As forças progressistas, da Teologia da Libertação, incluindo teólogos/as, pastorais sociais, Cebs, agentes de pastoral, religiosos/as, leigos e leigas, se mobilizaram para participar da Conferencia de Aparecida (2007) - uma des suas ações foi a Tenda dos Mártires, como espaço aberto, celebrativo, por 15 dias, enquanto durou a Conferência. A Tenda dos Mártires foi um alerta à toda Igreja para não esquecer seus mártires, sua caminhada, sua identidade de libertação.
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sábado, 15 de março de 2014
NÃO COMEÇOU EM 2013, NÃO VAI TERMINAR EM 2014: UMA ANÁLISE SOBRE OS ATOS DE RUA E OS MOVIMENTOS SOCIAIS ORGANIZADOS
10/03/2014 · por comitepopularsp · em Artigo. ·
17-junho-2013
Cerca de nove meses atrás, as ruas do Brasil presenciaram algo até então inédito no período pós-ditadura: manifestações massivas e simultâneas por todo o país, em busca de uma causa comum, a do transporte público. O trabalho de anos do Movimento Passe Livre e de outros grupos e movimentos sociais se transformou em catarse quando, em resposta à brutalidade policial, milhões foram às ruas, ainda que com demandas e pautas confusas, engrossaram o coro e fizeram parte da grande vitória das organizações populares de esquerda nas ruas: a queda da tarifa. Nesta nota, o Comitê Popular da Copa-SP convida todas e todos a uma análise da conjuntura pré Copa, para repensar estratégias de luta, pois acreditamos que é preciso afinar as pautas, mobilizar pela base e compreender todas as forças envolvidas na atual conjuntura, sem o que cairíamos na ilusão de que mobilizações desta natureza brotam espontaneamente.
De onde vem a violência?
Salta aos olhos o avanço do braço armado do estado em todas as esferas de governo: da Guarda Civil Metropolitana (GCM) à Força Nacional de Segurança (FNS) e às Forças Armadas, passando pela Polícia Militar, com suas práticas da ditadura, e por seu par, a Polícia “Civil”, todas receberam aportes bilionários em equipamentos e armas, infraestrutura, soldados, vigilância e monitoramento. O investimento de R$ 1,5 bilhão na segurança para os megaeventos é um dos gastos da Copa que mais assusta: contra qual inimigo isto tudo se volta? O Congresso e o Ministro da Justiça trabalham para reinventar o crime de terrorismo que pode ser aplicado como uma lei anti-manifestação. Tornam crime nossa ação política. Entre as novas regras do jogo, a Lei Geral da Copa de 2012 permite a criação de zonas de exclusão de 2km ao redor dos estádios nos espaços públicos (um cerco militar) e a isenção total de impostos (cerca de R$ 10 bilhões), para garantir que FIFA e as corporações patrocinadoras gozem seus lucros, entre outras exceções ao chamado estado democrático de direito, que ferem a nossa democracia “excessiva”, como diria o secretário geral da FIFA. Para realizar um megaevento, os governos reduzem direitos civis e políticos, se armam contra a própria população, sobretudo contra os mais pobres.
Isso não significa que devemos ficar em casa. Ou que nada sobrou de junho. Longe disso. O gigante que “acordou” em 2013 representa uma parcela da população, grande parte dela bastante jovem, que nunca tinha visto ou experimentado ir às ruas por direitos. Mas desde que o Brasil é desigual, há pessoas que enfrentam balas que não são de borracha, que matam mais que as de qualquer outra polícia do mundo em tempos de “paz”. Os movimentos sociais organizados, por moradia, por saúde, por educação, pelo fim do genocídio da população negra e periférica, não nasceram em 2013. Formaram também a base das jornadas de junho e, tão logo caiu a tarifa, continuaram nas ruas – e apanharam por isso – para reclamar contra a falta de moradias, contra a violência da PM, contra a sua invisibilidade social. Os mesmos movimentos que, em anos de mobilização, construíram uma pauta ampla de esquerda: trabalhadores (sejam eles ambulantes, catadores, garis ou professores) querem seu direito a um trabalho digno; moradores de áreas pobres e de favelas, os direitos à moradia digna, a um transporte público de fato e a serviços públicos de qualidade – equipamentos culturais, de lazer, escolas, hospitais, saneamento; movimentos da população de rua querem, para começar, o fim da violência e do higienismo social; organizações feministas, o fim da violência contra a mulher – muitas delas crianças e adolescentes – pra atender aos caprichos sexuais nas redes de prostituição forçada e de exploração sexual pelo país. Jovens querem, no mínimo, a liberdade de manifestação para alterar este estado de coisas. A Copa atravessa todas essas pautas e por isso esses movimentos discutem, se mobilizam e vão às ruas desde 2011. Para questionar a quem serve o megaevento da FIFA, nos articulamos no Comitê Popular da Copa-SP.
São movimentos sociais organizados os responsáveis pela continuação ininterrupta da luta, que não começou em 2013, nas ruas. Foi assim no Rio: do transporte, surgiu a pauta dos gastos na Copa e da repressão policial; da Copa, surgiu a voz e a vez dos professores; e hoje são os garis quem estão nas ruas por melhores condições de trabalho. Fortalecer e engrossar esses protestos, desde baixo, é um caminho muito mais concreto e horizontal de luta do que acreditar que as chamadas para atos são as catalizadoras das manifestações massivas nas ruas. É necessário organizar, fortalecer desde baixo, para estar na rua sabendo o que se quer, como alcançar os objetivos e de quem cobrar. Além disso, convocar atos inclui uma responsabilidade imensa, principalmente em tempos de violência estatal crescente: é a vida das pessoas em risco nas ruas, como já puderam provar os tiros recebidos pelo jovem em São Paulo e as muitas mortes decorrentes de violência estatal em manifestações, sendo a última a de de Tasman Amaral Accioly, de 72 anos, atropelado por um ônibus nas ruas do Rio em fevereiro, buscando escapar da truculência da repressão da Polícia Militar.
Lições do asfalto
A rua é nossa, sim, e é um espaço de disputa. Mas estar nela implica em pensar como e por quê estar nela. Apenas em 22 de fevereiro, 262 pessoas foram presas ilegalmente e fichadas pela polícia, e outras 80 intimadas a depor na hora e data do protesto; em apenas dois atos em 2014, a policia prendeu mais manifestantes do que em todo o ano passado, e o DEIC, que faz as vezes de DEOPS do século XXI, iniciou um arbitrário e autoritário inquérito de cunho político e social, com o apoio do governo estadual, ministério público e poder judiciário. Não podemos ir às ruas ingenuamente para reforçar campanhas da grande mídia contra os protestos. Se queremos vencer, temos que ter as pautas conosco, as causas conosco, e principalmente, o apoio popular conosco. Isso implica repensar a rua, como fez a PM. Se o Estado mudou suas táticas, precisamos também pensar em como mudar as nossas, de baixo pra cima. Sem isso, corremos o risco de ir às ruas apenas para treinar as forças de repressão a serviço do Estado, da FIFA e das empresas patrocinadoras da Copa, de modo que, assim, não só vai ter copa, como o que não vai é ter gente lutando na rua depois dela.
São Paulo tem um desafio enorme pela frente: além de ser a abertura da Copa em 12 de junho, servindo de termômetro pro que vai acontecer pelo país, ainda abriga o Congresso da Fifa nos dias 10 e 11 de junho. Estaremos nas ruas nessas datas. Mas antes disso, é hora de construir a mobilização junto aos movimentos sociais. Já estivemos nas ruas no 8 de março das mulheres, e estaremos no Dia da Mentira, para não deixar esquecer os 50 anos do golpe empresarial-militar de 64 e suas sombras tão atuais. Estaremos nas jornadas por moradia de abril e maio, nas marchas das vadias, pela liberdade de manifestação. E enquanto a intervenção militar de extermínio nas periferias e quebradas não cessar, estaremos nas ruas também pelo fim da guerra às drogas (e aos pobres), uma política fracassada que enriquece banqueiros, senhores das armas e colarinhos brancos. Além disso, estaremos organizando em abril a 2ª Copa Rebelde dos Movimentos Sociais, para ocupar o espaço público com futebol, teatro e música.
Não deixaremos que o terror estatal nos amedronte ou nos cale. Mas, por mais que seja compreensível a vontade de retomar as jornadas de junho de 2013 agora, é desejável ter em vista que as jornadas de 2014 não sejam as últimas, e que a Copa não é a última das fronteiras do capital e nem mesmo a pauta principal. Estamos lutando pelo nosso direito à cidade, por uma sociedade mais igual, e livre. A construção tem que vir de baixo para cima, como em 2013, para que depois da Copa, o poder popular continue a tomar as ruas por direitos, independentemente das novas manobras aprendidas pelos policiais, das novas tropas e inquéritos criados ou dos novos aparatos tecnológicos de repressão. Por isso tentamos, nos últimos 3 anos, construir atividades de formação, produzir e difundir contra-informação para aprofundar o debate público sobre nossas pautas, além de termos realizado quatro atos de rua.
A rua é nossa, e cabe a nós agora repensá-la pra que não só a população daqui, mas do mundo inteiro, que terá seus olhos sobre o país através da mídia internacional, compreenda que não, não iremos parar, porque temos causas justas e pautas concretas. Viemos de baixo e, enquanto nosso direito à cidade não estiver garantido, continuaremos a construir formas de ocupar o espaço público para reivindicar o que é nosso.
Calendário de ações que organizamos e participamos:
10 de março – 8º Debate-Bola “Trabalho Ambulante e a Copa da FIFA”;
15 de março – Jogo-debate Autônomos FC x Comitê Popular da Copa SP;
20 de março – Reunião aberta do Comitê Popular da Copa SP;
27 de março – 9º Debate-Bola “Militarização e Lei Anti-Terror”;
31 de março – Ato MTST “contra a ditadura”;
01 de abril – Cordão da Mentira – 50 anos do Golpe;
03 de abril – Reunião aberta do Comitê Popular da Copa SP;
08 de abril – Jornada de lutas por moradia;
13 de abril – 2ª Copa Rebelde dos Movimentos Sociais;
17 de abril – Reunião aberta do Comitê Popular da Copa SP;
26 de abril – Marcha da Maconha: “Cultivar a liberdade para não colher a guerra”;
01 de maio – Encontro Nacional dxs Atingidxs por Megaeventos e Megaprojetos (BH);
15 de maio – Dia (Inter)Nacional de Luta contra a Copa, Megaeventos e Megaprojetos.
http://comitepopularsp.wordpress.com/2014/03/10/nao-comecou-em-2013-nao-vai-terminar-em-2014-uma-analise-sobre-os-atos-de-rua-e-os-movimentos-sociais-organizados/
segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014
Carlos Vainer: Rio promove “limpeza urbana” e será mais desigual em 2016
Denúncias
publicado em 30 de janeiro de 2014 às 19:24
Carlos Vainer: “Após megaeventos, Rio será uma cidade muito mais desigual”
por Dario de Negreiros, do Rio de Janeiro
Discutir e analisar ponderadamente o impacto causado pelos megaeventos nas cidades que brasileiras que lhes servirão de sede é tarefa que, ao menos nesta semana, chega a soar impossível.
Aos manifestantes anti-Copa, há muito que a brutalidade, o abuso e a inconsequência das instituições policiais não constituem novidade. Mas, após os eventos do último fim de semana, aqueles que já há alguns anos sustentam o bordão “Se não tiver direitos, não vai ter Copa” passaram a receber pancadas também de setores que costumam se identificar como progressistas.
O texto de Igor Ojeda (No mundo onde cresci, protestar contra violações é ser de esquerda) e o de Antonio Lassance (Vai ter Copa: argumentos para enfrentar quem torce contra o Brasil) ajudam a desfazer os simplismos e a desmentir as desinformações dos que se situam nos dois lados da polêmica.
Mas talvez ninguém ainda tenha situado a questão de modo tão abrangente quanto o faz o professor Carlos Vainer, do Ippur (Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional) da Universidade Federal do Rio de Janeiro. As mudanças de paradigma dos diferentes modelos de desenvolvimento urbano, as novas formas de organização da cidade e os conflitos que delas são decorrentes há muito tempo interessam a Vainer.
Mais recentemente, desenvolveu estudos sobre as grandes intervenções e os grandes projetos urbanos: em São Paulo, analisou a construção da avenida Águas Espraiadas; em Salvador, as alterações promovidas no Pelourinho; no Rio, as intervenções ligadas aos Jogos Panamericanos. Este último levou o grupo de Vainer a se aprofundar no trabalho de avaliação dos impactos dos grandes eventos esportivos internacionais.
Na entrevista abaixo, concedida no último dia 13 no Ippur, na Cidade Universitária da UFRJ, Vainer fala sobre as consequências atuais e vindouras das grandes obras que modificam o cenário urbano da capital fluminense. Mas, mais do que isso, o pesquisador situa estas intervenções nos processos mais amplos das quais elas fazem parte: a vigência de um novo modelo de cidade e de um novo padrão de desenvolvimento urbano, cujo princípio remete ao início dos anos 90.
O diagnóstico, se quisermos, pode ser sumariamente resumido: aprofundamento das desigualdades sócio-espaciais, guetificação das áreas pobres, fim da possibilidade da gestão democrática do espaço urbano, criminalização da pobreza e dos movimentos sociais. Sem contar o legado de violações de direitos humanos sofridas por até 80 mil habitantes do Rio de Janeiro – número que, em outras estimativas, chega à casa da centena de milhar.
Se, para Vainer, algo de positivo pode ser extraído desse cenário, devemos procurá-lo nas reações à insustentabilidade deste modelo. “Toda esta tentativa de despolitização do espaço urbano foi desafiada de maneira evidente pelas milhões de pessoas que foram às ruas e que disseram: ‘esse é um espaço público, um espaço nosso’.”
Um país que, embora intensamente urbanizado, estava acostumado a ver vindos do campo seus principais movimentos sociais, vive a crise do urbano como ocasião de politização de suas cidades. “O Brasil-político se urbanizou e o Brasil-urbano se politizou”.
Em virtude dos acontecimentos dos últimos dias, decidimo-nos por antecipar a publicação desta entrevista. Ela faz parte de uma série de reportagens que o Viomundo fará sobre políticas públicas dos governos estaduais do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Pernambuco. Também faremos um balanço dos principais programas do governo Dilma. As reportagens são bancadas integralmente pelos assinantes do Viomundo, a quem agradecemos profundamente por promover jornalismo independente e compartilhá-lo generosamente em rede com outros leitores.
***
Viomundo — Professor, o Rio de Janeiro está passando por grandes intervenções urbanas, que muitas vezes procuram vender a imagem da construção de um novo paraíso. Onde o senhor diria que o carioca viverá daqui a alguns anos? Ou seja, quais seriam os resultados das transformações pelas quais passa a cidade do Rio de Janeiro atualmente?
Carlos Vainer – O resultado desse processo é, inexoravelmente, uma cidade muito mais desigual. Haverá cariocas no paraíso e haverá cariocas no inferno. Aliás, essa já é a realidade contemporânea, só que ela está sendo aguçada. O primeiro resultado de todo esse processo – que tem nos Jogos Olímpicos e na Copa um momento de evidenciação, agudização e consolidação – é o aprofundamento da desigualdade.
Viomundo — E a maior parte da população estará no inferno?
A imensa maioria da população. A região metropolitana do Rio tem 12 milhões de habitantes, o município tem em torno de 5,5 milhões. A Barra da Tijuca tem 200 mil habitantes. Compare os investimentos feitos na Barra da Tijuca com os investimentos feitos no resto da cidade. Aí nós vamos ver como é que está sendo construído o paraíso, mas, sobretudo, como estão sendo construídos os eleitos desse paraíso.
Aliás, os verdadeiros eleitos desse paraíso não são nem os moradores dos condomínios da Barra da Tijuca. São os grandes latifundiários urbanos, as grandes empresas, as grandes empreiteiras, os grandes contratados, os grandes parceiros.
Esses são os verdadeiros eleitos. E os eleitos por esse modelo de cidade fraudam, através da corrupção e dos financiamentos de campanha, a manifestação democrática do processo eleitoral.
Mas a primeira coisa que devemos considerar é que as políticas urbanas, os projetos e o padrão de desenvolvimento urbano vigentes no Rio de Janeiro não se iniciaram hoje. Se formos buscar suas origens, temos de ir pelo menos ao primeiro governo do ex-prefeito César Maia (1993-1996). Se nós pensarmos em perspectiva histórica, nós estamos desde 1992 sob a égide de um mesmo projeto e concepção de cidade.
Depois do César Maia, tivemos um governo do Luiz Paulo Conde (1997-2000), que tinha sido secretário municipal de Urbanismo do César Maia. Depois o César Maia volta e faz dois mandatos.
Depois vem o Eduardo Paes que, embora tenha se candidatado por um partido diferente do partido do César Maia, é herdeiro das mesmas concepções: foi secretário [Municipal do Meio Ambiente, a partir de 2001] e foi sub-prefeito da Barra da Tijuca no governo César Maia.
Então são mais de 20 anos de construção de um projeto de cidade e de uma coalizão de poder que vai implantar e conduzir uma nova ideia e conceito de cidade, que hoje nós assistimos ser quase transformada em modelo nacional.
Viomundo — Essa coalizão envolve quais atores?
Envolve antigas oligarquias da cidade, grandes escritórios de advocacia, de arquitetura, uma elite deste tipo; tem também os interesses dos grandes comerciantes, dos grandes proprietários de terra, do que restou do capital industrial, de todo o capital que gira em torno da atividade turística; e, progressivamente, temos o interesse das grandes empreiteiras, que são hoje um vetor fundamental das coalizões de poder a nível nacional, mas também a nível local.
Nós as contamos na palma das mãos, são dez: Odebrecht, Camargo Correia, Mendes Junior, Carioca Engenharia, OAS e mais cinco.
Grupos estruturados, poderosíssimos, que hoje são grupos de poder urbano, também. Algumas delas começaram construindo Brasília, outras cresceram sob as asas protetoras da ditadura militar (1964-1985) e suas grandes obras – como os grupos baianos, por exemplo.
E, depois, se instauraram na república democrática como um dos vetores fundamentais dos grupos dominantes. Inclusive, como nós sabemos, as grandes empreiteiras, ao lado dos grandes bancos, são os grandes financiadores de campanha, são o esteio do sistema político construído a partir da constituição de 1988.
Viomundo — E qual é este o conceito de cidade que essa coalizão implementa?
Este modelo de cidade tem três vetores fundamentais.
O primeiro é o aprofundamento da desigualdade e o desenvolvimento da cidade sob a lógica da empresa. O modelo se funda na ideia de que cidades devem ser planejadas segundo uma perspectiva estratégica.
O planejamento estratégico é transposto do planejamento empresarial para o planejamento de cidades: as cidades passam a ser pensadas como empresas que concorrem com outras empresas em um mercado internacional de cidades.
E concorrem para vender o quê? As cidades vendem localização.
Pra quem? Para as grandes empresas, que circulam pelo mundo e que, com as mudanças tecnológicas, no processo de globalização, cada vez mais são móveis – em inglês se diz footloose –, cada vez mais têm possibilidades de circular e investir em qualquer parte do mundo.
Então as cidades seriam empresas que concorreriam com empresas para atrair investimentos, turistas e eventos.
Em segundo lugar, há a despolitização da cidade.
É necessário que ela não seja objeto de discussão pública. Uma operação urbana não se discute com o público.
A população não foi chamada para discutir o que ela gostaria de fazer na área portuária. Ela não foi consultada para saber se ela quer investir bilhões em vias expressas em direção a uma área praticamente vazia da cidade, onde nós temos menos de 15% das demandas de transporte, enquanto que 80% da demanda de transporte está na área suburbana, na Baixada Fluminense e na Grande Niterói.
As populações estão submetidas a transporte precário e dispendem, às vezes, três, quatro, até cinco horas por dia no trajeto casa-trabalho/trabalho-casa.
Mas não são aí que estão sendo feitos os investimentos. Aí, o que nós assistimos é a degradação das ferrovias, das vias. Os investimentos são feitos não onde há uma demanda de transporte, mas onde há uma expectativa de valorização imobiliária.
A despolitização da cidade significa a transformação da cidade de espaço público em privado. A política diz respeito a quê? À ação coletiva no espaço público.
O processo de privatização da cidade é a negação da política, portanto o fim da expectativa da democracia urbana. É a transformação do governo urbano em um governo autoritário.
Veja bem, se você for ler os teóricos catalães, eles propunham exatamente isso: eles diziam que era necessário um governo forte, carismático.
Por quê? Porque, segundo eles, para uma cidade ser competitiva, ela precisa estar unida em torno de seu projeto.
Ou seja, a ideia de que haja disputas, oposições, no interior da cidade, enfraquece-a na competição.
Exemplo: quando o Rio ganhou a candidatura para as Olimpíadas, havia um movimento em Chicago chamado “Chicagoans for Rio”, quer dizer, “chicaguenses pelo Rio”.
Evidentemente, o COI não viu com simpatia ir para uma cidade onde havia um movimento organizado contrário. O secretário-geral da Fifa [Jérôme Valcke] já disse que democracia atrapalha fazer Copa do Mundo.
A cidade da empresa, a cidade do evento, a cidade da negociação empresarial, das chamadas parcerias público-privadas, é uma cidade para a qual a democracia é um obstáculo.
E, portanto, um elemento central deste modelo é o autoritarismo urbano, as parcerias público-privadas como forma de captura do espaço urbano pelo capital privado.
Por isso que eu digo que a contraface da cidade de exceção é a democracia direta do capital. A população é excluída dos processos de negociação e discussão dos destinos da cidade, que são tratados nas operações urbanas.
Quem é que discutiu que o autódromo do Rio deveria ser destruído para dar origem a um Parque Olímpico que vai funcionar durante um mês e que, depois, vai se transformar em um grande empreendimento imobiliário?
Exemplo extraordinário – e absurdo, que parece não ter limites – é o caso do campo de golfe olímpico na cidade do Rio, para as Olimpíadas. O Rio tem dois campos de golfe.
Descobriram que faltava neles um buraco, para seguir os padrões olímpicos. Solução? A todos os cidadãos de bom senso, parece ser estender um buraco nesse campo. Solução encontrada pela Prefeitura? Fazer um outro campo. R$ 350 milhões: este é o orçamento inicial – vai ficar provavelmente por R$ 600 milhões, R$ 700 milhões.
Não satisfeitos, vão fazer esse campo em uma área de proteção ambiental, que, portanto, foi suspensa. Mais: esse campo, agora, faz parte de um projeto imobiliário do Pasquale Mauro, que vai construir uma série de condomínios em torno do campo. Condomínio dos quais esse campo vai ser um dos luxos ofertados aos futuros compradores.
Ou seja: um processo de desperdício de recursos públicos, de entrega de área ambiental, de entrega de patrimônio público, de investimentos que vão ser capturados pelo processo de valorização imobiliária. Isso é o exemplo de uma operação urbana, isso é o exemplo do que é a democracia direta do capital, do que é a apropriação da cidade e a privatização dos espaços urbanos.
Viomundo — No momento em que são feitas as remoções, as legislações da cidade, antes flexíveis, aparecem agora com todo o seu rigor. As comunidades pobres enfrentam laudos de área de risco, de área de proteção ambiental etc. No pico do Santa Marta, chegou a ser feito um contra-laudo, que procurava mostrar que ali não seria uma área de risco e que a tentativa de remoção aconteceria, então, por outros motivos. Há um uso político desse mecanismo?
Para os amigos, tudo; para os inimigos, a lei. É necessário entender que neste processo de transformação a população passa a ser um inimigo potencial permanente.
Sempre que ela colocar em questão qualquer decisão, ela é um inimigo. Porque ela está dividindo a cidade e uma cidade dividida vai ser derrotada na competição. Por isso é necessário “manter a imagem da cidade”. Se a sua imagem não for mantida, ela não é atrativa.
O capitalista quer entrar numa cidade onde sindicatos estão lutando por salários? Eu não quero investir numa cidade conflituada por lutas sindicais, por protestos e manifestações.
Essa cidade – que é a cidade onde se exerce plenamente a democracia, onde os grupos sociais, os diferentes setores da sociedade se manifestam no espaço público levando propostas e projetos públicos – é inimiga profunda da cidade-empresa, da cidade-negócio, da cidade competitiva.
Viomundo — O quão importante é o papel das forças de segurança pública para a criação e a manutenção deste modelo de cidade?
Com o aprofundamento da desigualdade e o fim da democracia, a violência se impõe. A polícia irá atuar, então, seja para conter os pobres nos espaços que lhe foram alocados, seja para impedir as manifestações públicas, como se viu recentemente.
As manifestações são uma ameaça à cidade-empresa. Empresa e política não caminham bem: no interior de uma empresa não é possível fazer política. E se a cidade é uma cidade-empresa, também ali não vai se discutir. Quer dizer, ali vai se produtivizar o capital, vai se promover a competitividade e a produtividade. Não vamos discutir com os citadinos, porque essa cidade não é pros citadinos, é pros compradores de cidade.
Então a repressão passa a ser um elemento central no conceito mais geral de cidade.
O que nós assistimos, neste processo, é à criminalização de todos aqueles que não aderem, ou não fazem parte, desta cidade.
A cidade-empresa reconhece não o citadino ou o morador. Ela reconhece dois personagens principais: o cliente e o investidor.
Ou você é comprador, ou você é investidor.
Se você é um cidadão, se você é uma pessoa que quer discutir que cidade a gente quer, você tem de ser banido dessa cidade porque você é uma ameaça à sua competitividade, você é um traidor desta cidade.
Isso fica muito claro nos megaeventos. A recente decisão do COI de fazer os jogos de 2020 em Tóquio, nem em Madri nem em Istambul, é evidente: Istambul acabou de ser tomada por imensas manifestações e os indignados tomaram as ruas da Espanha. Vai se fazer um evento aí?
Não, a próxima Copa do Mundo vai ser no Qatar, onde não tem perspectiva nenhuma de conflito. Ou seja: esses megaeventos estão sendo progressivamente banidos para áreas supostas livres de risco de conflitos sociais, de protestos, de contestação.
O que nós assistimos recentemente no Brasil inteiro – e o Rio tem uma expressão particular, pela sua configuração, pela sua importância como cidade no país e pelo fato de juntar Copa do Mundo e Olimpíadas – foi que as forças repressivas mostraram que esses eventos são incompatíveis com a democracia. E, no caso do Rio, o que ficou muito claro foi que a polícia que mata nas favelas e nos bairros mais pobres é a mesma polícia brutal, descontrolada, desrespeitadora de qualquer direito, que reprimiu de maneira violenta, forjando flagrantes, pretendo gente de maneira arbitrária, nas cidades.
A grande diferença, nesse processo que a gente pode chamar de democratização da repressão e da brutalidade promovida pela polícia do Rio, é que nas favelas eles usam balas de chumbo, enquanto nas manifestações eles ainda usam bala de borracha.
A repressão mostrou a sua verdadeira face: ela tem uma dimensão de criminalização da pobreza, mas a outra e inseparável dimensão desta repressão é a criminalização da ação política.
Viomundo — Quando se inicia, no Rio, a implementação deste novo conceito de cidade?
Este novo conceito fica muito claro logo no início do primeiro governo César Maia, quando, com o apoio da Firjan (Federação das Indústrias do Rio de Janeiro) e um consórcio de mais de 40 grandes empresas, eles contratam a consultoria catalã Tubsa (Tecnologias Urbanas Barcelona S/A), de propriedade de um grande intelectual e consultor internacional catalão, Jordi Borja, além de alguns outros urbanistas que tinham estado engajados nas concepções que deram origem à Barcelona Olímpica.
Viomundo — Este me parece um tema bastante interessante. Porque Barcelona olímpica é compreendida, no senso comum, como um projeto extremamente bem sucedido, de todos os pontos de vista. Além das diferenças que existem entre Barcelona e as cidades brasileiras, existe também um “mito Barcelona”?
O sucesso de Barcelona é o sucesso de um momento particular da história espanhola e sua integração ao mercado comum europeu. Um momento particular de afirmação da autonomia catalã no âmbito do Estado espanhol. Mas também com consequências e sequelas brutais.
Barcelona não inaugura esse processo – que, na verdade, foi inaugurado em algumas cidades americanas: Baltimore, Boston etc.
Mas Barcelona, em primeiro lugar, implanta este modelo na Europa – e, a partir de Barcelona, ele vai ser exportado para a América Latina. E Barcelona, em segundo lugar, se destaca por um grande esforço de marketing urbano, promovendo seu próprio modelo através de grandes investimentos.
Promovê-lo no sentido de afirmar, de um lado, a cataluneidade, vis à vis do Estado espanhol; e, de outro lado, afirmar a europeidade da Catalunha, tentando separá-la da Espanha e aproximá-la da Europa.
As sequelas deste modelo estão aí na crise atual, nas crises imobiliárias sucessivas, que aconteceram primeiro nos EUA, depois na Europa. E em uma taxa de desemprego, entre jovens, de 40% a 45%.
Viomundo — Essa experiência paradigmática de Barcelona pode ser considerada bem sucedida em relação ao que seria um uso democrático da cidade, do espaço público? Ou, já naquele momento, as intervenções urbanas eram excludentes?
O processo de Barcelona é um processo contínuo e não esgotado. Num primeiro momento – sob a direção de um partido socialista, que se fortaleceu na Espanha e na Catalunha, e um partido autonomista, que nasce da transição democrática espanhola –, pode-se dizer que a experiência de Barcelona foi relativamente democrática.
Ou seja: o plano estratégico da cidade, além das necessidades do marketing, foi capaz de compor uma frente urbana com diferentes componentes sociais e políticos.
Progressivamente, este modelo foi se tornando cada vez mais empresarial, mais fechado à participação, mais um modelo neoliberal como outro qualquer.
Alguns anos atrás, o próprio Jordi Borja denunciou que este projeto havia sido apropriado pelo grande capital especulativo.
Porque, depois das Olimpíadas vem a Exposição Internacional, depois vêm as smart cities…
Quer dizer, essas cidades, para se manterem competitivas dentro deste conceito, têm de estar permanentemente lançando novos produtos ao mercado. E isso passa a dominar a lógica da cidade. E, portanto, aconteceu em Barcelona, também, um processo de aburguesamento de áreas populares. Populações de baixa e média renda foram expulsas de uma série de áreas. Ou seja, Barcelona, apesar de ser uma cidade atrativa, é cada vez mais uma cidade sócio-espacialmente desigual.
O que se agudiza, evidentemente, com a crise econômica. Eu não vou dizer que a crise espanhola, ou a crise da Catalunha, têm como causa as Olimpíadas e o projeto estratégico de cidade. Mas certamente os brutais investimentos urbanos feitos no processo de competitividade urbana, e a transformação da cidade em uma cidade voltada para a exportação e não para os seus citadinos, é parte deste processo.
Hoje nós temos de 20% a 25% de desemprego na Catalunha, taxa que cresce para 40% entre os jovens. Os indignados, na Espanha, estão se manifestando contra um modelo de Estado, capital e sociedade, mas também contra um modelo urbano que transformou a cidade em uma grande empresa.
E é justamente este modelo da cidade empresa, da cidade que concorre, da cidade que tem como elemento central não o atendimento das necessidades de seus cidadãos, mas o atendimento das necessidades de seus potenciais compradores, que vai ser adotado no Rio de Janeiro.
O primeiro plano estratégico do Rio, não casualmente, não foi elaborado pelo poder público, mas por um consórcio empresarial, liderado pela Firjan e pela ACRJ (Associação Comercial do Rio de Janeiro).
Plano que vai, progressivamente, sob a orientação técnica, metodológica, intelectual e cultural dos catalães, implantar este projeto de cidade no Rio.
E, já ali, em 1994, já está dito que o Rio tem uma vocação olímpica. E logo a seguir se faz a primeira candidatura do Rio a sediar os Jogos Olímpicos.
Quem elabora essa proposta? Os mesmos consultores catalães. Essa proposta é derrotada, há uma outra proposta mais adiante e, finalmente, há a terceira, que é vitoriosa.
Nós sabemos muito bem que a vitória dessa terceira também está associada ao alinhamento do governo local com os governos estadual e federal. O governo federal investiu todo o seu prestígio – Lula, em particular –, deu uma série de garantias ao COI (Comitê Olímpico Internacional), como também à Fifa, de que o Brasil bancaria integralmente os custos, inclusive se houvesse perdas, que o Brasil entregaria as 12 cidades para a Copa, e o Rio para as Olimpíadas, segundo a vontade, o desejo e as necessidades do COI e da Fifa.
Que ao fim e ao cabo são duas instituições privadas internacionais, que não respondem diante de ninguém, a não ser dos seus próprios conselhos.
Viomundo — É possível localizarmos aquela que seria a primeira grande intervenção urbana, aqui no Rio, deste novo projeto de cidade?
A Rio+20 [Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, realizada em junho de 2012] é uma grande intervenção. Por exemplo: associado à Rio+20, você tem a Linha Amarela, que é um grande projeto urbano. Mas eu diria que este projeto teve um longo tempo de incubação. Porque você não pode entender a economia do urbano se não entender também as estruturas políticas.
Antes, havia uma grande fragmentação dos grupos dominantes. Essa fragmentação, em um certo sentido, não foi superada. Como é que se constituiu a coalizão?
Este grupo dominante não se coaliza em torno de um partido. Na estrutura partidária brasileira, o partido é o que menos importa. O Garotinho esteve no PDT, depois saiu para o PMDB. As trajetórias partidárias do César Maia, do Eduardo Paes, são irrelevantes. Isso torna mais difícil ler esses processos, porque eles não são legíveis através das representações políticas.
E é muito difícil, para a gente, saber o que está para lá dessas representações políticas. Não existe um projeto de cidade claro. Que cidade se pretende?
O plano diretor é uma piada, é um documento que ninguém leva a sério. O Estatuto da Cidade, ao autorizar as operações urbanas consorciadas, permite botar o plano diretor na lata do lixo, onde ele está na maioria das cidades brasileiras. E no Rio, também.
Viomundo — Um conceito bastante central na sua obra é o de “cidade de exceção”. O senhor fala que esta é uma “nova forma de regime urbano”. Em que isso consiste?
Em primeiro, não há regra. As operações urbanas permitem que a lei estabelecida no plano diretor seja suspensa. A cidade de exceção é a cidade em que a regra caduca sempre que se faça uma negociação entre Estado e capital privado que interesse ao capital privado.
Eu recomendo a você e a seus leitores que procurem no You Tube o vídeo de uma negociação entre o Cid Gomes, governador do Ceará, e um grupo de empresários da construção imobiliária. Você vai ver como é que eles planejam nossas cidades, como é que eles negociam pedaços da cidade.
O plano diretor teoricamente seria rígido, voluntarista, intervencionista, tecnocrático. Nós precisaríamos de flexibilidade: a cidade teria que ser entregue à lógica do mercado, porque o mercado é suposto ser a melhor forma de definir os rumos da sociedade e da cidade.
Como dizem os economistas, o mercado é a melhor forma de alocação de recursos. Qualquer intervenção que contrarie, prejudique, desequilibre o funcionamento do mercado tenderia a levar ao que os economistas chamam de uma alocação sub-ótima de recursos. A alocação ótima quem faz é o mercado.
Portanto a intervenção de Estado e o modelo de planejamento que se afirmou partir da II Guerra Mundial no plano diretor e no zoneamento urbano são colocados no banco dos réus, porque ele é suposto “anti-mercado”.
Na linguagem do Banco Mundial, é necessário um planejamento que eles chamam, agora, de market friendly, amigável com o mercado. Ou market oriented: orientado pelo e para o mercado. Então o Estado pode intervirdesde que seja para favorecer o pleno funcionamento do mercado, não para impor regras, normas etc.
Viomundo — O Estado, então, atua como um facilitador do lucro das grandes empresas a partir do uso do espaço público?
Se a saída para o desenvolvimento das cidades é ela ser competitiva e, para ela ser competitiva, ela tem que atender aos capitais aqui presentes e atrair capitais, a sua função é ser um facilitador do funcionamento do mercado capitalista.
No fundo dessa teoria estaria a ideia de que isso geraria o melhor resultado social. Quando olhamos para as todas estas cidades depois de 20, 25 anos de hegemonia do que é, na verdade, o pensamento neoliberal, nós vemos que em todas elas o que se assistiu foi ao aumento da desigualdade urbana.
Nas cidades brasileiras, que já eram profundamente desiguais, estão sendo gerados verdadeiros processos de guetificação urbana, transformação da cidade em um conjunto de cidadelas: as cidadelas dos ricos, nos condomínios fechados, cercados por muros e protegidos por vigilantes; e os condomínios dos pobres, ou os guetos dos pobres, cercados por polícias.
A Escola de Chicago definia a cidade como um aglomerado de grande porte, heterogêneo e denso. Portanto, a heterogeneidade e a densidade seriam características fundamentais do que mereceria ser chamado de cidade.
O que nós assistimos é, então, a progressiva destruição da cidade, porque a heterogeneidade densa passa a ser eliminada do espaço urbano através de sucessivos processos de segregação.
Evidentemente que isso não se inicia com César Maia – ele é importante, mas nem tanto. Se nós formos pegar a história do Rio, eu brinco sempre, ela começou em 1808, quando veio a família real para cá.
Naquela época, 20 mil casas foram apropriadas para instalar a corte, vinda de Lisboa. Então a gente pode dizer que a história da cidade do Rio se inaugura no século XIX, como capital do Império Português, com um processo de remoção.
Mais recentemente, eu diria que há três grandes ondas, que são ondas, simultaneamente, de modernização, mas também ondas de construção da estrutura dessa cidade desigual.
Viomundo — Quais são elas?
Primeira, na virada do século XIX para o século XX, que é a grande reforma Pereira Passos, que vai instaurar o porto moderno – que hoje está sendo submetido a novas transformações –, que vai criar as grandes avenidas centrais e vai abrir o caminho para a zona Sul, para a área oceânica da cidade.
Copacabana é inaugurada nesse período, através de linhas de trem, em um processo muito similar ao que nós assistimos, hoje, na Barra da Tijuca.
Você abre as linhas de bonde para as áreas vazias, que são colocadas em valorização, pela própria Light. Era uma empresa estrangeira que criava linhas de transporte, mas um transporte associado a um processo de valorização fundiária, como hoje os BRTs e os metrôs que estão sendo construídos em direção às terras vazias da Barra da Tijuca e do Recreio dos Bandeirantes.
Esse é um período de grandes remoções da população das áreas centrais da cidade e construções dos primeiros subúrbios.
A segunda grande mudança e modernização da cidade se faz sob Carlos Lacerda, no início dos anos 60, e nos primeiros anos sob a ditadura militar. É um processo de remoção brutal, também.
De toda a área da lagoa [Rodrigo de Freitas], e de áreas importantes da zona Sul da cidade, a população é removida. E as áreas são apropriadas pelo capital imobiliário em expansão. Foram removidas em torno de 35 e 40 mil pessoas.
E, agora, nós temos todo o processo, desde os anos 80, de expansão da cidade em direção à Barra da Tijuca, que é a nova fronteira de expansão do capital imobiliário.
O Estado investiu recursos inimagináveis para viabilizar esta grande operação imobiliária. Quando, no mundo inteiro, se fala em fazer cidades densas, não estender as malhas urbanas – inclusive por razões ambientais, porque isso estende transporte, circulação, custos de infraestrutura, impermeabilização do solo, eliminação de terras agrícolas e florestais.
O que é que se recomenda no mundo inteiro?
Utilizar os vazios urbanos, todas as cidades têm enormes vazios urbanos.
O Rio de Janeiro e várias outras cidades brasileiras tomam o caminho inverso, porque a sua lógica é a lógica de valorização da terra. No caso do Rio, isso ganha uma dimensão aguda, porque os milhares de quilômetros quadrados da Barra da Tijuca e do Recreio dos Bandeirantes são propriedade quase exclusiva de quatro grandes latifundistas urbanos.
Um deles é famoso e muito próximo ao governo atual, que é o Carvalho Hosken. Qual o consórcio que recebeu a concessão do Parque Olímpico? Carvalho Hosken e Odebrecht, aliança entre um grande latifundista urbano e uma grande empreiteira.
Viomundo — E quem são os outros três?
Um é o Pasquale Mauro, outro é conhecido como “Chinês da Barra” [Tjong Hiong Oei, morto em outubro de 2012] e tem mais um que me escapa, agora. São os donos da Barra da Tijuca.
E agora nós temos a estimativa de que em torno de 60 a 80 mil pessoas estão sendo removidas.
No período dos anos 60 e 70, Cidade de Deus foi construída. Assim como Vila Kennedy, Vila Aliança, grandes assentamentos que hoje são as áreas mais violentas, mais miseráveis, de maior desemprego na cidade, foram produzidas nesse período.
E, hoje, nas áreas distantes, os reassentamentos do Minha Casa Minha Vida replicam o mesmo modelo. Parece que há uma espécie de filme que se repete: Remoção I, Remoção II, Remoção III etc.
Viomundo — Essas 60 ou 80 mil pessoas estão sendo removidas em função, principalmente, de quais obras?
Obras direta ou indiretamente ligadas à Copa e às Olimpíadas. É evidente que não seria necessário remover ninguém pra fazer Copa e Olimpíada.
Elas são um grande pretexto. Tem um vídeo do prefeito, no You Tube, em que ele diz que aproveita Copa e as Olimpíadas para fazer o que precisa.
Viomundo — A Vila Autódromo parece ser um exemplo claro disso.
É um exemplo claro. Como a Vila Harmonia, que foi removida para dar passagem à Transoeste. A Transoeste foi construída e a área da qual as casas foram removidas ficou intocada. São vários pretextos.
Agora, na área do Maracanã, removeu-se uma população para se fazer um estacionamento. O estacionamento, na verdade, é o pretexto para se remover a população, porque querem limpar a área.
As vias expressas que se implantaram, e que estão em implantação, passando por cima de populações, podiam passar por cima de um condomínio. Não são obrigadas a passar por cima de uma população.
Viomundo — Mas parece que, coincidentemente, elas têm sempre de passar por cima das populações mais pobres…
Sempre, porque na verdade o trajeto é construído não segundo a lógica do melhor desempenho da via de transporte, mas segundo a lógica da limpeza urbana, que está imbricada com o processo de valorização fundiária e os grandes projetos urbanos, que querem ter uma vizinhança “limpa”.
As classes mais altas gostam do pobre para trabalhar na sua garagem, como porteiro, como empregada doméstica. Não como vizinho. Como vizinho ele é suposto nefasto, perigoso. Como empregado, ele é bom.
Isso gera uma certa ambiguidade, porque os trabalhadores são necessários mas, ao mesmo tempo, são indesejados. Isso é uma angústia permanente da burguesia carioca – e da burguesia em modo geral. Precisa deles, mas quer que eles estejam o mais longe possível. E nessa ambiguidade vai vivendo a cidade.
Esses projetos são, então, grandes pretextos para levar adiante uma terceira grande onda de remoção. Se nós formos pensar o processo de transição democrática, houve uma grande conquista com a Constituição de 1998, que foi o chamado usucapião urbano. Segundo ele, depois de uma ocupação mansa e pacífica por cinco anos, de terras não públicas, você obtém o direito de propriedade.
Isso significa que, em uma infinidade de favelas e outras áreas, os moradores têm direito à propriedade. Muitos deles não foram registrar essa propriedade e são tratados como não-proprietários. Na verdade, eles são proprietários. Eles não têm o registro da propriedade, mas eles já se transformaram em proprietários pela Constituição.
Viomundo — Há um processo, desencadeado pela instalação das UPPs, que tem sido chamado de remoção branca. A população das comunidades pacificadas muitas vezes não consegue suportar o encarecimento do custo de vida daquela região e é obrigada a se mudar. Este processo tem sido significativo?
Ele é e tende a crescer. As políticas de remoção têm duas faces: a remoção branca e a vermelha, que é pela violência.
A remoção branca depende de um processo de regularização fundiária, que é muito custoso e difícil, mas que a prefeitura pretende desenvolver, sobretudo nas áreas mais cobiçadas. Para que essas áreas ingressem no mercado de terras, é necessário que as propriedades ali sejam regularizadas, para que elas entrem no mercado de terras formal, da cidade como um todo. Isso é um problema.
De qualquer maneira, na sociedade capitalista e na cidade burguesa, os processos de remoção branca são inexoráveis.
Eles podem ser reduzidos, amenizados. Como? A remoção branca decorre da implantação, em um local, de um novo benefício urbano.
Se a cidade fosse homogênea, não haveria razão para remover. Se todas as casas da cidade tivessem água, luz, esgoto, transporte público, educação, saúde, etc, haveria uma pequena mobilização de pessoas que se mudam porque casam, porque querem morar perto de certos lugares. Mas a desigualdade urbana tem uma base na lógica capitalista essencial, que é a renda da diferenciação dos espaços urbanos.
A produção de diferenças é um dos elementos fundamentais do funcionamento da cidade burguesa capitalista. Se a gente pegar do ponto de vista dos serviços urbanos, quanto mais homogênea a distribuição dos serviços urbanos em uma cidade, mais democrática a cidade é e menos razões deste tipo você tem para sair de um bairro ou de outro.
Se toda a cidade tivesse segurança pública, ter segurança pública não seria uma vantagem, não seria um diferencial de preço. Ainda, e sempre, haverá diferenciais de natureza outra, como estar próximo da praia. Mas, na nossa cidade, além destes diferenciais dados pelas vantagens locacionais de ordem natural, os mais profundos diferenciais são aqueles decorrentes do tratamento desigual dado pelo poder público ao espaço urbano.
Eu me lembro que, alguns anos atrás, a [ex-prefeita de São Paulo] Marta Suplicy justificava que cuidava dos jardins nas áreas nobres de São Paulo porque as pessoas pagavam IPTU mais caro.
Vai pela Barra da Tijuca: você tem estradas com alamedas, jardins, grama, o departamento de parques e jardins vai lá, cuida das flores.
Aí você entra em frente à favela Rio das Pedras e, ali, a estrada é esburacada.
Não estou falando do espaço das moradias, cujos habitantes são mais pobres e têm moradias mais precárias. Estou falando da mesma estrada. O tratamento dado a essa estrada é diferente dependendo de quem são os moradores vizinhos da estrada.
O Estado é um dos promotores fundamentais da desigualdade. E isso só se resolve com uma política urbana que pense a cidade como uma totalidade.
Toda vez que você faz um investimento localizado, você gera um diferencial. A única maneira de combater de maneira consistente este tipo de processo é através de políticas de universalização do serviço.
O que nossa cidade faz? Exatamente o contrário. Ela aprofunda as desigualdades. Quando você faz investimentos em transporte, em esgoto, na direção da Barra da Tijuca, você está aumentando os diferenciais urbanos em vez de reduzí-los.
[Ouça um trecho da entrevista, clicando abaixo]
Viomundo — Quando o senhor traça todo esse panorama, eu não consigo deixar de lembrar do conceito de “Estado de exceção permanente”, do filósofo Giorgio Agamben, que diria respeito, justamente, ao modo como as democracias modernas possuiriam sempre mecanismos legais de suspensão da própria ordem legal, o que permitiria ao governante, no final das contas, agir conforme à sua vontade. O seu conceito de cidade de exceção tem essa inspiração?
Sim, ele remete a duas fontes teóricas. Uma é o Agamben, no sentido que você coloca: esse Estado, que ele chama de “terra de ninguém”, onde o fato se impõe à lei e ganha a forma legal.
Tomemos o exemplo da operação urbana. O artigo 32 do Estatuto das Cidades diz que as operações urbanas consorciadas permitem: 1. Suspender a vigência de determinadas leis e usos de ocupação do solo e 2. Legalizar desrespeitos a essas legislações que foram cometidos no passado. Ou seja, a operação urbana consorciada permite uma exceção para o futuro e uma exceção para o passado. Um urbanista francês chamou isso de “urbanismo ad hoc”, um urbanismo caso a caso, em que não existe mais norma alguma.
Os megaeventos não criaram isso, eles apenas o evidenciaram e o levaram ao paroxismo.
É proibido beber álcool nos estádios, à exceção dos jogos da Copa, porque a Lei Geral da Copa autoriza a venda de álcool nos estádios. Na verdade, não autoriza a venda de álcool, autoriza a venda de cerveja; na verdade, não autoriza a venda de cerveja, autoriza a venda de Budweiser.
Eles são neoliberais, mas adoram um monopólio. Criam-se territórios especiais em torno dos estádios onde apenas podem ser vendidos e promovidos os produtos associados à Fifa e ao COI. Há, então, uma série de regras de exceção.
Tem uma outra fonte teórica, que é a do marxismo, na qual a ideia do estado de exceção vem de uma determinada crise da dominação. E o Estado de exceção aparece como uma forma de reorganização da dominação.
A ditadura militar é um caso exemplar disso: havia uma crise social e política e o Estado de exceção vem unificar as classes dominantes, que entregam o seu poder a uma casta ou a um personagem.
O que eu chamo de cidade de exceção não está totalmente configurado nos termos marxistas, embora esteja configurado nos termos do Agamben: uma cidade que não tem mais regra, onde tudo se faz de forma excepcional, onde o Estado democrático parlamentar de direito é uma ficção, porque o legislativo é uma ficção.
A degradação dos partidos políticos, a degradação das formas de representação que caracterizam o Estado contemporâneo, transformaram-nos em motivo de desesperança total de uma juventude que, alguns anos atrás, acreditou que alguns desses partidos podiam trazer uma perspectiva de transformação.
Viomundo — Nesse contexto, como o senhor vê as manifestações ocorridas em 2013?
Elas aproximaram o Brasil-político do Brasil-real. O Brasil já é um país cerca de 80% urbano. Mas, nos últimos 20 anos, as principais lutas sociais, os principais atores populares foram rurais: os movimentos de sem-terra, os quilombolas, os indígenas. Cujas lutas são fundamentais, mas que expressam uma faceta que hoje é minoritária da sociedade brasileira. Enquanto isso, as cidades pareciam aquietadas, pacificadas. Eu acho que, em 2013, o Brasil-político se urbanizou…
Viomundo — …ou o Brasil-urbano se politizou.
O Brasil-político se urbanizou e o Brasil-urbano se politizou (risos). Toda esta tentativa de expulsão da política, de despolitização do espaço urbano, foi desafiada de maneira evidente, frontal, pelas milhões de pessoas – eu calculo em torno de 10 a 15 milhões de pessoas – que foram às ruas e que disseram: “esse é um espaço público, um espaço nosso”.
Há uma similaridade com Istambul, onde as manifestações se iniciam para preservar uma praça que se pretendia entregar a um grande shopping. Então a cidade passou a ser não apenas o palco das manifestações, mas também o objeto, aquilo que está em jogo. E o que está em jogo é a democracia urbana como expressão da democracia social, da democracia política. O que está em jogo é a preservação dos espaços públicos depois de 20 anos de neoliberalismo. Tudo isso está em jogo em nossa cidade. E os megaeventos, as remoções, a resistência às remoções, a conflituosidade urbana, eles expressam a crise desse modelo. E expressam também, a meu ver, a incapacidade das elites dominantes de darem uma resposta a essa crise.
quarta-feira, 18 de dezembro de 2013
A história secreta da renúncia de Bento XVI
14/02/2013 - Copyleft////////
Eduardo Febbro///////////
Paris ///////////- Os especialistas em assuntos do Vaticano afirmam que o Papa Bento XVI decidiu renunciar em março passado, depois de regressar de sua viagem ao México e a Cuba. Naquele momento, o papa, que encarna o que o diretor da École Pratique des Hautes Études de Paris (Sorbonne), Philippe Portier, chama “uma continuidade pesada” de seu predecessor, João Paulo II, descobriu em um informe elaborado por um grupo de cardeais os abismos nada espirituais nos quais a igreja havia caído: corrupção, finanças obscuras, guerras fratricidas pelo poder, roubo massivo de documentos secretos, luta entre facções, lavagem de dinheiro. O Vaticano era um ninho de hienas enlouquecidas, um pugilato sem limites nem moral alguma onde a cúria faminta de poder fomentava delações, traições, artimanhas e operações de inteligência para manter suas prerrogativas e privilégios a frente das instituições religiosas.
Muito longe do céu e muito perto dos pecados terrestres, sob o mandato de Bento XVI o Vaticano foi um dos Estados mais obscuros do planeta. Joseph Ratzinger teve o mérito de expor o imenso buraco negro dos padres pedófilos, mas não o de modernizar a igreja ou as práticas vaticanas. Bento XVI foi, como assinala Philippe Portier, um continuador da obra de João Paulo II: “desde 1981 seguiu o reino de seu predecessor acompanhando vários textos importantes que redigiu: a condenação das teologias da libertação dos anos 1984-1986; o Evangelium vitae de 1995 a propósito da doutrina da igreja sobre os temas da vida; o Splendor veritas, um texto fundamental redigido a quatro mãos com Wojtyla”. Esses dois textos citados pelo especialista francês são um compêndio prático da visão reacionária da igreja sobre as questões políticas, sociais e científicas do mundo moderno.
O Monsenhor Georg Gänsweins, fiel secretário pessoal do papa desde 2003, tem em sua página web um lema muito paradoxal: junto ao escudo de um dragão que simboliza a lealdade o lema diz “dar testemunho da verdade”. Mas a verdade, no Vaticano, não é uma moeda corrente. Depois do escândalo provocado pelo vazamento da correspondência secreta do papa e das obscuras finanças do Vaticano, a cúria romana agiu como faria qualquer Estado. Buscou mudar sua imagem com métodos modernos. Para isso contratou o jornalista estadunidense Greg Burke, membro da Opus Dei e ex-integrante da agência Reuters, da revista Time e da cadeia Fox. Burke tinha por missão melhorar a deteriorada imagem da igreja. “Minha ideia é trazer luz”, disse Burke ao assumir o posto. Muito tarde. Não há nada de claro na cúpula da igreja católica.
A divulgação dos documentos secretos do Vaticano orquestrada pelo mordomo do papa, Paolo Gabriele, e muitas outras mãos invisíveis, foi uma operação sabiamente montada cujos detalhes seguem sendo misteriosos: operação contra o poderoso secretário de Estado, Tarcisio Bertone, conspiração para empurrar Bento XVI à renúncia e colocar em seu lugar um italiano na tentativa de frear a luta interna em curso e a avalanche de segredos, os vatileaks fizeram afundar a tarefa de limpeza confiada a Greg Burke. Um inferno de paredes pintadas com anjos não é fácil de redesenhar.
Bento XVI acabou enrolado pelas contradições que ele mesmo suscitou. Estas são tais que, uma vez tornada pública sua renúncia, os tradicionalistas da Fraternidade de São Pio X, fundada pelo Monsenhor Lefebvre, saudaram a figura do Papa. Não é para menos: uma das primeiras missões que Ratzinger empreendeu consistiu em suprimir as sanções canônicas adotadas contra os partidários fascistóides e ultrarreacionários do Mosenhor Levebvre e, por conseguinte, legitimar no seio da igreja essa corrente retrógada que, de Pinochet a Videla, apoiou quase todas as ditaduras de ultradireita do mundo.
Bento XVI não foi o sumo pontífice da luz que seus retratistas se empenham em pintar, mas sim o contrário. Philippe Portier assinala a respeito que o papa “se deixou engolir pela opacidade que se instalou sob seu reinado”. E a primeira delas não é doutrinária, mas sim financeira. O Vaticano é um tenebroso gestor de dinheiro e muitas das querelas que surgiram no último ano têm a ver com as finanças, as contas maquiadas e o dinheiro dissimulado. Esta é a herança financeira deixada por João Paulo II, que, para muitos especialistas, explica a crise atual.
Em setembro de 2009, Ratzinger nomeou o banqueiro Ettore Gotti Tedeschi para o posto de presidente do Instituto para as Obras de Religião (IOR), o banco do Vaticano. Próximo à Opus Deis, representante do Banco Santander na Itália desde 1992, Gotti Tedeschi participou da preparação da encíclica social e econômica Caritas in veritate, publicada pelo papa Bento XVI em julho passado. A encíclica exige mais justiça social e propõe regras mais transparentes para o sistema financeiro mundial. Tedeschi teve como objetivo ordenar as turvas águas das finanças do Vaticano. As contas da Santa Sé são um labirinto de corrupção e lavagem de dinheiro cujas origens mais conhecidas remontam ao final dos anos 80, quando a justiça italiana emitiu uma ordem de prisão contra o arcebispo norteamericano Paul Marcinkus, o chamado “banqueiro de Deus”, presidente do IOR e máximo responsável pelos investimentos do Vaticano na época.
João Paulo II usou o argumento da soberania territorial do Vaticano para evitar a prisão e salvá-lo da cadeia. Não é de se estranhar, pois devia muito a ele. Nos anos 70, Marcinkus havia passado dinheiro “não contabilizado” do IOR para as contas do sindicato polonês Solidariedade, algo que Karol Wojtyla não esqueceu jamais. Marcinkus terminou seus dias jogando golfe em Phoenix, em meio a um gigantesco buraco negro de perdas e investimentos mafiosos, além de vários cadáveres. No dia 18 de junho de 1982 apareceu um cadáver enforcado na ponte de Blackfriars, em Londres. O corpo era de Roberto Calvi, presidente do Banco Ambrosiano. Seu aparente suicídio expôs uma imensa trama de corrupção que incluía, além do Banco Ambrosiano, a loja maçônica Propaganda 2 (mais conhecida como P-2), dirigida por Licio Gelli e o próprio IOR de Marcinkus.
Ettore Gotti Tedeschi recebeu uma missão quase impossível e só permaneceu três anos a frente do IOR. Ele foi demitido de forma fulminante em 2012 por supostas “irregularidades” em sua gestão. Tedeschi saiu do banco poucas horas depois da detenção do mordomo do Papa, justamente no momento em que o Vaticano estava sendo investigado por suposta violação das normas contra a lavagem de dinheiro. Na verdade, a expulsão de Tedeschi constitui outro episódio da guerra entre facções no Vaticano. Quando assumiu seu posto, Tedeschi começou a elaborar um informe secreto onde registrou o que foi descobrindo: contas secretas onde se escondia dinheiro sujo de “políticos, intermediários, construtores e altos funcionários do Estado”. Até Matteo Messina Dernaro, o novo chefe da Cosa Nostra, tinha seu dinheiro depositado no IOR por meio de laranjas.
Aí começou o infortúnio de Tedeschi. Quem conhece bem o Vaticano diz que o banqueiro amigo do papa foi vítima de um complô armado por conselheiros do banco com o respaldo do secretário de Estado, Monsenhor Bertone, um inimigo pessoal de Tedeschi e responsável pela comissão de cardeais que fiscaliza o funcionamento do banco. Sua destituição veio acompanhada pela difusão de um “documento” que o vinculava ao vazamento de documentos roubados do papa.
Mais do que querelas teológicas, são o dinheiro e as contas sujas do banco do Vaticano os elementos que parecem compor a trama da inédita renúncia do papa. Um ninho de corvos pedófilos, articuladores de complôs reacionários e ladrões sedentos de poder, imunes e capazes de tudo para defender sua facção. A hierarquia católica deixou uma imagem terrível de seu processo de decomposição moral. Nada muito diferente do mundo no qual vivemos: corrupção, capitalismo suicida, proteção de privilegiados, circuitos de poder que se autoalimentam, o Vaticano não é mais do que um reflexo pontual e decadente da própria decadência do sistema.
Tradução: Katarina Peixoto
http://www.cartamaior.com.br/?%2FEditoria%2FInternacional%2FA-historia-secreta-da-renuncia-de-Bento-XVI-%2F6%2F27404
terça-feira, 10 de dezembro de 2013
''Francisco começou uma mudança de paradigmas'', afirma Hans Küng
O Papa Francisco começou uma "primavera católica", e o seu impulso reformador poderia chegar até a abolição da obrigação do celibato para os sacerdotes: quem defende isso é Hans Küng em entrevista à revista Spiegel.//////////////////////
A nota é de Giacomo Galeazzi, publicada no blog Oltretevere, 08-12-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Para o teólogo suíço, "a simplificação do vestuário, as modificações no protocolo, uma linguagem completamente diferente não são exterioridade. Francisco começou uma mudança de paradigmas".
//////////Küng compara o papa argentino a João XXIII, que, ao contrário dele,fez "as reformas 'en passant' e sem um programa". O teólogo se diz convicto de que o Papa Francisco é capaz de introduzir modificações radicais, porque, "do ponto de vista jurídico, ele tem mais poder do que o presidente dos Estados Unidos".
"Se ele quisesse", observa o teólogo, "poderia abolir o celibato da noite para o dia. Eu não acho que essa questão possa ser adiada, porque, a cada dia que passa, há menos padres. Eu não sei como se pode assegurar o cuidado dos fiéis na Alemanha na próxima geração. A base da Igreja está pronta para essa reforma [do celibato]".
Küng teme que, no Vaticano, as reformas possam encontrar resistências e que haja "um retorno para trás como na Primavera Árabe": "No Vaticano e na Igreja, existem grupos poderosos que gostariam de inverter o sentido da marcha, porque temem pelos seus próprios privilégios".
O teólogo também criticou a decisão de santificar João Paulo II, que definiu de "o pontífice mais contraditório do século XX".
Francisco, o ''alegre anunciador''
No período de Natal, nunca tinha sido tão pouco simpático o clima no Vaticano – principalmente para aqueles senhores que até agora detinham o poder e que acreditavam que os faustos da Basílica de São Pedro lhes serviam simplesmente como pano de fundo. Agora, no primeiro sábado do Advento, o papa sorridente pregou a "misericórdia". E, para mostrar que para os cristãos só importa o serviço ao próximo, vestiu-se como um pároco do interior: em vez dos habituais paramentos usados no Advento, bordados a ouro, Francisco tinha apenas um simples pluvial roxo, a cor prevista pelo calendário litúrgico para o mês de dezembro. E a cruz processional era de madeira.
A reportagem é de Evelyn Finger, Christiane Florin e Patrick Schwarz, com a colaboração de Marco Ansaldo e Wolfgang Thielmann, publicada no jornal alemão Die Zeit, 05-12-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
De madeira! Os fãs do glamour na Cúria, aquele gigantesco aparato administrativo do Vaticano, ficaram horrorizados. Onde vamos acabar, sussurravam alguns, se renunciarmos às insígnias do poder? Esses murmuradores, no entanto, já estão um pouco acostumados com o Papa Francisco: cruzes de ferro como se não houvesse um precioso tesouro da Igreja. A maleta preta velha e engordurada, como se o sucessor de Pedro fosse um simples empregado. Os velhos sapatos com cadarços, como se o representante de Deus fosse simplesmente um homem. Há apenas um ano – nas vésperas do Advento, com o antecessor Bento XVI –, a Basílica de São Pedro cintilava com diamantes, e o antigo papa estava ornado como uma... sim, como uma árvore de Natal.
Há nove meses, é o argentino de 76 anos Jorge Mario Bergoglio o líder espiritual dos católicos. Ele é o primeiro papa – isso não acontecia há muito tempo – que consegue irritar o mundo. O mundo pequeno, dentro dos muros do Vaticano. E o mundo grande do lado de fora.
Ele não só conservou os seus sapatos velhos. Ele também concedeu entrevistas que são entendidas pelos leigos. Ele foi para Lampedusa para se encontrar com os refugiados sobreviventes das travessias nos botes, entrando em contato com uma das muitas realidades urgente do nosso tempo. Ele contratou especialistas externos para lançar luz na escuridão das finanças vaticanas. Ele enviou questionários para todo o mundo para saber o que os católicos pensam sobre amor, sexo e coabitação.
E receitou um remédio a milhares de pessoas na Praça de São Pedro. Com a sua figura branca no alto da janela do Palácio Apostólico, ele gritou no Ângelus à multidão: "Agora eu gostaria de lhes aconselhar um remédio!". Depois, levantou uma caixa de medicamento, com a palavra "Misericordina". (Não era uma nova marca de remédios, mas sim a antiga palavra latina para "misericórdia".) Embaixo, na praça, irmãs distribuíram 25 mil dessas caixas, dentro das quais havia um pequeno terço. A multidão riu e aplaudiu. Um papa com senso de humor. Ou apenas marketing?
Contra essa última insinuação, falam as 256 páginas escritas pelo papa, uma carta apostólica, um novo "manifesto vaticano": a Evangelii Gaudium, "a alegria do evangelho". Não foi a competente Congregação para a Doutrina da Fé que escreveu esse grande volume, mas sim o papa pessoalmente. Em vez de desaparecer, no mês de agosto, para Castel Gandolfo, isto é, a residência de verão cercada por bosques nas colinas acima do Lago Albano, ele permaneceu nos 35 graus da quente Roma para escrever, contra a certeza de que uma Igreja com 2 mil anos de idade não pode mudar.
Renovação inadiável
Agora, não só os fiéis leem incrédulos que o papa está mais perto de "uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas ruas" em vez de "uma Igreja doente pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças". A sua Igreja, diz Francisco, ficou sem alegria e amor – é hora de uma "renovação inadiável". Do mandamento fundamental do amor ao próximo, o papa tira máximas revolucionárias no campo social: não à idolatria do dinheiro! Não à desigualdade social! Não à preguiça do coração! Acima de tudo, porém, ele declara guerra à dureza de coração, começando pela sua própria casa.
Aqui alguns cardeaisl começam a murmurar: este papa quer arruinar a Igreja! Ele repreende mais os pecados do clero do que os do mundo lá fora! Adorna a Igreja com galhos e ramos secos. Quer fortalecê-la com a fraqueza. No Vaticano, o Kremlin católico, os nomes "Francisco" e "Gorbachev" são pronunciados juntos cada vez mais frequentemente.
A revolução começa com o café da manhã na Casa Santa Marta, onde o papa mora. Na sala comum, ele não se senta sempre na mesma mesa. Ele vai buscar a sua refeição pessoalmente e se senta ao lado dos outros. Apenas para trabalhar ele sobe ao Palácio Apostólico, na Secretaria de Estado, onde estão grandes afrescos e antigos mapas-múndi que dão a impressão de se estar muito no alto. Dominadores do orbe terráqueo.
Mas ele se interessa por aqueles que estão embaixo.
Muitos católicos, cujo cotidiano tinha pouco a ver com o que um velho diz em Roma, mal podem acreditar: finalmente um papa quer saber algo das suas vidas. Finalmente, alguém com autoridade diz que excluir, denunciar e incutir temor não são virtudes cristãs.
Finalmente desmorona o sistema das punições para aqueles que pensam diferente e dos elogios daqueles que seguem rigorosamente as prescrições. Nenhuma proibição de ensino, de pensamento, de expressão. Muito ainda está só no papel, não na prática. Mas, depois de anos de nada, já basta a frase de que muitos padres nas igrejas tem uma "cara de funeral" para explodir a euforia nas pessoas. Justamente em nome da Boa Nova, diz ele, muitas pessoas se detêm no descontentamento, no lamento, na crítica ou no remorso. Justamente o homem que está no alto prescreve agora um riso libertador e anárquico.
Destruidor de tradições
O sorriso nos olhos de Francisco é o mais difícil para Cesare Bella. Ele é um artista do Studio Mosaico, um laboratório muito antigo ao lado da Casa Santa Marta. Bella e Francisco estão próximos, mas a sua relação ainda não é clara: enquanto o papa tende para o futuro, Bella tem uma tradição a defender. O seu trabalho consiste em fazer um mosaico que represente o papa, como é o costume há 500 anos. O quadro está quase pronto. E Bella se pergunta: ele vai ser do agrado desse destruidor de tradições?
Oito pessoas trabalham no Studio Mosaico. Quem trabalhava lá antes deles decorou as paredes da Basílica de São Pedro, todos os anjos e os gigantescos mosaicos com os santos, até a cúpula. Uma grande transfiguração de minúsculas pedras. No laboratório, sente-se o cheiro do pó das antigas peças conservadas em intermináveis fileiras de gavetas. Todas as vezes que um novo papa é eleito, coloca-se sobre o cavalete uma pesada laje de pedra redonda de 136 centímetros de diâmetro.
Em primeiro lugar, um dos artistas aplica o fundo dourado. Depois, se dedica ao hábito papal com a capa vermelha. No fim, um dos mestres começa a fazer o seu rosto. Para a pele de Francisco, Bella usou peças de mosaico opacas, de 100 anos de idade e com quase 1.000 nuances. E só para as pupilas utilizou 70 cores. E, para fazer isso, ele tinha apenas uma foto um pouco desfocada como modelo. Porque este papa – que não quer nenhum culto à personalidade e que precisamente por isso é apreciado – se deixa fotografar apenas a contragosto. Ele concedeu ao fotógrafo do Vaticano apenas dois encontros. E, a cada vez, depois de alguns minutos, dizia: "Agora chega".
No Studio Mosaico, dizem que lhes agrada o seu novo vizinho. Pelo bom humor que ele difunde. Porque cumprimenta os guardas suíços apertando as suas mãos, conversando com os policiais e porque não deixa que lhe tragam o café, mas ele mesmo o busca sozinho na máquina.
Esta semana, o papa vai ver o seu retrato, antes que ele seja colocado na Basílica de São Paulo, no fim da longa série dos seus 265 antecessores. Um friso de cabeças de substitutos de Deus! Uma galeria que vai do passado até o presente.
O que realmente interessa a esse papa de olhos sorridentes?
Essa é a pergunta do cardeal Gerhard Ludwig Müller, e ele não sorri pensando nisso. O bávaro vem da diocese de Regensburg, é o segundo mais poderoso da Igreja Católica – e o mais tenaz opositor de Francisco.
Perto das 12 horas de um dia da semana passada, o carro do papa passou pela praça da Cidade Leonina, ao lado da colunata da Basílica de São Pedro, na frente da residência privada de Müller. Pouco depois, Francisco estava sentado à mesa de jantar da casa de Müller, as freiras Huberta e Helgardis serviram bife à milanesa e batatas cozidas. No momento do café, o argentino Jorge Mario Bergoglio disse em bávaro perfeito: "I ko nimma".
Em honra ao seu anfitrião, ele tinha aprendido com Huberta e Helgardis algumas palavras de bávaro. Esse homem, ao que parece, quer contentar até mesmo o seu mais obstinado opositor. "Amai os vossos inimigos"...
Francisco e Müller. O papa e o prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Os dois não se distinguem apenas pelo comprimento do seu título. Raramente o mais alto guardião de antigas doutrinas da fé, isto é, Müller, esteve em tão más relações com o anunciador de tal fé. Do ponto de vista do alemão, um latino-americano, bem-humorado e despreocupadamente, está demolindo um antiquíssimo edifício. Quanta desordem e insegurança Francisco trouxe ao mundo ordenado da dogmática romano-católica! Ele não mostra nenhuma deferência e nem mesmo um pouco de respeito pelo Santo Ofício, a base do poder de Müller, antigamente a autoridade da Inquisição, a qual, ainda com o Papa João Paulo II, tiveram que comparecer os "desviacionistas" de todas as partes do mundo para se defenderem, em uma luta sem esperanças, para que não lhes fosse retirada a permissão para ensinar.
Francisco é contra? Recentemente, ele aconselhou os visitantes que vinham da sua pátria para que não se preocupassem muito caso recebessem uma advertência de Roma. Leiam, ponham de lado e continuem no seu caminho, foi o seu conselho espirituoso.
Se Francisco quer uma Igreja pobre, Müller espera uma Igreja pomposa. Onde Francisco vê aliados, por exemplo entre os protestantes, Müller vê rivais ou renegados. Quando Francisco prega compreensão, diante dos divorciados em segunda união ou dos homossexuais, Müller insiste com as proibições. E enquanto Francisco prescreveu ao pródigo bispo alemão Tebartz-van Elst um período de suspensão, Müller troveja contra a mídia que massacram um honesto dignitário.
Mas o chefe e o ideólogo-chefe não estão tão distantes um do outro quanto no seu modo de olhar para os milhões e milhões de católicos em todo o mundo. Para Müller, a Igreja governa sobre o povo de Deus, diz-lhe o que é bom e o que é mau, o que deve ser feito e o que se deve evitar. Quão diferentemente se posiciona o papa! Para ele, a Igreja começa de baixo, e no alto deve dar uma boa prova de si mesma – antes o povo, depois os príncipes. Não o contrário.
A insurgência de Müller
Continuamente, Müller se insurgiu, empregou o resto de autoridade que lhe restava como prefeito tardiamente chamado, nomeado pelo papa bávaro no seu declínio. Quantas coisas Müller tentou a partir do conclave: antes o abraço, depois a arrogância, no fim a intriga. Assim, ele reconheceu a Francisco, de cima a baixo, o seu talento "pastoral" – o que significa algo como: o novo homem é um bom pastor, mas, contra os lobos deste mundo, deixem que a tarefa cabe a mim.
Mas o homem que vem de Buenos Aires, mais corajoso do que se esperava, não quer que o mundo seja envenenado por alguém que fareja ao redor apenas por inimigos. E assim continuam se chocando, de um lado o "papa do tango e do cinema", e de outro o guardião da fé da equipe de Ratzinger, um osso duro de aperto de mão mole.
O protegido de Ratzinger insiste quase desesperadamente na observância das regras. Se Francisco apenas deixa escapar que a misericórdia pelos divorciados em segunda união é um desejo seu, Müller responde disparando uma intervenção sua no L'Osservatore Romano, o Pravda do Vaticano: está absolutamente excluído que os divorciados em segunda união jamais possam receber a comunhão. Roma locuta, causa finita: uma vez que Roma falou, o caso está encerrado.
Em anos anteriores, tal anátema teria cortado qualquer protesto. Agora, ao invés, o protesto vem de cima. E alguns cardeais, que se situam logo abaixo daquele que está acima, põem em dúvida o poder de Müller. O primeiro a reagir foi o cardeal Reinhard Marx, de Munique. Nenhuma misericórdia pelos divorciados em segunda união? "O prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé não pode pôr fim ao debate". Pouco depois, alguns luminares um pouco menores ousaram se pronunciar, como o bispo de Trier, com declarações semelhantes.
Nessa perestroika da Igreja, não está totalmente claro quem é apenas um eloquente vira-casacas e quem agora diz livremente aquilo de que estava convencido há anos. O que está claro é que assim andam as coisas quando um reino está indo à ruína.
O ''governo suplementar'' de Francisco
Enquanto o inquisidor Müller ainda luta pela sua influência sobre o curso da Igreja, Francisco criou há muito tempo um "governo suplementar" ou, melhor, um "governíssimo". Ele é formado por diversas comissões recém-formadas.
Regularmente, ele reúne oito cardeais provenientes todos os continentes, um G8 católico, apenas um pouco menos internacional do que a cúpula de chefes de governo de todo o mundo. Nesta semana, justamente, ocorre a segunda reunião. O cardeal Marx, único alemão do grupo, teve que atualizar em tempo recorde o seu rudimentar italiano. Não há nenhum tradutor simultâneo e nem mesmo um secretário ao redor da mesa com os cardeais.Os assuntos abordados são explosivos demais.
O cenário tem a aparência de uma conspiração, só que o chefe também faz parte. Em algum lugar no Vaticano, há uma mesa, ao redor da qual se sentam os hóspedes e o anfitrião da casa. Nove cabeças parece que não são suficientes para governar um bilhão de católicos. O que era impensável no quartel general do governo vaticano com todos os seus dicastérios, eminências, excelências, prelados com títulos honoríficos e protonotários, aqui ocorre facilmente.
A constituição absolutista do Estado da Igreja – com o papa como poder legislativo, executivo e judiciário reunidos em uma pessoa só – sempre foi considerada a encarnação da negação do progresso: um novo começo no absolutismo pode ser extremamente corroborante e simples.
O arcebispo Müller – é quase desnecessário dizer – não faz parte do grupo. Enquanto o papa planeja a sua mudança, só resta a Müller o passeio ao longo da Via della Conciliazione até o Hotel Columbus. Essa rua é uma pista aberta na cidade, que leva da Praça de São Pedro até o Tibre, por 500 metros, uma imagem que ficou famosa pelas câmeras de televisão. Caminhando, Müller tenta convencer os jornalistas que confiam na sua própria visão das coisas e na sua obstinação.
Em nenhum outro lugar do mundo é possível encontrar amigos e inimigos em luta pelo poder em uma organização mundial reunidos em poucos metros quadrados. É isso que torna tudo tão apaixonante para os espectadores. E tão perigoso para os combatentes.
Gänswein, um servidor dividido entre dois senhores
As poltronas do Palácio Apostólico ainda têm encostos e braços dourados, e as paredes exibem um damasco vermelho. Mas o homem que recebe aqui fala de uma vida que o divide em dois. Georg Gänswein leva uma vida que era inimaginável até a retirada do Papa Bento XVI, e que hoje lhe parece dilacerante. Durante o dia, ele serve o novo papa; à noite, o antigo; e são dois senhores tão diferentes que um servidor nunca conseguiria imaginar.
Para ele, a retirada de Bento XVI foi como uma amputação, diz. E também em outras descrições escorre sangue, como quando Georg Gänswein descreve como a sua vida mudou desde que o seu chefe anterior se aposentou.
Durante oito anos, Georg Gänswein foi o monsenhor mais famoso do Palácio Apostólico. Como secretário do papa, ele regulava pessoalmente o acesso das pessoas a Bento XVI e aos seus negócios. Admiradores e escarnecedores o chamavam de "o George Clooney do Vaticano". A combinação de traços masculinos e olhar malicioso lhe valeu uma capa da edição italiana da revista Vanity Fair.
Acima de tudo, porém, Gänswein era o intendente da comitiva de Bento XVI. Joseph Ratzinger, com a ajuda de Gänswein, tinha que levar o papado a um novo florescimento intelectual e estético – justamente o oposto do igualitarismo e do relativismo. De 2005 a 2013, Gänswein deu tudo – e recebeu muito: "Ich habe acht Jahre Blut gelassen und auch Blut geleckt, manchmal".
In vita et in morte: Georg Gänswein jurou fidelidade a Ratzinger na vida e na morte. Agora diz: "Eu tenho a impressão de viver em dois mundos. Tenho que ser sincero comigo mesmo: é realmente doloroso me adaptar ao novo papel".
O novo papel: trata-se também de questões problemáticas. Os opositores de Georg Gänswein dizem que o próprio secretário enfraqueceu ao máximo Bento XVI, indo além das suas competências, e decidiu "segundo o pensamento do papa", sem esperar a sua aprovação formal. Que absurdo: as coisas já estavam muito caóticas no Vaticano quando ele ainda estava sendo conduzido com firmeza. Protecionismo, intrigas, lutas de poder culminaram em tal desordem a ponto de privar Bento XVI de suas últimas forças. E, com a sua retirada, ele assinalou: até mesmo um papa pode capitular. Talvez desse modo ele abriu a porta para a mudança.
Pouco tempo antes de se retirar, Bento XVI promoveu o seu monsenhor Georg Gänswein a arcebispo e prefeito da Casa Pontifícia. Francisco pediu-lhe para continuar na sua função relativa ao cerimonial, o que lhe dá a possibilidade de aparecer ao lado do papa. "Se essa é a sua vontade, eu aceito em obediência", respondeu Georg Gänswein.
Agora, ele ocupa duas funções, mas não tem mais uma situação estável. Nenhum título pode iludi-lo, nem consolá-lo pela perda da posição no centro do reino mundial romano-católico. A sua vida "não está mais constantemente em sintonia com a batida do seu coração".
"Aquele novo" agora à frente da casa faz principalmente muitas coisas novas. Gänswein não pode gostar disso. Talvez ainda mais do que o seu chefe, o secretário era o sumo sacerdote da tradição, via nela não uma imposição formal, mas sim uma condensação de sabedoria eclesial. O fato de Francisco não querer deixar a todo o custo o hotel pelo palácio apostólico, porque quer viver "entre as pessoas" e porque o escuro corredor que leva aos quartos pontifícios lhe gera melancolia, tudo isso irritou muito Gänswein.
Ele não viu só uma ruptura da tradição, mas também uma afronta ao antecessor, a todos os antecessores. Bento XVI não era um homem modesto? Ele não reivindicou o apartamento papal por egoísmo, mas só porque ele expressa a posição do Santo Padre na Igreja. Mas agora a polêmica está resolvida, diz Georg Gänswein.
Às vezes, o novo papa e o ex-secretário brincam sobre os motivos psíquicos que Francisco adotou para evitar ocupar o prédio. Um pouco de inquietação, no entanto, ainda domina a relação entre os dois. "Todos os dias eu espero do novo (papa) algo diferente, e me pergunto o que haverá de diferente naquele dia", diz Georg Gänswein.
O secretário se sente ligado à sua antiga promessa: ele está do lado de Bento XVI. Depois das 21 horas, Gänswein cuida dele, do correio, das coisas pendentes, está lá para aquele idoso que Gänswein continua chamando de "Santo Padre".
"Há um só papa", diz Gänswein. É uma afirmação que ressoa como um chamado à ordem que ele faz a si mesmo.
Invadindo a casa do novo papa
Pietro Zander, o arqueólogo-chefe da "fábrica da catedral", também tem uma recordação positiva do papa emérito. Diante dos jornalistas, ele não quer expressar estimativas precisas do recente e notável aumento de visitantes nas audiências gerais na Praça de São Pedro. Mas, neste momento, as multidões são o maior problema de Zander. Os fiéis invadem a casa do novo papa!
Antes, a Praça de São Pedro estava pela metade; hoje, as pessoas lotam até mesmo atrás, até a Via della Conciliazione. A rua é uma espécie de canal de escoamento para pessoas mais ou menos religiosas que querem dar uma olhada no papa. Eles chegam até a frente da casa do arcebispo Müller. Lá, lhe viram as costas.
A audiência geral ocorre sempre às quartas-feiras. Os empregados de Zander impedem o acesso dos carros já na terça-feira à noite e já nem tiram as barreiras na praça. Quando Zander fala de "fundamentos abalados", ele se refere precisamente a pedras, e não a "certezas". A sua preocupação se relaciona com as massas que, depois das audiências, se reúnem em São Pedro. A basílica suporta no máximo 30 mil pessoas por dia. Já a sua respiração é uma "catástrofe para a conservação", diz Zander. Mas ele não pode fechar o portal da igreja sobre o túmulo de Pedro. Uma basílica trancada seria um sinal fatal.
O que fazer então? Zander sorri. Eles chegaram a considerar a ideia de deslocar as audiências gerais para outro lugar, talvez em um estádio, mas logo desistiram da ideia. Ao invés, introduziram uma segunda audiência, aos sábados. Provavelmente, já estão rezando para que isso seja suficiente.
A cúpula que ouve as bases
O povo da Igreja ama Francisco, e ele retribui. Desde que decidiu questionar os seus fiéis, justamente sobre casamento, família e moral sexual, o seu zelo reformador chegou até o mais pequeno vilarejo. Um desejo do povo da Igreja promovido do lato – nunca houve um plebiscito assim.
O papa quer saber, por exemplo, o que os fiéis em situações familiares difíceis esperam da Igreja, que atenção pastoral poderia ser possível para as pessoas coabitantes do mesmo sexo, se alguém se sente "ferido" pela Igreja.
Diversas centenas de homens castos irão discutir sobre as respostas das perguntas de Francisco, no outono do próximo ano, em um sínodo dos bispos. Nos ordinariatos episcopais alemães, os superiores já reclamam, pois a ideia gera manchetes para o papa, certamente, mas apenas trabalho para as dioceses. Quem vai apresentar, e de que lugar da Igreja, e que opiniões? Quem deve subdividir e revisar as respostas? Como a conferência episcopal pode chegar a um resultado unitário?
A maior parte das dioceses alemãs colocou na internet, sem entusiasmo, o que se exigia de Roma. O prazo para as respostas já está fixado para esta ou para a próxima semana.
A Igreja Católica regulamenta até agora quando é permitido fazer sexo, com quem e com que propósito com muita precisão. Os mais altos membros da hierarquia, papas e prefeitos trabalharam muito sobre o "baixo ventre" do seu povo. Mas tudo isso não serviu para nada: as pesquisas mostram que na Alemanha 90% dos católicos vivem de modo diferente do permitido pelo Vaticano.
Representantes daqueles 10% que admitem se ater às regras são convidados aos programas de entrevista como seres exóticos. Até mesmo o papa se impôs a castidade, mas claramente ele duvida que homens que vivem como célibes sejam os melhores conselheiros para todas as situações existenciais, particularmente em matéria de amor.
É improvável que Francisco irá alinhar a sua doutrina de acordo com os resultados do questionário – o que esconde um potencial de decepção à la Obama. Um papa não é alguém que presta serviços, e o cristianismo não é um menu que podemos compor sozinhos. Mas a pesquisa de Francisco mostra que ele tem alta consideração pelo povo, e pouca pelo alto clero. Uma vez ele definiu a Cúria como "lepra".
Nos documentos da Congregação para a Doutrina da Fé, raramente aparecem as pessoas de carne e osso. Ao invés, nas suas pregações, Francisco elogia as pessoas simples do povo. Raramente ele se esquece de citar a sua avó Rosa. Se ele fala de misericórdia, conta sobre pessoas misericordiosas que encontrou pessoalmente. Geralmente são mães. Esse homem não tem só uma carreira eclesiástica, também tem uma biografia. E não tem medo das mulheres, muito menos das jovens e bonitas.
Invenção revolucionária
A sua invenção mais revolucionária é um grupo de conselheiros, composto por sete leigos e um padre, que trabalha constantemente com ele. Os conselheiros distantes do clero são aqueles que devem reorganizar as finanças do Vaticano e restabelecer a credibilidade depois do escândalo Vatileaks. Falta de transparência e lutas de poder tinham provocado o escândalo que, no fim, levou à retirada do antigo papa. Documentos secretos haviam sido roubados diretamente da escrivaninha de Bento XVI. Agora é necessário tornar tudo transparente.
Aqueles que começam a se ocupar com esse trabalho acabam se deparando com questões de poder: acima de tudo, decidir se a Igreja deve ser rica ou pobre, se deve receber ou dar. E também: é lícito fazer o bem com dinheiro sujo? As origens da riqueza católica, às vezes, são pouco claras. A condução dos negócios do banco vaticano não é nada santa.
Fazem parte do grupo de peritos financeiros de Francisco um auditor espanhol, um especialista de seguros alemão, um administrador francês, um ex-ministro das Relações Exteriores de Singapura e uma jovem mulher: a italiana Francesca Immacolata Chaouqui, especialista em comunicação, emprestada pela empresa de consultoria empresarial Ernst & Young.
O fato de que nem na hierarquia da Igreja se saiba exatamente o que Francesca está procurando nos orçamentos do Estado da Igreja e também o fato de ela ter um aspecto sedutor deram origem a intervenções depreciativas de todas as espécies na internet e na imprensa.
Antes, as mulheres que se aproximavam do papa, na melhor das hipóteses, eram cozinheiras ou secretárias. Chaouqui, 30 anos, é advogada formada e tem responsabilidades diretivas no governo-sombra do papa. A sua tarefa, assim como a dos outros leigos, é esclarecer ao papa o capitalismo das suas instituições.
Francesca certamente é competente nessa área. Durante a crise financeira, ela foi consultora, como especialista em comunicação da empresa de consultoria Orrick, Herrington & Sutcliffe, do banco Lehman Brothers.
Tempos atrás, para fazer carreira no Vaticano, eram menos necessárias as competências e mais uma obediência cega. Agora, leigos que se qualificam pela sua competência controlam os antigos poderosos. Francisco expôs os seus projetos revolucionários ainda no conclave. Por isso foi eleito.
Envenenamento?
Inquietos, os seus defensores se perguntam agora: quanto tempo resta para esse papa?
Francisco tem apenas um pulmão. Antes do Natal, vai completar 77 anos. Há alguns personagens nos seus inoperantes escritórios no Vaticano que esperam apenas que lhe falta de ar. Os tradicionalistas zombam dele pelo fato de que, em Lampedusa, ele transformou um barco velho em altar – mas, ao mesmo tempo, o temem. Ele criticou o catolicismo pintado de dourado. Agora, os amantes da pompa e da glória esperam nos seus nichos que chegue a sua hora.
Imediatamente circularam em Roma rumores que afirmam que Francisco vive perigosamente. Ele corre muito risco, diz-se, ao se preocupar mais com grupos de esquerda do que com círculos de direita em Roma. E que ele é realmente um temerário se quiser fazer limpeza no banco vaticano. Ele será encontrado um dia envenenado na Casa Santa Marta? Ou morto no Tibre?
Fala-se surpreendentemente muito sobre o possível fim não natural do papa nestes dias no Vaticano – embora em geral de forma negativa: "Eu não digo que amanhã alguém possa colocar algo no seu chá...", diz um religioso do alto escalão, para falar longamente em seguida dos inúmeros opositores que se sentiram abandonados ou postos em segundo plano.
E também não irrompem paralelos com João Paulo I? Aquele pontífice não dogmático, seguindo o rígido Paulo VI, foi chamado de "o papa sorridente". João Paulo I – recém-eleito, mas sem uma presença midiática e totalmente indefeso – também tinha se proposto a fazer limpeza na Cúria e no banco vaticano, quando tudo acabou de repente. Trinta e três dias depois de assumir o cargo, o novo papa estava morto.
Trinta e cinco anos depois, um novo papa com a inocência de um sonâmbulo se move através desse aparato de corte. No entanto, um "insider" do Vaticano diz: "O envenenamento não é mais necessário. Depois da retirada de Bento XVI, também se pode recomendar a retirada de um papa...".
Solidariedade
Francisco ainda exala a energia do "novo começo", nenhum traço de cansaço na função. No entanto, até agora, ele não conseguiu criar nada de durável. O papa instaurou um vínculo de ternura com o seu povo de Igreja, mas em tempos de impaciência tal atitude gentil poderia em breve ser suspeita de pura aparência. Em breve, não lhe bastará mais fazer perguntas. Ele terá que dar respostas, impor inovações. Chega de discriminação contra as mulheres, os homossexuais e os protestantes! Se ele não ousar nada nessa direção, um grande sentimento se reduz rapidamente a muito pouco.
O papa já deu início a alguns projetos práticos. Por exemplo, ele criou um fundo de solidariedade pelas vítimas de catástrofes, que se chamará "Misericórdia". Francisco quer que a Igreja não seja o último, mas sim o primeiro refúgio para os pobres. As igrejas e os conventos devem abrir as suas portas aos refugiados, conceder a sua proteção – mesmo diante do direito de asilo europeu. E para um homem chamado Konrad Krajewski o papa inventou uma tarefa.
Krajewski é o novo esmoleiro papal, um alto funcionário. O seu escritório está na sombra da Basílica de São Pedro. Os antecessores de Krajewski alocaram fundos para pessoas carentes permanecendo sentados nas suas escrivaninhas. Agora, no entanto, o polonês de 50 anos não deverá esperar dentro, porque a vida está fora, a pobreza está fora.
À noite, os sem teto de Roma dormem sob a colunata recentemente restaurada que circunda a Praça de São Pedro. À noite, assim quer o papa, Krajewski gira pela cidade com um pequeno Fiat branco para ir ao encontro dos pobres e desabrigados, acompanhado por quatro guardas suíços, que falam quatro línguas. E distribui o dinheiro do papa.
E como Roma é muito grande para percorrer com um único carro todas as semanas, ele agora envia mais de 100 cheques, no máximo de mil euros, para os párocos da cidade, para que eles também ajudem os pobres.
"O papa quer que nós não fiquemos esperando as pessoas, mas que vamos ao seu encontro", diz Krajewski. "Ele me disse que a minha conta corrente está bem quando está vazia".
Francisco quer tornar a Igreja novamente crível. A conta vazia – para o papa, esse é o seu capital.
O cansaço do papa solitário
Uma tontura de cabeça, um encontro cancelado, um comentário brusco sobre as escolhas do novo pontífice. Quarta-feira passada, no arco de poucas horas, soou um sinal de alerta pelo Papa Bergoglio.
A reportagem é de Marco Politi, publicada no jornal Il Fatto Quotidiano, 06-12-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Depois da audiência geral na Praça de São Pedro – a temperatura estava fria – Francisco sentiu sua cabeça girar, e o leve mal-estar o obrigou a ir logo repousar, renunciando ao encontro com o cardeal Angelo Scola, que veio especialmente de Milão a lhe falar sobre uma futura visita à Expo 2015.
Não é pouca coisa. Scola foi o principal antagonista de Bergoglio no conclave: não por motivos pessoais, naturalmente, mas como expoente de outra plataforma. Scola ainda é uma das personalidades mais renomadas entre os bispos italianos, e uma boa relação com ele é decisiva para orientar a Conferência Episcopal Italiana na linha de reforma que o papa tem em mente.
Na realidade, Francisco está explorando exageradamente as suas forças. Aos 76 anos e com a responsabilidade de uma organização de mais de 1,1 bilhão de adeptos, o papa argentino não tirou um minuto de férias neste verão europeu. Ao contrário de João Paulo II, ele não se restaura com pequenas "fugas" na natureza e, ao contrário de Bento XVI, não se concede regularmente todos os dias uma hora de caminhada pelos jardins vaticanos.
Aos jovens da paróquia de San Cirillo, em Roma, ele disse no domingo passado que tira apenas meia hora de repouso depois do almoço e, depois, "de novo ao trabalho, até a noite". Francisco espera muito das suas forças. Há um motivo. Bergoglio sente que não tem muito tempo à disposição. Uma dezena de anos, antes de decidir, provavelmente também ele, passar o bastão. E dez anos na história da Igreja são muito poucos.
Na maré de elogios e de aplausos que o rodeia, o papa argentino está sozinho, muito solitário. Se ele se limitasse ao programa que muitos cardeais eleitores esperavam, não haveria problemas. Reorganizar o IOR e agilizar a Cúria são questões técnicas de uma realização nada difícil. Consultar os bispos mais frequentemente – como era pedido ao futuro pontífice durante as reuniões gerais antes do conclave – podia ser realizado com reuniões plenárias do Colégio Cardinalício mais frequentes e com uma ordem do dia precisa.
Mas Francisco está fazendo muito mais do que muitos dos seus eleitores imaginavam. (Isso aconteceu com João XXIII). Ele quer remodelar a Cúria desde os fundamentos, reorganizar o Sínodo dos Bispos, dar forma a uma nova abordagem às temáticas sexuais, levar o clero a abandonar atitudes burocráticas e autorreferenciais, mudar o estilo do poder episcopal, inserir as mulheres em postos de governo, imprimir com uma nova comissão (anunciada nessa quinta-feira) um novo impulso à luta contra a pedofilia, protegendo as vítimas e dando indicação aos episcopados.
Há uma pergunta que paira sobre o Palácio Apostólico: quem apoia Francisco? Com quais forças ele pode contar? A resposta é que um "partido" ou um "movimento" ativo entre clero e bispos pró-Francisco não existe. Não se reforma um aparato corpulento como o eclesiástico – milhares de bispos, centenas de milhares de padres e religiosos, uma rede de centros de poder grandes e pequenos – sem uma forte fileira de seguidores fiéis e comprometidos.
Na Cúria, uma equipe bergogliana ainda não existe. O novo secretário de Estado, Dom Parolin, é o homem certo (também pela sua forte marca sacerdotal) para trabalhar com Bergoglio, mas a maioria dos cargos curiais são provisórios.
Até agora, não se vê nos dicastérios curiais e no episcopado mundial uma patrulha compacta de cardeais, bispos e padres prontos para lutar pelas suas reformas como podiam ser os defensores da reforma gregoriana na Idade Média ou da reviravolta do Concílio de Trento. Os episcopados nacionais estão inertes. Muitos assistem passivamente às externalizações de Francisco. Muitos conservadores esperam em silêncio um passo em falso seu. Nas grandes organizações, o aparato sabe que é feito de borracha.
Nesse clima, as declarações do secretário de Ratzinger, Dom Gänswein, ao semanário alemão Zeit, espalharam inquietação. A revista, embora não entre aspas, escreveu que, para o braço-direito de Bento XVI, a decisão de Francisco de não morar nos apartamentos papais foi sentida como uma "afronta". Além disso, Gänswein, embora reconhecendo que o papa é apenas um, exclama, desconsolado, textualmente: "A cada dia, eu espero de novo o que será diferente (do que antes)".
Mais do que um encorajamento, uma rejeição ao novo curso. Francisco está sozinho, mesmo que o coração dos fiéis bata por ele.
Segunda, 09 de dezembro de 2013
''A reforma da Igreja terá um alto custo. Preparemo-nos!''. Artigo de Enzo Bianchi
"Hoje, está novamente em curso, para a Igreja, uma primavera, inaugurada pelo Papa Francisco. O entusiasmo é muito: certamente eu não quero apagá-lo, mas, mais uma vez, sinto o dever de alertar a mim mesmo e os meus irmãos e irmãs na fé. Estamos dispostos a beber o cálice que Jesus bebeu (cf. Mc 10, 38; Mt 20, 22)?", pergunta o monge e teólogo italiano Enzo Bianchi, prior e fundador da Comunidade de Bose, em artigo publicado na revista mensal italiana Jesus, dezembro de 2013.
Segundo ele, "toda reforma da Igreja, se for evangélica, tem um alto custo: para todos e também para o sucessor de Pedro, que não poderá esperar, ao menos de dentro da Igreja, dos seus, da sua casa, um fácil reconhecimento e uma fácil obediência. Será mais fácil que "publicanos e prostitutas" (cf. Mt 21, 2; Lc 7, 34, 15, 1), "samaritanos e estrangeiros" (cf. Lc 17, 38; Jo 4, 39-40) o escutem – como aconteceu com João Batista e Jesus"
A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Eis o texto.
Eu não posso esquecer que uma das minhas primeiras intervenções públicas, com uma certa ressonância, ocorreu durante um congresso organizado pelo padre Balducci e pelo padre Turoldo em Florença, no primeiro pós-Concílio, e se tornou depois um artigo publicado na revista Rocca. Era a temporada do entusiasmo, devido à primavera inaugurada pelo Papa João XXIII e pelo Vaticano II: temporada da "vitória" de um novo modo de viver a Igreja e de edificá-la por parte de todos os cristãos; temporada de "reforma" marcada por uma atmosfera de fervor e de impaciência; temporada em que eu senti, porém, muita presunção acerca dos desenvolvimentos possíveis daquela extraordinária reviravolta.
Surpreendendo muito os amigos com os quais se dialogava intensamente sobre reforma litúrgica, à época ainda em estudo, sobre vida eclesial em estado de conversão para uma conformidade mais profunda para a Igreja como o Senhor a quis e de diálogo na mansidão e na pobreza dos meios com a humanidade contemporânea, eu adverti contra um fácil otimismo. Se realmente tivesse sido tomado o caminho da reforma evangélica da Igreja e do seu ordenamento (papado, episcopado, laicato) – eu disse –, teríamos ido ao encontro de um tempo em que todo triunfalismo seria marcado por fadiga, por sofrimento e até por dilacerações porque há uma necessitas passionis da Igreja que se deve à necessitas passionis vivida pelo seu Senhor Jesus Cristo.
Aconteceria para a Igreja o que aconteceu com Jesus: as potências postas contra o muro pela "lógica da cruz" (1Cor 1, 18) se desencadeariam e haveria também um "choque" com o mundo, já que, na vida eclesial, muitos teriam que sofrer (sim, é preciso dizer, penar!). Se de fato a conversão pessoal requer renúncia, fadiga, separações e, portanto, sofrimento, mais ainda a conversão das comunidades e das Igrejas.
Acima de tudo, se viveria uma dupla tentação. Ou render-se ao mundo, mundanizando-se, não mostrando mais a diferença cristã, esvaziando a cruz, diluindo o Evangelho, curvando-se às exigências do mundo; ou enfrentar o mundo com intransigência e munir-se das suas próprias armas: presença gritada, vontade de contar e de ser contado, atitude de grupo de pressão, assunção de tarefas não atribuídas pelo Senhor. Em todo o caso, continuava sendo mais difícil o caminho de "uma Igreja pobre e de pobres", de uma Igreja que contasse apenas com o Senhor e não com os "poderosos deste mundo" (1Cor 2, 6.8; cf. Mt. 20, 25), de uma Igreja dialogante com os homens na mansidão e na liberdade, sem medo e sem a obsessão de ter que se defender e viver como fortaleza sitiada.
As Igrejas são diferentes, e é possível dizer que todas essas escolhas foram feitas, ora aqui, ora acolá, e de forma diferente nas diversas Igrejas. Sabemos bem o que a Igreja italiana escolheu, esquecendo que a sua liberdade não pode ser vivida como as outras liberdades de que o mundo fala, porque a Igreja nunca é tão livre como quando o mundo a contradiz e a humilha. Sim, para a Igreja, há uma paz que é mais maléfica do que toda guerra, "pax gravior omni bello"!
Hoje, está novamente em curso, para a Igreja, uma primavera, inaugurada pelo Papa Francisco. O entusiasmo é muito: certamente eu não quero apagá-lo, mas, mais uma vez, sinto o dever de alertar a mim mesmo e os meus irmãos e irmãs na fé. Estamos dispostos a beber o cálice que Jesus bebeu (cf. Mc 10, 38; Mt 20, 22)? Toda reforma da Igreja, se for evangélica, tem um alto custo: para todos e também para o sucessor de Pedro, que não poderá esperar, ao menos de dentro da Igreja, dos seus, da sua casa, um fácil reconhecimento e uma fácil obediência. Será mais fácil que "publicanos e prostitutas" (cf. Mt 21, 2; Lc 7, 34, 15, 1), "samaritanos e estrangeiros" (cf. Lc 17, 38; Jo 4, 39-40) o escutem – como aconteceu com João Batista e Jesus.
Essas hipóteses perturbam, e não queremos ouvi-las. Porém, se aconteceu com Jesus, com o Senhor, há talvez um discípulo que seja maior do que o seu mestre (cf. Mt 10, 24; Lc 6, 40; Jo 15, 20)? Ou um sucessor de Pedro que não conheça a paixão e a tentação de fugir dela, renegando o Senhor e o Evangelho? Agora, mais do que nunca, é hora de rezar por Pedro, não por uma glória mundana que nunca pode ser sua, mas porque, consolado pelo seu Senhor, ele permaneça firme e possa confirmar a nós, seus irmãos (cf. Lc 22, 31-32), no árduo caminho rumo ao Reino.
O papado de Francisco não é apenas questão de estilo, mas um novo começo''
O teólogo e padre alemão Wolfgang Beinert, ex-professor da Universidade de Regensburg, fala sobre o "programa de governo" do papa, sobre as ideias realistas e irrealistas de reforma e sobre o debate renovado sobre os divorciados em segunda união na Alemanha.
A entrevista é de Michael Weiss, publicada no sítio Religion.orf.at, 04-12-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Eis a entrevista.
Há poucos dias, o papa publicou o seu "programa de governo", a Evangelii gaudium. Como o senhor avalia esse documento?
Acima de tudo, com grande entusiasmo, pois nele são ditas coisas pelas quais há apenas 20 anos se seria chamado a responder na Congregação para a Doutrina da Fé. Eu vejo um aspecto negativo, porém, no fato de que é um documento extremamente longo, em que foram enfiadas muitas coisas não relacionadas entre si. Por outro lado, o documento tem uma linguagem cheia de frescor, viva e – ousaria dizer – jovem. O cardeal Reinhard Marx disse que é raro que, ao ler um documento papal, também seja preciso rir, mas aqui era preciso e se podia – e ele tem razão.
Por quais coisas há 20 anos se seria chamado à Congregação para a Doutrina da Fé?
Por exemplo, a relativização do papado que ali é empreendida. Diz-se que o papa não tem a obrigação de dizer alguma coisa sobre tudo e que também pode dizer, às vezes, coisas que podem ser discutidas. Ou a promessa de realizar realmente a colegialidade dos bispos. É algo que já foi decretado há 50 anos pelo Concílio, mas muito pouco derivou daí – e isso também está escrito no documento.
Francisco também se expressou claramente no documento contra o sacerdócio feminino. Foi uma surpresa para o senhor?
Não. Mas o que isso significa precisamente? Recentemente, a esse respeito, ele disse que as portas estão fechadas, e agora, na Evangelii gaudium, escreveu que "não está em discussão". João Paulo II, no entanto, dissera que isso estava definitivamente excluído. São duas categorias diferentes de palavras que foram escolhidas. Se algo não está certo em um sentido definitivo, significa que justamente não está certo, e então devemos parar de falar sobre isso. Mas se eu disser que não está em discussão, eu não estou dizendo como as coisas serão amanhã. E as portas fechadas também podem ser reabertas.
Que reformas concretas o senhor considera que podem ser realisticamente implementadas com Francisco com relação ao papel da mulher? Diaconisas ou mesmo cardinalessas, como um abaixo-assinado suíço solicitou recentemente?
Isso não seria um problema, de fato. Entre os cardeais do século XIX, seguramente havia leigos. O cardinalato é um título pessoal que é atribuído a uma pessoa específica, independentemente do seu status, consagrada ou não.
É algo realista com esse papa?
Não devemos colocar obstáculos a ninguém. Eu não teria nenhum problema com isso. Embora, naturalmente, não basta um título. Mas a liderança de uma Congregação [vaticana], por exemplo, como cardinalessa ou não, eu poderia imaginar. Não só como telefonista do Vaticano.
E diaconisas?
Pessoalmente, não acho grandes coisas. Nesse caso, a mulher voltaria a receber apenas o menor e mais baixo grau de consagração, que hoje ninguém sabe precisamente que significado pode ter. Portanto, se é preciso haver consagração, que sejam todos os graus, senão nada. É preciso ser consequente nisso.
Sobre Francisco, as opiniões divergem um pouco. Enquanto alguns acreditam que haverá grandes mudanças em nível dogmático, outros são da opinião de que ele está em continuidade com os seus antecessores e que só mudou o estilo. O que o senhor acha?
Eu acredito que não é apenas uma questão de estilo, mas que realmente houve um novo começo. Depois da Evangelii gaudium, pode-se dizer isso com certeza. Nesse documento, não se dizem coisas muito diferentes das que foram ditas até agora, mas agora as coisas foram escritas. Com grande prudência, ousaria dizer até dizer que, com Bento XVI, encerrou-se uma era papal, e agora é possível começar uma era completamente nova.
Na sua opinião, quando começou a era que o senhor considera como encerrada?
Não se pode estabelecer isso com uma data exata. Fundamentalmente, começa com a Reforma, quando a Igreja começa a ter medo. E se torna absolutamente claro com o século XVII e depois com o Iluminismo. Naquele período, a Igreja é sempre contra apenas. Ela reage apenas, mas não age mais. E agora o papa toma a iniciativa e diz: devemos mudar certas coisas. Se realmente alguma coisa vai mudar, veremos, mas ao menos ele tem essa intenção e também a estabeleceu incontestavelmente.
Portanto, o senhor considera que o que está acontecendo agora é uma revolução ainda maior do que o Concílio Vaticano II?
O Concílio Vaticano II, certamente, deu o início, mas foi mais uma andorinha, e uma andorinha só não faz verão. Além disso, também foi retraído muitas vezes, muito fortemente, por exemplo com Bento XVI... E agora claramente há uma nova abertura, que vai além do que o Concílio fez. Por exemplo, se o papa escreve que as as declarações papais podem ser criticadas e que não são necessariamente decisões de última instância, isso, na realidade, é uma revogação do Concílio Vaticano I, se o entendermos em sentido estrito. O que Francisco faz é a continuação da implementação do Concílio Vaticano II. O Concílio lançou os fundamentos com os seus documentos, mas que não foram realmente implementados.
Como o senhor considera o modo pelo qual a mídia se comporta com o Papa Francisco? Como a ruptura com Bento XVI parece tão forte, ele é olhado, talvez, de uma forma totalmente acrítica?
A imagem que transparece certamente já é muito eufórica. A esse respeito, eu sou um pouco mais atento, porque o papa, no fundo, não é apenas uma pessoa individual que tem todos os fios nas suas mãos, mas ele depende do trabalho dos seus colaboradores, assim como todo chefe. E eu tenho as minhas dúvidas de que todos colaboram com entusiasmo.
Na Alemanha, há algumas semanas, discute-se novamente o problema dos divorciados em segunda união na Igreja Católica. Que mudanças o senhor considera realistas?
Eu sou da opinião de que se desencadeou uma confusão que não se consegue mais controlar. Vê-se isso, por exemplo, pelo fato de que um cardeal [Reinhard Marx] disse ao prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé que não se pode decidir algo desse modo. Há não muito tempo, tal coisa teria sido vista como uma monstruosidade. Portanto, alguma coisa vai acontecer.
O senhor conhece o prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Gerhard Ludwig Müller, desde os tempos em que ele era bispo de Regensburg. O senhor acha que ele pensa que deve ser o guardião último da tradição?
Suponho que sim. Eu o conheço desde a sua juventude e acredito que ele simplesmente não consegue entender isso. Ele sempre teve uma opinião forte, e o seu orientador de doutorado, o cardeal Lehmann, uma vez, na minha frente, o definiu como "insensível aos conselhos". Provavelmente, é terrivelmente difícil para ele admitir que opiniões diferentes também são católicas.
O Papa Francisco é comunista?
A opinião é de Robert Ellsberg, editor da Orbis Books, do movimento missionário católico Maryknoll. O artigo foi publicado no sítio da CNN, 03-12-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Eis o texto.
A personalidade do rádio Rush Limbaugh se declarou perplexo com as recentes declarações papais "sobre os males absolutos do capitalismo". Em seu comentário, intitulado It's Sad How Wrong Pope Francisco Is (Unless It's a Deliberate Mistranslation by Leftists) [É muito triste como o Papa Francisco está errado (a menos que seja um erro de tradução deliberado por esquerdistas)], Limbaugh disse que as observações remontam a "um puro marxismo apenas saindo da boca do papa". De fato, isso seria realmente notável, se fosse verdade. E é?
Limbaugh se refere à nova exortação apostólica Evangelii Gaudium, ou "A alegria do Evangelho", na qual o Papa Francisco expõe a sua visão sobre a proclamação do evangelho por parte da Igreja.
Para os católicos, entusiasmados com o estilo descuidado do papa, o documento oferece uma refrescante partida do tom tradicional: "Há cristãos que parecem ter escolhido viver uma Quaresma sem Páscoa", lamenta o papa. "Aos sacerdotes, lembro que o confessionário não deve ser uma câmara de tortura". Ele denuncia uma espécie de "mundanismo espiritual", que "se esconde por detrás de aparências de religiosidade", adverte contra os "caras de vinagre" que substituiriam o amor de Jesus Cristo por um amor da Igreja, e rejeita uma derrotista "psicologia do túmulo", que transformaria os cristãos em "múmias de museu".
E, no entanto, a imprensa certamente se focou naquelas várias páginas – em um documento de 50 mil palavras – que oferecem uma crítica vívida do sistema econômico global, que o Papa Francisco define como uma "economia da exclusão e da desigualdade". Aqui, critica Limbaugh, "o papa já foi muito além do catolicismo, e isso é pura política". Mais "entristecido" do que indignado, Limbaugh afirma que "é muito claro que o papa não sabe do que está falando quando se trata de capitalismo e socialismo, e assim por diante".
Na verdade, as palavras "capitalismo" e "socialismo" não aparecem no documento. Mas não é difícil discernir o sentido do papa: "Assim como o mandamento 'não matar' põe um limite claro para assegurar o valor da vida humana, assim também hoje devemos dizer 'não a uma economia da exclusão e da desigualdade social'. Esta economia mata".
Como primeiro papa do hemisfério Sul, como alguém que experimentou o colapso financeiro da economia argentina, como um bispo que encorajou seus padres a trabalharem nas favelas, o Papa Francisco conhece a economia mundial a partir da perspectiva dos que estão embaixo. Condenando a idolatria do dinheiro, ele se posiciona firmemente contra um "mercado divinizado", em que as massas de seres humanos tornam-se espectadores impotentes, se não "sobras" descartáveis.
Limbaugh, que admite não ser católico, embora diga que foi "tentado várias vezes a buscar isso", no entanto, afirma: "Conheço o suficiente para saber que seria impensável para um papa acreditar ou dizer isso há apenas alguns anos".
Mas pouco distingue o Papa Francisco das declarações proféticas dos seus antecessores. O que ele oferece não é "marxismo", como diz Limbaugh, mas sim a sólida doutrina social católica que remonta há mais de um século. Tanto o Papa João Paulo II quanto Bento XVI foram explícitos nas suas advertências contra o capitalismo liberal e a ditadura do mercado, produzindo encíclicas que, pela sua ênfase na justiça social e na "opção pelos pobres", certamente se qualificariam para Rush Limbaugh como o próprio elixir do "marxismo".
No entanto, o Papa Francisco pode ter tocado uma ferida específica. No parágrafo mais citado do seu documento, ele observa:
"Neste contexto, alguns ainda defendem as teorias da 'recaída favorável' [trickle down] que pressupõem que todo crescimento econômico, favorecido pelo livre mercado, consegue por si mesmo produzir maior equidade e inclusão social no mundo. Essa opinião, que nunca foi confirmada pelos fatos, exprime uma confiança vaga e ingênua na bondade daqueles que detêm o poder econômico e os mecanismos sacralizados do sistema econômico reinante. Entretanto, os excluídos continuam esperando".
Aqui, você pode dizer que ele está indo para o lado pessoal, dando um passo para além dos apelos familiares pelos pobres para confrontar um artigo central da fé entre os beneficiários de elite da nossa economia: a noção de que tudo o que beneficia os mais ricos – cortes de impostos ou desregulamentação financeira – inevitavelmente irá beneficiar os de baixo.
Independentemente se isso é confirmado pelos fatos, o Papa Francisco ataca os efeitos corrosivos de tal ideologia sobre a nossa capacidade de compaixão e de preocupação pelos outros.
"A cultura do bem-estar nos anestesia, a ponto de perdermos a calma se o mercado oferece algo que ainda não compramos, enquanto todas essas vidas ceifadas por falta de possibilidades nos parecem um mero espetáculo que não nos incomoda de forma alguma". Limbaugh acha essa declaração em particular tão desconcertante que ele a repete três vezes.
Os comentaristas de negócios pode se levantar em defesa do mercado. Mas o Papa Francisco não está interessado principalmente em um debate sobre a "criação de riqueza". Ele se posiciona em uma tradição que remonta aos profetas de Israel, cujo decisivo teste moral era o bem-estar dos últimos e mais vulneráveis membros da sociedade.
O Papa Francisco assumiu para si a tarefa de falar por aqueles que não têm voz, de despertar a consciência dos cristãos e de contribuir por uma cultura da solidariedade. Ele anseia por uma "Igreja pobre para os pobres". Talvez o que o distingue dos seus antecessores é simplesmente que ele identificou isso como um foco central e evidentemente tem a intenção de manter a Igreja responsável por essa missão.
Claro que ninguém se preocupa com um papa que abraça os doentes e ama os pobres. Mas quando ele se atreve a refletir sobre as causas morais e estruturais da pobreza, essa é outra questão.
Como Dom Hélder Câmara, outro arcebispo profético da América Latina, observou notoriamente, "Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto por que eles são pobres, chamam-me de comunista". Certas coisas nunca mudam.
Papa Francisco é socialista?
O tópico econômico da Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, do Papa Francisco, publicada no dia 25 de novembro, causou controvérsias.
A reportagem é de Laurence Desjoyaux e publicada no sítio da revista francesa La Vie, 29-11-2013. A tradução é de André Langer.
“Desta vez, é certo: o Papa Francisco é socialista”, diz a manchete triunfalista do sítio francês de informação Rue 89, num artigo consagrado à Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, primeiro texto integralmente escrito por Francisco.
Em se acreditando no sítio, “depois da Exortação Apostólica publicada pelo Vaticano, podemos afirmar sem medo que o Papa Francisco é ferozmente antiliberal e até mesmo... socialista”. Precisando: “O Papa Francisco ainda não é marxista, mesmo que tenha declarado pouco tempo atrás que os homens eram escravos que terão que “se libertar das estruturas econômicas e sociais que nos reduzem à escravidão”.
Entre outras passagens da Exortação Apostólica adiantadas pelo Rue 89 encontra-se a seguinte: “Assim como o mandamento ‘não matar’ põe um limite claro para assegurar o valor da vida humana, assim também hoje devemos dizer ‘não a uma economia da exclusão e da desigualdade social’. Esta economia mata”.
Não ao dinheiro que governa em vez de servir
A revista americana The Atlantic avança mais na análise, propondo uma analogia entre o pensamento do Papa Francisco e do economista húngaro Karl Polanyi, crítico da economia do mercado auto-regulado. “Karl Polanyi é conhecido por seu livro A Grande Transformação, e em particular por uma ideia explicada nesse livro, lembra Heather Horn: a distinção entre uma ‘economia que está incorporada nas relações sociais’ e ‘relações sociais que estão incorporadas no sistema econômico’”. É o que a jornalista resume numa frase: “A economia deve servir à sociedade e não o contrário”.
Para ela, é nesta linha que se inscreve o Papa Francisco. “O Papa Francisco, na sua exortação, notavelmente não pede uma completa revisão da economia – pondera ela. Ele não fala de revolução, e certamente não há nenhum discurso marxista sobre inexoráveis forças históricas. Ao contrário, Francisco denuncia, especificamente, o domínio absoluto do mercado sobre os seres humanos. Ele não denuncia a existência do mercado, mas a sua dominação”.
Denunciando a primazia do mercado, do consumo e do dinheiro sobre o ser humano, o Papa não tem efetivamente papas na língua: “Hoje, tudo entra no jogo da competitividade e da lei do mais forte, onde o poderoso engole o mais fraco. [...] O ser humano é considerado, em si mesmo, como um bem de consumo que se pode usar e depois lançar fora. [...] Uma das causas desta situação está na relação estabelecida com o dinheiro, porque aceitamos pacificamente o seu domínio sobre nós e as nossas sociedades. A crise financeira que atravessamos faz-nos esquecer que, na sua origem, há uma crise antropológica profunda: a negação da primazia do ser humano. Criamos novos ídolos. A adoração do antigo bezerro de ouro (cf. Ex 32, 1-35) encontrou uma nova e cruel versão no fetichismo do dinheiro e na ditadura duma economia sem rosto e sem um objetivo verdadeiramente humano. A crise mundial, que investe as finanças e a economia, põe a descoberto os seus próprios desequilíbrios e sobretudo a grave carência duma orientação antropológica que reduz o ser humano apenas a uma das suas necessidades: o consumo. [...] Não ao dinheiro que governa em vez de servir”. Dito com outras palavras: a crise financeira se dá não somente por uma falta de regulação – dizer isso não é propriamente uma novidade –, mas também e, sobretudo, por ter subtraído o homem do centro da atividade econômica.
No que diz respeito às soluções para remediar esta crise, The Atlantic persegue o paralelo entre Francisco e Karl Polanyi: “Polanyi apostava num socialismo democrático, desde que os governos trabalhassem juntos internacionalmente”, explica Heather Horn. “E você sabe o quê? Isso se aproxima muito daquilo que o papa também propõe. Ele não acha que isso possa ser resolvido com a caridade pessoal”.
Para fundamentar suas ideias, ela cita a Exortação Apostólica: “Temos de nos convencer que a caridade é o princípio não só das microrrelações estabelecidas entre amigos, na família, no pequeno grupo, mas também das macrorrelações como relacionamentos sociais, econômicos, políticos. (Francisco cita aqui a Encíclica Caritas in Veritate, de Bento XVI, ndlr) [...] Se realmente queremos alcançar uma economia global saudável, precisamos, neste momento da história, de um modo mais eficiente de interação que, sem prejuízo da soberania das nações, assegure o bem-estar econômico a todos os países e não apenas a alguns”.
O Papa entende de economia?
Mas, o que pensam os defensores do liberalismo sobre esta visão de um Francisco “social-polanyiano”? “Eu fico poli dizendo que a comparação não é das mais inteligentes, tanto mais que ela subentende que aqueles que tomam o partido dos pobres são, de fato, socialistas. Eu diria, por outro lado, que muitos cometem um erro acreditando que essas declarações supõem uma suposta revolução dentro da Igreja”, assegura o economista liberal Philippe Chalmin ao reagir, pelo sítio Atlantico, ao artigo do Rue 89. Para ele, as palavras do Papa são um clássico do gênero, sem grande envergadura: “Diria que fazem parte de uma postura, no final das contas, muito tradicional da Igreja contra as finanças, mas que não é, na minha opinião, a mais esclarecida se olharmos a Doutrina Social da Igreja. Nós estamos aqui exatamente no domínio da exortação, cujas consequências práticas permanecerão relativamente limitadas”, explica. E mais adiante diz: “Alguns dirão que eu sou um liberal horroroso, mas penso, sem tirar do Papa o direito de fazer tais declarações, que estas críticas necessitarão de um conhecimento bem mais aprofundado sobre um fenômeno complexo”.
O Papa é competente em economia? Esta é a pergunta que fazem no outro lado do Atlântico outros economistas liberais que se aplicam a desmontar ponto por ponto a crítica da economia de mercado. Para o mais virulento deles, Tim Worstall, colaborador da revista econômica americana Forbes, que se descreve, por outro lado, como “um bom cavalheiro católico bem educado pelos beneditinos”, o Papa “não compreendeu o mundo no qual vivemos”. “As desigualdades diminuem à medida que as pessoas encontram sociedades fundadas sobre a economia de mercado, a pobreza diminuiu nos últimos 30 anos no ritmo mais rápido que a espécie humana já conheceu. Tudo isto aconteceu porque bilhões de pessoas foram libertadas das exigências das versões mais bizarras do coletivismo e foram capazes de encontrar a melhor máquina para produzir riqueza jamais criada, um certo grau de livre mercado”.
Neste mesmo sentido, descontada a condescendência, Samuel Gregg, da National Review americana, estima que os predicados sobre os quais o Papa funda sua crítica não são justificados. Para ele, não há nenhum país do mundo no qual o mercado seja absolutamente autônomo, e as regras e sistemas de regulação aplicados à economia já são numerosos.
Ouvir a mensagem
Este pleito em incompetência é verdadeiro? Michael Sin Winters, do National Catholic Reporter lembra: “O Papa Francisco não é um economista, mas um pastor. (...) Ele enfatiza o perigo para a fé do libertarianismo e do neoliberalismo de mercado. Esses sistemas econômicos não apenas fracassaram na sua tentativa de realizar o bem comum, mas também tornaram as pessoas escravas e impediram sua plena realização exatamente porque não deixam lugar para Deus”.
Heidi Moore, do jornal The Guardian, de esquerda, estima que “o Papa Francisco compreende melhor a economia do que a maioria dos políticos”, e que “está na vanguarda do movimento Occupy Wal-Street [movimento de contestação pacífica americano que denunciou as derivas do capitalismo financeiro, ndlr]. “O ponto crucial, que o Papa Francisco perfeitamente identificou é que as desigualdades sociais são o maior desafio econômico do nosso tempo, não apenas para os pobres, mas para todo o mundo (...). As desigualdades de rendas são um elemento determinante para a retomada econômica. É também o problema que vai estar no centro das eleições americanas de 2014 [para o Senado e a Câmara dos Deputados, ndlr]”.
Para ela “a visão do Papa sobre ‘a economia da exclusão e das desigualdades’ vai decepcionar aqueles que se consideram capitalistas liberais, mas que fariam bem em ouvir sua mensagem. (...) É hora de evoluir na nossa abordagem sobre o capitalismo. Não se trata de se livrar do capitalismo, ou de cair na ojeriza ao dinheiro ou ao lucro; trata-se de buscar o lucro de uma maneira ética e de rejeitar o predicado segundo o qual a exploração está no centro do lucro”.
Pascal-Emmanuel Gobry, empresário e católico francês que comenta regularmente a conjuntura econômica, vai na mesma direção. Ele, que se descreve como um católico liberal (“pro free-market”), avalia, ao final de uma reflexão sobre a posição da Igreja e dos católicos sobre a crise financeira, que “há (na Igreja) lugar para o discernimento e o debate. Mas penso que, como católicos, somos convocados a levar a mensagem do Papa a sério, humildemente, a nos deixar questionar e a integrar essa mensagem na nossa maneira de pensar, sob a conduta do Espírito Santo”.
Resta saber que outra forma de capitalismo ou qual outro modelo econômico inventar.
Noticias do papa. 29 nov a 7 dez 13
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