dos sindicatos na melhoria das condições de trabalho e da previdência social, mas também o desequilíbrio entre um setor agrícola “atrasado” frente à rápida “modernização” da indústria e dos serviços.
Na esfera internacional, acenava já para as desigualdades e tensões entre países desenvolvidos e subdesenvolvidos que estariam no centro da encíclica Populorum Progressio (1967) do seu sucessor, Paulo VI.

No campo político, apontava o abalo dos colonialismos, com a sucessão das independências dos países colonizados pelo império britânico, (Índia e Paquistão, 1947; Sudão, 1956, Gana, 1957, Nigéria, 1960), holandês (Indonésia, 1949), italiano (Líbia, 1951, Somália italiana, 1960), francês (Vietnã, 1954; Tunísia e Marrocos, 1956); espanhol (Marrocos espanhol, 1956). A conferência de Bandung, na Indonésia, em 1955, deu vida ao novo protagonismo internacional de muitas ex-colônias da Ásia e África agrupadas no Movimento dos Países não alinhados, consubstanciando seu desejo de escapar do círculo de ferro da guerra fria que opunha Estados Unidos e União Soviética. O ano de 1960 foi marcado pela tumultuada independência do Congo belga e das colônias francesas africanas (Camarões, Togo, Senegal, Madagascar, Benin, Niger, Burkina Fasso, Costa do Marfim, Chade, Congo Brazaville, Gabão, Mali, Mauritânia), com exceção da Argélia que só foi liberada, após sangrenta guerra que durou de 1954 a 1962. Do ponto de vista eclesial, João XXIII respondeu ao movimento de descolonização africana, de forma rápida e corajosa, substituindo os arcebispos e bispos nomeados dentre os missionários franceses, belgas, ingleses, por uma centena de jovens presbíteros locais, muitos deles apenas entrados em sua terceira década de vida. Ao serem substituídos por bispos africanos, alguns desses bispos missionários estrangeiros na África vieram parar no Brasil, como Mons. José Florisberto Cornelis, monge beneditino belga, arcebispo de Lubumbashi (Elisabethville no Katanga congolês), e que foi acolhido como auxiliar de Salvador na Bahia e, posteriormente, como bispo de Alagoinhas, BA (1974-1986) e Mons. Gérard Milleville, francês, arcebispo de Conakry (1954-1962), na República da Guiné, recebido por Dom Delgado, como se auxiliar, em Fortaleza (CE), em 1964.
Em meio à euforia das independências, a Encíclica já advertia para a sombra insidiosa do neo-colonialismo, sob o disfarce de cooperação técnica e financeira e de ajuda ao desenvolvimento:
“Onde quer que isto se verifique, deve-se declarar, explicitamente, que estamos diante de uma nova forma de colonialismo, a qual, por mais habilmente que se disfarce, não deixará de ser menos dominadora que a antiga, que muitos povos deixaram recentemente. E essa nova forma prejudicaria as relações internacionais, constituindo ameaça e perigo para a paz mundial” (MM 172).
João XXIII prega, ao contrário, uma nova postura de cooperação internacional desinteressada e solidária.


• Quais foram as grandes novidades do documento – em termos eclesiais, econômicos e sociais – e, analisando os percursos históricos desde então, quais foram as suas limitações?

Em termos eclesiais, destacamos três novidades:
- A Igreja apresenta-se, assim o sublinha o próprio título da Encíclica, como Mater et Magistra, Mãe e Mestre. A ênfase, entretanto, recai sobre sua dimensão de Mãe, que mais anima do que reprova, mais corrige do que condena, mais ama do que recrimina. Insiste-se na justiça, mas acompanhada de misericórdia, e faz-se apelo às reservas de altruísmo, bondade e solidariedade presentes nos seres humanos e mesmo nas Nações, contrariando o mote corrente, de corte exclusivista e egoísta de que “Nações não têm amigos, mas só interesses”.
- Antecipa o que será a marca registrada de sua encíclica de dois anos depois, a Pacem in Terris, em que, por primeira vez, um documento pontifício é endereçado não apenas ao “episcopado, ao clero e aos fieis”, mas “a todos os homens de boa vontade”. Dirigindo-se João XXIII a grande multidão de fieis reunidos na Praça São Pedro, no dia 14 de maio de 1961, às vésperas do dia em que deveria ser proclamada a Encíclica, ele deixa escapar quais eram, segundo seu coração, os destinatários da mesma:
“Queremos confessar-vos que o nosso plano era, na verdade, oferecer-vos e a toda a Igreja Católica, justamente no dia do faustíssimo transcurso dos 70 anos da Rerum Novarum – 1891 – 15 de maio – 1961 – este terceiro documento de valor universal, em forma de Carta Encíclica: ampla, solene. Temos a alegria de vos assegurar que a promessa está mantida: a Encíclica está pronta. Mas a solicitude de fazê-la chegar a todos os que acreditam em Cristo e a todas as almas retas espalhadas pelo mundo (grifo nosso), à mesma hora, no texto oficial latino e nas várias línguas faladas, Nos aconselha a retardar um pouco a entrega do texto” .
A preocupação de que texto chegasse, ao mesmo tempo e em todo o mundo, nas diversas línguas, em não apenas em latim, fez com que a Encíclica só fosse divulgada dois meses depois em 15 de julho de 1961. Essa preocupação do Papa, que ele chamou de “solicitude”, demonstra cabalmente que sua Carta Encíclica estava dirigida não tanto aos estreitos círculos eclesiásticos, que presumivelmente podiam ler e entender o latim, mas aos cristãos comuns e, para além das fronteiras da Igreja e dos crentes, a “todas as almas retas, espalhadas pelo mundo”.

- Ao apontar os trabalhadores e os leigos em geral como protagonistas da ação pela transformação das estruturas injustas na esfera econômica e social, o Papa rompe o círculo estreito do mundo eclesiástico. Afirma que a construção de um mundo mais justo é tarefa de todas as pessoas e também das instituições civis nacionais e internacionais, dos Estados e dos sindicatos. É neste sentido que se deve compreender o inusitado apoio oferecido, num documento pontifício, a duas organizações internacionais, a Organização Internacional do Trabalho, a OIT e a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação, a FAO .
Sobre a OIT, assim se expressa o Papa:
“Nem podemos aqui deixar de dirigir nossas homenagens e manifestar nossa estima à Organização Internacional do Trabalho. Há anos ela vem trabalhando, de maneira inteligente e eficaz, para implantar em todo o mundo uma ordem econômica e social conforme as normas de justiça e de humanidade, na qual os legítimos direitos dos trabalhadores sejam reconhecidos e respeitados” (MM 103).
Acerca da FAO declara João XXIII:
“Não podemos deixar de manifestar aqui, a nossa especial estima às iniciativas da instituição conhecida abreviadamente por FAO, que se ocupa do problema da alimentação dos povos e do fomento da agricultura. Com efeito, esta organização se propõe, especialmente, apoiar as relações mútuas dos povos, promover a modernização da agricultura nos países economicamente menos desenvolvidos e, enfim, ajudar os povos vítimas das penúrias da subalimentação” (MM 156) .

- Num plano mais delicado, a MM, aborda a cooperação dos católicos, na construção de um mundo mais justo, com pessoas de outros credos e, ainda, com os que declaram agnósticos ou ateus - leia-se, nas entrelinhas, pessoas engajadas em movimentos sociais e políticos de corte socialista. Naquele momento, era vivo o debate na Itália acerca de uma ”apertura alla sinistra”, “abertura à esquerda”, que propugnava uma aliança entre a Democracia Cristã e o Partido Socialista. No Brasil, era grande a tensão da hierarquia com a JUC (Juventude Universitária Católica), por causa de sua aliança com estudantes de outras forças de esquerda, tendo em vista a conquista nas eleições para a direção da União Nacional de Estudantes (UNE).
Sobre o tema, assim se exprime a Encíclica:
“Os católicos no exercício de suas atividades econômicas e sociais, não raro se relacionam com pessoas que têm uma concepção de vida diferente. Nessas ocasiões, eles devem ter todo o cuidado em permanecer sempre coerentes consigo mesmos, sem admitir concessões que representem qualquer prejuízo para a integridade da religião ou da moral. Por outro lado, mostrem-se solícitos em acolher com equidade e boa vontade, o parecer dos outros, sem referir tudo aos próprios interesses, e estejam prontos a colaborar com lealdade e união de forças (grifo nosso), no que for bom por sua natureza ou redutível ao bem” (MM 239).
A questão é retomada de maneira mais explícita e aberta na Pacem in Terris (157-160), afirmando o dever de os católicos se empenharem na busca da justiça e da paz, tendo para tanto que cooperar com pessoas com outras concepções de vida, militando nos mais diversos espectros políticos:
“A aplicação delas (linhas doutrinais) oferece, por conseguinte, aos católicos vasto campo de colaboração tanto com cristãos separados desta Sé Apostólica, como com pessoas sem nenhuma fé cristã, nas quais, no entanto, está presente a luza da razão e operante a honradez natureza…” (PT 157).
Prossegue a Encíclica com a distinção que se mostrou cada vez acertada e liberadora. O Papa propõe que se distinga o erro, da pessoa que erra e, sobretudo, os movimentos sociais e sua evolução histórica das ideologias que os inspiraram:
“158. Não se deverá jamais confundir o erro com a pessoa que erra, embora se trate de erro ou inadequado conhecimento em matéria religiosa ou moral. A pessoa que erra não deixa de ser uma pessoa nem perde nunca a dignidade do ser humano e, portanto, sempre merece estima. Ademais, nunca se extingue na pessoa humana a capacidade natural de abandonar o erro e abrir-se ao conhecimento da verdade. Nem lhe faltam nunca neste intuito os auxílios da Divina Providência. Quem, num certo momento de sua vida, se encontra privado da luz da fé ou tenha aderido a opiniões errôneas, pode depois de iluminado pela divina luz, abraçar a verdade. Os encontros nos vários setores da ordem temporal, entre católicos e pessoas que não têm fé em Cristo ou têm-na de modo errôneo, podem ser para estes ocasião ou estímulo, de chegarem à verdade.
159. Além disso, cumpre não identificar falsas idéias filosofias sobre a natureza, a origem e o fim do universo e do homem, com movimentos históricos de finalidade econômica, social, cultural ou política, embora tais movimentos encontrem nessas idéias filosóficas a sua origem e inspiração. A doutrina, uma vez formulada, é aquela que é, mas um movimento, mergulhado como está em situações históricas em contínuo devir, não pode deixar de lhes sofrer o influxo e, portanto é suscetível de alterações profundas. De resto, quem ousará negar que nesses movimentos, na medida em que concordam com as normas da reta razão e interpretam as justas aspirações humanas, não possa haver elementos positivos, dignos de aprovação.
160. Pode, por conseguinte, acontecer que encontros de ordem prática, considerados até então inúteis, possam vir a ser amanhã, verdadeiramente frutuosos. Decidir se já chegou tal momento ou não, e estabelecer em que modos e graus se hão de conjugar esforços na demanda de objetivos econômicos, sociais, culturais, políticos, que se revelem desejáveis e úteis, para o bem comum, são problemas que só pode resolver a virtude da prudência, moderadora de todas as virtudes, que regem a vida individual e social. No que se refere aos católicos, compete tal decisão, em primeiro lugar, aos que ocupam cargos responsabilidade nos setores específicos da convivência, em que tais problemas ocorrem, sempre, contudo, de acordo com os princípios do direito natural, com a doutrina social da Igreja e as diretrizes da autoridade eclesiástica” (PT 158-160).

Em termos econômicos e sociais, a novidade da MM foi trazer para o horizonte da questão social, até então, praticamente identificada com a questão operária, os graves problemas do setor agrícola e dos trabalhadores do campo; o grito dos que passam fome, a dificuldade do acesso à terra para os que nela trabalham, os desequilíbrios entre a agricultura, a indústria e os serviços e ainda as injustas disparidades entre países desenvolvidos e países em desenvolvimento, vistas como grave ameaça à paz mundial. O tema será amplamente retomado e desenvolvido seis anos depois por Paulo VI, na Encíclica Populorum Progressio, expresso de maneira lapidar na frase tantas vezes repetida: “O desenvolvimento é o novo nome da paz” .

Levantando-se a questão das limitações da encíclica, vistas a partir de hoje, a mais flagrante talvez, seja sua posição no campo da demografia e da família e na questão do meio ambiente.
Ao tratar do primeiro tema, a Encíclica minimiza o desequilíbrio entre o crescimento da população e os meios de subsistência, dizendo:
“A bem dizer, no plano mundial a relação entre o aumento demográfico e os meios de subsistência não cria graves dificuldades, seja no momento, seja em um futuro próximo” (MM 188).

A Encíclica apostava que o progresso científico e técnico seria capaz de cobrir a demanda por alimentos e outros bens por parte de uma crescente população mundial. Aposta errônea, pois hoje mais de um bilhão de pessoas segue padecendo de fome crônica, embora não fosse de todo disparatada sua previsão. Com efeito, os rendimentos agrícolas mais que triplicaram em muitos lugares, com a extensão da irrigação, o uso de sementes melhoradas, de técnicas de correção e conservação do solo, utilização de fertilizantes e defensivos agrícolas, aplicação da genética na melhoria dos rebanhos e na produção de carne, leite, ovos, etc. Por outro lado, agravou-se a escassez de água doce, visto que a agricultura e pecuária são responsáveis por mais de 85% do seu uso e aumentou enormemente a contaminação do solo, do ar e das águas, plantas, animais e seres humanos pelos agrotóxicos. O uso de organismos geneticamente modificados elevou os riscos para a saúde humana. O controle da cadeia produtiva por parte das grandes multinacionais do agronegócio que produzem sementes transgênicas, fertilizantes e defensivos agrícolas prejudicou ou mesmo alienou a agricultura familiar, vem provocando o desaparecimento da diversidade genética e das sementes caboclas e dificultando o cultivo de produtos orgânicos livres de agrotóxicos. Por sua vez, a produção de alimentos é hoje suficiente para alimentar com folga toda a humanidade, mas o acesso aos mesmos por parte de todos é travado pelo seu alto custo, pela disparidade de renda e pobreza de muitos consumidores, por protecionismos, problemas de transporte e armazenamento e especulação do mercado.

Ao tratar do planeta terra, a Encíclica afirma:
“Além disso, Deus, em sua bondade e sabedoria, ao mesmo tempo em que espalhou pela natureza, uma capacidade quase inesgotável de produzir, dotou o homem de inteligência arguta para que, servindo-se dos meios técnicos adequados, posa transformar os produtos naturais, a fim de satisfazer as exigências e necessidades de sua vida” (MM 190).
Visão ingênua esta sobre a capacidade inesgotável da terra, hoje sobre-explorada e incapaz de refazer-se da degradação a que foi submetida.

É certo que um pouco mais adiante, ao retomar o tema do “crescei e multiplicai-vos” e do “povoai a terra e dominai-a”, a Encíclica introduz uma advertência explícita:
“O segundo desses mandamentos, longe de ter em vista a destruição das coisas, destina-as, ao contrário, à utilidade da vida humana” (MM 197).
Frente à questão demográfica minimizada pela Encíclica, apenas quatro anos depois, o Concílio Vaticano II, tomou posição em favor da paternidade e maternidade responsáveis, admitindo que os esposos “podem achar-se em circunstâncias em que, ao menos, por certo tempo, o número de filhos não deve crescer” (GS 360) e que os governos, dentro dos limites da ética, carregam responsabilidades nesse campo. O Concílio faz ainda apelo aos cientistas, tendo em vista o controle da natalidade:
“Os especialistas em ciência, mormente biológicas, médicas, sociais e psicológicas, podem contribuir grandemente para o bem do matrimônio e da família e a paz das consciências, se, mediante estudos comparados, se esforçarem por esclarecer mais profundamente as condições que favorecem a honesta regulação da procriação humana” (GS 367).

Muitas das perspectivas e portas abertas pelo Concílio foram assumidas pela Encíclica Humane Vitae (1968), na sua primeira parte, em que coloca o amor conjugal e o mútuo afeto entre os cônjuges como o centro do matrimônio, amor ao mesmo tempo fecundo e responsável. Apela para uma paternidade e maternidade responsáveis. Trava, porém, a utilização dos meios chamados “artificiais” de controle da fecundidade e, mais especificamente, da pílula anticoncepcional, considerando legítimo apenas o recurso aos períodos infecundos da mulher. A Humanae Vitae trouxe conflitos de consciência para muitos casais, mas provocou, em seguida, um gradativo e silencioso afastamento de suas normas, comprovado pelo o crescente uso dos meios contraceptivos pela população em geral, incluindo-se os casais católicos praticantes.

. Que impactos a encíclica provocou no Brasil, em seu contexto político, econômico, eclesial e social de então (período pré-ditadura, ligas camponesas, reforma agrária, legalidade etc.), especialmente nas questões da propriedade, da terra e do bem comum?

O país vivia grande efervescência no início dos anos 60, com a inauguração de Brasília, do breve e agitado governo de Jânio Quadros que condecorara Che Guevara e cujo vice-presidente, João Goulart, encontrava-se na China, quando de sua renúncia; inflação galopante e recessão econômica, tanto mais desconcertante quanto o país havia experimentado décadas seguidas de constante crescimento econômico.

A intensa repercussão da encíclica de João XXIII no Brasil e sua pronta recepção pela Igreja local, em que pesem as polêmicas e divisões que suscitou na sociedade e na própria Igreja, só são compreensíveis à luz de três considerações relativas à Encíclica, ao país e à Igreja.
Quanto à encíclica, esta aborda dois problemas até então mantidos na sombra da doutrina social da Igreja, mas que se encontravam no centro do momento histórico brasileiro: o do subdesenvolvimento e o da questão social no campo. Juscelino Kubitscheck (1956-1960) havia convocado a nação a superar seu atraso econômico, crescendo 50 anos em 5. O país cresceu, modernizou-se aceleradamente, mas ao mesmo tempo colocou a nu o profundo empobrecimento do campo, chamado a favorecer a acumulação do capital industrial e a fornecer alimentos a baixo preço para as massas que migraram para as cidades. Aumentaram também as diferenças regionais entre o sul industrializado, urbanizado e enriquecido e um nordeste abandonado e empobrecido. O exemplo explosivo de Cuba e de sua revolução, expropriando os grandes latifúndios e entregando terra aos camponeses repercutiu profundamente no nordeste canavieiro, onde se viviam situações semelhantes de miséria e opressão no campo.
É no contexto, pois, da rápida radicalização no campo e no cenário político urbano, frente ao problema do sub-desenvolvimento e de suas saídas e de crescente envolvimento da Igreja brasileira nos embates sociais, que chega a encíclica Mater et Magistra.
Três episódios permitem colher o clima e as condições em que se dá a recepção da MM na sociedade brasileira e na Igreja. Todos buscam valer-se da palavra do Papa para legitimar posições cada vez mais antagônicas no campo social e político:
1. Os textos pontifícios eram tradicionalmente publicados no país pela Editora Vozes de Petrópolis. A MM sai também publicada por editoras leigas, como a José Olympio, em dois formatos, um popular e outro em dois volumes, com amplos comentários. A encíclica é ainda publicada em jornais de grande circulação e por sindicatos. Conhece ademais edições financiadas por grupos diametralmente opostos no espectro político, por Leonel Brizola, governador do Rio Grande do Sul e líder do PTB e pelo IPES (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais). Sob uma fachada inocente de estudos sociais, o IPES patrocinava a desestabilização do Governo João Goulart. Tentava aglutinar setores importantes do empresariado, tanto nacional quanto internacional e atrair setores da Igreja, das universidades, da grande imprensa e de sindicatos não combativos. Trabalhou intimamente com a CIA e a Embaixada norte-americano, financiando campanha eleitoral de candidatos anti-comunistas através do IBAD (Instituto Brasileiro de Ação Democrática) e preparando o golpe de 1964 que levou o país a sofrer 21 anos de ditadura militar. O IPES foi também um dos responsáveis por preparar projetos “alternativos” de reforma agrária, destinados apenas a bloquear a tramitação do projeto de reforma agrária do Governo Goulart.
Inversamente, no RS, o governador Leonel Brizola, empenhado em iniciar a reforma agrária no seu estado, face às hesitações e tergiversações do congresso nacional, onde a maioria conservadora bloqueava a sua discussão e aprovação, mandou imprimir e distribuir largamente o texto da MM, utilizando-o em sua campanha pela reforma agrária no estado.

2. Enquanto o centenário jornal “O Estado de São Paulo”, tradicional defensor dos interesses da grande propriedade rural e depois industrial e financeira, dizia que a MM consagrava a inviolabilidade do direito de propriedade e por isso condenava a reforma agrária, camponeses sem terra do Rio Grande do Sul, em número de 5 mil, armavam, um grande acampamento em terras públicas no município de Sarandi, Ali, ergueram um grande crucifixo de maneira e levantaram faixas com os dizeres: “Acampamento João XXIII. Somos cristãos. Queremos terras” .

3. Em 1960, reagindo à tímida reforma agrária de Carvalho Pinto no governo paulista, que alocava pequenos lotes de terras públicas ociosas a trabalhadores rurais sem terra, dois bispos, Dom Antônio de Castro Mayer de Campos, RJ e Dom Geraldo Proença Sigaud, na época, bispo de Jacarezinho, PR e, posteriormente, arcebispo de Diamantina, MG, escreveram com o conhecido fundador da TFP (Tradição, Família e Propriedade), Plínio Correa de Oliveira, e com o economista de associações patronais, Luiz Mendonça de Freitas, o alentado volume: Reforma Agrária: Questão de Consciência . O livro descreve toda e qualquer reforma agrária, que tocasse a propriedade da terra, como programa intrinsecamente socialista e anti-cristão. O arcebispo de Goiânia, Dom Fernando Gomes, reagiu á publicação do livro, interpelando os autores, para que explicitassem qual seria a “reforma agrária de inspiração cristã” que estes se diziam dispostos a apoiar. Denunciava, ao mesmo tempo, sua “preocupação absorvente de ver ‘socialismo’ em quase tudo” . Dom Castro Mayer respondeu longamente ao arcebispo, reiterando seus pontos de vista . Dom Fernando voltou a a responder-lhe, valendo-se desta vez da recém-publicada MM e buscando colocar um ponto final na polêmica:
“Quanto às outras considerações do artigo… temos, para júbilo de todos, a palavra autorizada e esclarecedora do Santo Padre, João XXIII, na recente encíclica MM. Que mais poderíamos dizer? Nela, o caminho seguro para a solução dos problemas sociais de nossa época. Nela, em termos altos e definidos, os princípios de uma Reforma Agrária Cristã” .

Na prática, a MM deu vigoroso impulso à linha de compromisso social da Igreja do Brasil e, de modo particular, ao seu crescente engajamento nas questões relativas à reforma agrária, à sindicalização rural e à educação de base no campo .
A 05 de outubro de 1961, a Comissão Central da CNBB publicou declaração programática, tomando por base a MM e aplicando-a à realidade brasileira.
Após manifestar seu regozijo pela publicação da encíclica, diz que a mesma era “oportuna para o mundo e oportuníssima para o caso especial do Brasil” .
Do conjunto dos temas tratados na Encíclica, a CNBB volta-se exclusivamente para o meio rural:
“[…] cuja situação é grave e que mereceu todo um longo capítulo da Encíclica, a propósito de ‘exigências de justiça em relação aos setores de produção’. Dele extraímos um roteiro de atividades que, para os católicos, é um programa ideal, mas que é válido para todos, independentemente de religião” .

A Declaração repassa, resumidamente, os principais tópicos da Encíclica, para concluir com dois blocos de recomendações especiais, voltadas para a situação brasileira:

“Na esperança de ver, quanto antes, aplicadas a nosso meio rural essas diretrizes, merecem-nos recomendações especiais, os seguintes movimentos:

- Ação Católica Rural (ACR), a Juventude Agrária Católica (JAC) e a Liga Agrária Católica (LAC) são dignas de apoio prioritário, traduzido em tempo, interesse e sacrifício. São, por excelência, a presença de Cristo entre os trabalhadores do campo. Ajudar a afirmar a Ação Católica Rural e assegurar ao meio rural mística bastante forte para contrabalançar e superar a mística comunista.

- Sindicalização Rural. A experiência iniciada no Nordeste, de formação de líderes para a sindicalização rural é digna de ser estendida a todos os centros rurais, sobretudo quando agitados por reivindicações justas, mas conduzidas com segundas intenções.
O Secretariado Geral de nossa Conferência está apto a fornecer aos Bispos interessados pelo assunto todos os dados necessários.

- Frentes Agrárias. Sugerimos à dioceses rurais que acompanhem, com o mais vivo interesse, a experiência das Frentes Agrárias surgidas no Paraná e no Rio Grande do sul. Talvez, um dia, se possa pensar na articulação nacional das Frentes.

- Movimento de Educação de Base. Para a divulgação do Roteiro de atividades, como para expansão da JAC, da sindicalização Rural e das Frentes Agrárias, o instrumento providencial que temos em mãos é o Movimento de Educação de Base (MEB), através de Escolas Radiofônicas. Reiteramos nossa confiança no MEB e estamos certos de que, sem educação de base, será vão o esforço de mera recuperação econômica, por mais aparato técnico de que se revista o planejamento.

- Planejamento apostólico. A Comissão Central da CNBB vê, com o maior interesse, as experiências pastorais que se realizam em diversas diocese, dentro da prudência e do zelo apostólico, adaptadas às exigências da hora atual” .

Por outro lado, o documento não esconde sua preocupação com a movimentação dos partidos de esquerda, ao arrepio do tradicional controle da Igreja sobre as populações rurais. Alarmava-se com o sucesso das Ligas Camponesas de Francisco Julião na zona canavieira de Pernambuco e dos estados vizinhos, no Nordeste e denunciava improvável movimento guerrilheiro na região:

“Em face da expansão comunista no meio rural. Os comunistas, no campo ou na cidade, não se interessam realmente pelas soluções. Ao contrário, para eles, quanto pior melhor.
Mas o fato grave que denunciamos é que os agitadores vermelhos, em várias frentes, se preparam para a tática de guerrilhas, de acordo com os melhores exemplos cubanos e chineses.
Assim, como não podemos parar no mero anticomunismo, simplista e contraproducente, não podemos ser ingênuos a ponto de entregar-nos a grandiosos planos de recuperação econômico-social dos meios rurais (alusão às divergências quanto ao trabalho da SUDENE no Nordeste – nota do autor), esquecidos da retaguarda e dos flancos invadidos pelos guerrilheiros. “Em cada diocese, cabe à perspicácia do Pastor descobrir os meios práticos de defender o rebanho” .
Os bispos, ao mesmo tempo em que se posicionam claramente pelas reformas e pelo compromisso da Igreja em sua efetivação, vêem todos os perigos subirem pelo lado da esquerda. É interessante notar que, na mesma época, o principal líder do laicato católico apontava as nuvens que se acumulavam noutro horizonte, com prenúncios de golpe pela direita:
“Ora, quem procura combater a miséria, transformar o regime latifundiário num regime de propriedade rural mais bem distribuída, atender ao que há d justo nos programas socialistas ou comunistas, por em prática a Mater et Magistra e a Pacem in Terris, neutralizar a ação de certos líderes, incorporando-os a um esquema ‘ reformista’ do Governo, está fazendo o oposto do que convém aos totalitários sejam comunistas, sejam neofacistas (…). O perigo neofascista no Brasil, como proclamo há muito tempo, é mais premente do que o perigo comunista” .

A encíclica que havia tirado as questões ligadas ao secular problema do latifúndio e da exploração dos trabalhadores no campo de manifestações isoladas, como a do Bispo de Campanha, Dom Inocêncio Engelke, com sua pastoral de 1950, “Conosco, sem nós ou contra nós, se fará a Reforma Rural”, ou de pronunciamentos regionais, como o do episcopado paulista de 05 de dezembro de 1960, acabou trazendo-as para um amplo debate nacional, como vimos acima .
Ensejou também a mais contundente manifestação do Episcopado Brasileiro sobre o tema, preparada para o dia 1º. de maio de 1963, logo depois da publicação da Pacem in Terris e que abaixo transcrevemos, :

“Ninguém pode desconhecer a situação de milhões de nossos irmãos que vivem nos campos, sem poder participar dos benefícios do nosso desenvolvimento, em condições de miséria que constituem uma afronta à dignidade humana. Sabemos que o simples acesso à erra não é solução cabal para o problema. Mas o julgamos inadiável para a realização do direito natural do homem à propriedade (Pacem in Terris), medida a ser concomitantemente tomada, segundo as condições peculiares das diversas regiões do País, com outras de ordem educacional, técnica, assistencial e creditícia. Para a realização desse imperativo, a desapropriação por interesse social não contraria em nada a doutrina social da Igreja, mas é uma das formas viáveis de realizar, na atual conjuntura brasileira, a função social da propriedade rural. Evidentemente, esta desapropriação, que visa a garantir o exercício do direito de propriedade ao maior número, não pode desrespeitar e destruir este mesmo direito. Daí a necessidade da justa indenização, que deverá ser feita dentro dos critérios da justiça, atendendo às possibilidades do país e às exigências do bem comum. Não cremos constituir um atentado contra o direito de propriedade uma indenização total ou parcialmente em dinheiro ou em títulos da dívida pública., dando-se a estes títulos as garantias de revalorização, de vencimentos e de poder liberatório pelos quais constituam uma adequada compensação pelos bens desapropriados.
Não cabe, entretanto, a nós definir que fórmula, poderá melhor responder às condições atuais da realidade brasileira. Lembramos que, na consecução do objetivo visado, é responsabilidade grave da União e dos Estados dar exemplo e estímulo, começando, desde já, com a distribuição equitativa de suas terras, quando não constituírem reservas patrimoniais, como no caso das reservas florestais preservadoras da flora, da fauna e dos mananciais de água e do regimen das chuvas e do clima ameno. Nem menos urgente é a utilização imediata de latifúndios improdutivos, seja através de uma pesada tributação, seja através de sua repartição oportuna.
Fazemos, porém, uma grave advertência aos responsáveis pelo problema da reforma agrária, que no desempenho de suas funções nunca se deixem levar por paixões pessoais ou políticas, mas tenham sempre em vista os imperativos indeclináveis do bem comum.
Toda nova ordem que se deseja para o meio rural deve obedecer ao princípio “de que os promotores do desenvolvimento econômico, do progresso social, do soerguimento cultural nos meios rurais devem ser os próprios interessados, os agricultores” (Mater et Magistra).

Ao admitir que as desapropriações de terra não precisassem ser pagas, no ato e em dinheiro, como exigiam estridentemente os grandes proprietários, inclusive de terras ociosas e mantidas a título de especulação imobiliária, mas que podiam ser indenizadas em títulos da dívida agrária e a longo prazo, a CNBB se colocava ao lado dos que tentavam viabilizar a reforma agrária desenhada pelo Governo Goulart e ameaçada tanto pela ferrenha oposição ideológica, quanto pela falta de recursos imediatos.



• Como ela foi recebida também por parte da Igreja latino-americana e brasileira? Houve algum tipo de aprofundamento regional das questões evocadas no texto papal por parte da Igreja junto aos governos?

Na Igreja latino-americana as reações não foram, nem podiam ser uniformes. O México já havia passado pela revolução camponesa de Emiliano Zapata, em 1910 e pela reforma agrária de Lázaro Cárdenas na década de 30, com a Igreja sendo mantida longe das questões sociais, desde a violência anti-religiosa do governo de Plutarco Elias Calles (1924-1928) e dos acordos que se seguiram ao levante Cristero; Bolívia havia conhecido sua revolução camponesa e a reforma agrária, em 1953. Na década de 60, à raiz da revolução cubana, por toda a América Latina o tema da reforma agrária estava entrando na agenda social e política dos movimentos sociais e partidos políticos, mas também das Igrejas. Neste clima, foi intensa a repercussão da Mater et Magistra e, em todo o continente. Ela plantou as sementes do amplo movimento de apoio da Igreja aos movimentos camponeses e indígenas que ganhou corpo com Medellín, em 1968. No Brasil, a herança mais fecunda da MM encontra-se na criação e nos trabalhos da Pastoral da Terra, fundada em junho de 1975 e no documento da CNBB,maduro e inovador, em termos de doutrina social da Igreja, A Igreja e os problemas da terra (1980) . Ali se introduz a distinção entre “terra de trabalho” e “terra de negócio”, ao lado da “terra comunitária” dos povos indígenas e se proclama o apoio da Igreja às iniciativas e organizações dos trabalhadores e dos seus movimentos, assim como à reforma agrária e à mobilização dos trabalhadores para exigir sua aplicação.

• A MM foi publicada alguns meses antes da convocação do Concílio Vaticano II, em dezembro do mesmo ano. Que aspectos a encíclica já prediz ou destaca a respeito dos debates que ocorreriam no Concílio diante dos desafios desse período histórico e eclesial?

A Encíclica feriu muito dos temas que foram posteriormente discutidos e aprofundados no Vaticano II. A tomada de posição da Gaudium et Spes sobre o acesso à terra nos países mais pobres, inspira-se diretamente na Mater et Magistra:

“Em muitas regiões economicamente menos desenvolvidas existem grandes ou também extensíssimas propriedades rurais, pouco cultivadas, ou sem cultura alguma, à espera de valorização, enquanto a maior parte do povo não tem terra ou dispões somente de parcela mínimas, e, por outra parte, o desenvolvimento da produção nos campos se apresenta de urgência evidente. Não raro, os que contratados pelos donos para o trabalho, ou que cultivam uma parte a título de locação, recebem somente um salário ou produção indignos do homem, são privados de habitação decente e são explorados pelos intermediários. Sem segurança alguma, vivem debaixo de tal servidão pessoal, que lhes é tirada quase toda a possibilidade de iniciativa e responsabilidade, sendo-lhes proibida qualquer promoção cultural humana e participação na vida social e política. Portanto, em vários casos, as reformas são necessárias para o crescimento das remunerações, o melhoramento das condições de trabalho, o aumento de segurança no emprego, o incentivo à iniciativa de trabalho e, também, a distribuição das terras insuficientemente cultivadas com aqueles que consigam torná-las mais produtivas. Em tal caso, devem ser fornecidos os recursos e meios necessários, sobretudo os subsídios de educação e as possibilidades de uma justa organização de cooperativas. Todas as vezes que o bem comum exigir uma expropriação, deve ser estipulada indenização de acordo com a equidade, levando-se em conta todas as circunstâncias” (GS 438).

Comparecem igualmente na Mater et Magistra e no Concílio, mormente na Gaudium et Spes, outros temas já levantados pela MM, como o do desenvolvimento, cuja critério e medida primeira é o serviço prestado aos homens (MM GS 417); o das exigências de justiça entre os países de desigual desenvolvimento econômico (MM 157-184e GS 421-423), o da solidariedade internacional entre os povos (MM 158-160 e GS 505-507), o da questão demográfica entrelaçada com o desenvolvimento (MM 185-199 e GS 502-504) e vários outros, como a destinação universal dos bens, a função social da propriedade, já recorrentes na doutrina social da Igreja.

DEIXO DE RESPONDER À PERGUNTA ABAIXO, POR ESTAR DE CERTO MODO CONTEMPLADA EM RESPOSTAS ANTERIORES E POSTERIORES
• A MM fundamenta-se em encíclicas anteriores (“Rerum Novarum” e “Quadragesimo Anno”) e também serve de fundamento para textos posteriores (“Pacem in Terris” e “Gaudium et Spes”). Como o senhor analisa, em traços gerais, as questões levantadas por esses documentos oficiais da Igreja e suas interconexões sobre a questão social?

• A partir das idéias defendidas na MM e em suas demais encíclicas, que avaliação o senhor faz da figura de João XXIII dentro do seu contexto histórico? Qual o significado do seu papado e seu legado?

João XXIII é figura maior para a virada de uma Igreja focada menos em si mesma e mais nas necessidades e angústias de toda a humanidade. Ao deslocar o esforço eclesial para estar atento aos sinais dos tempos e para e responder grito dos pobres, escapou da secular armadilha de que bastava enunciar a doutrina correta e condenar os erros, para se resolver os ingentes problemas da humanidade e da Igreja..
O seu papado foi capaz de convocar, abrir e colocar num bom rumo, o Concílio Vaticano II, o mais importante evento eclesial do século XX levado a bom termo por seu sucessor Paulo VI.
João XXIII inseriu a Igreja católica no amplo movimento ecumênico do século XX, abriu o diálogo com os judeus, com os crentes de outras religiões e com os não-crentes, na convicção de que todos os seres humanos fazem parte da mesma família de Deus e têm responsabilidades recíprocas.

Teve decidida atuação em favor da paz, superando os limites, insuficiências e falácias da assim chamada guerra justa, para proclamar com toda clareza que, diante das modernas armas químicas, biológicas nucleares que colocam em risco a sobrevivência da humanidade, nenhuma guerra pode ser considerada justa. Para proteger os fracos de agressões injustificadas pediu o reforço e aperfeiçoamento de instâncias internacionais de diálogo, mediação e superação dos conflitos.


• Desde a publicação da MM até chegarmos à recente encíclica “Caritas in Veritate”, de Bento XVI, que também aborda essa temática, que avaliação o senhor faz do atual ensino social da Igreja? Que aspectos foram corrigidos, aprofundados e ultrapassados desde então? Que outras questões ainda merecem uma atenção maior, diante da contemporaneidade?

A 07 de julho de 2009 Bento XVI publicou, com quase dois anos de atraso em relação à data prevista, sua encíclica social sobre o “desenvolvimento humano integral na caridade e na verdade”. Esta propunha comemorar os 40 anos da Populorum Progressio (1967-2007), e ao mesmo tempo retomar e atualizar seus grandes temas. O projeto entrou em compasso de espera frente a grave crise financeira iniciada em 2007 e precipitada em 2008, convertendo-se na mais grave crise econômica mundial desde o desastre de 1929. Provocou imediato desemprego nas economias centrais e depois nas periféricas, com aumento dos preços dos alimentos e conseqüente recrudescimento da fome no mundo.
“Que Bento XVI tenha recordado na Caritas in Veritate que ‘a fome ceifa ainda a vida de muitíssimos Lázaros impedidos de sentar-se à mesa… do rico epulão” (CV 27), que a reforma agrária siga sendo urgente; que o acesso à alimentação e à água sejam direitos universais de todos os seres humanos sem distinção ou discriminações (CV 27) não é nenhum pleonasmo”, comentava Il Regno no seu editorial de apresentação da encíclica . Recordou ainda que “Dar de comer aos famintos (cf. Mt 25, 35.37.42) é um imperativo ético para toda a Igreja, que é resposta aos ensinamentos de solidariedade e partilha do seu Fundador, o Senhor Jesus. Além disso, eliminar a fome no mundo tornou-se, na era da globalização, também um objectivo a alcançar para preservar a paz e a subsistência da terra” (CV 27).
O Papa reafirmou também o papel reitor da política na esfera econômica, que não pode ser deixada ao sabor das leis cegas do mercado, sem nenhum controle da parte do Estado, e muito menos subtrair-se às exigências da ética, (CV 39 e 45 a 48), ao dever da cooperação internacional e da solidariedade (CV 47). Suas referências deviam ser, de um lado, o bem comum e, de outro, a centralidade da pessoa humana e do seu bem estar material e espiritual (CV 47).
Sublinhou o Papa a necessidade de um sistema global com três sujeitos, o mercado, o Estado e a sociedade, sem a atual ditadura imposta pelo mercado em particular o financeiro, que opera sem qualquer referência às necessidades humanas mais prementes ou ao bem comum da humanidade (CV 38).
Sua novidade maior encontra-se na IV parte, em que aborda o tema da relação dos seres humanos com a natureza e a grave crise ambiental em que está mergulhado o planeta (CV 49-52). Muitos ambientalistas consideraram, entretanto, que o tratamento dado à temática ficou aquém da gravidade e urgência do aquecimento global e de outros desequilíbrios e desastres ambientais.
O tema não fazia ainda parte da agenda global nem da sociedade nem da Igreja, quando foi escrita a Mater et Magistra, em 1961.
Logo depois, em 1972, o Clube de Roma publicou o seu Relatório “Os limites do crescimento”. O relatório tratava de problemas cruciais para o futuro desenvolvimento da humanidade, tais como energia, poluição , saneamento, saúde, ambiente, tecnologia e crescimento populacional. Vendeu mais de 30 milhões de cópias em 30 idiomas, tornando-se o livro sobre as questões ambientais mais vendido da história. Colocou na agenda internacional o tema do desenvolvimento sustentável, além de sua controvertida proposta, hoje tão debatida, de “crescimento zero”.
Além da questão ambiental há uma segunda que vem se tornando crucial, a das migrações. A demanda dos mercados e dos países centrais do capitalismo globalizado por livre circulação de bens, mercadorias, serviços e ativos financeiros vem acompanhada, entretanto, por demanda inversa e de sinal trocado. Estabelecem-se, cada vez mais, restrições e entraves à livre circulação das pessoas e de seus familiares. Barreiras legais e mesmo físicas, com a construção de cercas elétricas e muros de concreto nas fronteiras entre países, acompanhadas de crescente xenofobismo e criminalização dos migrantes, vem sendo a resposta cruel à nova onda migratória mundial, provocada por guerras, desequilíbrios econômicos e, cada vez mais, secas, inundações, contaminações químicas e nucleares e outros desastres ambientais.
Finalmente, o tema da guerra e da paz necessita ser repensado com toda urgência. Há, de um lado, o terrorismo que não respeita alvos civis e ceifa vidas inocentes e, de outro, a “guerra ao terror” movida por governos que se arrogam o direito de agir acima e ao arrepio de qualquer lei e limite, desrespeitando todas as convenções que protegem civis ou prisioneiros, em caso de guerra. As alegadas intervenções “humanitárias” vêm se tornando disfarce cínico e hipócrita para defesa de interesses e posições de poder, em vez de socorro desinteressado a populações civis indefesas frente à brutalidade de estados sem lei, à limpezas étnicas ou mesmo a genocídios programados.
O que mais impressiona, entretanto, numa comparação entre as duas Encíclicas, é que a Caritas in Veritate não provocou, de modo algum, o impacto e o vivo debate suscitados em todo o mundo pela Mater et Magistra. A observação vale tanto para a opinião pública laica, quanto para os ambientes mais internos da Igreja Católica.
Não suscitou tampouco entusiasmos ou iniciativas que levassem a sério as graves questões ali levantadas. Neste sentido, mudaram o mundo, a Igreja e também o tom e a formulação de sua doutrina social, não necessariamente para melhor.

• Deseja acrescentar algo?

A muitos passou provavelmente despercebida a proposta metodológica contida na MM. Na última parte, quando João XXIII passa para as sugestões práticas, traz uma surpreendente proposta:
“236. Pois bem, para se por em prática a doutrina social, passa-se ordinariamente, por três etapas: em primeiro lugar, o estudo da real situação concreta; a seguir, atenta apreciação da mesma à luz dos princípios; finalmente, determinação do que se pode ou deve se fazer, a fim de que as normas dadas possam ser aplicadas, conforme os tempos e os lugares. São os três momentos, habitualmente expressos com as seguintes palavras: ver, julgar e agir (grifo nosso)” (MM 236).

Foi a primeira vez que um documento pontifício recomendou o método fecundo da JOC (Juventude Operária Católica) de Joseph Cardijn e que inverte o caminho até então seguido de se derivar da doutrina e não do atento exame da realidade, a reflexão bíblico-teológica e as propostas de ação.

Desta recomendação, avançou depois João XXIII em sua proposta, com o apelo para se estar atento aos “sinais dos tempos”, já que Deus nos fala no hoje da história e interpela-nos por meio da realidade e dos acontecimentos.
Para cada uma das quatro partes da Pacem in Terris, são apontados os respectivos “sinais dos tempos: 1ª. parte: 39-45; 2ª. parte: 75-78; 3ª. parte: 126-129; 4ª. parte: 142-145. Bem conhecidos ficaram os sinais do tempo que João XXIII alinha para primeira parte da Encíclica:
“39. Três fenômenos caracterizam a nossa época.
40. Primeiramente a gradual ascensão econômico-social das classes trabalhadoras…
41. Em segundo lugar, o fato, por demais conhecido. do ingresso da mulher na vida pública…
42. Notamos, finalmente, que, em nossos dias, evoluiu a sociedade humana para um padrão social e político completamente novo. Uma vez que todos os povos já proclamaram ou estão para proclamar a sua independência, acontecerá dentro em breve que não existirão povos dominadores e povos dominados.
43. As pessoas de qualquer parte do mundo são cidadãos de um Estado autônomo ou estão para o ser”… (PT 39-43).

Finalmente, o método foi plenamente acolhido no Concílio, durante a elaboração da Gaudium et Spes, cujo proêmio é claro exemplo desta mudança de paradigma na reflexão teológica e na apresentação da doutrina, sempre subordinada à pastoralidade, objetivo último de toda ação da Igreja:
“As alegrias e esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem, são também as alegria e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo. Não se encontra nada verdadeiramente humano que não lhes ressoe no coração” (GS 200).

Três anos depois, na América Latina, todos os 16 documentos da II Conferência Geral do Episcopado Latino-americano em Medellín (1968) assumiram esse itinerário metodológico, que foi logo depois seguido e amplamente aprofundado e teorizado pela Teologia a Libertação.

José Oscar Beozzo - São Paulo, 12 de maio de 2011

terça-feira, 10 de maio de 2011

10 DE MAIO - MARTÍRIO DE PE. JOSIMO

"Tenho que assumir.
Estou empenhado na luta pela causa dos lavradores indefesos,
povo oprimido nas garras do latifúndio.
Se eu me calar, quem os defenderá?
Quem lutará em seu favor?
Eu, pelo menos, nada tenho a perder.
Não tenho mulher, filhos, riqueza...
Só tenho pena de uma coisa: de minha mãe, que só tem a mim
e ninguém mais por ela.
Pobre.
Viúva.
Mas vocês ficam aí e cuidam dela.
Nem o medo me detém.
É hora de assumir.
Morro por uma causa justa.
Agora, quero que vocês entendam o seguinte:
tudo isso que está acontecendo é uma conseqüência lógica do meu trabalho na luta e defesa dos pobres, em prol do Evangelho, que me levou a assumir essa luta até as últimas conseqüências.
A minha vida nada vale em vista da morte de tantos lavradores assassinados, violentados, despejados de suas terras, deixando mulheres e filhos abandonados, sem carinho, sem pão e sem lar".
Pe. Josimo Tavares

domingo, 8 de maio de 2011

Teologia e Libertação: cruzando fronteiras


Luiz Carlos Susin
Secretário Geral do Fórum de Teologia e Libertação


A quarta edição do Fórum Mundial de Teologia e Libertação aconteceu de 05 a 11 de fevereiro de 2011 em Dakar, a cosmopolita cidade africana banhada de sol e de mar na ponta oeste do continente. Como é costume, o fórum de teologia acompanha o Fórum Social Mundial. É a primeira edição a acontecer em um país de grande maioria muçulmana, cerca de 95% da população. Para um fórum de teologia com perspectiva libertadora, tal condição social representa um desafio especial, ou seja, a questão do pluralismo religioso junto com o pluralismo cultural, e o diálogo interreligioso que se impõe, sem perder a relação com as realidades econômicas, sociais e políticas em que se manifestam as diferentes experiências e expressões religiosas.
Entre o planejado e o realizado, também nesta edição do Fórum aconteceram muitas surpresas. Para quem quer fazer teologia a partir de uma escuta atenta da realidade, a própria realidade se impôs mais uma vez, obrigando a mudar posturas e planejamentos, e a aceitar outras maneiras de se relacionar com o tempo e com o espaço. Dakar convidou também a experimentar as inesperadas riquezas locais, e a ser criativos nas respostas. Pois se está em meio a gente tipicamente africana, sempre pronta para uma conversa, para um sorriso largo de hospitalidade, a famosa Tengara senegalesa. Esta foi, para os participantes do fórum, a primeira lição da realidade, o povo e a cidade de Dakar. Há uma canção brasileira que celebra antecipadamente a utopia de um mundo novo dizendo: “Na nova terra, o negro, o índio, o mulato, o branco e todos vão comer do mesmo prato”. Bem, em Dakar, seguindo a tradição das famílias locais, os participantes do Fórum vindos de diversos continentes, comiam, no almoço, todos “do mesmo prato” – literalmente.
Outra lição, de ordem histórica, foi a visita à bela ilha de Gorée, bem em frente de Dakar. É um monumento perturbador, memória da partida sem volta de milhões de africanos, homens, mulheres e crianças, agarrados e roubados em suas aldeias, separados de suas famílias, de suas línguas maternas, de suas crenças religiosas, tratados como peças de mercado pelos europeus e levados às colônias nas Américas para todo tipo de trabalho escravo, do qual se extraíram e se produziram riquezas, naturais e agrícolas, para as metrópoles na Europa. Desse violento triângulo mercantilista nasceu a modernidade real, encoberta pelos belos discursos iluministas. Em Gorée, uma das inúmeras “casas de escravos” está bem restaurada como memória. Curiosamente também uma das casas de escravos é hoje casa do presbitério local.
O fórum de teologia, propondo-se uma maior integração com o Fórum Social Mundial, ofereceu e participou de workshops no dia dedicado inteiramente à África e no dia seguinte, levando em conta tanto a África continental como também a África da Diáspora mundo afora. Aprendemos que África, com sua imensa diversidade, é uma herança e um modo de ser, mesmo para além do continente.
No entanto, dois limites se impuseram ao fórum, um de ordem política ao fórum social e outro de ordem religiosa ao fórum teológico. Algum tempo antes da realização do fórum social, a universidade pública Cheikh Anta Diop, contratada para ser o espaço do evento, sofreu uma mudança de reitoria que repercutiu na organização do fórum. Como as aulas do semestre não foram mais suspensas, foi necessário improvisar os espaços, e o atraso da publicação dos mesmos foi fatal tanto para a oferta como para a procura dos workshops. Em outras palavras, acabamos ficando apenas “entre os iguais”.
Para as atividades de teologia, houve um agravante, o segundo limite: os muçulmanos convidados não compareceram ao diálogo previsto, e uma das razões pode ter sido a confusão reinante em termos de agenda e espaços. Para um fórum de teologia que se realiza num país majoritariamente muçulmano propondo-se um exercício de diálogo interreligioso, ficar “entre os iguais” e não conseguir vencer a barreira dos imprevistos dá muito que pensar. Foi uma lacuna que deixou participantes nervosos. Alguns participantes, partindo de suas experiências, afirmavam o que, por exemplo, Moltmann já tinha observado: o diálogo entre tradições religiosas supõe interesse pelo outro, mútuo interesse. E os muçulmanos não parecem interessados em conhecer a tradição cristã. Outros consideraram que o fato de os muçulmanos serem imensa maioria no país coloca a questão sobre os países de imensa maioria cristã: o que acontece quando se é maioria ou minoria? De qualquer forma, a questão era mais prática e talvez prosaica: um problema de comunicação, de agenda e de organização entre mundos diferentes. Observar, porém, como se dão as relações de convivência entre a grande maioria muçulmana e a minoria cristã, no Senegal, é uma lição inesquecível. A minoria cristã apresenta boas escolas e uma especial atenção à saúde, o que lhes é retribuído com reconhecimento e respeito por parte da maioria muçulmana.
O cânone da “vida” vem antes de todos os outros cânones.
O fórum de teologia desenvolveu um seminário nos dias em que o Fórum Social Mundial dedicava tempo para assembléias por focos de interesse. O seminário, como era previsto, se tornou o ponto alto do foro de teologia. Seu objetivo era a discussão sobre qual epistemologia, quais categorias, quais linguagens e quais os métodos mais adequados para dar conta da complexidade “mundial” de nosso tempo e dos próximos anos. O seminário foi tomado por uma acalorada tensão entre o cotidiano local, ou seja, a grande variedade de contextos, e as questões globais, sistêmicas, que afetam o local. Hoje, o cotidiano da vida de um povo no interior de um país “menor” também se vê afetado pelas grandes inovações da tecnologia, do mercado e do consumo que, inevitavelmente, devastam sua condição cultural e religiosa, manipulando inclusive suas mentes e seus desejos.
Diante disso, a pluralidade de elementos que constituem o labor teológico obriga a uma ordem de prioridade, lugares teológicos prioritários que se tornam os primeiros e mais fundamentais princípios hermenêuticos. Na ordem clássica dos loci theologici a fonte originária da Palavra de Deus se encontra, em primeira lugar, na Escritura. A Tradição e o Magistério se fundam e desenvolvem a revelação das Escrituras. Segundo Melchior Cano, os “fatos da história” seguem depois como loci alieni, emprestados de fora, por não serem próprios do “depósito” cristão. Pois o Fórum, herdeiro da reflexão teológica dos últimos cinqüenta anos, foi enfático em “virar a ordem”, colocando como primeiro lugar teológico a vida de carne e osso, a vida cotidiana, a vida compartilhada, a vida dos povos desde onde se faz teologia. O fórum entendeu o necessário enraizamento e a pertença do teólogo e da teóloga a uma comunidade de fé não em primeiro lugar como uma confessionalidade, menos ainda como uma instituição eclesiástica, mas uma comunidade de vida, a vida do seu povo. Essa relação visceral com a vida do povo, suas lutas e esperanças, seus sofrimentos e festas, é o chão primeiro da revelação divina, da salvação em processos de libertação, desde o qual a Escritura ganha nova luz, pode ser discernida com o critério de “dar vida e vida em abundância”. Sublinhou-se, por exemplo, que há textos bíblicos que ensinam como não se dá vida, como não é mais possível seguir da mesma maneira para entender o Deus que quer a vida de seu povo. E, por outro lado, há textos ou narrativas orais fora das Escrituras judaicas e cristãs, que também inspiram vida e vida em abundância. Não importa se provém do que chamamos de grandes tradições religiosas ou de pequenos grupos, uma vez que sua qualidade não depende da quantidade de pessoas que portam estas tradições.
Portanto, em outras palavras, o primeiro “cânone” não é a Escritura, é a vida. O fórum acentuou de forma muito incisiva este cânone prioritário, inclusive para a criação epistemológica. O cânone da “vida” reconhecida, liberta e libertadora, permite que abramos este prioritário lugar teológico para as diferentes tradições religiosas dos povos, para o pluralismo religioso, para considerar a religião “do outro”. É na relação com a vida dos povos, em suas contradições e esperanças, que as diferentes Escrituras, como também os ensinamentos e narrativas orais, podem ser boas novas, sempre enquanto notícias de vida. Cria-se, então, a sinergia própria do círculo hermenêutico “Vida-Palavra” e “Palavra-Vida”, mantendo-se a vida como referente e critério hermenêutico. Nesse círculo se colocam os diferentes níveis de experiências, “texturas”, contextos, textos, sabedoria e, claro, também conceitos e sistemas de pensamento, nessa ordem. Partir dos conceitos, ou seja, da doutrina, da dogmática, da exegese, é possível, mas difícil e mais perigoso. O que devia ser um círculo pode paralisar no meio do caminho e se evaporar na abstração.
A opção preferencial pelos pobres, nascida de um coração pastoral tocado pelo clamor de vida dos mais frágeis, tornou-se também coração claro e firme de uma teologia em perspectiva de libertação. Para se manter com rigor e menor risco na verdade deste critério, não faltou quem ilustrasse, mais de uma vez e insistentemente, com a tensão que se deve manter entre a opção preferencial pelos pobres e a universalidade da boa nova cristã. Partir da universalidade pode ser uma desculpa e uma traição: “Amar a todos” é frequentemente, na verdade, desculpa para “amar ninguém”! Só o amor que se concretiza em prioridades sai da abstração do “todos”, da universalidade abstrata e ineficaz. Amar com prioridade é o que faz uma mãe, segundo um antigo provérbio árabe: prefere o doente até que fique sadio, prefere o que está longe até que chegue, prefere o menor até que cresça. Por isso, num mundo mais globalizado, em que é necessário ter em conta os grandes sistemas que pretendem organizar a vida, a prioridade, no entanto, é local, regional, contextual, na sua diversidade, na riqueza da biodiversidade humana, inclusive a biodiversidade religiosa, a “hierodiversidade”. Afinal, como se sabe, Jesus não veio trazer uma nova religião mas uma boa notícia para quem precisa de libertação. A partir da boa notícia se compreende quem é Deus.
A volta do político recalcado
Por outro lado, nos dias do foro assistimos com atenção, no mesmo continente africano, as mobilizações do povo egípcio, que se seguiu ao do povo tunisiano, num efeito em cascata ainda incerto mas em direção a mais e melhor democracia na região árabe. É sabido que há, nessas mobilizações, uma liderança jovem, com tecnologias de comunicação que tornam transparentes tanto a verdade das instituições como a necessidade de comunidade para abrir futuro. Esse movimento acontece também, de forma mais discreta, em diversos países da América Latina, com protagonismo popular, especialmente indígena. Nessas regiões, apesar do que se disse de encolhimento do Estado e expansão do mercado respaldado pela ideologia neoliberal, está de volta a política. O fórum levou em conta o lugar da política na boa notícia de libertação, e portanto, na teologia com perspectiva de libertação.
A política global a partir dos pobres, das regiões que perdem na globalização, obriga a pensar mais seriamente a força do “Império”. O fórum dedicou um tempo para esclarecer e debater o que se pode entender por “império” nas atuais condições de comunicação, de mercado, de uso não sempre de força bruta mas muito de sedução, de colonização das subjetividades e das culturas, e também colonização das expressões religiosas. É dentro desse grande sistema que se explica o mimetismo fascinante das igrejas que reúnem o trinômio “templo, teatro e mercado”.
Não há opção preferencial pelos pobres e nem pela vida como cânone primeiro de toda boa teologia se não houver atenção a esta outra ponta, sistêmica, da política e da economia. Como a vida não pode ser somente protegida, mas também cultivada, produzida, a economia e a política interessam uma teologia que pretende ajudar na boa notícia de vida. Inclusive as questões de gênero, sobretudo a libertação da mulher em um mundo que continua sendo marcado pelo kyriarcalismo. O Fórum Social Mundial de Dakar foi uma verdadeira vitrine do empoderamento das mulheres organizadas mundo afora nas questões de segurança alimentar, de renda familiar, de saúde, de políticas públicas. As mulheres se revelam as protagonistas do cotidiano da vida em suas expressões mais concretas, mas isso não corresponderia a uma boa notícia de libertação se não forem também consideradas no âmbito mais global da política e da economia. A migração e o tráfico de pessoas são sintomas massivos e mundiais em que as mulheres são as mais afetadas, e essas realidades dão o que pensar também para a teologia. Evidentemente, o fórum de teologia sentiu na carne a sua responsabilidade quanto às questões religiosas nesse contexto mundial para que a experiência religiosa seja alma de processos libertadores e portadores de vida.
Maior interação em rede
Um fórum é um evento de um processo. Depois de Porto Alegre (2005), de Nairóbi (2007), de Belém (2009) e de Dakar (2011), o processo continuará com mais maturidade. Compromissos institucionais, eclesiais, contextuais e regionais precisam ser levados adiante, mas o fórum “mundial” pretende cruzar fronteiras, criar uma comunidade teológica mundialmente aberta, e isso porta a necessidade de intensificar a interação em rede, de forma amplamente ecumênica, em abertura ao diálogo interreligioso. Esta é a forma capaz de respeitar as diferenças e criar laços e mútuo enriquecimento para que outro mundo seja possível, segundo o teológico e messiânico slogan do Fórum Social Mundial. Em Dakar sugeriu-se mais ousadia na criação de fóruns locais e no uso inteligente da Internet.

(Currículum Vitae e endereço:)
Luiz Carlos Susin, frade capuchinho e doutor em teologia, é membro do Comitê de Redação da Revista Concilium. É atualmente Secretário Geral do Fórum Mundial de Teologia e Libertação. Compõe a Equipe de Reflexão Teológica da Conferência dos Religiosos do Brasil. Foi presidente da Associação de Teologia e Ciências da Religião do Brasil (Soter). Trabalha regularmente na Faculdade de Teologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e na Escola Superior de Teologia e Espiritualidade Franciscana. Entre seus livros está A Criação de Deus, São Paulo: Paulinas, 2003.
Endereço: Rua Juarez Távora, 171 – Porto Alegre-RS – 91520-100 – Brasil
Email: lcsusin@pucrs.br
http://www.lcsusin.com/?p=466

sábado, 7 de maio de 2011

La beatificación de Juan Pablo II

Se escenifica otro capítulo de la evolución de Benedicto XVI desde el neoconservadurismo al integrismo. El Papa continúa la obra de desmantelamiento del Vaticano II que inició bajo la sombra de su predecesor

EL PAIS - ESPAÑA - JUAN JOSÉ TAMAYO 30/04/2011

Mañana, 1 de mayo de 2011, Benedicto XVI beatificará a su predecesor Juan Pablo II. Desde su anuncio, esta beatificación ha causado malestar y sorpresa en importantes sectores de la Iglesia católica. Entiendo el malestar, ya que no pocas de las actuaciones de Juan Pablo II fueron todo menos ejemplares e imitables como se espera de una persona a quien se eleva a los altares y se presenta como modelo de virtudes para los cristianos. Me refiero a su manera autoritaria de conducir la Iglesia, a su rigorismo moral, el trato represivo dado a los teólogos y las teólogas que disentían del Magisterio eclesiástico -muchos de los cuales fueron expulsados de sus cátedras y sus obras sometidas a censura-, al silencio e incluso la complicidad que demostró en los casos de pederastia, especialmente con el fundador de los Legionarios de Cristo, Marcial Maciel, a quien dio siempre un trato privilegiado con el beneplácito del cardenal Ratzinger, su brazo derecho, etcétera.
Lo que no encuentro justificada es la sorpresa. Con esta beatificación, Benedicto XVI no ha hecho otra cosa que poner en práctica el viejo refrán: es de bien nacidos ser agradecidos. La elevación de Karol Wojtyla al grado de beato es la mejor muestra de agradecimiento que podía rendir a su predecesor, que le nombró presidente de la Congregación para la Doctrina de la Fe y le concedió un poder omnímodo en cuestiones doctrinales, morales y administrativas. Más aún, fue Juan Pablo II quien le allanó el camino nombrándolo sucesor in péctore. ¿Cómo el Papa actual no iba a beatificar al autor de tamaño ascenso en el escalafón eclesiástico?
Si no hubiera sido por Juan Pablo II, Joseph Ratzinger sería hoy un arzobispo emérito sin relevancia alguna. Pero quiso el destino que el papa polaco llamara al arzobispo alemán a su lado y le nombrara Inquisidor de la Fe, para que la vida del cardenal Ratzinger diera un giro copernicano. Durante casi un cuarto de siglo fue el funcionario más poderoso de la curia romana por cuyas manos pasaban los asuntos más importantes del orbe católico, desde el control de la doctrina hasta los casos de pederastia sobre los que decretó el más absoluto secreto, imponiendo a víctimas y verdugos un silencio que le convirtieron en cómplice y encubridor de delitos horrendos contra personas indefensas.
Juan Pablo II y el cardenal Ratzinger vivieron un idilio durante casi cinco lustros con un reparto de papeles que siempre respetaron. El primero, con vocación de actor desde su juventud, ejerció esa función a la perfección, se convirtió en uno de los grandes actores del siglo XX y recibió los aplausos de millones de espectadores de todo el mundo desde su elección papal hasta su entierro. El segundo ejerció el papel para el que estaba especialmente capacitado, el de ideólogo y guionista de la obra que le tocaba representar al papa y que puso por escrito en el libro-entrevista Informe sobre la fe, cuya idea central era la restauración de la Iglesia católica.
El guión incluía la revisión del concilio Vaticano II y el cambio de rumbo de la Iglesia católica, el restablecimiento de la autoridad papal, devaluada en la etapa posconciliar, la afirmación del dogma católico, la nueva evangelización, la recristianización de Europa, la vuelta a la tradición, el freno a la reforma litúrgica, la confesionalidad de la política y de la cultura, la defensa de la moral tradicional en toda su rigidez en materias que hasta entonces eran objeto de un amplio debate dentro y fuera del catolicismo, como la familia, el matrimonio, la sexualidad, el comienzo y el final de la vida, etcétera.
El panorama eclesial descrito por el cardenal Ratzinger en la entrevista con Vittorio Messori, publicada luego como libro bajo el título antes citado Informe sobre la fe, no podía ser más sombrío: "Resulta incontestable que los últimos 20 años han sido decisivamente desfavorables para la Iglesia católica. Los resultados que han seguido al Concilio parecen oponerse cruelmente a las esperanzas de todos, comenzando por las del papa Juan XXIII y, después, las de Pablo VI. Los cristianos son, de nuevo, minoría, más que en ninguna otra época desde finales de la antigüedad. Los papas y los padres conciliares esperaban una nueva unidad católica y ha sobrevenido una división tal que -en palabras de Pablo VI- se ha pasado de la autocrítica a la autodestrucción. Se esperaba un nuevo entusiasmo, y se ha terminado con demasiada frecuencia en el hastío y en el desaliento. Esperábamos un salto hacia adelante, y nos hemos encontrado ante un proceso progresivo de decadencia que se ha desarrollado en buena medida bajo el signo del presunto espíritu del Concilio, provocando de este modo su descrédito".
Dentro del guión entraba el cambio en la política de nombramiento de obispos, sin la cual no podía llevarse a cabo la restauración eclesial diseñada al unísono por Juan Pablo II y el cardenal Ratzinger. Poco a poco fueron sustituidos los obispos conciliares por prelados preconciliares, los obispos comprometidos con el pueblo dieron paso a obispos cuya preocupación principal era la ortodoxia, los obispos vinculados a la teología de la liberación dieron paso a los obedientes a Roma. De esa manera se garantizaba el éxito de la nueva estrategia neoconservadora.
Wojtyla y Ratzinger se conocían desde la época del concilio Vaticano II, en el que ambos participaron, el primero como obispo, el segundo como asesor teológico del cardenal Joseph Frings, arzobispo de Colonia. Wojtyla se alineó con el sector conservador. Ratzinger estuvo del lado del grupo moderadamente reformista. Ambos dieron su apoyo a los documentos conciliares. Se esperaba por ello que, ubicados posteriormente en los puestos de la máxima responsabilidad eclesiástica, llevaran a la práctica las reformas aprobadas por el Vaticano II en los diferentes campos del quehacer eclesial: vida y organización de la Iglesia, teología, liturgia, recurso a los métodos histórico-críticos en el estudio de los textos sagrados, diálogo con el mundo moderno, presencia de la Iglesia en la sociedad y, sobre todo, la creación de la "Iglesia de los pobres", propuesta estrella de Juan XXIII. No fue ese, sin embargo, el camino seguido por Juan Pablo II y Benedicto XVI.
Cuando accedieron al papado fueron desmontando poco a poco el edificio construido por los padres conciliares entre 1962 y 1965 y alejándose del proyecto de Iglesia diseñado cuidadosamente en las cuatro Constituciones, los nueve Decretos y las tres Declaraciones que conforman el Magisterio conciliar.
El giro no podía ser más notorio: se pasó de la Iglesia pueblo de Dios y comunidad de creyentes a la Iglesia jerárquico-piramidal, de la corresponsabilidad al gobierno autoritario, del pensamiento crítico al pensamiento único, de la autonomía de las realidades temporales a su sacralización, de la secularización al retorno de las religiones, de la autonomía de la Iglesia local a su control, de la jerarquía como servicio a la jerarquía como ejercicio de poder, de la teología como inteligencia de la fe en diálogo con otros saberes a la teología como glosa del Magisterio eclesiástico, de la ética de la responsabilidad al rigorismo moral, del diálogo multilateral al anatema.
La beatificación de Juan Pablo II constituye, a mi juicio, una muestra más del paso que Benedicto XVI ha dado desde el neoconservadurismo al integrismo.
Juan José Tamayo es director de la Cátedra de Teología y Ciencias de las Religiones de la Universidad Carlos III de Madrid.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Teólogo italiano critica beatificação do papa João Paulo II

O teólogo italiano Giovanni Franzoni, que foi abade da Basílica de São Paulo Extramuros testemunhou em 2007 no Vaticano contra a beatificação de João Paulo II, a quem não perdoa pelo "doloroso isolamento" do bispo salvadorenho Óscar Arnulfo Romero, assassinado em 1980 por paramilitares enquanto rezava a missa.
A reportagem é do sítio Religión Digital, 28-04-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Eis a entrevista.
O senhor faz parte do grupo de teólogos e intelectuais que criticam a beatificação do dia 1º de maio de João Paulo II. Como nasceu essa iniciativa?
Além de querer manifestar nossa condenação à repressão do pensamento teológico católico, fiquei pessoalmente afetado pelo isolamento sofrido pelo bispo Óscar Arnulfo Romero, arcebispo de San Salvador. Eu vivia em Manágua, Nicarágua, trabalhava no centro Valdivieso, e uma freira me confiou que havia encontrado Romero em Madri, de regresso do Vaticano em 1979, destruído, aflito após a audiência com o Papa. Dizia que nunca havia se sentido tão sozinho como depois desse encontro.
Ele sempre foi um moderado, mas o fato de os campesinos que podiam tomar posse da terra após a reforma agrária terem sido encontrados com gente armada, o indignou. Por isso, pôs a disposição a emissora da diocese, em que eram denunciadas todas as atrocidades e violações dos direitos humanos, a matança de sindicalistas salvadorenhos. Inclusive o assassinato de um próximo colaborador seu. Ele levou toda essa documentação ao Vaticano.
O Papa foi frio, tomou a documentação e a pôs de lado, enquanto comentava: "Disse mil vezes que não me tragam tantos documentos que não consigo ler", e o exortou: "Trate de estar de acordo com o governo". Isso lhe deixou consternado, o destruiu.
Os esquadrões da morte não podiam matar um bispo que estava no coração do Papa. Podiam matá-lo só se estivesse isolado, abandonado.
Quais são as objeções que o senhor fez oficialmente ao Vaticano?
Como a Congregação para as Causas dos Santos anunciou que podiam ser levadas provas em favor ou contra da beatificação de Karol Wojtyla, eu resolvi, junto com outros teólogos e historiadores, enviar, com uma carta certificada, uma documentação ao vicariato de Roma, com a qual considerávamos os limites do seu pontificado. Depois de um ano e meio, me convocaram oficialmente. Fiz sete objeções fundamentais.
Em 27 anos de pontificado, após viajar por todo o mundo, cheguei à conclusão de que ele não havia feito nada para esclarecer o papel da mulher na Igreja. Ignorou a teologia feminista. Outra coisa que me tocou foram os tráficos financeiros do Vaticano. O papel de Dom Paul Marcinkus, presidente do Instituto para as Obras Religiosas (IOR), que foi protegido. O pontífice violou gravemente a virtude da prudência e da força.
O Tribunal vaticano foi respeitoso comigo e me pediu que não publicasse nada até que o processo fosse concluído.
Entre as objeções figura a forma como ele tratou os casos de pedofilia?
Não. Esse é o oitavo ponto. O caso estourou depois. João Paulo II é o responsável por ter protegido o arcebispo de Viena, Hans Hermann Groer, seu amigo pessoal, que teve que renunciar a pedido dos outros bispos. Um caso único. Não foi processado, simplesmente renunciou.
O senhor não acredita no milagre aprovado pelo Vaticano?
Poderia responder que sim, mas que não se deve sacralizá-los. Também poderia responder que não, não acredito nos milagres. No Evangelho, diz-se que Jesus multiplicou o pão e os peixes para dar de comer às pessoas, e que as pessoas o seguiram contentes. Depois lhes disse: "Vocês me seguem porque lhes dou de comer. Sigam-me por minha palavra". Demoliu assim o milagre.
O milagre é ambíguo. Pode enviar sinais parar atingir nossas emoções e fantasias com fatos excepcionais, mas são frutíferos se servirem para mudar. Se substituem o pão que é preciso comprar é algo ridículo.
Vê mais sombras do que luzes no pontificado?
Misturam-se duas figuras: o Papa como homem e o Papa como político. No documento que eu enviei ao Vaticano, reconheço-lhe uma atitude humana, como na segunda Guerra do Golfo, quando convidou o número dois do regime do Iraque ao Vaticano, um ato forte, e por ter clamado pela paz. Eu, pessoalmente, sou contra essas canonizações, acredito que são algo arcaico. O que conta são as perseguições do primeiro século, os mártires. Essa fábrica de santos, para os quais é preciso demonstrar um milagre, não sei. Para mim são santos os que tentaram apagar o reator de Fukushima, no Japão, sabendo que morreriam. Eles sim são santos.

Beatificações e canonizações?!... Algumas indiscrições

IHU (05.05.2011)

"A Igreja fundada por Jesus e pelos 12 Apóstolos, era um Igreja de Mártires e também uma Igreja de pobres. Por isso minha opinião pessoal é que beatificações ou canonizações segundo o perfil do último beato que é João Paulo II, não corresponde mais ao sonho de Jesus pois ela teima em não ser de mártires nem de pobres como aquela que saiu da mão do Divino Fundador", escreve Antônio Cechin, irmão marista, ao recordar o tempo em que trabalhou na Cúria Romana na então Sagrada Congregação dos Ritos.
Antonio Cechin é irmão marista, miltante dos movimentos sociais, autor do livro Empoderamento Popular. Uma pedagogia de libertação. Porto Alegre: Estef, 2010.

Amainado o tsunami provocado pela audácia e pela pressa de Bento XVI em beatificar seu antecessor papa João Paulo II, cuja processualística foi desencadeada no próprio dia da morte, acontecida há seis anos, me atrevo, dentro da oitava litúrgica do novo Beato, a entrar com minha colher torta.
Na qualidade de religioso marista obediente, coube-me a tarefa de trabalhar durante dois anos na Sagrada Congregação dos Ritos, dicastério da Cúria Romana encarregado da Liturgia e ao mesmo tempo das Causas de beatificação e canonização. Trabalhei no Vaticano nos anos de 1960 a 1962, durante o pontificado de João XXIII, exatamente no período preparatório do Concílio Ecumênico Vaticano II.
Compulsando na época, diariamente, o “Osservatore Romano”, jornal da Santa Sé, acompanhei ao longo de vários meses, passo a passo, as nomeações que Papa Giovanni largava em doses homeopáticas para a imprensa, dos clérigos, peritos em ciências teológicas, historiadores, etc. que teriam pela frente a tarefa de preparar o Concílio anunciado. Não raro os meios da Cúria que eu freqüentava, passavam por verdadeiro calafrio quando nomes de peritos conciliares, escolhidos pelo pontífice, eram de algum teólogo catapultado do ostracismo em que se encontrava desde o tempo de Pio XII, papa anterior a João XXIII, ou até de tempos mais longínquos. Não era pouca coisa, da noite para o dia, passar de uma espécie de “teólogo maldito” para as honras de teólogo conciliar.
Minha função na Sagrada Congregação dos Ritos era de secretário particular do Promotor Geral da Fé, popularmente chamado de “Advogado do Diabo” pelo papel que, como Promotor, desempenhava nos processos de beatificação e canonização. Era ele o defensor de uma santidade autêntica, praticada necessariamente em grau heróico, pelos candidatos aos altares, a fim de terem garantidas as qualidades para serem propostos como modelos para todo e qualquer cristão. Em outras palavras, o Promotor Geral da Fé, forçava a Postulação a comprovar a prática das virtudes teologais e cardeais, dos valores autênticamente humanos e cristãos não de maneira simples e comum, mas em grau heróico. Assim como o Promotor de Justiça em qualquer processo da sociedade civil, o Promotor Geral da Fé – advogado do diabo – procurava garantir a ortodoxia, isto é, as leis, os dogmas, a moral e as virtudes de uma modelar vida cristã. O povão desde séculos designa como “advogado do diabo” o personagem da processualística, encarregado de “dar o contra” a quem aspira às honras dos altares, passando a desempenhar o papel de “satanás” por oposição à pessoa candidata a “santo”.
Nos idos de 1960, as coisas ainda eram muito rígidas na Cúria Romana. Nos dois anos em que lá atuei, só houve três canonizações e nenhuma beatificação. Foram proclamados santos Gregório Barbarigo, Bertilla Boscardin e Juan de La Ribera. Os dois primeiros italianos e o terceiro espanhol. Por sinal, naquela época, um postulador que me visitava me dizia: “para ser santo se necessitam três qualidades: ser italiano, ser italiano e ser italiano.” Como para me explicar que aqueles mais próximos da “máquina” constituíam maioria dentro do catálogo.
Sabemos que o papa João Paulo II, facilitou enormemente a processualística dos caminhos para a honra dos altares. Como parte de sua ênfase especial na vocação universal à santidade, beatificou 1.340 pessoas e canonizou 483 santos, quantidade maior que todos os seus predecessores juntos pelos cinco séculos passados.
Não deixa de ser inusitado o fato de um Papa como Bento XVI beatificar seu antecessor imediato e em tempo recorde. Pelo pouco que conheço de história da Igreja, me atrevo a afirmar que é a primeira vez que isso acontece, excetuando-se naturalmente o tempo dos primórdios Igreja – a do tempo dos apóstolos – quando, bastava alguém tombar como mártir para, pelo fato mesmo, ser invocado como santo, sem necessidade de processo de espécie alguma, canonizado que está pelo Mestre Jesus de Nazaré quando proclama: “Não há maior prova de amor do que dar a vida por aqueles a quem se ama!”. Sofrer o martírio, como o Nazareno, é santidade por excelência.
No ano de 1960, tramitavam, na “fábrica dos santos” da qual eu também era um humilde serviçal, em torno de mil e quinhentos processos. Tinha-se a nítida impressão de que a Igreja não fazia muita questão de acrescentar novos santos ao calendário litúrgico. Talvez o pequeno número de novos bem-aventurados e santos, também se devesse ao fato de haver um afunilamento dentro da sistemática dos processos. A Promotoria Geral da Fé era esse funil. Uma única pessoa, o advogado do diabo, tinha que ter o domínio total de cada uma das causas, tais como os detalhes biográficos do personagem, o contexto histórico da época em que viveu, a análise dos escritos, os pareceres dos teólogos que os haviam julgado, os pareceres dos peritos médicos a respeito dos milagres, etc. Tudo, absolutamente tudo, tinha que passar por ele. Naqueles anos era Advogado do Diabo, um franciscano de nome Antonelli. Qualquer documento que viesse endereçado ao homem-chave da Congregação, também passava por minhas mãos e meus olhos, quer fossem relativos à heroicidade das virtudes, quer aos pareceres dos peritos médicos sobre as curas “milagrosas”, etc.
Com relação aos milagres, logo que cheguei junto à Congregação, quis matar minha curiosidade perguntando a meus colegas de trabalho o que achavam de uma Teresa Neumann, religiosa na Alemanha, que aqui no Brasil era muito badalada e dela diziam alimentar-se exclusivamente da hóstia consagrada no sacramento da Eucaristia e nada mais. Interroguei depois outro colega sobre Frei Pio, um religioso capuchinho italiano que, aqui no Brasil, se apregoava como sendo alguém de confessionário o dia inteiro, com penitentes que lhe chegavam de todo o mundo. Os que com ele se confessassem, nem precisavam contar-lhe os pecados porque os conhecia de antemão, sem necessidade de serem verbalizados.
Meus colegas de trabalho deram de ombros, como quem estranhasse minhas crendices. Fui caindo na real à medida que ia datilografando os relatórios dos peritos médicos contratados pelo Vaticano e que se haviam debruçado sobre os “milagres”, todos sem exceção de curas de alguma doença.
Na verdade os peritos médicos escolhidos pela Congregação, eram os melhores em cada ramo da medicina, existentes em Roma. Pelo fato mesmo eram pessoas muito bem pagas. Em nenhum parecer médico, jamais descobri que algum deles afirmasse tratar-se de milagre ou cura milagrosa. Quem declara se é milagre ou não, para fins de beatificação ou canonização, é uma equipe de cardeais com a palavra final do próprio papa. Médico tem que ficar na ciência médica. Milagre, se tem uma dimensão de quebra das leis da natureza, algo sobrenatural, isso é do terreno da fé ou da teologia mas não da ciência. Em relação ao perito médico vale aqui em face do milagre, a famosa sentença do pintor grego a um sapateiro que contemplando o quadro pintado, havia feito uma crítica da sandália que o personagem tinha no pé. O artista lhe atalhara, no instante mesmo da critica: “sapateiro não te atrevas a julgar acima da sandália!”
Depois do meu estranhamento inicial em relação a fatos relativos a “santos” milagreiros, que considerava pelo menos fora do comum, fui aos poucos me convencendo de que tudo estava em seu devido lugar. Médico tem que ficar exclusivamente no campo da ciência. E em qualquer ciência há muitos espaços em relação aos quais campeiam as ignorâncias. Nesses seus relatórios, os médicos debruçados sobre curas, julgam somente sobre documentos bem objetivos: o histórico da doença, os exames médicos realizados, os remédios ou drogas ministrados ao longo do tempo, os diagnósticos, etc. etc. Nem pode ser diferente.
Mais tarde, como catequista, fui descobrindo que, no Evangelho, Jesus ficava triste quando lhe solicitavam algum milagre como quebra das leis da natureza. Quando algum “sinal” feito pelo Mestre, causava estupor, vinha a explicação “foi a tua fé que te salvou!” A multiplicação dos pães, milagre como quebra das leis da natureza? Jesus recolocou as coisas em seu devido lugar quando disse: “Vocês estão me procurando só porque vos alimentei de pão!”
Milagre ou melhor um “sinal”, na Bíblia, é sempre um ato de amor profundo. Lembremo-nos daquela passagem evangélica em que gente do povo pergunta a Jesus face a um estropiado: “Mestre, quem é que pecou? Foi ele ou foram os pais dele?” E Jesus, com a maior naturalidade: “Nem ele, nem os pais dele. Isso acontece a fim de que se manifeste a glória de Deus.” Face às desgraças de hoje, de sofrimentos incríveis, de pessoas mutiladas, etc. vemos e tocamos que inúmeras pessoas, com imenso amor, se dedicam totalmente a ajudar, em meio a tanto sofrimento. É “a glória de Deus se manifestando através de muito amor” pois Deus é puro Amor.
Pudemos então, trabalhando na Cúria, nos dar conta de que em nossa Santa Madre Igreja Católica, Apostólica e Romana, tudo é humano, muito humano mesmo. E é apenas em fatos humanos do cotidiano que podemos ler transparências daquilo que também tem algo de divino. Essa transparência é vislumbrada através da chamada “leitura dos Sinais dos Tempos”, preconizada pelo Mestre Jesus e que foi recuperada para nossos dias, pelo saudoso Papa João XXIII.
Aos poucos, dentro de meus trabalhos congregacionais romanos, também fui me dando conta de que havia uma política vaticana ou papal para beatificar ou canonizar este ou aquele candidato às honras dos altares.
Uma vez por mês, o Promotor Geral da Fé – advogado do diabo – tinha audiência com o Papa.
Dia seguinte recebíamos tarefas preferenciais em cima de Causas assinaladas pelo Pontífice. Me vem à lembrança que umas duas ou três vezes a prioridade papal assinalava um fundador de congregação feminina do norte da Itália, se não me engano de nome Guanella, cujas religiosas tinham sido trazidas pelo Papa Giovanni, para os cuidados domésticos em seus aposentos, no Vaticano. Imagino o bom Papa Giovanni se cruzando seguidamente com alguma das irmãzinhas a lhe suplicar: “Santo Padre, e o nosso fundador? Não dá para dar uma apressadinha na sua beatificação?”. Aliás nada de estranho, porque eu mesmo havia sido alavancado da cidade de Paris, aonde começava meus estudos de pós-graduação, diretamente para o Vaticano para, como me dizia o postulador da minha congregação, “fazer com que, na pilha dos processos beatificatórios eu conseguisse colocar um pouco mais para cima o processo de nosso hoje santo fundador”.
Doutra feita, um postulador do norte da Itália me explicou o porquê de estarmos nós, os funcionários da Santa Sé, a desentulhar uma causa de Canonização de um cardeal, já com o título de bem-aventurado há muitíssimos anos, tendo vivido a uns 3 ou 4 séculos atrás. É que Papa Giovanni, como arcebispo-patriarca de Veneza, circunscrição eclesiástica em que nascera e vivera nosso candidato a santo, quando Papa Roncalli era ainda Arcebispo Pariarca desta cidade, havia confidenciado a esse Postulador: “Se io sono Papa, Barbarigo è santo!” (Se por acaso eu ficar Papa, Gregório Barbarigo será santo!). Dito e feito. João XXIII, para garantir seu candidato veneziano à honra dos altares, nos deu ordem de concluir o processo e dispensar o milagre que o direito canônico exige para a canonização. Meus colegas funcionários, lembro bem, vieram também ao meu gabinete de trabalho – imaginem só – a fim de me convidar para uma greve. Sim senhores. Uma greve da Congregação dos Ritos do Vaticano.
Alegavam: se adotarmos esse princípio de dispensa até de milagre, amanhã teremos aqui nas nossas salas dezenas de postuladores a reclamar o mesmo direito para seus candidatos aos altares.
Aí eu fiz a experiência de que Papa, na Igreja, pode tudo e mais alguma coisa. Por isso, Papa Giovanni não era bem o que diziam meus vizinhos de escritório acostumados a designá-lo como “papa de transição.” Ao ser alertado da tentativa grevista da Congregação, mandou um convite de caráter pessoal, com assinatura de próprio punho - coisa totalmente fora de costume - para cada um dos funcionários do dicastério. Face a tal convite em caráter pessoal, a greve se evaporou. Lá estávamos todos no cortejo papal, no dia marcado, bem à frente da “sédia gestatória”, sem faltar absolutamente nenhum.
Nosso Bispo-Profeta Dom Hélder Câmara realizou a iniciação da Igreja Latino-Americana à opção pelos pobres, por ocasião do Concílio Vaticano II. Enquanto a Assembléia máxima do episcopado mundial realizava triunfalmente seu encerramento na Praça São Pedro defronte à grande Basílica dentro da qual a tradição diz que o primeiro chefe da Igreja nomeado diretamente por Jesus, foi sepultado depois de crucificado de cabeça para baixo, Dom Hélder rodeado de 80 irmãos do bispos, firmava o pacto das Catacumbas, com isso significando que desejava reconciliar a Igreja dos nossos dias, com a Igreja do tempo das perseguições, isto é, com a Igreja dos Mártires do primeiro século, profetizando assim uma nova leva de mártires em toda a América Latina.
A meu ver, a Igreja do primeiro mundo, a Igreja da Europa e todas as demais Igrejas conservadoras do mundo, teimam até hoje, em não fazer sua reconciliação com a Igreja dos primórdios. A Igreja fundada por Jesus e pelos 12 Apóstolos, era um Igreja de Mártires e também uma Igreja de pobres. Por isso minha opinião pessoal é que beatificações ou canonizações segundo o perfil do último beato que é João Paulo II, não corresponde mais ao sonho de Jesus pois ela teima em não ser de mártires nem de pobres como aquela que saiu da mão do Divino Fundador. Santos, a rigor, para mim são em primeiríssimo lugar os que, segundo o Evangelho de Jesus Cristo, “aqueles que deram a maior prova de amor, entregando a vida pelas pessoas que amavam.” Nesse ponto, o bem-aventurado João Paulo II, deixou de ser Papa modelar para nós cristãos da América Latina ao demonstrar com gestos de desamor suas relações com nosso bispo-mártir San Romero de América.
Fonte: IHU

terça-feira, 26 de abril de 2011

Os problemas de governo da Igreja

. Artigo inédito de José Comblin



“Ouço a solicitação que me é dirigida para encontrar uma forma de exercício do primado que,sem renunciar de modo algum ao que é essencial da sua missão, se abra a uma situação nova”

Joao Paulo II, Ut unum sint,1995, n.95

Na encíclica Ut unum sint o Papa João Paulo II aludiu a um problema fundamental mostrando que estava bem consciente.

Já Paulo VI havia manifestado que estava preocupado.

Mas nada saiu dessas preocupações que hoje em dia são preocupações da Igreja inteira.

O governo central da Igreja não funciona bem. Em lugar de adaptar a Igreja ao mundo atual, paralisa a Igreja no seu passado. Muitas coisas deviam ser reformadas na Igreja para responder às necessidades dos tempos. Mas a máquina de governo impede toda mudança.


O sistema impede a mudança. Ninguém tem poder para tomar decisões. O Papa não tem condições para tomar as decisões necessárias. Eis algumas expressões dessa situação do governo.

1. A eleição do Papa

Primeiro os eleitores. O sistema atual foi feito quando o Papa fazia poucas intervenções fora da diocese de Roma e das dioceses vizinhas. Os cardeais eram o clero de Roma e das cidades vizinhas. Hoje em dia, o Papa decide tudo o que acontece no mundo inteiro e tem uma grande administração com milhares de funcionários. O Papa devia ser eleito por uma representação de todos os continentes. Os cardeais nem sequer representam as Igrejas dos seus países porque foram escolhidos pelo próprio Papa e não representam nenhuma Igreja particular.

Se o Papa fosse eleito por uma verdadeira representação da Igreja universal, teria mais força onde se apoiar contra o poder da Cúria. Agora ele depende da Cúria. Eleito pela Igreja poderia invocar o peso da Igreja contra o peso da administração central. Os presidentes das conferencias episcopais, por exemplo, teriam mais caráter de representatividade. Além disso, muitos cardeais são funcionários da Cúria e não representam nenhuma Igreja porque são funcionários da administração.

Em segundo lugar, o modo da eleição. Há dois tipos de eleitores. Há os cardeais da Cúria. Estes se conhecem e formam círculos secretos. Esses são os que intrigam para preparar a eleição. Formam partidos e trabalham na sombra para que o seu partido possa ganhar. O que aconteceu nas últimas eleições , é edificante Depois, há os cardeais de fora. Esses não se conhecem, Chegam para o conclave e não se conhecem. Não sabem quais são as intrigas que estão fazendo os cardeais da Cúria (com os seus conselheiros!). Em cada país a Conferência episcopal exorta os católicos para conhecer bem os candidatos e os seus programas de tal maneira que possam fazer um voto consciente. Mas os cardeais não têm condições de fazer um voto consciente porque não conhecem os candidatos, nem os seus programas.

Depois da eleição de João Paulo II perguntamos ao cardeal Silva de Santiago de Chile porque tinha votado no cardeal polonês. Ele disse: ”Nós não o conhecíamos, mas disseram-nos que era um bom candidato e então votamos nele”. Se o paroquiano explicasse assim o seu voto ao seu vigário, este lhe diria que é um inconsciente.

Sabemos quem foi quem disse que era um bom candidato. Foi o cardeal Koenig arcebispo de Viena na Áustria. Koenig tinha grande fama de homem de grande projeção intelectual e de grande prestigio internacional. Mas estava muito ligado ao Opus Dei que tinha feito uma campanha eleitoral muito ativa. Sabemos que foi ele, porque ele mesmo o disse antes de morrer, e disse que estava muito arrependido de ter feito isso. O cardeal Silva não sabia que o cardeal polonês era adversário do Concílio Vaticano II.

Os eleitores devem ter tempo para se conhecer e saber quais são os candidatos apresentados pelos colegas e quais são os programas dos candidatos. Se isso se exige por eleições comuns, poderia pensar-se que na Igreja essa exigência de direito natural vale com mais força. Na prática o quer acontece é que os cardeais fazem um voto de confiança, exatamente o que se denuncia em todas as eleições políticas. O votante não sabe o que quer o seu candidato. Ainda bem que o povo católico não sabe como se faz essa eleição, porque ficaria envergonhado. Compreendo que os bispos guardem silêncio sobre isso. Mas essa situação não pode continuar. O pior é quando se diz que quem decide a eleição é o Espírito Santo. quando se sabe muito bem o que aconteceu e não houve nenhum momento de revelação do Espírito Santo. Porque enganar os católicos como se fossem todos infantis?

2. A descentralização

Uma administração centralizada inevitavelmente quer defender os seus poderes e aumentá-los. O que busca a administração central é em primeiro lugar o seu próprio bem, ou seja, o aumento do seu poder: fazer mais leis, mais obrigações, mais formulários, mais papéis impressos, mais exigências.

Na Igreja não é diferente. O que busca a administração é assegurar mais poder. O bem da Igreja é um pretexto. Isso é parte da natureza humana, e, se todos os funcionários da Cúria fossem santos o problema continuaria. Seria pior porque se fossem mais santos, queriam trabalhar mais ainda, e fazer mais imposições ainda. O principio de subsidiariedade vale para todos os seres humanos e quando um sacerdote ou um bispo é ordenado a sua natureza humana não muda.Precisa descentralizar: as nomeações episcopais,o direito canônico, a liturgia, a formação do clero, a organização do ensino, das obras de caridade e outras obras. Tudo pode ser organizado, por exemplo, em cada continente ou cada totalidade cultural. Nos primeiros séculos a Igreja foi organizada em patriarcados, que eram unidades culturais. A existência dentro da ortodoxia católica de Igrejas de diversos ritos orientais mostra que isso pode funcionar muito bem. A centralização atual é o resultado de razões puramente históricas.

O sistema atual ainda é na Igreja a continuação do colonialismo. Chegando a Puebla João Paulo II condenou as comunidades de base, condenou o movimento bíblico, condenou a teologia latino-americana. Conseqüência: em 30 anos, somente no Brasil, 30 milhões de católicos deixaram a Igreja católica para aderir a igrejas ou movimentos pentecostais ou neo pentecostais, conseqüência da pastoral imposta. O Papa escutou alguns conselheiros que tinham intenções políticas muito claras. Não procurou saber mais, recorrendo a instâncias mais representativas. Pensou que o problema era o comunismo e não era o comunismo e ele tinha possibilidade de receber outras informações. Alguns podiam dar-lhe a informação de que América Latina não é Polônia e nem sequer é Europa Nós estávamos aí sabendo o que ia acontecer, mas nada podíamos fazer. O cardeal dom Aloísio Lorscheider sentiu imediatamente tudo e procurou consertar, mas não tinha peso suficiente e não era da confiança do Papa.

3. Um sistema de governo em que uma pessoa sozinha decide tudo sem que haja debate público e instância deliberativa, chama-se ditadura. Um sistema em que as verdadeiras motivações das decisões do governo, são escondidas com certeza não responde as exigências do direito natural. Os cidadãos têm o direito de saber quais são os fundamentos das decisões tomadas. Por exemplo, quando Paulo VI condenou o uso de meios anticoncepcionais artificiais, não se soube que os cardeais consultados na sua maioria não concordavam, que as comissões nomeadas pelo Papa para estudar o assunto também não concordavam. Lembro-me muito bem de ter ouvido os comentários do cardeal Suenens, que era o meu bispo.

Muito bem. Uma geração depois, o Conselho da Família envia aos bispos um comunicado em que diz que já não se deve fazer perguntas às penitentes sobre a a sua prática de limitação de nascimento. Se não se pode fazer perguntas, é porque não se deve considerar como pecado. O próprio Alfonso López Trujillo teve que comunicar secretamente essa revogação implícita da encíclica Humanae Vitae. Mas porque não se disse publicamente? A maioria dos católicos ainda o ignora, embora não aceite a condenação. Os católicos não conhecem os métodos da Cúria romana; Não sabem que nunca se publica a revogação de uma ordem dada anteriormente. Mas se diz que não se devem fazer perguntas aos penitentes. Até o papado de Bento XIV no século XVIII, nunca se havia revogado a condenação dos juros, o que proibia que católicos trabalhassem em bancos. Mas o Papa disse então aos confessores que já não se deviam fazer perguntas aos penitentes.

Porque não se disse que agora a autoridade tinha mudado? Por que as mulheres não podem saber que a Igreja já não condena os meios artificiais de limitação de nascimentos? Muitas ainda acreditam que a Igreja as segue condenando e tratando como pecadoras. Essas são práticas de ditaduras Numa ditadura o governo nunca erra. Nunca reconhece que foi um erro. Na Igreja só se reconhece depois de quatro séculos. Se houvesse instancias de deliberação, poderiam ser evitados muitos erros que vêm da precipitação, criando depois a dificuldade de reconhecer o erro.

Se não se fazem essas reformas, nenhuma outra reforma pastoral será possível. Tudo depende do centro, tudo depende do papel do Papa. Paulo VI sabia-o e João Paulo II sabia-o também. Ainda não sabemos o que pensa o Papa atual. Mas acredito que não deve pensar diferente do seu antecessor.

Não é questão de santidade. O Papa Pio X foi um santo. Mas cometeu erros colossais em matéria bíblica que explicam uma boa parte dos problemas atuais da Igreja no meio do mundo! O problema é que o Papa é homem também e tem os mesmos limites da natureza humana. A sabedoria humana aprendeu a construir sistemas de governo adaptados à condição humana. Jesus não definiu nenhum sistema de governo. E não estamos mais nos tempos de Gregório VII. O problema é que tudo depende de uma pessoa só!

As reformas podem demorar séculos se não aparece um dia o Papa que toma a decisão de mudar o modo de exercício do ministério de Pedro. Em princípio, teria que ser um homem mais jovem. Precisa suprimir esse preconceito que é melhor um homem já de idade para que não permaneça na frente tanto tempo. Mas há outra maneira: o Papa pode aplicar-se a si mesmo a norma dada aos bispos. Antigamente os seres humanos viviam poucos anos, uma media de uns 30 anos. Hoje em dia a media já atinge 80 anos e vai subir mais. Não é normal que uma instituição tão complexa tenha que ser dirigida por um homem com mais de 80 anos de idade.

Tanta gente na Igreja pensa assim! Talvez sejam mais sábios do que eu pensando que de qualquer maneira nada vai mudar e é melhor conformar-se, do que gastar energia numa causa perdida de antemão. O que me consola, é que não estou sozinho. Já há muitas pessoas que estão escrevendo essas coisas

José Comblin
Fonte IHU

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Ele foi escrito "na última semana que esteve entre nós", informa Monica Maria Muggler. Segundo Monica, "considerações que achou por bem fazer, a partir da repercussão de entrevistas recentes que havia dado sobre questões eclesiais. Enviou a algumas pessoas e deixou para divulgar mais tarde, pois considerava que o assunto ainda não está na ordem do dia em nosso continente, embora na Europa já se começa a falar a respeito".

terça-feira, 12 de abril de 2011

Comblin: pedagogo, profeta e santo.

Entrevista com D. Sebastião Soares e D. Luiz Cappio

(Publicado em IHU – Unisinos - Instituto Humanitas Unisinos – www.adital.com.br )
Pe. José Comblin vivia em Barra, no interior da Bahia, há dois anos. Escolheu viver lá porque achava que a diocese da cidade era uma das poucas que estava, efetivamente, ao lado dos pobres. D. Luiz Cappio conviveu com ele durante esses últimos anos de vida e conta, na entrevista que concedeu por telefone à IHU On-Line, sobre como foram esses últimos momentos da vida de Comblin. "Nós estabelecemos um entrosamento muito grande por ocasião do meu segundo jejum em Sobradinho, quando ele esteve lá comigo durante um tempo bastante grande, sendo muito solidário e muito fraterno na nossa luta contrária ao projeto de transposição de águas do rio São Francisco”, conta D. Cappio que, então convidou Comblin para residir na diocese de Barra.
Dom Luiz Flávio Cappio vive na Bahia, onde está à frente da diocese de Barra. Em 2005 e 2007 fez jejum em protesto contra o projeto do governo federal de transposição do rio São Francisco. Em 2008, a organização Pax Christi Internacional (Bélgica) lhe deu o prêmio da Paz do mesmo ano, por sua luta em defesa da vida na região do São Francisco. Em 2009, recebeu o Prêmio Kant de Cidadão do Mundo, da Fundação Kant (Alemanha).
"Sem dúvida a morte de José Comblin é um momento de grande dor para a Igreja e particularmente para quem o conheceu mais de perto". Dom Sebastião Armando Gameleira Soares, bispo da Diocese Anglicana do Recife,reconhece que falar postumamente sobre o grande teólogo e amigo é desafiador. Porém, "ouso acrescentar que é um grande momento de ressaltar a relevância da profecia na Igreja e na sociedade". Ele também concedeu uma entrevista, por e-mail, à IHU On-Line sobre Pe. Comblin.
Nascido em Alagoas, Dom Sebastião Armando Gameleira Soares é bispo da Diocese Anglicana do Recife (região Nordeste), da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil. É mestre em teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana, Roma, e em Ciências Bíblicas, pelo Instituto Bíblico de Roma, e em Filosofia, pela Universidade Lateranense, também em Roma. É também especialista em sociologia e bacharel em direito. Há mais de 25 anos, assessora o Centro de Estudos Bíblicos - Cebi, tendo assumido sua Direção Nacional e sua Coordenação Nacional do Programa de Formação, além da coordenação e da assessoria do Curso Extensivo de Formação de Biblistas. Também colabora na assessoria ao Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e à Educação Popular - Cesep, de São Paulo.


Confira a entrevista com Sebastião Gameleira Soares.
IHU On-Line – Na sua opinião, qual foi a contribuição de José Comblin à teologia e ao pensamento teológico contemporâneo?
Sebastião Gameleira Soares – Comblin foi, durante muitos anos, professor de Teologia em seminários e universidades. Por isso, teve de lidar também com os chamados tratados clássicos nos quais se organiza normalmente o ensino e a formação teológica de estudantes. Mas, desde cedo, seus olhos se voltaram para a realidade viva da Igreja e do mundo. No que fazia e nos temas que abordava, estava a indicar claramente que não pretendia trabalhar por uma "teologia de corte" que atendesse aos "interesses do príncipe". O edifício clássico da Teologia cristã era para ele como o depósito de grandes tesouros das intuições milenares do Cristianismo, as quais deviam ser resgatadas de modo a dizerem hoje uma palavra nova e relevante à sociedade.
Não pretendia fazer como tantos que apenas elaboram Teologia para respaldar afirmações do Magistério eclesiástico e consolidar o sistema estabelecido e, desse modo, nada dizem de novo ao mundo, só repetem, o que é um péssimo serviço à Tradição. O Evangelho nos diz que apenas repetir, sem provocar nada de novo na vida das pessoas e da sociedade, é palavra vazia, sem novidade e, sobretudo, sem autoridade para afastar de nós os "espíritos impuros" e destrutivos, o contrário de Jesus (cf. Mc 1, 21-28).
Ao chegar a nosso continente, pelo que escrevia e por suas brilhantes conferências, estava bem claro qual era a direção de seu olhar, o horizonte no qual se daria sua reflexão entre nós. Ou seja, o horizonte hermenêutico de preocupações e perguntas a partir das quais olhava a herança milenar do Cristianismo. Teologia para ele era momento teórico da prática cristã na história. Não se tratava de mero discurso religioso, mas de momento da práxis humana e cristã, isto mesmo antes de a Teologia da Libertação elaborar seus conhecidos princípios metodológicos.
Teologia para ele tinha particularmente a função de criticar, à luz da Bíblia e da experiência cristã, a prática missionária, pastoral e sociopolítica. É por isso que se entende que, desde o começo, se preocupou por pesquisar a história e o processo de evangelização da América Afrolatíndia e as marcas que configuraram o Cristianismo no Continente.
Hoje, se acende o debate em torno da importância de uma "Teologia Pública". Ora, já o vemos antecipar, quando lança obras de fôlego como Teologia da Cidade, Teologia da Paz, Teologia da Revolução. Foi por isso que resolveu enfrentar a Ideologia da Segurança Nacional e denunciá-la como idolatria. Em suas conferências, a análise dos sistemas econômicos e políticos e seu julgamento teológico estavam sempre presentes. E, naturalmente, a denúncia da vinculação das estruturas do Cristianismo a esses sistemas, com a indicação inclusive de suas raízes históricas. Nisso, foi mestre.
IHU On-Line – O site da sua diocese destacou a notícia sobre a morte do teólogo, que era padre católico. Sem dúvida, um sinal ecumênico por parte da sua comunidade. Qual a importância de Comblin para o ecumenismo, especialmente na região do Recife, onde ele viveu por alguns anos?
Sebastião Gameleira Soares – Não se pode dizer que tenha sido um "militante" do Ecumenismo. O que se deve dizer é que foi, como gente e como intelectual e pedagogo (como educador é que foi pastor), uma pessoa radicalmente ecumênica. O foco de todo o seu trabalho intelectual e pedagógico não era a instituição eclesiástica, mas sim a relevância do Cristianismo na vida das pessoas e na sociedade em geral. Estava presente onde o Cristianismo estivesse querendo recuperar-se como fermento de animação de uma sociedade nova e onde pessoas de quaisquer procedências estivessem dispostas a lutar pela justiça. Não é por acaso que recebia convites de seminários e faculdades protestantes e, nos últimos anos, reunia periodicamente em sua casa um grupo de pastores protestantes para reflexão e debates.
Sua atitude ecumênica tem tudo a ver com o que hoje se chama de "Ecumenismo de Base", ou a partir da vida do povo. Porque tocava justamente nos problemas que a todo mundo interessam, os problemas do dia a dia da vida e que não perguntam primeiro por confissões de fé, mas por soluções de fé, como eu gosto de dizer.
Ora, particularmente no Nordeste do Brasil, como no tempo de Jesus em Sua terra, só quem estava interessado em discutir em primeiro lugar questões religiosas e "de Teologia" eram os segmentos integrados no sistema estabelecido (escribas, fariseus, saduceus), o povo mesmo procurava Jesus para sentir a dignidade recuperada, as enfermidades curadas ou pelo menos cuidadas, a fome saciada... Comblin o compreendeu muito bem, tratou dessas questões e assim assumiu a largueza "ecumênica" do coração de Deus, à imitação de Jesus. Sua paróquia realmente era o mundo, no dizer do grande profeta John Wesley, inspirador do Metodismo.
IHU On-Line – Pessoalmente, como o senhor analisa a teologia e a obra de Comblin? Pelo que sabemos, o senhor foi seu aluno. É isso? Que recordações e lembranças desse grande teólogo ficarão gravadas em sua memória?
Sebastião Gameleira Soares – Na verdade, não tive a graça de ser seu aluno. Quando ele se tornou professor do Instituto de Teologia do Recife - Iter, trazido por convite de Dom Helder [Câmara] depois do golpe militar, eu estava a estudar em Roma, aonde cheguei em outubro de 1964. Só o conheci pessoalmente depois que já era eu mesmo professor do Iter e em seguida também Coordenador dos Estudos.
Às vezes, quando tinha algum intervalo que coincidisse com sua aula, procurava escutá-lo. Também tive a felicidade de escutá-lo em conferências ou em seminários de estudo que promovíamos, especialmente no Departamento de Pesquisa e Assessoria - Depa. Impressionava-nos a capacidade que tinha de escutar as questões e discorrer sobre os mais variados temas por toda uma jornada sem ter nas mãos uma folha de papel sequer. Dizíamos que era cabeça de computador. Amplíssimo nível de informações, tanto de história quanto da conjuntura mundial, e agilidade para refletir e aprofundar os temas com intuições originais.
Um dos aspectos que mais me fascinavam em seu jeito de fazer Teologia é sua capacidade de ir ao tesouro da Tradição e penetrar além da letra, "por trás das palavras", como gosta de dizer nosso amigo Carlos Mesters, na busca de resgatar as intuições mais profundas que estão por detrás das afirmações doutrinais, sempre naturalmente condicionadas pela consciência possível de cada época. De alguns professores em Roma e, especialmente dele, algo disso eu aprendi, de modo que um dia cheguei a mostrar a um amigo luterano que a doutrina católica do purgatório, rejeitada pela Reforma, é, na verdade, uma das afirmações mais luteranas no Catolicismo, uma forma bem da cultura medieval de reconhecer o princípio de simul justus et peccator (simultaneamente justo e pecador), um dos princípios basilares do Protestantismo. Se fizéssemos esse esforço sistematicamente, quantos equívocos desmascararíamos, como foi feito há alguns anos com a questão da "justificação pela fé" no documento conjunto católico-luterano!
IHU On-Line – Quais são as grandes fontes matriciais do pensamento de Comblin (teológicas ou não)? Que pensadores e obras fundamentaram a sua teologia?
Sebastião Gameleira Soares – Primeiramente, dominava a bibliografia teológica mundial e tinha aguda capacidade de síntese pessoal. Conhecia a história da Teologia, e não só da teologia católica romana. Além disso, era doutor em Ciências Bíblicas com tese sobre O Cristo no Apocalipse, em um tempo em que muito pouca gente se interessava por esse livro da Bíblia. Quem sabe, já era a intuição de que o grande confronto da atualidade é entre Cristo e o Império...
Tinha formação em Sociologia e amplo conhecimento da História da sociedade ocidental, particularmente da História da Cultura, ajudada pela Sociologia da Cultura, e da História da Igreja, especialmente da grande trajetória do Catolicismo. Conhecia muito bem o Marxismo. Seu raio de leituras era amplíssimo, inclusive na área de Economia e da Política. Finalmente, tinha nítida percepção da importância do papel da Igreja na formação da sociedade ocidental (Europa) e na empresa colonial legitimada pelas missões (outros continentes). Sua luta se dava no sentido de resgatar a relevância da herança da Igreja na reconstrução de uma sociedade onde os pobres achassem seu lugar e fossem sujeitos da recuperação de sua dignidade.
Entre os fundamentos de sua obra teológica, não por último, deve ser mencionada a profunda fé no Deus da história – o Deus bíblico – e sua espiritualidade centrada no discipulado de Jesus, o que lhe dava o poder de ser simples e modesto, pobre, e de sentir-se bem entre os pobres e dedicar a eles e elas sua vida.
IHU On-Line – Comblin sempre esteve perto dos leigos e leigas cristãos, como indicam alguns de seus livros como Curso Básico para Animadores de Comunidades de Base (Paulus, 1997), Cristãos Rumo ao Século XXI (Paulus, 1997) e O Povo de Deus (Paulus, 2002). Que laicato desponta do pensamento de Comblin?
Sebastião Gameleira Soares – Seu profundo vínculo com o laicato se revela particularmente quando seus projetos de educação teológica visam a formar pessoas, clérigos e pessoas leigas que cheguem a optar por estar em caminhada missionária junto com o povo pobre das comunidades, especialmente a gente camponesa humilhada do interior. Para ele, isso seria um golpe certeiro no que se faz habitualmente com os estudos teológicos, a saber, servem para criar e fortalecer uma elite que, "entronizada" acima do povo, o domina. A seu ver, ordinariamente, os estudos teológicos são um dos fortes sustentáculos do sistema clerical, do qual o povo de Deus em geral está excluído.
Já no Chile, foi um formulador desse novo sistema de formação. No Nordeste do Brasil, junto com um grupo de seminaristas e do saudoso Padre René Guerre (francês, ex-assistente nacional da Juventude Operária Católica - JOC francesa, trazido ao Recife por Dom Helder), orientou a famosa "Teologia da Enxada", que supunha os estudantes cursarem Teologia estando inseridos no meio de camponeses, junto aos quais, como primeiro passo dos estudos, pesquisavam qual era a formulação popular da fé cristã.
Com o amadurecimento de suas experiências e de sua análise do sistema eclesiástico, tomou a decisão de não mais colaborar em seminários para formação do clero e dedicar-se totalmente à educação teológica e missionária de gente leiga. Fazia isso especialmente no interior da Paraíba e da Bahia, ao lado de suas conferências e seminários de estudo em outras partes do Brasil e no Exterior.
Várias são as iniciativas das quais era o grande inspirador e pedagogo: Centro de Formação Missionária, Associação de Missionários e Missionárias do Nordeste, Curso da Árvore, "Seminário" de formação para gente leiga dos sertões da Bahia, Fraternidade do Discípulo Amado... Recomendou e escreveu sobre isto: o povo leigo das Comunidades de Base devem organizar-se em associações autônomas para assim resistir ao poder do sistema eclesiástico. Tinha plena razão. Muito de todo o esforço das comunidades ficou prejudicado por falta de terem dado esse passo. Sem autonomia jurídica, que seria dada por associações civis legalmente constituídas, é fácil, como tem sido, para o poder na Igreja anular a iniciativa do laicato, sobretudo do laicato mais pobre e frequentemente iletrado.
É bom ressaltar que em torno dele sempre estiveram muitas mulheres que assim têm sentido a dignidade resgatada e sua capacidade de influir na Igreja e na sociedade, tanto leigas como freiras.
IHU On-Line – Que figuras foram centrais na vida de Comblin, como impulsionadoras ou críticas ao seu pensamento?
Sebastião Gameleira Soares – Penso que há outras pessoas com bem mais autoridade para responder sobre isso. Ousaria lembrar que admirava sobremaneira a figura do "Apóstolo do Nordeste", o Padre [José Antônio Maria] Ibiapina. Sobre ele chegou a escrever um livro e trabalhou intensamente pela restauração do Memorial com seu nome em Santa Fé, na serra paraibana. Lá quis ser enterrado. Padre Ibiapina assumiu o ministério depois de aposentado como juiz de Direito e viúvo. Dedicou a vida ao povo dos sertões e teve a intuição de que é o povo sertanejo, pobre, que deve ser o agente missionário de sua região.
Em função disso, por exemplo, fundou as famosas "casas de caridade", onde se reuniam em comunidade mulheres do lugar para estarem a serviço das necessidades do povo. Ele, Ibiapina, era inspirador e orientador. Esse modelo correspondia justamente aos ideais de Comblin, uma Igreja que nascesse do Espírito Santo a partir da iniciativa do povo agindo autonomamente a serviço de seus iguais.
Depois vêm figuras como Dom Helder Camara, Dom Oscar Romero, Dom Leonidas Proaño e tantas outras dentre os Pais da Igreja da América Afrolatíndia. Sem falar de seus e suas colegas de tarefa de elaboração teológica. Nestes últimos anos, aproximou-se intimamente de Dom Fr. Luis Cappio, Bispo da Barra, na Bahia, confessor da fé e apóstolo do povo ribeirinho do São Francisco. Transferiu-se mesmo para a Bahia e foi lá que faleceu. Tinha dito que no curso final de sua vida queria estar perto de um santo filho de São Francisco para ter perto de si um exemplo de santidade e assim se preparar melhor para a grande viagem...
IHU On-Line – Alguns dos livros de Comblin abordam especificamente questões bíblicas. Que aspectos centrais o senhor destacaria na "leitura bíblica” de Comblin?
Sebastião Gameleira Soares – Sobretudo desde vários anos para cá, Comblin compreendeu sua tarefa de escritor como dever produzir livros que falassem de Teologia da Missão, da Palavra como elemento dinâmico e transformador da vida e da sociedade, do Espírito Santo como suscitador de iniciativas de missão, de Jesus como centro em redor do qual estamos nós em atitude de discipulado.
Esses escritos têm uma fortíssima inspiração bíblica e espiritual. Querem colher na raiz o testemunho que nos deixaram as Escrituras e suscitar em nós atitudes novas, à imitação de Jesus. Lembremos de livros como Cristãos do Século XXI, Povo de Deus, A Liberdade Cristã, O Caminho.
Sobre Jesus, escreveu sempre e a partir dos evangelhos. Participou do Comentário Ecumênico Brasileiro com alguns livros sobre as Epístolas Paulinas e os Atos dos Apóstolos. Estava no mesmo rumo do que chamamos de Leitura Popular e Comunitária da Bíblia. A vida como contexto de leitura da Bíblia e a Bíblia como testemunho da vida de nossos pais e mães na fé, para que possamos perceber a força transformadora da Palavra que Deus nos dirige hoje, na atualidade de nossa existência.
IHU On-Line – Para finalizar, deseja acrescentar mais alguma coisa sobre Comblin?
Sebastião Gameleira Soares – Acrescentaria apenas o seguinte: é impressionante perceber em Comblin – Padre José ou Padre Zé, como o povo lhe chamava – uma personalidade paradoxal. Quase tímido e ao mesmo tempo de coragem e determinação de aço. Até na morte não caiu aos poucos, mas tombou de repente, como as palmeiras que caem de um só golpe, trabalhou até morrer. "O justo é como a palmeira plantada nos átrios de Deus". Quase silencioso, de voz mansa e fina ironia, a arma dos pobres, e ao mesmo tempo voz que soava por cima dos telhados e atravessava continentes.
Diante de sua palavra crítica, isto é, que instaura a crisis, a ditadura militar tremeu e por isso o expulsou do país, e as hierarquias eclesiásticas ainda agora tremem temerosas da influência que pode ter na mente dos fiéis. Privilegiadamente inteligente, teólogo famoso, e ao mesmo tempo modesto, pobre, quase escondido. Fiel aos pobres, ao ser convidado para conferências e seminários, ao que me consta, nunca se interessou pelo que teria de gratificação financeira, nunca teve "preço" nem cedeu ao sistema de mercado, permaneceu pobre a serviço de pobres.
Escreveu para teólogos e letrados e com mais amor ainda escreveu para pobres e gente de poucas letras. Fez conferências em grandes auditórios de universidades e gastou precioso tempo com freiras tão sem poder nas estruturas eclesiásticas, camponeses, missionários e missionárias do campo, mulheres pobres. Grande intelectual e, ao mesmo tempo, de profunda espiritualidade radicada na fé e no amor a Jesus e a Seu caminho, por isso capaz de celebrar a fé junto com o povo.
Viveu da tarefa de formular pensamentos e teoria, suas aulas eram "monótonas", isto é, sua voz tinha sempre o mesmo tom, só as seguia quem era capaz de se encantar pelo conteúdo e não dependia tanto de "recursos didáticos", e ao mesmo tempo foi um dos maiores pedagogos que temos conhecido por sua capacidade de inspirar e suscitar iniciativas e comunicar às pessoas a perspectiva de se tornarem autônomas no pensamento e na ação.
Foi "pedagogo", isto é, Guia para a descoberta da Verdade da vida. Foi Profeta para denunciar a mentira dos sistemas de opressão e anunciar a Verdade do Reino de Deus. É santo para nos inspirar a perseverar no Caminho.
Confira a entrevista com Dom Cappio.
IHU On-Line – Onde o senhor conheceu José Comblin?
Dom Cappio – Falar do Padre José Comblin é falar de um grande amigo e irmão que eu tive a felicidade de ter nos últimos dois anos de sua vida, quando ele decidiu vir morar aqui comigo na cidade da Barra, na Bahia. Esta convivência com ele foi uma convivência muito amiga, muito fraterna e de identificação mútua. Eu o conheci através dos seus livros, dos seus gritos como estudante de Teologia. Muitos dos assuntos de pesquisa eu estudava em seus livros, pois ele era uma fonte de pesquisa para mim. Ele me ajudou muito no curso de Teologia que fiz. E depois, ao longo da minha vida sacerdotal e também episcopal, sempre procurei em seus livros um enriquecimento para o meu conhecimento e atualização teológica.
Além dos livros, também o conheci pessoalmente quando fiz o curso de bispos. Fui convidado a participar desta formação há mais ou menos dez anos. Depois nós estabelecemos um entrosamento muito grande por ocasião do meu segundo jejum em Sobradinho, quando ele esteve lá comigo durante um tempo bastante grande, sendo muito solidário e muito fraterno na nossa luta contrária ao projeto de transposição de águas do rio São Francisco. Foi desta maneira que conheci o Padre José Comblin. Fiz o convite para que ele viesse residir aqui na nossa diocese e ele prontamente aceitou e aqui permaneceu até os seus últimos dias.
IHU On-Line – Por que ele decidiu viver em Barra, na Bahia?
Dom Cappio – Segundo o que Padre Comblin dizia, era porque ele entendia que Barra era uma das últimas dioceses do Brasil que tinha feito a opção pelos mais pobres, mais carentes, por um povo bastante esquecido e bastante empobrecido. E ele, no seu desejo muito grande de viver à risca e até os limites o evangelho de Jesus, optou passar os seus últimos dias, os seus últimos tempos de vida, aqui na diocese da Barra, onde se concentrava certa porção de uma das partes mais carentes do povo de Deus. Ele sempre dizia: "eu vim para a diocese da Barra porque aqui residem os pobres, aqui é uma igreja que está a serviço dos pobres e às comunidades que são organizadas para servir aos pobres. É por isso que vim para a diocese da Barra, para viver com eles”.
IHU On-Line – A vontade de Comblin era ser enterrado no mesmo santuário onde Pe. Ibiapina foi sepultado. Quem foi este padre? O senhor sabia desse desejo do Pe. Comblin?
Dom Cappio – Padre Ibiapina, padre mestre Ibiapina, foi um grande missionário que viveu no Nordeste. Ele nasceu em Sobral, no Ceará, em 1806, e morreu em Santa Fé, na Paraíba, em 1883. Ibiapina se tornou padre já bem idoso, ele primeiro foi advogado, depois foi juiz de direito, mas quando percebeu que a Justiça estava apenas a serviço dos grandes senhores da época, ele abandonou a sua carreira jurídica e se ordenou padre. Assim, ele se embrenhou pelos interiores do sertão nordestino, criando toda uma infraestrutura que possibilitasse a vida das comunidades mais carentes do sertão do Nordeste, construindo açudes, construindo os primeiros hospitais da região, construindo casas para acolher crianças que morriam, para acolher pessoas idosas que não tinham quem as cuidasse.
Foi um homem que dedicou toda a sua vida na prática da caridade e de ações direcionadas aos mais carentes da sociedade. Padre Ibiapina está em processo de beatificação, é um grande missionário do sertão do Nordeste, pouco ainda conhecido e Padre José Comblin, que também possuía a mesma vocação de viver em função dos pobres e fazer da sua vida uma vida profundamente comprometida com o evangelho de Cristo, viu na vida do Padre Ibiapina um exemplo para sua própria vida. Comblin foi um dos grandes divulgadores da biografia do Pe. Ibiapina e hoje este vem sendo cada vez mais conhecido como um homem de Deus, o grande missionário dos sertões do Nordeste brasileiro graças às pesquisas e ao trabalho de divulgação que Comblin fez. Padre José Comblin era um grande admirador de Padre Ibiapina e um grande devoto de Padre Cícero, por causa do compromisso que este tinha com os mais pobres. Estes são os ícones que viveram do nordeste brasileiro e que serviram para Comblin como exemplos de vida e é por isso que ele escolheu ser sepultado onde o Padre Ibiapina está sepultado. Homens que deram a sua vida pelos homens do Nordeste.
Ele manifestou por diversas vezes essa vontade de ser enterrado junto ao túmulo do Padre Ibiapina, lá no santuário de Santa Fé, na Paraíba.
IHU On-Line – Qual sua impressão da cerimônia de enterro do Pe. Comblin?
Dom Cappio – Dia 27 de março, domingo, ele acordou logo cedinho, tomou o seu banho, se vestiu e saiu. Ele estava no Recanto da Transfiguração, que é uma casa de encontros dirigidos por Gisa Maia, uma leiga consagrada aqui na Bahia. Comblin gostava muito daquele recanto, um lugar que inspira muito a espiritualidade. Como estava chuviscando, ele retornou da caminhada e Gisa o viu e pediu que uma das moças que cuidava da casa fosse levar um guarda-chuva para que ele pudesse vir para a oração da manhã.
Quando a moça chegou aos seus aposentos, ele já estava reclinado, sentado meio deitado, já morto. Foi um enfarte fulminante logo na manhã do domingo. Naquele mesmo dia, celebramos a missa de corpo presente, a funerária levou o seu corpo para ser preparado para o enterro e fizemos a viagem por terra até Santa Fé-PB, onde chegamos na madrugada de terça-feira. Durante toda a manhã deste dia, ele foi velado. Centenas de pessoas da região vieram visitá-lo e, à tarde, às três horas, tivemos uma celebração com seis bispos, aproximadamente 60 padres e muita gente da redondeza, porque ele era muito querido, muito amado por aquele povo. E assim foi o sepultamento dele no santuário de Santa Fé, com a participação de muitos bispos, padres e fiéis. E houve também diversas missas de sétimo dia em muitos lugares onde ele era reconhecido e muito valorizado.
IHU On-Line – Padre Comblin vivia em Barra também. Vocês conversavam sobre a transposição do São Francisco? O que ele dizia sobre sua luta em relação à vida do rio?
Dom Cappio – Sempre conversávamos. Padre Comblin era um profundo defensor da vida, da vida do povo nordestino, da vida do povo ribeirinho, e ele sempre foi contrário ao projeto de transposição, porque ele via que este iria defender os interesses dos grandes grupos da oligarquia econômica, contrária aos interesses populares. Padre José Comblinsempre foi um defensor dos direitos do povo. Quando ele via que este projeto era contrário aos direitos do povo, Comblin se colocou contrário ao projeto de transposição de águas do rio São Francisco e de todos estes projetos faraônicos que agridem a natureza e agridem os direitos da população de ter os seus bens necessários para sua sobrevivência.
Ele via nesse projeto uma agressão à natureza e ao povo que necessita de água. Padre Comblin não conseguia admitir que essa água fosse tirada do povo para servir aos grandes projetos agroindustriais. Ele sempre foi contrário a estes projetos e, por isso, veio à diocese da Barra por ver que aqui havia uma postura muito forte, clara e transparente a defesa dos direitos da população.
IHU On-Line – E, nesse momento, como estão as obras de transposição do São Francisco? Continuam em pé? Que problemas já vêm se apresentando?
Dom Cappio – Elas continuam, mas com muita demora, muita delonga, com muitos contratos sendo revistos. O Ministério da Integração Nacional agora já postergou todos os prazos, não se têm mais datas previstas para a inauguração e nós sempre dizíamos que essas previsões eram um efeito político eleitoreiro, mas o pessoal não acreditava. Agora todas as datas foram postergadas e muitas atividades do projeto de transposição que estavam sendo realizadas foram paradas.
Os grandes canais que foram abertos diante de um Sol clemente, estão com as placas de concreto rachando; os técnicos já estão dizendo que as placas não vão aguentar e que todos os canais terão de ser refeitos. É uma tristeza. Aquilo que nós sempre dizíamos, que o projeto não chegaria ao fim, e eu ainda acredito nisso, está acontecendo. Na medida em que ele vai sendo construído vão aparecendo tantos problemas paralelos que os custos estão sendo tão aumentados, os prazos estão sendo cada vez maiores, por isso tenho certeza de que o projeto não terá condições de chegar ao fim. Portanto, confirma-se aquilo que sempre dissemos: que este projeto era eleitoreiro, ou seja, para garantir as eleições de 2010. O projeto já cumpriu a sua função de garantir os recursos necessários para as eleições presidenciais do ano passado, então agora se ele vai ser levado adiante ou não isso pouco importa para o governo.
IHU On-Line – Sua luta, as greves de fome que o senhor fez em protesto contra as obras de transposição, como o senhor vê agora, diante desse cenário das obras?
Dom Cappio – Eu vejo que foi graças a todas aquelas lutas, àquele grito que foi dado, que fez mostrar para o Brasil e para o mundo o absurdo deste projeto. Na medida em que este projeto avança, a população está percebendo que tudo aquilo que se dizia sobre o projeto é verdadeiro. Há uma total falta de respeito para com as comunidades por onde os canais passam, uma total falta de respeito para com os municípios e estados por onde os canais estão sendo abertos. Também a presença massiva do exército brasileiro que intimida as populações, as indenizações que não estão acontecendo... Na medida em que o projeto avança, está se mostrando para que ele veio, e toda aquela propaganda feita pelo governo –de que seria a redenção do Nordeste–, cada vez mais o povo percebe o quanto era enganosa.
Tudo aquilo que dizíamos, tudo aquilo que apontamos na época em relação ao projeto, tudo isso está se concretizando. Pelo menos o Brasil e o mundo tiveram a oportunidade de saber a verdade a respeito do projeto. Infelizmente, ele foi iniciado e, com o tempo, vai mostrar o grande engano pela qual toda a sociedade brasileira passou com a viabilização do projeto que, tenho certeza, não chegará ao fim.
Um abraço afetuoso. Gilvander Moreira, frei Carmelita.
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terça-feira, 5 de abril de 2011

AGRADECIMENTO A UM MESTRE

José Comblin deixou-nos no dia 27 de março último, depois de completar 88 anos de idade, vividos de modo despojado, fraterno e ecumênico. Pediu para ser enterrado em Solânea, PB, ao lado do grande apóstolo dos sertões nordestinos, o Pe. Ibiapina, para ele, um modelo para a missão, para a promoção humana, espiritual e apostólica dos pequenos e das mulheres e um verdadeiro santo, para nossos tempos.
Louvamos a Deus por sua vida e damos testemunho de sua entrega ao estudo e à formação a serviço dos pobres. Sua lúcida contribuição nos campos bíblico, teológico, pastoral e do compromisso cristão no mundo, sempre foi marcada pela busca da justiça e da transformação social. A partir dos últimos e excluídos, interpelava corajosa e profeticamente os grandes do mundo e da Igreja e as estruturas de opressão e exclusão.
A opção pelos pobres, que marcou sua vida, é um exemplo para nós. Por causa dos pobres, deixou a Bélgica e veio para a América Latina. Aqui, optou pelo nordeste, não o das capitais e sim o do sertão. Da experiência vivida entre os pobres, ele retirou o material básico para sua leitura da bíblia, sua espiritualidade, sua teologia, suas orientações pastorais. Nisso, tornou-se nosso mestre: nunca esquecer que o primeiro lugar no reino de Deus pertence aos pobres.
Comprometido com o projeto comunitário de igreja, Comblin dedicou especial atenção à formação de seminaristas em contato com o povo, visitando suas comunidades para com eles conviver e orientar nos estudos. Pensou num tipo de sacerdote nascido ou vivendo na zona rural, membro atuante de uma comunidade de base, e assim brotou a Teologia da Enxada que evoluiu para a fundação do Seminário rural. Para completar o quadro, Pe Comblin iniciou em Mogeiro-PB, o Centro de Formação para Missionárias do Meio Popular. Durante anos ele se desdobrou indo a pé ou de jipe para orientar a formação dos missionários do Campo e das missionárias do meio popular.
Escreveu muito. Fez inúmeras palestras e conferências. Assumiu uma enormidade de cursos formais ou intensivos para toda categoria de pessoas. Sua palavra foi dirigida a lavradores analfabetos e a doutores em teologia, mulheres da periferia e seminaristas, religiosas inseridas e bispos em assembléia, porque seu desejo era estar presente onde pudesse provocar ou renovar em seus ouvintes e leitores a conversão ao reino de Deus. Não poderemos jamais subestimar o valor dessa lição de disponibilidade como missionário e evangelizador.
Sua radical opção pelos pobres fez de Comblin um severo crítico do sistema capitalista e de seus instrumentos de dominação. Basta lembrar sua crítica lúcida e corajosa à lei de segurança nacional. Não contente com a crítica teórica, ele dedicou seu ministério presbiteral à construção de instrumentos de libertação dos pobres, como comunidades eclesiais de base, pastorais sociais e movimentos populares.
A maior lição do mestre Comblin talvez seja sua teimosa fidelidade à igreja. Foi nela e por meio dela que ele decidiu trabalhar a vida toda.
Este nosso testemunho é apenas pálido eco de milhares de pessoas, comunidades, dioceses e movimentos populares que estão agradecendo a Deus por sua vida e seus trabalhos. Sua palavra, seus escritos, sua coerência intelectual e pastoral são para a Igreja da Libertação uma verdadeira herança que devemos fazer frutificar.

(seguem inúmeras assinaturas)