As forças progressistas, da Teologia da Libertação, incluindo teólogos/as, pastorais sociais, Cebs, agentes de pastoral, religiosos/as, leigos e leigas, se mobilizaram para participar da Conferencia de Aparecida (2007) - uma des suas ações foi a Tenda dos Mártires, como espaço aberto, celebrativo, por 15 dias, enquanto durou a Conferência. A Tenda dos Mártires foi um alerta à toda Igreja para não esquecer seus mártires, sua caminhada, sua identidade de libertação.
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terça-feira, 10 de dezembro de 2013
''Francisco começou uma mudança de paradigmas'', afirma Hans Küng
O Papa Francisco começou uma "primavera católica", e o seu impulso reformador poderia chegar até a abolição da obrigação do celibato para os sacerdotes: quem defende isso é Hans Küng em entrevista à revista Spiegel.//////////////////////
A nota é de Giacomo Galeazzi, publicada no blog Oltretevere, 08-12-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Para o teólogo suíço, "a simplificação do vestuário, as modificações no protocolo, uma linguagem completamente diferente não são exterioridade. Francisco começou uma mudança de paradigmas".
//////////Küng compara o papa argentino a João XXIII, que, ao contrário dele,fez "as reformas 'en passant' e sem um programa". O teólogo se diz convicto de que o Papa Francisco é capaz de introduzir modificações radicais, porque, "do ponto de vista jurídico, ele tem mais poder do que o presidente dos Estados Unidos".
"Se ele quisesse", observa o teólogo, "poderia abolir o celibato da noite para o dia. Eu não acho que essa questão possa ser adiada, porque, a cada dia que passa, há menos padres. Eu não sei como se pode assegurar o cuidado dos fiéis na Alemanha na próxima geração. A base da Igreja está pronta para essa reforma [do celibato]".
Küng teme que, no Vaticano, as reformas possam encontrar resistências e que haja "um retorno para trás como na Primavera Árabe": "No Vaticano e na Igreja, existem grupos poderosos que gostariam de inverter o sentido da marcha, porque temem pelos seus próprios privilégios".
O teólogo também criticou a decisão de santificar João Paulo II, que definiu de "o pontífice mais contraditório do século XX".
Francisco, o ''alegre anunciador''
No período de Natal, nunca tinha sido tão pouco simpático o clima no Vaticano – principalmente para aqueles senhores que até agora detinham o poder e que acreditavam que os faustos da Basílica de São Pedro lhes serviam simplesmente como pano de fundo. Agora, no primeiro sábado do Advento, o papa sorridente pregou a "misericórdia". E, para mostrar que para os cristãos só importa o serviço ao próximo, vestiu-se como um pároco do interior: em vez dos habituais paramentos usados no Advento, bordados a ouro, Francisco tinha apenas um simples pluvial roxo, a cor prevista pelo calendário litúrgico para o mês de dezembro. E a cruz processional era de madeira.
A reportagem é de Evelyn Finger, Christiane Florin e Patrick Schwarz, com a colaboração de Marco Ansaldo e Wolfgang Thielmann, publicada no jornal alemão Die Zeit, 05-12-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
De madeira! Os fãs do glamour na Cúria, aquele gigantesco aparato administrativo do Vaticano, ficaram horrorizados. Onde vamos acabar, sussurravam alguns, se renunciarmos às insígnias do poder? Esses murmuradores, no entanto, já estão um pouco acostumados com o Papa Francisco: cruzes de ferro como se não houvesse um precioso tesouro da Igreja. A maleta preta velha e engordurada, como se o sucessor de Pedro fosse um simples empregado. Os velhos sapatos com cadarços, como se o representante de Deus fosse simplesmente um homem. Há apenas um ano – nas vésperas do Advento, com o antecessor Bento XVI –, a Basílica de São Pedro cintilava com diamantes, e o antigo papa estava ornado como uma... sim, como uma árvore de Natal.
Há nove meses, é o argentino de 76 anos Jorge Mario Bergoglio o líder espiritual dos católicos. Ele é o primeiro papa – isso não acontecia há muito tempo – que consegue irritar o mundo. O mundo pequeno, dentro dos muros do Vaticano. E o mundo grande do lado de fora.
Ele não só conservou os seus sapatos velhos. Ele também concedeu entrevistas que são entendidas pelos leigos. Ele foi para Lampedusa para se encontrar com os refugiados sobreviventes das travessias nos botes, entrando em contato com uma das muitas realidades urgente do nosso tempo. Ele contratou especialistas externos para lançar luz na escuridão das finanças vaticanas. Ele enviou questionários para todo o mundo para saber o que os católicos pensam sobre amor, sexo e coabitação.
E receitou um remédio a milhares de pessoas na Praça de São Pedro. Com a sua figura branca no alto da janela do Palácio Apostólico, ele gritou no Ângelus à multidão: "Agora eu gostaria de lhes aconselhar um remédio!". Depois, levantou uma caixa de medicamento, com a palavra "Misericordina". (Não era uma nova marca de remédios, mas sim a antiga palavra latina para "misericórdia".) Embaixo, na praça, irmãs distribuíram 25 mil dessas caixas, dentro das quais havia um pequeno terço. A multidão riu e aplaudiu. Um papa com senso de humor. Ou apenas marketing?
Contra essa última insinuação, falam as 256 páginas escritas pelo papa, uma carta apostólica, um novo "manifesto vaticano": a Evangelii Gaudium, "a alegria do evangelho". Não foi a competente Congregação para a Doutrina da Fé que escreveu esse grande volume, mas sim o papa pessoalmente. Em vez de desaparecer, no mês de agosto, para Castel Gandolfo, isto é, a residência de verão cercada por bosques nas colinas acima do Lago Albano, ele permaneceu nos 35 graus da quente Roma para escrever, contra a certeza de que uma Igreja com 2 mil anos de idade não pode mudar.
Renovação inadiável
Agora, não só os fiéis leem incrédulos que o papa está mais perto de "uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas ruas" em vez de "uma Igreja doente pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças". A sua Igreja, diz Francisco, ficou sem alegria e amor – é hora de uma "renovação inadiável". Do mandamento fundamental do amor ao próximo, o papa tira máximas revolucionárias no campo social: não à idolatria do dinheiro! Não à desigualdade social! Não à preguiça do coração! Acima de tudo, porém, ele declara guerra à dureza de coração, começando pela sua própria casa.
Aqui alguns cardeaisl começam a murmurar: este papa quer arruinar a Igreja! Ele repreende mais os pecados do clero do que os do mundo lá fora! Adorna a Igreja com galhos e ramos secos. Quer fortalecê-la com a fraqueza. No Vaticano, o Kremlin católico, os nomes "Francisco" e "Gorbachev" são pronunciados juntos cada vez mais frequentemente.
A revolução começa com o café da manhã na Casa Santa Marta, onde o papa mora. Na sala comum, ele não se senta sempre na mesma mesa. Ele vai buscar a sua refeição pessoalmente e se senta ao lado dos outros. Apenas para trabalhar ele sobe ao Palácio Apostólico, na Secretaria de Estado, onde estão grandes afrescos e antigos mapas-múndi que dão a impressão de se estar muito no alto. Dominadores do orbe terráqueo.
Mas ele se interessa por aqueles que estão embaixo.
Muitos católicos, cujo cotidiano tinha pouco a ver com o que um velho diz em Roma, mal podem acreditar: finalmente um papa quer saber algo das suas vidas. Finalmente, alguém com autoridade diz que excluir, denunciar e incutir temor não são virtudes cristãs.
Finalmente desmorona o sistema das punições para aqueles que pensam diferente e dos elogios daqueles que seguem rigorosamente as prescrições. Nenhuma proibição de ensino, de pensamento, de expressão. Muito ainda está só no papel, não na prática. Mas, depois de anos de nada, já basta a frase de que muitos padres nas igrejas tem uma "cara de funeral" para explodir a euforia nas pessoas. Justamente em nome da Boa Nova, diz ele, muitas pessoas se detêm no descontentamento, no lamento, na crítica ou no remorso. Justamente o homem que está no alto prescreve agora um riso libertador e anárquico.
Destruidor de tradições
O sorriso nos olhos de Francisco é o mais difícil para Cesare Bella. Ele é um artista do Studio Mosaico, um laboratório muito antigo ao lado da Casa Santa Marta. Bella e Francisco estão próximos, mas a sua relação ainda não é clara: enquanto o papa tende para o futuro, Bella tem uma tradição a defender. O seu trabalho consiste em fazer um mosaico que represente o papa, como é o costume há 500 anos. O quadro está quase pronto. E Bella se pergunta: ele vai ser do agrado desse destruidor de tradições?
Oito pessoas trabalham no Studio Mosaico. Quem trabalhava lá antes deles decorou as paredes da Basílica de São Pedro, todos os anjos e os gigantescos mosaicos com os santos, até a cúpula. Uma grande transfiguração de minúsculas pedras. No laboratório, sente-se o cheiro do pó das antigas peças conservadas em intermináveis fileiras de gavetas. Todas as vezes que um novo papa é eleito, coloca-se sobre o cavalete uma pesada laje de pedra redonda de 136 centímetros de diâmetro.
Em primeiro lugar, um dos artistas aplica o fundo dourado. Depois, se dedica ao hábito papal com a capa vermelha. No fim, um dos mestres começa a fazer o seu rosto. Para a pele de Francisco, Bella usou peças de mosaico opacas, de 100 anos de idade e com quase 1.000 nuances. E só para as pupilas utilizou 70 cores. E, para fazer isso, ele tinha apenas uma foto um pouco desfocada como modelo. Porque este papa – que não quer nenhum culto à personalidade e que precisamente por isso é apreciado – se deixa fotografar apenas a contragosto. Ele concedeu ao fotógrafo do Vaticano apenas dois encontros. E, a cada vez, depois de alguns minutos, dizia: "Agora chega".
No Studio Mosaico, dizem que lhes agrada o seu novo vizinho. Pelo bom humor que ele difunde. Porque cumprimenta os guardas suíços apertando as suas mãos, conversando com os policiais e porque não deixa que lhe tragam o café, mas ele mesmo o busca sozinho na máquina.
Esta semana, o papa vai ver o seu retrato, antes que ele seja colocado na Basílica de São Paulo, no fim da longa série dos seus 265 antecessores. Um friso de cabeças de substitutos de Deus! Uma galeria que vai do passado até o presente.
O que realmente interessa a esse papa de olhos sorridentes?
Essa é a pergunta do cardeal Gerhard Ludwig Müller, e ele não sorri pensando nisso. O bávaro vem da diocese de Regensburg, é o segundo mais poderoso da Igreja Católica – e o mais tenaz opositor de Francisco.
Perto das 12 horas de um dia da semana passada, o carro do papa passou pela praça da Cidade Leonina, ao lado da colunata da Basílica de São Pedro, na frente da residência privada de Müller. Pouco depois, Francisco estava sentado à mesa de jantar da casa de Müller, as freiras Huberta e Helgardis serviram bife à milanesa e batatas cozidas. No momento do café, o argentino Jorge Mario Bergoglio disse em bávaro perfeito: "I ko nimma".
Em honra ao seu anfitrião, ele tinha aprendido com Huberta e Helgardis algumas palavras de bávaro. Esse homem, ao que parece, quer contentar até mesmo o seu mais obstinado opositor. "Amai os vossos inimigos"...
Francisco e Müller. O papa e o prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Os dois não se distinguem apenas pelo comprimento do seu título. Raramente o mais alto guardião de antigas doutrinas da fé, isto é, Müller, esteve em tão más relações com o anunciador de tal fé. Do ponto de vista do alemão, um latino-americano, bem-humorado e despreocupadamente, está demolindo um antiquíssimo edifício. Quanta desordem e insegurança Francisco trouxe ao mundo ordenado da dogmática romano-católica! Ele não mostra nenhuma deferência e nem mesmo um pouco de respeito pelo Santo Ofício, a base do poder de Müller, antigamente a autoridade da Inquisição, a qual, ainda com o Papa João Paulo II, tiveram que comparecer os "desviacionistas" de todas as partes do mundo para se defenderem, em uma luta sem esperanças, para que não lhes fosse retirada a permissão para ensinar.
Francisco é contra? Recentemente, ele aconselhou os visitantes que vinham da sua pátria para que não se preocupassem muito caso recebessem uma advertência de Roma. Leiam, ponham de lado e continuem no seu caminho, foi o seu conselho espirituoso.
Se Francisco quer uma Igreja pobre, Müller espera uma Igreja pomposa. Onde Francisco vê aliados, por exemplo entre os protestantes, Müller vê rivais ou renegados. Quando Francisco prega compreensão, diante dos divorciados em segunda união ou dos homossexuais, Müller insiste com as proibições. E enquanto Francisco prescreveu ao pródigo bispo alemão Tebartz-van Elst um período de suspensão, Müller troveja contra a mídia que massacram um honesto dignitário.
Mas o chefe e o ideólogo-chefe não estão tão distantes um do outro quanto no seu modo de olhar para os milhões e milhões de católicos em todo o mundo. Para Müller, a Igreja governa sobre o povo de Deus, diz-lhe o que é bom e o que é mau, o que deve ser feito e o que se deve evitar. Quão diferentemente se posiciona o papa! Para ele, a Igreja começa de baixo, e no alto deve dar uma boa prova de si mesma – antes o povo, depois os príncipes. Não o contrário.
A insurgência de Müller
Continuamente, Müller se insurgiu, empregou o resto de autoridade que lhe restava como prefeito tardiamente chamado, nomeado pelo papa bávaro no seu declínio. Quantas coisas Müller tentou a partir do conclave: antes o abraço, depois a arrogância, no fim a intriga. Assim, ele reconheceu a Francisco, de cima a baixo, o seu talento "pastoral" – o que significa algo como: o novo homem é um bom pastor, mas, contra os lobos deste mundo, deixem que a tarefa cabe a mim.
Mas o homem que vem de Buenos Aires, mais corajoso do que se esperava, não quer que o mundo seja envenenado por alguém que fareja ao redor apenas por inimigos. E assim continuam se chocando, de um lado o "papa do tango e do cinema", e de outro o guardião da fé da equipe de Ratzinger, um osso duro de aperto de mão mole.
O protegido de Ratzinger insiste quase desesperadamente na observância das regras. Se Francisco apenas deixa escapar que a misericórdia pelos divorciados em segunda união é um desejo seu, Müller responde disparando uma intervenção sua no L'Osservatore Romano, o Pravda do Vaticano: está absolutamente excluído que os divorciados em segunda união jamais possam receber a comunhão. Roma locuta, causa finita: uma vez que Roma falou, o caso está encerrado.
Em anos anteriores, tal anátema teria cortado qualquer protesto. Agora, ao invés, o protesto vem de cima. E alguns cardeais, que se situam logo abaixo daquele que está acima, põem em dúvida o poder de Müller. O primeiro a reagir foi o cardeal Reinhard Marx, de Munique. Nenhuma misericórdia pelos divorciados em segunda união? "O prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé não pode pôr fim ao debate". Pouco depois, alguns luminares um pouco menores ousaram se pronunciar, como o bispo de Trier, com declarações semelhantes.
Nessa perestroika da Igreja, não está totalmente claro quem é apenas um eloquente vira-casacas e quem agora diz livremente aquilo de que estava convencido há anos. O que está claro é que assim andam as coisas quando um reino está indo à ruína.
O ''governo suplementar'' de Francisco
Enquanto o inquisidor Müller ainda luta pela sua influência sobre o curso da Igreja, Francisco criou há muito tempo um "governo suplementar" ou, melhor, um "governíssimo". Ele é formado por diversas comissões recém-formadas.
Regularmente, ele reúne oito cardeais provenientes todos os continentes, um G8 católico, apenas um pouco menos internacional do que a cúpula de chefes de governo de todo o mundo. Nesta semana, justamente, ocorre a segunda reunião. O cardeal Marx, único alemão do grupo, teve que atualizar em tempo recorde o seu rudimentar italiano. Não há nenhum tradutor simultâneo e nem mesmo um secretário ao redor da mesa com os cardeais.Os assuntos abordados são explosivos demais.
O cenário tem a aparência de uma conspiração, só que o chefe também faz parte. Em algum lugar no Vaticano, há uma mesa, ao redor da qual se sentam os hóspedes e o anfitrião da casa. Nove cabeças parece que não são suficientes para governar um bilhão de católicos. O que era impensável no quartel general do governo vaticano com todos os seus dicastérios, eminências, excelências, prelados com títulos honoríficos e protonotários, aqui ocorre facilmente.
A constituição absolutista do Estado da Igreja – com o papa como poder legislativo, executivo e judiciário reunidos em uma pessoa só – sempre foi considerada a encarnação da negação do progresso: um novo começo no absolutismo pode ser extremamente corroborante e simples.
O arcebispo Müller – é quase desnecessário dizer – não faz parte do grupo. Enquanto o papa planeja a sua mudança, só resta a Müller o passeio ao longo da Via della Conciliazione até o Hotel Columbus. Essa rua é uma pista aberta na cidade, que leva da Praça de São Pedro até o Tibre, por 500 metros, uma imagem que ficou famosa pelas câmeras de televisão. Caminhando, Müller tenta convencer os jornalistas que confiam na sua própria visão das coisas e na sua obstinação.
Em nenhum outro lugar do mundo é possível encontrar amigos e inimigos em luta pelo poder em uma organização mundial reunidos em poucos metros quadrados. É isso que torna tudo tão apaixonante para os espectadores. E tão perigoso para os combatentes.
Gänswein, um servidor dividido entre dois senhores
As poltronas do Palácio Apostólico ainda têm encostos e braços dourados, e as paredes exibem um damasco vermelho. Mas o homem que recebe aqui fala de uma vida que o divide em dois. Georg Gänswein leva uma vida que era inimaginável até a retirada do Papa Bento XVI, e que hoje lhe parece dilacerante. Durante o dia, ele serve o novo papa; à noite, o antigo; e são dois senhores tão diferentes que um servidor nunca conseguiria imaginar.
Para ele, a retirada de Bento XVI foi como uma amputação, diz. E também em outras descrições escorre sangue, como quando Georg Gänswein descreve como a sua vida mudou desde que o seu chefe anterior se aposentou.
Durante oito anos, Georg Gänswein foi o monsenhor mais famoso do Palácio Apostólico. Como secretário do papa, ele regulava pessoalmente o acesso das pessoas a Bento XVI e aos seus negócios. Admiradores e escarnecedores o chamavam de "o George Clooney do Vaticano". A combinação de traços masculinos e olhar malicioso lhe valeu uma capa da edição italiana da revista Vanity Fair.
Acima de tudo, porém, Gänswein era o intendente da comitiva de Bento XVI. Joseph Ratzinger, com a ajuda de Gänswein, tinha que levar o papado a um novo florescimento intelectual e estético – justamente o oposto do igualitarismo e do relativismo. De 2005 a 2013, Gänswein deu tudo – e recebeu muito: "Ich habe acht Jahre Blut gelassen und auch Blut geleckt, manchmal".
In vita et in morte: Georg Gänswein jurou fidelidade a Ratzinger na vida e na morte. Agora diz: "Eu tenho a impressão de viver em dois mundos. Tenho que ser sincero comigo mesmo: é realmente doloroso me adaptar ao novo papel".
O novo papel: trata-se também de questões problemáticas. Os opositores de Georg Gänswein dizem que o próprio secretário enfraqueceu ao máximo Bento XVI, indo além das suas competências, e decidiu "segundo o pensamento do papa", sem esperar a sua aprovação formal. Que absurdo: as coisas já estavam muito caóticas no Vaticano quando ele ainda estava sendo conduzido com firmeza. Protecionismo, intrigas, lutas de poder culminaram em tal desordem a ponto de privar Bento XVI de suas últimas forças. E, com a sua retirada, ele assinalou: até mesmo um papa pode capitular. Talvez desse modo ele abriu a porta para a mudança.
Pouco tempo antes de se retirar, Bento XVI promoveu o seu monsenhor Georg Gänswein a arcebispo e prefeito da Casa Pontifícia. Francisco pediu-lhe para continuar na sua função relativa ao cerimonial, o que lhe dá a possibilidade de aparecer ao lado do papa. "Se essa é a sua vontade, eu aceito em obediência", respondeu Georg Gänswein.
Agora, ele ocupa duas funções, mas não tem mais uma situação estável. Nenhum título pode iludi-lo, nem consolá-lo pela perda da posição no centro do reino mundial romano-católico. A sua vida "não está mais constantemente em sintonia com a batida do seu coração".
"Aquele novo" agora à frente da casa faz principalmente muitas coisas novas. Gänswein não pode gostar disso. Talvez ainda mais do que o seu chefe, o secretário era o sumo sacerdote da tradição, via nela não uma imposição formal, mas sim uma condensação de sabedoria eclesial. O fato de Francisco não querer deixar a todo o custo o hotel pelo palácio apostólico, porque quer viver "entre as pessoas" e porque o escuro corredor que leva aos quartos pontifícios lhe gera melancolia, tudo isso irritou muito Gänswein.
Ele não viu só uma ruptura da tradição, mas também uma afronta ao antecessor, a todos os antecessores. Bento XVI não era um homem modesto? Ele não reivindicou o apartamento papal por egoísmo, mas só porque ele expressa a posição do Santo Padre na Igreja. Mas agora a polêmica está resolvida, diz Georg Gänswein.
Às vezes, o novo papa e o ex-secretário brincam sobre os motivos psíquicos que Francisco adotou para evitar ocupar o prédio. Um pouco de inquietação, no entanto, ainda domina a relação entre os dois. "Todos os dias eu espero do novo (papa) algo diferente, e me pergunto o que haverá de diferente naquele dia", diz Georg Gänswein.
O secretário se sente ligado à sua antiga promessa: ele está do lado de Bento XVI. Depois das 21 horas, Gänswein cuida dele, do correio, das coisas pendentes, está lá para aquele idoso que Gänswein continua chamando de "Santo Padre".
"Há um só papa", diz Gänswein. É uma afirmação que ressoa como um chamado à ordem que ele faz a si mesmo.
Invadindo a casa do novo papa
Pietro Zander, o arqueólogo-chefe da "fábrica da catedral", também tem uma recordação positiva do papa emérito. Diante dos jornalistas, ele não quer expressar estimativas precisas do recente e notável aumento de visitantes nas audiências gerais na Praça de São Pedro. Mas, neste momento, as multidões são o maior problema de Zander. Os fiéis invadem a casa do novo papa!
Antes, a Praça de São Pedro estava pela metade; hoje, as pessoas lotam até mesmo atrás, até a Via della Conciliazione. A rua é uma espécie de canal de escoamento para pessoas mais ou menos religiosas que querem dar uma olhada no papa. Eles chegam até a frente da casa do arcebispo Müller. Lá, lhe viram as costas.
A audiência geral ocorre sempre às quartas-feiras. Os empregados de Zander impedem o acesso dos carros já na terça-feira à noite e já nem tiram as barreiras na praça. Quando Zander fala de "fundamentos abalados", ele se refere precisamente a pedras, e não a "certezas". A sua preocupação se relaciona com as massas que, depois das audiências, se reúnem em São Pedro. A basílica suporta no máximo 30 mil pessoas por dia. Já a sua respiração é uma "catástrofe para a conservação", diz Zander. Mas ele não pode fechar o portal da igreja sobre o túmulo de Pedro. Uma basílica trancada seria um sinal fatal.
O que fazer então? Zander sorri. Eles chegaram a considerar a ideia de deslocar as audiências gerais para outro lugar, talvez em um estádio, mas logo desistiram da ideia. Ao invés, introduziram uma segunda audiência, aos sábados. Provavelmente, já estão rezando para que isso seja suficiente.
A cúpula que ouve as bases
O povo da Igreja ama Francisco, e ele retribui. Desde que decidiu questionar os seus fiéis, justamente sobre casamento, família e moral sexual, o seu zelo reformador chegou até o mais pequeno vilarejo. Um desejo do povo da Igreja promovido do lato – nunca houve um plebiscito assim.
O papa quer saber, por exemplo, o que os fiéis em situações familiares difíceis esperam da Igreja, que atenção pastoral poderia ser possível para as pessoas coabitantes do mesmo sexo, se alguém se sente "ferido" pela Igreja.
Diversas centenas de homens castos irão discutir sobre as respostas das perguntas de Francisco, no outono do próximo ano, em um sínodo dos bispos. Nos ordinariatos episcopais alemães, os superiores já reclamam, pois a ideia gera manchetes para o papa, certamente, mas apenas trabalho para as dioceses. Quem vai apresentar, e de que lugar da Igreja, e que opiniões? Quem deve subdividir e revisar as respostas? Como a conferência episcopal pode chegar a um resultado unitário?
A maior parte das dioceses alemãs colocou na internet, sem entusiasmo, o que se exigia de Roma. O prazo para as respostas já está fixado para esta ou para a próxima semana.
A Igreja Católica regulamenta até agora quando é permitido fazer sexo, com quem e com que propósito com muita precisão. Os mais altos membros da hierarquia, papas e prefeitos trabalharam muito sobre o "baixo ventre" do seu povo. Mas tudo isso não serviu para nada: as pesquisas mostram que na Alemanha 90% dos católicos vivem de modo diferente do permitido pelo Vaticano.
Representantes daqueles 10% que admitem se ater às regras são convidados aos programas de entrevista como seres exóticos. Até mesmo o papa se impôs a castidade, mas claramente ele duvida que homens que vivem como célibes sejam os melhores conselheiros para todas as situações existenciais, particularmente em matéria de amor.
É improvável que Francisco irá alinhar a sua doutrina de acordo com os resultados do questionário – o que esconde um potencial de decepção à la Obama. Um papa não é alguém que presta serviços, e o cristianismo não é um menu que podemos compor sozinhos. Mas a pesquisa de Francisco mostra que ele tem alta consideração pelo povo, e pouca pelo alto clero. Uma vez ele definiu a Cúria como "lepra".
Nos documentos da Congregação para a Doutrina da Fé, raramente aparecem as pessoas de carne e osso. Ao invés, nas suas pregações, Francisco elogia as pessoas simples do povo. Raramente ele se esquece de citar a sua avó Rosa. Se ele fala de misericórdia, conta sobre pessoas misericordiosas que encontrou pessoalmente. Geralmente são mães. Esse homem não tem só uma carreira eclesiástica, também tem uma biografia. E não tem medo das mulheres, muito menos das jovens e bonitas.
Invenção revolucionária
A sua invenção mais revolucionária é um grupo de conselheiros, composto por sete leigos e um padre, que trabalha constantemente com ele. Os conselheiros distantes do clero são aqueles que devem reorganizar as finanças do Vaticano e restabelecer a credibilidade depois do escândalo Vatileaks. Falta de transparência e lutas de poder tinham provocado o escândalo que, no fim, levou à retirada do antigo papa. Documentos secretos haviam sido roubados diretamente da escrivaninha de Bento XVI. Agora é necessário tornar tudo transparente.
Aqueles que começam a se ocupar com esse trabalho acabam se deparando com questões de poder: acima de tudo, decidir se a Igreja deve ser rica ou pobre, se deve receber ou dar. E também: é lícito fazer o bem com dinheiro sujo? As origens da riqueza católica, às vezes, são pouco claras. A condução dos negócios do banco vaticano não é nada santa.
Fazem parte do grupo de peritos financeiros de Francisco um auditor espanhol, um especialista de seguros alemão, um administrador francês, um ex-ministro das Relações Exteriores de Singapura e uma jovem mulher: a italiana Francesca Immacolata Chaouqui, especialista em comunicação, emprestada pela empresa de consultoria empresarial Ernst & Young.
O fato de que nem na hierarquia da Igreja se saiba exatamente o que Francesca está procurando nos orçamentos do Estado da Igreja e também o fato de ela ter um aspecto sedutor deram origem a intervenções depreciativas de todas as espécies na internet e na imprensa.
Antes, as mulheres que se aproximavam do papa, na melhor das hipóteses, eram cozinheiras ou secretárias. Chaouqui, 30 anos, é advogada formada e tem responsabilidades diretivas no governo-sombra do papa. A sua tarefa, assim como a dos outros leigos, é esclarecer ao papa o capitalismo das suas instituições.
Francesca certamente é competente nessa área. Durante a crise financeira, ela foi consultora, como especialista em comunicação da empresa de consultoria Orrick, Herrington & Sutcliffe, do banco Lehman Brothers.
Tempos atrás, para fazer carreira no Vaticano, eram menos necessárias as competências e mais uma obediência cega. Agora, leigos que se qualificam pela sua competência controlam os antigos poderosos. Francisco expôs os seus projetos revolucionários ainda no conclave. Por isso foi eleito.
Envenenamento?
Inquietos, os seus defensores se perguntam agora: quanto tempo resta para esse papa?
Francisco tem apenas um pulmão. Antes do Natal, vai completar 77 anos. Há alguns personagens nos seus inoperantes escritórios no Vaticano que esperam apenas que lhe falta de ar. Os tradicionalistas zombam dele pelo fato de que, em Lampedusa, ele transformou um barco velho em altar – mas, ao mesmo tempo, o temem. Ele criticou o catolicismo pintado de dourado. Agora, os amantes da pompa e da glória esperam nos seus nichos que chegue a sua hora.
Imediatamente circularam em Roma rumores que afirmam que Francisco vive perigosamente. Ele corre muito risco, diz-se, ao se preocupar mais com grupos de esquerda do que com círculos de direita em Roma. E que ele é realmente um temerário se quiser fazer limpeza no banco vaticano. Ele será encontrado um dia envenenado na Casa Santa Marta? Ou morto no Tibre?
Fala-se surpreendentemente muito sobre o possível fim não natural do papa nestes dias no Vaticano – embora em geral de forma negativa: "Eu não digo que amanhã alguém possa colocar algo no seu chá...", diz um religioso do alto escalão, para falar longamente em seguida dos inúmeros opositores que se sentiram abandonados ou postos em segundo plano.
E também não irrompem paralelos com João Paulo I? Aquele pontífice não dogmático, seguindo o rígido Paulo VI, foi chamado de "o papa sorridente". João Paulo I – recém-eleito, mas sem uma presença midiática e totalmente indefeso – também tinha se proposto a fazer limpeza na Cúria e no banco vaticano, quando tudo acabou de repente. Trinta e três dias depois de assumir o cargo, o novo papa estava morto.
Trinta e cinco anos depois, um novo papa com a inocência de um sonâmbulo se move através desse aparato de corte. No entanto, um "insider" do Vaticano diz: "O envenenamento não é mais necessário. Depois da retirada de Bento XVI, também se pode recomendar a retirada de um papa...".
Solidariedade
Francisco ainda exala a energia do "novo começo", nenhum traço de cansaço na função. No entanto, até agora, ele não conseguiu criar nada de durável. O papa instaurou um vínculo de ternura com o seu povo de Igreja, mas em tempos de impaciência tal atitude gentil poderia em breve ser suspeita de pura aparência. Em breve, não lhe bastará mais fazer perguntas. Ele terá que dar respostas, impor inovações. Chega de discriminação contra as mulheres, os homossexuais e os protestantes! Se ele não ousar nada nessa direção, um grande sentimento se reduz rapidamente a muito pouco.
O papa já deu início a alguns projetos práticos. Por exemplo, ele criou um fundo de solidariedade pelas vítimas de catástrofes, que se chamará "Misericórdia". Francisco quer que a Igreja não seja o último, mas sim o primeiro refúgio para os pobres. As igrejas e os conventos devem abrir as suas portas aos refugiados, conceder a sua proteção – mesmo diante do direito de asilo europeu. E para um homem chamado Konrad Krajewski o papa inventou uma tarefa.
Krajewski é o novo esmoleiro papal, um alto funcionário. O seu escritório está na sombra da Basílica de São Pedro. Os antecessores de Krajewski alocaram fundos para pessoas carentes permanecendo sentados nas suas escrivaninhas. Agora, no entanto, o polonês de 50 anos não deverá esperar dentro, porque a vida está fora, a pobreza está fora.
À noite, os sem teto de Roma dormem sob a colunata recentemente restaurada que circunda a Praça de São Pedro. À noite, assim quer o papa, Krajewski gira pela cidade com um pequeno Fiat branco para ir ao encontro dos pobres e desabrigados, acompanhado por quatro guardas suíços, que falam quatro línguas. E distribui o dinheiro do papa.
E como Roma é muito grande para percorrer com um único carro todas as semanas, ele agora envia mais de 100 cheques, no máximo de mil euros, para os párocos da cidade, para que eles também ajudem os pobres.
"O papa quer que nós não fiquemos esperando as pessoas, mas que vamos ao seu encontro", diz Krajewski. "Ele me disse que a minha conta corrente está bem quando está vazia".
Francisco quer tornar a Igreja novamente crível. A conta vazia – para o papa, esse é o seu capital.
O cansaço do papa solitário
Uma tontura de cabeça, um encontro cancelado, um comentário brusco sobre as escolhas do novo pontífice. Quarta-feira passada, no arco de poucas horas, soou um sinal de alerta pelo Papa Bergoglio.
A reportagem é de Marco Politi, publicada no jornal Il Fatto Quotidiano, 06-12-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Depois da audiência geral na Praça de São Pedro – a temperatura estava fria – Francisco sentiu sua cabeça girar, e o leve mal-estar o obrigou a ir logo repousar, renunciando ao encontro com o cardeal Angelo Scola, que veio especialmente de Milão a lhe falar sobre uma futura visita à Expo 2015.
Não é pouca coisa. Scola foi o principal antagonista de Bergoglio no conclave: não por motivos pessoais, naturalmente, mas como expoente de outra plataforma. Scola ainda é uma das personalidades mais renomadas entre os bispos italianos, e uma boa relação com ele é decisiva para orientar a Conferência Episcopal Italiana na linha de reforma que o papa tem em mente.
Na realidade, Francisco está explorando exageradamente as suas forças. Aos 76 anos e com a responsabilidade de uma organização de mais de 1,1 bilhão de adeptos, o papa argentino não tirou um minuto de férias neste verão europeu. Ao contrário de João Paulo II, ele não se restaura com pequenas "fugas" na natureza e, ao contrário de Bento XVI, não se concede regularmente todos os dias uma hora de caminhada pelos jardins vaticanos.
Aos jovens da paróquia de San Cirillo, em Roma, ele disse no domingo passado que tira apenas meia hora de repouso depois do almoço e, depois, "de novo ao trabalho, até a noite". Francisco espera muito das suas forças. Há um motivo. Bergoglio sente que não tem muito tempo à disposição. Uma dezena de anos, antes de decidir, provavelmente também ele, passar o bastão. E dez anos na história da Igreja são muito poucos.
Na maré de elogios e de aplausos que o rodeia, o papa argentino está sozinho, muito solitário. Se ele se limitasse ao programa que muitos cardeais eleitores esperavam, não haveria problemas. Reorganizar o IOR e agilizar a Cúria são questões técnicas de uma realização nada difícil. Consultar os bispos mais frequentemente – como era pedido ao futuro pontífice durante as reuniões gerais antes do conclave – podia ser realizado com reuniões plenárias do Colégio Cardinalício mais frequentes e com uma ordem do dia precisa.
Mas Francisco está fazendo muito mais do que muitos dos seus eleitores imaginavam. (Isso aconteceu com João XXIII). Ele quer remodelar a Cúria desde os fundamentos, reorganizar o Sínodo dos Bispos, dar forma a uma nova abordagem às temáticas sexuais, levar o clero a abandonar atitudes burocráticas e autorreferenciais, mudar o estilo do poder episcopal, inserir as mulheres em postos de governo, imprimir com uma nova comissão (anunciada nessa quinta-feira) um novo impulso à luta contra a pedofilia, protegendo as vítimas e dando indicação aos episcopados.
Há uma pergunta que paira sobre o Palácio Apostólico: quem apoia Francisco? Com quais forças ele pode contar? A resposta é que um "partido" ou um "movimento" ativo entre clero e bispos pró-Francisco não existe. Não se reforma um aparato corpulento como o eclesiástico – milhares de bispos, centenas de milhares de padres e religiosos, uma rede de centros de poder grandes e pequenos – sem uma forte fileira de seguidores fiéis e comprometidos.
Na Cúria, uma equipe bergogliana ainda não existe. O novo secretário de Estado, Dom Parolin, é o homem certo (também pela sua forte marca sacerdotal) para trabalhar com Bergoglio, mas a maioria dos cargos curiais são provisórios.
Até agora, não se vê nos dicastérios curiais e no episcopado mundial uma patrulha compacta de cardeais, bispos e padres prontos para lutar pelas suas reformas como podiam ser os defensores da reforma gregoriana na Idade Média ou da reviravolta do Concílio de Trento. Os episcopados nacionais estão inertes. Muitos assistem passivamente às externalizações de Francisco. Muitos conservadores esperam em silêncio um passo em falso seu. Nas grandes organizações, o aparato sabe que é feito de borracha.
Nesse clima, as declarações do secretário de Ratzinger, Dom Gänswein, ao semanário alemão Zeit, espalharam inquietação. A revista, embora não entre aspas, escreveu que, para o braço-direito de Bento XVI, a decisão de Francisco de não morar nos apartamentos papais foi sentida como uma "afronta". Além disso, Gänswein, embora reconhecendo que o papa é apenas um, exclama, desconsolado, textualmente: "A cada dia, eu espero de novo o que será diferente (do que antes)".
Mais do que um encorajamento, uma rejeição ao novo curso. Francisco está sozinho, mesmo que o coração dos fiéis bata por ele.
Segunda, 09 de dezembro de 2013
''A reforma da Igreja terá um alto custo. Preparemo-nos!''. Artigo de Enzo Bianchi
"Hoje, está novamente em curso, para a Igreja, uma primavera, inaugurada pelo Papa Francisco. O entusiasmo é muito: certamente eu não quero apagá-lo, mas, mais uma vez, sinto o dever de alertar a mim mesmo e os meus irmãos e irmãs na fé. Estamos dispostos a beber o cálice que Jesus bebeu (cf. Mc 10, 38; Mt 20, 22)?", pergunta o monge e teólogo italiano Enzo Bianchi, prior e fundador da Comunidade de Bose, em artigo publicado na revista mensal italiana Jesus, dezembro de 2013.
Segundo ele, "toda reforma da Igreja, se for evangélica, tem um alto custo: para todos e também para o sucessor de Pedro, que não poderá esperar, ao menos de dentro da Igreja, dos seus, da sua casa, um fácil reconhecimento e uma fácil obediência. Será mais fácil que "publicanos e prostitutas" (cf. Mt 21, 2; Lc 7, 34, 15, 1), "samaritanos e estrangeiros" (cf. Lc 17, 38; Jo 4, 39-40) o escutem – como aconteceu com João Batista e Jesus"
A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Eis o texto.
Eu não posso esquecer que uma das minhas primeiras intervenções públicas, com uma certa ressonância, ocorreu durante um congresso organizado pelo padre Balducci e pelo padre Turoldo em Florença, no primeiro pós-Concílio, e se tornou depois um artigo publicado na revista Rocca. Era a temporada do entusiasmo, devido à primavera inaugurada pelo Papa João XXIII e pelo Vaticano II: temporada da "vitória" de um novo modo de viver a Igreja e de edificá-la por parte de todos os cristãos; temporada de "reforma" marcada por uma atmosfera de fervor e de impaciência; temporada em que eu senti, porém, muita presunção acerca dos desenvolvimentos possíveis daquela extraordinária reviravolta.
Surpreendendo muito os amigos com os quais se dialogava intensamente sobre reforma litúrgica, à época ainda em estudo, sobre vida eclesial em estado de conversão para uma conformidade mais profunda para a Igreja como o Senhor a quis e de diálogo na mansidão e na pobreza dos meios com a humanidade contemporânea, eu adverti contra um fácil otimismo. Se realmente tivesse sido tomado o caminho da reforma evangélica da Igreja e do seu ordenamento (papado, episcopado, laicato) – eu disse –, teríamos ido ao encontro de um tempo em que todo triunfalismo seria marcado por fadiga, por sofrimento e até por dilacerações porque há uma necessitas passionis da Igreja que se deve à necessitas passionis vivida pelo seu Senhor Jesus Cristo.
Aconteceria para a Igreja o que aconteceu com Jesus: as potências postas contra o muro pela "lógica da cruz" (1Cor 1, 18) se desencadeariam e haveria também um "choque" com o mundo, já que, na vida eclesial, muitos teriam que sofrer (sim, é preciso dizer, penar!). Se de fato a conversão pessoal requer renúncia, fadiga, separações e, portanto, sofrimento, mais ainda a conversão das comunidades e das Igrejas.
Acima de tudo, se viveria uma dupla tentação. Ou render-se ao mundo, mundanizando-se, não mostrando mais a diferença cristã, esvaziando a cruz, diluindo o Evangelho, curvando-se às exigências do mundo; ou enfrentar o mundo com intransigência e munir-se das suas próprias armas: presença gritada, vontade de contar e de ser contado, atitude de grupo de pressão, assunção de tarefas não atribuídas pelo Senhor. Em todo o caso, continuava sendo mais difícil o caminho de "uma Igreja pobre e de pobres", de uma Igreja que contasse apenas com o Senhor e não com os "poderosos deste mundo" (1Cor 2, 6.8; cf. Mt. 20, 25), de uma Igreja dialogante com os homens na mansidão e na liberdade, sem medo e sem a obsessão de ter que se defender e viver como fortaleza sitiada.
As Igrejas são diferentes, e é possível dizer que todas essas escolhas foram feitas, ora aqui, ora acolá, e de forma diferente nas diversas Igrejas. Sabemos bem o que a Igreja italiana escolheu, esquecendo que a sua liberdade não pode ser vivida como as outras liberdades de que o mundo fala, porque a Igreja nunca é tão livre como quando o mundo a contradiz e a humilha. Sim, para a Igreja, há uma paz que é mais maléfica do que toda guerra, "pax gravior omni bello"!
Hoje, está novamente em curso, para a Igreja, uma primavera, inaugurada pelo Papa Francisco. O entusiasmo é muito: certamente eu não quero apagá-lo, mas, mais uma vez, sinto o dever de alertar a mim mesmo e os meus irmãos e irmãs na fé. Estamos dispostos a beber o cálice que Jesus bebeu (cf. Mc 10, 38; Mt 20, 22)? Toda reforma da Igreja, se for evangélica, tem um alto custo: para todos e também para o sucessor de Pedro, que não poderá esperar, ao menos de dentro da Igreja, dos seus, da sua casa, um fácil reconhecimento e uma fácil obediência. Será mais fácil que "publicanos e prostitutas" (cf. Mt 21, 2; Lc 7, 34, 15, 1), "samaritanos e estrangeiros" (cf. Lc 17, 38; Jo 4, 39-40) o escutem – como aconteceu com João Batista e Jesus.
Essas hipóteses perturbam, e não queremos ouvi-las. Porém, se aconteceu com Jesus, com o Senhor, há talvez um discípulo que seja maior do que o seu mestre (cf. Mt 10, 24; Lc 6, 40; Jo 15, 20)? Ou um sucessor de Pedro que não conheça a paixão e a tentação de fugir dela, renegando o Senhor e o Evangelho? Agora, mais do que nunca, é hora de rezar por Pedro, não por uma glória mundana que nunca pode ser sua, mas porque, consolado pelo seu Senhor, ele permaneça firme e possa confirmar a nós, seus irmãos (cf. Lc 22, 31-32), no árduo caminho rumo ao Reino.
O papado de Francisco não é apenas questão de estilo, mas um novo começo''
O teólogo e padre alemão Wolfgang Beinert, ex-professor da Universidade de Regensburg, fala sobre o "programa de governo" do papa, sobre as ideias realistas e irrealistas de reforma e sobre o debate renovado sobre os divorciados em segunda união na Alemanha.
A entrevista é de Michael Weiss, publicada no sítio Religion.orf.at, 04-12-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Eis a entrevista.
Há poucos dias, o papa publicou o seu "programa de governo", a Evangelii gaudium. Como o senhor avalia esse documento?
Acima de tudo, com grande entusiasmo, pois nele são ditas coisas pelas quais há apenas 20 anos se seria chamado a responder na Congregação para a Doutrina da Fé. Eu vejo um aspecto negativo, porém, no fato de que é um documento extremamente longo, em que foram enfiadas muitas coisas não relacionadas entre si. Por outro lado, o documento tem uma linguagem cheia de frescor, viva e – ousaria dizer – jovem. O cardeal Reinhard Marx disse que é raro que, ao ler um documento papal, também seja preciso rir, mas aqui era preciso e se podia – e ele tem razão.
Por quais coisas há 20 anos se seria chamado à Congregação para a Doutrina da Fé?
Por exemplo, a relativização do papado que ali é empreendida. Diz-se que o papa não tem a obrigação de dizer alguma coisa sobre tudo e que também pode dizer, às vezes, coisas que podem ser discutidas. Ou a promessa de realizar realmente a colegialidade dos bispos. É algo que já foi decretado há 50 anos pelo Concílio, mas muito pouco derivou daí – e isso também está escrito no documento.
Francisco também se expressou claramente no documento contra o sacerdócio feminino. Foi uma surpresa para o senhor?
Não. Mas o que isso significa precisamente? Recentemente, a esse respeito, ele disse que as portas estão fechadas, e agora, na Evangelii gaudium, escreveu que "não está em discussão". João Paulo II, no entanto, dissera que isso estava definitivamente excluído. São duas categorias diferentes de palavras que foram escolhidas. Se algo não está certo em um sentido definitivo, significa que justamente não está certo, e então devemos parar de falar sobre isso. Mas se eu disser que não está em discussão, eu não estou dizendo como as coisas serão amanhã. E as portas fechadas também podem ser reabertas.
Que reformas concretas o senhor considera que podem ser realisticamente implementadas com Francisco com relação ao papel da mulher? Diaconisas ou mesmo cardinalessas, como um abaixo-assinado suíço solicitou recentemente?
Isso não seria um problema, de fato. Entre os cardeais do século XIX, seguramente havia leigos. O cardinalato é um título pessoal que é atribuído a uma pessoa específica, independentemente do seu status, consagrada ou não.
É algo realista com esse papa?
Não devemos colocar obstáculos a ninguém. Eu não teria nenhum problema com isso. Embora, naturalmente, não basta um título. Mas a liderança de uma Congregação [vaticana], por exemplo, como cardinalessa ou não, eu poderia imaginar. Não só como telefonista do Vaticano.
E diaconisas?
Pessoalmente, não acho grandes coisas. Nesse caso, a mulher voltaria a receber apenas o menor e mais baixo grau de consagração, que hoje ninguém sabe precisamente que significado pode ter. Portanto, se é preciso haver consagração, que sejam todos os graus, senão nada. É preciso ser consequente nisso.
Sobre Francisco, as opiniões divergem um pouco. Enquanto alguns acreditam que haverá grandes mudanças em nível dogmático, outros são da opinião de que ele está em continuidade com os seus antecessores e que só mudou o estilo. O que o senhor acha?
Eu acredito que não é apenas uma questão de estilo, mas que realmente houve um novo começo. Depois da Evangelii gaudium, pode-se dizer isso com certeza. Nesse documento, não se dizem coisas muito diferentes das que foram ditas até agora, mas agora as coisas foram escritas. Com grande prudência, ousaria dizer até dizer que, com Bento XVI, encerrou-se uma era papal, e agora é possível começar uma era completamente nova.
Na sua opinião, quando começou a era que o senhor considera como encerrada?
Não se pode estabelecer isso com uma data exata. Fundamentalmente, começa com a Reforma, quando a Igreja começa a ter medo. E se torna absolutamente claro com o século XVII e depois com o Iluminismo. Naquele período, a Igreja é sempre contra apenas. Ela reage apenas, mas não age mais. E agora o papa toma a iniciativa e diz: devemos mudar certas coisas. Se realmente alguma coisa vai mudar, veremos, mas ao menos ele tem essa intenção e também a estabeleceu incontestavelmente.
Portanto, o senhor considera que o que está acontecendo agora é uma revolução ainda maior do que o Concílio Vaticano II?
O Concílio Vaticano II, certamente, deu o início, mas foi mais uma andorinha, e uma andorinha só não faz verão. Além disso, também foi retraído muitas vezes, muito fortemente, por exemplo com Bento XVI... E agora claramente há uma nova abertura, que vai além do que o Concílio fez. Por exemplo, se o papa escreve que as as declarações papais podem ser criticadas e que não são necessariamente decisões de última instância, isso, na realidade, é uma revogação do Concílio Vaticano I, se o entendermos em sentido estrito. O que Francisco faz é a continuação da implementação do Concílio Vaticano II. O Concílio lançou os fundamentos com os seus documentos, mas que não foram realmente implementados.
Como o senhor considera o modo pelo qual a mídia se comporta com o Papa Francisco? Como a ruptura com Bento XVI parece tão forte, ele é olhado, talvez, de uma forma totalmente acrítica?
A imagem que transparece certamente já é muito eufórica. A esse respeito, eu sou um pouco mais atento, porque o papa, no fundo, não é apenas uma pessoa individual que tem todos os fios nas suas mãos, mas ele depende do trabalho dos seus colaboradores, assim como todo chefe. E eu tenho as minhas dúvidas de que todos colaboram com entusiasmo.
Na Alemanha, há algumas semanas, discute-se novamente o problema dos divorciados em segunda união na Igreja Católica. Que mudanças o senhor considera realistas?
Eu sou da opinião de que se desencadeou uma confusão que não se consegue mais controlar. Vê-se isso, por exemplo, pelo fato de que um cardeal [Reinhard Marx] disse ao prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé que não se pode decidir algo desse modo. Há não muito tempo, tal coisa teria sido vista como uma monstruosidade. Portanto, alguma coisa vai acontecer.
O senhor conhece o prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Gerhard Ludwig Müller, desde os tempos em que ele era bispo de Regensburg. O senhor acha que ele pensa que deve ser o guardião último da tradição?
Suponho que sim. Eu o conheço desde a sua juventude e acredito que ele simplesmente não consegue entender isso. Ele sempre teve uma opinião forte, e o seu orientador de doutorado, o cardeal Lehmann, uma vez, na minha frente, o definiu como "insensível aos conselhos". Provavelmente, é terrivelmente difícil para ele admitir que opiniões diferentes também são católicas.
O Papa Francisco é comunista?
A opinião é de Robert Ellsberg, editor da Orbis Books, do movimento missionário católico Maryknoll. O artigo foi publicado no sítio da CNN, 03-12-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Eis o texto.
A personalidade do rádio Rush Limbaugh se declarou perplexo com as recentes declarações papais "sobre os males absolutos do capitalismo". Em seu comentário, intitulado It's Sad How Wrong Pope Francisco Is (Unless It's a Deliberate Mistranslation by Leftists) [É muito triste como o Papa Francisco está errado (a menos que seja um erro de tradução deliberado por esquerdistas)], Limbaugh disse que as observações remontam a "um puro marxismo apenas saindo da boca do papa". De fato, isso seria realmente notável, se fosse verdade. E é?
Limbaugh se refere à nova exortação apostólica Evangelii Gaudium, ou "A alegria do Evangelho", na qual o Papa Francisco expõe a sua visão sobre a proclamação do evangelho por parte da Igreja.
Para os católicos, entusiasmados com o estilo descuidado do papa, o documento oferece uma refrescante partida do tom tradicional: "Há cristãos que parecem ter escolhido viver uma Quaresma sem Páscoa", lamenta o papa. "Aos sacerdotes, lembro que o confessionário não deve ser uma câmara de tortura". Ele denuncia uma espécie de "mundanismo espiritual", que "se esconde por detrás de aparências de religiosidade", adverte contra os "caras de vinagre" que substituiriam o amor de Jesus Cristo por um amor da Igreja, e rejeita uma derrotista "psicologia do túmulo", que transformaria os cristãos em "múmias de museu".
E, no entanto, a imprensa certamente se focou naquelas várias páginas – em um documento de 50 mil palavras – que oferecem uma crítica vívida do sistema econômico global, que o Papa Francisco define como uma "economia da exclusão e da desigualdade". Aqui, critica Limbaugh, "o papa já foi muito além do catolicismo, e isso é pura política". Mais "entristecido" do que indignado, Limbaugh afirma que "é muito claro que o papa não sabe do que está falando quando se trata de capitalismo e socialismo, e assim por diante".
Na verdade, as palavras "capitalismo" e "socialismo" não aparecem no documento. Mas não é difícil discernir o sentido do papa: "Assim como o mandamento 'não matar' põe um limite claro para assegurar o valor da vida humana, assim também hoje devemos dizer 'não a uma economia da exclusão e da desigualdade social'. Esta economia mata".
Como primeiro papa do hemisfério Sul, como alguém que experimentou o colapso financeiro da economia argentina, como um bispo que encorajou seus padres a trabalharem nas favelas, o Papa Francisco conhece a economia mundial a partir da perspectiva dos que estão embaixo. Condenando a idolatria do dinheiro, ele se posiciona firmemente contra um "mercado divinizado", em que as massas de seres humanos tornam-se espectadores impotentes, se não "sobras" descartáveis.
Limbaugh, que admite não ser católico, embora diga que foi "tentado várias vezes a buscar isso", no entanto, afirma: "Conheço o suficiente para saber que seria impensável para um papa acreditar ou dizer isso há apenas alguns anos".
Mas pouco distingue o Papa Francisco das declarações proféticas dos seus antecessores. O que ele oferece não é "marxismo", como diz Limbaugh, mas sim a sólida doutrina social católica que remonta há mais de um século. Tanto o Papa João Paulo II quanto Bento XVI foram explícitos nas suas advertências contra o capitalismo liberal e a ditadura do mercado, produzindo encíclicas que, pela sua ênfase na justiça social e na "opção pelos pobres", certamente se qualificariam para Rush Limbaugh como o próprio elixir do "marxismo".
No entanto, o Papa Francisco pode ter tocado uma ferida específica. No parágrafo mais citado do seu documento, ele observa:
"Neste contexto, alguns ainda defendem as teorias da 'recaída favorável' [trickle down] que pressupõem que todo crescimento econômico, favorecido pelo livre mercado, consegue por si mesmo produzir maior equidade e inclusão social no mundo. Essa opinião, que nunca foi confirmada pelos fatos, exprime uma confiança vaga e ingênua na bondade daqueles que detêm o poder econômico e os mecanismos sacralizados do sistema econômico reinante. Entretanto, os excluídos continuam esperando".
Aqui, você pode dizer que ele está indo para o lado pessoal, dando um passo para além dos apelos familiares pelos pobres para confrontar um artigo central da fé entre os beneficiários de elite da nossa economia: a noção de que tudo o que beneficia os mais ricos – cortes de impostos ou desregulamentação financeira – inevitavelmente irá beneficiar os de baixo.
Independentemente se isso é confirmado pelos fatos, o Papa Francisco ataca os efeitos corrosivos de tal ideologia sobre a nossa capacidade de compaixão e de preocupação pelos outros.
"A cultura do bem-estar nos anestesia, a ponto de perdermos a calma se o mercado oferece algo que ainda não compramos, enquanto todas essas vidas ceifadas por falta de possibilidades nos parecem um mero espetáculo que não nos incomoda de forma alguma". Limbaugh acha essa declaração em particular tão desconcertante que ele a repete três vezes.
Os comentaristas de negócios pode se levantar em defesa do mercado. Mas o Papa Francisco não está interessado principalmente em um debate sobre a "criação de riqueza". Ele se posiciona em uma tradição que remonta aos profetas de Israel, cujo decisivo teste moral era o bem-estar dos últimos e mais vulneráveis membros da sociedade.
O Papa Francisco assumiu para si a tarefa de falar por aqueles que não têm voz, de despertar a consciência dos cristãos e de contribuir por uma cultura da solidariedade. Ele anseia por uma "Igreja pobre para os pobres". Talvez o que o distingue dos seus antecessores é simplesmente que ele identificou isso como um foco central e evidentemente tem a intenção de manter a Igreja responsável por essa missão.
Claro que ninguém se preocupa com um papa que abraça os doentes e ama os pobres. Mas quando ele se atreve a refletir sobre as causas morais e estruturais da pobreza, essa é outra questão.
Como Dom Hélder Câmara, outro arcebispo profético da América Latina, observou notoriamente, "Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto por que eles são pobres, chamam-me de comunista". Certas coisas nunca mudam.
Papa Francisco é socialista?
O tópico econômico da Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, do Papa Francisco, publicada no dia 25 de novembro, causou controvérsias.
A reportagem é de Laurence Desjoyaux e publicada no sítio da revista francesa La Vie, 29-11-2013. A tradução é de André Langer.
“Desta vez, é certo: o Papa Francisco é socialista”, diz a manchete triunfalista do sítio francês de informação Rue 89, num artigo consagrado à Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, primeiro texto integralmente escrito por Francisco.
Em se acreditando no sítio, “depois da Exortação Apostólica publicada pelo Vaticano, podemos afirmar sem medo que o Papa Francisco é ferozmente antiliberal e até mesmo... socialista”. Precisando: “O Papa Francisco ainda não é marxista, mesmo que tenha declarado pouco tempo atrás que os homens eram escravos que terão que “se libertar das estruturas econômicas e sociais que nos reduzem à escravidão”.
Entre outras passagens da Exortação Apostólica adiantadas pelo Rue 89 encontra-se a seguinte: “Assim como o mandamento ‘não matar’ põe um limite claro para assegurar o valor da vida humana, assim também hoje devemos dizer ‘não a uma economia da exclusão e da desigualdade social’. Esta economia mata”.
Não ao dinheiro que governa em vez de servir
A revista americana The Atlantic avança mais na análise, propondo uma analogia entre o pensamento do Papa Francisco e do economista húngaro Karl Polanyi, crítico da economia do mercado auto-regulado. “Karl Polanyi é conhecido por seu livro A Grande Transformação, e em particular por uma ideia explicada nesse livro, lembra Heather Horn: a distinção entre uma ‘economia que está incorporada nas relações sociais’ e ‘relações sociais que estão incorporadas no sistema econômico’”. É o que a jornalista resume numa frase: “A economia deve servir à sociedade e não o contrário”.
Para ela, é nesta linha que se inscreve o Papa Francisco. “O Papa Francisco, na sua exortação, notavelmente não pede uma completa revisão da economia – pondera ela. Ele não fala de revolução, e certamente não há nenhum discurso marxista sobre inexoráveis forças históricas. Ao contrário, Francisco denuncia, especificamente, o domínio absoluto do mercado sobre os seres humanos. Ele não denuncia a existência do mercado, mas a sua dominação”.
Denunciando a primazia do mercado, do consumo e do dinheiro sobre o ser humano, o Papa não tem efetivamente papas na língua: “Hoje, tudo entra no jogo da competitividade e da lei do mais forte, onde o poderoso engole o mais fraco. [...] O ser humano é considerado, em si mesmo, como um bem de consumo que se pode usar e depois lançar fora. [...] Uma das causas desta situação está na relação estabelecida com o dinheiro, porque aceitamos pacificamente o seu domínio sobre nós e as nossas sociedades. A crise financeira que atravessamos faz-nos esquecer que, na sua origem, há uma crise antropológica profunda: a negação da primazia do ser humano. Criamos novos ídolos. A adoração do antigo bezerro de ouro (cf. Ex 32, 1-35) encontrou uma nova e cruel versão no fetichismo do dinheiro e na ditadura duma economia sem rosto e sem um objetivo verdadeiramente humano. A crise mundial, que investe as finanças e a economia, põe a descoberto os seus próprios desequilíbrios e sobretudo a grave carência duma orientação antropológica que reduz o ser humano apenas a uma das suas necessidades: o consumo. [...] Não ao dinheiro que governa em vez de servir”. Dito com outras palavras: a crise financeira se dá não somente por uma falta de regulação – dizer isso não é propriamente uma novidade –, mas também e, sobretudo, por ter subtraído o homem do centro da atividade econômica.
No que diz respeito às soluções para remediar esta crise, The Atlantic persegue o paralelo entre Francisco e Karl Polanyi: “Polanyi apostava num socialismo democrático, desde que os governos trabalhassem juntos internacionalmente”, explica Heather Horn. “E você sabe o quê? Isso se aproxima muito daquilo que o papa também propõe. Ele não acha que isso possa ser resolvido com a caridade pessoal”.
Para fundamentar suas ideias, ela cita a Exortação Apostólica: “Temos de nos convencer que a caridade é o princípio não só das microrrelações estabelecidas entre amigos, na família, no pequeno grupo, mas também das macrorrelações como relacionamentos sociais, econômicos, políticos. (Francisco cita aqui a Encíclica Caritas in Veritate, de Bento XVI, ndlr) [...] Se realmente queremos alcançar uma economia global saudável, precisamos, neste momento da história, de um modo mais eficiente de interação que, sem prejuízo da soberania das nações, assegure o bem-estar econômico a todos os países e não apenas a alguns”.
O Papa entende de economia?
Mas, o que pensam os defensores do liberalismo sobre esta visão de um Francisco “social-polanyiano”? “Eu fico poli dizendo que a comparação não é das mais inteligentes, tanto mais que ela subentende que aqueles que tomam o partido dos pobres são, de fato, socialistas. Eu diria, por outro lado, que muitos cometem um erro acreditando que essas declarações supõem uma suposta revolução dentro da Igreja”, assegura o economista liberal Philippe Chalmin ao reagir, pelo sítio Atlantico, ao artigo do Rue 89. Para ele, as palavras do Papa são um clássico do gênero, sem grande envergadura: “Diria que fazem parte de uma postura, no final das contas, muito tradicional da Igreja contra as finanças, mas que não é, na minha opinião, a mais esclarecida se olharmos a Doutrina Social da Igreja. Nós estamos aqui exatamente no domínio da exortação, cujas consequências práticas permanecerão relativamente limitadas”, explica. E mais adiante diz: “Alguns dirão que eu sou um liberal horroroso, mas penso, sem tirar do Papa o direito de fazer tais declarações, que estas críticas necessitarão de um conhecimento bem mais aprofundado sobre um fenômeno complexo”.
O Papa é competente em economia? Esta é a pergunta que fazem no outro lado do Atlântico outros economistas liberais que se aplicam a desmontar ponto por ponto a crítica da economia de mercado. Para o mais virulento deles, Tim Worstall, colaborador da revista econômica americana Forbes, que se descreve, por outro lado, como “um bom cavalheiro católico bem educado pelos beneditinos”, o Papa “não compreendeu o mundo no qual vivemos”. “As desigualdades diminuem à medida que as pessoas encontram sociedades fundadas sobre a economia de mercado, a pobreza diminuiu nos últimos 30 anos no ritmo mais rápido que a espécie humana já conheceu. Tudo isto aconteceu porque bilhões de pessoas foram libertadas das exigências das versões mais bizarras do coletivismo e foram capazes de encontrar a melhor máquina para produzir riqueza jamais criada, um certo grau de livre mercado”.
Neste mesmo sentido, descontada a condescendência, Samuel Gregg, da National Review americana, estima que os predicados sobre os quais o Papa funda sua crítica não são justificados. Para ele, não há nenhum país do mundo no qual o mercado seja absolutamente autônomo, e as regras e sistemas de regulação aplicados à economia já são numerosos.
Ouvir a mensagem
Este pleito em incompetência é verdadeiro? Michael Sin Winters, do National Catholic Reporter lembra: “O Papa Francisco não é um economista, mas um pastor. (...) Ele enfatiza o perigo para a fé do libertarianismo e do neoliberalismo de mercado. Esses sistemas econômicos não apenas fracassaram na sua tentativa de realizar o bem comum, mas também tornaram as pessoas escravas e impediram sua plena realização exatamente porque não deixam lugar para Deus”.
Heidi Moore, do jornal The Guardian, de esquerda, estima que “o Papa Francisco compreende melhor a economia do que a maioria dos políticos”, e que “está na vanguarda do movimento Occupy Wal-Street [movimento de contestação pacífica americano que denunciou as derivas do capitalismo financeiro, ndlr]. “O ponto crucial, que o Papa Francisco perfeitamente identificou é que as desigualdades sociais são o maior desafio econômico do nosso tempo, não apenas para os pobres, mas para todo o mundo (...). As desigualdades de rendas são um elemento determinante para a retomada econômica. É também o problema que vai estar no centro das eleições americanas de 2014 [para o Senado e a Câmara dos Deputados, ndlr]”.
Para ela “a visão do Papa sobre ‘a economia da exclusão e das desigualdades’ vai decepcionar aqueles que se consideram capitalistas liberais, mas que fariam bem em ouvir sua mensagem. (...) É hora de evoluir na nossa abordagem sobre o capitalismo. Não se trata de se livrar do capitalismo, ou de cair na ojeriza ao dinheiro ou ao lucro; trata-se de buscar o lucro de uma maneira ética e de rejeitar o predicado segundo o qual a exploração está no centro do lucro”.
Pascal-Emmanuel Gobry, empresário e católico francês que comenta regularmente a conjuntura econômica, vai na mesma direção. Ele, que se descreve como um católico liberal (“pro free-market”), avalia, ao final de uma reflexão sobre a posição da Igreja e dos católicos sobre a crise financeira, que “há (na Igreja) lugar para o discernimento e o debate. Mas penso que, como católicos, somos convocados a levar a mensagem do Papa a sério, humildemente, a nos deixar questionar e a integrar essa mensagem na nossa maneira de pensar, sob a conduta do Espírito Santo”.
Resta saber que outra forma de capitalismo ou qual outro modelo econômico inventar.
Noticias do papa. 29 nov a 7 dez 13
terça-feira, 3 de dezembro de 2013
Francisco e o vento contrário da Cúria
Artigo de Hans Küng ///////////////////////////
O Papa Francisco dispõe das necessárias qualidades para liderar como capitão o navio da Igreja através das tempestades destes tempos: a confiança dos fiéis lhe servirá de apoio. Ele terá contra ele o vento da Cúria e, muitas vezes, deverá avançar em ziguezague. A Evangelii gaudium é uma etapa importante nesse sentido, mas certamente não é o ponto de chegada.
A opinião é do teólogo suíço-alemão Hans Küng, em artigo publicado pelo jornal Corriere della Sera, 27-11-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Eis o texto.
A reforma da Igreja prossegue: na exortação apostólica Evangelii gaudium, o Papa Francisco reitera não só a sua crítica ao capitalismo e ao domínio do dinheiro, mas também se declara inequivocamente favorável a uma reforma eclesiástica "em todos os níveis". Ele luta concretamente por reformas estruturais, tais como a descentralização para as dioceses e paróquias, uma reforma do ministério de Pedro, a reavaliação dos leigos e contra a degeneração do clericalismo, por uma eficaz presença feminina na Igreja, especialmente nos órgãos decisionais. Declara-se também expressamente favorável ao ecumenismo e ao diálogo inter-religioso, especialmente com o judaísmo e o Islã.
Tudo isso encontrará um amplo consenso muito além do âmbito da Igreja Católica. A recusa indiscriminada do aborto e do sacerdócio feminino deverão despertar críticas. Mostram os limites dogmáticos desse papa. Ou talvez Francisco sofre as pressões da Congregação da Doutrina da Fé e do seu prefeito, o arcebispo Gerhard Ludwig Müller?
Este último manifestou a sua própria posição ultraconservadora em uma longa intervenção no L'Osservatore Romano (23 de outubro de 2013), em que reitera a exclusão dos sacramentos dos divorciados em segunda união. Dado o caráter sexual da sua relação, eles vivem presumivelmente no pecado, a menos que convivam "como irmão e irmã" (!). Como bispo de Regensburg, Müller, fonte de inúmeros conflitos com párocos, teólogos, órgãos leigos e o Comitê Central dos Católicos Alemães pelas suas posições ultraclericais, era discutido e mal visto. O fato de que, apesar disso, ele foi nomeado pelo Papa Ratzinger, na qualidade de fiel defensor, além de curador da sua opera omnia, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, não surpreendeu tanto quanto ter sido logo confirmado nesse cargo pelo Papa Francisco.
E os observadores, preocupados, já se perguntam se o Papa Emérito Ratzinger, por meio do arcebispo Müller e de Georg Gänswein, seu secretário, também ele nomeado arcebispo e prefeito da Casa Pontifícia, efetivamente não age como uma espécie de "papa-sombra". Aos olhos de muitos, a situação parece contraditória: por um lado, a reforma da Igreja e, por outro, a atitude com relação aos divorciados em segunda união.
O papa gostaria de ir em frente – o "prefeito da fé" freia. O papa tem em mente a humanidade concreta – o prefeito, principalmente a doutrina tradicional católica. O papa gostaria de praticar a caridade – o prefeito apela à santidade e à justiça divina. O papa gostaria que os sínodos episcopais, em outubro de 2014, encontrassem soluções práticas para os problemas da família, também com base em consultas aos leigos – o prefeito se baseia em teses dogmáticas tradicionais para poder manter o status quo, sem caridade. O papa quer que os sínodos episcopais empreendam novas tentativas de reforma – o prefeito, ex-professor de teologia dogmática, pensa que pode impedi-las logo de saída com a sua tomada de posição.
É preciso se perguntar se o papa ainda controla esse seu sentinela da fé.
É preciso dizer que o próprio Jesus se expressou sem meios termos contra o divórcio. "O que Deus uniu o homem não o separe" (Mt 10, 9). Mas ele fazia isso sobretudo em benefício da mulher, que na sociedade da época era penalizada em nível jurídico e social, e contra o homem, que no mundo judaico era o único que podia apresentar o pedido de divórcio. Assim, a Igreja Católica, na qualidade de sucessor de Jesus, embora em uma situação social completamente mudada, reitera fortemente a indissolubilidade do matrimônio que garante aos cônjuges e aos seus filhos relações estáveis e duradouras.
Os cristãos neotestamentamentários não consideram a palavra de Jesus com relação ao divórcio como uma lei, mas sim como uma diretriz ética. O fracasso da união matrimonial claramente não corresponde ao desígnio da criação. Mas só a rigidez dogmática não pode admitir que a palavra de Jesus sobre o divórcio já na época apostólica fosse usada com uma certa flexibilidade, isto é, em caso de "luxúria" (cf. Mt 5, 32; 19, 9) e no caso de separação entre um parceiro cristão e um não cristão (cf. 1Cor. 7, 12-15).
É evidente que já na Igreja primitiva se percebia que existem situações em que continuar a convivência se torna irrazoável.
E a credibilidade do Papa Francisco seria imensamente danificada se os reacionários do Vaticano o impedissem de traduzir logo em ações as suas palavras e os seus gestos embebidos de caridade e de sentido pastoral. O enorme capital de confiança que o papa acumulou nos primeiros meses do seu pontificado não deve ser desperdiçado pela Cúria.
Inúmeros católicos esperam que o papa examine a discutível posição teológica e pastoral de Müller; que vincule a comissão para a defesa da fé à sua linha teológica pastoral; que as louváveis consultas dos bispos e dos leigos em vista dos próximos sínodos sobre a família levem a decisões dotadas de fundamento bíblico e próximas da realidade.
O Papa Francisco dispõe das necessárias qualidades para liderar como capitão o navio da Igreja através das tempestades destes tempos: a confiança dos fiéis lhe servirá de apoio. Ele terá contra ele o vento da Cúria e, muitas vezes, deverá avançar em ziguezague, mas a esperança é que, confiando-se à bússola do evangelho (não à do direito canônico), ele possa manter a rota na direção da renovação, do ecumenismo e da abertura ao mundo. A Evangelii gaudium é uma etapa importante nesse sentido, mas certamente não é o ponto de chegada.
http://www.ihu.unisinos.br/noticias/526117-francisco-e-o-vento-contrario-da-curia-artigo-de-hans-kueng
sexta-feira, 29 de novembro de 2013
Os preferidos de Deus.
Quinta, 05 de setembro de 2013
(Artigo de Gustavo Gutiérrez)
É necessário conhecer as razões da pobreza em nível social, econômico e cultural. Isso exige instrumentos de análise que nos são fornecidos pelas ciências humanas, mas, como todo pensamento científico, elas trabalham com hipóteses que permitem compreender a realidade que buscam explicar. Isso equivale a dizer que elas são chamadas a mudar diante de fenômenos novos.
A opinião é do teólogo dominicano peruano Gustavo Gutiérrez, um dos "pais fundadores" da Teologia da Libertação, autor de Teologia da Libertação: Perspectivas (Ed. Loyola). O artigo foi publicado no jornal do Vaticano, L'Osservatore Romano, 04-09-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Eis o texto.
Não estamos com os pobres se não somos contra a pobreza, dizia Paul Ricoeur há muitos anos. Ou seja, se não rejeitamos a condição que oprime uma parte tão importante da humanidade. Não se trata de uma rejeição meramente emotiva. É necessário conhecer as razões da pobreza em nível social, econômico e cultural. Isso exige instrumentos de análise que nos são fornecidos pelas ciências humanas, mas, como todo pensamento científico, elas trabalham com hipóteses que permitem compreender a realidade que buscam explicar. Isso equivale a dizer que elas são chamadas a mudar diante de fenômenos novos.
É o que acontece hoje diante da presença dominante do neoliberalismo que vem sobre as costas de uma economia cada mais autônoma da política (e, antes ainda, da ética), graças ao fenômeno conhecido pelo termo, um pouco bárbaro, "globalização".
A situação assim designada, como sabemos, vem do mundo da informação, mas tem poderosas repercussões sobre o campo econômico e social, e em outros âmbitos da atividade humana. No entanto, a palavra é enganosa, porque faz acreditar que nos orientamos rumo a um mundo único, quando, na realidade, e no momento atual, comporta inevitavelmente uma contrapartida: a exclusão de uma parte da humanidade do circuito econômico e dos chamados benefícios da civilização contemporânea.
Uma assimetria que se torna cada vez mais pronunciada. Milhões de pessoas são, assim, transformadas em objetos inúteis, ou descartáveis após o uso. Trata-se daqueles que ficaram fora do âmbito do conhecimento, elemento decisivo da economia dos nossos dias e o eixo mais importante de acumulação de capital.
Deve-se notar que essa polarização é consequência da forma em que estamos vivendo hoje a globalização, que constitui um fato que necessariamente não deve assumir os contornos atuais de uma crescente desigualdade. E, como sabemos, sem igualdade, não há justiça. Sabemos disso, mas o problema assume hoje uma urgência cada vez maior.
O neoliberalismo econômico postula um mercado sem limites, chamado a se regular sozinho e submete qualquer solidariedade social nesse campo a uma dura crítica, acusando-a não só de ser ineficaz com relação à pobreza, mas até de ser uma das suas causas. Que houve abusos nesse campo é claro e reconhecido, mas aqui estamos diante de uma recusa de princípio que deixa sem proteção os mais frágeis da sociedade.
Um dos corolários desse pensamento, e um dos mais dolorosos e agudos, é o da dívida externa, que oprime e mantém as mãos amarradas das nações pobres. Dívida que cresceu de maneira espetacular, dentre outros motivos, por causa das taxas de juros manipuladas pelos próprios credores. O pedido do seu cancelamento foi um dos pontos mais concretos e interessantes da decisão de João Paulo II de celebrar um jubileu, no sentido bíblico do termo, para o ano de 2000.
Essa desumanização da economia, em vigor há algum tempo, que tende a transformar tudo em mercadoria, inclusive as pessoas, foi denunciada por uma reflexão teológica que mostra o caráter idólatra, no sentido bíblico do termo, desse fato. As circunstâncias atuais não só tornaram mais urgente esse chamado, mas também forneceram novos elementos de aprofundamento.
Por outro lado, assistimos hoje a uma curiosa tentativa de justificação teológica do neoliberalismo econômico que, por exemplo, compara as multinacionais ao Servo de YHWH, atacado e vilipendiado por todos, enquanto delas viriam a justiça e a salvação. Sem falar da chamada teologia da prosperidade, que tem vínculos muito estreitos com a posição recém-lembrada. Isso levou, às vezes, a postular um certo paralelismo entre cristianismo e doutrina neoliberal.
Sem negar as suas intuições, é preciso se interrogar sobre o porte de uma operação que nos lembra aquela que, no extremo oposto, foi feita, há anos, para refutar o marxismo, considerado também como uma espécie de "religião", que, além disso, teria seguido, passo a passo, a mensagem cristã (pecado original e propriedade privada, necessidade de um redentor e proletariado etc.). Mas essa observação, é claro, não tira nada da necessidade de uma crítica radical das ideias dominantes hoje no âmbito da economia. Ao contrário.
Uma reflexão teológica a partir dos pobres, preferidos por Deus, se impõe. Ela deve levar em consideração a autonomia da disciplina econômica e, ao mesmo tempo, ter em mente a sua relação com o conjunto da vida dos seres humanos, o que comporta, acima de tudo, levar em consideração uma exigência ética.
Da mesma forma, evitando entrar no jogo das posições que acabamos de mencionar, não devemos perder de vista que a rejeição mais firme às posições neoliberais ocorre a partir das contradições de uma economia que se esquece cinicamente e, a longo prazo, de maneira suicida dos seres humanos, particularmente daqueles que não têm defesas nesse campo, isto é, hoje, a maior parte da humanidade.
Trata-se de uma questão ética no sentido mais amplo do termo, que impõe que entremos nos perversos mecanismos que distorcem a partir de dentro a atividade humana chamada economia. Esforços corajosos de reflexão teológica são feitos nesse sentido entre nós.
Nessa linha, a da globalização e da pobreza, também devemos colocar as perspectivas abertas pelas correntes ecologistas diante da destruição, igualmente suicida, da natureza. Elas nos tornaram mais sensíveis a todas as dimensões do dom da vida e nos ajudaram a ampliar o horizonte da solidariedade social que deve compreender um respeitoso vínculo com a natureza.
O problema não diz respeito apenas aos países desenvolvidos, cujas indústrias causam tantos danos ao habitat natural da humanidade. Envolve a todos, também os países mais pobres.
É impossível hoje refletir teologicamente sobre o problema da pobreza sem levar em conta essas realidades.
http://www.ihu.unisinos.br/noticias/523396-os-preferidos-de-deus-artigo-de-gustavo-gutierrez
segunda-feira, 18 de novembro de 2013
CRISTIANISMO ESQUIZOFRÊNICO
Pe. Alfredo J. Gonçalves, CS/////////////////////////////////
O termo esquisofrenia provém do universo da psicologia ou da psicoterapia. De acordo com os dicionários da língua portuguesa, designa “uma demência precoce caracterizada por distúrbios da afetividade”, ou também “uma desintegração da personalidade humana”. Transposto ao campo religioso, pode ser utilizado como metáfora para definir aqueles que, implícita ou explicitamente, costumam separar a fé do comportamento prático, seja este de ordem pastoral, socioeconômico ou político-cultural. Atualmente constituem uma boa fatia dos que se declaram “cristãos”. Normalmente participam dos sacramentos, das práticas religiosas, do culto da Palavra ou da eucaristia, ao mesmo tempo que, no mundo dos negócios, do lugar em que moram e do trabalho, o seu modo de ser não sofre qualquer influência da mensagem evangélica. Com frequência, apreciam e admiram as palavras do Papa, do sacerdote, do pastor ou de qualquer outra autoridade religiosa (por exemplo), mas isso não significa aceitá-las na prática. Conseguem estabelecer uma distância razoável entre o “autodefinir-se como cristão” e o “viver como cristão”. No geral, revelam-se capazes de blindar a própria existência contra as exigências de uma fé levada verdadeiramente a sério, subtraindo-se às consequências da mesma. De resto, em grau maior ou menor, essa distância entre fé e vida existe em todos nós. “Tra il dire e il fare in mezzo c’è il mare”, diz um provérbio italiano.
No caso específico do catolicismo, a fé em Jesus Cristo torna-se um sentimento de natureza privada, intimista e espiritualizante, sem implicações diretas no contexto histórico em que a pessoa se encontra inserida. Prevalece um dualismo muitas vezes inconsciente: enquanto o “encontro com Deus” na oração pessoal, na piedade comunitária ou na celebração eucarística adquire um caráter estático de êxtase e fácil entusiasmo, o “encontro com os irmãos” mantém-se frio e indiferente diante da injustiça e da opressão, do sofrimento e da exclusão social. Não é incomum encontrar grandes empreendedores e renomadas autoridades (na área das finanças, da agro-indústria, das tele-comunicações, da mineração, da política e das redes comerciais – só para citar alguns exemplos) que se revelam assíduos na oração e na missa, mas contemporaneamente não exitam em pagar salários irrisórios, em manter enormes latifúndios, em apropriar-se indevidamente da rex publica ou em explorar a mão-de-obra fácil e barata, quando não infantil ou de imigrantes irregulares.
Perto de Deus, sem dúvida, mas distantes do próximo e mais ainda daqueles que incomodam! Até que ponto isso é possível numa fé evangelicamente autêntica? Ou ainda, esse deus (com letra minúscula) não será um ídolo facilmente manipulável? Evidente que, embora em doses diferenciados, a mesma atitude se repete em todos os extratos e classes sociais. Chegamos ao extremo de “uma descrença objetiva”, ao lado de uma “piedade subjetiva”, diz com acerto o teólogo alemão Jurgen Moltmann (Teologia da esperança). Afirma ainda o mesmo autor: “A vida interior feita de relações diretas e incomunicáveis entre a existência e a transcendência, caminha pari e passo com o desprezo das coisas exteriores, consideradas absurdas, privadas de senso e iníquas”. A relação com Deus desvincula-se da relação com os outros, como se rezar o “Pai nosso” não implicasse um combate coletivo e fraterno pela busca do “pão nosso de cada dia”. De fato, se o Pai é “nosso”, o pão jamais poderá ser “meu”. A fé divorcia-se da vivência eclesial e da ação social.
A oração diante do Cristo Ressuscitado se interioriza numa forte sensação de louvar ao Deus eternamente presente e glorioso, a ponto de desinteressar-se por completo de qualquer compromisso com a realidade que nos cerca. Instala-se uma clara dicotomia entre a vivência da fé, às vezes eufórica e exagerada, por um lado, e, por outro, a ação pessoal, social ou política nos embates da existência, na família, no grupo de amigos, enfim, no cotidiano da vida. Ambas parecem linhas paralelas de uma ferrovia, ou seja, linhas que jamais se cruzam e menos ainda se interpelam. Pior ainda, a vida privada e a vida pública correm o risco de dissociar-se a tal ponto de uma sequer reconhecer a outra. O que eu sou em casa e na Igreja, digamos, é uma coisa; o que eu sou ou como vivo la fora, é outra. Dois tipos de comportamento fragmentados, não raro em contradição entre si. Quantas vezes o escândalo de um representante de alto escalão da política, dos negócios ou da religião, quanto escancarado pela mídia, revela essa dupla face da mesma pessoa!
Nas cartas de Paulo, particularmente na Primeira aos Coríntios, o apóstolo combate esse êxtase falso de uma expectativa imediata do Reino – próprio da Igreja primitiva – como se a segunda vida de Cristo estivesse às portas. Semelhante expectativa levava os cristãos a desinteressar-se das “coisas do mundo”, para refugiar-se numa atitude de fé estéril e descompromissada. Ao invés de uma preocupação pela transformação do mundo, prevalecia o seu abandono puro e simples. Por que fazer algo se o fim está próximo! Basta esperar o Senhor! Vem, Senhor Jesus! Se, por uma parte, é verdade que Cristo ressuscitou dos mortos e está vivo, diz Paulo, por outra, também é certo que nós permanecemos sujeitos às incongruências e contradições deste mundo, submetidos ao domínio do pecado e da morte. Experimentamos o “já” da ressureição de Jesus como antecipação da glória futura e, ao mesmo tempo, o “ainda não” que mantém o corpo e o espírito na expectativa do cumprimento da promessa expressa na vinda gloriosa. O apóstolo enfatiza uma diferença fundamental, muitas vezes pouco levada a sério. Enquanto Cristo passou pelo processo da cruz e da ressurreição, nós ainda vivemos sob o signo do sofrimento e da cruz. Não podemos abandonar sem mais a “carne do mundo” (Bruno Forte) onde se encontram tantos irmãos e irmãs crucificados. Parafraseando Paulo Freire, ninguém se salva sozinho, ninguém salva ninguém; todos nos salvamos juntos. Caminhamos nas trevas, à sombra da cruz, tendo na mão a chama da ressurreição do Messias, na fé e na esperança de nossa própria ressurreição e da instalação definitiva do Reino de Deus. Vale insistir, a promessa que nos impele à ação no mundo “já” se fez presente em Jesus morto e ressuscitado, mas “ainda não” se cumpriu em nós mesmos. Daí a exigência de uma fé que se desdobre em prática transformadora diante de uma sociedade que contradiz o plano de Deus.
Por isso é que a fé e a esperança conduzem ambas à prática da caridade. Enquanto estamos a caminho, não podemos separar “justos e injustos”, “fiéis e infiéis”, “puros e impuros”, “salvos e perdidos”, “Deus e o mundo” – como âmbitos absolutamente contrários e com fronteiras precisas. Não podemos cruzar os braços diante de uma sociedade fortemente marcada pelo individualismo e o egoísmo, o sofrimento e a morte. Fugir deste contexto é abandonar o mundo onde foi erguida a cruz de Cristo, no Calvário, e onde estão plantadas hoje as cruzes de milhões de pessoas, a imensa multidão dos “sem”: sem terra e sem trabalho, sem nome e sem endereço, sem pão e sem escola, sem direitos e sem pátria. Buscar o céu e o rosto de Deus sem passar pelo rosto desfigurado dos pobres e excluídos é o mesmo que tomar um falso atalho para a fé a partir da Boa Nova do Evangelho e de toda a Bíblia como Palavra de Deus. “Onde está teu irmão Abel?” – perguntará novamente o Senhor! E que responderemos? Não vale repetir a mesma desculpa de Caim: “por acaso sou eu o guarda de meu irmão!” Sim, na família cristã, somos todos responsáveis uns pelos outros, guardiães uns dos outros.
Alguns tipos de oração, de exercícios de piedade e de louvor e, por outro lado, algumas formas de comportamento dos participantes de certos movimentos religiosos, surgidos nas últimas décadas, tendem a essa dicotomia. Do nosso lado estão os que “encontraram Jesus”; do lado de fora os que vivem nas trevas do erro e do pecado. Trata-se de um dualismo que remete ao famigerado conceito de maniqueísmo, segundo o qual o bem e o mal, o certo e o errado encontram-se em lados diametralmente opostos. Na prática de Jesus e nas cartas de Paulo, contudo, todos estamos a caminho, na tensão entre o pecado e a graça, a dor e a esperança, a danação e a salvação. Ninguém se encontra definitivamente salvo e ninguém definitivamente condenado. Estamos todos sujeitos às pedras e espinhos da estrada, às relações conflitivas com os outros e ao ambiente histórico em que vivemos e nos movemos. E todos somos chamados, diária e simultaneamente, a uma resposta diante do apelo evangélico e à solidariedade com os pobres, os pecadores, os mais necessitados, os últimos, como não se cansa de lembrar o Papa Francisco. Como conclusão, resulta que fé e compromisso pastoral, social e político são indissociáveis.
Roma, Itália, 16 de novembro de 2013
quarta-feira, 30 de outubro de 2013
''A tarefa da Igreja é mudar as consciências, e a teologia contribui para isso'' Entrevista com Gustavo Gutiérrez
Quarta, 18 de setembro de 2013
A teologia da libertação está presente no âmbito político, para o bem ou para o mal, mas há outros fatores que influenciam. Eu acredito que ela motivou muitas pessoas, mas a tarefa da Igreja é mudar as consciências, e a teologia contribui para isso, dando razões e fundamentos. Também se faz teologia para mudar este mundo!
A opinião é do teólogo peruano Gustiavo Gutérrez, em entrevista a Serena Noceti, publicada no jornal L'Unità, 17-09-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto./////////////
Eis a entrevista.////////////////
A eleição do Papa Francisco e o seu desejo de "uma Igreja pobre para os pobres" levou muitos observadores a falar de uma "revanche" da teologia da libertação. O que o senhor pensa disso e quais são, em sua opinião, os desafios diante do novo papa?
O papa ama os pobres porque leu o Evangelho e o compreendeu. Pode ser que ele leu sobre a teologia da libertação, mas isso é secundário. A raiz nunca está em uma teologia, mas sim nas fontes. O desafio dos pobres está há muito tempo presente no horizonte da Igreja e ela se deu conta disso, senão não se entenderia o martírio que experimentamos na América Latina, começando por bispos como Angelelli, na Argentina, Romero, em El Salvador, eGerardi, na Guatemala, sem falar dos muitíssimos leigos. A pobreza continua sendo um grande desafio para a vida da Igreja, não só latino-americana. Ainda na Argentina, o atual papa demonstrou seu interesse pelo mundo dos pobres: e construir "uma Igreja pobre para os pobres", como ele disse que deseja, é um grande desafio.
Fala-se muito de reformas da Igreja que o papa poderia realizar. Quais o senhor pensa que seria necessárias a partir desse ponto de vista?
Ao dizer que a pobreza é um desafio muito grande para a Igreja, está implícito que há mudanças a serem feitas. Trata-se de captar melhor a realidade do mundo da pobreza e afirmar com maior força em cada país a necessidade de que as necessidades dos pobres sejam a principal preocupação política, embora sem indicar formas concretas para resolver isso. Em diversos casos, a Igreja já fez isso, mas com esse papa isso deve se fortalecer. Portanto, há muito a se fazer. E o problema da pobreza é complexo, porque não se reduz ao aspecto econômico, mas envolve, por exemplo, a diversidade cultural e a convivência entre história e etnias diversas, como acontece em muitos países do sul da América. Estou convencido de que assumir a perspectiva dos últimos, do pobre muda muitas coisas no comportamento dos cristãos. E não se pode ignorar que sempre se fala da América Latina como de um "continente católico", mas depois há essa imensa pobreza, que deve ser combatida, porque é preciso nos entendermos sobre o conceito de católico, que não se reduz a cumprir algumas obrigações religiosas, que são necessárias, mas se não forem acompanhadas pela luta pela justiça elas não têm muito sentido.
Que reformas o senhor gostaria de ver realizadas?
Aquela já anunciada da Cúria Romana, que tem consequências para a Igreja universal. Faz parte dessa reforma, por exemplo, uma orientação diferente na nomeação dos bispos.
Que elementos de continuidade o senhor vê entre Bento XVI e Francisco?
Eles têm um caráter e um estilo pessoal muito diferentes, ligados à origem, a Europa central ao invés do "fim do mundo". Por outro lado, a opção preferencial pelos pobres está tão presente no documento de Aparecida porqueBento XVI falou dela no discurso de abertura, conectando-a diretamente à fé em Cristo. Eu acredito que, se ele não tivesse dito isso, o documento teria falado menos dela. E, naturalmente, essa visão é compartilhada pelo Papa Francisco. Portanto, há uma continuidade, mesmo que o estilo seja muito diferente. Cada julgamento, no entanto, deve ser prudente, porque o papa foi eleito apenas há poucos meses.
O Frei Betto defende que hoje a teologia da libertação tem mais escuta fora da Igreja do que dentro, referindo-se ao fato de que, na última década, na América Latina, líderes que, idealmente, se remetem à "opção pelos pobres" e à Igreja da libertação chegaram ao governo. O senhor compartilha essa opinião?
Eu desconfio muito dessas identificações. Certamente, Correa é um homem de formação cristã, tendo estudado emLouvain com François Houtart: ao mesmo tempo, porém, é um economista com as suas ideias. Funesfrequentemente cita Oscar Romero, que também é uma figura de referência para todo o país. Mas são casos individuais. Eu acredito que os políticos têm todo o direito de usar essas referências, porque isso significa que, para eles, significam algo, e isso me alegra. Mas eu não acho que se possa dizer que, nesses países, há presidentes ligados à teologia da libertação, porque eles fazem política em seu próprio direito – e eu acho que se trata da política necessária para mudar um país –, mas uma teologia não pode ser uma referência ideológica. Uma anedota: há muitos anos, eu recebi um telefonema de um jornalista de Barcelona que me pedia uma opinião sobre a revolução sandinista, definindo-a de "uma revolução feita por pessoas ligadas à teologia da libertação". Eu lhe respondi que eu pensava que havia fatores muito mais importantes da teologia da libertação na raiz dessa revolução, acima de tudo a ditadura dos Somoza.
Não devemos perder o senso de proporção e a capacidade de analisar os muitos fatores sociais. No entanto, eu não tenho dúvidas ou, melhor, me alegro pelo fato de que a posição da Igreja latino-americana nos últimos 40 anos influenciou muito a sociedade: e falo da Igreja, porque as ideias que são atribuídas à teologia da libertação também estão presentes nos documentos das conferências gerais do episcopado latino-americano. E, por outro lado, muita repressão dos governos foi motivada pela luta contra a teologia da libertação! Na conferência dos exércitos americanos de 1987, defendia-se que a teologia da libertação era contrária à "civilização ocidental cristã". Portanto, a teologia da libertação está presente no âmbito político, para o bem ou para o mal, mas há outros fatores que influenciam. Eu acredito que ela motivou muitas pessoas, mas a tarefa da Igreja é mudar as consciências, e a teologia contribui para isso, dando razões e fundamentos. Também se faz teologia para mudar este mundo!
http://www.ihu.unisinos.br/noticias/523821-a-tarefa-da-igreja-e-mudar-as-consciencias-e-a-teologia-contribui-para-isso-entrevista-com-gustavo-gutierrez
sexta-feira, 11 de outubro de 2013
Agenda Latino-americana 2014

domingo, 22 de setembro de 2013
Dos teólogos españoles de prestigio enjuician la histórica entrevista concedida por el Papa a las revistas de la Compañía
José Manuel Vidal
(In Religión Digital)
Masiá: “El Papa es un pensador que sabe dudar y un creyente que sabe confiar”. Sinodalidad y discernimiento, claves de lectura de la histórica entrevista papal
Castillo: “Francisco anuncia que la Iglesia vuelve a retomar el gobierno sinodal”.
Dos teólogos españoles de prestigio enjuician la histórica entrevista concedida por el Papa a las revistas de la Compañía. José María Castillo destaca la sinodalidad, como la clave más importante y se alegra de que el camino hacia ella llevará a la Iglesia de Gregorio VII a Francisco. Por su parte, el también teólogo Juan Masiá subraya la importancia que Francisco concede al descernimiento y su capacidad de “pensar dudando y creer confiando”.
De Gregorio VII a Francisco
José María Castillo
Tengo la impresión de que somos muchos los católicos, y demasiados los ciudadanos, que no acabamos de caer en la cuenta de la extraordinaria importancia que entraña la larga entrevista que el papa Francisco ha hecho pública para darnos a conocer sus ideas y sus proyectos.
Por supuesto, en lo que dice el papa. Es de enorme interés lo que Francisco afirma sobre la moral sexual en la que machaconamente insiste tanto el clero, sobre sus ideas políticas, sobre la misericordia y la bondad que debemos poner en práctica todos los seres humanos, sobre la religiosidad y otras cuestiones que sería largo enumerar. Sin embargo, el asunto más importante, que, a mi modo de ver, trata el papa, sospecho que se le escapa a mucha gente. Y es que la teología, como ocurre con la biología o la medicina, no está al alcance de todo el mundo. Sin embargo, periodistas y tertulianos, que no se atreverían a pontificar sobre cuestiones técnicas de biología, dictan sentencia tranquilamente sobre asuntos teológicos que exigen muchos años de estudio y reflexión.
Pero vayamos al tema que interesa. Hace cerca de mil años, en 1073, fue elegido papa un monje que tomó el nombre de Gregorio VII. Corrían malos tiempos para la Iglesia. Como es sabido, era entonces cuando estaban en auge las investiduras. Los señores feudales nombraban a su antojo (o según sus conveniencias) a los obispos, abades, y toda clase de cargos eclesiásticos. La Iglesia estaba en manos de los laicos, en el peor sentido que pueda tener esta afirmación. Y fue entonces cuando Gregorio VII decidió cortar con semejante estado de cosas. Lo cual era necesario y urgente. Pero, para conseguir un fin bueno, no se le ocurrió otra solución que concentrar todo el poder de la Iglesia en el papa.
El criterio determinante quedó formulado por el mejor conocedor de esta historia, Y. Congar: “Obedecer a Dios significa obedecer a la Iglesia, y esto, a su vez, significa obedecer al papa y viceversa”. Gregorio VII fijó sus convicciones en un documento famoso que consistía en 27 axiomas contundentes, que se resumen en tres criterios patéticos: 1) el papa es señor absoluto de la Iglesia; 2) el papa es señor supremo del mundo; 3) el papa se convierte en indudablemente santo (H. Küng).
Ahora bien, al atribuirse estos poderes, Gregorio VII acabó con una larga etapa de diez siglos en la historia de la Iglesia. Siglos en los que la Iglesia floreció, creció y forjó una cultura, que el monje Hincmaro de Reims supo sintetizar de forma admirable: “La Iglesia se expresa en plenitud en los concilios ecuménicos, al tiempo que regula su vida histórica por medio de los sínodos en los que se reúnen los obispos de una región determinada”. Lo cual quiere decir que el gobierno ordinario de la Iglesia no se gestionaba desde Roma, sino mediante los sínodos locales, que presidían los obispos de una región. Siempre tomando las decisiones democráticamente con la participación de todos los miembros de cada sínodo local. Los nombramientos de obispos, las leyes litúrgicas y canónicas, etc, se adoptaban en los sínodos. La Iglesia no tenía una estructura de gobierno “curial”, sino “sinodal”. Sólo así se conocían los problemas que había que resolver. Y se tomaban las decisiones adecuadas. Así, aquella Iglesia tuvo una vida creciente, durante mil años.
El actual obispo de Roma, el papa Francisco, nos acaba de anunciar a todos que la Iglesia vuelve a retomar el gobierno sinodal. ¿Será como el del primer milenio? No puede ser idéntico. Pero, por lo que el papa ha dicho, irá ciertamente por ese camino. Dice Francisco en su reciente entrevista:
“Los dicasterios romanos están al servicio del papa y de los obispos: tienen que ayudar a las iglesias particulares y a las conferencias episcopales. Son instancias de ayuda. Pero, en algunos casos, cuando no son bien entendidos, corren peligro de convertirse en organismos de censura. Impresiona ver las denuncias de falta de ortodoxia que llegan a Roma. Pienso que quien debe estudiar los casos son las conferencias episcopales locales, a las que Roma puede servir de valiosa ayuda. La verdad es que los casos se tratan mejor sobre el terreno. Los dicasterios romanos son mediadores, no intermediarios ni gestores”.
Esta es la idea que Francico tiene sobre el papel que les corresponde a las Congregaciones de la Curia Vaticana. El papa las pone al servicio de las Conferencias Episcopales. Y no al revés.
Pero la cosa no se queda en esto. El redactor de la entrevista recuerda que el pasado día de San Pedro, el 29 de junio, el papa definió “la vía de la sinodalidad” como el camino que lleva a la Iglesia unida “a crecer en armonía con el servicio del primado”. En consecuencia, mi pregunta es ésta: “¿Cómo conciliar en armonía primado petrino y sinodalidad? ¿Qué caminos son practicables, incluso con perspectiva ecuménica?” Esta pregunta es fuerte y, en cuanto empiece a ponerse en práctica el proyecto al que apunta, todo cambiará. Porque, en el fondo, lo que viene a decir es que nos sentaremos juntos todos los cristianos – sea cada cual de la confesión que sea – para intercambiar en serio nuestras propuestas, hasta que lleguemos al día dichoso de recuperar la unidad perdida.
Por eso, sin duda, el mismo Francisco siguió diciendo:
“Debemos caminar juntos: la gente, los obispos y el papa. Hay que vivir la sinodalidad a varios niveles. Quizá es tiempo de cambiar la metodología del sínodo, porque la actual me parece estática. Eso podrá llegar a tener valor ecuménico, especialmente con nuestros hermanos ortodoxos. De ellos podemos aprender mucho sobre el sentido de la colegialidad episcopal y sobre la tradición de sinodalidad. El esfuerzo de reflexión común, observando cómo se gobernaba la Iglesia en los primeros siglos, antes de la ruptura entre Oriente y Occidente, acabará dando frutos”. Y el redactor añade estas palabras de Francisco, palabras que tienen que remover las bases de la teología: “Tenemos que caminar unidos en las diferencias: no existe otro camino para unirnos. El camino de Jesús es ése”.
Con una añadidura final, que les calla la boca a los que viven de la protesta contra todo cuanto viene de Roma:
“Es necesario ampliar los espacios para una presencia femenina más incisiva en la Iglesia. Temo la solución del “machismo con faldas”…. Las mujeres están formulando cuestiones profundas que debemos afrontar…. En los lugares donde se toman las decisiones importantes es necesario el genio femenino. Afrontamos hoy este desafío: reflexionar sobre el puesto específico de la mujer incluso allí donde se ejercita la autoridad en los varios ámbitos de la Iglesia”.
Este papa es noticia mundial porque ha tomado en serio el Evangelio. Y más en serio aún, la centralidad de Jesús en la vida. Lo central no es la religión y sus ritos, ni los dogmas y sus ortodoxias. De nada de eso habla Francisco. Aquí no se escucha el sonsonete de la prédica clerical, moralizante, amenazante y con frecuencia excluyente. El futuro de la Iglesia está en recuperar su pasado. El pasado que nos lleva derechos al galileo Jesús de Nazaret. Si no echamos por ese camino, la Iglesia no va a ninguna parte. Si el Evangelio es el centro, lo decisivo no será la religión. El centro será la humanidad, todo cuanto nos humaniza. Por eso el papa es noticia mundial.
Francisco, Papa del discernimiento
Juan Masiá
Contra el vicio del fanatismo, la virtud de la incertidumbre. Abundan hoy los fanatismos religiosos, políticos e ideológicos. En nombre de no sé qué divinidad, se planean terrorismos. En nombre de no sé que libertad y democracia, se desencadenan guerras injustas, mal llamadas preventivas. En nombre de no sé qué ideología partidista, se disimulan corrupciones y se miente en los parlamentos desmintiendo evidencias.
Y la justificación de todos estos fanatismos se afirma con la retórica de las certidumbres absolutas, apoyadas por intolerancias, a veces teístas, a veces ateas, pero siempre exclusivistas y discriminadoras: los malos son el otro equipo, se distingue claramente del nuestro y se supone que merece ser aniquilado por el hecho de ser diferente.
Por eso, lo que más me ha gustado en la tan comentada entrevista al Papa Francisco, es su capacidad de pensar dudando y creer confiando. Su relectura es una dosis medicinal de sana incertidumbre, terapia contra los fanatismos.
A Francisco no le gusta presumir del monopolio de la meta. “A Dios, dice, se le encuentra en el camino”. No le convence el tradicionalismo restauracionista cristiano, que “lo quiere todo claro y seguro”. Entre líneas atisbamos que él no va a predicar certidumbres absolutas para arrojarlas a la cabeza de un público fanático. Sabe que se expone a decepcionar a los fundamentalistas y anticipa la crítica de quienes le sospechen relativista.
“No, si se entiende en el sentido bíblico, según el cuál Dios es siempre una sorpresa y jamás se sabe dónde y cómo encontrarlo, porque no eres tú quien fija el tiempo, ni el lugar para encontrarte con Él. Es preciso discernir el encuentro. Y por eso el discernimiento es fundamental”.
Es notable el énfasis en el discernimiento en muchos párrafos de la entrevista. Cuando repito su relectura subrayando palabras clave, el bolígrafo fluorescente me pone de relieve el vocabulario de la incertidumbre confiada y la inseguridad segura que utiliza Francisco: “acompañar, buscar, ser creativo, aprender de los otros, aprender con el tiempo, consultar, síntesis de juventud y vejez, de cultura, fe y vida, caminar por caminos nuevos, salir de sí, vivir en periferias y fronteras, animar en vez de lamentarse, leer los signos de los tiempos, pensar con pensamiento abierto e incompleto, discernir más que discutir, narrar más que teorizar, tener en cuenta a las personas…”
Pensador, que sabe dudar, y creyente, que sabe confiar, opta Jorge Mario Bergoglio por la genialidad de santo Tomás en vez de por el tomismo decadente. Ese tomismo escolástico decadente prevalecía en la época de algunos manuales de filosofía que él estudió en el seminario -por cierto, con las certezas claras y distintas del mismo tomismo decadente en que se formó y enseñó su predecesor Karl Woijtila-.Pero el Papa Francisco opta hoy por la genialidad tomásica versus el tomismo decadente. Por eso elige: para pensar, dudar, y para creer, confiar.
Sigo releyendo la entrevista y coloco en un marco el párrafo conclusivo de una espiritualidad de la incertidumbre fiel:
“Sí, este buscar y encontrar a Dios en todas las cosas deja siempre un margen a la incertidumbre. Si una persona dice que ha encontrado a Dios con certeza total y ni le roza un margen de incertidumbre, algo no va bien. Si uno tiene respuestas a todas las preguntas, estamos ante una prueba de que Dios no está con él…”
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