‘Estamos assistindo um refluxo do conservadorismo dentro da Igreja’, diz ele ao Conselho de Leitores Luciano Moura e Wilson Gasino
jornal Diário de S. Paulo - Globo
O bispo dom Demétrio Valentini está em Jales há quase 30 anos e afirma que foi sua opção criar raízes sólidas na cidade que fica a 147 quilômetros de Rio Preto. Dom Demétrio foi presidente da Cáritas Brasileira por 16 anos. Com bagagem de sobra para falar sobre os pilares e polêmicas da Igreja Católica, principalmente, sobre a importância sobre o Concílio Vaticano 2º, o bispo foi contundente ao responder às perguntas dos membros do Conselho de Leitores do BOM DIA. A seguir, os principais trechos da entrevista.
Edilberto Imbernom - Como o senhor conseguiu participar como “foca” (recém-formado) na reunião do Concílio Vaticano 2º? O senhor já confessou esse pecado para alguém?
Era seminarista e estava em Roma. No dia da reunião do Concílio Vaticano 2º fui cedo para a praça Dom Pedro para ver o desfile de bispos que saíam do Vaticano e entravam na Basílica. Para minha surpresa, o frei Boaventura Kloppenburg era responsável pelos repórteres de língua portuguesa. Não apareceu nenhum jornalista. Ele estava na mão com os ingressos desses jornalistas. Ele me viu passando e reconheceu como brasileiro por causa da faixa verde e amarela na batina. Então, me ofereceu um ingresso da reunião. Tirei a faixa para não ser reconhecido como seminarista e coloquei em um bolso da batina e no outro coloquei a máquina fotográfica. Participei da reunião inteira. Não achei que foi pecado e sim uma graça de Deus.
Marco Antônio Vanzeli: Qual a sua opinião hoje sobre os jovens na Igreja?
É um desafio sem dúvida nenhuma. A Igreja está tentando se entender e, principamente, se aproximar da juventude. Teremos uma oportunidade preciosa em 2013 porque está marcado no Rio de Janeiro o Encontro Mundial da Juventude com o papa. São encontros que o papa João Paulo 2º começou e os jovens mostravam um respeito especial com ele. Estamos pensando em valorizar o encontro no Brasil no sentido de mobilizar a juventude por meio das dioceses. Fizemos um encontro este ano em Jales chamado DNJ (Dia Nacional da Juventude). Reunimos mais de 5 mil jovens. Isso já é um sintoma positivo. Temos esperança que haja uma reaproximação da Igreja com a juventude.
Erina Ferreira: Porque houve um corte na Teologia da Libertação?
O assunto é complexo. Estranhou-se pela primeira vez uma teologia fora dos moldes europeus. Uma igreja tem o direito de ter sua reflexão. Essa reflexão é muito importante para motivar e perceber a consistência dos passos a serem dados. Percebe que quem se incomodou com a teologia foi a Igreja da Europa. O livro da Bíblia que inspirou a Teologia da Libertação foi o Êxodo. É a libertação do Egito. Uma percepção de que a causa humana tem tudo haver com os designos que Deus tem de dignidade humana, de liberdade responsável e de solidariedade. Uma teologia que procurava integrar bem a realidade que o povo estava vivendo à luz do evangelho que projeta uma compreensão diferente e valoriza pessoas. Ela permite que as pessoas se tornem sujeitos da sua própria libertação. Tem todo um conjunto de valores muito importantes que estão aglutinados em torno daquilo que se identificou como Teologia da Libertação.
Ela foi de fato questionada sobre tudo porque usou categorias que são válidas de interpretação da realidade. Alguns dizem que por semelhante a interpretação marxista. Na Europa e sobretudo o papa João Paulo 2º, que tinha vivido com muita intensidade o que foi o comunismo na Europa Ocidental, ficou muito intrigado percebendo certas semelhanças de expressões filosóficas e de interpretações da realidade parecida com a análise marxista. Na verdade, a análise marxista pode nos ajudar a entender os esquemas de dominação que vão sendo montados. Houve o equívoco de achar que a Teologia de Libertação implicava uma concepção e adesão política marxista. O socialismo histórico ajudou para que se alertasse para os perigos da Teologia da Libertação. A teologia da libertação não está morta. Tanto que se celebra agora os 50 anos do Concílio e 40 anos da Teologia da Libertação com o livro do padre Gutierrez. Nos países periféricos é uma teologia que ajuda a levar as pessoas a assumirem uma libertação mais ampla, mais humana e em que as pessoas se sentem protagonista da própria história.
Davi Augusto Leme - Porque os jovens estão fora da Igreja. Com quais argumentos para atraí-los e conservá-los?
Se os jovens estão fora da Igreja é porque precisam de mais espaço dentro dela. Mas não é só de espaço que eles precisam. Existe um desafio para que os jovens assumam o protagonismo fora da Igreja. O protagonismo de ordem política, econômica e profissional. É um desafio não só da Igreja, mas da sociedade. Um dos caminhos evidentes é dar espaço para eles dentro durante a celebração e que também exercem ministérios. Eles precisam de uma dinâmica de reflexão e ação. Precisam ser entendidos na sua maneira de ser e de agir.
Gilberto Scandiuzzi – Até que ponto o Concílio Vaticano 2º é válido? Estamos vivendo ainda as consequências dele? Enfim, a Igreja precisa se atualizar?
Me senti na obrigação de escrever um pequeno livro (Revisitar o Concílio Vaticano 2º). É uma espécie de introdução ao Concílio para recordar o contexto e os movimentos que precederam o Concílio. O Concílio foi uma surpresa que se deu a uma figura de destaque que foi o papa João 23. O Concílio foi convocado por um papa eleito com 77 anos. Em poucos meses ele conseguiu angariar uma simpatia excepcional. Mostrando que ser papa é ser pai. Ele tomou posse no dia 4 de novembro de 1958. No Natal saiu do Vaticano, coisa que há mais de 100 anos não acontecia. Depois que os estados pontifícios foram tomados pela Itália em 1870, sobrou para a Igreja o Vaticano, graças a Deus. Então, ele surpreendeu saindo do Vaticano e foi visitar um hospital de crianças. No dia seguinte foi visitar os presos em Roma. Aí o povo começou a dizer que este era o papa que nós queríamos. E no dia 25 de janeiro de 1959 ele surpreendeu anunciando o Concílio. Aí se desencadeou um processo muito intenso de renovação da Igreja. Esse processo de um lado foi envolvendo todos os setores da Igreja. Foi surpreendente ver como a Igreja se colocou em estado de renovação. Agora, depois de 50 anos vemos o desafio de olharmos e perguntarmos: Será que o Concílio conseguiu atingir os objetivos? Hoje uma maneira clara de interpretar o Concílio é que ele foi generoso nas intenções e tímido nas decisões. Propôs uma decisão muito ampla da Igreja para ir sendo feita aos poucos na esperança que depois o desencadear do processo de renovação pudesse avançar rapidamente. Percebemos que não foi bem assim. Estamos assistindo agora um refluxo do conservadorismo dentro da Igreja e também na sociedade. É um fenômeno de ordem cultural porque as pessoas se sentem mais abaladas e inseguras. Por isso, se agarram mais a tradição. Isso é fácil de entender. Dentro da Igreja teve um grupo que a partir do Concílio nunca aceitou plenamente a renovação da Igreja. Depois do Concílio, em vez de diminuir esse grupo foi se consolidando até que, infelizmente, se separaram da Igreja Católica. Agora, o papa atual fez um gesto de reconciliação possibilitando que eles voltem a rezar a missa em latim. Estamos agora no jubileu do Concílio nos perguntando exatamente como retomar o impulso renovador da Igreja que o Concílio lançou.
José Carlos Sé – O que o senhor tem a falar sobre Igreja Católica e política? Apoia ou não os representantes católicos?
Propomos como critério não que seja de uma religião ou outra. Mas, que tenha capacidade de prestar um bom serviço público. Os critérios devem ser de ordem ética e administrativa. Acho que indicar é um jeito equivocado de encarar a política. A política é uma realidade que envolve a todos. A pior política é quando se diz que não se faz. A aparente neutralidade do bispo ou do padre acaba sendo aprovação de uma determinada linha política. A política é imprescindível e todos são chamados a ter nossa participação.
Jonatam Fantim Jardim – O senhor é contra ou a favor do aborto? Os jovens saíram da Igreja por causa dos casos de pedofilia envolvendo padres?
A vida é o que temos de mais sagrado. Não somos donos dela. A vida é um dom que Deus nos concede. Então, é mais que coerente sermos contra o aborto. Por isso, deveria ter uma política de esclarecimento na juventude e apoio às gestantes. Precisa ter educação sexual nas escolas. Tudo feito com equilibrio e bom senso. Não basta ser contra, é preciso ter uma política de apoio aos familiares da gestante. Quanto aos casos de pedofilia é triste de constatar. É um problema sério de formação e educação nos seminários. Esses desvios e crimes não podem ser escondidos e sim assumidos. É preciso pedir perdão para as pessoas que foram prejudicadas com isso.
Gilberto Scandiuzzi- Em algum momento ou época a igreja analisou a liberação do padre para se casar?
A Igreja tem medo de falar sobre o assunto e perder os poucos padres que têm. Existe uma proposta equilibrada que garante em primeiro lugar a valorização do celibato. Que não se limite o celibato a uma lei, porque é um dom que a igreja assumiu e o levou a essa unção que empenha profundamente uma vida. Mas, ao mesmo tempo possibilita outro exercício do presbiterato de termos padres de um lado celibatários (que seriam até mais valorizados) encumbidos de formar outros padres: os ordenados. Seria proposto que cada comunidade tenha no mínimo três padres ordenados, ou seja, casados. Eles serão padres de comunidades. É uma causa boa que está sendo levada em frente. Vamos ver quanto tempo vai demorar para ser colocada em prática.
Doraci de Oliveira – O senhor não acha que a Igreja deveria ter uma postura mais efetiva a respeito da política?
Seria muito salutar promover uma participação política não só no momento de eleições. De colocar e saber que estado, município e até país que nós queremos. Uma participação mais direta da população. Política todos fazemos, a importância é saber como fazer. Não só no sentido partidário, mas do bem comum. Dessa maneira todos temos a responsabilidade política. O que falta da Igreja é incentivar os católicos a assumir a militância política.
Cleusa Idalgo - A família tem hoje outras formatações como por exemplo formada com filhos de outros casamentos, casais homossexuais e pessoas que moram sozinhas. Como a Igreja age dentro dessas mudanças?
É notório que a família mudou. Antes era família patriarcal. Haviam vínculos envolvendo não só filhos, sobrinhos, primos. Fazia parte de uma espécie de clã que já passou há muito tempo. Existe mudanças evidentes sociológicas. A sociedade tem como normal certas posturas que para a Igreja são estranhas. A Igreja reconhece que o formato da Igreja mudou muito. O importante é cultivar a responsabilidade e valores humanos que são imprescindíveis. A Igreja começa a perceber que uma coisa é propor o que é ideal. Ela não pode deixar de propor por será cobrada.
http://www.diariosp.com.br/noticia/detalhe/8697/Confira+sabatina+do+bispo+dom+Demetrio+Valentini
As forças progressistas, da Teologia da Libertação, incluindo teólogos/as, pastorais sociais, Cebs, agentes de pastoral, religiosos/as, leigos e leigas, se mobilizaram para participar da Conferencia de Aparecida (2007) - uma des suas ações foi a Tenda dos Mártires, como espaço aberto, celebrativo, por 15 dias, enquanto durou a Conferência. A Tenda dos Mártires foi um alerta à toda Igreja para não esquecer seus mártires, sua caminhada, sua identidade de libertação.
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quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
terça-feira, 3 de janeiro de 2012
2012: 50 anos atrás
D. Demétrio Valentini
O ano de 2012 nos apresenta, de saída, um claro compromisso com o passado. Ele leva a marca do ano 1962. Cinqüenta anos atrás, a Igreja realizava um evento que a levaria a profundas transformações, e seria símbolo de mudanças radicais, pelas quais iriam passar as grandes instituições mundiais.
Tratava-se do Concílio Ecumênico Vaticano II. Ele foi aberto oficialmente no dia 11 de outubro de 1962, e iria se prolongar por quatro anos. Tempo amplo, e até arriscado, durante o qual a própria Igreja tomou a iniciativa de se submeter a uma rigorosa análise de sua caminhada histórica, com a intenção de se atualizar, para assim corresponder melhor à sua missão, e se habilitar ao diálogo com o mundo de hoje.
Esta, em poucas palavras, a ingente tarefa que o Papa João 23 colocou como motivação para convocar esta assembléia eclesial extraordinária, que leva o nome histórico de “Concílio Ecumênico”.
Pois bem, depois de 50 anos, quando o calendário nos instiga a celebrar este evento de maneira “jubilar”, somos instados a recordar os fatos, medir seu alcance, e nos interrogar a respeito dos seus desdobramentos atuais.
Já são diversas as iniciativas em curso, a se concretizarem neste ano, motivadas pelo jubileu do Concílio. A data de referência é o dia 11 de outubro, que lembra a solene abertura do Concílio, na Basílica São Pedro, presidida pelo Papa João 23.
Mais do que um evento, o Concílio se constituiu num amplo processo, que envolveu profundamente toda a Igreja, sua lembrança nos permite situá-lo num contexto mais amplo, e colocá-lo em confronto não só com a situação atual da Igreja, mas com a realidade globalizada que vivemos hoje.
O próprio Concílio, 50 anos atrás, foi devedor da realidade mundial, sem a qual ele provavelmente nem teria acontecido. As décadas mais otimistas dos últimos séculos, dá para afirmar com boa razão história, foram as décadas de 50 e de 60, sobretudo na Europa, envolvida intensamente na reconstrução, após a segunda guerra mundial.
O Concílio foi lançado no final da década de 50, pelo anúncio feito por João 23 no dia 25 de janeiro de 1959. Eram os tempos dos primeiros passos na aventura espacial, que foi pensada para chegar à lua e a outros astros, mas que acabou trazendo tantas inovações em nosso planeta, sobretudo nas possibilidades de comunicação, que agora estão sendo integradas no cotidiano de nossas vidas.
Quando se consegue trazer de volta à memória um vasto processo, como foi o Concílio Vaticano II, podemos dispor de referências que apontam para várias direções.
È o que promete esta celebração do jubileu do Concílio. Servirá não só para discernir o que se passa hoje na Igreja, mas também ajudará a entender o que se passa hoje no mundo.
Afinal, o Concílio teve o mérito de tomar a iniciativa de renovação eclesial, antes que ela fosse imposta de fora pela dinâmica da história. Assim agora o seu jubileu nos oferece referências muito úteis para entender o rumo que a realidade vai tomando.
De vez em quando uma olhada providencial no retrovisor ajuda a perceber as curvas da estrada. Assim o recordação do Concílio. Ajuda a entender o caminho andado, e perceber as advertências do trânsito. Pois a história continua dinâmica, e não é o caso de pedir que pare para reencontrar o seu rumo. Precisamos intervir, enquanto o carro vai andando. Ou na comparação preferida por Jesus, enquanto o barco vai sendo sacudido pelas ondas!
Informações da Diocese (08/01/12)
O ano de 2012 nos apresenta, de saída, um claro compromisso com o passado. Ele leva a marca do ano 1962. Cinqüenta anos atrás, a Igreja realizava um evento que a levaria a profundas transformações, e seria símbolo de mudanças radicais, pelas quais iriam passar as grandes instituições mundiais.
Tratava-se do Concílio Ecumênico Vaticano II. Ele foi aberto oficialmente no dia 11 de outubro de 1962, e iria se prolongar por quatro anos. Tempo amplo, e até arriscado, durante o qual a própria Igreja tomou a iniciativa de se submeter a uma rigorosa análise de sua caminhada histórica, com a intenção de se atualizar, para assim corresponder melhor à sua missão, e se habilitar ao diálogo com o mundo de hoje.
Esta, em poucas palavras, a ingente tarefa que o Papa João 23 colocou como motivação para convocar esta assembléia eclesial extraordinária, que leva o nome histórico de “Concílio Ecumênico”.
Pois bem, depois de 50 anos, quando o calendário nos instiga a celebrar este evento de maneira “jubilar”, somos instados a recordar os fatos, medir seu alcance, e nos interrogar a respeito dos seus desdobramentos atuais.
Já são diversas as iniciativas em curso, a se concretizarem neste ano, motivadas pelo jubileu do Concílio. A data de referência é o dia 11 de outubro, que lembra a solene abertura do Concílio, na Basílica São Pedro, presidida pelo Papa João 23.
Mais do que um evento, o Concílio se constituiu num amplo processo, que envolveu profundamente toda a Igreja, sua lembrança nos permite situá-lo num contexto mais amplo, e colocá-lo em confronto não só com a situação atual da Igreja, mas com a realidade globalizada que vivemos hoje.
O próprio Concílio, 50 anos atrás, foi devedor da realidade mundial, sem a qual ele provavelmente nem teria acontecido. As décadas mais otimistas dos últimos séculos, dá para afirmar com boa razão história, foram as décadas de 50 e de 60, sobretudo na Europa, envolvida intensamente na reconstrução, após a segunda guerra mundial.
O Concílio foi lançado no final da década de 50, pelo anúncio feito por João 23 no dia 25 de janeiro de 1959. Eram os tempos dos primeiros passos na aventura espacial, que foi pensada para chegar à lua e a outros astros, mas que acabou trazendo tantas inovações em nosso planeta, sobretudo nas possibilidades de comunicação, que agora estão sendo integradas no cotidiano de nossas vidas.
Quando se consegue trazer de volta à memória um vasto processo, como foi o Concílio Vaticano II, podemos dispor de referências que apontam para várias direções.
È o que promete esta celebração do jubileu do Concílio. Servirá não só para discernir o que se passa hoje na Igreja, mas também ajudará a entender o que se passa hoje no mundo.
Afinal, o Concílio teve o mérito de tomar a iniciativa de renovação eclesial, antes que ela fosse imposta de fora pela dinâmica da história. Assim agora o seu jubileu nos oferece referências muito úteis para entender o rumo que a realidade vai tomando.
De vez em quando uma olhada providencial no retrovisor ajuda a perceber as curvas da estrada. Assim o recordação do Concílio. Ajuda a entender o caminho andado, e perceber as advertências do trânsito. Pois a história continua dinâmica, e não é o caso de pedir que pare para reencontrar o seu rumo. Precisamos intervir, enquanto o carro vai andando. Ou na comparação preferida por Jesus, enquanto o barco vai sendo sacudido pelas ondas!
Informações da Diocese (08/01/12)
segunda-feira, 2 de janeiro de 2012
O Papa vai contra o Vaticano II’, afirma Hans Küng
Fonte: IHU
O teólogo suíço, conhecido opositor da Cúria romana em geral e de Bento XVI em particular, acredita que o papa não esteja sendo fiel ao Concílio Vaticano II
Ele tem uma opinião cortante sobre tudo. Sobre os papas Bento XVI, João Paulo II e Pio XII. Mas também sobre a liturgia, o celibato dos sacerdotes, os escândalos sexuais dentro da Igreja. O teólogo Hans Küng, nascido em 1928 e célebre por sua oposição a João Paulo II e ao cardeal Joseph Ratzinger, tornado Bento XVI, acaba de publicar o segundo volume de suas memórias pelas Éditions du Cerf (1968-1980. Uma verdade contestada). Nós o reencontramos por esta ocasião e recolhemos algumas de suas frases chocantes.
A entrevista é de Jean Mercier e está publicada na revista francesa La Vie, 16-02-2010. A tradução é do Cepat.
Decepcionado com Bento XVI
“Eu esperava que Ratzinger se mostrasse diferente como papa do que foi como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Mas não foi assim. Suas nomeações para a Cúria são terríveis. Como secretário de Estado, ele tomou um homem, Tarcisio Bertone, que não estava preparado para esta tarefa
Como papa, ele perdeu todos os momentos cruciais. Ele não correspondeu às expectativas dos ortodoxos, quando poderia ter proposto, através do diálogo, que não precisariam aceitar os Concílios de que não tenham participado desde o século XI. Ele limitou-se a eles com abraços e com solenidades. Com os muçulmanos, nós sabemos o que aconteceu com a Declaração de Regensburg. Quanto aos judeus, havia a questão da oração da Sexta-feira Santa, e o escândalo Williamson. Quanto às igrejas protestantes, elas não digeriram que se diga que não fazem parte das Igrejas.
O Papa diz que as outras religiões são deficientes, e que a Igreja católica é perfeita, mas quando vemos os escândalos que nela eclodem! Na Alemanha, as pessoas agora sentem vergonha de que seja alemão.
Mais fundamentalmente, Ratzinger e eu somos diferentes na nossa aproximação a Jesus. Eu estou ligado ao Jesus da História. O Jesus dele é dogmático, como foi definido pelo Concílio de Niceia, em 325.
O Papa vai contra o Vaticano II
“Para o teólogo jesuíta Francisco Suáres (1548-1617), há duas possibilidades de ser cismático: quando se separa do Papa ou quando se separa da Igreja. Bento XVI deveria ser muito prudente na sua visão das coisas, porque ele vai contra o Concílio. É um choque para muitas pessoas. Ele restaurou a missa medieval tridentina. Ele retomou os ornamentos de Leão X (1513-1522), o Papa que perdeu a ocasião de salvar as coisas com Martinho Lutero. No ano passado, ele nomeou um novo prefeito para a Congregação do Culto Divino, Antonio Cañizares, que passeia com a “cappa magna”. Até parece que estamos na coroação de Napoleão. Nem mesmo a rainha da Inglaterra faz mais uma coisa dessas. O Papa se torna cúmplice de uma corrupção do sagrado, sob a forma de uma aristocracia clerical que esconde suas ações sob adornos barrocos.
Em relação ao Concílio, Bento XVI defende sua hermenêutica da continuidade contra uma hermenêutica da ruptura. Mas é uma mentira dizer que nós consideramos o Vaticano II como
uma ruptura. Era uma mudança, uma reforma. Esta “hermenêutica da continuidade” é a única coisa que o Papa encontrou para interpretar o Concílio segundo sua visão de um retorno ao passado. Mas não se pode aceitar isso! Não se pode ir contra o Concílio
O celibato sacerdotal
“A lei do celibato obrigatório é explicitamente uma contra-afirmação do que diz o Novo Testamento sobre a liberdade. E, portanto, não pode ser considerado como católico. É o produto de um “monaquismo” medieval – não confundir com o verdadeiro monaquismo.
Esta lei medieval não somente se opõe ao Evangelho, mas também aos direitos humanos. Ela se enraíza no paganismo. Ela é um enorme problema na América Latina e na África onde o celibato é observado de maneira… digamos ‘elegante’
Sobre a questão dos padres pedófilos
“Há, hoje, esse escândalo dos padres pedófilos entre os jesuítas na Alemanha. Este é apenas um novo episódio de uma crise do catolicismo ocidental que tem um problema com a sexualidade. Eu falei recentemente com um embaixador da Irlanda que me disse que a autoridade da Igreja está totalmente desacreditada por causa desses escândalos. Mas eu nunca quis crer que era apenas um assunto irlandês ou americano.
O problema é universal. Ele está ligado ao celibato obrigatório. Eu sei que o celibato não significa necessariamente que há abusos sexuais, mas não é uma coincidência que houve escândalos em número extraordinário na Igreja Católica em particular. Não basta condenar estes sacerdotes, porque eles são vítimas de um sistema. A Cúria romana contribuiu para que as coisas chegassem a este nível. Todos os casos foram centralizados pela Congregação para a Doutrina da Fé, sob segredo absoluto. Tudo chegou à mesa do cardeal Ratzinger. Ele viu tudo, ele teve conhecimento de todos os relatórios.”
Dois pesos, duas medidas
“Com o caso Williamson, eu quero crer que o Papa não sabia que ele era negacionista, mas ele sabia necessariamente que todas aquelas pessoas eram antissemitas e contrárias ao Vaticano II. Como se pode aceitar na Igreja esses bispos cismáticos e ter sido tão duro com os teólogos da Libertação que não eram nem mesmo marxistas? Agiu-se sem piedade com eles. Quando se aceita pessoas que negam o Concílio!”
Pio XII não é um santo
“Quando eu estava no Colégio Germânico, em Roma, durante os meus estudos, o Padre Leibe, secretário particular de Pio XII, veio nos ver. Ele nos falou do cotidiano do Papa. Em seguida lhe perguntamos: o Santo Padre é um santo? E ele respondeu: “Não, ele não é um santo, é um grande homem da Igreja”. Para Pio XII, a instituição era mais importante que todos os judeus do mundo inteiro. Para ele a ameaça comunista pesava mais que a ameaça nazista
E depois ele condenou os padres operários. Eu me lembro do que me confiou o cardeal Gerlier a este respeito. Com outros cardeais, ele tinha ido a Roma para convencê-lo a não fazer condenações. Gerlier me contou que Pio XII lhe havia dito: “Minha consciência de Papa me obriga a agir neste sentido”. Gerlier não sabia o que responder. Na minha opinião, ele poderia ter retorquido que sua consciência de bispo o obrigava a protestar contra a decisão do Papa. Mas os bispos franceses foram atropelados.
No entanto, não é preciso demonizar Pio XII. Ele levou um choque quando os comandos vermelhos saquearam a nunciatura de Berlim, em 1918. Um pouco como Ratzinger ficou traumatizado pelos estudantes revoltados de Tübingen, em 1968. Seu medo do comunismo tornou-se existencial. Podemos compreendê-lo, mas não podemos fazê-lo santo.”
Sobre João Paulo II
“Wojtyla não era um santo porque nunca quis falar com pessoas que pensavam diferentemente dele. Ele falou muito “sobre” o diálogo, mas não o praticou. Seu moralismo sexual não serviu a ninguém e a jovem geração ri disso.”
O futuro da Igreja católica
“A situação atual me conforta infelizmente na minha visão crítica. Eu sou um católico leal, eu estou na oposição a esse sistema atual. Por outro lado, como eu, muitos santos não gostaram da Cúria.
Eu não sou um modernista, eu critico, assim como Bento XVI, uma forma de ciência que critica a transcendência. Mas se, como Bento XVI, nos situarmos no extremo, de um rigorismo moral medieval, então perderemos toda a credibilidade Ser católico não está ligado ao paradigma do absolutismo romano. Podemos ser católicos segundo o modelo da Reforma. Eu sou católico segundo o paradigma ecumênico e evangélico. Porque o ideal é ser católico com espírito evangélico e não romano Porque, para definir o que é católico, o critério é a conformidade com o Evangelho.
A Igreja pode sobreviver porque ela não é uma ideologia como o Comunismo. A substância permanecerá, não a hierarquia. Felizmente, ainda há comunidades que funcionam bem, onde o padre é bom. A identificação com o catolicismo não se fará com o Papa, mas com o padre local.”
22/02/2010 por Ian Farias
http://beinbetter.wordpress.com/2010/02/22/%E2%80%98o-papa-vai-contra-o-vaticano-ii%E2%80%99-afirma-hans-kung/
O teólogo suíço, conhecido opositor da Cúria romana em geral e de Bento XVI em particular, acredita que o papa não esteja sendo fiel ao Concílio Vaticano II
Ele tem uma opinião cortante sobre tudo. Sobre os papas Bento XVI, João Paulo II e Pio XII. Mas também sobre a liturgia, o celibato dos sacerdotes, os escândalos sexuais dentro da Igreja. O teólogo Hans Küng, nascido em 1928 e célebre por sua oposição a João Paulo II e ao cardeal Joseph Ratzinger, tornado Bento XVI, acaba de publicar o segundo volume de suas memórias pelas Éditions du Cerf (1968-1980. Uma verdade contestada). Nós o reencontramos por esta ocasião e recolhemos algumas de suas frases chocantes.
A entrevista é de Jean Mercier e está publicada na revista francesa La Vie, 16-02-2010. A tradução é do Cepat.
Decepcionado com Bento XVI
“Eu esperava que Ratzinger se mostrasse diferente como papa do que foi como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Mas não foi assim. Suas nomeações para a Cúria são terríveis. Como secretário de Estado, ele tomou um homem, Tarcisio Bertone, que não estava preparado para esta tarefa
Como papa, ele perdeu todos os momentos cruciais. Ele não correspondeu às expectativas dos ortodoxos, quando poderia ter proposto, através do diálogo, que não precisariam aceitar os Concílios de que não tenham participado desde o século XI. Ele limitou-se a eles com abraços e com solenidades. Com os muçulmanos, nós sabemos o que aconteceu com a Declaração de Regensburg. Quanto aos judeus, havia a questão da oração da Sexta-feira Santa, e o escândalo Williamson. Quanto às igrejas protestantes, elas não digeriram que se diga que não fazem parte das Igrejas.
O Papa diz que as outras religiões são deficientes, e que a Igreja católica é perfeita, mas quando vemos os escândalos que nela eclodem! Na Alemanha, as pessoas agora sentem vergonha de que seja alemão.
Mais fundamentalmente, Ratzinger e eu somos diferentes na nossa aproximação a Jesus. Eu estou ligado ao Jesus da História. O Jesus dele é dogmático, como foi definido pelo Concílio de Niceia, em 325.
O Papa vai contra o Vaticano II
“Para o teólogo jesuíta Francisco Suáres (1548-1617), há duas possibilidades de ser cismático: quando se separa do Papa ou quando se separa da Igreja. Bento XVI deveria ser muito prudente na sua visão das coisas, porque ele vai contra o Concílio. É um choque para muitas pessoas. Ele restaurou a missa medieval tridentina. Ele retomou os ornamentos de Leão X (1513-1522), o Papa que perdeu a ocasião de salvar as coisas com Martinho Lutero. No ano passado, ele nomeou um novo prefeito para a Congregação do Culto Divino, Antonio Cañizares, que passeia com a “cappa magna”. Até parece que estamos na coroação de Napoleão. Nem mesmo a rainha da Inglaterra faz mais uma coisa dessas. O Papa se torna cúmplice de uma corrupção do sagrado, sob a forma de uma aristocracia clerical que esconde suas ações sob adornos barrocos.
Em relação ao Concílio, Bento XVI defende sua hermenêutica da continuidade contra uma hermenêutica da ruptura. Mas é uma mentira dizer que nós consideramos o Vaticano II como
uma ruptura. Era uma mudança, uma reforma. Esta “hermenêutica da continuidade” é a única coisa que o Papa encontrou para interpretar o Concílio segundo sua visão de um retorno ao passado. Mas não se pode aceitar isso! Não se pode ir contra o Concílio
O celibato sacerdotal
“A lei do celibato obrigatório é explicitamente uma contra-afirmação do que diz o Novo Testamento sobre a liberdade. E, portanto, não pode ser considerado como católico. É o produto de um “monaquismo” medieval – não confundir com o verdadeiro monaquismo.
Esta lei medieval não somente se opõe ao Evangelho, mas também aos direitos humanos. Ela se enraíza no paganismo. Ela é um enorme problema na América Latina e na África onde o celibato é observado de maneira… digamos ‘elegante’
Sobre a questão dos padres pedófilos
“Há, hoje, esse escândalo dos padres pedófilos entre os jesuítas na Alemanha. Este é apenas um novo episódio de uma crise do catolicismo ocidental que tem um problema com a sexualidade. Eu falei recentemente com um embaixador da Irlanda que me disse que a autoridade da Igreja está totalmente desacreditada por causa desses escândalos. Mas eu nunca quis crer que era apenas um assunto irlandês ou americano.
O problema é universal. Ele está ligado ao celibato obrigatório. Eu sei que o celibato não significa necessariamente que há abusos sexuais, mas não é uma coincidência que houve escândalos em número extraordinário na Igreja Católica em particular. Não basta condenar estes sacerdotes, porque eles são vítimas de um sistema. A Cúria romana contribuiu para que as coisas chegassem a este nível. Todos os casos foram centralizados pela Congregação para a Doutrina da Fé, sob segredo absoluto. Tudo chegou à mesa do cardeal Ratzinger. Ele viu tudo, ele teve conhecimento de todos os relatórios.”
Dois pesos, duas medidas
“Com o caso Williamson, eu quero crer que o Papa não sabia que ele era negacionista, mas ele sabia necessariamente que todas aquelas pessoas eram antissemitas e contrárias ao Vaticano II. Como se pode aceitar na Igreja esses bispos cismáticos e ter sido tão duro com os teólogos da Libertação que não eram nem mesmo marxistas? Agiu-se sem piedade com eles. Quando se aceita pessoas que negam o Concílio!”
Pio XII não é um santo
“Quando eu estava no Colégio Germânico, em Roma, durante os meus estudos, o Padre Leibe, secretário particular de Pio XII, veio nos ver. Ele nos falou do cotidiano do Papa. Em seguida lhe perguntamos: o Santo Padre é um santo? E ele respondeu: “Não, ele não é um santo, é um grande homem da Igreja”. Para Pio XII, a instituição era mais importante que todos os judeus do mundo inteiro. Para ele a ameaça comunista pesava mais que a ameaça nazista
E depois ele condenou os padres operários. Eu me lembro do que me confiou o cardeal Gerlier a este respeito. Com outros cardeais, ele tinha ido a Roma para convencê-lo a não fazer condenações. Gerlier me contou que Pio XII lhe havia dito: “Minha consciência de Papa me obriga a agir neste sentido”. Gerlier não sabia o que responder. Na minha opinião, ele poderia ter retorquido que sua consciência de bispo o obrigava a protestar contra a decisão do Papa. Mas os bispos franceses foram atropelados.
No entanto, não é preciso demonizar Pio XII. Ele levou um choque quando os comandos vermelhos saquearam a nunciatura de Berlim, em 1918. Um pouco como Ratzinger ficou traumatizado pelos estudantes revoltados de Tübingen, em 1968. Seu medo do comunismo tornou-se existencial. Podemos compreendê-lo, mas não podemos fazê-lo santo.”
Sobre João Paulo II
“Wojtyla não era um santo porque nunca quis falar com pessoas que pensavam diferentemente dele. Ele falou muito “sobre” o diálogo, mas não o praticou. Seu moralismo sexual não serviu a ninguém e a jovem geração ri disso.”
O futuro da Igreja católica
“A situação atual me conforta infelizmente na minha visão crítica. Eu sou um católico leal, eu estou na oposição a esse sistema atual. Por outro lado, como eu, muitos santos não gostaram da Cúria.
Eu não sou um modernista, eu critico, assim como Bento XVI, uma forma de ciência que critica a transcendência. Mas se, como Bento XVI, nos situarmos no extremo, de um rigorismo moral medieval, então perderemos toda a credibilidade Ser católico não está ligado ao paradigma do absolutismo romano. Podemos ser católicos segundo o modelo da Reforma. Eu sou católico segundo o paradigma ecumênico e evangélico. Porque o ideal é ser católico com espírito evangélico e não romano Porque, para definir o que é católico, o critério é a conformidade com o Evangelho.
A Igreja pode sobreviver porque ela não é uma ideologia como o Comunismo. A substância permanecerá, não a hierarquia. Felizmente, ainda há comunidades que funcionam bem, onde o padre é bom. A identificação com o catolicismo não se fará com o Papa, mas com o padre local.”
22/02/2010 por Ian Farias
http://beinbetter.wordpress.com/2010/02/22/%E2%80%98o-papa-vai-contra-o-vaticano-ii%E2%80%99-afirma-hans-kung/
quarta-feira, 14 de dezembro de 2011
Dom Helder Camara e o Concílio Vaticano II
José Oscar Beozzo
Adital
INTRODUÇÃO
O Concílio Vaticano II (1962-1965), desde seu anúncio pelo Papa João XXIII, a 25 de janeiro de 1959, provocou profundo entusiasmo em Dom Helder Camara (1), acendendo em sua mente, incontáveis sonhos e projetos acerca de uma igreja mais evangélica e ecumênica, mais próxima dos pobres, empenhada no desenvolvimento dos povos e na sua mútua compreensão, capaz de propiciar um diálogo entre o norte e o sul do mundo, de colaborar na promoção da paz e da cooperação internacional, interlocutora dos meios de comunicação social e da cultura moderna.
O entusiasmo inicial foi porém mitigado pelas inumeráveis dificuldades do período preparatório, pelo pesado manto de segredo oficial que cobriu os trabalhos desta fase, fazendo com que os próprios bispos se sentissem à margem de tudo, até às vésperas do grande evento.
Dom Helder, como consultor da Comissão dos Bispos e Governo das Dioceses foi um dos sete bispos, entre os dez brasileiros (2), que tomaram parte numa das dez comissões preparatórias ou num dos quatro Secretariados do Concílio, criados em 5 de junho de 1960. Mas mesmo estes bispos estavam escassamente informados, pois desconheciam o andamento das outras comissões que trabalhavam paralelamente umas às outras, sem comunicação entre si, e encaminhando seus resultados apenas para a Comissão Central.
Dom Helder, às vésperas do Concílio, está inquieto e confia ao fiel amigo Manoelito, Dom Manuel Larrain, bispo de Talca no Chile, suas apreensões e mesmo desalento:
“Vejo o Concílio aproximar-se. Até hoje, nem sequer o Temário nos chegou. Humanamente, não há muito como esperar [...] Mesmo assim, irei ao Concílio. Será a suprema oportunidade, porque o Santo Padre nos mandou falar como Bispos. Na medida em que o pudermos fazer, faremos. De julho para cá, a situação só tem piorado. O Temário do Concílio, até hoje não chegou ao Brasil”. (3)
1. DOM HELDER, ATOR CONCILIAR
Uma vez em Roma, a alocução do Papa João XXIII de abertura ao Concílio, a Gaudet Mater Ecclesia – Alegra-se a Mãe Igreja, na manhã do dia 11 de outubro de 1962, devolveu-lhe novamente a esperança e o entusiasmo.
Dois dias depois, em sua primeira Congregação Geral, a 13 de outubro, os trabalhos conciliares apenas iniciados, foram suspensos dez minutos depois, por intervenção do Cardeal Achille Liénart, secundado pelo Cardeal J. Frings, arcebispo de Colônia na Alemanha, falando igualmente em nome do Cardeal Julius Döpfner de Munique e do Cardeal Franz König de Viena, na Aústria, que se recusavam a votar a lista dos integrantes das Comissões conciliares, sem uma consulta prévia entre os membros do Concílio (4). Diante da perplexidade geral, o Secretário do Concílio, o Arcebispo Pericle Felici consultou o Conselho de Presidência e o Cardeal Eugène Tisserrant que presidia a sessão suspendeu os trabalhos por quatro dias.
A imprensa captou a transcendência desse gesto da Assembléia que aplaudiu as intervenções, deixando transparecer nos títulos das manchetes sua interpretação do evento: “Terminou o predomínio da Cúria Romana”; “A Rebelião dos Bispos”; “A Ala Renovadora impõe uma Lista Internacional”; “Os Bispos europeus rejeitam os candidatos de Ottaviani”; “Luta feroz entre duas tendências” e assim por diante (5). De fato, saia de cena a Cúria Romana, cujos prefeitos haviam presidido cada uma das Comissões Preparatórias do Concílio e ocupavam o cenário novos atores, os episcopados recém-chegados a Roma e, de modo particular, as Conferências Episcopais e o único organismo de caráter continental em toda a Igreja, o Conselho Episcopal Latino-americano, o CELAM.
Dom Helder, secretário da Conferência Episcopal brasileira, a CNBB e vice-presidente do CELAM, lançou-se, de corpo e alma, junto com Dom Manoel Larrain, seu colega na vice-presidência do CELAM, nos esforço de articulação com as demais conferências episcopais, para comporem a nova lista de nomes para as Comissões Conciliares, em substituição às Comissões da fase preparatória que a Secretaria Geral do Concílio, queria ver transformadas nas Comissões permanentes do próprio Concílio. Isto perpetuaria o controle que a Cúria Romana havia exercido sobre toda a etapa de preparação do Concilio.
Começava ali a singular aventura do “Dom”, como era carinhosamente chamado pelos amigos, durante os quatro anos do Concílio Vaticano II (1962 a 1965) que o transformariam, do relativamente pouco conhecido arcebispo auxiliar do Rio de Janeiro, num dos personagens mais influentes na cena internacional da igreja contemporânea.
2. DOM HELDER, UM DOS ARTICULADORES DO CONCÍLIO E O REGISTRO DE SUA AÇÃO NUM SINGULAR “DIÁRIO”: AS CARTAS CONCILIARES
Do Concílio, legou-nos Dom Helder, uma espécie de diário íntimo, consignado em 297 cartas escritas, quase diariamente, durante as quatro sessões do Concílio e durante a intersessão de 1963/64.
Destas, sete que foram escritas durante a primeira sessão conciliar em 1962, encontram-se perdidas. Os originais das demais estão depositados atualmente na Fundação “Obras de Frei Francisco”, no Recife.
Estas cartas foram dirigidas a um pequeno grupo de colaboradores e principalmente colaboradoras do Rio de Janeiro e depois do Recife, que Dom Helder chama de “família do São Joaquim” (6), “família de Messejana (7)” ou ainda “família messejanense e olindo-recifense (8)”. O Concílio Vaticano II foi, para Dom Helder, a ocasião para ingressar numa série de articulações internacionais e grupos de trabalho, muitos das quais por ele sugeridos e animados, ganhando a partir daí uma plataforma de ação de raio cada vez mais amplo. (9).
Dom Helder não chegou porém ao Concílio de mãos vazias. Sua atuação como Assistente Nacional da Ação Católica Brasileira e de todos os seus ramos especializados, colocara-o em contato estreito com o laicato, dera-lhe uma visão geral do Brasil e de sua igreja, com seus valores e problemas, por vezes, dramáticos; o havia inserido na rede latino-americano e internacional estabelecida pela Ação Católica. Esta o levaria, como assistente eclesiástico da delegação brasileira de leigos da Ação Católica, à sua primeira viagem a Roma, durante o Ano Santo de 1950, por ocasião do I Congresso Internacional dos Leigos.
Ali, encontrara-se com o Papa Pio XII que o encaminhara ao seu sub-secretário de Estado, Mons. Giovanni Baptista Montini, o futuro Papa Paulo VI, a quem submeteu, nesta e na viagem seguinte, em 1951, sua proposta de criação de uma Conferência Nacional dos Bispos do Brasil.
Nasceu entre esses dois homens de Igreja, mútua confiança e amizade que possibilitarão a Dom Helder dirigir-se, muitas vezes, durante o Concílio, diretamente ao Cardeal Montini e depois ao Papa Paulo VI, confiando-lhe sugestões e expondo-lhe temores e esperanças.
Veio Dom Helder ao Concílio, não como um bispo isolado, mas como secretário geral, há exatos dez anos (1952-1962) da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, a terceira conferência mais numerosa do mundo todo, só suplantada pela italiana e a norte-americana.
Chegava também no quadro do único continente que contava com um organismo de articulação, a América Latina onde, desde 1955, fora fundado o CELAM, Conselho Episcopal Latino-americano, do qual Dom Helder era um dos dois vice-presidentes, sendo o outro Dom Manuel Larraín do Chile. Este será eleito, logo no ano seguinte, seu presidente (1963-1966). Dom Helder tinha profunda consciência de que a CNBB e o CELAM eram suas “plataformas” de ação e articulação, como deixa claramente consignado em carta de 1963, ao ser eleito Dom Larrain, presidente do CELAM e, ele mesmo, reconduzido à primeira vice-presidência (1963-1965):
“Houve eleição no CELAM. A América Latina inteira quis como presidente o querido Manoelito (Mons. Larraín) e elegeu o Dom (10) para 1 º Vice. Há o consolo de ver que a dupla fraterna não está sem cobertura. A posse, se Deus quiser, será amanhã, na presença do Cardeal Confalonieri e de Mons. Samoré... Telegrafamos ao Santo Padre comunicando a eleição e pedindo a benção... A eleição facilita o trabalho do Ecumênico. Se eu saísse da CNBB e do CELAM (é claro que eu já aceitara a oferenda), em rigor perderia a base para atuar nas reuniões de 6 ª feira [as reuniões do Ecumênico]”. (11).
Da sua formação no Seminário da Prainha, em Fortaleza, havia herdado o domínio da língua francesa transmitida pelos padres lazaristas franceses, além do conhecimento do latim, instrumentos que, durante o Concílio, lhe foram essenciais, junto com o inglês meio periclitante, para seus contatos com os outros padres conciliares, mas também com jornalistas e a televisão.
A imediata cooperação nascida entre Dom Helder e o Pe. Miguel (pseudônimo em suas cartas conciliares, para Leo Joseph Suenens, o cardeal arcebispo de Malinas-Bruxelas, membro da Comissão de Assuntos Extraordinários na primeira sessão conciliar, da Comissão de Coordenação criada ao final da primeira sessão, um dos quatro moderadores que passaram a presidir as Congregações Gerais, a partir do início da segunda sessão e, certamente, um dos mais influentes padres conciliares), assim como com o secretário do Episcopado francês, Roger Etchegaray, permitiram a Dom Helder fazer parte do grupo seleto dos que podiam exercer alguma influência sobre a imensa e heterogênea massa dos padres conciliares.
3. UMA ATUAÇÃO CONCERTADA VIA GRUPOS INFORMAIS:
O “ECUMÊNICO”, “A IGREJA DOS POBRES”, O “OPUS ANGELI”.
Gostaria de destacar, finalmente, alguns dos grupos dos quais participou Dom Helder, ampliando seu raio de ação e influência durante o Concílio.
3.1. O ECUMÊNICO
À raiz da bem sucedida experiência da primeira semana no Concilio, para a constituição da lista de nomes para as comissões conciliares, surgiu a idéia da formação de um grupo de trabalho informal que reunisse representantes das principais conferências episcopais, com vistas a intercambiarem informações e pontos de vista, estabelecer uma coordenação entre si, a proporem iniciativas e a agilizarem o próprio andamento do Concílio. A iniciativa ficou conhecida como “Grupo da Domus Mariae” (12), do nome do local, onde se reuniam os bispos; “Grupo da Terça-feira”, mesmo que, posteriormente, suas reuniões acontecessem na Sexta-feira; “Interconferência” devido ao fato de congregarem representantes de conferências nacionais ou regionais (África, Ásia e América Latina); “Grupo dos 22”, do número inicial das conferências, embora estas já fossem cerca de 30 na quarta sessão (1965) e ainda o “ECUMÊNICO”, como gostava de chamá-lo Dom Helder.
Na pesquisa de Caporale, um jornalista norte-americano que tenta levantar, durante a segunda sessão (1963), as figuras mais influentes do Concílio, Dom Helder surge no grupo das dezoito personalidades de proa e o grupo da Domus Mariae, como o mais significativo:
“[...] pudemos identificar quatro grupos informais de bispos que se encontram regularmente em diversos lugares [...] De longe, o mais importante e eclético destes grupos informais foi o organizado pelos bispos brasileiros na Domus Mariae... entre os animadores deste grupo que se reunia regularmente, cada sexta-feira, estava o arcebispo Helder Câmara”. (13).
Neste intercâmbio entre conferências episcopais, Dom Helder carregava uma preocupação mais entranhada, a de abrir espaço para um verdadeiro diálogo e cooperação entre o norte e o sul do mundo, entre desenvolvidos e subdesenvolvidos. Para isto, moveu céus e terras, primeiro para atrair os episcopados da África e da Ásia e depois para conseguir espaços institucionais para a temática do terceiro mundo como no caso do seu apelo insistente ao Cardeal Suenens para que ajudasse a patrocinar a criação, junto à Comissão de Assuntos Extraordinários do Concílio, de um “Secretariado especial para as questões da Pobreza e do Terceiro Mundo”. (14).
Não esconde seu entusiasmo, depois da conferência que convocara para o “diálogo dos dois mundos”:
“19:30 do dia 29 (29-11-1962). Houve o início do diálogo entre os Dois Mundos. Foi emocionante. Ali, estava na presidência, o sucessor e Mercier (15), que se mostrou absolutamente à altura da missão que a Providência lhe confia... Ali estava um resumo altamente representativo do Mundo sub-desenvolvido e do Mundo desenvolvido. O Pe. Houtart (16) correspondeu de todo às nossas esperanças. Abri o diálogo de que participaram interessadíssimos os dois Mundos. Mas grande mesmo foi Suenens ao encerrar o encontro. Disse verdades fortes e de maneira admirável.” (17).
3.2. A IGREJA DOS POBRES
O outro grupo que ajudou a criar, ao qual foi fiel até o fim e onde se sentia espiritual e humanamente em casa, foi o da “IGREJA DOS POBRES”. Na primeira sessão de 1962, havia juntamente com ele, outros oito brasileiros que se converteriam em 16 na terceira sessão, num total de 86 padres conciliares. Estava inspirado no itinerário de Paul Gauthier que escrevera, a partir de sua experiência de operário em Nazaré, o livro “Jesus, a Igreja e os Pobres”. Acompanhava-o Marie-Therèse Lescase, religiosa carmelita egressa que fora igualmente viver pobremente em Nazaré. Gauthier conseguiu sensibilizar um grupo importante de bispos e peritos, entre os quais o Pe. Yves Congar O.P. que escrevera um texto provocativo e profundo como proposta eclesial: “Pour une Église servante et pauvre”, “Por uma Igreja servidora e pobre”. Ao grupo, juntaram-se bispos que estavam próximos da espiritualidade dos Irmãos e Irmãzinhas de Charles de Foucauld, dos padres operários, da Missão da França e bispos que vinham do terceiro mundo, angustiados com a miséria das grandes maiorias e preocupados em encontrar saídas para sua pobreza e desamparo.
Dom Antônio Fragoso, bispo emérito de Crateús, deixou-nos um depoimento sobre o grupo que se reunia no Colégio Belga:
“O grupo começou na primeira sessão. Tínhamos como secretários Paul Gauthier e Marie-Therèse Lescase. O tema era a Igreja e os Pobres, começando pela identidade entre Jesus e os pobres. Lembro-me do argumento central: quando afirmamos a identidade entre Jesus e o pão consagrado: ‘isto é meu corpo’, nós [o] adoramos e tiramos conseqüências para nossa espiritualidade, liturgia e tudo o mais. Quando [se] afirma a identidade entre ele e os que não tem pão, casa, nós não tiramos as conseqüências para a espiritualidade, liturgia, ação pastoral. Lembro-me de que, na sessão final, fomos celebrar, numa das Catacumbas, a eucaristia final. Assinamos um compromisso nosso com os pobres: dar uma atenção prioritária aos pobres (não ter dinheiro em banco, patrimônio), e este compromisso chegou a ser assinado por 500 bispos”.
Mas o mesmo Dom Fragoso constatava com uma ponta de tristeza:
“[O Concílio] permitiu-me descobrir que os pobres não estavam no coração e no horizonte dos bispos. Por isto, o Concílio não deu maior atenção ao tema. O Concílio permitiu-me sair daquele pessimismo sobre a natureza e dar-me alegria, mas não o vi se reconciliando com os pobres”. (18).
Pode-se reconhecer que o grupo não alcançou o que esperava institucionalmente do Concílio, mas teve uma profunda repercussão espiritual e profética, espelhada no Pacto das Catacumbas, onde estão arrolados os compromissos que assumiam os seus signatários, na sua vida quotidiana e no seu trabalho pastoral, em relação aos pobres e a uma vida pessoal de pobreza. (19).
Com Helder, consciente de que o Concílio não respondera, nem mesmo com a Gaudium et Spes, às necessidades e expectativas do Terceiro Mundo, arrancara de Paulo VI, a promessa de uma encíclica que tratasse do “desenvolvimento dos povos”, que se concretizou na divulgação da Populorum Progressio, em 1967.
Consciente também de que o sonho de João XXIII de uma “Igreja dos Pobres” não conseguira empolgar o Concílio, lutará para que, na América Latina, esta se tornasse a questão eclesial mais importante. De fato, em 1968, na II Conferência Geral do Episcopado Latino-americano, o documento 14, consagrado à eclesiologia, terá como título e conteúdo “Pobreza na Igreja”. (20).
3.3. O OPUS ANGELI
Outro feito decisivo de D. Helder Camara no Concílio foi conseguir que os melhores teólogos e peritos ali presentes começassem a trabalhar em conjunto e em estreita colaboração com os bispos reunidos no “Ecumênico” e na “Igreja dos Pobres”. Esse mesmo grupo de teólogos prestou inestimável serviço aos bispos do Brasil, por meio das conferências da Domus Mariae, que na soma das três últimas sessões alcançaram o respeitável número de 84, às quais devem ser acrescentadas outras dez da primeira sessão (21). A essa força tarefa, já esboçada entre Dom Helder, Larrain e o Pe. François Houtart (22) de Lovaina na Bélgica, que desempenhou o papel de seu secretário, foi dado o nome de “OPUS ANGELI”, a Obra dos Anjos. Esta trabalhou durante as sessões, mas também nas inter-sessões, no sentido de oferecer textos alternativos aos esquemas provindos da etapa preparatória do Concílio, de preparar intervenções para serem lidas na aula conciliar, de assessorar os bispos nas questões mais complexas, de elaborar “modos” substitutivos para determinadas passagens dos esquemas submetidos a votação. Um dos teólogos mais importantes deste século, o Pe. Yves Congar e que colaborou estreitamente com Dom Helder e com os grupos por ele animados, tornando-se um pouco o coordenador do “Opus Angeli”, percebeu logo no primeiro encontro entre ambos, a importância de Dom Helder e de sua liderança que aportava ao Concílio algo mais que faltava aos outros: uma “visão”, no sentido do visionário, daquele que enxerga longe e com largueza de vistas. Congar anota no seu diário a 21 de outubro de 1962:
“Puis arrive Helder Câmara, secretaire du CELAM (23). C’est extraordinaire: aujourd’hui même, à midi, ils ont parlé de moi et ont dit qu’il faudrait me faire venir. Après avoir bavardé un bon moment, nous allons dans une salle, où se réunissent avec nous une douzaine de jeunes évêques. Ils m’interrogent. Mgr. Helder même: un homme non seulement très ouvert, mas plein d’idées, d’imagination et d’enthousiasme. Il a ce qui manque à Rome: la ‘vision’ (24).
Dias depois, em circular à sua “família” de colaboradores no Rio de Janeiro, Dom Helder comentando sobre as pessoas que mais o haviam impressionado como homens de Deus em Roma, chega ao teólogo dominicano:
“- o Pe. Yves Congar, cuja visão da Igreja, cujo ecumenismo, cuja caridade e cuja cultura extraordinária, brilham ainda mais pela humildade que ele encarna.” (25).
4. AULA CONCILIAR x TRIBUNA DOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO SOCIAL
Dom Helder, finalmente, alcançara um agudo senso de que mais do que as palavras e documentos, o que realmente chegava às pessoas e as tocava, eram determinados gestos e símbolos e que era pelas imagens que se fixava no povo o sentido do Concílio.
Estava sempre em busca destes gestos que pudessem causar impacto. Ao Papa João XXIII, havia proposto uma celebração final que abandonasse o fasto barroco da Roma pontifícia e primasse pela simplicidade e profundidade dos gestos. Repete a mesma proposta ao Papa Paulo VI e exulta quando alguns destes sinais são por ele incorporados à celebração de encerramento do Concílio.
Possuía clara consciência de que o Concílio operava em várias plataformas distintas:
- os debates durante as Congregações Gerais e, para tanto, empenhava-se, via Ecumênico, Igreja dos Pobres, CNBB, CELAM, que chegassem à Aula Conciliar intervenções vigorosas e norteadoras para os trabalhos conciliares, de preferência intervenções coletivas e que apontavam para um amplo consenso prévio;
- nas Comissões de Trabalho onde os textos eram elaborados, refeitos e limados para serem submetidos à votação e foi ali operoso, dando sua contribuição sucessivamente nas Comissões dos Bispos e Governo das Dioceses, na do Apostolado dos Leigos e na do Esquema XIII, convertido na Gaudium et Spes;
- na conversão dos corações e das mentes e, neste particular, cuidou para que o episcopado, tanto brasileiro como o latino-americano, estivessem em contato com as correntes espirituais e teológicas que moviam o Concílio. O melhor exemplo deste empenho foram as Conferências da Domus Mariae, em número de 94, ao longo das quatro sessões conciliares, promovidas pelo Episcopado brasileiro e o ciclo de conferências organizado pelo CELAM, embora em menor número e sem o caráter sistemático e a mesma repercussão alcançada pelas da Domus Mariae (26).
Ainda que não tenha falado nenhuma vez na Aula Conciliar, Dom Helder preparou algumas intervenções notáveis depositadas por escrito na Secretaria Geral. Nelas transparece claramente sua preocupação com os rumos do Concílio, com seu método de trabalho. Deixa patente em todas elas sua visão de caráter mais abrangente e estratégico frente aos grandes problemas contemporâneos e às responsabilidades e missão da Igreja (27).
4.1. O “VOTUM” E AS INTERVENÇÕES POR ESCRITO DE DOM HELDER
Logo que o Secretário de Estado, Cardeal Domenico Tardini, escreveu a 18 de junho de 1959, em nome de João XXIII, a todos os bispos e prelados do orbe católico, solicitando suas sugestões para a agenda conciliar, Helder Camara aprestou-se a enviar sua resposta, com data de 15 de agosto de 1959 (28).
Trata-se de um texto conciso de duas páginas e meia, mas que difere extraordinariamente do estilo de respostas enviadas pela maioria do episcopado mundial.
Em primeiro lugar, Dom Helder expressa-se com liberdade e ousadia, propondo logo de início que o latim não seja a única língua do Concílio, pois fora do círculo estreito da Cúria e das Universidades Romanas o idioma de Virgílio não era mais de uso corrente. Afirma que dentre os bispos do Brasil apenas uns 5% seriam capazes de se expressar com fluência, oralmente ou por escrito, em latim e que o panorama não deveria ser muito diverso em outras partes do mundo.
Inquieta-se com a mole imensa de propostas que certamente chegariam às mãos dos encarregados da preparação do Concílio e com um bom método para navegar neste grande mar de temas e problemas. Adianta a sugestão de que várias comissões se ocupassem dos distintos problemas e sob o título de “Por uma situação mais feliz do mundo”, propõe que a matéria conciliar fosse agrupada em seis grandes áreas: economia, artes (belas artes), ciências, política, questões sociais e, finalmente, religiosas.
Sua preocupação maior entretanto é com o enfoque das questões. Para ele, o que deve presidir a reflexão e a ação dos padres conciliares é a situação dos povos e pessoas menos cultos, refletindo a mesma preocupação do bispo Agostinho, quando escrevia o seu De cathechisandibus rudibus.
Enquanto muitos falam do conflito entre as grandes potências do Oriente e do Ocidente no quadro da guerra fria, Dom Helder propõe que o Concílio volte sua atenção para os 2/3 da humanidade que estão submersos na fome e na miséria. Pergunta-se qual a força que poderia vir em socorro desta humanidade sofredora e desamparada: o cristianismo ou o comunismo? Pensa que na América Latina, a Igreja, por intermédio do CELAM, poderia ter uma atuação mais eficaz do que a própria Operação Pan-americana proposta pelos chefes de Estado do continente, para ir de encontro aos seus problemas. Propõe que as igrejas situadas nos países mais ricos do hemisfério (Canadá e Estados Unidos) se empenhassem numa ação conjunta com os demais países da América e do Caribe para superar a grave situação do continente. Pensa, entretanto, que a mesma preocupação devia estender-se aos povos empobrecidos da Ásia e da África, pelas mesmas razões positivas que levaram a Igreja, no passado, a se dirigir aos pagãos e aos bárbaros, e não simplesmente para se opor ao comunismo.
Por conta de suas funções no CELAM expressa ainda o seu compromisso de dedicar-se, de corpo e alma, para melhorar situação de todos os povos da América Latina e do Caribe, compreendidos dentro do raio de ação do Conselho.
Esse respiro amplo, que ultrapassa os limites da Arquidiocese do Rio de Janeiro, onde era arcebispo auxiliar (1952-1964), ou da Arquidiocese de Olinda e Recife da qual se tornou arcebispo em 1964; os limites do Brasil de cuja conferência episcopal era o secretário geral; os limites da América Latina, de cujo principal organismo eclesial, o CELAM, era um dos vice-presidentes, dilata-se em direção às outras regiões do Terceiro Mundo e à humanidade em seu todo. O seu votum já anuncia, em estado nascente, mas com firme convicção, o norte que guiará a sua atuação no Concílio, o da mesma paixão que animava o apóstolo Paulo, a sollicitudo omnium ecclesiaram, a “solicitude por todas as Igrejas”.
Dentre as dez intervenções por escrito de Dom Helder, selecionamos algumas que estão voltadas para os rumos gerais do Concílio.
Em 21 de novembro de 1962, quando chegava ao fim o I período conciliar e que a Assembléia buscava afanosamente definir a pauta dos trabalhos e encontrar um eixo orientador para o Concílio, Dom Helder, soma-se a outros doze bispos da Europa, Oriente Médio, África, Ásia e América Latina (29), para solicitar a João XXIII que, imediatamente depois da discussão sobre a Igreja, Lumen Gentium, o Concílio se voltasse para as grandes questões que afligem a humanidade e que poderiam ser agrupadas em quatro vertentes principais:
a) Problemas relativos ao exercício da justiça e da caridade fraterna, tanto pessoal quanto social, principalmente em relação aos povos em vias de desenvolvimento. Os subscritores evocam a preocupação de João XXIII, expressa na sua alocução radiofônica pronunciada um mês antes da abertura do Concílio: “La Chiesa se presenta quale è, e vuole essere, come la Chiesa di tutti, e particularmente la Chiesa dei poveri” (30).
b) Problemas relativos à paz e à união de todos os povos que formam a grande família humana, insistindo não só na superação dos conflitos armados, mas nas exigências positivas da paz (31).
c) Evangelização dos pobres e dos que se encontram longe da Igreja (32).
d) Exigências de renovação evangélica tanto nos pastores como nos fieis da Igreja, com especial atenção aos conselhos evangélicos e à pobreza que não pode limitar-se a palavras e discursos (33).
Os subscritores pedem finalmente que seja constituída uma Comissão ou Secretariado especial para lidar com essas questões, ainda antes do fim da primeira sessão conciliar, como sinal de que a Igreja está firmemente comprometida a enfrentar, de maneira séria e eficaz, os problemas do mundo moderno, empenhando-se em sua superação (34). Este Secretariado não foi criado naquele momento, mas logo depois do Concílio, Paulo VI instituiu a Pontifícia Comissão Justiça e Paz, voltada toda ela para cumprir os objetivos esboçados na proposta de Dom Helder em 1962.
Trata-se a nosso ver da primeira iniciativa concreta que irá desembocar na elaboração do esquema XVII, convertido em esquema XIII e por fim na Constituição Pastoral Gaudium et Spes e no seu posterior complemento, a encíclica Populorum Progressio de Paulo VI.
Outra intervenção, encabeçada por Dom Helder Câmara, redigida em francês e subscrita por representantes de 23 conferências episcopais, pede ao Papa Paulo VI que, tendo em conta a crucial relevância do esquema sobre a “Igreja no Mundo de Hoje” e a dificuldade em aprofunda-lo no decorrer do exíguo tempo que restava da III sessão conciliar, previsse um novo período conciliar para o ano seguinte, em 1965 (35).
Numa intervenção semelhante redigida em inglês, provavelmente no mesmo dia e subscrita por praticamente os mesmos bispos, pede-se que o Concílio centre sua atenção nos problemas da pobreza no mundo e empenhe-se na formação da consciência dos cristãos nos países mais ricos. Pede-se ademais que seja um leigo, perito no tema, que exponha aos bispos, na Aula Conciliar, o estado da questão do mundo; que se forme uma comissão de especialistas que delineie o tipo de instituições, as formas de cooperação, de contatos e de políticas que a Igreja pode adotar para assegurar sua plena participação num ataque em escala mundial para a erradicação da pobreza (36).
4.2. ATUAÇÃO VOLTADA PARA A OPINIÃO PÚBLICA
Se Dom Helder empenhou-se com todas suas forças para atuar em todas as instâncias da máquina conciliar, tinha por outro lado clareza, de que o Concílio que chegava realmente à opinião pública, era aquele filtrado pelos jornalistas e transmitido ao mundo, a cada dia, pela imprensa escrita, falada e televisiva.
Por isso, o mesmo Dom Helder, que se aplicava a articular a ação dos bispos e peritos, a coordenar as conferências episcopais, mas que nunca interveio na Aula Conciliar, era pródigo em atender à solicitação dos jornalistas para entrevistas, programas de televisão e conferências de imprensa. Via a imprensa não apenas como instrumento para transmitir, de modo compreensível, o que se passava no Concílio, mas igualmente como veículo para lançar novas idéias e para exercer indiretamente pressão sobre a Assembléia Conciliar, fazendo chegar recados às mais altas autoridades da Igreja, interpelando intelectuais e governantes, entusiasmando jovens e formadores de opinião. Preparava acuradamente suas conferências e sermões, submetendo o rascunho de suas idéias e intuições à família Messejanense, a peritos do Concílio, a técnicos e economistas amigos e mesmo à Secretaria de Estado e até mesmo ao Papa, quando abordava temas delicados.
Valha como exemplo dessa complexa avaliação que Dom Helder fazia do papel dos meios de comunicação e da importância da opinião pública, o que escreve, logo depois de uma sua concorridíssima conferência em Roma sobre “Perspectivas de novas estruturas na Igreja”, com o auditório cheio de teólogos e dos observadores não católicos:
“Em que dará minha palestra? Haverá forte reação da extrema direita? A Cúria Romana reagirá?
Que pensará a respeito o Santo Padre?
Agi tranqüilamente. Deus sabe que, nem por sombra, se trata da vaidade de ter intuições, de pensar que sou mesmo profeta.
Agi e agirei e agiria:
- por estar convicto de que meu papel no Concílio é o de agir no Ecumênico e de falar extra-Basílica (talvez, um dia, também falarei na Basílica);
- pela necessidade de ajudar o Santo Padre (um risco e uma loucura como os de ontem, com repercussão na imprensa, em última análise, ajudam o Papa);
- pela necessidade de encorajar os Peritos, os observadores e a imprensa;
- pela necessidade de ajudar toda a geração de amanhã (jovens clérigos e leigos, ansiosos por ver a super-prudência contrabalançada por uma ponta de audácia);
- pela convicção de ter recebido o sopro de Deus, através de José (37)...” (38)
O falar franco e direto, crítico e esperançoso de Dom Helder encantava os jornalistas que o assediavam para entrevistas e reportagens.
Sua grande tribuna no Concílio, não foi a Aula Conciliar na Basílica de São Pedro, mas sim a imprensa de uma parte e, de outra, o incansável esforço de articulação cumprido por meio da CNBB, do CELAM, do Opus Angeli, do Ecumênico, do Grupo da Igreja dos Pobres, da rede de amigos e colaboradores que soube conquistar para suas causas, a dos pobres e a da Igreja servidora dos pobres, aliado ao trabalho escondido nos bastidores, por intermédio de encontros pessoais, cartas, circulares.
Para todo este imenso trabalho, valia-se sempre da oração contemplativa e do fiel grupo de amigas e amigos, provindos de seu tempo de Ação Católica que, no Rio de Janeiro, no Recife e em outras partes do mundo, lhe serviam de retaguarda, alento e apoio.
Pe. José Oscar Beozzo
Rua Oliveira Alves, 164
São Paulo SP
04210-060
BRASIL
E-mail: jbeozzo@terra.com.br
Notas:
(1) Dom Helder Pessoa Camara, bispo e depois arcebispo auxiliar do Rio de Janeiro (1952-1964) e, em seguida arcebispos de Olinda e Recife (1964-1985), nasceu no Ceará em 1909, completou noventa anos a 7 de fevereiro de 1999, falecendo a 27 de agosto deste mesmo ano. Foi vice-assistente nacional da Ação Católica Brasileira e o fundador, em 1952, da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), seu secretário geral de 1952 a 1964, tendo tido destacada atuação no Concílio Vaticano II (1962-1965). Jornalista, conferencista, escritor e poeta exerceu profunda influência na vida cultural, social e religiosa do país, com irradiação no continente latino-americano e também na Europa e na América do Norte.
(2) Na fase preparatória quatro representantes do Brasil foram nomeados membros de comissões: o card. Arcebispo do Rio de Janeiro-RJ, Jaime. de Barros Câmara, para a Comissão Central (Sub-Comissão para o Regulamento); o arcebispo de Porto Alegre-RS, Alfredo Vicente Scherer, para a Comissão Teológica; o bispo auxiliar de São Paulo-SP, Antônio Alves de Siqueira, para a Comissão dos Sacramentos e mons. Joaquim Nabuco, para a Comissão Litúrgica. Outros seis foram nomeados consultores: o arcebispo auxiliar do Rio de Janeiro-RJ, Helder Pessoa Camara e o bispo de Londrina-PR, Geraldo Fernandes Bijos, CMF, para a Comissão dos Bispos; o arcebispo de Aracaju, José Vicente Távora, para o Secretariado de Imprensa; o prelado nullius de Pinheiros-MA, Afonso M. Ungarelli, MSC, para a Comissão dos Sacramentos; Frei Boaventura Kloppenburg, OFM, para a Comissão Teológica e Pe. Estevam Bentia (professor da Faculdade de Teologia N. S. da Assunção), para a Comissão das Igrejas Orientais. Cf. MARQUES, Luiz Carlos Luz, Il Carteggio Conciliare di Mons. Helder Pessoa Camara, Bologna, 1998, p. 754 (tese de doutorado apresentada à Universidade de Bologna, não publicada).
(3) Carta de D. Helder Câmara a D. Manuel Larrain, agosto 1962, Arquivo da CNBB - Secretaria Geral
(4) Para a crônica desta primeira congregação geral decisiva para a marcha posterior do Concílio e do impacto que causou, cfr. CAPRILE, Giovanni, Il Concilio Vaticano II. Il Primo período: 1962-1963. Roma: Civiltà Cattolica, 1968, pp. 20-24; KLOPPENBURG, Boaventura, Concílio Vaticano II – Vol. II. Primeira sessão (Set.-Dez. 1962). Petrópolis: Vozes, 1963, pp. 77-79.
(5) KLOPPENBURG, o.cit. p. 78
(6) O Palácio São Joaquim, residência do Cardeal Arcebispo do Rio de Janeiro, abrigava também as modestas salas onde funcionava a CNBB, desde o Congresso Eucarístico Internacional do Rio de Janeiro, até ser de lá desalojada pelo Cardeal Dom Jaime de Barros Câmara depois do golpe militar de 31 de março de 1964 e a ida de Dom Helder Camara para o Recife, e passar para uma sede própria, a Vila Venturosa, no bairro da Glória, em 1964.
(7) Messejana era um bairro aprazível da cidade de Fortaleza, no Ceará, onde havia nascido Dom Helder Camara.
(8) Depois que toma posse como Arcebispo de Olinda e Recife em abril de 1964, Dom Helder acrescenta aos destinatários do Rio de Janeiro, seus novos colabores na arquidiocese pernambucana.
(9) cfr. MARQUES, Luiz C. L., “Um tesouro ainda escondido”, in O POVO – Personalidades do Século, Fortaleza, 07-02-99, p. 5
(10) O “Dom”, era a maneira simples e familiar, como era chamado e conhecido Dom Helder.
(11) Circular 51/63, 25/26 de novembro de 1963
(12) A Domus Mariae, uma ampla casa de tijolos à vista, situada em meio a um parque na Via Aurélia 480, era a sede da Ação Católica Italiana Feminina e hospedou durante o Vaticano II, o episcopado brasileiro, juntamente com o da Hungria e de alguns outros países da África.
(13) CAPORALE, R., Vatican II: Les Hommes du Concile. Étude sociologique sur Vatican II, Paris, 1965, p. 88. Citado por MARQUES, o.cit., 51. Sobre o Grupo, cfr. ainda J. GROOTAERS, Une forme de concértation épiscopale au Concile Vatican II – “La Conférence des Vingt-Deux” (1962-1965), in “Revue d’Histoire Ecclésiastique”91 (1966), pp. 66-112; P. C. Noël, Gli incontri delle conferenze episcopali durante il concilio. Il “Gruppo dela Domus Mariae”, in FATTORI, Maria Teresa e A. MELLONI, L’Evento e le Decisioni – Studi sulle dinamiche del Concilio Vaticano II, Il Mulino, Bologna, 1997, pp. 95-133; “Le travail post-conciliaire. Les attentes du groupe de la Domus Mariae et l’organisation du l’après Concile”, pp. 1-28, relação apresentada no Colóquio “Vatican II, au but”, Strasbourg, 11-13 de março de 1999 (datilografado).
(14) Rascunho de carta ao arcebispo de Malinas-Bruxelas, Cardeal Leo Joseph Suenens, datado de 23 novembro de 1962 e anexado à sua Circular 39/62 de 19/20 novembro de 1962.
(15) Desiré Mercier (1851-1926), antigo professor de filosofia da Universidade de Lovaina, na Bélgica, um dos animadores da renovação filosófica e teológica do neo-tomismo, em diálogo com as ciências e a filosofia modernas, foi Cardeal Arcebispo de Malinas-Bruxelas, antecessor do Cardeal Leo Joseph Suenens, nesta prestigiosa sede cardinalícia, e um dos responsáveis pela retomada do diálogo entre católicos e anglicanos, nas célebres “Conversações de Malinas”.
(16) François Houtart, professor de sociologia da religião na Universidade de Lovaina, um dos fundadores do FERES, órgão articulador dos institutos e centros de pesquisas sócio-religiosas da Europa e América Latina, tornou-se o secretário do Opus Angeli, a articulação dos teólogos progressistas do Concílio que se colocou a serviço do episcopado brasileiro e também dos episcopados de outros países da América Latina e, de modo especial, do CELAM.
(17) Circular 46/62, 28/29 de novembro de 1962.
(18) Entrevista de Dom Antônio Fragoso ao autor em Ibiúna, a 23-10-1996
(19) KLOPPENBURG, Concílio Vaticano II – 4 ª Sessão (1965) V, 1996, 526-528
(20) CELAM, II Conferência Geral do Episcopado Latino-americano, A Igreja na atual transformação da América Latina à luz do Concílio, Petrópolis, 1969, Doc. 14, pp. 145-149
(21) Sobre as Conferências da Domus Mariae, cfr. BEOZZO, José Oscar, A Igreja do Brasil no Concílio Vaticano II; 1959-1965. São Paulo: Paulinas, 2005, pp. 195-209.
(22) A 23 de setembro de 1999, recebi do Pe. Hourtart, alguns comentários sobre o presente texto:
Querido José Oscar,
Gracias por tu carta y por el texto sobre Don Helder. Es realmente excelente. Me ha traído muchos recuerdos, especialmente del concilio, donde he trabajado con él casi diariamente en lo que el llamaba el Opus Angeli. Siempre me recuerdo también que es gracias a él que he podido organizar el estudio socio religioso de América latina entre 1958 y 1962 y finalmente hacer una síntesis para todos los obispos del concilio en francés, inglés y castellano. Cuando llegué a Rio de Janeiro para una primera reunión de coordinación de los que iban a trabajar en este estudio que duró 4 años, él me aviso que la santa sede había escrito a todos los nuncios para avisarles de cuidarse frente a toda encuesta de sociología religiosa. Don Helder, inteligente como siempre me ha dicho: yo tengo una solución. Él me pidió, en tanto que secretario de la Conferencia Episcopal, de hacer el trabajo para la conferencia. De esta manera, no había ninguna posibilidad de interferencia de Roma. Eso fue una luz para todo el trabajo y en todos los países latinoamericanos he propuesto a las conferencias episcopales de hacer un trabajo para ellos y eso fue aceptado prácticamente en todas partes. Es realmente el que salvo esta operación, que si no, habría sido extremamente difícil.
Gracias por haber enviado tu texto y muy cordial saludo.
F. HOUTART
François Houtart
CETRI
houtart@espo.ucl.ac.be
(23) Há aqui evidentemente um engano de Congar. Dom Helder era sim secretário mas da CNBB e vice-presidente do CELAM.
(24) Y.-M. CONGAR, Mon Journal du Concile, p. 87, citado por MARQUES, o. cit. 50, nota 6. Segue a tradução do autor do original de Congar: “Chega, em seguida, Helder Câmara, secretário do CELAM. Coisa extraordinária: hoje mesmo, ao meio dia, falaram de mim, dizendo que era preciso que me fizessem vir. Depois de ter conversado durante um bom tempo, fomos para uma sala, onde se reuniram conosco uns doze bispos jovens. Eles me interrogam. Dom Helder também: um homem não somente muito aberto, mas cheio de idéias, de imaginação, de entusiasmo. Ele tem o que falta em Roma: a ‘visão’ ”.
(25) Circular 15/62, 29 de outubro de 1962.
(26) Apenas dois bispos latino-americanos estiveram entre os preletores das Conferências da Domus Mariae, sendo um deles justamente Dom Sérgio Mendez Arceo, bispo de Cuernava, no México que falou no dia 16 de setembro de 1965, sobre o tema: “Aspectos do Celibato Eclesiástico”, seguido por Mons. Ramón Argaña Bogarin, Bispo de San Juan Bautista de las Misiones no Paraguai, no dia 6 de outubro de 1965, além do casal mexicano, auditores do Concílio, José e Luz Alvarez Icaza, presidentes do Secretariado para a América Latina do Movimento Familiar Cristão (MFC), cujo tema foi “Investigaciones sobre la actitud de la familia ante el Concilio”, no dia 29 de outubro de 1965. As conferências foram também um espaço importante para a tomada de consciência sobre o tema do ecumenismo e para o encontro pessoal entre os bispos e teólogos, monges e autoridades eclesiásticas vindas da ortodoxia ou do protestantismo. Estiveram entre os conferencistas, alguns várias vezes seguidas, o Pastor Roger Schutz e o teólogo Max Thurian da Comunidade de Taizé na França, Oscar Cullman, o conhecido biblista e teólogo reformado suíço; Andrej Scrima, enviado pessoal de Atenagoras do Patriarcado Ecumênico de Constantinopla.
(27) As intervenções de Dom Helder, em número de dez, encontram-se nos seguintes volumes das Atas Sinodais: AS VI/1 (Periodus I - 1962), 294-98; AS VI/1 (Periodus I - 1962), 298-99; AS II/5, 150-52; AS III/5, 509-10; AS III/7, 941-43; AS III/8, 1039-42; AS IV/2, 893-901; AS IV/III, 860-61; AS IV/3, 350-53; AS IV/3, 496-99
(28) ADA II/7, p. 325-327
(29) Os bispos que subscrevem a petição são, além de Helder Camara, foram C.M. Himmer, N. Edelby, Manuel Larrain, Alfred Ancel, Iulius Angerhausen, Laurentius Satoshi Nagae, Philippe Nguyen-Kim-Dien, Alessandro Olalia, Marcos Mc Grath, Thomas Cooray, Raphael Moralejos, Bernardo Yago, Georgius Mercier.
(30) AS VI/1, p. 295
(31) ibidem, p. 296
(32) ibidem, p. 296
(33) ibidem, p. 297
(34) ibidem, p. 298
(35) AS III/5, pp. 508-509
(36) AS III/5, pp. 509-510
(37) “José”, era o nome que Dom Helder dava ao seu anjo da guarda e às vezes a si próprio quando estava inspirado.
(38) Circular 76/63, 18/19 de novembro de 1963.
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José Oscar Beozzo
Teólogo, diretor do CESEEP
Adital - 09.05.08 - Mundo
Adital
INTRODUÇÃO
O Concílio Vaticano II (1962-1965), desde seu anúncio pelo Papa João XXIII, a 25 de janeiro de 1959, provocou profundo entusiasmo em Dom Helder Camara (1), acendendo em sua mente, incontáveis sonhos e projetos acerca de uma igreja mais evangélica e ecumênica, mais próxima dos pobres, empenhada no desenvolvimento dos povos e na sua mútua compreensão, capaz de propiciar um diálogo entre o norte e o sul do mundo, de colaborar na promoção da paz e da cooperação internacional, interlocutora dos meios de comunicação social e da cultura moderna.
O entusiasmo inicial foi porém mitigado pelas inumeráveis dificuldades do período preparatório, pelo pesado manto de segredo oficial que cobriu os trabalhos desta fase, fazendo com que os próprios bispos se sentissem à margem de tudo, até às vésperas do grande evento.
Dom Helder, como consultor da Comissão dos Bispos e Governo das Dioceses foi um dos sete bispos, entre os dez brasileiros (2), que tomaram parte numa das dez comissões preparatórias ou num dos quatro Secretariados do Concílio, criados em 5 de junho de 1960. Mas mesmo estes bispos estavam escassamente informados, pois desconheciam o andamento das outras comissões que trabalhavam paralelamente umas às outras, sem comunicação entre si, e encaminhando seus resultados apenas para a Comissão Central.
Dom Helder, às vésperas do Concílio, está inquieto e confia ao fiel amigo Manoelito, Dom Manuel Larrain, bispo de Talca no Chile, suas apreensões e mesmo desalento:
“Vejo o Concílio aproximar-se. Até hoje, nem sequer o Temário nos chegou. Humanamente, não há muito como esperar [...] Mesmo assim, irei ao Concílio. Será a suprema oportunidade, porque o Santo Padre nos mandou falar como Bispos. Na medida em que o pudermos fazer, faremos. De julho para cá, a situação só tem piorado. O Temário do Concílio, até hoje não chegou ao Brasil”. (3)
1. DOM HELDER, ATOR CONCILIAR
Uma vez em Roma, a alocução do Papa João XXIII de abertura ao Concílio, a Gaudet Mater Ecclesia – Alegra-se a Mãe Igreja, na manhã do dia 11 de outubro de 1962, devolveu-lhe novamente a esperança e o entusiasmo.
Dois dias depois, em sua primeira Congregação Geral, a 13 de outubro, os trabalhos conciliares apenas iniciados, foram suspensos dez minutos depois, por intervenção do Cardeal Achille Liénart, secundado pelo Cardeal J. Frings, arcebispo de Colônia na Alemanha, falando igualmente em nome do Cardeal Julius Döpfner de Munique e do Cardeal Franz König de Viena, na Aústria, que se recusavam a votar a lista dos integrantes das Comissões conciliares, sem uma consulta prévia entre os membros do Concílio (4). Diante da perplexidade geral, o Secretário do Concílio, o Arcebispo Pericle Felici consultou o Conselho de Presidência e o Cardeal Eugène Tisserrant que presidia a sessão suspendeu os trabalhos por quatro dias.
A imprensa captou a transcendência desse gesto da Assembléia que aplaudiu as intervenções, deixando transparecer nos títulos das manchetes sua interpretação do evento: “Terminou o predomínio da Cúria Romana”; “A Rebelião dos Bispos”; “A Ala Renovadora impõe uma Lista Internacional”; “Os Bispos europeus rejeitam os candidatos de Ottaviani”; “Luta feroz entre duas tendências” e assim por diante (5). De fato, saia de cena a Cúria Romana, cujos prefeitos haviam presidido cada uma das Comissões Preparatórias do Concílio e ocupavam o cenário novos atores, os episcopados recém-chegados a Roma e, de modo particular, as Conferências Episcopais e o único organismo de caráter continental em toda a Igreja, o Conselho Episcopal Latino-americano, o CELAM.
Dom Helder, secretário da Conferência Episcopal brasileira, a CNBB e vice-presidente do CELAM, lançou-se, de corpo e alma, junto com Dom Manoel Larrain, seu colega na vice-presidência do CELAM, nos esforço de articulação com as demais conferências episcopais, para comporem a nova lista de nomes para as Comissões Conciliares, em substituição às Comissões da fase preparatória que a Secretaria Geral do Concílio, queria ver transformadas nas Comissões permanentes do próprio Concílio. Isto perpetuaria o controle que a Cúria Romana havia exercido sobre toda a etapa de preparação do Concilio.
Começava ali a singular aventura do “Dom”, como era carinhosamente chamado pelos amigos, durante os quatro anos do Concílio Vaticano II (1962 a 1965) que o transformariam, do relativamente pouco conhecido arcebispo auxiliar do Rio de Janeiro, num dos personagens mais influentes na cena internacional da igreja contemporânea.
2. DOM HELDER, UM DOS ARTICULADORES DO CONCÍLIO E O REGISTRO DE SUA AÇÃO NUM SINGULAR “DIÁRIO”: AS CARTAS CONCILIARES
Do Concílio, legou-nos Dom Helder, uma espécie de diário íntimo, consignado em 297 cartas escritas, quase diariamente, durante as quatro sessões do Concílio e durante a intersessão de 1963/64.
Destas, sete que foram escritas durante a primeira sessão conciliar em 1962, encontram-se perdidas. Os originais das demais estão depositados atualmente na Fundação “Obras de Frei Francisco”, no Recife.
Estas cartas foram dirigidas a um pequeno grupo de colaboradores e principalmente colaboradoras do Rio de Janeiro e depois do Recife, que Dom Helder chama de “família do São Joaquim” (6), “família de Messejana (7)” ou ainda “família messejanense e olindo-recifense (8)”. O Concílio Vaticano II foi, para Dom Helder, a ocasião para ingressar numa série de articulações internacionais e grupos de trabalho, muitos das quais por ele sugeridos e animados, ganhando a partir daí uma plataforma de ação de raio cada vez mais amplo. (9).
Dom Helder não chegou porém ao Concílio de mãos vazias. Sua atuação como Assistente Nacional da Ação Católica Brasileira e de todos os seus ramos especializados, colocara-o em contato estreito com o laicato, dera-lhe uma visão geral do Brasil e de sua igreja, com seus valores e problemas, por vezes, dramáticos; o havia inserido na rede latino-americano e internacional estabelecida pela Ação Católica. Esta o levaria, como assistente eclesiástico da delegação brasileira de leigos da Ação Católica, à sua primeira viagem a Roma, durante o Ano Santo de 1950, por ocasião do I Congresso Internacional dos Leigos.
Ali, encontrara-se com o Papa Pio XII que o encaminhara ao seu sub-secretário de Estado, Mons. Giovanni Baptista Montini, o futuro Papa Paulo VI, a quem submeteu, nesta e na viagem seguinte, em 1951, sua proposta de criação de uma Conferência Nacional dos Bispos do Brasil.
Nasceu entre esses dois homens de Igreja, mútua confiança e amizade que possibilitarão a Dom Helder dirigir-se, muitas vezes, durante o Concílio, diretamente ao Cardeal Montini e depois ao Papa Paulo VI, confiando-lhe sugestões e expondo-lhe temores e esperanças.
Veio Dom Helder ao Concílio, não como um bispo isolado, mas como secretário geral, há exatos dez anos (1952-1962) da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, a terceira conferência mais numerosa do mundo todo, só suplantada pela italiana e a norte-americana.
Chegava também no quadro do único continente que contava com um organismo de articulação, a América Latina onde, desde 1955, fora fundado o CELAM, Conselho Episcopal Latino-americano, do qual Dom Helder era um dos dois vice-presidentes, sendo o outro Dom Manuel Larraín do Chile. Este será eleito, logo no ano seguinte, seu presidente (1963-1966). Dom Helder tinha profunda consciência de que a CNBB e o CELAM eram suas “plataformas” de ação e articulação, como deixa claramente consignado em carta de 1963, ao ser eleito Dom Larrain, presidente do CELAM e, ele mesmo, reconduzido à primeira vice-presidência (1963-1965):
“Houve eleição no CELAM. A América Latina inteira quis como presidente o querido Manoelito (Mons. Larraín) e elegeu o Dom (10) para 1 º Vice. Há o consolo de ver que a dupla fraterna não está sem cobertura. A posse, se Deus quiser, será amanhã, na presença do Cardeal Confalonieri e de Mons. Samoré... Telegrafamos ao Santo Padre comunicando a eleição e pedindo a benção... A eleição facilita o trabalho do Ecumênico. Se eu saísse da CNBB e do CELAM (é claro que eu já aceitara a oferenda), em rigor perderia a base para atuar nas reuniões de 6 ª feira [as reuniões do Ecumênico]”. (11).
Da sua formação no Seminário da Prainha, em Fortaleza, havia herdado o domínio da língua francesa transmitida pelos padres lazaristas franceses, além do conhecimento do latim, instrumentos que, durante o Concílio, lhe foram essenciais, junto com o inglês meio periclitante, para seus contatos com os outros padres conciliares, mas também com jornalistas e a televisão.
A imediata cooperação nascida entre Dom Helder e o Pe. Miguel (pseudônimo em suas cartas conciliares, para Leo Joseph Suenens, o cardeal arcebispo de Malinas-Bruxelas, membro da Comissão de Assuntos Extraordinários na primeira sessão conciliar, da Comissão de Coordenação criada ao final da primeira sessão, um dos quatro moderadores que passaram a presidir as Congregações Gerais, a partir do início da segunda sessão e, certamente, um dos mais influentes padres conciliares), assim como com o secretário do Episcopado francês, Roger Etchegaray, permitiram a Dom Helder fazer parte do grupo seleto dos que podiam exercer alguma influência sobre a imensa e heterogênea massa dos padres conciliares.
3. UMA ATUAÇÃO CONCERTADA VIA GRUPOS INFORMAIS:
O “ECUMÊNICO”, “A IGREJA DOS POBRES”, O “OPUS ANGELI”.
Gostaria de destacar, finalmente, alguns dos grupos dos quais participou Dom Helder, ampliando seu raio de ação e influência durante o Concílio.
3.1. O ECUMÊNICO
À raiz da bem sucedida experiência da primeira semana no Concilio, para a constituição da lista de nomes para as comissões conciliares, surgiu a idéia da formação de um grupo de trabalho informal que reunisse representantes das principais conferências episcopais, com vistas a intercambiarem informações e pontos de vista, estabelecer uma coordenação entre si, a proporem iniciativas e a agilizarem o próprio andamento do Concílio. A iniciativa ficou conhecida como “Grupo da Domus Mariae” (12), do nome do local, onde se reuniam os bispos; “Grupo da Terça-feira”, mesmo que, posteriormente, suas reuniões acontecessem na Sexta-feira; “Interconferência” devido ao fato de congregarem representantes de conferências nacionais ou regionais (África, Ásia e América Latina); “Grupo dos 22”, do número inicial das conferências, embora estas já fossem cerca de 30 na quarta sessão (1965) e ainda o “ECUMÊNICO”, como gostava de chamá-lo Dom Helder.
Na pesquisa de Caporale, um jornalista norte-americano que tenta levantar, durante a segunda sessão (1963), as figuras mais influentes do Concílio, Dom Helder surge no grupo das dezoito personalidades de proa e o grupo da Domus Mariae, como o mais significativo:
“[...] pudemos identificar quatro grupos informais de bispos que se encontram regularmente em diversos lugares [...] De longe, o mais importante e eclético destes grupos informais foi o organizado pelos bispos brasileiros na Domus Mariae... entre os animadores deste grupo que se reunia regularmente, cada sexta-feira, estava o arcebispo Helder Câmara”. (13).
Neste intercâmbio entre conferências episcopais, Dom Helder carregava uma preocupação mais entranhada, a de abrir espaço para um verdadeiro diálogo e cooperação entre o norte e o sul do mundo, entre desenvolvidos e subdesenvolvidos. Para isto, moveu céus e terras, primeiro para atrair os episcopados da África e da Ásia e depois para conseguir espaços institucionais para a temática do terceiro mundo como no caso do seu apelo insistente ao Cardeal Suenens para que ajudasse a patrocinar a criação, junto à Comissão de Assuntos Extraordinários do Concílio, de um “Secretariado especial para as questões da Pobreza e do Terceiro Mundo”. (14).
Não esconde seu entusiasmo, depois da conferência que convocara para o “diálogo dos dois mundos”:
“19:30 do dia 29 (29-11-1962). Houve o início do diálogo entre os Dois Mundos. Foi emocionante. Ali, estava na presidência, o sucessor e Mercier (15), que se mostrou absolutamente à altura da missão que a Providência lhe confia... Ali estava um resumo altamente representativo do Mundo sub-desenvolvido e do Mundo desenvolvido. O Pe. Houtart (16) correspondeu de todo às nossas esperanças. Abri o diálogo de que participaram interessadíssimos os dois Mundos. Mas grande mesmo foi Suenens ao encerrar o encontro. Disse verdades fortes e de maneira admirável.” (17).
3.2. A IGREJA DOS POBRES
O outro grupo que ajudou a criar, ao qual foi fiel até o fim e onde se sentia espiritual e humanamente em casa, foi o da “IGREJA DOS POBRES”. Na primeira sessão de 1962, havia juntamente com ele, outros oito brasileiros que se converteriam em 16 na terceira sessão, num total de 86 padres conciliares. Estava inspirado no itinerário de Paul Gauthier que escrevera, a partir de sua experiência de operário em Nazaré, o livro “Jesus, a Igreja e os Pobres”. Acompanhava-o Marie-Therèse Lescase, religiosa carmelita egressa que fora igualmente viver pobremente em Nazaré. Gauthier conseguiu sensibilizar um grupo importante de bispos e peritos, entre os quais o Pe. Yves Congar O.P. que escrevera um texto provocativo e profundo como proposta eclesial: “Pour une Église servante et pauvre”, “Por uma Igreja servidora e pobre”. Ao grupo, juntaram-se bispos que estavam próximos da espiritualidade dos Irmãos e Irmãzinhas de Charles de Foucauld, dos padres operários, da Missão da França e bispos que vinham do terceiro mundo, angustiados com a miséria das grandes maiorias e preocupados em encontrar saídas para sua pobreza e desamparo.
Dom Antônio Fragoso, bispo emérito de Crateús, deixou-nos um depoimento sobre o grupo que se reunia no Colégio Belga:
“O grupo começou na primeira sessão. Tínhamos como secretários Paul Gauthier e Marie-Therèse Lescase. O tema era a Igreja e os Pobres, começando pela identidade entre Jesus e os pobres. Lembro-me do argumento central: quando afirmamos a identidade entre Jesus e o pão consagrado: ‘isto é meu corpo’, nós [o] adoramos e tiramos conseqüências para nossa espiritualidade, liturgia e tudo o mais. Quando [se] afirma a identidade entre ele e os que não tem pão, casa, nós não tiramos as conseqüências para a espiritualidade, liturgia, ação pastoral. Lembro-me de que, na sessão final, fomos celebrar, numa das Catacumbas, a eucaristia final. Assinamos um compromisso nosso com os pobres: dar uma atenção prioritária aos pobres (não ter dinheiro em banco, patrimônio), e este compromisso chegou a ser assinado por 500 bispos”.
Mas o mesmo Dom Fragoso constatava com uma ponta de tristeza:
“[O Concílio] permitiu-me descobrir que os pobres não estavam no coração e no horizonte dos bispos. Por isto, o Concílio não deu maior atenção ao tema. O Concílio permitiu-me sair daquele pessimismo sobre a natureza e dar-me alegria, mas não o vi se reconciliando com os pobres”. (18).
Pode-se reconhecer que o grupo não alcançou o que esperava institucionalmente do Concílio, mas teve uma profunda repercussão espiritual e profética, espelhada no Pacto das Catacumbas, onde estão arrolados os compromissos que assumiam os seus signatários, na sua vida quotidiana e no seu trabalho pastoral, em relação aos pobres e a uma vida pessoal de pobreza. (19).
Com Helder, consciente de que o Concílio não respondera, nem mesmo com a Gaudium et Spes, às necessidades e expectativas do Terceiro Mundo, arrancara de Paulo VI, a promessa de uma encíclica que tratasse do “desenvolvimento dos povos”, que se concretizou na divulgação da Populorum Progressio, em 1967.
Consciente também de que o sonho de João XXIII de uma “Igreja dos Pobres” não conseguira empolgar o Concílio, lutará para que, na América Latina, esta se tornasse a questão eclesial mais importante. De fato, em 1968, na II Conferência Geral do Episcopado Latino-americano, o documento 14, consagrado à eclesiologia, terá como título e conteúdo “Pobreza na Igreja”. (20).
3.3. O OPUS ANGELI
Outro feito decisivo de D. Helder Camara no Concílio foi conseguir que os melhores teólogos e peritos ali presentes começassem a trabalhar em conjunto e em estreita colaboração com os bispos reunidos no “Ecumênico” e na “Igreja dos Pobres”. Esse mesmo grupo de teólogos prestou inestimável serviço aos bispos do Brasil, por meio das conferências da Domus Mariae, que na soma das três últimas sessões alcançaram o respeitável número de 84, às quais devem ser acrescentadas outras dez da primeira sessão (21). A essa força tarefa, já esboçada entre Dom Helder, Larrain e o Pe. François Houtart (22) de Lovaina na Bélgica, que desempenhou o papel de seu secretário, foi dado o nome de “OPUS ANGELI”, a Obra dos Anjos. Esta trabalhou durante as sessões, mas também nas inter-sessões, no sentido de oferecer textos alternativos aos esquemas provindos da etapa preparatória do Concílio, de preparar intervenções para serem lidas na aula conciliar, de assessorar os bispos nas questões mais complexas, de elaborar “modos” substitutivos para determinadas passagens dos esquemas submetidos a votação. Um dos teólogos mais importantes deste século, o Pe. Yves Congar e que colaborou estreitamente com Dom Helder e com os grupos por ele animados, tornando-se um pouco o coordenador do “Opus Angeli”, percebeu logo no primeiro encontro entre ambos, a importância de Dom Helder e de sua liderança que aportava ao Concílio algo mais que faltava aos outros: uma “visão”, no sentido do visionário, daquele que enxerga longe e com largueza de vistas. Congar anota no seu diário a 21 de outubro de 1962:
“Puis arrive Helder Câmara, secretaire du CELAM (23). C’est extraordinaire: aujourd’hui même, à midi, ils ont parlé de moi et ont dit qu’il faudrait me faire venir. Après avoir bavardé un bon moment, nous allons dans une salle, où se réunissent avec nous une douzaine de jeunes évêques. Ils m’interrogent. Mgr. Helder même: un homme non seulement très ouvert, mas plein d’idées, d’imagination et d’enthousiasme. Il a ce qui manque à Rome: la ‘vision’ (24).
Dias depois, em circular à sua “família” de colaboradores no Rio de Janeiro, Dom Helder comentando sobre as pessoas que mais o haviam impressionado como homens de Deus em Roma, chega ao teólogo dominicano:
“- o Pe. Yves Congar, cuja visão da Igreja, cujo ecumenismo, cuja caridade e cuja cultura extraordinária, brilham ainda mais pela humildade que ele encarna.” (25).
4. AULA CONCILIAR x TRIBUNA DOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO SOCIAL
Dom Helder, finalmente, alcançara um agudo senso de que mais do que as palavras e documentos, o que realmente chegava às pessoas e as tocava, eram determinados gestos e símbolos e que era pelas imagens que se fixava no povo o sentido do Concílio.
Estava sempre em busca destes gestos que pudessem causar impacto. Ao Papa João XXIII, havia proposto uma celebração final que abandonasse o fasto barroco da Roma pontifícia e primasse pela simplicidade e profundidade dos gestos. Repete a mesma proposta ao Papa Paulo VI e exulta quando alguns destes sinais são por ele incorporados à celebração de encerramento do Concílio.
Possuía clara consciência de que o Concílio operava em várias plataformas distintas:
- os debates durante as Congregações Gerais e, para tanto, empenhava-se, via Ecumênico, Igreja dos Pobres, CNBB, CELAM, que chegassem à Aula Conciliar intervenções vigorosas e norteadoras para os trabalhos conciliares, de preferência intervenções coletivas e que apontavam para um amplo consenso prévio;
- nas Comissões de Trabalho onde os textos eram elaborados, refeitos e limados para serem submetidos à votação e foi ali operoso, dando sua contribuição sucessivamente nas Comissões dos Bispos e Governo das Dioceses, na do Apostolado dos Leigos e na do Esquema XIII, convertido na Gaudium et Spes;
- na conversão dos corações e das mentes e, neste particular, cuidou para que o episcopado, tanto brasileiro como o latino-americano, estivessem em contato com as correntes espirituais e teológicas que moviam o Concílio. O melhor exemplo deste empenho foram as Conferências da Domus Mariae, em número de 94, ao longo das quatro sessões conciliares, promovidas pelo Episcopado brasileiro e o ciclo de conferências organizado pelo CELAM, embora em menor número e sem o caráter sistemático e a mesma repercussão alcançada pelas da Domus Mariae (26).
Ainda que não tenha falado nenhuma vez na Aula Conciliar, Dom Helder preparou algumas intervenções notáveis depositadas por escrito na Secretaria Geral. Nelas transparece claramente sua preocupação com os rumos do Concílio, com seu método de trabalho. Deixa patente em todas elas sua visão de caráter mais abrangente e estratégico frente aos grandes problemas contemporâneos e às responsabilidades e missão da Igreja (27).
4.1. O “VOTUM” E AS INTERVENÇÕES POR ESCRITO DE DOM HELDER
Logo que o Secretário de Estado, Cardeal Domenico Tardini, escreveu a 18 de junho de 1959, em nome de João XXIII, a todos os bispos e prelados do orbe católico, solicitando suas sugestões para a agenda conciliar, Helder Camara aprestou-se a enviar sua resposta, com data de 15 de agosto de 1959 (28).
Trata-se de um texto conciso de duas páginas e meia, mas que difere extraordinariamente do estilo de respostas enviadas pela maioria do episcopado mundial.
Em primeiro lugar, Dom Helder expressa-se com liberdade e ousadia, propondo logo de início que o latim não seja a única língua do Concílio, pois fora do círculo estreito da Cúria e das Universidades Romanas o idioma de Virgílio não era mais de uso corrente. Afirma que dentre os bispos do Brasil apenas uns 5% seriam capazes de se expressar com fluência, oralmente ou por escrito, em latim e que o panorama não deveria ser muito diverso em outras partes do mundo.
Inquieta-se com a mole imensa de propostas que certamente chegariam às mãos dos encarregados da preparação do Concílio e com um bom método para navegar neste grande mar de temas e problemas. Adianta a sugestão de que várias comissões se ocupassem dos distintos problemas e sob o título de “Por uma situação mais feliz do mundo”, propõe que a matéria conciliar fosse agrupada em seis grandes áreas: economia, artes (belas artes), ciências, política, questões sociais e, finalmente, religiosas.
Sua preocupação maior entretanto é com o enfoque das questões. Para ele, o que deve presidir a reflexão e a ação dos padres conciliares é a situação dos povos e pessoas menos cultos, refletindo a mesma preocupação do bispo Agostinho, quando escrevia o seu De cathechisandibus rudibus.
Enquanto muitos falam do conflito entre as grandes potências do Oriente e do Ocidente no quadro da guerra fria, Dom Helder propõe que o Concílio volte sua atenção para os 2/3 da humanidade que estão submersos na fome e na miséria. Pergunta-se qual a força que poderia vir em socorro desta humanidade sofredora e desamparada: o cristianismo ou o comunismo? Pensa que na América Latina, a Igreja, por intermédio do CELAM, poderia ter uma atuação mais eficaz do que a própria Operação Pan-americana proposta pelos chefes de Estado do continente, para ir de encontro aos seus problemas. Propõe que as igrejas situadas nos países mais ricos do hemisfério (Canadá e Estados Unidos) se empenhassem numa ação conjunta com os demais países da América e do Caribe para superar a grave situação do continente. Pensa, entretanto, que a mesma preocupação devia estender-se aos povos empobrecidos da Ásia e da África, pelas mesmas razões positivas que levaram a Igreja, no passado, a se dirigir aos pagãos e aos bárbaros, e não simplesmente para se opor ao comunismo.
Por conta de suas funções no CELAM expressa ainda o seu compromisso de dedicar-se, de corpo e alma, para melhorar situação de todos os povos da América Latina e do Caribe, compreendidos dentro do raio de ação do Conselho.
Esse respiro amplo, que ultrapassa os limites da Arquidiocese do Rio de Janeiro, onde era arcebispo auxiliar (1952-1964), ou da Arquidiocese de Olinda e Recife da qual se tornou arcebispo em 1964; os limites do Brasil de cuja conferência episcopal era o secretário geral; os limites da América Latina, de cujo principal organismo eclesial, o CELAM, era um dos vice-presidentes, dilata-se em direção às outras regiões do Terceiro Mundo e à humanidade em seu todo. O seu votum já anuncia, em estado nascente, mas com firme convicção, o norte que guiará a sua atuação no Concílio, o da mesma paixão que animava o apóstolo Paulo, a sollicitudo omnium ecclesiaram, a “solicitude por todas as Igrejas”.
Dentre as dez intervenções por escrito de Dom Helder, selecionamos algumas que estão voltadas para os rumos gerais do Concílio.
Em 21 de novembro de 1962, quando chegava ao fim o I período conciliar e que a Assembléia buscava afanosamente definir a pauta dos trabalhos e encontrar um eixo orientador para o Concílio, Dom Helder, soma-se a outros doze bispos da Europa, Oriente Médio, África, Ásia e América Latina (29), para solicitar a João XXIII que, imediatamente depois da discussão sobre a Igreja, Lumen Gentium, o Concílio se voltasse para as grandes questões que afligem a humanidade e que poderiam ser agrupadas em quatro vertentes principais:
a) Problemas relativos ao exercício da justiça e da caridade fraterna, tanto pessoal quanto social, principalmente em relação aos povos em vias de desenvolvimento. Os subscritores evocam a preocupação de João XXIII, expressa na sua alocução radiofônica pronunciada um mês antes da abertura do Concílio: “La Chiesa se presenta quale è, e vuole essere, come la Chiesa di tutti, e particularmente la Chiesa dei poveri” (30).
b) Problemas relativos à paz e à união de todos os povos que formam a grande família humana, insistindo não só na superação dos conflitos armados, mas nas exigências positivas da paz (31).
c) Evangelização dos pobres e dos que se encontram longe da Igreja (32).
d) Exigências de renovação evangélica tanto nos pastores como nos fieis da Igreja, com especial atenção aos conselhos evangélicos e à pobreza que não pode limitar-se a palavras e discursos (33).
Os subscritores pedem finalmente que seja constituída uma Comissão ou Secretariado especial para lidar com essas questões, ainda antes do fim da primeira sessão conciliar, como sinal de que a Igreja está firmemente comprometida a enfrentar, de maneira séria e eficaz, os problemas do mundo moderno, empenhando-se em sua superação (34). Este Secretariado não foi criado naquele momento, mas logo depois do Concílio, Paulo VI instituiu a Pontifícia Comissão Justiça e Paz, voltada toda ela para cumprir os objetivos esboçados na proposta de Dom Helder em 1962.
Trata-se a nosso ver da primeira iniciativa concreta que irá desembocar na elaboração do esquema XVII, convertido em esquema XIII e por fim na Constituição Pastoral Gaudium et Spes e no seu posterior complemento, a encíclica Populorum Progressio de Paulo VI.
Outra intervenção, encabeçada por Dom Helder Câmara, redigida em francês e subscrita por representantes de 23 conferências episcopais, pede ao Papa Paulo VI que, tendo em conta a crucial relevância do esquema sobre a “Igreja no Mundo de Hoje” e a dificuldade em aprofunda-lo no decorrer do exíguo tempo que restava da III sessão conciliar, previsse um novo período conciliar para o ano seguinte, em 1965 (35).
Numa intervenção semelhante redigida em inglês, provavelmente no mesmo dia e subscrita por praticamente os mesmos bispos, pede-se que o Concílio centre sua atenção nos problemas da pobreza no mundo e empenhe-se na formação da consciência dos cristãos nos países mais ricos. Pede-se ademais que seja um leigo, perito no tema, que exponha aos bispos, na Aula Conciliar, o estado da questão do mundo; que se forme uma comissão de especialistas que delineie o tipo de instituições, as formas de cooperação, de contatos e de políticas que a Igreja pode adotar para assegurar sua plena participação num ataque em escala mundial para a erradicação da pobreza (36).
4.2. ATUAÇÃO VOLTADA PARA A OPINIÃO PÚBLICA
Se Dom Helder empenhou-se com todas suas forças para atuar em todas as instâncias da máquina conciliar, tinha por outro lado clareza, de que o Concílio que chegava realmente à opinião pública, era aquele filtrado pelos jornalistas e transmitido ao mundo, a cada dia, pela imprensa escrita, falada e televisiva.
Por isso, o mesmo Dom Helder, que se aplicava a articular a ação dos bispos e peritos, a coordenar as conferências episcopais, mas que nunca interveio na Aula Conciliar, era pródigo em atender à solicitação dos jornalistas para entrevistas, programas de televisão e conferências de imprensa. Via a imprensa não apenas como instrumento para transmitir, de modo compreensível, o que se passava no Concílio, mas igualmente como veículo para lançar novas idéias e para exercer indiretamente pressão sobre a Assembléia Conciliar, fazendo chegar recados às mais altas autoridades da Igreja, interpelando intelectuais e governantes, entusiasmando jovens e formadores de opinião. Preparava acuradamente suas conferências e sermões, submetendo o rascunho de suas idéias e intuições à família Messejanense, a peritos do Concílio, a técnicos e economistas amigos e mesmo à Secretaria de Estado e até mesmo ao Papa, quando abordava temas delicados.
Valha como exemplo dessa complexa avaliação que Dom Helder fazia do papel dos meios de comunicação e da importância da opinião pública, o que escreve, logo depois de uma sua concorridíssima conferência em Roma sobre “Perspectivas de novas estruturas na Igreja”, com o auditório cheio de teólogos e dos observadores não católicos:
“Em que dará minha palestra? Haverá forte reação da extrema direita? A Cúria Romana reagirá?
Que pensará a respeito o Santo Padre?
Agi tranqüilamente. Deus sabe que, nem por sombra, se trata da vaidade de ter intuições, de pensar que sou mesmo profeta.
Agi e agirei e agiria:
- por estar convicto de que meu papel no Concílio é o de agir no Ecumênico e de falar extra-Basílica (talvez, um dia, também falarei na Basílica);
- pela necessidade de ajudar o Santo Padre (um risco e uma loucura como os de ontem, com repercussão na imprensa, em última análise, ajudam o Papa);
- pela necessidade de encorajar os Peritos, os observadores e a imprensa;
- pela necessidade de ajudar toda a geração de amanhã (jovens clérigos e leigos, ansiosos por ver a super-prudência contrabalançada por uma ponta de audácia);
- pela convicção de ter recebido o sopro de Deus, através de José (37)...” (38)
O falar franco e direto, crítico e esperançoso de Dom Helder encantava os jornalistas que o assediavam para entrevistas e reportagens.
Sua grande tribuna no Concílio, não foi a Aula Conciliar na Basílica de São Pedro, mas sim a imprensa de uma parte e, de outra, o incansável esforço de articulação cumprido por meio da CNBB, do CELAM, do Opus Angeli, do Ecumênico, do Grupo da Igreja dos Pobres, da rede de amigos e colaboradores que soube conquistar para suas causas, a dos pobres e a da Igreja servidora dos pobres, aliado ao trabalho escondido nos bastidores, por intermédio de encontros pessoais, cartas, circulares.
Para todo este imenso trabalho, valia-se sempre da oração contemplativa e do fiel grupo de amigas e amigos, provindos de seu tempo de Ação Católica que, no Rio de Janeiro, no Recife e em outras partes do mundo, lhe serviam de retaguarda, alento e apoio.
Pe. José Oscar Beozzo
Rua Oliveira Alves, 164
São Paulo SP
04210-060
BRASIL
E-mail: jbeozzo@terra.com.br
Notas:
(1) Dom Helder Pessoa Camara, bispo e depois arcebispo auxiliar do Rio de Janeiro (1952-1964) e, em seguida arcebispos de Olinda e Recife (1964-1985), nasceu no Ceará em 1909, completou noventa anos a 7 de fevereiro de 1999, falecendo a 27 de agosto deste mesmo ano. Foi vice-assistente nacional da Ação Católica Brasileira e o fundador, em 1952, da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), seu secretário geral de 1952 a 1964, tendo tido destacada atuação no Concílio Vaticano II (1962-1965). Jornalista, conferencista, escritor e poeta exerceu profunda influência na vida cultural, social e religiosa do país, com irradiação no continente latino-americano e também na Europa e na América do Norte.
(2) Na fase preparatória quatro representantes do Brasil foram nomeados membros de comissões: o card. Arcebispo do Rio de Janeiro-RJ, Jaime. de Barros Câmara, para a Comissão Central (Sub-Comissão para o Regulamento); o arcebispo de Porto Alegre-RS, Alfredo Vicente Scherer, para a Comissão Teológica; o bispo auxiliar de São Paulo-SP, Antônio Alves de Siqueira, para a Comissão dos Sacramentos e mons. Joaquim Nabuco, para a Comissão Litúrgica. Outros seis foram nomeados consultores: o arcebispo auxiliar do Rio de Janeiro-RJ, Helder Pessoa Camara e o bispo de Londrina-PR, Geraldo Fernandes Bijos, CMF, para a Comissão dos Bispos; o arcebispo de Aracaju, José Vicente Távora, para o Secretariado de Imprensa; o prelado nullius de Pinheiros-MA, Afonso M. Ungarelli, MSC, para a Comissão dos Sacramentos; Frei Boaventura Kloppenburg, OFM, para a Comissão Teológica e Pe. Estevam Bentia (professor da Faculdade de Teologia N. S. da Assunção), para a Comissão das Igrejas Orientais. Cf. MARQUES, Luiz Carlos Luz, Il Carteggio Conciliare di Mons. Helder Pessoa Camara, Bologna, 1998, p. 754 (tese de doutorado apresentada à Universidade de Bologna, não publicada).
(3) Carta de D. Helder Câmara a D. Manuel Larrain, agosto 1962, Arquivo da CNBB - Secretaria Geral
(4) Para a crônica desta primeira congregação geral decisiva para a marcha posterior do Concílio e do impacto que causou, cfr. CAPRILE, Giovanni, Il Concilio Vaticano II. Il Primo período: 1962-1963. Roma: Civiltà Cattolica, 1968, pp. 20-24; KLOPPENBURG, Boaventura, Concílio Vaticano II – Vol. II. Primeira sessão (Set.-Dez. 1962). Petrópolis: Vozes, 1963, pp. 77-79.
(5) KLOPPENBURG, o.cit. p. 78
(6) O Palácio São Joaquim, residência do Cardeal Arcebispo do Rio de Janeiro, abrigava também as modestas salas onde funcionava a CNBB, desde o Congresso Eucarístico Internacional do Rio de Janeiro, até ser de lá desalojada pelo Cardeal Dom Jaime de Barros Câmara depois do golpe militar de 31 de março de 1964 e a ida de Dom Helder Camara para o Recife, e passar para uma sede própria, a Vila Venturosa, no bairro da Glória, em 1964.
(7) Messejana era um bairro aprazível da cidade de Fortaleza, no Ceará, onde havia nascido Dom Helder Camara.
(8) Depois que toma posse como Arcebispo de Olinda e Recife em abril de 1964, Dom Helder acrescenta aos destinatários do Rio de Janeiro, seus novos colabores na arquidiocese pernambucana.
(9) cfr. MARQUES, Luiz C. L., “Um tesouro ainda escondido”, in O POVO – Personalidades do Século, Fortaleza, 07-02-99, p. 5
(10) O “Dom”, era a maneira simples e familiar, como era chamado e conhecido Dom Helder.
(11) Circular 51/63, 25/26 de novembro de 1963
(12) A Domus Mariae, uma ampla casa de tijolos à vista, situada em meio a um parque na Via Aurélia 480, era a sede da Ação Católica Italiana Feminina e hospedou durante o Vaticano II, o episcopado brasileiro, juntamente com o da Hungria e de alguns outros países da África.
(13) CAPORALE, R., Vatican II: Les Hommes du Concile. Étude sociologique sur Vatican II, Paris, 1965, p. 88. Citado por MARQUES, o.cit., 51. Sobre o Grupo, cfr. ainda J. GROOTAERS, Une forme de concértation épiscopale au Concile Vatican II – “La Conférence des Vingt-Deux” (1962-1965), in “Revue d’Histoire Ecclésiastique”91 (1966), pp. 66-112; P. C. Noël, Gli incontri delle conferenze episcopali durante il concilio. Il “Gruppo dela Domus Mariae”, in FATTORI, Maria Teresa e A. MELLONI, L’Evento e le Decisioni – Studi sulle dinamiche del Concilio Vaticano II, Il Mulino, Bologna, 1997, pp. 95-133; “Le travail post-conciliaire. Les attentes du groupe de la Domus Mariae et l’organisation du l’après Concile”, pp. 1-28, relação apresentada no Colóquio “Vatican II, au but”, Strasbourg, 11-13 de março de 1999 (datilografado).
(14) Rascunho de carta ao arcebispo de Malinas-Bruxelas, Cardeal Leo Joseph Suenens, datado de 23 novembro de 1962 e anexado à sua Circular 39/62 de 19/20 novembro de 1962.
(15) Desiré Mercier (1851-1926), antigo professor de filosofia da Universidade de Lovaina, na Bélgica, um dos animadores da renovação filosófica e teológica do neo-tomismo, em diálogo com as ciências e a filosofia modernas, foi Cardeal Arcebispo de Malinas-Bruxelas, antecessor do Cardeal Leo Joseph Suenens, nesta prestigiosa sede cardinalícia, e um dos responsáveis pela retomada do diálogo entre católicos e anglicanos, nas célebres “Conversações de Malinas”.
(16) François Houtart, professor de sociologia da religião na Universidade de Lovaina, um dos fundadores do FERES, órgão articulador dos institutos e centros de pesquisas sócio-religiosas da Europa e América Latina, tornou-se o secretário do Opus Angeli, a articulação dos teólogos progressistas do Concílio que se colocou a serviço do episcopado brasileiro e também dos episcopados de outros países da América Latina e, de modo especial, do CELAM.
(17) Circular 46/62, 28/29 de novembro de 1962.
(18) Entrevista de Dom Antônio Fragoso ao autor em Ibiúna, a 23-10-1996
(19) KLOPPENBURG, Concílio Vaticano II – 4 ª Sessão (1965) V, 1996, 526-528
(20) CELAM, II Conferência Geral do Episcopado Latino-americano, A Igreja na atual transformação da América Latina à luz do Concílio, Petrópolis, 1969, Doc. 14, pp. 145-149
(21) Sobre as Conferências da Domus Mariae, cfr. BEOZZO, José Oscar, A Igreja do Brasil no Concílio Vaticano II; 1959-1965. São Paulo: Paulinas, 2005, pp. 195-209.
(22) A 23 de setembro de 1999, recebi do Pe. Hourtart, alguns comentários sobre o presente texto:
Querido José Oscar,
Gracias por tu carta y por el texto sobre Don Helder. Es realmente excelente. Me ha traído muchos recuerdos, especialmente del concilio, donde he trabajado con él casi diariamente en lo que el llamaba el Opus Angeli. Siempre me recuerdo también que es gracias a él que he podido organizar el estudio socio religioso de América latina entre 1958 y 1962 y finalmente hacer una síntesis para todos los obispos del concilio en francés, inglés y castellano. Cuando llegué a Rio de Janeiro para una primera reunión de coordinación de los que iban a trabajar en este estudio que duró 4 años, él me aviso que la santa sede había escrito a todos los nuncios para avisarles de cuidarse frente a toda encuesta de sociología religiosa. Don Helder, inteligente como siempre me ha dicho: yo tengo una solución. Él me pidió, en tanto que secretario de la Conferencia Episcopal, de hacer el trabajo para la conferencia. De esta manera, no había ninguna posibilidad de interferencia de Roma. Eso fue una luz para todo el trabajo y en todos los países latinoamericanos he propuesto a las conferencias episcopales de hacer un trabajo para ellos y eso fue aceptado prácticamente en todas partes. Es realmente el que salvo esta operación, que si no, habría sido extremamente difícil.
Gracias por haber enviado tu texto y muy cordial saludo.
F. HOUTART
François Houtart
CETRI
houtart@espo.ucl.ac.be
(23) Há aqui evidentemente um engano de Congar. Dom Helder era sim secretário mas da CNBB e vice-presidente do CELAM.
(24) Y.-M. CONGAR, Mon Journal du Concile, p. 87, citado por MARQUES, o. cit. 50, nota 6. Segue a tradução do autor do original de Congar: “Chega, em seguida, Helder Câmara, secretário do CELAM. Coisa extraordinária: hoje mesmo, ao meio dia, falaram de mim, dizendo que era preciso que me fizessem vir. Depois de ter conversado durante um bom tempo, fomos para uma sala, onde se reuniram conosco uns doze bispos jovens. Eles me interrogam. Dom Helder também: um homem não somente muito aberto, mas cheio de idéias, de imaginação, de entusiasmo. Ele tem o que falta em Roma: a ‘visão’ ”.
(25) Circular 15/62, 29 de outubro de 1962.
(26) Apenas dois bispos latino-americanos estiveram entre os preletores das Conferências da Domus Mariae, sendo um deles justamente Dom Sérgio Mendez Arceo, bispo de Cuernava, no México que falou no dia 16 de setembro de 1965, sobre o tema: “Aspectos do Celibato Eclesiástico”, seguido por Mons. Ramón Argaña Bogarin, Bispo de San Juan Bautista de las Misiones no Paraguai, no dia 6 de outubro de 1965, além do casal mexicano, auditores do Concílio, José e Luz Alvarez Icaza, presidentes do Secretariado para a América Latina do Movimento Familiar Cristão (MFC), cujo tema foi “Investigaciones sobre la actitud de la familia ante el Concilio”, no dia 29 de outubro de 1965. As conferências foram também um espaço importante para a tomada de consciência sobre o tema do ecumenismo e para o encontro pessoal entre os bispos e teólogos, monges e autoridades eclesiásticas vindas da ortodoxia ou do protestantismo. Estiveram entre os conferencistas, alguns várias vezes seguidas, o Pastor Roger Schutz e o teólogo Max Thurian da Comunidade de Taizé na França, Oscar Cullman, o conhecido biblista e teólogo reformado suíço; Andrej Scrima, enviado pessoal de Atenagoras do Patriarcado Ecumênico de Constantinopla.
(27) As intervenções de Dom Helder, em número de dez, encontram-se nos seguintes volumes das Atas Sinodais: AS VI/1 (Periodus I - 1962), 294-98; AS VI/1 (Periodus I - 1962), 298-99; AS II/5, 150-52; AS III/5, 509-10; AS III/7, 941-43; AS III/8, 1039-42; AS IV/2, 893-901; AS IV/III, 860-61; AS IV/3, 350-53; AS IV/3, 496-99
(28) ADA II/7, p. 325-327
(29) Os bispos que subscrevem a petição são, além de Helder Camara, foram C.M. Himmer, N. Edelby, Manuel Larrain, Alfred Ancel, Iulius Angerhausen, Laurentius Satoshi Nagae, Philippe Nguyen-Kim-Dien, Alessandro Olalia, Marcos Mc Grath, Thomas Cooray, Raphael Moralejos, Bernardo Yago, Georgius Mercier.
(30) AS VI/1, p. 295
(31) ibidem, p. 296
(32) ibidem, p. 296
(33) ibidem, p. 297
(34) ibidem, p. 298
(35) AS III/5, pp. 508-509
(36) AS III/5, pp. 509-510
(37) “José”, era o nome que Dom Helder dava ao seu anjo da guarda e às vezes a si próprio quando estava inspirado.
(38) Circular 76/63, 18/19 de novembro de 1963.
______________
José Oscar Beozzo
Teólogo, diretor do CESEEP
Adital - 09.05.08 - Mundo
quarta-feira, 7 de dezembro de 2011
PACTO DAS CATACUMBAS
O PACTO DA IGREJA SERVIDORA E POBRE
(documento firmado em 16.11.1965, por 40 Bispos da Igreja Católica Apostólica, nas catacumbas de Domitila, em Roma, no período da realização do Concílio Vaticano II, após celebrarem juntos a Eucaristia)
Nós, bispos, reunidos no Concílio Vaticano II, esclarecidos sobre as deficiências de nossa vida de pobreza segundo o Evangelho; incentivados uns pelos outros, numa iniciativa em que cada um de nós quereria evitar a singularidade e a presunção; unidos a todos os nossos irmãos do episcopado; contando sobretudo com a graça e a força de Nosso Senhor Jesus Cristo, com a oração dos fiéis e dos sacerdotes de nossas respectivas dioceses; colocando-nos, pelo pensamento e pela oração, diante da Trindade, diante da Igreja de Cristo e diante dos sacerdotes e dos fiéis de nossas dioceses, na humildade e na consciência de nossa fraqueza, mas também com toda determinação e toda a força de que Deus nos quer dar a graça, comprometemo-nos ao que se segue:
1) Procuraremos viver segundo o modo ordinário da nossa população, no que concerne à habitação, à alimentação, aos meios de locomoção e a tudo que daí se segue. Cf. Mt 5,3; 6,33-34; 8,20.
2) Para sempre renunciamos à aparência e à realidade da riqueza, especialmente no traje (fazendas ricas, cores berrantes), nas insígnias de matéria preciosa (devem esses signos ser, com efeito, evangélicos). Cf. Mt 6,9; Mt 10,9-10; At 3,6. Nem ouro nem prata.
3) Não possuiremos nem imóveis, nem móveis, nem conta em banco etc., em nosso próprio nome; e, se for preciso possuir, poremos tudo em nome da diocese, ou das obras sociais ou caritativas. Cf. Mt 6,19-21; Lc 12,33-34.
4) Cada vez que for possível, confiaremos a gestão financeira e material em nossa diocese a uma comissão de leigos competentes e cônscios do seu papel apostólico, em mira a sermos menos administradores do que pastores e apóstolos. Cf. Mt 10,8; At 6,1-7.
5) Recusamos ser chamados, oralmente ou por escrito, com nomes que signifiquem a grandeza e o poder (Eminência, Excelência, Monsenhor...). Preferimos ser chamados com o nome evangélico de Padre. Cf. Mt 20,25-28; 23,6-11; Jo 13,12-15.
6) No nosso comportamento, nas nossas relações sociais, evitaremos aquilo que pode parecer conferir privilégios, prioridades ou mesmo uma preferência qualquer aos ricos e aos poderosos (ex.: banquetes oferecidos ou aceitos, classes nos serviços religiosos). Cf. Lc 13,12-14; 1Cor 9,14-19.
7) Do mesmo modo, evitaremos incentivar ou lisonjear a vaidade de quem quer que seja, com vistas a recompensar ou a solicitar dádivas, ou por qualquer outra razão. Convidaremos nossos fiéis a considerarem as suas dádivas como uma participação normal no culto, no apostolado e na ação social. Cf. Mt 6,2-4; Lc 15,9-13; 2Cor 12,4.
8) Daremos tudo o que for necessário de nosso tempo, reflexão, coração, meios etc., ao serviço apostólico e pastoral das pessoas e dos grupos laboriosos e economicamente fracos e subdesenvolvidos, sem que isso prejudique as outras pessoas e grupos da diocese. Ampararemos os leigos, religiosos, diáconos ou sacerdotes que o Senhor chama a evangelizarem os pobres e operários compartilhando a vida operária e o trabalho. Cf. Lc 4,18-19; Mc 6,4; Mt 11,4-5; At 18,3-3; 20,33-35; 1Cor 4,12; 9,1-27.
9) Cônscios de exigências da justiça e da caridade, e das suas relações mútuas, procuraremos transformar as obras de “beneficência” em obras sociais baseadas na caridade e na justiça, que levam em conta todos e todas as exigências, como um humilde serviço dos organismos públicos competentes. Cf. Mt 25,31-46; Lc 13,12-14.33-34.
10) Poremos tudo em obra para que os responsáveis pelo nosso governo e pelos nossos serviços públicos decidam e ponham em prática as leis, as estruturas e as instituições sociais necessárias à justiça, à igualdade e ao desenvolvimento harmônico e total do homem todo e em todos os homens, e, por aí, ao advento de uma outra ordem social, nova, digna dos filhos do homem e dos filhos de Deus. Cf. At 2,44-45; 4,32-35; 5,4; 2Cor 8 e 9 inteiros; 1Tm 5,16.
11) Achando a colegialidade dos bispos sua realização a mais evangélica na assunção do encargo comum das massas humanas em estado de miséria física, cultural e moral — dois terços da humanidade —, comprometemo-nos:
— a participarmos, conforme nossos meios, dos investimentos urgentes dos episcopados das nações pobres;
— a requerermos juntos ao plano dos organismos internacionais, mas testemunhando o Evangelho, como e fez o Papa Paulo VI na ONU, a adoção de estruturas econômicas e culturais que não fabriquem nações proletárias num mundo cada vez mais rico, mas sim permitam às massas pobres saírem de sua miséria.
12) Comprometemo-nos a partilhar, na caridade pastoral, nossa vida com nossos irmãos em Cristo, sacerdotes, religiosos e leigos, para que nosso ministério constitua um verdadeiro serviço; assim:
— esforçar-nos-emos para “revisar nossa vida” com eles;
— suscitaremos colaboradores para serem mais uns animadores segundo o espírito, do que uns chefes segundo o mundo;
— procuraremos ser o mais humanamente presentes, acolhedores...;
— mostrar-nos-emos abertos a todos, seja qual for a sua religião. Cf. Mc 8,34-35; At 6,1-7; 1Tm 3,8-10.
13) Tornados às nossas dioceses respectivas, daremos a conhecer aos nossos diocesanos a nossa resolução, rogando-lhes ajudar-nos por sua compreensão, seu concurso e suas preces.
Ajude-nos Deus a sermos fiéis.
(documento firmado em 16.11.1965, por 40 Bispos da Igreja Católica Apostólica, nas catacumbas de Domitila, em Roma, no período da realização do Concílio Vaticano II, após celebrarem juntos a Eucaristia)
Nós, bispos, reunidos no Concílio Vaticano II, esclarecidos sobre as deficiências de nossa vida de pobreza segundo o Evangelho; incentivados uns pelos outros, numa iniciativa em que cada um de nós quereria evitar a singularidade e a presunção; unidos a todos os nossos irmãos do episcopado; contando sobretudo com a graça e a força de Nosso Senhor Jesus Cristo, com a oração dos fiéis e dos sacerdotes de nossas respectivas dioceses; colocando-nos, pelo pensamento e pela oração, diante da Trindade, diante da Igreja de Cristo e diante dos sacerdotes e dos fiéis de nossas dioceses, na humildade e na consciência de nossa fraqueza, mas também com toda determinação e toda a força de que Deus nos quer dar a graça, comprometemo-nos ao que se segue:
1) Procuraremos viver segundo o modo ordinário da nossa população, no que concerne à habitação, à alimentação, aos meios de locomoção e a tudo que daí se segue. Cf. Mt 5,3; 6,33-34; 8,20.
2) Para sempre renunciamos à aparência e à realidade da riqueza, especialmente no traje (fazendas ricas, cores berrantes), nas insígnias de matéria preciosa (devem esses signos ser, com efeito, evangélicos). Cf. Mt 6,9; Mt 10,9-10; At 3,6. Nem ouro nem prata.
3) Não possuiremos nem imóveis, nem móveis, nem conta em banco etc., em nosso próprio nome; e, se for preciso possuir, poremos tudo em nome da diocese, ou das obras sociais ou caritativas. Cf. Mt 6,19-21; Lc 12,33-34.
4) Cada vez que for possível, confiaremos a gestão financeira e material em nossa diocese a uma comissão de leigos competentes e cônscios do seu papel apostólico, em mira a sermos menos administradores do que pastores e apóstolos. Cf. Mt 10,8; At 6,1-7.
5) Recusamos ser chamados, oralmente ou por escrito, com nomes que signifiquem a grandeza e o poder (Eminência, Excelência, Monsenhor...). Preferimos ser chamados com o nome evangélico de Padre. Cf. Mt 20,25-28; 23,6-11; Jo 13,12-15.
6) No nosso comportamento, nas nossas relações sociais, evitaremos aquilo que pode parecer conferir privilégios, prioridades ou mesmo uma preferência qualquer aos ricos e aos poderosos (ex.: banquetes oferecidos ou aceitos, classes nos serviços religiosos). Cf. Lc 13,12-14; 1Cor 9,14-19.
7) Do mesmo modo, evitaremos incentivar ou lisonjear a vaidade de quem quer que seja, com vistas a recompensar ou a solicitar dádivas, ou por qualquer outra razão. Convidaremos nossos fiéis a considerarem as suas dádivas como uma participação normal no culto, no apostolado e na ação social. Cf. Mt 6,2-4; Lc 15,9-13; 2Cor 12,4.
8) Daremos tudo o que for necessário de nosso tempo, reflexão, coração, meios etc., ao serviço apostólico e pastoral das pessoas e dos grupos laboriosos e economicamente fracos e subdesenvolvidos, sem que isso prejudique as outras pessoas e grupos da diocese. Ampararemos os leigos, religiosos, diáconos ou sacerdotes que o Senhor chama a evangelizarem os pobres e operários compartilhando a vida operária e o trabalho. Cf. Lc 4,18-19; Mc 6,4; Mt 11,4-5; At 18,3-3; 20,33-35; 1Cor 4,12; 9,1-27.
9) Cônscios de exigências da justiça e da caridade, e das suas relações mútuas, procuraremos transformar as obras de “beneficência” em obras sociais baseadas na caridade e na justiça, que levam em conta todos e todas as exigências, como um humilde serviço dos organismos públicos competentes. Cf. Mt 25,31-46; Lc 13,12-14.33-34.
10) Poremos tudo em obra para que os responsáveis pelo nosso governo e pelos nossos serviços públicos decidam e ponham em prática as leis, as estruturas e as instituições sociais necessárias à justiça, à igualdade e ao desenvolvimento harmônico e total do homem todo e em todos os homens, e, por aí, ao advento de uma outra ordem social, nova, digna dos filhos do homem e dos filhos de Deus. Cf. At 2,44-45; 4,32-35; 5,4; 2Cor 8 e 9 inteiros; 1Tm 5,16.
11) Achando a colegialidade dos bispos sua realização a mais evangélica na assunção do encargo comum das massas humanas em estado de miséria física, cultural e moral — dois terços da humanidade —, comprometemo-nos:
— a participarmos, conforme nossos meios, dos investimentos urgentes dos episcopados das nações pobres;
— a requerermos juntos ao plano dos organismos internacionais, mas testemunhando o Evangelho, como e fez o Papa Paulo VI na ONU, a adoção de estruturas econômicas e culturais que não fabriquem nações proletárias num mundo cada vez mais rico, mas sim permitam às massas pobres saírem de sua miséria.
12) Comprometemo-nos a partilhar, na caridade pastoral, nossa vida com nossos irmãos em Cristo, sacerdotes, religiosos e leigos, para que nosso ministério constitua um verdadeiro serviço; assim:
— esforçar-nos-emos para “revisar nossa vida” com eles;
— suscitaremos colaboradores para serem mais uns animadores segundo o espírito, do que uns chefes segundo o mundo;
— procuraremos ser o mais humanamente presentes, acolhedores...;
— mostrar-nos-emos abertos a todos, seja qual for a sua religião. Cf. Mc 8,34-35; At 6,1-7; 1Tm 3,8-10.
13) Tornados às nossas dioceses respectivas, daremos a conhecer aos nossos diocesanos a nossa resolução, rogando-lhes ajudar-nos por sua compreensão, seu concurso e suas preces.
Ajude-nos Deus a sermos fiéis.
terça-feira, 6 de dezembro de 2011
Concílio está vivo e levanta discussões
Há 50 anos desde a abertura do Concílio Vaticano II, fervem as pesquisas em vista do 50º aniversário da abertura em outubro de 2012.
A reportagem é de Lucas Rolandi, publicada no sítio Vatican Insider, 11-10-2011.
A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Mais um ano terá que passar antes que mergulhemos nas celebrações, que serão oficiais e independentes, imponentes e mais específicas, a partir das quais, como sempre, surgirão opiniões e reflexões muito diferentes, algumas polêmicas e muito mais.
Mas é assim que o Concílio Vaticano II, apesar de aceito e assumido pela Igreja e retomado com continuidade e perseverança pelos papas que sucederam João XXIII e Paulo VI, continua levantando discussão. A sua aplicação, recepção e completa sedimentação no povo cristão, para muitos, ainda não foi realizada, enquanto outros o consideram como um passo muito além da tradição e da vontade da Igreja de não se "contaminar" com o mundo, na relação com as outras religiões, ao ceder em muitos pontos da sua doutrina.
Exatamente em um ano, a Pontifícia Comissão para as Ciências Históricas organizará, em colaboração com o Centro de Estudos sobre o Concílio Vaticano II, um congresso internacional em Roma (3 a 6 de outubro de 2012) sobre a interpretação do Concílio, no qual serão fixados os critérios para essa pesquisa. "Será o ponto de chegada de uma ampla pesquisa internacional realizada pela Sociedade de História Eclesiástica e pelas Associações de Arquivística Eclesiástica de diversas nações, sob a égide do Pontifício Comitê de Ciências Históricas".
A pesquisa, que será composta dos relatórios realizados por pesquisadores especializados de diversas nações, "se configurará como um verdadeiro mapeamento mundial dos arquivos pessoais dos padres conciliares, e o congresso será o momento final de verificação, confronto e síntese das pesquisas individuais". A definição desse elenco será a premissa para um outro grande congresso previsto por ocasião do 50º aniversário do encerramento do Concílio, que apresentará os resultados da análise desses arquivos periféricos.
O Centro de Estudos sobre o Concílio Vaticano II da Pontifícia Universidade Lateranense também é o promotor de um ciclo de conferências organizadas em colaboração com o Centre Saint-Louis de France. Os encontros serão realizados entre fevereiro e maio de 2012 sobre o tema "Reler os grandes textos do Concílio Vaticano II. História e teologia". Serão convidados falar, dentre outros, o reitor da universidade, Dom Enrico dal Covolo, Jean-Dominique Durand e Giuseppe Lorizio. A ideia é de comparar duas leituras, histórica e teológica, dos grandes documentos do Concílio.
Dom Enrico dal Covolo compartilha a leitura do Concílio proposto pelo Papa Ratzinger no dia 20 de dezembro de 2005, quando escolheu a linha da continuidade à do Vaticano II como ruptura da Tradição, mas esclarece que a Pontifícia Universidade Lateranense pretende examinar "sem preconceitos nem conclusões predeterminadas todas as cartas disponíveis sobre os trabalhos do Concílio, começando com as anotações e os diários dos pais e dos peritos teológicos que participaram da elaboração das declarações e dos outros documentos aprovados".
"Só assim, isto é, com um trabalho verdadeiramente científico e imparcial, será possível verificar qual das duas hermenêuticas, de fato, é a mais correta", e depois do congresso de 2012 até 2015 serão apresentados – em um outro encontro internacional – os resultados obtidos, "sejam quais forem". "Para trazer tudo à luz como nos propomos – explica o reitor –, o trabalho de pesquisa deverá ser absolutamente imparcial". Para o bispo salesiano, a reflexão referente à "vexata quaestio" [questão polêmica] da hermenêutica do Concílio é emblemática da missão de uma universidade como a Lateranense.
Entre os muitos encontros em nível internacional, é impossível elencar mesmo que apenas uma pequena parte. Certamente indicativo, tendo-se em vista a monumental obra realizadas nos anos 1990 por Giuseppe Alberigo e Alberto Melloni, é o calendário das pesquisas e das manifestações da Fundação para as Ciências Religiosas João XXIII, de Bolonha. A esse respeito, é interessante a indicação da bibliografia dos estudos sobre o Concílio organizado por Massimo Faggioli, constantemente atualizada pela revista da fundação dirigida por Giuseppe Ruggieri, Cristianesimo nella storia, ou o desenvolvimento com uma série de aprofundamentos inéditos do primeiro portal dedicado ao Vaticano II, www.vivailconcilio.it.
Para ler mais:
• O Vaticano II, 50 anos depois. Artigo José Comblin (+ 27-03-2011)
• Vaticano II: uma mina ainda por explorar. Entrevista com Kurt Koch
• Vivailconcilio, um sítio patrocinado pelo cardeal Martini
• Continuidade e ruptura: os dois rostos do Concílio Vaticano II
• Dez motivos para lembrar o Concílio Vaticano II
• O retrocesso contra o Concílio Vaticano II
• Os frutos do Concílio
• Um Vaticano II sem rótulos
• Recepção do Vaticano II em discussão
A reportagem é de Lucas Rolandi, publicada no sítio Vatican Insider, 11-10-2011.
A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Mais um ano terá que passar antes que mergulhemos nas celebrações, que serão oficiais e independentes, imponentes e mais específicas, a partir das quais, como sempre, surgirão opiniões e reflexões muito diferentes, algumas polêmicas e muito mais.
Mas é assim que o Concílio Vaticano II, apesar de aceito e assumido pela Igreja e retomado com continuidade e perseverança pelos papas que sucederam João XXIII e Paulo VI, continua levantando discussão. A sua aplicação, recepção e completa sedimentação no povo cristão, para muitos, ainda não foi realizada, enquanto outros o consideram como um passo muito além da tradição e da vontade da Igreja de não se "contaminar" com o mundo, na relação com as outras religiões, ao ceder em muitos pontos da sua doutrina.
Exatamente em um ano, a Pontifícia Comissão para as Ciências Históricas organizará, em colaboração com o Centro de Estudos sobre o Concílio Vaticano II, um congresso internacional em Roma (3 a 6 de outubro de 2012) sobre a interpretação do Concílio, no qual serão fixados os critérios para essa pesquisa. "Será o ponto de chegada de uma ampla pesquisa internacional realizada pela Sociedade de História Eclesiástica e pelas Associações de Arquivística Eclesiástica de diversas nações, sob a égide do Pontifício Comitê de Ciências Históricas".
A pesquisa, que será composta dos relatórios realizados por pesquisadores especializados de diversas nações, "se configurará como um verdadeiro mapeamento mundial dos arquivos pessoais dos padres conciliares, e o congresso será o momento final de verificação, confronto e síntese das pesquisas individuais". A definição desse elenco será a premissa para um outro grande congresso previsto por ocasião do 50º aniversário do encerramento do Concílio, que apresentará os resultados da análise desses arquivos periféricos.
O Centro de Estudos sobre o Concílio Vaticano II da Pontifícia Universidade Lateranense também é o promotor de um ciclo de conferências organizadas em colaboração com o Centre Saint-Louis de France. Os encontros serão realizados entre fevereiro e maio de 2012 sobre o tema "Reler os grandes textos do Concílio Vaticano II. História e teologia". Serão convidados falar, dentre outros, o reitor da universidade, Dom Enrico dal Covolo, Jean-Dominique Durand e Giuseppe Lorizio. A ideia é de comparar duas leituras, histórica e teológica, dos grandes documentos do Concílio.
Dom Enrico dal Covolo compartilha a leitura do Concílio proposto pelo Papa Ratzinger no dia 20 de dezembro de 2005, quando escolheu a linha da continuidade à do Vaticano II como ruptura da Tradição, mas esclarece que a Pontifícia Universidade Lateranense pretende examinar "sem preconceitos nem conclusões predeterminadas todas as cartas disponíveis sobre os trabalhos do Concílio, começando com as anotações e os diários dos pais e dos peritos teológicos que participaram da elaboração das declarações e dos outros documentos aprovados".
"Só assim, isto é, com um trabalho verdadeiramente científico e imparcial, será possível verificar qual das duas hermenêuticas, de fato, é a mais correta", e depois do congresso de 2012 até 2015 serão apresentados – em um outro encontro internacional – os resultados obtidos, "sejam quais forem". "Para trazer tudo à luz como nos propomos – explica o reitor –, o trabalho de pesquisa deverá ser absolutamente imparcial". Para o bispo salesiano, a reflexão referente à "vexata quaestio" [questão polêmica] da hermenêutica do Concílio é emblemática da missão de uma universidade como a Lateranense.
Entre os muitos encontros em nível internacional, é impossível elencar mesmo que apenas uma pequena parte. Certamente indicativo, tendo-se em vista a monumental obra realizadas nos anos 1990 por Giuseppe Alberigo e Alberto Melloni, é o calendário das pesquisas e das manifestações da Fundação para as Ciências Religiosas João XXIII, de Bolonha. A esse respeito, é interessante a indicação da bibliografia dos estudos sobre o Concílio organizado por Massimo Faggioli, constantemente atualizada pela revista da fundação dirigida por Giuseppe Ruggieri, Cristianesimo nella storia, ou o desenvolvimento com uma série de aprofundamentos inéditos do primeiro portal dedicado ao Vaticano II, www.vivailconcilio.it.
Para ler mais:
• O Vaticano II, 50 anos depois. Artigo José Comblin (+ 27-03-2011)
• Vaticano II: uma mina ainda por explorar. Entrevista com Kurt Koch
• Vivailconcilio, um sítio patrocinado pelo cardeal Martini
• Continuidade e ruptura: os dois rostos do Concílio Vaticano II
• Dez motivos para lembrar o Concílio Vaticano II
• O retrocesso contra o Concílio Vaticano II
• Os frutos do Concílio
• Um Vaticano II sem rótulos
• Recepção do Vaticano II em discussão
segunda-feira, 5 de dezembro de 2011
Como preservar o futuro da Igreja?
Entrevista especial com Johannes Röser
"A tradição não significa simplesmente apenas a recordação de coisas passadas, mas também a transmissão de coisas novas". O desafio do cristianismo, portanto, é buscar "a viabilidade no futuro".
Essa é a opinião do teólogo alemão Johannes Röser, redator-chefe da revista semanal Christ in der Gegenwart, fundada logo após a Segunda Guerra Mundial. A publicação busca, justamente, "acertar as contas" entre a Igreja de hoje com os demais campos do saber, uma forma de apresentar o "Cristo no presente", como indica seu nome.
Nesta entrevista, concedida por e-mail à IHU On-Line, Röser analisa a vida da Igreja contemporânea, passando pelos avanços e impulsos pós-conciliares, o papel dos bispos e das conferências nacionais, do sacerdote do século XXI e dos desafios que se colocam diante dos leigos na sociedade atual.
Para Röser, chegamos, como Igreja, a uma encruzilhada: "A rigor, só há duas alternativas: ou continuar se isolando dos desdobramentos da modernidade na ciência, na arte, na cultura, na sociedade, ou reconhecer as leis próprias da realidade, o mundo do devir, a mudança constante", afirma.
Johannes Röser é redator-chefe da revista semanal Christ in der Gegenwart (Freiburg im Breisgau, na Alemanha), fundada em 1948, como uma publicação de diálogo entre a Igreja e os cristãos com a ciência, a arte, a cultura e a política. Röser estudou teologia em Freiburg e em Tübingen (dentre outros, com Hans Küng e com os então professores e hoje cardeais Karl Lehmann e Walter Kasper). Trabalha como jornalista desde 1981. É autor e editor de diversos livros sobre religião. Os mais recentes são Mein Glaube in Bewegung: Stellungnahmen aus Religion, Kultur und Politik; Mut zur Religion: Erziehung, Werte und die neue Frage nach Gott; Was sag ich Gott? Was sagt mir Gott?; e Jugendgebete und Gedanken, publicados pela Editora Herder.
Confira a entrevista.
IHU On-Line – O senhor afirma que uma das consequências da crise de confiança da Igreja Católica é o reforço do "antimodernismo romano". Como esse fenômeno se expressa concretamente?
Johannes Röser – Há mais tempo já se pode perceber que os acentos, colocados pelo Concílio Vaticano II, que apontavam para a frente estão sendo minimizados, bagatelizados, que os impulsos para a renovação e a reforma estão sendo "inseridos" em noções pré-conciliares. Um marco nesse sentido foi o documento Dominus Iesus da Congregação para a Doutrina da Fé. Ele interpreta o decreto sobre o ecumenismo do último Concílio de forma muito unilateral e restritiva, e nega o ser-Igreja das igrejas protestantes, o que mais tarde foi confirmado, uma vez mais, por um comunicado do Vaticano.
Outro passo da restauração foi a readmissão geral da liturgia tridentina como forma extraordinária de celebração. Nesse sentido, deve-se levar em conta que a liturgia tridentina se baseia em um modelo de compreensão espiritual que não é mais compatível com a atual experiência do mundo marcada pelo Iluminismo e pela demitologização – desde a ideia do sacrifício expiatório até noções mágicas e apegadas a milagres.
Por fim, veio a suspensão incondicional da excomunhão dos bispos de Lefèbvre, sem quaisquer exigências de conversão aos tradicionalistas e à sua postura acentuadamente antimodernista. Aliás, antes disso, muitos bispos já tinham advertido contra tal medida.
Também na ordem relativa a vestimentas e acessórios do atual papa, com sua predileção por vestes barrocas e música antiga etc., mostra-se uma certa aversão à modernidade. Durante certo tempo, Bento XVI usou o báculo de Pio IX (foto), o Papa do antimodernismo.
Acrescenta-se a isso o fato de que, apesar da acentuação da colegialidade dos bispos, a dignidade das Conferências Episcopais está sendo contestada e até minada. Cada vez mais, as Conferências Episcopais estão sendo consideradas meros órgãos administrativos ou consultivos, mas sem autoridade doutrinal. Além disso, tem-se a impressão de que, muitas vezes, os bispos são tratados como recebedores de ordens do Vaticano. Apesar disso, todo bispo tem em si, como sucessor dos apóstolos, autoridade e responsabilidade apostólicas.
Também a interpretação bíblica histórico-crítica foi recentemente relativizada e sofreu restrições por parte do papa Bento XVI em um texto pós-sinodal sobre a palavra de Deus dirigido ao Sínodo dos Bispos de 2008. Segundo ele, a exegese foi distorcida por uma compreensão secularista da Bíblia que exclui todos os elementos divinos.
Além disso, o magistério eclesiástico rejeita estritamente algumas pesquisas da biomedicina moderna. Entretanto, a história da medicina – assim como das ciências naturais de modo geral – prova que, na prática, todos os tabus eclesiásticos jamais erigidos não subsistiram a longo prazo, desde a proibição da autópsia de cadáveres – que atualmente não nos permitiria sequer operar um apêndice inflamado – até o ceticismo para com transplantes de órgãos e a proibição da contracepção hormonal, que, entrementes, se tornou um padrão no mundo todo.
IHU On-Line – Algumas das questões em voga atualmente no debate religioso são a moral sexual, o celibato e a questão dos divorciados. É possível encontrar uma solução conciliatória entre as reivindicações dos fiéis e as posições da Igreja institucional?
Johannes Röser – Essas três áreas devem ser separadas. Quanto ao celibato: também na parte latina da Igreja Católica mundial atua um número crescente de sacerdotes casados. Por exemplo, os que passaram de igrejas protestantes para a Igreja Católica e agora exercem nela o seu ministério eclesiástico. Alguns sacerdotes casados vieram da Igreja Anglicana. Agora, o papa até instituiu sedes episcopais próprias para anglicanos dispostos a trocar de Igreja, em que eles podem conservar suas tradições litúrgicas [os chamados ordinariatos pessoais]. Além disso, através dos muitos cristãos que fugiram do Oriente Próximo e do Oriente Médio, nós estamos conhecendo no Ocidente sacerdotes católicos casados das igrejas orientais unidas ao papa. Esses pastores não são “menos” sacerdotes nem sacerdotes “piores” do que aqueles da parte latina da Igreja.
"Para os cristãos, o acontecimento-Cristo é o centro da existência de fé. Buscamos uma mística que incorpore dimensões cósmicas"
Não se trata da abolição do celibato, que é e deve continuar sendo uma característica essencial da vida monástica. O que está em pauta unicamente é como se pode assegurar a celebração sacramental do mistério pascal face à forte carência de sacerdotes em muitos países mediante a liberação do celibato para sacerdotes seculares, para párocos. Qualquer outra coisa significaria que, com um número cada vez menor de sacerdotes, nós estaríamos a caminho de uma Igreja Católica livre, não obstante todo o respeito que tenho pelo caminho próprio em conformidade com o evangelho das igrejas protestantes livres. Além disso, precisamos de sacerdotes jovens – casados – para pessoas jovens – geralmente ainda não casadas –, inclusive como exemplo.
Quanto à moral sexual: graças às possibilidades contraceptivas, a sexualidade e a reprodução não estão mais vinculadas uma à outra. Por causa dos longos períodos de formação – também das mulheres – e da necessária mobilidade e flexibilidade profissional, os jovens, muitas vezes, só encontram o parceiro ou a parceira de vida bem tardiamente. Não é realista e também seria ingênuo esperar que as pessoas vivam em abstinência sexual até os 30 anos de idade ou até mais tarde. A sexualidade é uma parte essencial do amor, da atratividade e da capacidade de estabelecer relacionamentos dos seres humanos. Naturalmente, é desejável que as pessoas mantenham a fidelidade conjugal e a parceria matrimonial durante a vida inteira. Mas excluir rigorosamente o comportamento sexual nesse processo causa repulsa. O distanciamento dos jovens em relação à Igreja começa, na maioria dos casos, com o despertar da sexualidade. Por isso, a doutrina sobre a sexualidade deve ser repensada de acordo com o que é humanamente possível e faz sentido. A sexualidade é vida e determina toda a nossa vida, mesmo que o tempo para casar só venha bem mais tarde.
Algo semelhante se aplica aos divórcios. Nos países ocidentais, entrementes um de cada três casamentos termina em divórcio. Isso atinge igualmente os católicos. Naturalmente, pode-se criticar e lamentar que hoje em dia os casais se separem mais depressa do que antigamente, que a tolerância à frustração e a disposição para perdoar sejam menores, que exemplos errados tornem mais fáceis os divórcios e as trocas de parceiros. Contudo, as exigências feitas ao amor, ao relacionamento e à parceira também aumentaram, o que sobrecarrega muitas pessoas e acaba acarretando decepções. Entretanto, após um exame de consciência sincero, arrependimento, confissão de culpa, penitência e boa intenção, não se deveriam negar permanentemente o perdão e consolo dos sacramentos da Igreja a pessoas divorciadas que voltaram a se casar. Todavia, a Igreja poderia fazer mais para ajudar os casais em tempo hábil a renovar e salvar seu casamento.
IHU On-Line – Para o senhor, dois grandes problemas da Igreja são o seu fechamento e a sua distância com relação à realidade. Que papel os leigos podem ter para reverter esse quadro?
Johannes Röser – Existe uma vocação especial para o sacerdócio. E existe uma vocação igualmente divina para as profissões seculares. Muitos cristãos são atualmente especialistas em muitas áreas. Como cidadãos do mundo, eles não precisam procurar de propósito um diálogo forçado entre a Igreja e o mundo. Eles são do mundo, como cristãos. Como homem e mulher, como pais, eles são o primeiro sacerdote masculino e feminino de seus filhos. "Deus chega antes do missionário", disse Leonardo Boff certa vez. Os leigos chegam ainda antes do que o sacerdote. Entretanto, eles não substituem o ministério eclesiástico especial de direção espiritual. Alguns abismos entre leigos e clérigos, alguns casos de neoclericalismo constrangedor poderiam ser superados se o princípio sinodal fosse melhor cultivado também na Igreja Católica. Isso quer dizer que, em associações eclesiásticas, os leigos devem ter não só funções consultivas, mas também compartilhar do poder de decisão.
"Os impulsos para a renovação e a reforma [da Igreja] estão sendo 'inseridos' em noções pré-conciliares"
IHU On-Line – Como a Igreja pode encontrar um equilíbrio entre a tradição e a orientação ao futuro?
Johannes Röser – Voltando-se com rigor aos conhecimentos da atualidade e reconhecendo a evolução contínua do mundo, da vida, do saber e da fé. A consciência religiosa também se transforma no decorrer da história pessoal de vida e da história da humanidade. O chefe de Estado soviético Mikhail Gorbachev dizia: "A vida castiga quem chega tarde". Isso também se aplica ao cristianismo. A tradição não significa simplesmente apenas a recordação de coisas passadas, mas também a transmissão de coisas novas: temos de nos direcionar para a viabilidade no futuro.
IHU On-Line – Quais são as instâncias já existentes ou que novos âmbitos de diálogo precisam ser criados para que a "consulta recíproca sobre as necessidades" da Igreja, como o senhor afirma, possa ocorrer?
Johannes Röser – O ponto central e crucial é a questão de Deus. Há muito tempo, consolidou-se no sentimento de muitas pessoas uma espécie de ateísmo popular, sem qualquer intenção combativa, mas, antes, com melancolia e até com tristeza. Segundo ele, Deus, mesmo que existisse e o quisesse, não tem qualquer possibilidade de atuar e intervir no curso do mundo. Onde Deus estava quando não estava lá, por exemplo: por ocasião do tsunami, ou pelo 11 de setembro de 2001, ou no caso de vírus letais ou outras doenças, em relação aos quais o ser humano supostamente livre nada pode fazer? Na melhor das hipóteses, Deus é um grande "talvez" para muitas pessoas. Dizem elas: "Às vezes eu creio, às vezes não creio". É nesses mundos intermediários que a religiosidade ocorre atualmente, na maioria das vezes em uma esfera vaga, incerta, aproximada.
Ora, isso tem consequências para as nossas concepções de Deus. Hoje em dia, "Deus" é, para muitas pessoas, mais um verbo do que um substantivo, mais um acontecimento processual do que uma espécie de "sujeito" ou "objeto". As concepções de Deus anteriores não são mais suficientes para, face ao caráter enigmático do espaço e do tempo, ser tocado ou até abalado pela misteriosidade de Deus. Precisamos de uma escola, de uma nova visão e de um novo pressentimento religioso, justamente para pessoas reflexivas de boa vontade.
"Só há duas alternativas: ou continuar se isolando da modernidade, ou reconhecer a mudança constante"
Para os cristãos, o acontecimento-Cristo é e continua sendo o centro da existência de fé. Mas como a unicidade de Cristo pode ser associada à diversidade e ao caráter contraditório das outras percepções religiosas em todo o globo terrestre? Por que o Filho de Deus só veio a este mundo como Homo sapiens há 2 mil anos, se o Homo sapiens, o ser humano sapiente, já existia há pelo menos 100 mil anos, dotado de um cérebro complexo e inteligência cognitiva moderna? Assim, estamos e continuamos em busca de uma mística em torno de Cristo que, entre outras coisas, incorpore dimensões universais e cósmicas, mas sem se desviar especulativamente para o âmbito esotérico: uma mística que permaneça fiel à história e à terra.
O aguilhão decisivo da descrença é a mortalidade, a finitude. Com isso, porém, intensifica-se, por outro lado, nosso fascínio: que, apesar da mortalidade de tudo, exista algo e não nada, já que o nada seria muito mais plausível do que tudo que se faz sentir. O milagre do que é visível é, para muitas pessoas, bem mais maravilhoso do que o milagre daquilo que é invisível. Ora, se existe o milagre da vida – real – diante dos olhos de todos, por que não haveria de poder existir, na mesma lógica fraca, o milagre da vida eterna – objeto de esperança –, da ressurreição dos mortos? Aqui, para as pessoas crentes, abre-se o caminho para a esperança da ressurreição.
A fé em Deus, a fé em Cristo, a fé na ressurreição são os três campos de diálogo decisivos, os aspectos essenciais. Para isso, precisa-se de um novo entendimento no horizonte de nossa experiência do mundo e até um novo Concílio sobre questões de fé, semelhante aos antigos Concílios sobre questões de fé, que nunca transcorriam harmoniosamente, mas em disputa produtiva e frutífera. Isso também desafia a teologia.
IHU On-Line – Como o senhor analisa o papel das Conferências dos Bispos hoje? Ainda têm validade na conjuntura social e eclesial do século XXI? Como aumentar o diálogo entre as diversas Conferências?
Johannes Röser – Os bispos e as Conferências Episcopais falam demais sobre questões sociais, caritativas e políticas. Tudo isso é importante e necessário, particularmente a opção preferencial pelos pobres. Mas também é importante fazer os temas de casa eclesiásticos e religiosos e não desviar a atenção deles. Muitas crises religiosas são de produção própria. Seria importante revitalizar a tradição dos sínodos regionais, para se entender inicialmente com quem está geograficamente próximo. Disso poderia surgir então um processo sinodal abrangente, até se chegar a um concílio ecumênico. Não há como se esquivar disso.
"Alguns abismos entre leigos e clérigos poderiam ser superados se o princípio sinodal fosse melhor cultivado"
IHU On-Line – Como o senhor analisa a questão do sacerdócio hoje? Que papel os sacerdotes devem ter na Igreja contemporânea e que tendências o senhor percebe para o futuro do sacerdócio?
Johannes Röser – Face à grave carência de fiéis apesar dos 2 bilhões de cristãos nominais no mundo inteiro, a carência de sacerdotes não é um problema secundário. Sem proximidade pessoal, não há fé. Precisamos de algo diferente do "sacerdote administrador" ou do "sacerdote cultual" centrado nos sacramentos. Precisamos de "sacerdotes comunicadores", homens de Deus que sejam capazes de despertar e estimular a religiosidade que muitas pessoas carregam dentro de si em segredo, mas não ousam questionar. Visto que precisamos da melhor qualidade espiritual nesse caso, também precisamos da devida quantidade de qualidade sacerdotal.
O pároco-gerente, que documenta queixosamente seu ativismo com uma agenda superlotada, não interessa às pessoas. Da mesma forma, não interessa aos jovens de hoje um sacerdote-mago. Não, as pessoas da atualidade esperam e amam pastores repletos do Espírito, bem formados, que tenham experiência do mundo e estejam impregnados de Deus, em que se perceba que são realmente servidores de Deus, tanto em seus pontos fracos quanto fortes, que, como vocacionados, também tenham uma noção das vocações divinas dos servidores do mundo, dos grandes anseios e ciladas pecaminosas de toda e qualquer existência.
O sacerdote como servidor dos seres humanos deve ser primeiramente servidor de Deus para levar as pessoas, com autoridade e sensibilidade, para Deus, para chamar a atenção delas para Deus, para levá-las a redescobrir Deus. Os sacerdotes devem preparar as pessoas para o reino de Deus. De certa forma, eles são algo assim como parteiras do nascimento de Deus no ser humano. Eles não tiram do indivíduo o trabalho de parto religioso, mas o orientam com base no bom saber e na experiência profunda e, às vezes, intervêm para facilitar as coisas em meio ao processo doloroso. Os sacerdotes devem ser, nesse sentido, parteiras do religioso, com senso de liderança e responsabilidade de líderes, mas sem bancarem os sabichões.
"A tradição não significa apenas a recordação de coisas passadas, mas também a transmissão de coisas novas"
Uma nova reflexão sobre o fato de o sacerdote ser primordialmente homem de Deus (talvez, a uma certa altura, também mulher de Deus entre os católicos e ortodoxos) poderia libertar o elemento sacramental de suas históricas reduções mágico-mitológicas e abrir o sacerdócio para uma nova espécie de representação sacramental do mistério divino, que torne a matéria de nossa existência transparente para o espiritual divino, especialmente nos dons do pão e do vinho. O santo alimento da alma e a santa bebida celestial devem nos encaminhar para uma santa comunicação, a uma santa comunhão mística – união – de Deus e do ser humano. O sacramental pode, assim, tornar-se novamente antegosto de uma grande promessa sacerdotal, para além da morte. Na celebração do sacramental, dos mistérios da salvação, poderá de fato transparecer, então, algo daquele além que ilumina a realidade deste mundo, em uma nova relação mais profunda com Cristo.
IHU On-Line – Que cenários futuros da Igreja o senhor prevê no confronto ou diálogo com a contemporaneidade?
Johannes Röser – A rigor, só há duas alternativas: ou continuar se isolando dos desdobramentos da modernidade na ciência, na arte, na cultura, na sociedade, ou reconhecer as leis próprias da realidade, o mundo do devir, a mudança constante. A compreensão da fé também tem que enfrentar as mudanças de paradigma, a mudança dos modelos conceituais, para preservar o futuro do cristianismo. Nesse sentido, ele também precisa aprender de novo a ser modesto para com o mundo, para com as pessoas, para com Deus. Jesus Cristo é o ícone do Deus desconhecido, e não simplesmente de alguém que se conhece bem. O pesquisador do cérebro Gerhard Roth disse certa vez: "Se Deus existe, ele é inteiramente diferente do que qualquer teólogo do mundo imagina". Eu acrescento: também inteiramente diferente do que alguns não crentes imaginam por "Deus".
Ser cristão significa tornar-se cristão. Isso se aplica às primeiras pessoas que creram em Jesus Cristo da mesma forma como se aplica a nós no terceiro milênio. Nossa esperança é grande.
(Por Moisés Sbardelotto. Tradução de Luís Marcos Sander)
"A tradição não significa simplesmente apenas a recordação de coisas passadas, mas também a transmissão de coisas novas". O desafio do cristianismo, portanto, é buscar "a viabilidade no futuro".
Essa é a opinião do teólogo alemão Johannes Röser, redator-chefe da revista semanal Christ in der Gegenwart, fundada logo após a Segunda Guerra Mundial. A publicação busca, justamente, "acertar as contas" entre a Igreja de hoje com os demais campos do saber, uma forma de apresentar o "Cristo no presente", como indica seu nome.
Nesta entrevista, concedida por e-mail à IHU On-Line, Röser analisa a vida da Igreja contemporânea, passando pelos avanços e impulsos pós-conciliares, o papel dos bispos e das conferências nacionais, do sacerdote do século XXI e dos desafios que se colocam diante dos leigos na sociedade atual.
Para Röser, chegamos, como Igreja, a uma encruzilhada: "A rigor, só há duas alternativas: ou continuar se isolando dos desdobramentos da modernidade na ciência, na arte, na cultura, na sociedade, ou reconhecer as leis próprias da realidade, o mundo do devir, a mudança constante", afirma.
Johannes Röser é redator-chefe da revista semanal Christ in der Gegenwart (Freiburg im Breisgau, na Alemanha), fundada em 1948, como uma publicação de diálogo entre a Igreja e os cristãos com a ciência, a arte, a cultura e a política. Röser estudou teologia em Freiburg e em Tübingen (dentre outros, com Hans Küng e com os então professores e hoje cardeais Karl Lehmann e Walter Kasper). Trabalha como jornalista desde 1981. É autor e editor de diversos livros sobre religião. Os mais recentes são Mein Glaube in Bewegung: Stellungnahmen aus Religion, Kultur und Politik; Mut zur Religion: Erziehung, Werte und die neue Frage nach Gott; Was sag ich Gott? Was sagt mir Gott?; e Jugendgebete und Gedanken, publicados pela Editora Herder.
Confira a entrevista.
IHU On-Line – O senhor afirma que uma das consequências da crise de confiança da Igreja Católica é o reforço do "antimodernismo romano". Como esse fenômeno se expressa concretamente?
Johannes Röser – Há mais tempo já se pode perceber que os acentos, colocados pelo Concílio Vaticano II, que apontavam para a frente estão sendo minimizados, bagatelizados, que os impulsos para a renovação e a reforma estão sendo "inseridos" em noções pré-conciliares. Um marco nesse sentido foi o documento Dominus Iesus da Congregação para a Doutrina da Fé. Ele interpreta o decreto sobre o ecumenismo do último Concílio de forma muito unilateral e restritiva, e nega o ser-Igreja das igrejas protestantes, o que mais tarde foi confirmado, uma vez mais, por um comunicado do Vaticano.
Outro passo da restauração foi a readmissão geral da liturgia tridentina como forma extraordinária de celebração. Nesse sentido, deve-se levar em conta que a liturgia tridentina se baseia em um modelo de compreensão espiritual que não é mais compatível com a atual experiência do mundo marcada pelo Iluminismo e pela demitologização – desde a ideia do sacrifício expiatório até noções mágicas e apegadas a milagres.
Por fim, veio a suspensão incondicional da excomunhão dos bispos de Lefèbvre, sem quaisquer exigências de conversão aos tradicionalistas e à sua postura acentuadamente antimodernista. Aliás, antes disso, muitos bispos já tinham advertido contra tal medida.
Também na ordem relativa a vestimentas e acessórios do atual papa, com sua predileção por vestes barrocas e música antiga etc., mostra-se uma certa aversão à modernidade. Durante certo tempo, Bento XVI usou o báculo de Pio IX (foto), o Papa do antimodernismo.
Acrescenta-se a isso o fato de que, apesar da acentuação da colegialidade dos bispos, a dignidade das Conferências Episcopais está sendo contestada e até minada. Cada vez mais, as Conferências Episcopais estão sendo consideradas meros órgãos administrativos ou consultivos, mas sem autoridade doutrinal. Além disso, tem-se a impressão de que, muitas vezes, os bispos são tratados como recebedores de ordens do Vaticano. Apesar disso, todo bispo tem em si, como sucessor dos apóstolos, autoridade e responsabilidade apostólicas.
Também a interpretação bíblica histórico-crítica foi recentemente relativizada e sofreu restrições por parte do papa Bento XVI em um texto pós-sinodal sobre a palavra de Deus dirigido ao Sínodo dos Bispos de 2008. Segundo ele, a exegese foi distorcida por uma compreensão secularista da Bíblia que exclui todos os elementos divinos.
Além disso, o magistério eclesiástico rejeita estritamente algumas pesquisas da biomedicina moderna. Entretanto, a história da medicina – assim como das ciências naturais de modo geral – prova que, na prática, todos os tabus eclesiásticos jamais erigidos não subsistiram a longo prazo, desde a proibição da autópsia de cadáveres – que atualmente não nos permitiria sequer operar um apêndice inflamado – até o ceticismo para com transplantes de órgãos e a proibição da contracepção hormonal, que, entrementes, se tornou um padrão no mundo todo.
IHU On-Line – Algumas das questões em voga atualmente no debate religioso são a moral sexual, o celibato e a questão dos divorciados. É possível encontrar uma solução conciliatória entre as reivindicações dos fiéis e as posições da Igreja institucional?
Johannes Röser – Essas três áreas devem ser separadas. Quanto ao celibato: também na parte latina da Igreja Católica mundial atua um número crescente de sacerdotes casados. Por exemplo, os que passaram de igrejas protestantes para a Igreja Católica e agora exercem nela o seu ministério eclesiástico. Alguns sacerdotes casados vieram da Igreja Anglicana. Agora, o papa até instituiu sedes episcopais próprias para anglicanos dispostos a trocar de Igreja, em que eles podem conservar suas tradições litúrgicas [os chamados ordinariatos pessoais]. Além disso, através dos muitos cristãos que fugiram do Oriente Próximo e do Oriente Médio, nós estamos conhecendo no Ocidente sacerdotes católicos casados das igrejas orientais unidas ao papa. Esses pastores não são “menos” sacerdotes nem sacerdotes “piores” do que aqueles da parte latina da Igreja.
"Para os cristãos, o acontecimento-Cristo é o centro da existência de fé. Buscamos uma mística que incorpore dimensões cósmicas"
Não se trata da abolição do celibato, que é e deve continuar sendo uma característica essencial da vida monástica. O que está em pauta unicamente é como se pode assegurar a celebração sacramental do mistério pascal face à forte carência de sacerdotes em muitos países mediante a liberação do celibato para sacerdotes seculares, para párocos. Qualquer outra coisa significaria que, com um número cada vez menor de sacerdotes, nós estaríamos a caminho de uma Igreja Católica livre, não obstante todo o respeito que tenho pelo caminho próprio em conformidade com o evangelho das igrejas protestantes livres. Além disso, precisamos de sacerdotes jovens – casados – para pessoas jovens – geralmente ainda não casadas –, inclusive como exemplo.
Quanto à moral sexual: graças às possibilidades contraceptivas, a sexualidade e a reprodução não estão mais vinculadas uma à outra. Por causa dos longos períodos de formação – também das mulheres – e da necessária mobilidade e flexibilidade profissional, os jovens, muitas vezes, só encontram o parceiro ou a parceira de vida bem tardiamente. Não é realista e também seria ingênuo esperar que as pessoas vivam em abstinência sexual até os 30 anos de idade ou até mais tarde. A sexualidade é uma parte essencial do amor, da atratividade e da capacidade de estabelecer relacionamentos dos seres humanos. Naturalmente, é desejável que as pessoas mantenham a fidelidade conjugal e a parceria matrimonial durante a vida inteira. Mas excluir rigorosamente o comportamento sexual nesse processo causa repulsa. O distanciamento dos jovens em relação à Igreja começa, na maioria dos casos, com o despertar da sexualidade. Por isso, a doutrina sobre a sexualidade deve ser repensada de acordo com o que é humanamente possível e faz sentido. A sexualidade é vida e determina toda a nossa vida, mesmo que o tempo para casar só venha bem mais tarde.
Algo semelhante se aplica aos divórcios. Nos países ocidentais, entrementes um de cada três casamentos termina em divórcio. Isso atinge igualmente os católicos. Naturalmente, pode-se criticar e lamentar que hoje em dia os casais se separem mais depressa do que antigamente, que a tolerância à frustração e a disposição para perdoar sejam menores, que exemplos errados tornem mais fáceis os divórcios e as trocas de parceiros. Contudo, as exigências feitas ao amor, ao relacionamento e à parceira também aumentaram, o que sobrecarrega muitas pessoas e acaba acarretando decepções. Entretanto, após um exame de consciência sincero, arrependimento, confissão de culpa, penitência e boa intenção, não se deveriam negar permanentemente o perdão e consolo dos sacramentos da Igreja a pessoas divorciadas que voltaram a se casar. Todavia, a Igreja poderia fazer mais para ajudar os casais em tempo hábil a renovar e salvar seu casamento.
IHU On-Line – Para o senhor, dois grandes problemas da Igreja são o seu fechamento e a sua distância com relação à realidade. Que papel os leigos podem ter para reverter esse quadro?
Johannes Röser – Existe uma vocação especial para o sacerdócio. E existe uma vocação igualmente divina para as profissões seculares. Muitos cristãos são atualmente especialistas em muitas áreas. Como cidadãos do mundo, eles não precisam procurar de propósito um diálogo forçado entre a Igreja e o mundo. Eles são do mundo, como cristãos. Como homem e mulher, como pais, eles são o primeiro sacerdote masculino e feminino de seus filhos. "Deus chega antes do missionário", disse Leonardo Boff certa vez. Os leigos chegam ainda antes do que o sacerdote. Entretanto, eles não substituem o ministério eclesiástico especial de direção espiritual. Alguns abismos entre leigos e clérigos, alguns casos de neoclericalismo constrangedor poderiam ser superados se o princípio sinodal fosse melhor cultivado também na Igreja Católica. Isso quer dizer que, em associações eclesiásticas, os leigos devem ter não só funções consultivas, mas também compartilhar do poder de decisão.
"Os impulsos para a renovação e a reforma [da Igreja] estão sendo 'inseridos' em noções pré-conciliares"
IHU On-Line – Como a Igreja pode encontrar um equilíbrio entre a tradição e a orientação ao futuro?
Johannes Röser – Voltando-se com rigor aos conhecimentos da atualidade e reconhecendo a evolução contínua do mundo, da vida, do saber e da fé. A consciência religiosa também se transforma no decorrer da história pessoal de vida e da história da humanidade. O chefe de Estado soviético Mikhail Gorbachev dizia: "A vida castiga quem chega tarde". Isso também se aplica ao cristianismo. A tradição não significa simplesmente apenas a recordação de coisas passadas, mas também a transmissão de coisas novas: temos de nos direcionar para a viabilidade no futuro.
IHU On-Line – Quais são as instâncias já existentes ou que novos âmbitos de diálogo precisam ser criados para que a "consulta recíproca sobre as necessidades" da Igreja, como o senhor afirma, possa ocorrer?
Johannes Röser – O ponto central e crucial é a questão de Deus. Há muito tempo, consolidou-se no sentimento de muitas pessoas uma espécie de ateísmo popular, sem qualquer intenção combativa, mas, antes, com melancolia e até com tristeza. Segundo ele, Deus, mesmo que existisse e o quisesse, não tem qualquer possibilidade de atuar e intervir no curso do mundo. Onde Deus estava quando não estava lá, por exemplo: por ocasião do tsunami, ou pelo 11 de setembro de 2001, ou no caso de vírus letais ou outras doenças, em relação aos quais o ser humano supostamente livre nada pode fazer? Na melhor das hipóteses, Deus é um grande "talvez" para muitas pessoas. Dizem elas: "Às vezes eu creio, às vezes não creio". É nesses mundos intermediários que a religiosidade ocorre atualmente, na maioria das vezes em uma esfera vaga, incerta, aproximada.
Ora, isso tem consequências para as nossas concepções de Deus. Hoje em dia, "Deus" é, para muitas pessoas, mais um verbo do que um substantivo, mais um acontecimento processual do que uma espécie de "sujeito" ou "objeto". As concepções de Deus anteriores não são mais suficientes para, face ao caráter enigmático do espaço e do tempo, ser tocado ou até abalado pela misteriosidade de Deus. Precisamos de uma escola, de uma nova visão e de um novo pressentimento religioso, justamente para pessoas reflexivas de boa vontade.
"Só há duas alternativas: ou continuar se isolando da modernidade, ou reconhecer a mudança constante"
Para os cristãos, o acontecimento-Cristo é e continua sendo o centro da existência de fé. Mas como a unicidade de Cristo pode ser associada à diversidade e ao caráter contraditório das outras percepções religiosas em todo o globo terrestre? Por que o Filho de Deus só veio a este mundo como Homo sapiens há 2 mil anos, se o Homo sapiens, o ser humano sapiente, já existia há pelo menos 100 mil anos, dotado de um cérebro complexo e inteligência cognitiva moderna? Assim, estamos e continuamos em busca de uma mística em torno de Cristo que, entre outras coisas, incorpore dimensões universais e cósmicas, mas sem se desviar especulativamente para o âmbito esotérico: uma mística que permaneça fiel à história e à terra.
O aguilhão decisivo da descrença é a mortalidade, a finitude. Com isso, porém, intensifica-se, por outro lado, nosso fascínio: que, apesar da mortalidade de tudo, exista algo e não nada, já que o nada seria muito mais plausível do que tudo que se faz sentir. O milagre do que é visível é, para muitas pessoas, bem mais maravilhoso do que o milagre daquilo que é invisível. Ora, se existe o milagre da vida – real – diante dos olhos de todos, por que não haveria de poder existir, na mesma lógica fraca, o milagre da vida eterna – objeto de esperança –, da ressurreição dos mortos? Aqui, para as pessoas crentes, abre-se o caminho para a esperança da ressurreição.
A fé em Deus, a fé em Cristo, a fé na ressurreição são os três campos de diálogo decisivos, os aspectos essenciais. Para isso, precisa-se de um novo entendimento no horizonte de nossa experiência do mundo e até um novo Concílio sobre questões de fé, semelhante aos antigos Concílios sobre questões de fé, que nunca transcorriam harmoniosamente, mas em disputa produtiva e frutífera. Isso também desafia a teologia.
IHU On-Line – Como o senhor analisa o papel das Conferências dos Bispos hoje? Ainda têm validade na conjuntura social e eclesial do século XXI? Como aumentar o diálogo entre as diversas Conferências?
Johannes Röser – Os bispos e as Conferências Episcopais falam demais sobre questões sociais, caritativas e políticas. Tudo isso é importante e necessário, particularmente a opção preferencial pelos pobres. Mas também é importante fazer os temas de casa eclesiásticos e religiosos e não desviar a atenção deles. Muitas crises religiosas são de produção própria. Seria importante revitalizar a tradição dos sínodos regionais, para se entender inicialmente com quem está geograficamente próximo. Disso poderia surgir então um processo sinodal abrangente, até se chegar a um concílio ecumênico. Não há como se esquivar disso.
"Alguns abismos entre leigos e clérigos poderiam ser superados se o princípio sinodal fosse melhor cultivado"
IHU On-Line – Como o senhor analisa a questão do sacerdócio hoje? Que papel os sacerdotes devem ter na Igreja contemporânea e que tendências o senhor percebe para o futuro do sacerdócio?
Johannes Röser – Face à grave carência de fiéis apesar dos 2 bilhões de cristãos nominais no mundo inteiro, a carência de sacerdotes não é um problema secundário. Sem proximidade pessoal, não há fé. Precisamos de algo diferente do "sacerdote administrador" ou do "sacerdote cultual" centrado nos sacramentos. Precisamos de "sacerdotes comunicadores", homens de Deus que sejam capazes de despertar e estimular a religiosidade que muitas pessoas carregam dentro de si em segredo, mas não ousam questionar. Visto que precisamos da melhor qualidade espiritual nesse caso, também precisamos da devida quantidade de qualidade sacerdotal.
O pároco-gerente, que documenta queixosamente seu ativismo com uma agenda superlotada, não interessa às pessoas. Da mesma forma, não interessa aos jovens de hoje um sacerdote-mago. Não, as pessoas da atualidade esperam e amam pastores repletos do Espírito, bem formados, que tenham experiência do mundo e estejam impregnados de Deus, em que se perceba que são realmente servidores de Deus, tanto em seus pontos fracos quanto fortes, que, como vocacionados, também tenham uma noção das vocações divinas dos servidores do mundo, dos grandes anseios e ciladas pecaminosas de toda e qualquer existência.
O sacerdote como servidor dos seres humanos deve ser primeiramente servidor de Deus para levar as pessoas, com autoridade e sensibilidade, para Deus, para chamar a atenção delas para Deus, para levá-las a redescobrir Deus. Os sacerdotes devem preparar as pessoas para o reino de Deus. De certa forma, eles são algo assim como parteiras do nascimento de Deus no ser humano. Eles não tiram do indivíduo o trabalho de parto religioso, mas o orientam com base no bom saber e na experiência profunda e, às vezes, intervêm para facilitar as coisas em meio ao processo doloroso. Os sacerdotes devem ser, nesse sentido, parteiras do religioso, com senso de liderança e responsabilidade de líderes, mas sem bancarem os sabichões.
"A tradição não significa apenas a recordação de coisas passadas, mas também a transmissão de coisas novas"
Uma nova reflexão sobre o fato de o sacerdote ser primordialmente homem de Deus (talvez, a uma certa altura, também mulher de Deus entre os católicos e ortodoxos) poderia libertar o elemento sacramental de suas históricas reduções mágico-mitológicas e abrir o sacerdócio para uma nova espécie de representação sacramental do mistério divino, que torne a matéria de nossa existência transparente para o espiritual divino, especialmente nos dons do pão e do vinho. O santo alimento da alma e a santa bebida celestial devem nos encaminhar para uma santa comunicação, a uma santa comunhão mística – união – de Deus e do ser humano. O sacramental pode, assim, tornar-se novamente antegosto de uma grande promessa sacerdotal, para além da morte. Na celebração do sacramental, dos mistérios da salvação, poderá de fato transparecer, então, algo daquele além que ilumina a realidade deste mundo, em uma nova relação mais profunda com Cristo.
IHU On-Line – Que cenários futuros da Igreja o senhor prevê no confronto ou diálogo com a contemporaneidade?
Johannes Röser – A rigor, só há duas alternativas: ou continuar se isolando dos desdobramentos da modernidade na ciência, na arte, na cultura, na sociedade, ou reconhecer as leis próprias da realidade, o mundo do devir, a mudança constante. A compreensão da fé também tem que enfrentar as mudanças de paradigma, a mudança dos modelos conceituais, para preservar o futuro do cristianismo. Nesse sentido, ele também precisa aprender de novo a ser modesto para com o mundo, para com as pessoas, para com Deus. Jesus Cristo é o ícone do Deus desconhecido, e não simplesmente de alguém que se conhece bem. O pesquisador do cérebro Gerhard Roth disse certa vez: "Se Deus existe, ele é inteiramente diferente do que qualquer teólogo do mundo imagina". Eu acrescento: também inteiramente diferente do que alguns não crentes imaginam por "Deus".
Ser cristão significa tornar-se cristão. Isso se aplica às primeiras pessoas que creram em Jesus Cristo da mesma forma como se aplica a nós no terceiro milênio. Nossa esperança é grande.
(Por Moisés Sbardelotto. Tradução de Luís Marcos Sander)
quarta-feira, 30 de novembro de 2011
Alvorecer ou declínio do Concílio?
Os rios cársticos correm debaixo da terra, mas mais cedo ou mais tarde retornam à luz. Foi o que ocorreu no sábado, 16, em Firenze, no encontro que reuniu 350 pessoas de toda a Itália, indivíduos cristãos e representantes de grupos, paróquias, comunidades de base. O rio cárstico do mundo que se reconhece em uma Igreja mais conciliar e mais sinodal voltou à luz. Uma Igreja que não se reduz aos movimentos, à hierarquia, à religião civil que – apontando a natureza como referência para a ética – busca reencontrar uma centralidade na sociedade como instituição, apontando mais para a relevância social do que para a força do Evangelho.
O relato é de Christian Albini, publicado no blog Sperare per tutti, do jornal La Stampa, 19-05-2009.
A tradução é de Moisés Sbardelotto.
A iniciativa teve um porte nacional, apesar de a informação ter sido difundida em grande parte pelo boca a boca informal, por causa do mal estar que uma parte do povo de Deus sente, "o sofrimento de justamente não ver o Evangelho do Reino, anunciado por Jesus aos pobres, aos pecadores, aos que jazem sob o domínio do mal, no centro da atenção comum, enquanto cresce exageradamente a pregação da Lei". "Gostaria, no entanto, que ficasse claro que esse encontro não é contra ninguém, mas é por algo", explicou Pe. Paolo Giannoni, oblato camaldolense e um dos principais promotores da iniciativa. Do seu ermo em Mosciano, na Toscana, ele indica que "ninguém está excluído desse caminho. A atitude é inclusiva, de abertura, e afirma uma Igreja que, como a veste de Jesus, toda tecida em uma parte, é unida, mas não uniforme".
"Uniformizá-la significaria perder a sua grande riqueza. Diante de um método que há anos vem se afirmando numa via excludente, queremos uma abertura que diga claramente que o Senhor nos chamou para edificar não uma Igreja que condena, mas uma Igreja que manifeste a misericórdia do Pai, que viva na liberdade do Espírito, que saiba sofrer e se alegrar com toda mulher e com todo homem que lhe é dado encontrar".
A intenção, enfim, era dar alento, voz e esperança àqueles fiéis que não se reconhecem plenamente nas orientações do atual período eclesial. Havia os "filhos" de Dossetti, de Turoldo, de Balducci: estudiosos como Alberto Melloni; padres que conjugam o serviço aos últimos e o aprofundamento da Palavra como Giovanni Nicolini; teólogos como Giuseppe Ruggieri e Serena Noceti; padres operários; realidades locais e nacionais de todo o tipo como "Noi siamo Chiesa", "Pax Christi", "Il chicco di senape" de Turim, "Il gallo" de Gênova, grupos de fiéis homossexuais e muitos outros... Chegaram mensagens de Luigi Bettazzi e Camillo De Piaz, entre os últimos protagonistas do período conciliar. Pessoas e ambientes com uma história muitas vezes importante se encontraram. Os dois troncos principais eram o do dissenso católico e o do catolicismo democrático, nem sempre capaz de colaborar ao longo dos anos.
Enrico Peyretti e Ugo Rosenberg de Turim iniciaram com um reconhecimento das cerca de 40 contribuições que foram enviadas em vista do encontro, fazendo emergir cinco pontos centrais: a mudez do laicato, a mundanização da sociedade e da Igreja, o esquecimento do Concílio, o analfabetismo bíblico e o déficit de gratuidade e pobreza no agir eclesial. Foi retomada também a pergunta de Helder Câmara que eu havia proposto no texto enviado por mim: "Se os bispos são os sucessores dos apóstolos, onde estão os sucessores dos profetas e dos doutores?", interrogação que expressa o desejo de uma Igreja una, mas não uniforme, marcada pela riqueza da variedade. Como é a Igreja narrada pela Bíblia.
As duas relações principais foram as de Paolo Giannoni e Giuseppe Ruggieri.
O primeiro deteve-se na força do Evangelho proclamado por Jesus, que assumiu todas as realidades humanas, "tocou" os corpos para infundir a cura, se sentou à mesa com os pecadores, tornando o mistério do amor trinitário visível aos nossos olhos e palpável às nossas mãos. Um amor que contém dentro de si o outro e que constitui a forma da Igreja. Cristo não exclui ninguém, mas assume tudo e todos. Isso tem diversas consequências para a vida da Igreja, entre as quais o fato de estarmos todos em busca, em crescimento, e a necessidade de um "convir".
Giuseppe Ruggieri, pelo contrário, expôs os elementos de uma Igreja da fraternidade e da amizade, conduzida não por uma doutrina, mas por algumas experiências fundamentais: a liturgia como fonte da liberdade da Igreja e como base da sua sinodalidade (na "Sacrosanctum concilium", a liturgia é apresentada tanto como dom de Deus, como participação); o chamado da Igreja a seguir Jesus pobre no anúncio do Evangelho (pelo qual o Evangelho basta a si mesmo, sem necessidade de sustentações temporais); enfim, a misericórdia contínua do Pai como fundamento da Igreja (a qual subsiste só sobre o fundamento da graça e não dos próprios méritos) e o anúncio aos homens e às mulheres (uma Igreja sem pecado, então, é ilusão e até o fim dos tempos ela leva consigo a cizânia. Por isso, só é possível voltar-se aos outros com a ternura e a misericórdia recebidas de Deus).
A proposta final de Ruggieri foi a de um fórum permanente dos cristãos, um evento de Igreja que seja a atuação da sinodalidade tão evocada.
Nas breves intervenções que se sucederam durante a tarde, a necessidade de um encontro desse tipo e o desejo de seguir adiante foram uma constante. Além do fórum, falou-se sobre um conselho de leigos, de Internet, de coordenação e expressões semelhantes. Em algumas prevaleceu a denúncia, a invectiva (nascidas muitas vezes de feridas profundas), mas o que é verdadeiramente decisivo são as perspectivas futuras, para que o encontro de Firenze não seja um fogo de palha. Perder-se nas condenações significaria replicar o estilo que não é aceito por parte da hierarquia e seria um exercício leviano, além de estar em contradição com o pedido de uma comunidade cristã verdadeiramente acolhedora. Não por acaso, Giannoni convidou que fossem recolhidas as razões de todos e afirmou que, em uma ocasião do gênero, teria sido significativo se bispos e lefebvrianos também tivessem participado.
A necessidade de mais liberdade, de ter mais voz, de busca, de contribuir com a missão da Igreja requerem uma tradução em um percurso e em uma idealização que faça surgir essa opinião pública hoje ausente na Igreja. Não para transformar a comunidade cristã em um parlamento ou em uma organização, mas para dar espaço à ação do Espírito que sopra sobre todos os discípulos do Senhor, e não só sobre estes.
Os temas colocados sobre a mesa foram muitos: os últimos, a paz, a laicidade, a imigração, as mulheres na Igreja... Todos importantes, mas se estivemos reunidos para fazer uma experiência de Igreja (antes que política ou cultural), que não é possível nos contextos "oficiais", então o objeto de estarmos reunidos foi, antes de tudo, a Igreja, o modo de concebê-la e de vivê-la na fé, que se reflete na aproximação a outros temas e nas escolhas operativas dos fiéis. Aprofundar e praticar uma outra face de Igreja é tornar operante a própria fé, como disse Ruggieri, isto é, uma fé que saiba desenvolver a energia nas coisas em que se acredita. De fato, entre as breves intervenções da tarde, achei particularmente incisiva a de Serena Noceti, que, com grande capacidade sintética e força conceitual, indicou na eclesiologia a direção para a qual prosseguir a partir dos textos conciliares. Sem ignorar os fortes momentos de oração, como pediu Gianni Geraci.
A meu ver, ao se dar seguimento ao encontro de Firenze, será decisiva a dimensão da comunicação. Há um abismo a ser ultrapassado, é preciso manter a lâmpada alta, para que ilumine. Mesmo que positivo e enriquecedor, foi um momento para os "adeptos aos trabalhos". Havia pessoas de grande valor e estatura, mas a idade média elevada era índice do pertencimento a mundos que os 30 anos de "freio de mão" sobre o Concílio esvaziaram e destruíram, empurrando para a periferia do espaço eclesial. É tempo de fazer crescer uma nova geração. Eis porque é decisivo trabalhar a comunicação.
Se houver, como se projetou, outros encontros (um ou dois por ano, talvez alternando entre o norte e o sul da Itália), a comunicação se torna indispensável para ampliar o envolvimento e a participação. O dia 16 de maio não deveria ser repetido, mas deveria ser um ponto de partida para criar momentos de Igreja inclusivos e abertos, para fazer crescer vozes que saibam verdadeiramente fazer-se ouvir, para fazer crescer uma consciência conciliar. Senão, o risco é criar um círculo fechado, elitista, em que só se fala para dentro.
Agora há duas eventualidades (e uma grande responsabilidade) para os promotores: o encontro de Firenze pode ser um alvorecer ou um declínio para o Concílio na Itália, o canto do cisne de uma geração, ou o início de uma nova história. A minha sugestão é que se use a Internet para manter o contato entre os participantes, recolhendo ideias sobre os passos futuros e mantendo assim o estilo de acolhida de cada contribuição que caracterizou a preparação desse encontro.
O relato é de Christian Albini, publicado no blog Sperare per tutti, do jornal La Stampa, 19-05-2009.
A tradução é de Moisés Sbardelotto.
A iniciativa teve um porte nacional, apesar de a informação ter sido difundida em grande parte pelo boca a boca informal, por causa do mal estar que uma parte do povo de Deus sente, "o sofrimento de justamente não ver o Evangelho do Reino, anunciado por Jesus aos pobres, aos pecadores, aos que jazem sob o domínio do mal, no centro da atenção comum, enquanto cresce exageradamente a pregação da Lei". "Gostaria, no entanto, que ficasse claro que esse encontro não é contra ninguém, mas é por algo", explicou Pe. Paolo Giannoni, oblato camaldolense e um dos principais promotores da iniciativa. Do seu ermo em Mosciano, na Toscana, ele indica que "ninguém está excluído desse caminho. A atitude é inclusiva, de abertura, e afirma uma Igreja que, como a veste de Jesus, toda tecida em uma parte, é unida, mas não uniforme".
"Uniformizá-la significaria perder a sua grande riqueza. Diante de um método que há anos vem se afirmando numa via excludente, queremos uma abertura que diga claramente que o Senhor nos chamou para edificar não uma Igreja que condena, mas uma Igreja que manifeste a misericórdia do Pai, que viva na liberdade do Espírito, que saiba sofrer e se alegrar com toda mulher e com todo homem que lhe é dado encontrar".
A intenção, enfim, era dar alento, voz e esperança àqueles fiéis que não se reconhecem plenamente nas orientações do atual período eclesial. Havia os "filhos" de Dossetti, de Turoldo, de Balducci: estudiosos como Alberto Melloni; padres que conjugam o serviço aos últimos e o aprofundamento da Palavra como Giovanni Nicolini; teólogos como Giuseppe Ruggieri e Serena Noceti; padres operários; realidades locais e nacionais de todo o tipo como "Noi siamo Chiesa", "Pax Christi", "Il chicco di senape" de Turim, "Il gallo" de Gênova, grupos de fiéis homossexuais e muitos outros... Chegaram mensagens de Luigi Bettazzi e Camillo De Piaz, entre os últimos protagonistas do período conciliar. Pessoas e ambientes com uma história muitas vezes importante se encontraram. Os dois troncos principais eram o do dissenso católico e o do catolicismo democrático, nem sempre capaz de colaborar ao longo dos anos.
Enrico Peyretti e Ugo Rosenberg de Turim iniciaram com um reconhecimento das cerca de 40 contribuições que foram enviadas em vista do encontro, fazendo emergir cinco pontos centrais: a mudez do laicato, a mundanização da sociedade e da Igreja, o esquecimento do Concílio, o analfabetismo bíblico e o déficit de gratuidade e pobreza no agir eclesial. Foi retomada também a pergunta de Helder Câmara que eu havia proposto no texto enviado por mim: "Se os bispos são os sucessores dos apóstolos, onde estão os sucessores dos profetas e dos doutores?", interrogação que expressa o desejo de uma Igreja una, mas não uniforme, marcada pela riqueza da variedade. Como é a Igreja narrada pela Bíblia.
As duas relações principais foram as de Paolo Giannoni e Giuseppe Ruggieri.
O primeiro deteve-se na força do Evangelho proclamado por Jesus, que assumiu todas as realidades humanas, "tocou" os corpos para infundir a cura, se sentou à mesa com os pecadores, tornando o mistério do amor trinitário visível aos nossos olhos e palpável às nossas mãos. Um amor que contém dentro de si o outro e que constitui a forma da Igreja. Cristo não exclui ninguém, mas assume tudo e todos. Isso tem diversas consequências para a vida da Igreja, entre as quais o fato de estarmos todos em busca, em crescimento, e a necessidade de um "convir".
Giuseppe Ruggieri, pelo contrário, expôs os elementos de uma Igreja da fraternidade e da amizade, conduzida não por uma doutrina, mas por algumas experiências fundamentais: a liturgia como fonte da liberdade da Igreja e como base da sua sinodalidade (na "Sacrosanctum concilium", a liturgia é apresentada tanto como dom de Deus, como participação); o chamado da Igreja a seguir Jesus pobre no anúncio do Evangelho (pelo qual o Evangelho basta a si mesmo, sem necessidade de sustentações temporais); enfim, a misericórdia contínua do Pai como fundamento da Igreja (a qual subsiste só sobre o fundamento da graça e não dos próprios méritos) e o anúncio aos homens e às mulheres (uma Igreja sem pecado, então, é ilusão e até o fim dos tempos ela leva consigo a cizânia. Por isso, só é possível voltar-se aos outros com a ternura e a misericórdia recebidas de Deus).
A proposta final de Ruggieri foi a de um fórum permanente dos cristãos, um evento de Igreja que seja a atuação da sinodalidade tão evocada.
Nas breves intervenções que se sucederam durante a tarde, a necessidade de um encontro desse tipo e o desejo de seguir adiante foram uma constante. Além do fórum, falou-se sobre um conselho de leigos, de Internet, de coordenação e expressões semelhantes. Em algumas prevaleceu a denúncia, a invectiva (nascidas muitas vezes de feridas profundas), mas o que é verdadeiramente decisivo são as perspectivas futuras, para que o encontro de Firenze não seja um fogo de palha. Perder-se nas condenações significaria replicar o estilo que não é aceito por parte da hierarquia e seria um exercício leviano, além de estar em contradição com o pedido de uma comunidade cristã verdadeiramente acolhedora. Não por acaso, Giannoni convidou que fossem recolhidas as razões de todos e afirmou que, em uma ocasião do gênero, teria sido significativo se bispos e lefebvrianos também tivessem participado.
A necessidade de mais liberdade, de ter mais voz, de busca, de contribuir com a missão da Igreja requerem uma tradução em um percurso e em uma idealização que faça surgir essa opinião pública hoje ausente na Igreja. Não para transformar a comunidade cristã em um parlamento ou em uma organização, mas para dar espaço à ação do Espírito que sopra sobre todos os discípulos do Senhor, e não só sobre estes.
Os temas colocados sobre a mesa foram muitos: os últimos, a paz, a laicidade, a imigração, as mulheres na Igreja... Todos importantes, mas se estivemos reunidos para fazer uma experiência de Igreja (antes que política ou cultural), que não é possível nos contextos "oficiais", então o objeto de estarmos reunidos foi, antes de tudo, a Igreja, o modo de concebê-la e de vivê-la na fé, que se reflete na aproximação a outros temas e nas escolhas operativas dos fiéis. Aprofundar e praticar uma outra face de Igreja é tornar operante a própria fé, como disse Ruggieri, isto é, uma fé que saiba desenvolver a energia nas coisas em que se acredita. De fato, entre as breves intervenções da tarde, achei particularmente incisiva a de Serena Noceti, que, com grande capacidade sintética e força conceitual, indicou na eclesiologia a direção para a qual prosseguir a partir dos textos conciliares. Sem ignorar os fortes momentos de oração, como pediu Gianni Geraci.
A meu ver, ao se dar seguimento ao encontro de Firenze, será decisiva a dimensão da comunicação. Há um abismo a ser ultrapassado, é preciso manter a lâmpada alta, para que ilumine. Mesmo que positivo e enriquecedor, foi um momento para os "adeptos aos trabalhos". Havia pessoas de grande valor e estatura, mas a idade média elevada era índice do pertencimento a mundos que os 30 anos de "freio de mão" sobre o Concílio esvaziaram e destruíram, empurrando para a periferia do espaço eclesial. É tempo de fazer crescer uma nova geração. Eis porque é decisivo trabalhar a comunicação.
Se houver, como se projetou, outros encontros (um ou dois por ano, talvez alternando entre o norte e o sul da Itália), a comunicação se torna indispensável para ampliar o envolvimento e a participação. O dia 16 de maio não deveria ser repetido, mas deveria ser um ponto de partida para criar momentos de Igreja inclusivos e abertos, para fazer crescer vozes que saibam verdadeiramente fazer-se ouvir, para fazer crescer uma consciência conciliar. Senão, o risco é criar um círculo fechado, elitista, em que só se fala para dentro.
Agora há duas eventualidades (e uma grande responsabilidade) para os promotores: o encontro de Firenze pode ser um alvorecer ou um declínio para o Concílio na Itália, o canto do cisne de uma geração, ou o início de uma nova história. A minha sugestão é que se use a Internet para manter o contato entre os participantes, recolhendo ideias sobre os passos futuros e mantendo assim o estilo de acolhida de cada contribuição que caracterizou a preparação desse encontro.
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