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terça-feira, 24 de abril de 2012

Igreja: de regente a terceiro violino


Sábado, 21 de abril de 2012 Entrevista especial com Sérgio
Coutinho

“Enquanto cada vez mais a sociedade trabalha para encontrar formas mais participativas, inclusive propondo o debate por um Estado mais democrático, a Igreja deu pouquíssimos passos na direção de uma verdadeira sinodalidade”, constata o historiador.
Confira a entrevista.
Este ano eleitoral deve ser o pano de fundo para a Igreja lançar novos debates acerca do Estado e da sua função social a fim de “estimular os movimentos sociais a continuarem nas lutas reivindicativas por políticas públicas que possam atender verdadeiramente aos interesses da sociedade como um todo”, declara Sérgio Coutinho à IHU On-Line.
Na entrevista a seguir, concedida por e-mail, o presidente do Centro de Estudos em História da Igreja na América Latina analisa os rumos e os desafios da Igreja no Brasil e é enfático: "ela quer contribuir para um debate mais profundo sobre o papel do Estado democrático, mas internamente nunca se viu tanto ‘verticalismo’ e controle da ‘opinião pública’ na Igreja, de modo especial do laicato mais crítico”.
Para Coutinho, a Cristandade, que ainda “permeia mentes e corações”, está com os dias contados. E para que possa fomentar um diálogo maduro, enfatiza, a Igreja precisa “reconhecer que ela não possui mais ‘poderio territorial’ (e isso já faz tempo desde as campanhas de Garibaldi e do Tratado de Latrão em 1929) e ‘poderio espiritual’ da época da Cristandade. É como aquela metáfora: ‘Durante pelo menos 10 séculos a Igreja foi a regente de uma grande orquestra. Agora ela é chamada a ser o ‘terceiro violino’ dessa mesma orquestra’”.
Sérgio Ricardo Coutinho dos Santos (foto) é mestre em História pela Universidade de Brasília - UnB e doutorando na mesma área pela UFG. É professor do curso de pós-graduação lato-senso em História do Cristianismo Antigo da UnB e presidente do Centro de Estudos em História da Igreja na América Latina - CEHILA-Brasil. Segundo o Diretório da Liturgia e da organização da Igreja no Brasil, 2012, ele é assessor nacional da Comissão Episcopal para o Laicato - CEBs.
Confira a entrevista.
IHU On-Line - O ano de 2012 começou com uma novidade para a Igreja do Brasil: a indicação de Dom João Braz de Aviz ao cardinalato. O que essa nomeação indica em termos de conjuntura eclesial, tanto no Brasil como na Cúria?
Sérgio Coutinho - Este último Consistório revelou bem que a Cúria em nada é “católica”, ou seja, “universal”. O que assistimos foi uma chuva de nomeações de novos cardeais europeus e, principalmente, italianos, sendo que muitos deles são ainda membros da própria Cúria Romana. No momento em que é noticiado, pela imprensa, o cotidiano das intrigas curiais (conhecido por "Vatileaks"), o Papa Bento XVI não teve a força política necessária para “esvaziar” o poder dos chefes dos diversos dicastérios e que, em certo sentido, são eles mesmos os que tramam em segredo (agora não mais, depois do vazamento dos documentos) por sua saída e, até mesmo, por sua morte (!).
Por outro lado, não deixa de ser interessante, nesse contexto, as declarações de D. João Avis após o Consistório, em que foi bastante firme, e até surpreendente, pois fez críticas quanto ao perfil por demais eurocêntrico da Igreja.
Além disso, a nomeação de D. João Braz Avis também revela uma tendência eclesial, já sentida desde o pontificado de João Paulo II: a força dos movimentos e das novas comunidades. Dom João nada entende de “Vida Religiosa consagrada” (dicastério do qual é reponsável), mas é membro do Focolares. Isso nos indica que o Vaticano deseja mesmo é valorizar as “novas formas” de vida religiosa consagrada e, nesse sentido, um membro desses movimentos dentro da cúria romana, e ainda mais como cardeal, terá um peso inegável no próximo conclave.
IHU On-Line - Com a nomeação de D. Aviz, como o senhor analisa a composição do Colégio dos Cardeais “brasileiro”? Como essa nova composição pode influenciar a vida da Igreja no Brasil?
Sérgio Coutinho - A nomeação de D. João Braz de Avis não significa nada em termos de valorização da importância da Igreja e do catolicismo no Brasil e América Latina, no contexto mais amplo da Igreja Católica. Como membro da Cúria, não podia deixar de ser nomeado cardeal. Alguém poderia dizer que o que o papa está fazendo não é nada mais do que respeitar as orientações de não nomear novos cardeais para algumas das principais arquidioceses onde ainda estão vivos seus cardeais eméritos. Mas o certo mesmo é que o Brasil ficará sem novos cardeais ainda por um tempo – a não ser que vá alguém trabalhar na Cúria.

IHU On-Line - Outra novidade recente é que D. Lorenzo Baldisseri, núncio apostólico no Brasil, foi recentemente nomeado novo secretário da Congregação para os Bispos. Seu substituto já foi anunciado. Qual a importância desse cargo na atual conjuntura da Igreja brasileira?
Sérgio Coutinho - Para o caso da Igreja brasileira, não podemos nos esquecer do trabalho importante de D. Armando Lombardi na colaboração e indicação do episcopado brasileiro no período imediatamente anterior e posterior ao Concílio Ecumênico Vaticano II. O resultado foi uma geração de bispos excepcional e que levará muitos anos para se repetir algo semelhante. Um quadro episcopal que levou a cabo as intuições e determinações desse Concílio, fazendo da Igreja do Brasil uma das que mais criativamente trabalhou na sua recepção, sendo inclusive vista por Roma como uma Igreja “rebelde” em muitas vezes.
Dom Baldisseri, seguindo seus sucessores e a política eclesial de “concentração católica” (Danielle Hervieu-Leger) iniciada pelo Papa João Paulo II, e aprofundada por Bento XVI, procurou escolher candidatos não tanto por sua formação teológica, mas por sua fidelidade ao projeto de fortalecer a “identidade católica” diante de uma sociedade cada vez mais secularizada e relativizada. Na verdade, esse perfil foi mais procurado para aqueles que pudessem ocupar as arquidioceses brasileiras, nas grandes e médias cidades onde estão as maiores concentrações populacionais e nas quais o processo de destradicionalização é acelerado. Paradoxalmente foram nomeados arcebispos mais preocupados com as questões morais do que propriamente questões pastorais (o grande desafio de evangelizar as cidades) e que pudessem ser vozes “proféticas”, denunciando os “males” do mundo (pós) moderno.
Peso político eclesiástico
Por outro lado, para as grandes dioceses, no sentido territorial da palavra, e de baixa densidade demográfica, foram nomeados, em um número razoável, bispos mais pastoralistas, com “baixa escolaridade” e preocupados com a falta de políticas sociais para aquelas populações. Diríamos, os bispos com forte sensibilidade pela causa dos pobres. No fim, o que temos mesmo é um episcopado muito preocupado com as questões burocrático-econômicas e com os temas da moral católica.
No entanto, no geral, os arcebispos acabam sempre por ter um peso político eclesiástico grande no conjunto do episcopado, mas muitas vezes assistimos a articulações e posições que nem sempre são previstas pelo Núncio, como foram as duas últimas eleições da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil - CNBB.
Tenho esperança que o novo Núncio, o jovem D. Giovanni D’Aniello (57 anos!), possa contribuir para que tenhamos um quadro novo no perfil do episcopado brasileiro. Sua experiência diplomática se concentra principalmente em regiões em que os católicos são minoria e perseguidos; por outro lado, lugares onde a pobreza desumaniza o projeto de Deus (Burundi, Tailândia, Líbano, Congo e Camboja). Espero que o convívio com tal realidade traga, para a Igreja no Brasil, verdadeiros pastores comprometidos com a causa do Reino.

IHU On-Line - 2012 também será o grande ano de preparação para a Jornada Mundial da Juventude - JMJ, no Rio de Janeiro, com a presença do papa, em julho de 2013. O que espera desse encontro? Por outro lado, como analisa os primeiros passos da organização?

Sérgio Coutinho - Do ponto de vista da organização, parece que as coisas vão indo dentro do cronograma estipulado. Como também vemos uma boa participação da juventude católica na recepção da Cruz e do Ícone. No entanto, ainda não conseguimos visualizar os resultados propriamente pastorais ou de evangelização de todo esse processo. Não se vê (ou se viu) nada que enfrentasse de forma aberta e corajosa os grandes desafios da juventude atualmente: desemprego, violência, exploração... nada se fala sobre a falta de políticas públicas voltadas para a juventude. Alguns dizem que a Campanha da Fraternidade de 2013 provocará essas questões. Espero que sim.
Mas o que podemos concluir já de imediato com a preparação desse evento é aquela mesma impressão que tenho da escolha de D. João Aviz: a presença majoritária, e até dominante, nos encaminhamentos da JMJ dos movimentos e novas comunidades, em detrimento dos grupos das Pastorais da Juventude (Pastoral da Juventude, Pastoral da Juventude Rural, Pastoral da Juventude Estudantil e Pastoral da Juventude do Meio Popular). A questão é se queremos uma pastoral de massa, de eventos, ou uma pastoral verdadeiramente evangelizadora. Vamos acompanhar melhor os próximos passos.

IHU On-Line - Além disso, 2012 será um ano de duas grandes celebrações: os 50 anos da inauguração do Concílio Vaticano II e os 40 anos da publicação do livro Teologia da Libertação. Perspectivas, de Gustavo Gutiérrez. Começando pelo Concílio, no contexto brasileiro, o que é necessário retomar com mais força depois desses 50 anos dos debates conciliares e o que ficou “esquecido”? Por outro lado, onde é preciso “reatualizar” o Concílio para o momento atual da Igreja no Brasil?
Sérgio Coutinho - Parece-me que uma temática conciliar que necessitaria aprofundar é o da “horizontalidade” na Igreja.
Já o Sínodo de 1985 compreendeu essa questão na forma do conceito de “comunhão”. Porém, o problema é como entender este termo. Lembro-me da comparação feita por João Batista Libanio numa palestra que assisti: “Se eu trago para vocês aqui um bolo, parto em vários pedaços e distribuo para todos... vocês estarão em comunhão comigo, não é!? Mas, por outro lado, se digo para vocês assim: ‘Vamos fazer um bolo!? Quem vai trazer a farinha? Quem vai trazer os ovos? Quem vai amassar a massa?...’ Depois de preparado, colocamos no forno e depois de pronto, todos nós comemos juntos. Pois bem, a primeira forma é o que chamamos de ‘comunhão hierárquica’ e o segundo jeito é o que chamamos de ‘comunhão e participação’”.
“Comunhão e participação” foi a compreensão dos bispos nas conferências de Medellín e Puebla da eclesiologia conciliar de “povo de Deus”. Foi também a compreensão dos bispos da CNBB no momento de recepção do Concílio. Foi por isso mesmo que, aqui, desenvolvemos e aprofundamos uma série de instâncias participativas, mesmo em contextos políticos de pouquíssima ou nenhuma participação democrática. Assembleias gerais do episcopado, assembleias diocesanas, paroquiais, comunitárias, assembleias dos organismos, conselhos pastorais diversos, equipes de liturgia, ministérios laicais. Enfim, uma série de práticas que favoreciam a participação e a “opinião pública” dentro da Igreja.
Obediência às rubricas
O que assistimos nos últimos 25 anos foi um processo cada vez mais exacerbado de “clericalização”, ou de “verticalização” na Igreja. O estudo de Direito Canônico passou a ser o carro chefe da formação dos futuros presbitérios, mesmo os de Institutos Religiosos. Isso significa que se vêm enfatizando muito mais a obediência às rubricas e normas eclesiásticas do que propriamente na construção de caminhos de evangelização. Conselhos paroquiais cada vez mais centralizados e cumprindo papel meramente figurativo, marcadamente consultivo. Quando for deliberativo, cumpre a função dos membros apenas apertar a tecla de “confirmar” o que pensa o padre.
Desse modo, os institutos de formação presbiteral insistem numa formação para o exercício do culto e para o exercício do poder administrativo-burocrático-canônico, em detrimento do evangelizador-pastoral. É como um padre diocesano, vestido de batina preta, de uma cidade de periferia do Distrito Federal (que por sinal foi ex-aluno meu!) me disse certa vez quando fui conhecer sua comunidade paroquial: “Padre, como estão as coisas aqui?”, respondeu ele de forma muito reveladora: “Estão ótimas! Aqui eu sou o Papa! É melhor ser padre do que bispo, porque aqui todos me respeitam e o bispo nem sempre é respeitado.”
O que temos são jovens presbíteros com forte formação estético-disciplinar e pouco ético-pastoral. E é justamente neste nó que passam os conflitos com o laicato, cada vez mais desejoso de participar da vida eclesial, e das muitas propostas pastorais diocesanas, e até das iniciativas da CNBB, que ficam emperradas por “pequenos príncipes” mais parecidos com o de Nicolau Maquiavel do que de Saint-Exupéry.
Outro sinal evidente desse sintoma é o esvaziamento das Assembleias dos Organismos do Povo de Deus, sem contar com a quase nenhuma participação do laicato nas Assembleias Gerais da CNBB.
Parece que enquanto a sociedade cada vez mais trabalha para encontrar formas mais participativas, inclusive propondo o debate por um Estado mais democrático, a Igreja deu pouquíssimos passos na direção de uma verdadeira sinodalidade.

IHU On-Line - Com relação à Teologia da Libertação - TdL, o Brasil desponta como um dos seus principais “polos produtores” de reflexão e publicações, com grandes teólogos relevantes nesse debate. Como o senhor vê o papel da TdL no contexto eclesial brasileiro contemporâneo? O discurso está defasado, ainda pensando com categorias sociopolíticas do contexto das ditaduras? Ou há novas perspectivas sendo desbravadas?

Sérgio Coutinho -
Independentemente do contexto histórico latino-americano geral e brasileiro, em particular, a TdL centra toda a sua energia reflexiva e, principalmente, prática em dois polos: os pobres e o Reinado de Deus.
Os pobres são o “lugar teológico”. Onde houver pobres, onde houver seres humanos que não tenham “vida e vida em abundância”, Deus estará se revelando, colocando-se ao lado deles por meio de homens e mulheres que denunciarão o “pecado social” que ainda teima em ceifar a vida de muitos dos “pequeninos”.
O Reino e os pobres
Nesse sentido, a TdL ainda tem muito a contribuir não só num “discurso sobre Deus”, mas principalmente sensibilizando os cristãos para dar testemunho daquilo pelo qual Jesus deu sua vida: o Reinado de Deus.
Há uma relação direta entre o Reino e os pobres, pois é deles que pertence “o governo soberano de Deus”. O Reinado de Deus é um reinado de justiça, misericórdia, paz e de vida plena. Este foi o sonho de Jesus e deve ser o sonho de todos e todas que se dizem seus discípulos (as): lutar para a construção de uma sociedade justa e fraterna, no campo e na cidade, e, de modo especial, para os pobres.

IHU On-Line - Tendo em vista o panorama político, econômico e social que desponta para o Brasil em 2012, quais serão, em sua opinião, as grandes questões que a Igreja deveria abordar neste próximo ano?
Sérgio Coutinho - Sem dúvida nenhuma que a grande questão em que a Igreja poderá contribuir muito está expressa na temática da 5ª Semana Social Brasileira: “Um novo Estado, caminho para uma nova sociedade do bem viver”.
A Igreja quer dar sua contribuição neste ano eleitoral para discutir “Estado para que e para quem?”. O que temos é um Estado a serviço do capitalismo e dos grupos de pressão vinculados às grandes organizações monopolistas. Nesse sentido, a Igreja pretende estimular os movimentos sociais a continuarem nas lutas reivindicativas por políticas públicas que possam atender verdadeiramente aos interesses da sociedade como um todo: educação e saúde de qualidade, valorização do pequeno agricultor, por uma reforma agrária e por uma distribuição de renda mais justa entre outras mais.

IHU On-Line - Em diversos âmbitos, veem-se obstáculos para uma interlocução fecunda da Igreja com a cultura e a sociedade brasileiras contemporâneas. O que se vê são embates ou censuras. Como fomentar um diálogo inter-religioso e intercultural mais maduro no Brasil?
Sérgio Coutinho - De fato, é contraditória a posição da Igreja em muitos momentos. Como disse acima, ela quer contribuir para um debate mais profundo sobre o papel do Estado democrático, mas internamente nunca se viu tanto “verticalismo” e controle da “opinião pública” na Igreja, de modo especial do laicato mais crítico. Todos os anos ela coloca na “pauta do dia” temas de relevância nacional por meio das Campanhas da Fraternidade, mas luta para manter seus privilégios seculares por meio do Acordo Brasil-Santa Sé.
Minha hipótese, e que pode ajudar na resposta à sua pergunta, é a seguinte: a “ideia” de Cristandade que ainda permeia mentes e corações. No entanto, a Cristandade está com seus dias contados, mas muitos “eclesiásticos” (clérigos e até leigos) ainda não se deram conta de que ela já não tem mais sentido nos dias de hoje.
O terceiro violino
Para fomentar um diálogo mais maduro, como você pergunta, é fundamental a Igreja reconhecer que ela não possui mais “poderio territorial” (e isso já faz tempo desde as campanhas de Garibaldi e do Tratado de Latrão em 1929) e “poderio espiritual” da época da Cristandade. É como aquela metáfora: “Durante pelo menos 10 séculos a Igreja foi a regente de uma grande orquestra. Agora ela é chamada a ser o ‘terceiro violino’ dessa mesma orquestra”. Para alguns dentro da Igreja isso é um absurdo e ela precisa lutar por sua “verdadeira” identidade. Para outros, essa é a grande oportunidade da Igreja viver mais próximo do seu mestre e ser fiel ao seu projeto.
É necessário que a Igreja “vá para águas mais profundas”, mergulhe nas profundezas da sociedade contemporânea; sem medo, como fez Paulo e suas “comunidades de base” que conseguiram transformar aquela sociedade. Somente uma Igreja parecida com seu mestre poderá ser uma Igreja convincente.


quinta-feira, 19 de abril de 2012

ASSEMBLEIA GERAL DA CNBB E CONCÍLIO ECUMÊNICO VATICANO II

Pe. Alfredo J. Gonçalves, CS, [www.provinciasaopaulo.com]

A metáfora do Bom Pastor, aparentemente, resulta inadequada para a sociedade contemporânea, tão fortemente marcada pela urbanização, pelo pluralismo cultural e religioso, pela economia globalizada e pela revolução da informática. Mas sua interpretação pode ser sempre retomada, dada a riqueza do sentido universal. Três funções tinha (e tem) o pastor: encontrar bom pasto para o nutrimento do rebanho, defendê-lo dos ataques do lobo e outros animais ferozes e manter certa harmonia interna. È fácil dar-se conta que semelhantes funções, na sua complementaridade, viram-se reforçadas e entrelaçadas com a abertura da Igreja ao mundo moderno provocada pelo Concílio Ecumênico Vaticano II. “O gênero humano encontra-se hoje em uma fase nova de sua história, na qual mudanças profundas e rápidas estendem-se progressivamente ao universo inteiro”. (GS, nº 4).
Na celebração do cinquentenário do referido Concílio, as “mudanças profundas e rápidas”, requerem dos pastores reunidos em assembléia geral, aos pés de Maria e do Santuário de Aparecida, grande empenho por uma nova evangelização. “Nnova em seus conteúdos, em seus métodos e com novo ardor missionário”, como já nos alertava o Papa João Paulo II.
1. A vida em primeiro lugar
A primeira função está diretamente ligada às reais condições de vida da população. Não apenas o alimento, mas também roupa e casa, trabalho e salário, saúde e lazer, estudo e segurança, terra e cidadania... O bom pastor preocupa-se não somente com a mera sobrevivência, mas com a qualidade de vida. Aqui a ação ético-religiosa se entrelaça com a ação social e política. O cruzamento da Gaudium et Spes com a Lumem Gentium, ambos documentos do Concílio Vaticano II, respectivamente sobre a pastoral e sobre a Igreja, torna-se eloquente a esse respeito. Mais do que nunca, a Igreja Católica, da mesma forma que outras Igreja e denominações religiosas, tem um papel fundamental no sentido de reunir esforços para que toda pessoa seja respeitada na sua dignidade humana.
Esta requer, antes de mais nada, uma base socioeconômica sólida e de larga duração, exigência que se revela especialmente no mundo do trabalho. O divórcio entre trabalho e emprego é causa de muita instabilidade e insegurança por parte de milhares e milhões de trabalhadores. Estes até que encontram trabalho, não há dúvida. Mas, quando não dispõem de qualificação adequada, correm o risco de trabalhar desvinculado de um emprego estável, registrado em carteira, com todos os direitos assegurados. Vivem à caça de “bicos” eventuais, ao sabor das ondas da economia. Um enorme “exército de reserva” (Marx) que não mora, acampa de acordo com as necessidades do capital. Desempregados, ou sempre ameaçados de o serem, como podem pensar num projeto futuro de longo alcance, que envolve, por exemplo, casamento, casa, estabilidade financeira...
2. Lobos e cordeiros
O entrelaçamento das diversas dimensões da atividade pastoral, entretanto, é ainda mais evidente na segunda função do pastor. Defender o povo dos inimigos é, antes de tudo, identificá-los e conhecer-lhes a periculosidade. Quais são e até onde vai a exploração e a ganância de determinados agentes econômicos. Como se comportam os responsáveis de alguns setores da produção, onde ainda se verificam condições precárias de trabalho, de salubridade e de segurança? A voracidade do lucro e do capital pode destruir não só os recursos naturais e o bom “pasto” das “ovelhas”, mas também condená-las à pobreza e exclusão social.
Desde seus primórdios, a economia capitalista, de filosofia liberal ou neoliberal, gera lobos e cordeiros. A pretensa liberdade engendra o monstro liberalismo, pois se trata de uma liberdade entre forças desiguais. De um lado, os senhores das terras, das fábricas e das máquinas; de outro, os trabalhadores, destituídos dos meios de produção, obrigados a vender a sua força de trabalho. Numa palavra, lobos e cordeiros numa disputa desigual pelo mesmo terreno, tubarões e sardinhas dentro de um mesmo tanque, raposas e galinhas no interior do mesmo galinheiro. Não é difícil perceber como semelhante estado de coisas fortalece os poderosos e enfraquece os indefesos.
É neste contexto de confronto entre capital e trabalho (implícito ou explícito) que se faz necessária a presença do pastor. Ele tem a tarefa de afugentar os lobos e proteger as ovelhas, como se nota amplamente nos documentos da Doutrina Social da Igreja, desde a Rerum Novarum, publicada por Leão XIII em 1891, com o subtítulo Condição dos operários. A Gaudium et Spes, constituição pastoral do Concílio Vaticano II, mantém essa tradição de colocar-se energicamente ao lado daqueles cuja vida está ameaçada. Baste-nos citar as palavras de abertura do documento: “As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Jesus Cristo. Não se encontra nada verdadeiramente humano que não lhes ressoe no coração” (GS, nº 1).
O mais grave, a esta altura, é quando o bastão do pastor (ou seu báculo), em lugar de perseguir os lobos em sua ferocidade, se abate impiedosamente sobre os ombros das ovelhas. Veja-se a esse respeito as palavras e discursos dogmáticos e despóticos de alguns pastores, cujo moralismo estridente esconde não raro uma conduta ambígua, para dizer o mínimo. Desvinculado do contexto histórico e social em que vivem os trabalhadores e suas famílias, limitam-se a bordejar os pobres, já feridos por condições de vida precárias e sem esperança de melhora.
3. Unidade na pluralidade
Quanto à função de contribuir para a unidade do “rebanho”, não é a última nem a menos relevante. De fato, de que serve contar com bom alimento e segurança, se o inimigo se instala no interior da própria casa! É o que ocorre hoje em não poucas famílias e grupos. A competição e a concorrência, próprias das leis cegas do mercado, invadem a vida privada. Forma-se uma cadeia perversa que rebentará no seu elo mais fraco. Condições de trabalho adversas, salários insuficientes, além de transporte público precário, se acumulam como ingredientes de uma violência reprimida. Esta acaba recaindo, por vezes, sobre as pessoas mais próximas, aquelas que mais amamos. De longe, as principais vítimas desse mecanismo circular e vicioso são as mulheres e crianças. Disso resulta o alto índice de agressão intra-familiar, perpetrada quase sempre pelo homem, sem desconhecer outros fatores de ordem passional e psíquica.
A unidade do “rebanho” pressupõe a pluralidade das “ovelhas”. Num mundo em que praticamente tropeçamos dia-a-dia com “os mil rostos do outro”, não é fácil incorporar sua presença aos nossos hábitos e costumes. O outro – seja ele de raça ou povo, sexo ou cor, credo ou bandeira – sempre constitui um ponto de interrogação. Interpela, levanta questionamentos, desperta suspeita e exige mudanças. Mas, de um ponto de vista evangélico, não deve aparecer como um problema, e sim como uma oportunidade de intercâmbio e recíproco enriquecimento. Vale o confronto dos filósofos Sarte e Levinás: enquanto para o primeiro o “outro é o inferno”, para o segundo “o outro é o caminho para chegar a mim mesmo”.
Os parágrafos acima sugerem o contexto da Assembleia Geral da Conferencia Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) – o grande encontro anual e nossos pastores, neste ano em que o Concílio Vaticano II completa 50 anos. Em suas mãos a tríplice tarefa de contribuir, junto com outras instituições, para a qualidade de vida da população brasileira; de denunciar os abusos de alguns políticos e algumas autoridades, os mesmos que deveriam defendê-la; e de anunciar a urgência e necessidade de mudanças que levem à construção de uma sociedade justa e fraterna, sustentável e solidária, sinal visível do Reino de Deus.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Para dom Paulo Evaristo Arns, mais do que uma crise ambiental, planeta vive crise civilizatória

Em carta lida durante seminário que debateu a Rio+20, arcebispo emérito de São Paulo diz que a ciência e a tecnologia devem estar a serviço do homem e da natureza, e não o contrário

Por: Virginia Toledo, Rede Brasil Atual

Publicado em 16/04/2012, 12:35

São Paulo – "Para conferência que discutirá a saúde do planeta, da qual o Brasil será o anfitrião, é preciso que se discuta, primeiramente, o que se quer dessa reunião, pois o homem enfrenta uma encruzilhada, com ameaças nunca antes vistas." A frase é de dom Paulo Evaristo Arns, arcebispo emérito de São Paulo, referindo-se à Conferência sobre Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas, a Rio+20. A posição de dom Paulo foi lida em carta durante o seminário "Desconstruindo a crise civilizacional. Um olhar sobre a Rio+20", realizado hoje (16) na sede do Ministério Público Federal em São Paulo.

"Mais do que uma crise ambiental enfrentamos uma crise civilizatória. Uma crise de valores sem precedentes na nossa civilização. Se exaure a natureza, assim, se exaure o homem, que são partes indissociáveis", definiu dom Paulo.
No evento em que se discutiu os rumos e os desafios da Rio+20, dom Paulo exaltou a solução encontrada para as discussões, acerca do desenvolvimento, baseada no somatório da contribuição de todos os segmentos da sociedade, desde o científico, passando pelo artístico e pelo espiritual. "Precisamos de uma ciência e uma tecnologia a favor do homem e da natureza. Não ao contrário. Porque a ciência não é neutra", pontuou.
Dom Paulo criticou ainda o modelo de sociedade, dividida em duas pontas, uma abastada "imersa no consumismo", e na outra extremidade uma população miserável, "superexplorada, a favor do processo de acumulação".
Ele relembrou sua ação à frente das pastorais da Igreja Católica, principalmente nas áreas mais periféricas da cidade. "Exerci parte de minha atuação pastoral na periferia da metrópole e sei da carência da população, principalmente, neste momento perverso, no qual a terrra e o ser humano são mercadorias. Momento que tem os dias contados", sentenciou.

Violência

O arcebispo lembrou a violência com que a população da Amazônia brasileira tem vivido, numa constante situação de insegurança e ameaça. "Há irmãos na Amazônia que são assassinados por aqueles que lutam apenas para aumentar seus latifúndios", lamentou.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

A PÁSCOA DO CONCÍLIO



D. Demétrio Valentini
Neste ano, a festa da Páscoa traz marcas do Concílio.
A páscoa sempre evoca o passado, de maneira a trazer presente o significado dos acontecimentos antigos.
Pois bem, desta vez, somos convidados a associar as diversas evocações antigas da Páscoa, com acontecimentos mais recentes na caminhada da Igreja.
Entre eles, se destaca, com evidência, o Concílio Ecumênico Vaticano Segundo.
Sem sombra de dúvidas, o maior acontecimento da Igreja no século vinte. Em outubro deste ano, se comemora o jubileu de sua abertura oficial. Ele iria depois durar quatro anos, com sessões que em média duraram três meses cada ano.
Este o acontecimento que a Igreja se sente na obrigação de recordar, não só por curiosidade histórica, mas pela vigência de suas orientações, que ainda continuam balizando a caminhada da Igreja.
Como referência, é colocada a data de onze de outubro, dia da abertura oficial do Concílio em 1962. Vale a pena recordar o famoso discurso de João 23, feito na solene abertura dos trabalhos conciliares.
O entusiasmo do Papa se manifesta logo nas primeiras palavras do seu discurso. Elas não podiam ser mais otimistas: “gaudet mater ecclesia”, isto é, “alegra-se a Mãe Igreja”.
O motivo da alegria era constatar a graça especial, que a Providência tinha proporcionado à Igreja, de realizar um concílio ecumênico em nossa época, com tanta abertura de espírito, e com tanta expectativa por parte do mundo inteiro.
João 23 já tinha narrado o episódio muitas vezes. A idéia de convocar um concílio ecumênico tinha sido uma verdadeira inspiração divina. Tanto que o próprio Papa se surpreendera com a proposta, que levada ao conhecimento do público, despertou logo tanto entusiasmo, que a realização do concílio se tornou irreversível.
No seu discurso de abertura, João 23 fez questão de insistir no espírito de bondade e de tolerância, que deveria marcar este concílio. Enfatizou suas afirmações, insistindo:
“A Igreja Católica.... deseja mostrar-se mãe amorosa de todos, benigna, paciente, cheia de misericórdia e bondade também com os filhos dela separados”.
Nenhum concílio na história tinha começado com tal disposição de espírito. E nenhum concílio se viu tão estreitamente ligado a um papa, como o Vaticano II se desenhava como a réplica do “Papa da Bondade”, como o povo já tinha identificado João 23.
E no final do seu discurso, dirigindo-se diretamente aos bispos que estavam iniciando os trabalhos conciliares, deu-lhes as seguintes recomendações: “isto requer da vossa parte serenidade de espírito, concórdia fraterna, moderação nos projetos, dignidade nas discussões e prudência nas deliberações”.
Passados 50 anos, estas recomendações do Papa se constituem em preciosa mensagem de Páscoa, a ser colocada em prática por todos.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Igreja do Concílio e além

Segunda, 12 de março de 2012

Fala-se de "Vaticano III" e até mesmo de "Jerusalém II". Mas, se a meta é até mesmo ir além, será preciso, contudo, passar pelo Concílio Vaticano II.
A análise é do padre e jornalista italiano Vittorio Cristelli, publicada na revista Vita Trentina, da diocese de Trento, na Itália, 11-03-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

É típico dos aniversários introduzir a discussão sobre o que representou o evento que se celebra e destacar os aspectos ignorados ou ainda não realizados. O ano de 2012 cai exatamente a 50 anos da abertura do Concílio Vaticano II e deveria ser, portanto, um ano em que esse Concílio é revisitado. Já se anunciam estudos maciços nesse sentido, principalmente na área latino-americana da Teologia da Libertação.
Estas são as novidades fundamentais desencadeadas e ainda não plenamente realizadas do Concílio: de uma Igreja centralista a uma Igreja corresponsável e sinodal, respeitosa pelas Igrejas locais; de uma Igreja identificada com a hierarquia a uma Igreja "povo de Deus", com diversos carismas; de uma Igreja triunfalista que se autoglorifica a uma Igreja que caminha na história; de uma Igreja dominadora mãe e mestra a uma Igreja a serviço de todos e particularmente dos pobres; de uma Igreja comprometida com o poder a uma Igreja solidária com os mais fracos; de uma Igreja arca da salvação a uma Igreja sacramento de salvação, em diálogo com as outras Igrejas e as outras religiões da humanidade.
À parte do fenômeno cismático dos da lefebvrianos, nascidos e persistentes na rejeição total do Concílio, é preciso dizer que houve e ainda há resistências na vida concreta das visões de Igreja que surgiram do Concílio. A mais evidente, a da valorização dos leigos, aos quais o Concílio deu a licença de maturidade e reconheceu a tarefa específica de protagonistas ao tratar as coisas temporais (leia-se: economia, administração, política), considerando-as como lugares da sua santificação.
Atrasos e resistências mais de uma vez registrados e denunciados. Se o Papa João XXIII, inventor do Concílio, falava de "primavera da Igreja", o grande teólogo Karl Rahner, em 1982, 20º aniversário do Concílio, intitulava um discurso crítico seu de "O inverno da Igreja". Mas ouçam o que dizia o cardeal Franz König aos leigos da sua aquidiocese de Viena, em pleno Concílio:
"Quando tiverem algo a dizer a respeito da Igreja, não esperem pelo bispo. Não esperem uma palavra de Roma. Falem quando acharem que devem fazê-lo; pressionem quando devem fazê-lo. Todas as vezes que tiverem oportunidade, informem o mundo e os católicos. Além disso, digam também tudo o que o povo e os fiéis esperam da Igreja. Desse modo, esse processo que nasceu na esperança não cairá na desilusão, mas terá uma realização magnífica".
Mas há também um "além" do Concílio, provocado e desejado hoje pela mudança radical que se verificou no mundo. A globalização, com as migrações associadas, trouxe para dentro das próprias comunidades eclesiais todo o mundo e, com ele, todas as religiões. É assim, por exemplo, que hoje não se trata mais só da relação com as outras Igrejas cristãs e o consequente ecumenismo, mas da relação com todas as religiões, aquilo que com uma palavra que tenta se afirmar se chama de macroecumenismo.
Motivo pelo qual não basta nem mesmo o olhar sobre a Igreja. Paulo VI, com a intuição que lhe era própria, já havia previsto essa passagem. Se, durante o Concílio, ele sintetizava as problemáticas na pergunta "Igreja, o que dizes de ti mesma?", alguns anos depois, em uma Semana Social francesa, ele fazia uma outra pergunta: "Igreja, o que dizes de Deus?". E Karl Rahner também tinha chegado a isso, já que pôde escrever: "O futuro não interpelará a Igreja sobre a estrutura litúrgica mais precisa e mais bonita, nem sobre as doutrinas teológicas mais polêmicas que distinguem a doutrina cristã da dos cristãos não católicos, e nem sobre o regime da Cúria Romana. Pedirá que a Igreja testemunhe a proximidade do mistério inefável que chamamos de Deus".
Tem-se falado várias vezes, aqui e acolá, de um novo Concílio. Ele também é invocado pelo teólogo latino-americano Victor Codina, acrescentando provocativamente que ele não seja chamado de "Vaticano III", mas sim de "Jerusalém II". Mas preciso dizer uma coisa: se a meta é até mesmo ir além, será preciso, contudo, passar pelo Concílio Vaticano II.
http://www.ihu.unisinos.br/noticias/507364-igreja-do-concilio-e-alem

sexta-feira, 30 de março de 2012

A batalha do Vaticano entre 1959 e 1965



Que trabalho e que talento! As 570 páginas da nossa amiga e cofundadora da CCBF [Conférence Catholique des Baptisé-e-s Francophones], Christine Pedotti, são devoradas como um thriller.
A opinião é de Monique Hébrard, publicada no sítio Baptises.fr, 14-02-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Christine leu cerca de 50 livros de teólogos e de historiadores, jornais, relatos e memórias das testemunhas diretas do Concílio Vaticano II. Ela se impregnou deles a ponto de entrar na pele dos principais atores que ela põe em cena pouco a pouco, restituindo-nos não apenas seus atos e suas palavras, mas também os seus estados de ânimo. E tudo isso com uma notável empatia.
UNISINOS - Terça, 28 de fevereiro de 2012

Christine não é partidária. Se ela tem uma empatia marcante por João XXIII, nem por isso ela considera Ottaviani como um inimigo. Um verdadeiro panorama da alma humana! Durante esses três anos do Concílio, entre a aula, os restaurantes, as casas religiosas, os escritórios das congregações e "os corredores", desenrola-se uma dramaturgia em escala mundial em torno de uma fantástica inversão das mentalidades.
O relato tem as qualidades de uma tragédia clássica (e às vezes de uma comédia). O perito Joseph Ratzinger e o seu companheiro Hans Küng não se deixam tratar, por sua audácia, como adolescentes e como "sans-culotte" por um membro do Santo Ofício! E certos truques para impor uma fórmula contra os adversários beiram o grotesco, ou até mesmo a desonestidade.
Mas o essencial não está aí. Ao longo desse diário das quatro sessões, assiste-se a uma mudança secular da Igreja. Os bispos que ali entram pela primeira vez com uma cerimônia solene e petrificada são um pouco como ovelhas submissas a um papa infalível, que realmente não têm consciência da sua parte de responsabilidade na Igreja universal. Não se levaram em conta alguns cardeais, particularmente franceses (incluindo o cardeal Lienart) e alemães (aos quais logo se uniram os belgas), e célebres teólogos que foram como peritos, que imediatamente se recusaram a aprovar todos os esquemas devidamente preparados pela Cúria.
Então, iniciaram batalhas sobre inúmeras questões. Entre as mais quentes: o latim, domínio sagrado dos clérigos (os Padres Conciliares tinham que fazer suas intervenções em latim!), a noção de povo de Deus, o ecumenismo, as outras religiões, o olhar positivo sobre o mundo, a concepção da verdade e da tradição, a colegialidade dos bispos.
Apareceram então Dom Lefebvre e alguns outros prelados muitos conservadores, para os quais qualquer mudança colocaria a Igreja e a Verdade em perigo e que queriam preservar a Tradição de um mundo julgado como malvado. Pobre João XXIII, que quisera "conversar" com o mundo!
Vendo a amplitude das batalhas, compreende-se que essa passagem de uma Igreja ainda marcada pela monarquia para uma Igreja do século XX pode ainda não ser aceita e que os argumentos dos "progressistas" e dos "conservadores" de então ainda são, desesperadoramente, os mesmos em 2012!
Os bispos conciliares certamente viveram uma conversão pessoal considerável, e a celebração de clausura do Concílio (com observadores leigos!) não tinha mais nada a ver com a da abertura. Certamente, não tinham previsto que, 50 anos depois, os seus sucessores ainda sustentariam posições contra as quais eles haviam votado com uma esmagadora maioria.
Com a aproximação do aniversário do Concílio, é importante compreender o que está em jogo e constatar que ele ainda não foi totalmente "aplicado", embora, na base, ele já foi muitas vezes superado. E o livro de Christine Pedotti é um presente para isso.
Christine Pedotti, La bataille du Vatican. 1959-1965. Les coulisses du Concile qui a changé l'Église, Ed. Plon.

terça-feira, 27 de março de 2012

Concílio Vaticano II e Gaudium et Spes, A Carta Magna da Pastoral Social

23.03.12 - Mundo

Pe. Alfredo J. Gonçalves
Assessor das Pastorais Sociais
Adital

Introdução

Nas comemorações do 50º aniversário do Concílio Ecumênico Vaticano II (1962-1965), mais do que nunca vale estudar a fundo a Constituição pastoral sobre a Igreja no mundo de hoje – Gaudium et Spes (GS), promulgada solenemente pelo para Paulo VI em dezembro de 1965, no encerramento do concílio. A Constituição Pastoral, portanto, terá seu cinquentenário celebrado em 2015. Nestes quase 50 anos, muito já se escreveu e se falou sobre este documento. A ideia de um documento de caráter pastoral, em princípio, não estava no programa do referido evento. Deve-se sua elaboração e aprovação a uma interpelação do Cardeal Suenens, lançada num discurso da I Sessão do Concílio Ecumênico Vaticano II, em dezembro de 1962, bem como ao empenho pessoal do então Cardeal Montini, eleito papa como o nome de Paulo VI no decorrer das sessões conciliares, com a morte de João XXIII.

Na trajetória histórica do cristianismo, poucos eventos e poucos documentos mexeram tanto com a Igreja como, respectivamente, o Concílio Vaticano II e a Gaudium et Spes. Na mensagem do Natal que se seguiu à sua aprovação, Paulo VI assim se referiu a ela: "O encontro da Igreja com o mundo atual foi descrito em páginas admiráveis na última Constituição do Concílio. Toda pessoa inteligente, toda alma honrada deve conhecer essas páginas. Elas levam, sim, de novo a Igreja ao meio da vida contemporânea, mas não para dominar a sociedade, nem para dificultar o autônomo e honesto desenvolvimento de sua atividade, mas para ilumina-la, sustenta-la e consola-la. Essas páginas, assim o pensamos, assinalam o ponto de encontro entre Cristo e o homem moderno e constituem a mensagem de Natal deste ano de graça ao mundo contemporâneo”.

Uma releitura atenta da Gaudium et Spes, no contexto da sociedade atual, pode significar uma grata surpresa, em três dimensões: primeiro, embora publicada há quase 50 anos, ela continua trazendo elementos preciosos para entender as transformações por que passa a sociedade moderna; depois, devido justamente a esse diagnóstico válido ainda para muitos problemas que estamos atravessando, ela fornece pistas para uma ação eficaz, seja do ponto de vista pastoral, seja do ponto de vista social e político; por fim, em conjunto com os demais documentos do Concílio Vaticano II, ela representa uma inflexão decisiva quanto à postura da Igreja diante dos principais desafios da modernidade.

1. Um novo olhar sobre o mundo moderno.

Reconhecidamente, a maior novidade do Concílio Vaticano II é sua abertura e a tentativa de diálogo com os problemas e desafios do mundo moderno. Duas constatações iniciais marcam essa disposição. Na primeira, de caráter mais analítico, o documento lembra que "o gênero humano encontra-se hoje em uma fase nova de sua história, na qual mudanças profundas e rápidas estendem-se progressivamente ao universo inteiro”. Depois, num tom de denúncia que será característico de suas páginas, acrescenta que "o gênero humano nunca dispôs de tantas riquezas, possibilidades e poder econômico. No entanto, ainda uma parte considerável dos habitantes da terra padece fome e miséria e inúmeros são analfabetos” (GS, nº 4).

As "mudanças profundas e rápidas” de que fala o texto remontam, como se sabe, a uma série de transformações que sacudiram a Europa nos séculos precedentes, culminando com a Revolução Industrial. Esta, por sua vez, tem seus antecedentes no florescimento do comércio, ainda nos séculos XIII e XIV, nos descobrimentos de novas terras e novas riquezas, nos séculos XV e XVI, nos inventos e avanços científico-tecnológicos dos séculos XVII e XVIII e, por fim, na Revolução Francesa e seus desdobramentos na passagem do século XVIII ao século XIX.

O velho continente transforma-se de forma radical, seja na sua capacidade tecnológica e produtiva, seja na sua organização social e política, seja nas suas formas de pensar e agir, especialmente a partir do renascimento e do iluminismo. O teocentrismo da era medieval é gradativamente substituído pelo antropocentrismo moderno. O pensamento autônomo e emancipado, a teoria da evolução progressiva e os direitos do cidadão passam a formar um novo paradigma. Ciência, razão, tecnologia, progresso e democracia são termos que, combinados, constituem o que se poderia chamar de novo credo das sociedades ocidentais. O otimismo e até ufanismo em relação ao poder das novas descobertas científicas e em relação ao futuro da humanidade serão uma marca dos que acreditam piamente na chamada razão instrumental e aplicada. Razão e fé entram por caminhos bifurcados, aumentando cada vez mais a distância entre uma e outra. Igreja e comunidade científica experimentarão uma convivência tensa e cheia de desencontros.

Mas esse credo da modernidade irá sofrer profundos reveses no decorrer do século XX. Grande corrosão abalará progressivamente suas bases mais sólidas diante da atmosfera de competição e violência, guerra e barbárie no período que precede o Concílio. Evidente que muitos avanços foram conquistados. Basta tem em conta, por exemplo, os benefícios da medicina, dos transportes e das comunicações, para citar apenas esses. Mas os problemas mais agudos da humanidade permanecem chagas vivas, enquanto novos desafios surgem por todos os lados. Assim, ao chamar a atenção para "a condição do homem no mundo de hoje”, a Gaudium et Spes (GS), em sua primeira parte, põe a nu, por uma parte, as contradições, assimetrias e desigualdades sociais que se aprofundam por todas as partes, e, por outra, as esperanças e aspirações do ser humano enquanto imagem e semelhança de Deus. Alguns anos mais tarde, na Populorum Progressio (PP),a qual, como sabemos, constitui uma espécie de complemento da Constituição Pastoral do Vaticano II, Paulo VI irá novamente alertar para o flagrante contraste entre o progresso tecnológico e a capacidade produtiva, de um lado, e o subdesenvolvimento de tantos povos, de outro. Aliás, os dois documentos – GS e PP – dão continuidade a uma linha de pensamento que atravessa todo o Ensino Social da Igreja, isto é, o descompasso crescente entre crescimento econômico e desenvolvimento integral. Mais recentemente, os escritos de João Paulo II não se cansam de evidenciar, ao mesmo tempo, o acúmulo e a falta de distribuição dos bens produzidos por toda a sociedade. "Ricos cada vez mais ricos às custas de pobres cada vez mais pobres”, dirá em sua vista ao México.

Para usar a expressão de João XXIII, como abrir as "janelas do Vaticano aos novos ares” que se respira nesse mundo completamente transformado? Como entrar em diálogo aberto com a ciência e o pensamento contemporâneo? Como reconhecer, simultaneamente, os avanços e os limites do progresso tecnológico e do crescimento econômico? Como traduzir a solicitude pastoral da Igreja diante dos novos problemas e desafios? Por outro lado, numa sociedade cada vez mais marcada pelo pluralismo cultural e religioso, o que significa um ecumenismo não apenas formal, mas efetivo e conseqüente? Numa palavra, se o processo de evangelização passa, necessariamente, por uma profunda inculturação, como fazer isso frente aos valores e contra-valores da chamada modernidade?

São essas algumas das questões que preocupam os padres conciliares na década de 60, e que transparecem com insistência nas páginas da Gaudium et Spes. Neste sentido, não será exagero afirmar que a primeira frase deste documento traduz o espírito do próprio Concílio como um todo: "As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo. Não se encontra nada verdadeiramente humano que não lhe ressoe no coração. Com efeito, a sua se constitui de homens que, reunidos em Cristo, são dirigidos pelo Espírito Santo, na sua peregrinação para o Reino do Pai. Eles aceitaram a mensagem da salvação que deve ser proposta a todos. Portanto, a comunidade cristã se sente verdadeiramente solidária com o gênero humano e com a história” (GS, nº 1).

2. Um novo olhar eclesiológico
Para entender a eclesiologia que está subjacente à Gaudium et Spes temos de voltar à Lumen Gentium (LG) e à Ad Gentes (AD), respectivamente, Constituição dogmática sobre a Igreja, e Decreto sobre a atividade missionária da Igreja, ambos documentos do Concílio Vaticano II. Concentramo-nos especialmente no capítulo II da LG, que tem como título O Povo de Deus. Retomando a teologia da aliança e a trajetória histórica do Povo de Israel, bem como a imagem do Corpo Místico, da Carta de São Paulo aos Coríntios, os padres conciliares concluem: "Como o Israel segundo a carne, que peregrinava no deserto, já é chamado Igreja de Deus, assim o novo Israel que, caminhando no presente tempo, busca a futura cidade perene, também é chamado Igreja de Cristo” (LG, nº 9). Aqui a inflexão eclesiológica é inegável: de uma Igreja até então entendida como hierarquia, passa-se claramente a uma Igreja Povo de Deus. O acento recai sobre o conjunto dos fiéis.

E o documento continua: "Deus convocou e constituiu a Igreja – comunidade congregada daqueles que, crendo, voltam seu olhar a Jesus, autor da salvação e princípio da unidade e da paz – a fim de que ela seja para todos e para cada um o sacerdócio visível desta salutífera unidade” (LG, nº 9).

Na continuidade do documento conciliar, poderíamos nos estender sobre os conceitos de "sacerdócio comum”, de "universalidade do único Povo de Deus”, da "índole missionária de toda a Igreja” ou "a relação dos leigos com a Hierarquia”. Mas o escopo destes parágrafos não é analisar a Lumen Gentium em si. Por isso, baste-nos neste espaço sublinhar que a Gaudium et Spes nasce no terreno de uma nova noção de eclesiologia. Nesta, Cristo é o centro e a cabeça da Igreja e, ao redor d’Ele, todos e todas somos iguais, embora com distintos ministérios diversas funções.

Não será necessária muita ginástica analítica para dar-se conta de como refletem, no interior da própria Igreja, as idéias democráticas que se consolidam na sociedade moderna. Os direitos humanos e as idéias democráticas constituem, como veremos, o fio condutor do Capitulo IV da segunda secção, sobre a vida da comunidade política.

No que diz respeito à atividade missionária da Igreja, também neste caso não é nosso objetivo tecer maiores comentários à Ad Gentes. Basta lembrar que "a Igreja peregrina é por natureza missionária” (AD, nº 2). "Essa missão no decurso da história continua e desdobra a missão do próprio Cristo, enviado a evangelizar os pobres. Eis porque a Igreja, impelida pelo Espírito de Cristo deve trilhar a mesma senda” (AD, nº 5).

Em síntese, os dois documentos citados apontam para uma Igreja simultaneamente circular e aberta. Circular, no que concerne à sua organização interna e à tomada de decisões, onde todos somos irmãos e irmãs, sem distinção de raça, cor, sexo, nação, classe, etc., mesmo exercendo papéis diferenciados. E aberta, na medida em que, pelo batismo, todo cristão é chamado a ser missionário, a propagar e viver a Boa Nova de Jesus Cristo onde quer que se encontre. Igreja como Povo de Deus, por um lado, e Igreja a caminho, por outro, são as expressões que sobressaem na eclesiologia do Concílio Vaticano II.

3. Um novo olhar profético
A segunda parte da Gaudium et Spes dedica três longos capítulos à análise da sociedade atual, seguida de orientações para a busca da justiça e da paz. No primeiro desses capítulos, sobre a vida econômico-social, o texto faz uma veemente denúncia das contradições que regem a economia: "No momento em que o progresso da vida econômica, dirigido e coordenado de maneira racional e humana, poderia mitigar as desigualdades sociais, com muita freqüência se torna o agravamento das desigualdades sociais, ou também cá e lá o regresso da condição social dos fracos e desprezo dos pobres. Enquanto uma enorme multidão tem falta de coisas absolutamente necessárias, alguns, mesmo em regiões menos desenvolvidas, vivem na opulência ou desperdiçam os bens. O luxo e a miséria existem simultaneamente”, Por isso que, logo em seguida, os padres conciliares insistem que "o progresso econômico deve permanecer sob a deliberação do homem. Não pode ser abandonado ao só arbítrio de poucas pessoas”, nem "ao curso quase mecânico da vida econômica” (GS, 63-65).

O documento segue falando da necessidade de subordinar a economia a decisões políticas e estas aos princípios éticos do bem comum, ao mesmo tempo que faz um apelo a condições de trabalho mais justas, levando em conta o respeito à pessoa humana. Faz ainda a crítica do latifúndio e do crescente poder financeiro e especulativo. Nem precisaria acrescentar que suas palavras, escritas há mais de 40 anos, revelam-se de uma atualidade surpreendente diante da ideologia do mercado total.

No capítulo a respeito da "vida da comunidade política”, como já assinalamos acima, insiste-se sobre o respeito aos direitos humanos de todos os cidadãos, o desejo de participação democrática no destino das nações e a responsabilidade de todos e todas na condução da vida pública. A novidade é que "todos os cristãos se tornem cônscios de seu papel próprio e especial na comunidade política”. "Pela integridade e com prudência, lutem contra a injustiça e a opressão, ou o absolutismo e a intolerância, seja de um homem ou de um partido” (GS, nº 75).

Convém não esquecer que a memória do nazismo e do fascismo, com os horrores dos campos de concentração e do holocausto, ainda estava bem viva nos países europeus e no mundo. E convém ter presente, também, as tentativas atuais de um novo tipo de colonialismo político e econômico, por parte dos países centrais sobre os países periféricos, com destaque para a hegemonia do mercado financeiro e o mecanismo perverso do endividamento externo. Como já nos alertou João Paulo II, "não podemos pagar a dívida com a fome e a miséria das populações pobres”.

Por fim, no capítulo sobre "a construção da paz e a promoção da comunidade dos povos”, o documento retoma os alertas de João XXIII, na Pcem in Terris, para o risco da corrida armamentista e da guerra total. Estamos em plena vigência da guerra-fria e o fantasma da bomba atômica ronda os países europeus. Não basta a "paz do medo, assentada sobre o equilíbrio das armas”, nem a "paz da morte” cuja lembrança permanece nos escombros, ruínas e cinzas da 2ª Guerra Mundial. O que se busca é a paz fundamentada na justiça e no direito (GS, nº 80-83). "O desenvolvimento é o novo nome da paz”, lembrará anos mais tarde Paulo VI.

A paz de que falam os padres conciliares pressupõe novas relações internacionais, novas instituições supranacionais, bem como cooperação das diferentes nações nos campos econômico, político, social e cultural. "Cabe à comunidade internacional” –diz o documento – organizar e estimular o desenvolvimento, mas de tal maneira que os fundos a isso destinados sejam aplicados de modo mais eficiente e com plena eqüidade. Pertence ainda a esta comunidade, sem prejuízo naturalmente do princípio de subsidiariedade, organizar as relações econômicas mundiais, a fim de que se desenvolvam conforma as normas da justiça” (GS, nº 86).

Em base a este parágrafo, valeria a pena analisar, por exemplo, o papel que estão desempenhando hoje instituições como o Fundo Monetário Internacional (FMI), a Organização Mundial do Comércio (OMC), o Banco Mundial ou a Organização das Nações Unidas (ONU). Muito mais do que regular "com justiça e eqüidade” o comércio e a política entre as nações, tais organismos procuram manter a atual ordem mundial, ao mesmo tempo concentradora e excludente. Do ponto de vista da dignidade da pessoa humana, seria também produtivo confrontar a Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948, com os valores éticos da Gaudium et Spes, por um lado, e, por outro, com as organizações internacionais acima.

4. Um novo olhar pastoral
Como o título indica, a Gaudium et Spes é uma "constituição pastoral” voltada para o "mundo de hoje”. Ao dirigir sua atenção para o mundo moderno, profundamente modificado e desafiador, os padres conciliares procuram superar, a bem dizer, uma visão predominantemente centrípeta por uma visão de caráter mais centrífugo. De fato, se voltarmos os olhos para a época medieval, não será difícil perceber como a Igreja permanecia debruçada prioritariamente sobre os problemas domésticos da doutrina, do ritualismo, dos próprios bens, e assim por diante. Para usar uma expressão popular, mantinha-se dentro da sacristia, voltada para dentro de si mesma.

O Concílio Ecumênico Vaticano II e, de modo especial, a Gaudium et Spessignificaram uma virada centrífuga para os problemas que afligem os seres humanos, num contexto de transformações aceleradas. Nas últimas décadas, particularmente a partir das novas tecnologias, o ritmo da história ganhou uma velocidade surpreendente. A Igreja empreende então um gigantesco esforço para acompanhar seus passos. As constituições, decretos e declarações do evento conciliar representam esse esforço de adaptar-se aos problemas e desafios pastorais contemporâneos.

Vale a pena insistir nesta abertura conciliar quando se sabe que atualmente, em alguns setores da Igreja, verifica-se uma espécie de movimento contrário, uma volta aos problemas internos, acompanhada de um espiritualismo muitas vezes desvinculado das questões políticas e sociais. Para alguns estudiosos, no confronto com o tom profético do Vaticano II, assiste-se a uma certa involução, em que predomina a nostalgia de uma Igreja triunfal e, nos casos mais extremos, até a uma tentativa de restaurar a velha cristandade. A verdade é que os documentos conciliares, no seu conjunto, constituem um tesouro que ainda não foi de todo explorado. Daí a importância de levar adiante as linhas gerais e orientações do Concílio Vaticano II, se se quiser responder aos desafios e questionamentos da sociedade moderna ou pós-moderna.

A esse respeito, o Concílio e sua constituição pastoral querem ser, para os dias de hoje, o olhar atualizado do Bom Pastor, o qual, ao "percorrer as cidades e aldeias” e encontrar as "multidões cansadas e abatidas”, "move-se de compaixão” (Mt 9,35-38). Compaixão é uma palavra composta: com + paixão. Ou seja, estar com o outro na hora da paixão. "Estar com” não significa dar coisas, mas dar-se a si mesmo; colocar-se à disposição, dispor do próprio tempo a serviço de quem necessita. É o mesmo sentimento que transparece no episódio do Bom Samaritano, do Pai Misericordioso ou no Juízo Final, enfim, é o próprio coração da mensagem evangélica, seu núcleo mais genuíno e original.

Hoje como nunca, as multidões continuam mordendo o pó da estrada em busca de uma sobrevivência cada vez mais precária, simultaneamente atraídas e rechaçadas pelo modelo econômico de corte neoliberal. Nem multidão anônima, cresce o número incalculável dos "sem”: sem terra, sem trabalho, sem teto, sem saúde, sem escola, etc. Pessoas aos milhares e milhões que, para voltar aos adjetivos do Evangelho, seguem "cansadas” de tantas promessas falsas e "abatidas” pelo peso da fome e da miséria, do abandono e da violência e de tantos outros males.

O Concílio tenta reproduzir, também, o olhar de pastor daquele Deus que repete e insiste: eu vi a miséria, eu ouvi o clamor, eu conheço o sofrimento e eu desci para libertar o povo escravo no Egito e conduzi-lo a uma terra onde "corre leite e mel”(Ex 3,7-10; Dt 26,5-10). A experiência religiosa, no evento fundante do Povo de Israel, é descoberta e o encontro com um Deus profundamente sensível e solidário à situação social concreta das pessoas. Um Deus atento e vigilante, cuja compaixão traduz-se nas quatro formas verbais da primeira pessoa do singular, assinaladas acima. Ou então o Deus que garante o sustento e a proteção "do órfão, da viúva e do estrangeiro”.

AGaudium et Spes retoma, ainda, a consciência de pastor que se verifica nos primórdios da Igreja. Bastaria um olhar a vôo de pássaro sobre a prática das primeiras comunidades cristãs, sobre as cartas e testemunhos neo-testamentárias de Pedro, João, Paulo e Tiago, ou sobre os escritos e obras dos Santos Padres – para nos darmos conta de como a misericórdia e a compaixão fazem parte da herança que Jesus deixou à sua Igreja. O mesmo olhar poderia ser dirigido aos chamados Santos Sociais e suas respectivas Congregações, na segunda metade do século XIX, onde novamente a atenção aos pobres, desvalidos e indefesos assume prioridade absoluta. Santos que, diga-se de passagem, e sem medo de errar, tornar-se-ão verdadeiros precursores do espírito que tomou conta do Concílio Vaticano II.

Por isso é que a conclusão da Gaudium et Spes constitui um duplo apelo: primeiro, ao diálogo entre todos os homens, pois "sendo Deus Pai o princípio e o fim de todas as coisas, somos todos chamados a ser irmãos. E por isso, destinados à única e mesma vocação, humana e divina”. Em seguida, através desse diálogo permanente, "podemos e devemos cooperar para a construção do mundo na paz verdadeira”(GS, nº 92).

Esse novo olhar pastoral constitui uma tentativa de traduzir para cada época, a dimensão social e política da tradição judaico-cristã e, mais especificamente, da Boa Nova de Jesus Cristo. Esse esforço exige, de uma parte, uma atenção redobrada sobre os problemas que afligem os seres humanos, aqueles onde a vida se encontra mais ameaçada. De outra parte, requer uma releitura contextualizada da Palavra de Deus. Entra em jogo aqui o famoso "círculo hermenêutico”, em que a vida interpela a Bíblia e esta interpela a vida, numa espiral crescente de intercessão entre fé e vida.

A ação social na Igreja, através das Pastorais Específicas, da Cáritas ou das Comunidades Eclesiais de Base (CEB’s), em parceria com movimentos sociais, sindicais e estudantis, com organizações não governamentais e com entidades afins – essa ação social representa hoje em dia esse olhar evangélico. Uma postura misericordiosa e compassiva, sensível e solidária, voltada para os grupos ou situações sociais mais carentes e abandonados, onde a vida está mais ameaçada. Significa, em resumo, a solicitude pastoral permanentemente recriada e atualizada, de acordo com as dores e esperanças, lutas e sonhos, caminhos e aspirações dos pobres e excluídos.

Um novo olhar para o laicato

Dois conceitos fundamentais do Concílio Vaticano II ajudam a entender a nova dimensão dos leigos e leigas enquanto protagonistas da evangelização, por um lado, e artífices de uma sociedade justa, fraterna e solidária, por outro. Primeiramente, a noção de "Igreja como Povo de Deus”, onde os diversos serviços e ministérios não são mais ou menos importantes, mas apenas diferentes. A ideia de hierarquia, com seus degraus de importância diferenciada, dá lugar à uma concepção circular de comunidade, paróquia, diocese e igreja. Esta não é uma pirâmide, como já vimos, mas um círculo em que Cristo Crucificado e Ressuscitado se encontra no centro.

Em segundo lugar, a noção de "Igreja toda peregrina e missionária” do Decreto Ad Gentes sobre a Atividade Missionária da Igreja, em que, pelo batismo todos passamos a fazer parte do sacerdócio de Jesus Cristo, como "sacramento de salvação”. Evidente que, a esse aspecto, o Documento de Aparecida veio dar um reforço fundamental. Tendo como pano de fundo o clima do pentecostes, os bispos da América Latina e Caribe, propõem uma missão continental em que toda a Igreja esteja envolvida.

Desta forma, o próprio decreto Apostolicam Actuositatem, sobre o Apostolado dos Leigos, insiste que "nosso tempo exige dos leigos um zelo não menor, pois as circunstâncias atuais reclamam deles um apostolado mais intenso e mais amplo. Com efeito, o aumento constante da população, o progresso da ciência e da técnica, as relações humanas mais estreitas, não só aumentaram o campo de ação do apostolado leigo de maneira extraordinária; campo em grande parte só a eles aberto, mas criaram também novos problemas, que esperam deles um consciencioso cuidado e estudo” (AA, nº 01). A observação combina perfeitamente com a nova fase de nossa história de "mudanças profundas e rápidas”, como vimos anteriormente na Gaudium et Spes. De acordo com o espírito do decreto, leigos e leigas formam uma ponte entre a prática eclesial e a prática sociopolítica ou pública. É assim que o documento apresenta os diversos campos de ação dos mesmos, sublinhando as comunidades da Igreja, a família, os jovens, o ambiente social e a esfera nacional e internacional (AA, nºs 10-14). Na mesma perspectiva, e em sintonia com as encíclicas da Doutrina Social da Igreja, chama a atenção para as distintas modalidades ações, grupos e associações do apostolado leigo (AA, nºs 15-21).

Conclusão

Os olhares que acabamos de acompanhar ao longo do texto formam, na verdade, uma única visão de conjunto. Estão divididos em itens por motivos pedagógicos, mas na vida real permanecem inextricavelmente entrelaçados. Tendo em vista a ação da Igreja no seu conjunto e as atividades das Pastorais Sociais, em particular, esses olhares têm uma dupla finalidade, desdobrando-se cada uma delas, por sua vez, em duas dimensões. Por um lado, pretendemos desenvolver a prática de uma análise de conjuntura permanentemente atualizada; ao mesmo tempo, aprofundar o conhecimento dos princípios evangélicos que orientam a Doutrina Social da Igreja, seja na análise da realidade seja na busca de soluções aos problemas sociais.

Por outro lado, queremos mostrar as luzes ocultas e as pérolas encobertas desse tesouro que é a DSI, com particular destaque para a Gaudium et Spes, luzes e pérolas que, se e quando conhecidas, se revelam de enorme utilidade para a prática pastoral; no mesmo passo, contribuir para uma "pastoral orgânica e de conjunto”, pois, como bem sabemos, a GS é irmã gêmea de outros documentos, em que cada um procura dar conta de um aspecto diferente da vida cristã e eclesial. O intercâmbio e combinação de todos, numa visão aberta e plural, mostra a necessidade da comunhão e da partilha.

quarta-feira, 7 de março de 2012

A REFORMA ‘EUCARÍSTICA’ DO CONCÍLIO VATICANO II

A REFORMA ‘EUCARÍSTICA’ DO CONCÍLIO VATICANO II
VISTA DENTRO DO CONTEXTO HISTÓRICO GERAL
DA LITURGIA
(OBS: este brilhante artigo é de 2003, época em que se celebrava os 40 anos do Concílio. É atualíssimo para o debate e celebração do Jubileu, neste 2012)

Frei José Ariovaldo da Silva, OFM*


Já celebramos os 40 anos da Constituição “Sacrosanctum Concilium” sobre a Sagrada Liturgia (SC), do Concílio Vaticano II, publicada no dia 03.12.1963. Por ocasião do 40o aniversário deste importante documento conciliar, a Dimensão Litúrgica da CNBB promoveu inúmeros encontros de estudos pelo Brasil afora em torno da Liturgia renovada pelo concílio. O mais importante deles foi o Seminário Nacional sobre a Constituição sobre a Sagrada Liturgia, acontecido nos dias 10 a 13 de março de 2003, em São Paulo. Tais encontros ajudaram muita gente a tomar consciência sobre o sentido e a importância da reforma litúrgica do Vaticano II. E também ajudaram muita gente a se aprofundar ainda mais sobre o alcance teológico-pastoral da reforma, bem como serviram de incentivo para levar adiante o sonho litúrgico concílio...
Estamos diante de uma Constituição sobre a Liturgia. Todos sabem o que significa isso: uma Constituição! Temos a nossa Constituição Federal, isto é, a Carta Magna que espelha o rosto da Nação e rege a vida em comum do povo brasileiro. As Ordens e Congregações Religiosas têm suas Constituições Gerais, isto é, a Carga Magna que espelha o carisma próprio de cada uma e rege a vida em comum de seus membros. E a Constituição sobre a Liturgia? É a Carta Magna que, com seus princípios teológicos e pastorais, espelha, ilumina e orienta a vida litúrgica da Igreja que, em milhares de comunidades pelo mundo afora, se reúne para celebrar e viver a Páscoa de Cristo e, em Cristo, a nossa páscoa.
O segundo capítulo da “Sacrosanctum Concilium” trata especificamente da Eucaristia (cf. SC 47-58), sobre a qual estamos estudando. Mas atenção: não podemos abordar a Eucaristia apenas se atendo a este capítulo! Pois o primeiro capítulo (que apresenta os princípios gerais: Natureza e importância da liturgia na vida da Igreja, formação e participação litúrgicas, a reforma litúrgica, a vida litúrgica nas dioceses e paróquias, a pastoral litúrgica), no fundo também fala dela enquanto celebração pascal. Este primeiro capítulo é fundamental para uma correta compreensão da Eucaristia renovada pelo Vaticano II.
Mas antes, há que se tratar da reforma ‘eucarística’ do Concílio Vaticano II vista dentro do contexto histórico geral da Liturgia. E é o que vamos fazer aqui. Trata-se de uma primeira abordagem, a meu ver, de suma importância, pois nos possibilita intuir e perceber com maior nitidez três coisas. Primeiro: O por quê da reforma do Vaticano II. Segundo: O por quê das dificuldades na implantação da reforma em nosso meio, não obstante os 40 anos já passados. Terceiro: Motiva-nos a levar mais a sério a orientação teológico-pastoral do concílio no que diz respeito, no nosso caso, à reforma ‘eucarística’.
Para tanto, veremos primeiro, sinteticamente, algumas características da eucaristia (sua celebração e compreensão) no primeiro milênio da era cristã. Em seguida, em paralelo a estas, destacaremos as “mudanças” acontecidas no segundo milênio, o que vai naturalmente nos acordar para o alcance teológico-pastoral da reforma ‘eucarística’ do Vaticano II .


1. A EUCARISTIA, SUA CELEBRAÇÃO E COMPREENSÃO NO PRIMEIRO MILÊNIO:
ALGUMAS CARACTERÍSTICAS


1.1. Como primeira característica destacamos a centralidade do mistério pascal. A saber, a eucaristia era entendida como celebração do mistério pascal, memorial da morte e ressurreição do Senhor Jesus. Assim, o altar era o ponto central, a referência de toda a celebração. Tanto que, para realçar a sua centralidade, em muitas igrejas se colocava sobre ele até mesmo uma espécie de cobertura, uma cúpula (sustentada por quatro colunas), chamada de baldaquino.
1.2. A presença real de Cristo era vivenciada (sentida) na globalidade da celebração (na assembléia reunida, na Palavra proclamada, na presidência da celebração e, sobretudo, nas espécies de pão e vinho).
1.3. A Eucaristia como celebração memorial da Páscoa é que constituía a principal fonte de espiritualidade cristã. O “lugar” onde os cristãos encontravam força para levar adiante a missão de Jesus era precisamente a celebração da Eucaristia como memorial pascal.
1.4. Outra característica: a centralidade da Palavra proclamada. Esta, como presença viva do Senhor falando para o seu povo, era levada a sério, com leitores qualificados, ambão, lecionário, homilia.
1.5. Prevalecia a consciência de que a Liturgia da Palavra (como momento do diálogo da Aliança) e a Liturgia eucarística (como momento do selo da Aliança) constituíam um só ato de culto
1.6. O mistério pascal celebrado é que constituída a principal fonte de inspiração teológica. A saber, a teologia eucarística era então elaborada principalmente a partir da experiência do mistério de Deus na divina Liturgia (escuta da Palavra e participação no Sacramento). Estudava-se a Eucaristia no culto e a partir do culto. Como ensinava Santo Ambrósio: “Vocês querem conhecer a Eucaristia? Vejam o que dizem as orações eucarísticas da tradição das igrejas” .
1.7. A própria iniciação à vida eucarística obedecia uma metodologia própria: a mistagogia. A pessoa era iniciada à compreensão e celebração eucarística a partir do rito, isto é, a partir da ação eucarística. O mistagogo ensinava a Eucaristia com um olhar nos seus ouvintes e o outro olhar no altar.
1.8. Característico também do primeiro milênio é o caráter comunitário e ministerial da celebração eucarística. A saber, o sujeito da ação eucarística era entendido como sendo a comunidade eclesial reunida em assembléia, povo sacerdotal, corpo de Cristo. E isto significa que a celebração era participada por todos, havendo nela inclusive uma variedade de ministérios litúrgicos.
1.9. E mais, por ser a celebração eucarística uma ação comunitária e ministerial, ela era entendida precisamente como um “comer e beber juntos em ação de graças”, obedecendo ao mandato de Cristo: “Tomai e comei... tomai e bebei”.
1.10. Outra característica: a celebração do mistério pascal acontecia de forma adaptada às diferentes culturas com sua linguagem verbal e gestual própria, surgindo daí toda uma rica diversidade de famílias litúrgicas tanto no oriente como no ocidente. Dentre os mais diferentes ritos elaborados, destaca-se do rito romano, próprio da diocese de Roma, ao qual nós pertencemos e com o qual nós celebramos a Eucaristia.
1.11. A liturgia eucarística romana, no primeiro milênio, tinha a característica de ser simples, prática, literariamente elegante, com as orações dirigidas geralmente ao Pai (por Cristo, no Espírito Santo). E não havia manifestações de adoração do Santíssimo na missa. Na verdade, o que se buscava era garantir o essencial, a saber, a Páscoa. Tratava-se de celebrar o mistério pascal, e evitava-se tudo o que pudesse distrair ou “roubar a cena” deste centro absoluto de nossa fé. Nada de muitas palavras nem muitos enfeites para não distrair a assembléia do mistério que se celebra.
1.12. Enfim, havia uma preocupação com a qualidade (teológica, ritual, espiritual: pascal) da celebração eucarística, procurando fazer ao mesmo tempo a ligação liturgia e vida.


2. A EUCARISTIA, SUA CELEBRAÇÃO E COMPREENSÃO NO SEGUNDO MILÊNIO: DESLOCAMENTOS DE EIXO


Como o título já sugere, no segundo milênio constatamos uma série de deslocamentos de eixo na celebração e compreensão da Eucaristia. Vejamos:
2.1. Da centralidade do mistério pascal, do primeiro milênio, passou-se no segundo milênio para a centralidade do Santíssimo Sacramento (como “presença real”) e dos Santos. Mais importante que a eucaristia como celebração memorial da morte e ressurreição do Senhor Jesus, é então a hóstia consagrada e os Santos. Centro não é mais a mesa do Senhor em torno da qual a assembléia se reúne para a celebração pascal, mas o sacrário (por isso, é ele que agora, em muitas igrejas, vem coberto com um baldaquino!) e a imagem do(a) padroeiro(a) no topo do altar-mor. A festa mais importante e imponente do ano não é mais a Páscoa, mas Corpus Christi e a festa do(a) padroeiro(a).
2.2. Vimos que no primeiro milênio a presença real de Cristo era vivenciada (sentida) na globalidade da celebração (na assembléia, na Palavra, na presidência, nas espécies de pão e vinho). No segundo milênio esta presença é vista quase que exclusivamente no pão e no vinho consagrados, mas sobretudo na hóstia consagrada. Esquecem-se as outras presenças!
2.3. Se no primeiro milênio a Eucaristia como celebração memorial da Páscoa é que constituía a principal fonte de espiritualidade cristã, agora (no segundo milênio) a fonte de espiritualidade é a devoção ao Santíssimo Sacramento e aos Santos.
2.4. Se no primeiro milênio a Palavra era levada a sério, no segundo milênio o povo praticamente perdeu o contato com a Palavra. Pois o padre lia as leituras em voz baixa, só para ele, de costas, em latim, lá no altar distante colado à parede. Desaparece a prática de leitores proclamando a Palavra. O lecionário é engolido pelo missal. A homilia (explicação da Palavra ouvida) virou sermão (discurso sobre um tema que pode não ter nada a ver com a Palavra ouvida). O ambão virou púlpito de oratória sacra. E o povo substitui a Palavra pela leitura da vida (muitas vezes lendária) dos Santos.
2.5. Se no primeiro milênio prevalecia a consciência de que a Liturgia da Palavra e a Liturgia eucarística constituíam um só ato de culto, no segundo milênio acontece uma separação entre estes dois momentos celebrativos da mesma Páscoa. Tanto é que o primeiro momento era chamado de “Ante-missa”. Importante era estar presente na hora da Liturgia eucarística. E se cria que bastava fiel chegar na hora do ofertório (como diziam) para dar pleno cumprimento ao preceito dominical.
2.6. Se no primeiro milênio o mistério celebrado é que constituía a principal fonte de inspiração teológica e a teologia eucarística era elaborada principalmente a partir da experiência do mistério de Deus na divina Liturgia, no segundo milênio a teologia eucarística vira especulação racional (por influência da Escolástica) sobre a Eucaristia (existência, essência, efeitos, ministro, sujeito da Eucaristia). Tem-se uma visão por demais “material” da Eucaristia. Esta vira um objeto de estudo, como se fosse uma “coisa” a ser pesquisada, pois se perde sua dimensão celebrativa pascal como fonte de compreensão .
2.7. A própria metodologia de iniciação à vida eucarística e ao conhecimento da Eucaristia mudou. Se antes se aprendia o que é Eucaristia “na igreja” (isto é, a partir do rito, a partir da ação eucarística), agora, no segundo milênio, ensina-se Eucaristia na escola, em salas de aula, a partir de conceitos elaborados pela teologia escolástica. Catequese eucarística virou “decoreba” de conceitos sobre Eucaristia, com tendência a moralismos...
2.8. Lembrávamos também o caráter comunitário e ministerial da celebração eucarística no primeiro milênio. Agora, no segundo milênio, o que predomina é o individualismo religioso. Enquanto o padre faz a “sua” reza lá no altar, o povo (do lado de cá) se entretém com suas devoções (terço, novenas etc.). Multiplicam-se as missas votivas (como cumprimento de promessa). Multiplicam-se as missas privadas (o padre rezando sozinho a missa), pois aumenta consideravelmente a demanda por missas pelos defuntos. E para poder atender à imensa demanda por missas votivas e pelos defuntos, multiplicam-se os padres “altaristas” (ordenados só para rezar missa!), bem como os altares laterais nas igrejas. Hoje, como se vê pelo noticiário da nossa imprensa, missa também é entendida como uma “cerimônia” que se “encomenda”, ou se “promove”, para “homenagear” alguém (vivo ou falecido), ou para celebrar a “memória” de alguma pessoa ou evento importante e, inclusive, para “festejar” e “comemorar” algum aniversário significativo ou abrilhantar algum acontecimento social; uma cerimônia feita por um profissional religioso contratado (bispo ou padre), à qual a gente “assiste”... .
2.9. Se no primeiro milênio a ação eucarística era entendida como um “comer e beber juntos em ação de graças”, agora, no segundo milênio, predomina a prática de cada um fazer a “sua” comunhão devocional, de vez em quando. A comunhão deixa de ser entendida pelo povo como parte integrante de sua participação na ação memorial da Páscoa, para ser entendida mais como devoção pessoal (feita inclusive fora da missa). Aliás, comungar normalmente na missa chegou a ser mesmo coisa muito rara. E daí, que se fez? Substitui-se a comunhão pela adoração da hóstia. Ver e adorar a hóstia na hora da consagração passou a ser para o povo o ponto alto da missa. Por isso (já que o padre celebra de costas), os padres introduzem (na hora da consagração) o gesto de levantar bem alto a hóstia, acima de sua cabeça, para o povo poder vê-la e adorá-la. No primeiro milênio não existia nada disso!... Posteriormente, fazem o mesmo também com o cálice. E mais, adotam o costume de tocar campainhas naquela hora, exatamente para motivar e incentivar a adoração .
2.10. Vimos que no primeiro milênio a celebração eucarística acontecia de forma adaptada às várias culturas com sua linguagem verbal e gestual. Agora, no segundo milênio, impõe-se no ocidente o centralismo romano, a uniformidade romana. Implanta-se uma linguagem verbal (o latim) e gestual rigidamente igual para todas as igrejas do ocidente (com exceção da arquidiocese de Milão), para celebrar a Eucaristia. Por exemplo, nossos índios e negros no Brasil tiveram que “aprender” a assistir a missa rezada em latim! Celebrar a eucaristia (mistério pascal) na língua deles (tupi, guarani, africana etc.), nem pensar! Era a mentalidade da época!...
2.11. Vimos que a liturgia eucarística romana, no primeiro milênio, tinha a característica de ser simples, prática, literariamente elegante, com as orações dirigidas geralmente ao Pai (por Cristo, no Espírito Santo). E não havia manifestações de adoração ao Santíssimo na missa. Na verdade, o que se buscava era garantir o essencial, a saber, a Páscoa. No segundo milênio nós vemos celebração eucarística transformada num cerimonial complicadíssimo, com inúmeros gestos e movimentações dos ministros de um lado para outro, com inúmeras orações em latim ditas em voz baixa. A complicação atinge seu auge com a pompa barroca. A missa solene se transforma num espetáculo para a visão, com aquele imenso retábulo cheio de flores, castiçais, luzes, imagens de anjos e santos, que se levanta sobre a mesa do altar, e com a imagem do(a) padroeiro(a) lá em cima no topo. Sem falar do monumental e luxuoso sacrário em destaque no centro do retábulo, sobre o altar, bem como dos suntuosos paramentos bordados em ouro adornando os ministros sagrados envoltos em nuvens de fumaça de incenso. Os sinos tocam na hora da consagração, chamando todos à adoração da hóstia que se levanta solene. Terminada a consagração, toca também a banda de música, inclusive o hino nacional. Numa palavra, a missa se transforma num espetáculo para a visão. Enquanto isso (enquanto se assiste ao show), o povo também se entretém ouvindo os grandes concertos musicais do coral cantando as célebres “Missas” com acompanhamento de órgão e orquestra. Portanto, a missa vira um espetáculo para os olhos e para os ouvidos, em que os elementos exteriores do culto acabaram por “roubar a cena” (quase que por completo) daquilo que é o cerne da celebração eucarística, a saber, a Páscoa (paixão, morte e ressurreição do Senhor). E as missas não solenes continuam sendo encaradas como uma “reza” do padre que a gente encomenda....
2.12. Enfim, chamávamos a atenção para a preocupação pela qualidade da celebração eucarística no primeiro milênio (qualidade teológica, ritual, espiritual, pascal), procurando fazer ao mesmo tempo a ligação liturgia e vida. No segundo milênio, preocupa-se mais com um discurso teológico intelectual racional do que com uma teologia e espiritualidade pascais que brotam da própria experiência celebrativa. Sem falar na preocupação por demais centrada no aparato externo e rubrical das cerimônias a serem executadas pelos padres. Como vemos no missal de Pio V (1570): Tanto na sua Introdução como nas suas rubricas internas, toda a orientação gira em torno do que o padre rigorosamente deve fazer e como deve executar. Esquece-se, portanto, que existe um povo!... Na há uma preocupação com a participação deste povo na ação memorial pascal. A qualidade teológica e comunitária cede lugar para um exagerado legalismo e rubricismo litúrgicos.
2.13. Dá a impressão que o segundo milênio, do ponto de vista da compreensão e celebração da Eucaristia, foi totalmente negativo. Foi e não foi! Foi, porque a liturgia eucarística como celebração pascal, uma vez colocada longe do alcance do povo, foi parar em segundo plano, fora de eixo. Uma enorme perda! E não foi negativo, porque o povo, longe da liturgia, soube sabiamente criar uma enorme força alternativa de resistência frente às intempéries da vida. Como? Apoiando-se nas práticas devocionais ao Santíssimo Sacramento e aos Santos. Se tivesse sido diferente, como foi no primeiro milênio, com certeza teria sido bem melhor, é claro!...


3. VATICANO II: RESGATE DO ESSENCIAL “PERDIDO”


No final do século XIX, mas principalmente dos inícios do século XX para cá, a partir dos avanços nas pesquisas das fontes bíblicas, patrísticas, litúrgicas, e até mesmo arqueológicas, do primeiro milênio, começou-se a perceber o quanto havíamos nos distanciado das tradições cristãs mais antigas e das raízes cristãs mais genuínas no que diz respeito à Eucaristia.
Desenvolve-se então na Igreja um grande movimento de resgate do verdadeiro sentido da Liturgia para as comunidades cristãs. Trata-se do chamado “movimento litúrgico” que, sem dúvida, preparou muito bem o terreno para o advento do concílio Vaticano II.
E, então, que faz o Concílio? Com a Constituição sobre a Sagrada Liturgia, ele resgata uma série de elementos “eucarísticos” essenciais que praticamente havíamos perdido de vista em todo o segundo milênio. E aí que está o imenso e inquestionável valor do Concílio!
3.1. Resgata-se a centralidade do mistério pascal: A eucaristia é celebração do mistério pascal, memorial da morte e ressurreição do Senhor Jesus. Resgata-se o verdadeiro sentido pascal do “mistério da fé”: “Anunciamos, Senhor a vossa morte, proclamamos a vossa ressurreição...”. Resgata-se a centralidade do altar da celebração no espaço da celebração.
3.2. Resgata-se consciência da presença real do Senhor na globalidade da celebração: na assembléia, na Palavra, na pessoa do sacerdote que preside, e sob as espécies de pão e de vinho (cf. SC 7)
3.3. Resgata-se a principal fonte de espiritualidade cristã, a saber, a Eucaristia como celebração memorial da Páscoa (cf. SC 14).
3.4. Resgata-se a centralidade da Palavra, provocando-nos assim a levá-la a sério, com leitores qualificados, ambão em destaque, uso do lecionário e/ou evangeliário, prática obrigatória da homilia nos domingos e dias de festa (cf. SC 24-25).
3.5. Resgata-se a consciência da Liturgia da Palavra e da Liturgia eucarística como um só ato de culto, como dois momentos de vivência da mesma Aliança.
3.6. Resgata-se o mistério celebrado como principal fonte de inspiração teológica. Uma teologia eucarística terá que ser elaborada sobretudo a partir da experiência de Deus na divina Liturgia (escuta da Palavra e participação no Sacramento).
3.7. Resgata-se a mistagogia como metodologia mais apropriada na iniciação à vida eucarística. Iniciar à vida eucarística a partir do rito, da ação eucarística. Um grande desafio que ainda temos pela frente, na catequese!
3.8. Resgata-se o caráter comunitário, ministerial e participativo da celebração eucarística. Resgata-se o sujeito da ação eucarística como sendo a comunidade eclesial, povo sacerdotal, corpo de Cristo (cf. SC 26 e 48). Reconhecem-se os diferentes ministérios leigos na liturgia (acólitos, leitores, músicos, instrumentistas, sacristão, comentarista, acolhida etc.) como verdadeiros “ministérios litúrgicos”. E é impressionante como “Sacrosanctum Concilium” realça a participação plena, consciente, ativa e frutuosa na celebração da divina Liturgia como um direito e um dever de todos (cf. SC 14 e, sobretudo, SC 48).
3.9. Resgata-se o sentido da ação eucarística como “comer e beber juntos em ação de graças”.
3.10.Resgata-se a necessidade de a celebração da Eucaristia se adaptar às diferentes culturas e índoles dos povos, com sua linguagem verbal, gestual e musical próprias (cf. SC 37-40).
3.11. Resgata-se a “nobre simplicidade” da liturgia eucarística de nossa tradição romana do primeiro milênio (cf. SC 34). Isto é, trata-se de garantir o essencial: a Palavra e o mistério pascal. Há uma tendência hoje (precisamente por causa de uma mentalidade viciada que herdamos de todo um milênio passado) de querer complicar tudo de novo, de inflacionar nossas missas novamente com um monte de “adornos” e “entulhos” que só vem comprometer a visão daquilo que é essencial na celebração da Eucaristia. Um exemplo só: Certas missas hoje são tão barulhentas, do começo ao fim, com tanto canto, com instrumentos musicais estridentes abafando as vozes do povo, com tanta fala e palavrório, tanto ruído, tantos shows, que não se abre praticamente espaço para o principal Participante “falar”, não se abre espaço para o Senhor se manifestar..., precisamente na suavidade, na calma e no silêncio.
3.12. Enfim, resgata-se a preocupação com a qualidade teológica, ritual, espiritual, pascal da celebração eucarística. Daí a insistência na formação litúrgica em todos os níveis (cf. SC 14-20). E quando dizemos “formação litúrgica”, entende-se como um processo permanente de aprendizado e aprofundamento sobre o sentido teológico-espiritual da ação celebrativa eucarística, do qual deve brotar naturalmente um comportamento solidário dentro da sociedade, segundo a justiça do Evangelho . Graças a Deus, hoje está havendo um despertar para a necessidade de tal formação em muitas de nossas comunidades.


4. CONCLUINDO


Creio que (depois de refletir sobre a reforma ‘eucarística’ do Concílio Vaticano II vista dentro do contexto histórico geral da Liturgia) ficou claro o por quê desta reforma. E já dá para ir percebendo também as dificuldades atuais na implantação da reforma. Afinal, herdamos uma prática e compreensão de Eucaristia com sérios deslocamentos de eixo, que vem de todo o milênio passado, e que, portanto, está enraizada no nosso inconsciente. E, então, fica em aberto, a saudável preocupação: E agora, daqui para frente?!... O que fazer? O caminho está aberto, com certeza cheio de necessárias tensões.
Enfim, no sentido atiçar ainda mais a preocupação e o desejo evangelizar dentro do espírito do Concílio Vaticano II, convém também perguntar: Em que pé estamos? O que já assimilamos nestes 40 anos da teologia e da prática do concílio e o que não? Quais são os resquícios daquela teologia eucarística deslocada de eixo (do segundo milênio) que existem por aí? Que providências vamos tomar para adiantar o passo? Afinal, o que nós agora vamos fazer?


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