As forças progressistas, da Teologia da Libertação, incluindo teólogos/as, pastorais sociais, Cebs, agentes de pastoral, religiosos/as, leigos e leigas, se mobilizaram para participar da Conferencia de Aparecida (2007) - uma des suas ações foi a Tenda dos Mártires, como espaço aberto, celebrativo, por 15 dias, enquanto durou a Conferência. A Tenda dos Mártires foi um alerta à toda Igreja para não esquecer seus mártires, sua caminhada, sua identidade de libertação.
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quarta-feira, 13 de março de 2013
DESAFÍOS INMEDIATOS (DEL NUEVO PAPA)
(...)
Las intrigas por el poder en el Vaticano, los escándalos por la pedofilia de clérigos, la controvertida gestión del banco de la Iglesia católica, la difícil relación con el islam y las resistencias de los católicos derrotaron a Benedicto XVI que deja una herencia delicada a su sucesor, según los expertos.
ABUSOS SEXUALES, PEDOFILIA: Es seguramente el asunto más grave. Benedicto XVI llegó con el deseo de apartar a todos los encubridores de abusos sexuales dentro de la Iglesia, pero no lo logró. Muchos obispos tienden a no colaborar con la justicia local, como exige el Papa y un cuarto de las conferencias episcopales no han elaborado las líneas de lucha contra la pedofilia .
En Africa y Asia el tema es abordado tímidamente y las justicias locales suelen ser deficientes. La iglesia sigue recibiendo denuncias de abusos cometidos por curas, sobre todo en la década de los 60, 70 y 80.
REFORMAS Y PROTESTAS: Una ola de protestas ha sacudido a la Iglesia en los últimos años. En numerosos países occidentales, entre ellos Austria, Alemania, Francia y Estados Unidos, las organizaciones de base, en las que participan religiosos, religiosas y misioneros, solicitan mayor democracia. Algunos sectores piden que se reforme el papado y se permita la ordenación de mujeres y hasta el matrimonio para los curas.
Algunos teólogos han llegado a tildar de "cisma silencioso" el proceso de modernización que exigen algunos sectores. Entre los pedidos más urgentes es que se autorice la comunión a los divorciados que se vuelven a casar. Un impedimento que ha alejado de la Iglesia a un número elevado de creyentes. Otro problema es el de la caída de las vocaciones ante un mundo que cambia.
FINANZAS DEL VATICANO Y CORRUPCION: Benedicto XVI lanzó una campaña a favor de la transparencia y contra el blanqueo de dinero a través del banco del Vaticano, el célebre IOR. El despido fulminante en 2012 del presidente del Instituto para las Obras de Religión (IOR), Ettore Gotti Tedeschi, nombrado para intentar limpiar la banca de la Santa Sede, fue interpretado como un fracaso en la batalla por la transparencia.
La corrupción afecta a algunos congregaciones y diócesis, sobre todo en Africa y las cuentas del Estado del Vaticano están en rojo, debido a la crisis que afecta al sistema financiero mundial.
TRADICIONALISTAS: Benedicto XVI no logró la reintegración de los ultraconservadores del movimiento lefebvristas que no aceptan la modernización de la Iglesia, aprobada durante el Concilio Vaticano II. Pese a los esfuerzos del Papa, la negociación está en un punto muerto. Los lefebvristas volvieron a decir que no a la mano tendida por el Papa para su inserción en la Iglesia.
REFORMA DE LA CURIA: Es otro de los fracasos de Joseph Ratzinger, prestigioso teólogo, pero poco versado en asuntos administrativos. La Curia Romana, el órgano de gobierno de la Iglesia, se moderniza lentamente. La filtración de un centenar de documentos confidenciales e internos por parte del exmayordomo del Papa, Paolo Gabriele, el llamado escándalo de Vatileaks, a inicios del 2012, reveló las intrigas y luchas internas por el poder. Fue uno de los mayores escándalos de su pontificado e inclusive se llegó a cuestionar su liderazgo.
CONTROVERSIAS CON EL ISLAM: Las relaciones con las autoridades religiosas musulmanas pasaron por un momento delicado en 2005, cuando asumió el cargo. El año siguiente impartió en la Universidad de Ratisbona, en Alemania, una platica en la que comparó fe y violencia desatando la ira de muchos líderes y clérigos musulmanes.
Las relaciones con los judíos en cambio mejoraron mucho después de la histórica visita a Jerusalén en 2009 y con las continuas condenas públicas al antisemitismo. Pero entre las preocupaciones que el futuro Papa deberá enfrentar figuran las persecuciones que sufren los cristianos en el mundo, en particular en Africa.
TEMAS SOCIALES: Eutanasia, aborto y matrimonio gay fueron para el Papa alemán "graves amenazas" para la paz. En el mensaje por la Jornada Mundial de la Paz , que se leyó en todas las parroquias el 1 de enero, el Papa exhortó a perseguir la paz, difundiendo los derechos fundamentales del hombre, como el trabajo y la libertad religiosa, y defendiendo los valores de la vida desde su concepción hasta la muerte natural y de la familia tradicional.
Para el jefe de la Iglesia católica "son valores no negociables" y es posible que su sucesor mantenga la misma posición. Hay que ver si el nuevo Papa tendrá posiciones más conciliadoras frente a un mundo globalizado y una sociedad postomoderna, que pide a gritos mayor apertura.
Ciudad del Vaticano/Buenos Aires, AFP/NA.
http://www.noticiasargentinas.com/nuevosite/13851-el-cardenal-bergoglio,-entre-los-nombres-que-suenan-para-suceder-al-papa.html
terça-feira, 12 de março de 2013
Cristo e os pobres: sobre a entrevista de C. Boff na Folha
11.03.13 - Mundo
Jung Mo Sung
Diretor da Faculdade de Humanidades e Direito da Univ. Metodista de S. Paulo.
Adital
O jornal Folha de São Paulo publicou nesta segunda-feira, 11/03/2013, uma entrevista com Clodovis Boff criticando a Teologia da Libertação (TL) no contexto da eleição do novo papa. Sabemos que entrevistas publicadas em jornais nem sempre expressam corretamente o pensamento do entrevistado por conta da edição, tamanho reduzido da matéria etc. Porém, penso que algumas das afirmações atribuídas a ele parecem ser verdadeiras porque ele as tem manifestado também em seus escritos. Por conta dos limites do tamanho de um texto escrito para internet, vou propor algumas breves reflexões sobre 3 pontos da entrevista.
Uma das críticas que ele faz à TL é que suas correntes hegemônicas não teriam entendido "a primazia da libertação espiritual, perene, sobre a libertação social, que é histórica” e por preferir não entender essa distinção se degeneraram em ideologia. Como essa distinção está explicitada no livro "Teologia da Libertação” de Gutierrez, é difícil imaginar quais seriam essas correntes hegemônicas. Em todo caso, uma das novidades da TL não foi negar ou afirmar a primazia da libertação espiritual sobre a histórica, mas propor uma nova forma de compreender a relação entre as duas. O que os principais teólogos/as da libertação sempre afirmaram é que, em situações de tanta injustiça e morte, a fé em Jesus se torna concreta, se encarna, na experiência espiritual de encontrar na face do pobre a face de Jesus, conforme nos ensina o evangelho de Mateus, cap. 25.
Isso nos leva a outra crítica C.Boff: "Jon Sobrino diz: ‘A teologia nasce do pobre’. Roma simplesmente responde: ‘Não, a fé nasce em Cristo e não pode nascer de outro jeito’. Assino embaixo.” Na forma como está escrito é facilmente percebível que há dois temas em discussão: de onde nascem a teologia e a fé. É claro que a fé cristã nasce em Cristo, mas a teologia não é fé, é uma reflexão sistêmica sobre a nossa experiência de fé e, portanto, não necessariamente precisa começar com Cristo. Eu não sou especialista no pensamento de Sobrino, mas pelo que estudei dele posso afirmar que para ele o ponto de partida da reflexão teológica –que é diferente da fé– é o pobre enquanto nele encontramos a face de Cristo entre nós. Em outras palavras, o ponto de partida de teologia é a relação entre Cristo e o pobre. Sobrino diz isso explicitamente: "Existe na cristologia algo de metaparadigmático? A resposta é um ‘sim’ convicto, e o seu conteúdo central é a relação entre ‘Jesus e os pobres’, entre ‘Jesus e as vítimas’.” (A fé em Jesus Cristo, 2000).
Como a história da teologia nos mostra que há muitas cristologias que começam discutindo Cristo e não chegam à vida concreta das vítimas e dos pobres, não basta começar só com Cristo. Assim como há muitas reflexões sociológicas que começam com os pobres e não chegam a Cristo ou à discussão sobre Deus porque não são teologias. A TL parte da relação entre Deus/Cristo e os pobres/vítimas. Fora disso não é TL.
Pode ser que o jornalista tenha entendido mal a colocação de C. Boff, mas essa crítica tem sido algo constante nos últimos textos dele sobre a TL.
Por fim, C. Boff diz: "O ‘cristianismo anônimo’ constituía uma ótima desculpa para, deixando de lado Cristo, a oração, os sacramentos e a missão, se dedicar à transformação das estruturas sociais” e endossa a afirmação de dom Rommer de que "Não basta fazer o bem para ser cristão. A confissão da fé é essencial". Eu realmente tenho dificuldade em achar que alguém tenha usado a tese rahneriana de "cristianismo anônimo” como desculpa, mas concordo que não basta fazer o bem para ser cristão. Pois, isso negaria que um budista ou um ateu pudesse fazer o bem sendo budista ou ateu, sem querer ser cristão, muito menos cristão anônimo. Aliás, na parábola do "juízo final” (Mt 25) a identidade religiosa ou ideológica das pessoas nem entra em discussão. Concordo que ser cristão é assumir uma identidade religiosa ou espiritual e isso requer menção explícita a Jesus Cristo que é nos transmitido pelos evangelhos.
A confissão de fé em Jesus Cristo que se revela hoje no rosto e clamor do pobre faz diferença? Sim! É essa fé que nos permite "ver” a Deus, não através de afirmações filosófico-teológicas de onipotência ou outras categorias "divinas”, mas através da vida e obra de Jesus. É a fé em Jesus que nos faz afirmar juntamente com autor da 1ª carta de João: "ninguém jamais contemplou a Deus. Se nos amarmos (ágape, amor-solidário) uns aos outros, Deus permanece em nós e o seu Amor em nós é realizado” (1Jo 4,12).
E esse amor solidário aos pobres só sobrevive às frustrações, conflitos internos, vaidades e invejas que experimentamos na luta se for acompanhada de vida comunitária, oração, liturgias e sacramentos. Só assim conseguimos perseverar na nossa missão de anunciar Reino de Deus aos pobres e vítimas das opressões e não nos perdemos ao confundir Reino de Deus com alguma instituição religiosa ou política.
Há textos considerados da TL que confundem RD com algum Estado ou partido? Ou que falam de pobres sem relacionar com a experiência de fé em Cristo? Ou que não conseguem articular lutas pelas libertações na história com a esperança da ressurreição? Certamente há textos que não explicitam essas relações, mas isso não quer dizer que as negam. E se negar, não é boa TL.
[Jung Mo Sung, autor com Hugo Assmann do livro "Deus em nós: o reinado que acontece no amor solidário aos pobres” (Paulus). Twitter? @jungmosung)].
domingo, 10 de março de 2013
Vaticanista diz que futuro da Igreja está na descentralização do poder
fevereiro 26, 2013
Para Juan Arias, a primeira ação do próximo Pontífice deveria ser convocar novo concílio
...
Há uma discussão frequente sobre os perfis dos papáveis, de conservadores a progressistas. Que diferença essas denominações podem fazer para os fiéis?
Juan Arias: Pensamos nesses conceitos como se fossem categorias políticas. Se Papa progressista é aquele que vai permitir o uso de preservativos ou o divórcio, é pouco para os fiéis. Essas práticas já foram aceitas na consciência dos católicos. E o que seria um Papa conservador? Um Papa tem que ser conservador, porque ele deve manter as essências do cristianismo. O Papa mais conservador dos últimos anos foi João XXIII, um homem piedosíssimo e simples, que convocou o Concílio Vaticano II, chamou três mil bispos e provocou uma reviravolta da Igreja. Por isso, esses conceitos não têm sentido. O que precisamos é de um Papa profeta. Alguém com voz crítica, que se antecipe aos acontecimentos do mundo e promova mudanças radicais.
Existe algum cardeal assim?
Juan Arias: Aparentemente não, mas pode haver surpresas, porque ninguém esperava esse perfil também de João XXIII. Tamanho foi o espanto quando ele convocou o Concílio Vaticano II que quiseram depô-lo. O cardeal Giuseppe Siri, que era então arcebispo de Gênova, reuniu cardeais para estudar a possibilidade, segundo o Direito Canônico, de depor João XXIII. Dom Hélder Câmara e dom Eusébio Scheid teriam sido bons Papas profetas. Eles teriam tido coragem de fazer a Igreja voltar às origens.
Que vantagem isso traria?
Juan Arias: No primeiro século do cristianismo, o poder da Igreja estava dividido em patriarcados. Havia o patriarca de Constantinopla, o de Jerusalém, o bispo de Roma. Cada um tinha grande liberdade de ação. A única diferença era que o bispo de Roma, como representava Pedro, o maior dos apóstolos, era primus inter pares, o primeiro entre iguais. Quando surgia algum problema, era ele quem mediava, como um irmão mais velho. Aos poucos, isso foi desaparecendo, e tudo acabou centralizado na figura do Papa, com o privilégio da infalibilidade. Moderno seria voltar no tempo. Criar hoje o patriarcado da Europa, da América Latina, da América do Norte, da África… Os problemas da Igreja não são iguais em todas as regiões. É necessária uma descentralização, e não um Papa de idade avançada como único chefe. Imagine um presidente do mundo inteiro!
Muitos teólogos falam sobre uma transformação ampla da Igreja. Por onde começar?
Juan Arias: Só a reforma da Cúria não basta. Se o próximo Papa quiser ficar marcado na História, deveria convocar imediatamente um novo concílio. O último foi há mais de 50 anos. Estive lá. Mas o mundo mudou completamente desde então, e a Igreja continua a mesma. Os problemas que Bento XVI enfrentou de gestão, burocracia, intrigas e traições são em parte os mesmos desde a Idade Média. O novo Papa deveria chamar todos os bispos, mas não só: poderia ser uma oportunidade sem precedentes de ouvir os fiéis. Abrir-se também às redes sociais e descobrir como a Igreja pode dialogar com o mundo. O Papa deve retomar o papel de líder espiritual e renunciar ao de chefe de Estado. Há que se romper o hábito. O ambiente de política contamina a Igreja.
Os fiéis estão preparados para isso? Como a Igreja mede essa necessidade?
Juan Arias: Não só estão preparados como esperam uma mudança. As pessoas não sabem em que uma reforma da Cúria Romana afetaria suas vidas. Mas gostariam de um Papa próximo às pessoas, que não tenha que se deslocar em carro blindado. O problema da Igreja é que ela luta para defender a instituição. E quando fala em renovação, é sempre para renovar a instituição. Mas a Igreja é mais do que isso. Deveria aproveitar sua capacidade de ser o fermento do mundo, de orientar os fiéis. Mas não sabe o quanto ficou parada no tempo.
A Igreja arriscaria esse novo passo hoje?
Juan Arias: Ele só partiria de um Papa profeta. E ele pode aparecer, pois o conclave é sempre uma surpresa. Assisti a cinco e a única vez em que cheguei perto de acertar foi na escolha de Paulo VI. Desta vez, pode ser ainda mais difícil, porque temos um Papa vivo e não sabemos que influência ele vai exercer. Nem os cardeais, quando começam o conclave, têm um nome de consenso. Não é como na política, com candidatos em campanha. Os cardeais não começam pensando em outros nomes porque acham que o melhor são eles próprios.
A eleição de um Papa não europeu seria um sinal de abertura da Igreja?
Juan Arias: Não. Há cardeais latino-americanos e africanos que são mais fechados do que muitos europeus. Atrelar uma escolha por origem geográfica à maior abertura seria equivocado. Adoraria que surgisse um Papa brasileiro, mas não porque seria mais liberal. O que pode acontecer é um Papa de um país em desenvolvimento ter mais sensibilidade a problemas sociais, por conviver diretamente com eles. Mas pensar que, por isso, o novo Papa permitiria que mulheres exerçam o sacerdócio ou aceitaria preservativos e aborto é uma ilusão. Nenhum deles fará isso.
http://www.escoladominical.net/blog/?p=2626
Ratzinger não calou a Teologia da Libertação
Publicado em 06/03/2013
Documento já tem duas mil adesões de teólogos católicos, dentre eles Leonardo Boff e o bispo d. Pedro Casaldáliga.
“Cúria Romana necessita de uma reforma mais radical baseada nas instruções e na visão do Vaticano II”, diz texto de documento
Saiu na Carta Maior:
Veja o manifesto enviado por teólogos da libertação ao pré-conclave
Documento assinado por teólogos como Leonardo Boff e o bispo d. Pedro Casaldáliga começou a ser elaborado em outubro do ano passado, simultaneamente na Europa, América Latina, EUA e Canadá. Texto diz que “Cúria Romana necessita de uma reforma mais radical baseada nas instruções e na visão do Vaticano II”.
Dermi Azevedo
Já chegam a duas mil as adesões de teólogos católicos de todo o mundo ao documento publicado por ocasião dos 50 anos do Concílio Vaticano II e cuja redação final está sendo encaminhada aos 115 cardeais que, a partir de segunda-feira (4), começam a escolher o sucessor do papa Bento XVI.
O manifesto começou a ser elaborado em outubro do ano passado, simultaneamente, na Europa, na América Latina, nos Estados Unidos e no Canadá. Entre os seus autores, estão incluídos Leonardo Boff e o bispo d. Pedro Casaldáliga.
O contexto de sua publicação (concebida em meio a uma grave crise na Igreja, poucos meses antes da renúncia de Bento XVI) reforçou a decisão dos teólogos de enviá-lo aos cardeais eleitores. Esta é a íntegra do documento:
“Muitos ensinamentos do Concílio Vaticano II não foram concretizados ou apenas parcialmente traduzidos na prática. Isto é devido à resistência de alguns ambientes, mas também sobretudo, em certa medida, à não resolvida ambiguidade de alguns documentos conciliares. Uma das principais causas da estagnação moderna depende do não entendimento e dos abusos no exercício da autoridade na nossa Igreja. De modo concreto os seguintes temas exigem uma urgente reformulação.
O papel do Papado necessita de uma clara redefinição baseada nas intenções de Cristo. Como supremo pastor, como elemento unificador e principal testemunha da fé, o Papa contribui de modo essencial para o bem da Igreja Universal. Mas a sua autoridade não deveria obscurecer, diminuir nem suprimir a autentica autoridade que Cristo deu diretamente a todos os membros do Povo de Deus.
Os bispos são vigários de Cristo e não vigários do Papa. Eles possuem a responsabilidade direta sobre o povo de suas dioceses e uma responsabilidade compartilhada com os outros bispos e com o Papa, do âmbito da comunidade universal da fé.
O Sínodo central dos bispos deveria assumir um papel mais decisivo no planejamento, na orientação e no crescimento da fé em nosso mundo tão complexo.
Concilio Vaticano recomendou a colegialidade e a corresponsabilidade em todos os níveis. Isto não foi transformado em ação. Os vários organismos presbiterais e conselhos pastorais previstos pelo Concilio, deveriam envolver os fiéis de modo mais direto nas decisões relativas à doutrina ao exercício do ministério pastoral e à evangelização no âmbito da sociedade secular.
O abuso de preencher os postos de guias da Igreja apenas com candidatos com uma determinada mentalidade é algo que deveria ser eliminado. Em vez disto, deveriam ser formuladas e monitoradas novas normas assegurando que as eleições para estas tarefas sejam conduzidas de modo correto, transparente e o mais democrático possível.
A Cúria Romana necessita de uma reforma mais radical baseada nas instruções e na visão do Vaticano II. A Cúria deveria limitar-se aos seus úteis papéis administrativos e executivos.
A Congregação para a Doutrina da fé deveria ser ajudada por comissões internacionais de peritos escolhidos independentemente em função de sua competência profissional. Essas não são todas as mudanças necessárias. Devemos considerar ainda que a implementação dessas revisões estruturais exigem uma elaboração detalhada e relacionada com as possibilidades e com as limitações das circunstancias presentes e futuras. Destacamos porém que as reformas sintetizadas a cima são urgentes e a sua concretização deveria iniciar-se imediatamente.
O exercício da autoridade na nossa Igreja deveria seguir o padrão de abertura, responsabilidade e democracia encontrados na sociedade moderna. A liderança deveria ser correta e confiável, inspirada na humildade e no serviço, com uma transparente solicitude para com o povo, em vez de se preocupar com as normas e a disciplina; anunciar Jesus Cristo que liberta; ouvir o espirito de Cristo que fala e age por meio de todos e de cada um”.
http://www.conversaafiada.com.br/politica/2013/03/06/ratzinger-nao-calou-a-teologia-da-libertacao/
quinta-feira, 7 de março de 2013
Uma Primavera Vaticana?
Se o próximo conclave eleger um papa que siga pela mesma velha estrada, o catolicismo poderá entrar em uma nova era do gelo, correndo o risco de encolher a ponto de se tornar uma seita, prevê teólogo
02 de março de 2013 | 16h 32
Hans Küng*
A Primavera Árabe abalou diversos regimes autocráticos. Com a renúncia do papa Bento XVI, não seria possível ocorrer algo semelhante dentro da Igreja Católica Romana - uma Primavera Vaticana?
Naturalmente o sistema da Igreja Católica se assemelha menos ao da Tunísia ou Egito que ao de uma monarquia absoluta como a Arábia Saudita. Tanto na Igreja como na Arábia Saudita não ocorreu nenhuma reforma autêntica, apenas concessões de menor importância. Em ambos os casos, a tradição é mantida em oposição à reforma. Na Arábia Saudita, essa tradição remonta a apenas dois séculos. No caso do papado, a 20.
Mas, trata-se de uma tradição real? Na verdade, durante um milênio a Igreja não teve um papado monarquista absolutista como conhecemos hoje.
Foi somente depois do século 11 que "uma revolução de cima", a Reforma Gregoriana, iniciada pelo papa Gregório VII, estabeleceu três características distintivas do sistema católico romano: um papado absolutista centralizado, um clericalismo compulsório e a obrigação do celibato dos padres e outros do clero secular.
As tentativas de reforma dos concílios no século 15, os reformadores do século 16, o Iluminismo, a Revolução Francesa nos séculos 17 e 18 e o liberalismo no século 19 obtiveram um sucesso apenas parcial em termos reformistas. Mesmo o Concílio Vaticano II, de 1962 a 1965, embora tenha resolvido muitas questões levantadas por reformadores e críticos modernos, foi frustrado pelo poder da Cúria, órgão que governa a Igreja, e conseguiu implementar apenas algumas das mudanças requeridas.
Até esta data a Cúria, que no seu atual formato é também um produto do século 11, tem sido o principal obstáculo a qualquer reforma profunda da Igreja Católica, a qualquer entendimento ecumênico honesto com outras igrejas cristãs e religiões, a qualquer atitude construtiva e crítica em relação ao mundo moderno. Sob a direção dos dois últimos pontífices, João Paulo II e Bento XVI, observamos um retorno fatal aos velhos hábitos monárquicos da Igreja.
Em 2005, em uma das raras ações mais audaciosas de Bento XVI, ele manteve uma conversa amigável de quatro horas comigo em sua residência de verão em Castelgandolfo, em Roma. Fui seu colega na Universidade de Tübingen e também certamente seu mais severo crítico. Durante 22 anos, graças à revogação da minha licença para lecionar teologia por ter criticado a infalibilidade papal, não tivemos o menor contato privado.
Antes da reunião, decidimos deixar de lado nossas diferenças e discutir temas sobre os quais poderíamos chegar a um acordo: o relacionamento positivo entre a fé cristã e a ciência, o diálogo entre religiões e civilizações, e o consenso ético através de crenças e ideologias.
Para mim, na verdade para todo o mundo católico, o encontro era um sinal de esperança. Mas infelizmente o pontificado de Bento XVI foi marcado por crises e decisões equivocadas. Ele irritou as igrejas protestantes, judeus, muçulmanos, indígenas da América Latina, mulheres, teólogos reformadores e todos os católicos que defendem mudanças.
Os maiores escândalos durante seu papado são conhecidos: o reconhecimento da arquiconservadora Sociedade do Santo Pio X, do arcebispo Marcel Lefebvre, que se opõe veementemente ao Concílio Vaticano II, como também de um clérigo que nega o Holocausto, o bispo Richard Williamson.
Houve abuso sexual generalizado de crianças e jovens por parte de clérigos, e o papa fez-se responsável por encobrir os fatos, isso quando era apenas o cardeal Joseph Ratzinger. Mais tarde eclodiu também o chamado escândalo do "Vatileaks", que revelou uma assustadora quantidade de intrigas, lutas pelo poder, corrupção e deslizes sexuais na Cúria, o que parece ter sido a principal razão da saída de Bento XVI.
A primeira renúncia de um papa em cerca de 600 anos deixa clara a crise fundamental que ameaça uma Igreja petrificada. E agora o mundo todo pergunta: apesar de tudo isso, o próximo papa conseguirá dar início a uma nova primavera na Igreja Católica?
Impossível ignorar as necessidades desesperadas da Igreja. Há uma escassez catastrófica de padres, na Europa, na América Latina e na África. Um número enorme de pessoas vem abandonando a Igreja ou se decidiu por uma "migração interna", especialmente nos países industrializados. Há uma perda de respeito inequívoca pelos bispos e padres, alienação, particularmente por parte das mulheres mais jovens, e o fracasso para integrar os jovens na Igreja.
Penso que não devemos nos deixar levar pela cobertura na mídia dos grandiosos eventos de massa em torno do papa, ou com os aplausos entusiastas de grupos de jovens católicos conservadores. Por trás dessa fachada, a casa inteira está desmoronando.
Nessa situação dramática, a Igreja necessita de um papa que não viva intelectualmente na Idade Média, que não defenda nenhum tipo de teologia, liturgia ou constituição da Igreja que seja medieval. Ela precisa de um papa que esteja aberto aos desejos de reforma, à modernidade. Um papa que se levante em defesa da liberdade da Igreja no mundo não apenas fazendo sermões, mas lutando com palavras e ações pela liberdade e pelos direitos humanos dentro da Igreja, no que diz respeito aos teólogos, às mulheres e todos os católicos que desejem falar a verdade abertamente. Um papa que não mais obrigue os bispos a se conformarem com uma linha partidária reacionária, que ponha em prática uma democracia justa na Igreja, nos moldes da cristandade primitiva. Um papa que não se permita ser influenciado por um papa das sombras. baseado no Vaticano, como Bento e seus leais seguidores.
De onde virá esse papa não é um fator crucial. O Colégio Cardinalício precisa simplesmente escolher o melhor. Infelizmente, desde a época de João Paulo II, um questionário tem sido usado de modo que todos os bispos sigam a doutrina católica romana oficial nos assuntos controversos, um processo selado por um voto de obediência incondicional ao papa. É por isso que até agora não temos dissidentes públicos entre os bispos.
Mas a hierarquia católica vem sendo alertada do fosso existente entre ela e os leigos em importantes questões da reforma. Uma pesquisa recente na Alemanha mostra que 85% dos católicos são a favor de os padres se casarem, 79% são favoráveis a que pessoas divorciadas voltem a se casar na Igreja e 75% são pela ordenação de mulheres. Dados similares provavelmente seriam observados em muitos outros países.
Poderemos ter um cardeal ou um bispo que não deseje simplesmente prosseguir na mesma rotina? Alguém que, em primeiro lugar, saiba quão profunda é a crise da Igreja e, em segundo, conheça os caminhos que poderiam tirá-la dessa crise?
Essas questões precisam ser discutidas abertamente antes e durante o conclave, sem se impor um silêncio dos cardeais, como ocorreu no último conclave, em 2005.
Sendo eu o último teólogo atuante que participou do Concílio Vaticano II (com Bento XVI), me pergunto se não haveria no início do conclave, como ocorreu no início daquele concílio, um grupo de cardeais corajosos que consiga encarar os católicos romanos radicais e exigir um candidato disposto a se aventurar em novas direções. Isso poderia ocorrer em um novo concílio de reforma ou, melhor ainda, uma assembleia representativa de bispos, padres e leigos.
Se o próximo conclave eleger um papa que siga pela mesma velha estrada, a Igreja jamais viverá uma nova primavera, mas entrará numa nova era do gelo, com o risco de encolher a ponto de se tornar uma seita cada vez mais irrelevante. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO
* HANS KÜNG É SACERDOTE, ESCRITOR, PROFESSOR EMÉRITO DE TEOLOGIA NA UNIVERSIDADE DE TÜBINGEN, ALEMANHA, PRESIDENTE DA GLOBAL ETHIC FOUNDATION. ESCREVEU ESTE ARTIGO PARA THE NEW YORK TIMES
http://www.estadao.com.br/noticias/suplementos,uma-primavera-vaticana,1003634,0.htm
segunda-feira, 4 de março de 2013
domingo, 3 de março de 2013
Boff: renúncia de Bento XVI foi gesto de desespero e desmistificou figura do papa
Do Opera Mundi
O teólogo Leonardo Boff afirmou nesta terça-feira (26) que a renúncia de Bento XVI é “o grande legado” de seu pontificado, devido a seu caráter inédito e por ter “desmistificado a figura do papa”.
Em entrevista publicada hoje pelo jornal mexicano Reforma, Boff disse que a renúncia foi “um gesto de desespero pessoal” de Bento XVI, “em conjunto com suas limitações físicas e psicológicas” diante dos problemas enfrentados pela Igreja Católica.
Entre os problemas que perturbaram o papa alemão, mencionou os impedimentos para que sacerdotes pedófilos fossem entregues à justiça civil, o vazamento de informações e documentos do “Vatileaks” e os escândalos do Banco do Vaticano.
No final, disse, Bento XVI “recebeu um balanço altamente negativo da situação da cúria, pois tinha sido instalado, praticamente, um governo paralelo da Igreja” e “o seu mundo veio abaixo”.
“O papa se deu conta de que já não conseguia dirigir a Igreja. Outro deveria vir para regular a situação. Renunciou com elegância, sem denunciar ninguém e fazendo menção somente às suas limitações de saúde. Mas foi uma advertência fortíssima à cúria vaticana, que deve agora esperar profundas reformas”, apontou.
Para o teólogo, Bento XVI “é um intelectual refinado e um professor, não tem carisma e é extremamente tímido. Sentiu-se o sucessor de Pedro, mas não soube dirigir o governo da Igreja”.
“Eu, que o conheci, sempre imaginei o quanto sofria quando tinha que enfrentar as multidões de fiéis. Sua grande preocupação era a secularização da Europa e o relativismo da modernidade”, comentou.
“Para nós [latino-americanos], que estamos na periferia do mundo e no meio dos pobres, optar pela Europa significa, politicamente, optar pelos ricos”, destacou.
Boff considerou que Bento XVI entrará para a história como “uma pessoa que enquanto era presidente do ex-Santo Ofício condenou mais de 100 teólogos, dos melhores, especialmente da Teologia da Libertação”, uma corrente de pensamento que “nunca entendeu”.
Boff reprovou o fato de Bento XVI aceitar “a versão dos críticos” da Teologia da Libertação, “os militares e as elites opulentas [latino-americanas] que acusavam qualquer tentativa de mudança da realidade social, como livrar os miseráveis de sua pobreza, como coisa de comunistas”.
Nascido em Concordia (1938), Boff é um dos mais destacados representantes da Teologia da Libertação e terminou abandonando a Igreja por suas divergências com o Vaticano.
Hoje considera a Igreja Católica “muito ocidental, patriarcal, machista e antifeminista”, e afirmou que a instituição necessita “dialogar com o mundo” urgentemente.
O ex-frade franciscano chegou a ser castigado com o silêncio pela Congregação da Doutrina da Fé do Vaticano quando esta era comandada pelo então bispo Joseph Ratzinger, atual pontífice que encerrará seu papado na próxima quinta-feira (28/02).
http://www.sul21.com.br/jornal/2013/02/boff-renuncia-de-bento-xvi-foi-gesto-de-desespero-e-desmistificou-figura-do-papa/
sexta-feira, 1 de março de 2013
Renúncia do papa é efetivada e grupo pede ação da ONU contra abusos
Extra Online
Publicado em 28/02/13 17:12Atualizado em 28/02/13 17:12
Reuters
Por Naomi O'Leary
ROMA, 28 Fev (Reuters) - No último dia do pontificado de Bento 16, um grupo de apoio a vítimas de abusos sexuais cometidos por clérigos pediu à ONU que repreenda o Vaticano por sua incapacidade de proteger fiéis menores de idade contra esses crimes.
Numa entrevista coletiva a poucos metros dos muros do Vaticano, na quinta-feira, o presidente da Rede de Sobreviventes dos Abusados por Padres (Snap, na sigla em inglês) disse que seu grupo fez uma solicitação formal ao Comitê da Organização das Nações Unidas para os Direitos da Criança.
"É uma longa apresentação de 30 páginas baseada em relatórios governamentais de cinco nações", disse David Clohessy a jornalistas, cercado por fotos de crianças que ele disse serem hoje integrantes adultos da sua organização de vítimas.
"Esperamos que a ONU se pronuncie de forma muito incisiva, e diga que o Vaticano está em violação do tratado que concordou em honrar", afirmou.
A Snap argumentou que a Santa Sé violou quatro itens da Convenção da ONU para os Direitos da Criança, que o Vaticano assinou em 1990. As violações incluiriam a não-proteção às crianças e a não-cooperação com investigações criminais.
A crise por causa dos abusos clericais contra crianças, que levou à falência várias dioceses dos EUA, obriga a Igreja a gastar bilhões de dólares em indenizações no mundo todo, e assolou todo o pontificado de Bento 16. O assunto voltou à tona agora que os cardeais se preparam para iniciar um conclave que elegerá o sucessor dele.
Ativistas católicos já pediram ao cardeal norte-americano Roger Mahony, que na década de 1980 protegeu padres sabidamente abusadores, para que se exima de participar da eleição do novo papa.
Clohessy pediu que o próximo papa, que se espera ser escolhido até 26 de março, puna imediatamente bispos que tenham protegido padres abusadores nas suas dioceses.
"Essa é a maior instituição religiosa do planeta, com imenso poder centrado bem aqui. Com uma canetada, o papa poderia fazer uma diferença enorme", disse Clohessy.
Os casos de abusos sexuais começaram a vir à tona na década de 1980, mas só se tornaram uma crise grave em 2002, após reportagens na imprensa dos EUA. Quando ainda era cardeal, com o nome de Joseph Ratzinger, Bento 16 foi nomeado pelo então papa João Paulo 2o para liderar um órgão da Santa Sé encarregado de investigar os abusos.
Como papa, Bento 16 fez mais do que qualquer antecessor seu para tratar da questão, reunindo-se várias vezes com as vítimas e pedindo perdão pelos abusos. Mas Clohessy disse que ele poderia ter ido mais longe.
"Ele tinha tanto o poder quanto o conhecimento para fazer uma diferença enorme, e acreditamos que se recusou."
http://extra.globo.com/noticias/mundo/renuncia-do-papa-efetivada-grupo-pede-acao-da-onu-contra-abusos-7702301.html
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013
Uma Igreja Católica sem Papa?
21.02.13 - Mundo////
Eduardo Hoornaert//////
Padre casado, belga, com mais de 5O anos de Brasil, historiador e teólogo, mais de 20 livros publicados. Mora em Salvador. Dedica-se agora ao estudo das origens do cristianismo////
Adital///////////////////////////////////////////////////////////////////////////
O anúncio da renúncia de Bento XVI me surpreendeu, como aconteceu a muitas pessoas. Impressiona-me a simplicidade com que ele expõe seus sentimentos e penso que, desse modo, ele desbloqueia a visão estática que temos do papado e abre um espaço para discussões em torno do governo da igreja católica. É isso que pretendo fazer neste texto. Minha pergunta é a seguinte: será que a igreja católica precisa mesmo de um papa? Vou por pontos.
1. O papado
O papado não está ligado à origem do cristianismo. O termo ‘papa’, por exemplo, não aparece no novo testamento. Quanto aos versos do evangelho de Mateus (‘tu és Pedro e sobre essa pedra construirei minha igreja’: 16, 18), que costumam ser invocados para legitimar o papado, há de se lembrar que a exegese atual é taxativa em afirmar que não se pode isolar um texto de seu conjunto literário e transformá-lo em oráculo. Ora, os versos de Mateus funcionam, pelo menos na instituição católica, como um oráculo. Para quem lê os evangelhos em contexto fica claro que não dá para se imaginar que Jesus tenha planejado uma dinastia apostólica de caráter corporativo, baseada em sucessão de poderes. As palavras ‘tu és Pedro’ não condizem com a instituição do papado. Foi o bispo Eusébio de Cesareia, teórico da política universalista do imperador Constantino, que no século IV começou a redigir listas de sucessivos bispos para as principais cidades do império romano, em muitos casos sem verificar a veracidade dos nomes arrolados, na tentativa de adaptar o sistema cristão ao modelo romano da sucessão dos poderes. Esse bispo-historiador é o criador da imagem de Pedro-papa. Mas a pesquisa histórica aponta outro horizonte e mostra que a palavra ‘papa’ (pope), que pertence ao grego popular do século III, é um termo derivado da palavra grega ‘pater’ (pai) e expressa o carinho que os cristãos tinham por determinados bispos ou sacerdotes. O termo penetrou no vocabulário cristão, tanto da igreja ortodoxa como da católica. No interior da Rússia, até hoje, o pastor da comunidade é chamado ‘pope’. A história conta que o primeiro bispo a ser chamado ‘papa’ foi Cipriano, bispo de Cartago entre 248 e 258 e que o termo ‘papa’ só apareceu tardiamente em Roma: o primeiro bispo daquela cidade a receber oficialmente esse nome (segundo a documentação disponível) foi João I, no século VI.
2. O episcopado
Em contraste com o papado, a instituição episcopal deita raízes sólidas na origem do cristianismo, pois se refere a uma função já existente no sistema sinagogal judeu. A palavra ‘bispo’ (que significa ‘supervisor’) se encontra diversas vezes nos textos do novo testamento (1Tm 3, 2; Tito 1, 7; 1Pd 2, 25 e At 20, 29), assim como o substantivo ‘episcopado’ (1Tm 3, 1). Nas sinagogas judaicas, o ‘epíscopos’ era responsável pela boa ordem nas reuniões e as primeiras comunidades cristãs nada mais fizeram que adotar e adaptar o nome e a função.
3. A luta pelo poder
A partir do século III desencadeou-se, entre os bispos das quatro principais metrópoles do império romano (Constantinopla, Alexandria, Antioquia e Roma), uma dura luta pelo poder. Essa luta era particularmente dramática na parte oriental do império, onde se falava a língua grega. Os bispos em litígio foram chamados ‘patriarcas’, um termo que acopla o ‘pater’ grego com o poder político (‘archè’, em grego, significa ‘poder’). O patriarca é ao mesmo tempo pai e líder político. Nos inícios, Roma participava pouco dessa disputa, por ficar longe dos grandes centros do poder da época e usar uma língua menos universal (apenas usada na administração e no exército do sistema imperial romano), o latim. Por sua vez, Jerusalém, cidade ‘matriz’ do movimento cristão, ficou fora do páreo por ser uma cidade de pouca importância política.
Mesmo assim, Roma se fazia valer na parte ocidental do império. O já citado bispo Cipriano, de Cartago, reagiu com energia diante das pretensões hegemônicas do bispo de Roma e insistiu: entre bispos tem de reinar uma ‘completa igualdade de funções e poder’. Mas o curso da história foi implacável. Os sucessivos patriarcas de Roma conseguiram ampliar sua autoridade e elevaram o tom da voz, principalmente após a bem sucedida aliança com o emergente poder germânico no ocidente (Carlos Magno, 800). As relações com os patriarcas orientais (principalmente com o patriarca de Constantinopla) se tornaram sempre mais tensas até que aconteceu a ruptura de 1052. Aí começou a história da igreja católica apostólica romana propriamente dita.
4. O papa fica do lado dos mais fortes
Uma vez ‘dona do pedaço’, Roma foi elaborando de forma sofisticada a ‘arte da corte’ que ela aprendera com Constantinopla. Ao longo dos séculos, praticamente todos os governos da Europa ocidental aprenderam por sua vez a arte diplomática com Roma. Trata-se de uma arte nada edificante, que inclui hipocrisia, aparência, habilidade em lidar com o povo, impunidade, sigilo, linguagem codificada (inacessível aos fiéis), palavras piedosas (e enganosas), crueldade encoberta de caridade, acumulação financeira (indulgências, ameaça do inferno, pastoral do medo etc.). A imponente ‘História criminal do cristianismo’, em 10 volumes, que o historiador K. Deschner acaba de concluir, descreve essa arte eminentemente papal em detalhes.
Foi principalmente por meio da arte diplomática que, ao longo da idade média, o papado teve sucessos fenomenais. Sem armas, Roma enfrentou os maiores poderes do ocidente e saiu vitoriosa (Canossa 1077). Como resultado, a igreja foi afetada, no dizer do historiador Toynbee, pela ‘embriaguez da vitória’. O papa perdeu contato com a realidade do mundo e passou a viver num universo irreal, repleto de palavras sobrenaturais (que ninguém entende). Como bem observa Ivone Gebara, algumas dessas palavras ainda hoje estão em voga, como quando se diz que o Espírito Santo elegerá o próximo papa.
Com o advento da modernidade, o papado perde paulatinamente espaço público. No século XIX, principalmente durante o longo pontificado de Pio IX, a antiga estratégia de se opor aos ‘poderes deste mundo’ não funciona mais. Não traz mais vitórias, registra apenas derrotas. Então, o papa Leão XIII resolve mudar a estratégia e inicia uma política de apoio aos mais fortes, uma estratégia que funciona durante todo o século XX. Bento XV sai da primeira guerra mundial ao lado dos vitoriosos; Pio XI apoia Mussolini, Hitler e Franco, enquanto Pio XII pratica a política do silêncio diante dos crimes contra a humanidade perpetrados durante a segunda guerra mundial, à custa de incontáveis vidas humanas. Após uma breve interrupção com João XXIII, a política de apoio silencioso aos fortes (e de palavras genéricas de consolo aos perdedores) prossegue até os nossos dias.
5. Hoje, o papado é um problema
Por tudo isso, pode-se dizer hoje que o papado não é uma solução, é um problema. Não se diz o mesmo do episcopado, pois este registra, nos últimos tempos, páginas luminosas. Além dos bispos mártires (como Romero e Angelelli), tivemos aqui na América Latina uma geração de bispos excepcionais entre os anos 1960 e os anos 1990. Além disso, o concílio Vaticano II avançou a ideia da colegialidade episcopal, no intuito de fortalecer o poder dos bispos e limitar o poder do papa. Mas tudo esbarrou num muro intransponível feito de mistura entre preguiça mental (a lei do menor esforço), fascínio pelo poder (Walter Benjamin), disponibilidade do fraco diante do poderoso (Machiavelli) e arte cortesã (Norbert Elias). Mesmo assim, vale lembrar que o catolicismo é maior que o papa e que a importância dos valores veiculados pelo catolicismo é maior que o atual sistema de seu governo.
6. Pode a igreja católica subsistir sem papa?
Pode a França subsistir sem rei, a Inglaterra sem rainha, a Rússia sem czar, o Irã sem aiatolá? A própria história se encarrega de dar a resposta. A França não se acabou com a destituição do rei Luis XVI e o Irã certamente não se acabará com o fim do reino dos aiatolás. Isso se aplica ao cristianismo, como comprova o surgimento do protestantismo no século XVI. Haverá certamente resiliências e saudosismos, tentativas de volta ao passado, mas instituições não costumam desaparecer com mudanças de governo. Em geral, o movimento da história em direção a uma maior democracia e participação popular é irreversível (ao que parece). Cedo ou tarde, a igreja católica terá de enfrentar a questão da superação do papado por um sistema de governo central mais condizente com os tempos que vivemos.
Dentro dessa lógica pode-se dizer que a atual ânsia em fazer prognósticos acerca do futuro papa pode desviar a atenção do que é realmente importante. Pois não se trata do papa, mas do papado como forma de governo. Compreende-se que a mídia, nestes dias, se compraz em focalizar a figura do papa. Pois, para ela, o papa é negócio. O sucesso do enterro do papa João Paulo II, alguns anos atrás, mostrou aos planejadores da mídia as potencialidades financeiras de grandes eventos papais. Com prazer, a mídia se encarrega hoje de divulgar os pontos básicos do catecismo papal: o papa é o sucessor de Pedro, o primeiro papa; a eleição de um papa, em última análise, é obra do Espirito Santo; que ninguém perca a indulgência plenária concedida excepcionalmente por Deus por ocasião da primeira bênção do novo papa. Eis o que veremos nas próximas semanas. Talvez seja melhor não falar muito da eleição do futuro papa nestes dias, mas trabalhar sobre temas que preparem a igreja do futuro.
Termino trazendo aqui dois exemplos recentes em torno dessa problemática. Poucas pessoas sabem que, nos idos de 1980, o cardeal Aloísio Lorscheider chegou a discutir com o papa João Paulo II acerca da descentralização do poder na igreja. Não existe registro escrito ou fotografado dessa discussão, mas parece que o papa se mostrou aberto às sugestões do cardeal brasileiro, conforme consta na encíclica ‘Ut unum sint’. Esse ponto foi comentado por José Comblin num de seus últimos trabalhos: ‘Problemas de governo da igreja’ (veja internet). Penso que o papa só não avançou porque não percebia na igreja uma real vontade política em avançar na direção da descentralização do governo. Nesse caso, ficou claro que o problema não é o papa, mas o papado.
Um exemplo bem diferente, mas que aponta na mesma direção, é dado por outro bispo brasileiro, Helder Camara. Chegando a Roma para participar do Concílio Vaticano II (ele não tinha viajado à Europa antes), o bispo brasileiro estranhou os comportamentos na corte romana a ponto de ter alucinações, como conta em suas cartas circulares. Certa vez, por ocasião de uma sessão na basílica de São Pedro, ele teve a impressão de ver o imperador Constantino invadir a igreja montado num garboso cavalo a pleno galope. Outra vez, ele sonhou que o papa ficou louco, jogou sua tiara no Tibre e atou fogo no Vaticano. Ele dizia, em conversas informais: o papa faria bem em vender o Vaticano à Unesco e alugar um apartamento no centro de Roma. Pude verificar pessoalmente, em diversas ocasiões, que Dom Helder detestava o ‘sigilo papal’ (um dos instrumentos do poder de Roma). Ao mesmo tempo, o bispo brasileiro mantinha amizade com o papa Paulo VI, o que mostra, mais uma vez, que o problema não é o papa, mas sim o papado enquanto instituição.
sábado, 16 de fevereiro de 2013
Antiga entrevista com Leonardo Boff antes de posse de Bento XVI
(os grifos são nossos)
*Entrevista dada a Paula Gobbi, jornalista do Los Angeles Times
/////
1) Quando o Sr. conheceu Joseph Ratzinger? Tenho entendido que ele foi seu supervisor de dissertaçao de Doutorado. Isso e correto? Como era sua relaçao, entao? Poderia descrever-lo? (era severo, amigavel, exigente?)
R/Eu conheci Joseph Ratzinger na Alemanha como professor e grande conferencista nos fins dos anos 60 do século passado, teólogo que fazia críticas ao centralismo romano e que pedia mais liberdade para a teologia poder dialogar sem constrangimentos com as tendências da cultura contemporânea. Depois, quando terminei minha tese doutoral foi ele que a leu e se entusiasmou tanto que achou uma editora para publicá-la ajudando-me até financeriamente com uma substanciosa soma. Sempre foi uma pessoa afável e extremamente cortes.
2) Quando o chamou a aparecer frente o tribunal de doutrina? Qual era o motivo? Por que motivo o Sr. foi escolhido entre outros?
R/ Em 1982 escrevi um livro Igreja: carisma e poder no qual aplicava as intuições da teologia da libertação às condições internas da Igreja. Ai denunciava a opressão da mulher, o atropelo dos direitos humanos, a concentração de poder nas mãos do clero e o controle severo das doutrinas. Isso não agradou o Vaticano. Recebi um processo judicial junto a ex-Inquisição presidida pelo Cardeal J. Ratzinger. Em 1984 sentei na mesma cadeira onde sentou Galileo Galilei e Giordano Bruno e durante três horas fui interrogado pelo Cardeal. Depois fui punido, pois me impuseram o silêncio obsequioso, uma espécie de silêncio penitencial, fui deposto da cátedra de teologia sistemátia e ecumência e proibido de escrever e publicar. Mas onze meses depois fui liberado. Meu julgamento foi feito no contexto da publicação da Instrução contra a teologia da libertação que foi lançada três dias antes do meu julgamento. Assim se criou a atmosfera de julgamento e de condenação também da teologia da libertação que na época mobilizou a opinião pública mundial que apoiava este tipo de teologia porque se ocupava dos pobres do mundo e da justiça necessária, questões éticas de grande dignidade que comoveram as pessoas e as irritaram contra Roma.
3) Poderia descrever o procedimento do tribunal? Por exemplo foi dentro do Vaticano, quantos dias durou, e quantas pessoas o questionavam. Era um ambiente amigavel ou hostil?
R/ Não tenho prazer em escrever sobre estas coisas, pois elas são psicologicamente muito traumatizantes. Fui introduzido no Palácio del Santo Oficio, a antiga Inquisição, onde se praticavam as torturas. Atravessei acompanhado pelo Cardeal vestido de forma oficial, uma imenso salão todo acarpetado e cheio de quadros renascentistas nas paredes. No final, havia uma pequena sala onde ocorreu o interrogatório. Ele se deu entre eu e o Cardeal frente a frente. Um notário ao lado anotava tudo. O ambiente era severo e pesado. O Cardeal fazia as perguntas e apenas escutava. Discutíamos alguns pontos que não cabe aqui detalhar. Assim foram três horas.. No final houve outra parte na qual participaram dois Cardeais Brasileiros Dom Paulo Evaristo Arns de São Paulo e Dom Aloisio Lorscheider que vieram a Roma para me apoiar e para dizer ao Cardeal Ratzinger que ele podia julgar doutrinariamente minha teologia mas que eles como Pastores queriam testemunhar que ela fazia bem aos fiéis e era boa para a Igreja. Mas isso não ajudou nada pois mesmo assim fui condenado.
4) Como era Ratzinger durante as audiencias? Era profesional ou impessoal, pastoral ou comprensivo, aumento o tom de voz ou foi afetuoso?
R/ O Cardeal foi sempre afável e elegante. Nunca ergueu a voz. Era fácil ser benevolente pois tinha todo o poder em suas mãos.. Percebi que ele possui uma inteligente brilhante e conceitos claros e distintos como queria Descartes. Mas não possui a cordialidade do pensamento que vai ao encontro do outro para também aprender. Ele se sente o portador da verdade. Desde 1972 que tinha problemas com a Congregação para a Doutrina da Fe. Praticamente cada livro que publicava provocava cartas de explicação vindas de Roma. O julgamento do livro Igreja: carisma e poder representou uma culminância. Ai tive a nítida impressão que a lógica da Congregação é a mesma da antiga Inquisição. Mudaram os métodos, pois não mais torturam os corpos, mas a vontadde de condenar é a mesma o que tortura a psiqué pela marginalização, desmoralização e difamação que fazem do teólgo diante dos bispos, proibidos de lhe convidar para asessorias, retiros ou palestras. A Congregação não perdoa nada, não esquece nada e cobra tudo. Não me parece que tal atitude tem algo a ver com o espírito evangélico.
5) Porque o Sr. aceito a pena do "silencio obsequio"? Eles ameaçaram retirar-lo como padre?
R/ Aceitei as penas e o silêncio obsequioso por um juizo político. Eu entendi e assim tambem o entenderam muitos bispos importantes da igreja brasileira que o objetivo da intervenção do Vaticano não era propiramente eu. Queria atingir a Igreja do Brasil, a igreja comprometida com o social, com as comunidades de base e com a libertação. Eu era pretexto para frear o entusiasmo pastoral da Igreja na luta ao lados dos pobres. Sabendo disso, eu acolhi o silêncio obsequioso e as demais punições para impedir que atingissem e condenassem as comunidades eclesiais de base e a teologia da libertação. E creio que o consegui, pois os do Vaticano ficarm surpresos com minha atitude de aceitação.
6) O que ocasionou sua saida do ministério em 1992?
R/ Suspensas penas eu voltei ao meu trabalho de professor e de assessor de comunidades eclesiais de base e de apoio aos movimentos sociais. O controle de Roma continuou, pois cada escrito meu devia ser censurado por duas instâncias diferentes, uma da Ordem franciscana à qual pertencia e outra do bispo. Durante a Eco-92 no Rio de Janeiro, quando se reuniram os chefes de Estado do mundo todo para discutir a relação entre desenvolvimento e meio ambiente, veio o Cardeal Sebastião Baggio e me disse que eu não havia aprendido nada das punições. Que deveria de novo entrar em silencio obsequioso, que deveria agora sair da America Latina e do Brasil e que deveria escolher algum convento nas Filipinas ou na Coreia. Eu lhe perguntei se nestes paises eu poderia falar e escrever. Ele me respondeu que absolutamente não podia e que deveria ficar em silencio no convento. Como a posição de Roma era irredutível, tive que decidir, pois achava injusta esta punição. Escrevi dois dias apos uma carta onde dizia que mudava de trincheria mas não de luta em favor dos pobres. Deixava o ministério sacerdotal e a Ordem Franciscana e me autopromovi a leigos. Continuei meu trabalho de professor e de assessor dos movimentos sociais e tambem de professor de ética e filosofia da religião na Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
7) O Sr. acha que Ratzinger, como novo Papa, será mais aberto à discussão de vários temas, como insinuou nas primeiras declarações, como Benedicto XVI?
R/ Tudo indica que o novo Papa vai continuar a linha de seu predecessor. Como não tem o carisma dele, seguramente vai dar mais autonomia às igrejas locais e fazer um esforço de pacificar a Igreja internamente porque há muitas feridas, amargura e divisões provocadas pelas pesadas intervenções do Cardeal Ratzinger sobre 140 teólogos que foram punidos, conferências de bispos que foram humilhadas, bispos comprometidos com os pobres e os índios perseguidos coo Dom Pedro Casaldáliga no Brasil e Samuel Ruiz no Mexico e Leonidas Proaño no Equador e outros. Sem esta atmosfera fraterna não se pode viver a Igreja como comunidade. Eu acredito em milagres. Pode ser que agora, Bento XVI, livre da sombra de João Paulo II, volte a ser aquilo que foi como jovem professor, aberto, gerador de esperança e não de medo. Precisamos de uma Igreja que retome a Reforma Catolica iniciada pelo Vaticano II e enriquecida com as contribuições vindas das Igrejas da periferia do mundo e se abra à nova fase da humanidade, a fase planetária, atenta ao grito dos bilhões de oprimidos e do grito da Terra, das aguas, dos solos, das floresta devastadas e que faça da Igreja uma força de conclamação para a justica e a solidariedade todos..
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013
Renúncia do Papa dá esperanças a adeptos da Teologia da Libertação
14/2/2013
Novo pontífice pode criar atmosfera mais aberta, afirma teólogo brasileiro.
Atual Papa Bento XVI não era simpático à linha teológica.
Os representantes da Teologia da Libertação, corrente progressista da Igreja Católica com presença forte na América Latina, manifestaram esperança de que o Vaticano assuma um compromisso maior com os pobres e viva um processo de abertura, após o anúncio da renúncia do papa Bento XVI.
Esperamos que outro Papa crie uma atmosfera mais aberta, que os cristãos possam dialogar com a cultura moderna sem as tantas suspeitas e críticas, afirmou o teólogo brasileiro Leonardo Boff em entrevista ao canal venezuelano Telesur.
Boff, uma das figuras centrais da Teologia da Libertação, foi aluno de Bento XVI quando ele era o cardeal Joseph Ratzinger. O teólogo comentou que o Papa atual é uma figura muito controversa e complexa.
O estilo com que o Papa administrou a Igreja nos últimos seis anos, que o teólogo brasileiro definiu como burocrático e duro, fez com que muitos não sintam mais a Igreja como um lar espiritual, diz ele.
A Teologia da Libertação surgiu na América Latina após o concílio Vaticano II (1962-1965), e estimulou a opção preferencial pelos pobres, com um compromisso por sua emancipação social e política, afirmam agências internacionais.
Esta postura, que em um determinado momento entusiasmou o Papa Paulo VI, não contou com a simpatia de João Paulo II e foi desautorizada pelo próprio Ratzinger como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, a antiga Santa Inquisição.
Boff, que deixou a batina em 1992 em meio a fortes divergências com o Vaticano, elogiou Bento XVI por tomar uma decisão que nenhum pontífice havia tomado em 600 anos.
No entanto, o teólogo afirmou às agências internacionais que o pontífice carrega um fardo negativo muito grande na história da teologia cristã. Entrará para a história como um Papa inimigo da inteligência dos pobres e de seus aliados.
Ato de responsabilidade
Em El Salvador, a comunidade jesuíta, ligada à Teologia da Libertação, elogiou a renúncia do Papa como um ato de responsabilidade, mas criticou o fato de não ter avançado com o processo de beatificação do arcebispo salvadorenho Oscar Romero, um emblemático defensor dos pobres e oprimidos.
José María Tojeira, diretor pastoral da Universidade Centroamericana (UCA) de San Salvador, instituição de caráter jesuíta, lamentou a dívida que Bento XVI deixa com a comunidade católica salvadorenha.
Romero foi assassinado em março de 1980 pelos esquadrões de extrema-direita, em resposta a seus constantes pedidos por justiça social e respeito pelos direitos humanos, em um desafio aberto ao poder político e militar da oligarquia salvadorenha.
No mesmo ano explodiu uma guerra civil em El Salvador que durou 12 anos, e na qual os seguidores da Teologia da Libertação estiveram claramente identificados com as forças da insurgência.
A controvérsia com o Vaticano prosseguiu após o fim da guerra: Jon Sobrino, jesuíta de origem espanhola e um dos teólogos mais próximos ao arcebispo Romero, foi punido pelo Vaticano em março de 2007 em uma resolução aprovada por Bento XVI, que o proíbe de dar aulas em instituições católicas.
A punição, segundo a versão oficial, foi motivada por algumas obras de Sobrino. Nelas, segundo o Vaticano, o jesuíta enfatizou o caráter humano de Jesus Cristo e ocultou sua natureza divina.
O poeta e sacerdote Ernesto Cardenal, 88 anos, destacada figura da Teologia da Libertação naNicarágua, não avaliou o legado de Bento XVI, mas disse que estava feliz com a renúncia.
Durante a primeira visita do falecido Papa João Paulo II à Nicarágua, em 1983, Cardenal era ministro da Cultura no primeiro governo do presidente Daniel Ortega, desobedecendo uma ordem do Vaticano que pedia aos padres que separassem a sua militância política no sandinismo.
Na ocasião, João Paulo II advertiu Cardenal diante das câmeras, em uma imagem que rodou o mundo.
Fonte: G1
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013
Renúncia evidencia clima de 'guerra civil' no Vaticano
13/02/2013 - 04h00///
CLÓVIS ROSSI///
ENVIADO ESPECIAL A ROMA///
O dia seguinte ao anúncio da renúncia de Bento 16 evidenciou ainda mais o ambiente de guerra civil no Vaticano que boa parte dos especialistas aponta como a razão de fundo para a sua decisão, muito mais que o peso da idade.
O melhor resumo está no editorial de capa do sóbrio "Corriere della Sera", assinado por ninguém menos que seu diretor, Ferruccio de Bortoli. Diz que o ato do papa "foi certamente encorajado pela insensibilidade de uma cúria que, em vez de confortá-lo e apoiá-lo, apareceu, por diversos de seus expoentes, mais empenhada em jogos de poder e lutas fratricidas".
Reforça Massimo Franco, do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos de Londres, autor do premiado "Era uma Vez um Vaticano": a renúncia do papa seria, para ele, "o sintoma extremo, final, irrevogável, da crise de um sistema de governo e de uma forma de papado".
Bento 16 é apontado como um dos culpados por essa crise de sistema de governo até por quem, como o vaticanista Luigi Accattoli, elogia aspectos de seu papado: "Bento 16 iniciou uma grande obra de limpeza em matéria de escândalos sexuais e de finanças vaticanas, mas não conseguiu restabelecer a boa ordem na Cúria" (o órgão administrativo da Santa Sé, que coordena e organiza o funcionamento da Igreja Católica).
A pergunta seguinte inescapável é esta: a renúncia será suficiente para pôr fim ao que Bortoli chamou de "lutas fratricidas" ou, ao contrário, servirá para acentuá-las de forma que o lado vencedor imponha seu preferido para ocupar o trono de Pedro?
Paolo Griseri se atreve a responder, em texto para "La Repubblica", escolhendo a segunda hipótese: "O que esteve dividido durante o pontificado de Bento 16 permanecerá dividido no conclave e nos dias que o precederão".
O mais paradoxal na guerra civil no Vaticano é que ela não se dá mais entre os chamados "progressistas" e os "conservadores".
Estes venceram e reduziram o outro lado à impotência e/ou ao silêncio, para o que Joseph Ratzinger foi essencial, em seu longo período à frente da Congregação para a Doutrina da Fé, antiga Inquisição.
Os contornos do novo conflito são mais embaçados, até porque a Igreja Católica está impregnada de uma cultura do segredo. Mas parece tratar-se de uma disputa entre o velho e o novo.
Um pouco nessa linha seguiu Juan Arias, o correspondente de "El País" no Brasil e que, em seu longo período no Vaticano, tornou-se um dos mais respeitados analistas da igreja no mundo.
Arias minimiza a importância da discussão sobre se seria melhor "um papa latino-americano, africano, asiático ou de novo europeu e, mais concretamente, italiano".
Para ele, "importante é que o sucessor de Bento 16 seja capaz de entender que o mundo está mudando rapidamente e que de nada servirá à igreja continuar levantando muros para impedir que lhe cheguem os gritos de mudança que provêm de boa parte da própria cristandade".
É curioso que Arias, um leigo progressista, coincida com o próprio papa, notório conservador, que, no texto em que anunciou a renúncia, atribuiu-a à falta de forças para "o mundo de hoje, sujeito a mudanças rápidas e agitado por questões de grande relevância para a vida da fé".
É razoável supor que o papa estivesse se referindo a temas como a necessária limpeza dos pecados que a igreja acobertou (os padres pedófilos), o casamento entre pessoas do mesmo sexo, o celibato dos padres, o papel da mulher na vida da igreja.
Resta saber se um colégio cardinalício feito à imagem e semelhança de Ratzinger tem, entre seus membros, número suficiente de purpurados abertos ao mundo capazes de conduzir um dos seus ao trono de Pedro.
http://www1.folha.uol.com.br/mundo/1229942-renuncia-evidencia-clima-de-guerra-civil-no-vaticano.shtml
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013
Conflitos internos podem ter provocado renúncia do Papa
Conflitos internos podem ter provocado renúncia do Papa/////
Enviado por luisnassif,/////qua, 13/02/2013 - 09:46
Do Estadão
Disputa de poder na Igreja pode ter provocado renúncia de Bento XVI
Fontes próximas ao Vaticano afirmam que exaustão declarada pelo pontífice está ligada aos confrontos internos, e não apenas à idade avançada; corrupção no Banco do Vaticano e roubo de documentos por seu ex-mordomo contribuíram para o desgaste
Jamil Chade
CIDADE DO VATICANO - Cansado e sem energia, mas também isolado politicamente. O papa Bento XVI de fato renunciou ao pontificado por conta de sua fragilidade. Fontes próximas ao Vaticano, porém, afirmam que a exaustão não tem a ver apenas com a sua saúde, mas também com a disputa de poder que marcou seus últimos meses no trono. A renúncia teria sido uma reação extrema ao que muitos classificam de governo paralelo, que teria se formado à sua sombra e sob comando do cardeal Tarcisio Bertone.
Por seus aliados, Bento XVI optou por sacrificar seu próprio cargo, na esperança de recolocar a Igreja num caminho de maior coesão, forçando uma nova eleição.
Fontes nas embaixadas estrangeiras junto à Santa Sé relataram ao Estado os bastidores dos últimos meses de Bento XVI. Dizem que o papa renunciou de livre vontade, mas consciente de que já não mandava sozinho na Santa Sé e, com os poucos anos que lhe restavam, não conseguiria fazer o que havia planejado diante de resistência de seus ex-aliados.
De forma indireta, a Santa Sé confirmou que a fragilidade não vinha de sua saúde. "O papa é uma pessoa de grande realismo e conhece os problemas e as dificuldades", disse o porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi. "A renúncia foi uma mensagem à Cúria, mas também a todos nós", disse. "Foi um ato de humildade, sabedoria e responsabilidade."
Segundo Lombardi, não havia um problema específico, mas sim uma visão "mais ampla da Igreja no mundo. "Não foi uma decisão improvisada. Foi algo muito lúcido." A possibilidade de renúncia era cogitada por Bento XVI desde abril de 2012, após viagem ao México e a Cuba.
O papa chegou ao trono com a promessa de que conduziria uma limpeza na Igreja. O resultado, porém, foi o oposto e o equilíbrio de poder que havia durante os anos de João Paulo II ruiu.
Suas decisões de punir cardeais simplesmente foram ignoradas ou levaram anos para serem cumpridas, em um desafio claro ao poder do papa. Foram os casos de Roger Mahony ou de Thomas Curry. Marcial Maciel, fundador dos Legionários de Cristo, foi outro que acabou sendo protegido por anos, apesar das denúncias. Por mais que tenha tentado, Bento XVI jamais conseguiu implementar sua ideia "de tolerância zero" em relação à pedofilia. "Quanta sujeira na Igreja", chegou a declarar.
Bento XVI também deu indicações de que poderia rever algumas de suas posições, como a questão do preservativo. Cardeais mostraram-se irritados e se apressaram em negar o debate. Esse não seria o único caso de desobediência. Bertone tomaria medidas à sua revelia, até mesmo punindo aliados do papa. Em uma ocasião, teria chorado.
Amigo pessoal do papa, Bertone foi a pessoa que mais recebeu poder dentro da Igreja em 2005. Mas, em alianças com membros da Cúria, teria criado situações em que colocava Bento XVI contra esses cardeais. Para evitar uma disputa direta, o papa optou inicialmente por não questionar as decisões de seu ex-aliado. Mas isso teria ido longe demais.
Um dos casos que revelou o poder de Bertone foi o do cardeal Carlo Maria Vigano, que alertou Bento XVI sobre suspeitas de corrupção nos contratos do Vaticano. O caso chegou até a imprensa italiana. Imediatamente, Bertone decidiu nomear Vigano como núncio nos Estados Unidos.
Outros fatos. Também pesaram a revelação de corrupção no Banco do Vaticano, seguido pelo descobrimento de que próprio mordomo, pessoa que o vestia e estava em sua intimidade, havia roubado documentos que expunham a corrupção na Igreja.
Para diplomatas, um indício de que Bento XVI não acreditava que o mordomo havia agido sozinho foi sua decisão de perdoá-lo, mesmo depois que um tribunal do Vaticano o condenou.
Em agosto, Bento XVI foi à casa que o Vaticano dispõe nos arredores de Roma para descanso. Fontes no Vaticano confirmaram que já naquele momento ele estava isolado. Nos últimos meses, o papa abandonou o confronto. Aos que chegavam com alguma intriga doméstica, respondia: "Eu sou um papa velho".
http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/conflitos-internos-podem-ter-provocado-renuncia-do-papa
terça-feira, 5 de fevereiro de 2013
Mística e alegria
04.02.13 - Mundo - Adital/
Marcelo Barros,
Monge beneditino e escritor /
Nesses primeiros dias de fevereiro, o mundo parece invadido pelo clima de alegria do Carnaval. Este envolve pessoas de todas as classes sociais. Suas danças e folguedos representam culturas que, a depender do lugar, revivem em expressões indígenas, negras ou europeias. Embora o Carnaval tenha origens religiosas, muitas vezes, as Igrejas cristãs ainda o olham com desconfiança, assim como suspeitam de todo tipo de diversão e prazer. É verdade que, cada vez mais, na estrutura atual do mundo, o Carnaval é dominado por interesses econômicos e expressa as contradições dessa sociedade. Entretanto, não se pode negar: de uma forma ou de outra, em todas as épocas e nas mais diferentes culturas, a atração pela festa e a busca da alegria fazem parte essencial da vocação humana. As religiões deveriam assumir e expressar isso.
No Cristianismo, Evangelho significa boa notícia. No primeiro testamento, Deus se revela para libertar o povo oprimido do cativeiro, dar terra a quem não a tinha e criar na humanidade uma comunhão de vida. No Novo Testamento, cada vez que o Espírito de Deus se manifesta, a consequência imediata é a alegria. Sempre que Jesus fica cheio do Espírito, exulta de grande regozijo. Ele compara o projeto divino no mundo com uma festa de casamento. Conforme o quarto evangelho, o primeiro sinal que ele fez para revelar sua missão ao mundo foi fazer com que não falte vinho e, portanto, alegria, em uma festa de casamento na Galileia.
Durante muito tempo, a doutrina da Igreja parecia dar mais valor à penitência, à reparação das faltas e à luta contra o pecado do que à graça divina e à alegria do amor. A visão sobre o ser humano e sobre nós mesmos era pessimista e predominantemente negativa. Hoje, as comunidades cristãs são chamadas a valorizar a natureza como criação divina, sinal da bênção amorosa de Deus e reflexo da divindade. Um comentário judaico do Gênesis diz que, quando o universo surgiu do útero do Criador, centelhas da divindade se espalharam por todas as criaturas. Estas não são divinas em si mesmas, mas são divinizadas pela luz do Criador. E o ser humano, criado à própria imagem divina, deve se tornar, pelo seu modo de viver, semelhante ao Espírito, cuidador amoroso do universo e dos seus outros irmãos, assim como de si mesmo. O objetivo da espiritualidade é nos ajudar a atingir essa divinização de todo o ser. Mesmo com métodos e formas que podem ser estranhas à educação da fé, o Carnaval pode recordar às Igrejas cristãs que a alegria e o espírito de festa são elementos essenciais do projeto divino no mundo. Na Carta aos Filipenses, Paulo escreveu: "Alegrem-se sempre em Deus. Eu insisto: alegrem-se, porque o Senhor está perto” (Fl 4, 4). Hoje, dizemos: ele está em nós.
Mística e alegria
04.02.13 - Mundo - Adital -
Marcelo Barros
Monge beneditino e escritor /
Nesses primeiros dias de fevereiro, o mundo parece invadido pelo clima de alegria do Carnaval. Este envolve pessoas de todas as classes sociais. Suas danças e folguedos representam culturas que, a depender do lugar, revivem em expressões indígenas, negras ou europeias. Embora o Carnaval tenha origens religiosas, muitas vezes, as Igrejas cristãs ainda o olham com desconfiança, assim como suspeitam de todo tipo de diversão e prazer. É verdade que, cada vez mais, na estrutura atual do mundo, o Carnaval é dominado por interesses econômicos e expressa as contradições dessa sociedade. Entretanto, não se pode negar: de uma forma ou de outra, em todas as épocas e nas mais diferentes culturas, a atração pela festa e a busca da alegria fazem parte essencial da vocação humana. As religiões deveriam assumir e expressar isso.
No Cristianismo, Evangelho significa boa notícia. No primeiro testamento, Deus se revela para libertar o povo oprimido do cativeiro, dar terra a quem não a tinha e criar na humanidade uma comunhão de vida. No Novo Testamento, cada vez que o Espírito de Deus se manifesta, a consequência imediata é a alegria. Sempre que Jesus fica cheio do Espírito, exulta de grande regozijo. Ele compara o projeto divino no mundo com uma festa de casamento. Conforme o quarto evangelho, o primeiro sinal que ele fez para revelar sua missão ao mundo foi fazer com que não falte vinho e, portanto, alegria, em uma festa de casamento na Galileia.
Durante muito tempo, a doutrina da Igreja parecia dar mais valor à penitência, à reparação das faltas e à luta contra o pecado do que à graça divina e à alegria do amor. A visão sobre o ser humano e sobre nós mesmos era pessimista e predominantemente negativa. Hoje, as comunidades cristãs são chamadas a valorizar a natureza como criação divina, sinal da bênção amorosa de Deus e reflexo da divindade. Um comentário judaico do Gênesis diz que, quando o universo surgiu do útero do Criador, centelhas da divindade se espalharam por todas as criaturas. Estas não são divinas em si mesmas, mas são divinizadas pela luz do Criador. E o ser humano, criado à própria imagem divina, deve se tornar, pelo seu modo de viver, semelhante ao Espírito, cuidador amoroso do universo e dos seus outros irmãos, assim como de si mesmo. O objetivo da espiritualidade é nos ajudar a atingir essa divinização de todo o ser. Mesmo com métodos e formas que podem ser estranhas à educação da fé, o Carnaval pode recordar às Igrejas cristãs que a alegria e o espírito de festa são elementos essenciais do projeto divino no mundo. Na Carta aos Filipenses, Paulo escreveu: "Alegrem-se sempre em Deus. Eu insisto: alegrem-se, porque o Senhor está perto” (Fl 4, 4). Hoje, dizemos: ele está em nós.
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