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sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Entrevista - Dom Tomás Balduíno: O futuro da Igreja está na mão do laicado, não da hierarquia

31.08.12 - Brasil
Ermanno Allegri
Diretor da Adital


Adital

Bispo emérito da cidade de Goiás e conselheiro permanente da Comissão Pastoral da Terra (CPT), Dom Tomás Balduíno está em Fortaleza, Ceará, onde participa do Simpósio "50 Anos do Concílio Vaticano II e 40 Anos da Teologia da Libertação – O que o Espírito diz às Igrejas?”. O evento se encerra amanhã (1) e é realizado pelo Movimento Formação Cristã Libertadora.

Em entrevista a ADITAL, Dom Tomás fala sobre as mudanças na Igreja geradas pelo Concílio Vaticano II, enfatiza o importante papel dos leigos e leigas e contextualiza o cenário da América Latina.

ADITAL– O Concílio Vaticano II foi o momento em que a Sagrada Escritura foi o foco central, voltou a ser o interesse central da Igreja e começa, sobretudo, a chegar às mãos do povo, nas mãos dos cristãos, dos leigos. Isso causou alguma mudança dentro da Igreja?

Dom Tomás Balduíno- Causou muitas mudanças. Eu falo do caso da América Latina em que havia já uma busca de contato com a bíblia, com a palavra de Deus nas comunidades, sobretudo, considerada em situação de inferioridade com relação aos crentes que lidavam muito bem com a bíblia. Então, entre nós, tivemos a grande chance de Carlos Mesters, do grupo dele, do CEBI, da leitura popular da bíblia. Isso foi como o ovo de Colombo e difundiu muito a bíblia entre nós.

ADITAL- A Igreja Povo de Deus despontou também quase que, se não em contradição, mas como novo valor do Concílio. A Igreja do lado hierárquico não acompanhou essa mudança. Como o senhor vê essa questão, sobretudo, pensando no futuro com tantos teólogos quase que afastados?

Dom Tomás Balduíno- A questão do Povo de Deus tornou-se uma proposta pra dentro da Igreja, que mexeu na estrutura, por isso, teve mais reação por parte da Cúria, eles não esperavam aquele esquema que colocasse o Povo de Deus antes da consideração sobre a Igreja hierárquica. E isso, então, com o Sínodo de 85 já programado por João Paulo II foi a bancarrota, acabou, foi supresso. Quer dizer, teoricamente, ou então curialmente supresso. Na realidade é a nossa força, é a força da nossa pastoral na América Latina, é o Povo de Deus com todas as consequências de participação, de contribuição, de presença, de contradição.

Adital- Sobre a situação da América Latina, hoje nós podemos dizer que há sinais claros de iniciativas concretas que apontam não só para um futuro, mas que mostram uma continuidade. Vendo esse passado, pensando nesses sinais e olhando o futuro, como é que o senhor avalia essa vivência desses setores de Igreja?

Dom Tomás Balduíno- Antes de falar desses sinais, que são sinais luminosos, eu queria mostrar a estratégia, utilizada, sobretudo, pelo Papa João Paulo II de abranger toda a estrutura da Igreja. Ele pegou desde a formação do seminário até a nomeação dos bispos. Passando também pelo direito canônico e pela repressão da Teologia da Libertação. Pegou também o colegiado, uma vez que a nomeação de bispos era de acordo com o sistema romano, então, o colegiado foi desaparecendo e reaparecendo as províncias eclesiásticas. Isso foi uma estratégia que perdura como peso até hoje em toda a diocese, em toda a Igreja no mundo inteiro.

Há sinais claros, concretos de vida continuando com o Concílio Vaticano II, vivendo esse carisma na América Latina. Primeiro os frutos de Medelín, que são as organizações sociais camponesas, indígenas de mulheres que hoje existe. Vivemos as consequências queridas e planejadas por Medelín no sentido das comunidades, dos seus agentes sujeitos, autores e destinatários da sua própria caminhada.

Isso está acontecendo mais em uns países do que em outros. Considero, por exemplo, Equador e Bolívia países onde isso é muito flagrante. Depois, dentro da própria Igreja o fortalecimento das CEBs, os encontros de CEBs é um apelo, o pessoal vem, é um grupo minoritário, mas muito representativo e significativo em todo o Brasil.

Também as Pastorais Sociais como tem crescido, como tem se fortalecido agora em comunhão ou intercâmbio com as diversas organizações sociais populares. Depois os congressos, as organizações de lideranças de teologia, as jornadas mostram que a semente não foi destruída, a semente está produzindo frutos. É muito interessante, acho que se interliga no mundo inteiro com as diversas tentativas de romper essa estrutura monolítica da Igreja.

Adital- O que falta hoje para os leigos serem mais autônomos, tomarem as decisões? Esse Simpósio Teológico que estamos fazendo deveria ser multiplicado no sentido de dar aos leigos os meios pra se sentirem mais seguros nas suas posições e para tomarem mais iniciativas. O que falta para eles agirem?

Dom Tomás Balduíno- Há 20 anos ou mais que venho pensando e tentando passar adiante. Primeiro é que o futuro está na mão do laicado da Igreja, não da hierarquia. Bananeira que já deu cacho não presta mais. Tem sua função, mas a força da Igreja é o laicado. E o Concílio ascendeu um pouco timidamente sobre isso, mas o caminho para superar essas dependências, essas mil dependências da paróquia ou então do Bispo, uma linha de criar uma autonomia é a escola de teologia, a escola bíblica.

É verdade que nós temos pastorais autônomas, temos uma pastoral autônoma, que é a Comissão Pastoral da Terra, que eu considero uma estrutura leiga, tem Bispo na direção porque foi pedido pela CNBB, mas o que vale ali é a presença do laicado. E quando isso é formado, quando tem base teológica e sabe ver o futuro, isso não só serve de defesa para a pessoa ou grupo, mas serve também de caminhada, de serviço ao mundo, um serviço necessário que não é só a hierarquia ou os missionários que vão fazer, mas leigos até com mais eficácia, com fermento na massa.

http://www.adital.org.br/site/noticia.asp?lang=PT&cat=42&cod=70146

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Dom Pedro Casaldaliga, profeta da esperança!

Simpósio promove reflexões sobre Teologia da Libertação e Concílio Vaticano II

29.08.12 - Brasil
Tatiana Félix
Jornalista da Adital

Adital

No marco dos 50 anos do Concílio Vaticano II e dos 40 anos da Teologia da Libertação, o Movimento Formação Cristã Libertadora realiza em Fortaleza (CE) o Simpósio Teológico "50 anos do Concílio Vaticano II – 40 anos da Teologia da Libertação. O que o espírito diz às igrejas?”. O evento será realizado no Centro Pastoral Maria Mãe da Igreja, no Centro da capital cearense, nos dias 30 e 31 de agosto e 1º de setembro, e a entrada é gratuita.
O principal objetivo do simpósio é mostrar que "outro cristianismo é possível”. De acordo com Maria Cleide Pires de Andrade, integrante do Movimento Formação Cristã Libertadora, isso significa promover "um cristianismo mais sensível às questões dos povos mais necessitados, na abertura ao diálogo, um cristianismo mais respeitador, mais acolhedor no trato com pessoas de outras orientações de vida”.
"[A ideia é] trazer os problemas da sociedade para dentro da Igreja, que é a proposta da Teologia da Libertação. Ser Igreja Povo de Deus, que se preocupa com o que acontece fora do templo”, explica.
Cleide ressalta ainda que a realização deste simpósio aproveita a celebração dos 50 anos do Concílio Vaticano II (1962), que "foi um grande momento na Igreja, na abertura e promoção dos movimentos sociais, e vamos abordar isso nos temas dos palestrantes convidados”. Nomes como Dom Tomás Balduíno, Mercedes de Budallés Diez e Francisco de Aquino Junior, contribuirão com as palestras do evento.


A palestra de abertura do Simpósio Teológico, nesta quinta-feira (30), abordará o tema "Fidelidade e infidelidade ao espírito do Concílio na caminhada da Igreja na América Latina e no Brasil”, e terá como conferencista Dom Tomás Balduíno, bispo emérito de Goiás e fundados da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e do Conselho Indigenista Missionário (Cimi).
Já na sexta-feira (31) é a vez da teóloga Mercedes de Budallés Diez dar sua contribuição na palestra "Como ser igreja-fermento de emancipação humana dentro de uma igreja-massa de eventos midiáticos?”. Em entrevista à Adital, Mercedes explicou que "massa é algo que não está pronto”, e que por isso é importante se preocupar com o "fermento” e com a "pequena semente”, ou como explicou, ‘as minorias abraâmicas’.
"Os programas religiosos propagam direta ou indiretamente a teologia da prosperidade e geram igrejas massificadas, individualistas, cheias de emoções passageiras e sem nenhum compromisso com a transformação da sociedade. Em minha opinião, fomentar um cristianismo esclarecido e atuante diante dos grandes problemas que assolam a nossa sociedade, só pode se fazer desde baixo, desde as minorias, com os empobrecidos. A massa é algo que não está pronta. Cuidemos do fermento, dos pequenos. Como Jesus fez!”, aconselhou na entrevista.
Fechando o evento, no dia 1º, o padre Francisco de Aquino Junior falará sobre "Temáticas, métodos e posições da Teologia da Libertação que continuam irrenunciáveis ao caminhar da Igreja”.
Segundo Cleide, é esperada a participação de cerca de 250 pessoas. Entre os/as participantes virá um grupo de jovens da Pastoral da Juventude do Meio Popular, de Sobral, cidade do interior do Ceará. "Esperamos que o evento não fique só nas discussões. Esperamos que as pessoas possam reproduzir o que discutiremos aqui, nas suas comunidades e grupos”, finaliza.
O Centro Pastoral Maria Mãe da Igreja fica localizado na Rua Rodrigues Júnior, 300, Centro.


 

quinta-feira, 16 de agosto de 2012


Guiné-Bissau: Uma crise sem fim à vista

Cerca de um mês depois do golpe de estado na Guiné-Bissau o país continua mergulhado numa crise sem fim à vista. Muitos guineenses confidenciaram entretanto à VOA que querem que os líderes militares responsáveis pelo golpe sejam levados à justiça.
Desde a tomada do poder em meados do mês passado que o edifício do ministério guineense da justiça se encontra praticamente vazio. O ministro da justiça fugiu, os funcionários não saem de casa e os processos legais aguardam nas prateleiras.
No momento em que a comunidade internacional debate o futuro da Guiné-Bissau e a possibilidade do envio para o país de uma força internacional de manutenção da paz, muitos guineenses são da opinião de que um sistema judicial inadequado esteve na origem do último golpe.
A União Europeia impôs sanções a seis dirigentes militares incluindo o chefe do estado-maior, general António Indjai.
O cidadão comum acha contudo que os líderes militares são corruptos e operam à margem do frágil sistema judicial do país.
Suspeita-se também de que os líderes golpistas continuam a ter acesso a fundos substanciais derivados do tráfico de drogas apesar das sanções económicas.
O governo americano acusou no passado dirigentes militares guineenses de envolvimento no tráfico de cocaína, actividade que segundo a ONU constitui uma das principais fontes de instabilidade na Guiné-Bissau.
Maimouna Bacar Sande é uma estudante do terceiro ano de direito. Ela afirma que no seu país os líderes militares e políticos raramente respondem pelas suas acções.
Maimouna Sande acrescentou que a crise no seu país é muito profunda. Segundo ela, depois dos vários golpes desde o fim da guerra civil, a única solução seria fortalecer o sistema judicial.
Essa opinião é partilhada pelo padre católico americano Michael Daniels, actualmente a trabalhar na catedral de Bissau.
Para além das suas actividades na igreja, o padre Daniels lidera uma iniciativa para a paz, a justiça e os direitos humanos.
Segundo ele não é feita justiça quando se fala dos dirigentes militares e políticos implicados no tráfico de drogas e nas violações de direitos humanos.
Enquanto isso as prisões do país estão cheias de pessoas acusadas de pequenos delitos e cujos casos ficam pendentes por tempo indeterminado no ministério da justiça. Segundo Daniels, “ as instituições do estado não funcionam e o próprio ministério da justiça acabou de encerrar as portas.”
Na sequência do golpe, os líderes militares chegaram a considerar a hipótese de libertar os detidos nas duas principais prisões do país simplesmente porque não tinham comida suficiente para eles.
Ultimamente o padre Daniels tem vindo ele própria a entregar alimentos aos presos. “ Compro eu próprio a comida, peço a uma senhora para cozinhá-los e depois distribuo-a a 30, 40 presos”, disse-nos ele.
Junto ao ministério da justiça encontramos o estudante de direito Justino Nhaga que fez o seguinte desabafo à reportagem da VOA: “a crise política só será ultrapassada quando for restabelecido um sistema judicial digno de crédito e quando os golpistas forem julgados”.

http://www.voaportugues.com/content/article-05-09-12-bissau-crisis-150794205/1451364.html

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

La monja que entró en el santuario nuclear


Shawn Poynter para The New York Times

La hermana Megan Rice, de 82 años, es una de las tres personas que fueron detenidas en un allanamiento en un complejo nuclear en Oak Ridge, Tennessee
Publicado: 10 de agosto 2012
Ella ha sido detenida de 40 o 50 veces por actos de desobediencia civil y una vez cumplió seis meses en la cárcel. En el desierto de Nevada, ella y otros activistas de la paz se arrodilló para bloquear el ruido de un camión a través del sitio del gobierno de los ensayos nucleares, lo que llevó a las autoridades a tenerla bajo su custodia.
La Hermana Rice es una de las tres personas que fueron detenidas en un allanamiento en una reserva de Oak Ridge nuclear.
Ella ganó tanto la atención que el Departamento de Energía, que mantiene el arsenal nuclear de la nación, ayudó a pagar por una historia oral en el que describe su crianza y el desarrollo de sus puntos de vista antinucleares.
Ahora, la hermana Megan Rice, de 82 años, una monja católica de la Sociedad del Santo Niño Jesús, y dos cómplices varones han llevado a cabo lo que los expertos nucleares de llamar a la violación de seguridad más grande en la historia del complejo atómico de la nación, haciendo su camino a la sancta sanctorum del lugar donde Estados Unidos mantiene a importantes partes de bombas nucleares y el combustible.
“La fuerza letal está autorizado”, firma que leer. ”¡Alto!” Las imágenes de cráneos hincapié en el peligro letal.
Con linternas y cortapernos, los tres pacifistas desafió alambre de púas, así como guardias armados, cámaras de video y sensores de movimiento en la reserva nuclear de Oak Ridge en Tennessee a principios el 28 de julio, un sábado. Se salpica la sangre en el uranio altamente enriquecido Fondo para Materiales – una nueva ventanas, la mitad de mil millones de dólares la planta rodeada de enormes torres de vigilancia – y colgó banderas fuera de sus muros.
“Las espadas en rejas de arado”, decía uno, citando el libro de Isaías. ”Lanzas en podaderas.” La planta tiene la oferta principal de la nación de uranio altamente enriquecido, suficiente para que miles de armas nucleares .
Las acciones de la Hermana Rice, una nativa de Nueva York que se crió en un bloque próspero en Morningside Heights, y sus compañeras, las edades de 57 y 63, son una gran vergüenza para el presidente Obama. Desde 2010, ha liderado una campaña para eliminar o bloquear los materiales nucleares como una forma de luchar contra el terrorismo atómico. Ahora, el tres-dos de los cuales, incluido la hermana Rice, son libres y están en espera de juicio en octubre – han hecho el robo nuclear, parece sólo un poco más difícil que un revolcón en los bosques de Tennessee.
En entrevistas esta semana, la hermana Rice habló de su vida – de mala gana, a veces – y se mantiene haciendo hincapié en lo que ella llamó “el problema”.
“Es la criminalidad de esta industria de 70 años”, dijo. ”Gastamos más en las armas nucleares que en los departamentos de educación, salud, transporte, ayuda en desastres y un número de otras agencias del gobierno que no puedo recordar.”
Los fiscales federales, ni que decir, tienen una opinión diferente. ”Este es un asunto de seguridad nacional”, dijo William C. Killian, un abogado de Estados Unidos, los periodistas fuera de un tribunal de Knoxville. ”Se trata de un caso significativo.”
La Hermana Rice no es estratega geopolítico. Pero sus actos audaces y el fervor elocuente de relieve cómo el movimiento antinuclear se ha desarrollado desde el final de la guerra fría.También ilustran la fiera independencia de las monjas católicas, que se reunieron esta semana en St. Louis para decidir cómo responder a una valoración del Vaticano que los señalan como los disidentes rebeldes.
“Somos libres, como las alondras”, dijo la hermana Rice y la de sus mayores amigos religiosos. ”No tenemos responsabilidades-. Sin hijos, sin nietos, no hay trabajo”
“Así que la suerte cayó sobre nosotras”, dijo de la lucha contra las armas nucleares.”Nosotros podemos hacerlo. Pero todos lo hacemos compartir la responsabilidad por igual “.
Megan Gillespie Rice nació en Manhattan el 31 de enero de 1930, la menor de tres niñas en una familia católica. Su padre era un obstetra que enseñó en la Universidad de Nueva York y los pacientes tratados en el Hospital Bellevue. Su madre recibió un doctorado de la Universidad de Columbia en la historia, escribiendo su tesis sobre las opiniones católicas sobre la esclavitud.
En la historia oral , por la Universidad de Nevada, la hermana de arroz retrata a su madre con tanta fuerza a favor del matrimonio interracial. ”Yo simplemente no puede esperar”, citó a su madre como diciendo, “hasta que todos en el mundo es tan!”
Hermana Rice fue a las escuelas católicas en Manhattan, se convirtió en una monja de 18 años y recibió grados en la biología de Villanova y la universidad de Boston, donde sus estudios incluyen el trabajo en clase en la Escuela Médica de Harvard sobre el uso de trazadores radioactivos. De 1962 a 2004, con interrupciones ocasionales, que le sirvió para que un maestro de escuela en Nigeria y Ghana.
“Dormimos en un salón de clases – sin electricidad, sin agua”, dijo sobre sus primeros días en el África rural.
Durante su visita a Manhattan en la década de 1980, se unió a las protestas antinucleares.Ella comenzó a visitar el Nevada Test Site para las demostraciones y vigilias de oración. Su madre la acompañó en algunas ocasiones.
Alrededor de 1990, la Hermana Rice y otras monjas que figura a pie por el desierto hacia la sede operativa del sitio para distribuir panfletos antinucleares. Pero los guardias, recordó, “vino para arriba con sus armas y nos trataron como si fuéramos delincuentes terribles”.
En 1998, fue arrestada en una protesta en la Escuela de las Américas, una escuela del Ejército en Fort Benning, en Georgia. Se enseñó a generaciones de soldados latinoamericanos para luchar contra grupos insurgentes de izquierda, algunos fueron a cometer abusos contra los derechos humanos. La escuela ha sido cerrada.
Hermana Rice ha estado seis meses en una prisión federal. ”Fue una gran revelación”, dijo. ”Cuando has tenido una experiencia en la cárcel, que reduce al mínimo sus necesidades mucho.”
La malaria y la fiebre tifoidea comenzó a obstaculizar su trabajo en África y la trajo de vuelta a los Estados Unidos permanentemente. Alrededor de 2005, su orden le dio permiso para unirse a la experiencia en el desierto de Nevada, un grupo activista con sede en Las Vegas, que organiza eventos espirituales cerca del sitio de prueba nuclear en apoyo de la abolición nuclear.
“Ella es el tipo de persona que arriesgar su vida para proteger a los demás”, dijo Jim Haber, el coordinador del grupo, en una entrevista.
El mes pasado, la hermana Rice puso sus ojos en el Oak Ridge reserva nuclear , que cubre más de 50 millas cuadradas, incluyendo las colinas boscosas. Su objetivo era llamar la atención sobre su trabajo nuclear. Después del robo, los manifestantes lanzó una“acusación” acusando a los Estados Unidos de crímenes de lesa humanidad.
El jueves, en Knoxville, los fiscales federales dispararon de vuelta con una acusación de los suyos. Acusaron a la hermana Rice, Michael R. Walli, de 63 años, de Washington, y Gregorio I. Boertje-Obed, de 57 años, de Duluth, Minnesota, con violación de la propiedad del gobierno (un delito menor), así como su destrucción y depredación (ambos delitos ).Los cargos conllevan penas de hasta 16 años de prisión y multas de hasta $ 600.000.Todos se declararon inocentes.
Un juicio en el Tribunal Federal de Distrito en Knoxville está programada para 10 de octubre. Si son hallados culpables, los tres acusados ​​podrían ser autorizadas a cumplir sus condenas para los diversos cargos simultáneamente, acortando sus prisiones a cinco años.
“Es un personaje muy simpático,” Ralph Hutchison, coordinador de la Oak Ridge de Paz del Medio Ambiente Alianza , dijo, de la monja. ”Dieciséis años estaría firmando su sentencia de muerte.”
La Hermana Rice tiene previsto salir de Knoxville el sábado a la residencia del Trabajador Católico en Washington y viajar a la prueba desde allí.
Llamó a su vida privilegiada. ”He bajado una especie de heredero de ella”, le dijo el entrevistador de la Universidad de Nevada. ”Estoy agradecida”.

domingo, 12 de agosto de 2012

Eu estive com Dom Eugênio


"Enviado por Dom Pedro Casaldáliga e toda a equipe de pastoral da Prelazia de São Félix do Araguaiapara tentar me avistar com o Pe. Francisco Jentel que estava preso, aguardando o decreto de sua expulsão do Brasil", estive com Dom Eugênio, a única pessoa que tinha acesso a ele", testemunhaAntônio Canuto, secretário da coordenação nacional da Comissão Pastoral da Terra - CPT.

Eis o artigo.
Nestes dias muito se tem escrito sobre Dom Eugênio de Araujo Sales, sobretudo muito se tem falado sobre sua ação em defesa de perseguidos políticos. Na esteira deste debate eu também quero participar, pois estive com ele, em dezembro de 1975, enviado por Dom Pedro Casaldáliga e toda a equipe de pastoral da Prelazia de São Félix do Araguaia que estava reunida para tentar me avistar com o Pe. Francisco Jentel que estava preso, aguardando o decreto de sua expulsão do Brasil. Dom Eugênioera a única pessoa que tinha acesso a ele.
Cheguei ao Rio de Janeiro no dia 15 de dezembro e no final da tarde, começo da noite, estive em sua residência. Apresentei-me como enviado pelo bispo de São Félix e a equipe de pastoral e lhe manifestei o desejo de encontrar-me com o Pe. Jentel para dizer-lhe que a Prelazia toda o estava acompanhando naquele momento. Sua resposta:
- Vou telefonar para o ministro da Justiça dizendo-lhe que o senhor está me acompanhando.
Como naquele tempo se caçavam até fantasmas, ponderei que talvez não fosse o melhor eu tentar verJentel pessoalmente. Então lhe disse:
- Vou escrever uma carta a ele dizendo que estou aqui no Rio, em nome da Prelazia e que todos o acompanham com preocupação e orações.
Ele disse:
- Vou telefonar para o ministro da Justiça para dizer-lhe que estou levando esta carta.
Então lhe perguntei se tinha que dar satisfação ao Ministro da Justiça do que conversava com o preso. Acenou que não. Então pedi-lhe para que desse o recado de que a Prelazia havia me enviado para de certa forma acompanhá-lo naquela hora.
Naquela mesma noite foi assinado o Decreto de Expulsão e Jentel foi embarcado de volta para a França, no dia seguinte, 16 de dezembro de 1975.
Quem era o Pe. Francisco Jentel?
Era um padre francês, que veio ao Brasil no final de 1954. Viveu 10 anos com os índios Tapirapé, em sua aldeia, e a partir de 1964, em Santa Terezinha, um pequeno povoado de sertanejos, no nordeste de Mato-Grosso. Era o tempo em que se instalavam as grandes empresas agropecuárias, apoiadas pelaSudam e que dispunham dos recursos dos incentivos fiscais para seus “projetos de desenvolvimento”. Em Santa Terezinha estabelecia-se a Codeara, do Banco de Crédito Nacional, que tentou expulsar as famílias de posseiros de suas terras e impôs um plano de urbanização do povoado, desconhecendo o que existia. Estava armado o conflito.
O Pe. Jentel posicionou-se ao lado das famílias sertanejas na defesa de seus direitos. Por isso foi muitas vezes denunciado como agitador e comunista. Em 1972, houve um enfrentamento da fazenda, apoiada pela Policia Militar do Mato Grosso com os posseiros. Alguns jagunços da empresa saíram feridos. A repressão foi grande e o Pe. Jentel foi denunciado por atentar contra a Segurança Nacional. Foi julgado pela Justiça Militar de Campo Grande, MS, e condenado a 10 anos de reclusão. Ficou preso um ano. No julgamento da apelação o Superior Tribunal Militar, STM, se declarou incompetente, por não se tratar de crime contra a Segurança Nacional. Mas foi feito um conchavo de tal forma que o STM absolveria o padre, mas este deveria espontaneamente deixar o país. Foi o que aconteceu.
No final de 1975, Jentel regressou ao Brasil. Para demonstrar que não era nenhum clandestino, desembarcoiu em Brasilia, e foi a Fortaleza para se avistar com o presidente da CNBB, Dom Aloisio Lorscheider. Na manhã do dia 12 de dezembro, ao sair da casa do arcebispo, foi seqüestrado na rua e embarcado para o Rio de Janeiro, onde ficou aguardando o decreto de expulsão. Neste período em que esteve no Rio é que Dom Eugênio tinha contato com ele.
É importante destacar neste caso, que o juiz civil da Justiça Militar, Plinio Barbosa Martins. em seu voto vencido disse textualmente: “Não me importam as pressões dos que ditam caminhos a ser seguidos... Na maneira de se conduzir do Pe. Jentel, entrevejo um exemplo cristão a ser seguido... Jentel merece um prêmio, não a prisão”.
No contato com Dom Eugênio, não vi nenhum gesto, nenhum sinal, nenhuma palavra que demonstrasse contrariedade, muito menos inconformidade com a situação do padre que estava para ser expulso. Mais que isso. No rápido diálogo que tivemos demonstrou seu desagrado com os escritos de Pedro Casaldáliga. (Não fazia muito tempo, havia sido lançado um livro de poemas do Pedro, prefaciado por Ernesto Cardenal, que a certa altura dizia que o Brasil era “governado por decrépitos generais”.)
Dom Eugênio me disse:
- Se fosse eu o presidente, o teria expulso.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Congresso Continental de Teologia – 07 a 11 de outubro, UNISINOS, São Leopoldo/RS

“Tanto a teologia da libertação, por si mesma, como o próximo Congresso Continental de Teologia de 2012 podem contribuir muito para abordar de uma maneira nova esses novos desafios”, que “não foram considerados no Concílio, mas temos as ferramentas que tornam possível enfrentá-los”.
Para o teólogo chileno Sergio Torres, o salto qualitativo promovido pela teologia da libertação foi abrir a perspectiva contextual na teologia. “O contexto – afirma – permite aprofundar alguns aspectos da única Mensagem e torná-la mais credível para pessoas de diferentes culturas”. E também agregando outro “lugar teológico”: a presença de Deus na “fé que atua pela caridade”, especialmente entre os pobres.
Torres é cofundador e membro emérito do comitê coordenador da Ameríndia (www.amerindiaenlared.org), rede de católicos/as do continente americano que, junto a outras organizações como o Instituto Humanitas Unisinos – IHU, está organizando e irá promover o Congresso Continental de Teologia, entre os dias 8 e 11 de outubro de 2012, na Unisinos, por ocasião dos 50 anos de convocação do Concílio Vaticano II e dos 40 anos da publicação do livro Teologia da libertação. Perspectivas, de Gustavo Gutiérrez.
Por isso, nesta entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, Torres conta os principais momentos da história da Ameríndia e afirma que celebrar essas datas significativas em solo latino-americano é também rememorar os momentos de “grande entusiasmo” vividos pela Igreja continental, que “não só leu e aplicou o Concílio, mas também o reinterpretou a partir da nossa realidade social, econômica e cultural”.
Sergio Torres é licenciado em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Chile. Foi professor de teologia dogmática no Instituto Alfonsiano de Santiago. É coeditor de vários livros da Associação Ecumênica de Teólogos do Terceiro Mundo (Asett/Eatwot) e cofundador e membro emérito do comitê coordenador da Ameríndia. Foi vigário-geral da diocese de Talca e atualmente é vigário-cooperador de uma paróquia de Santiago.

Confira a entrevista.
IHU On-Line – O Congresso Continental de Teologia de 2012 tem sua origem a partir da proposta da Ameríndia junto de outras organizações teológicas do continente. Resgatando sua história, como nasceu a Ameríndia?
Sergio Torres – A Ameríndia nasceu em 1978, por ocasião da preparação da Assembleia Episcopal de Puebla. Nesse momento, vivia-se uma situação conflitiva dentro da tradição libertadora iniciada na Conferência de Medellín, de 1968. Depois de Medellín, a grande maioria da Igreja latino-americana aceitou com alegria e tentou implementar as orientações e os documentos dessa conferência. Em todo o continente, iniciou-se uma nova etapa da história da Igreja, que realizou uma profunda autocrítica de sua ação pastoral e começou um novo estilo em sua missão frente à sociedade. Ela se separou das classes dominantes e adquiriu uma cidadania eclesial entre os pobres. No entanto, houve uma pequena minoria que não participou dessa interpretação geral e realizou uma crítica social e teológica de algumas grandes orientações de Medellín, por exemplo, da opção pelos pobres.
Essa minoria adquiriu maior poder e visibilidade quando o bispo colombiano Alfonso López Trujillo foi eleito secretário-geral do Celam [Conselho Episcopal Latino-Americano] em 1972, na cidade de Sucre, Bolívia. Uma das tarefas que esse bispo se propôs foi desmantelar algumas instituições criadas depois de Medellín e mudar os integrantes da Comissão Teológica do Celam. Quando chegou o momento da preparação da Conferência de Puebla, o Celam interpretou a tarefa e a missão da Igreja com uma nova perspectiva. Em alguns documentos preparatórios, disse-se que o maior desafio para a missão da Igreja na América Latina não era a evangelização dos pobres, mas sim a evangelização da cultura. Essa perspectiva, que em si mesma era oportuna, tinha a intenção implícita de mudar a interpretação de Medellín. Como se comprovou posteriormente, durante a Conferência de Puebla, essas duas perspectivas estiveram presentes e lutaram para prevalecer, impondo-se à reafirmação de Medellín como a opção fundamental de Puebla, dentro da perspectiva geral de “comunhão e participação”.
Quando chegou o momento de nomear os teólogos especialistas que deveriam acompanhar os bispos na Conferência de Puebla, a Secretaria do Celam descartou quase totalmente os teólogos identificados com Medellín e com a teologia da libertação. Essa discriminação produziu uma grande confusão e oposição entre os bispos já designados para participar da conferência, e muitos deles haviam pedido para contar com a assessoria desses especialistas que haviam desempenhado um papel muito importante em Medellín.
Nesse momento nasceu a Ameríndia, embora sem esse nome. Ela se organizou como uma resposta à inquietação e aos pedidos dos bispos de acompanhamento e assessoria em Puebla. Os próprios teólogos da libertação encontraram uma maneira de constituir um grupo de trabalho, viajar para Puebla e encontrar um espaço físico, perto do Seminário Palafox, onde se realizava a conferência. Todos os dias, bispos, religiosos e outras pessoas iam até esse lugar para trabalhar com o grupo de teólogos “extramuros”. A história posterior demonstrou que essa assessoria, requerida legitimamente, foi positiva e fecunda nos resultados, inseridos no Documento Final.

IHU On-Line – Em sua história, quais foram os momentos mais importantes da Ameríndia?
Sergio Torres – Essa iniciativa, contada depois de 33 anos, parece simples e sem conflitos. Na prática, não foi assim. A secretaria do Celam e muitos bispos sentiram que a presença desses teólogos em Puebla era um ato não autorizado pela Igreja institucional desse momento e constituía uma ação quase subversiva. No entanto, os bispos que solicitaram essa assessoria consideraram que tal convite era um exercício normal da sua autoridade e liberdade como bispos e sucessores dos apóstolos.
Esse primeiro esforço organizativo de um grupo de teólogos para assessorar bispos em conferências oficiais é o primeiro antecedente histórico que, no entanto, ainda não recebeu o nome de Ameríndia enquanto tal. Esse nome nasceu por ocasião de um esforço semelhante por motivo da preparação da quarta Conferência do Episcopado Latino-Americano em Santo Domingo, em 1992. Nessa oportunidade, novamente os teólogos da libertação foram excluídos, e, pela segunda vez, um grupo de bispos solicitou a assessoria teológica para suas deliberações, o que efetivamente ocorreu.
Depois da Conferência de Santo Domingo, em 1992, o grupo de teólogos/as adquiriu uma percepção subjetiva de integrar um coletivo vinculado pela amizade e pela afinidade teológica que estava preparado para cumprir tarefas inéditas até esse momento. Eles ainda não tinham consciência de constituir um grupo com identidade própria. Em 1997, apresentou-se outra oportunidade de cumprir uma função parecida. Por ocasião da preparação do Jubileu do Ano 2000, João Paulo II convocou em Roma sínodos continentais para impulsionar uma melhor celebração do Jubileu em cada continente. Em 1997, realizou-se em Roma o Sínodo da América, que incluiu bispos e outros representantes da América do Norte, América Latina e Caribe. Pela terceira vez, um grupo de teólogos e teólogas, muitos deles os mesmos, viajaram para Roma, buscaram um lugar de trabalho e puderam responder ao convite dos bispos que solicitavam assessoria.
Depois desse sínodo em Roma, ocorreu uma mudança importante no grupo da Ameríndia, que até então era formado exclusivamente por teólogos/as. A mudança consistiu em ampliar o grupo incluindo leigos, religiosas e sacerdotes como parte integrante de um coletivo mais amplo e multidisciplinar. Ampliou-se o objetivo. O grupo já não tinha como única missão estar preparado para uma eventual assessoria, mas adquiriu um objetivo permanente e mais amplo. Propôs-se “manter e atualizar a tradição teológica, social e pastoral de Medellín e Puebla como expressão concreta do seguimento de Jesus na realidade atual do continente, marcada pelo predomínio do capitalismo neoliberal e pela vigência de democracias restritas”.
Posteriormente, o grupo viu a necessidade de se dar uma maior organização e estabeleceu uma secretaria permanente na cidade de Montevidéu, Uruguai, e contratou funcionários para impulsionar o trabalho que ia crescendo progressivamente. Nos anos seguintes, a Ameríndia assumiu uma tarefa extra de organizar congressos teológicos e publicar livros sobre teologia latino-americana adaptada aos novos desafios. Também estabeleceu um contato muito próximo com a nova iniciativa do Fórum Social Mundial que luta por “outro mundo possível”. A partir dessa vinculação e em conjunto com outras instituições, constituiu-se uma iniciativa intitulada Fórum Mundial de Teologia e Libertação.
Finalmente, a última iniciativa importante foi a participação na preparação e na realização da Conferência Episcopal de Aparecida, Brasil, em 2007. No momento da preparação, a Ameríndia participou de um diálogo de teólogos da libertação com alguns bispos designados pelo Celam para refletir sobre a situação e o momento atual da teologia da libertação. Além disso, a Ameríndia participou da Conferência Episcopal de Aparecida de uma forma diferente do que as anteriores. Desta vez, a presidência do Celam deu a conhecer, de forma oficial, que, na cidade de Aparecida, havia um grupo de teólogos relacionados com a Ameríndia que estava disponível para a assessoria teológica e que os participantes da Conferência tinham plena liberdade para consultá-los.

IHU On-Line – Em seu site, a Ameríndia afirma ser uma “rede de católicos com espírito ecumênico e aberta ao diálogo e à cooperação inter-religiosa”. Como o senhor vê o papel dos teólogos/as nos debates com as outras Igrejas cristãs e as demais religiões que marcam a cultura latino-americana?
Sergio Torres – Nos primeiros anos da história da Ameríndia, houve um debate mais ou menos prolongado sobre a necessidade de trabalhar em conjunto com as Igrejas protestantes. Muitos integrantes diziam que essa deveria ser a atitude normal da nossa instituição. Viver antecipadamente a única Igreja de Jesus Cristo centrada em sua Mensagem libertadora e no de serviço aos mais pobres. O debate se encerrou, e a Ameríndia acreditou ser melhor se definir como uma organização católica, aberta às outras Igrejas pensando que há muitos problemas e desafios próprios que é necessário tratar em família. O mesmo acontece com as Igrejas protestantes. Cada uma tem suas próprias organizações, assembleias, revistas, para melhor definir sua identidade e, além disso, muitas dessas Igrejas mostram pouca preocupação ecumênica. A Ameríndia não é um grupo fechado e sempre cultivou muito boas relações com as correntes libertadoras do protestantismo. Alguns teólogos protestantes, como Rubem Alves, José Míguez Bonino, Elsa Tamez e Julio de Santa Ana, entre outros, fizeram contribuições muito importantes para a teologia da libertação. Temos alguns elementos comuns em nossa curta história e tradição.
A Ameríndia não entrou no debate sobre temas doutrinários e dogmáticos com as outras tradições protestantes. Ela prefere viver o ecumenismo na vida social e prática do serviço aos pobres e da libertação do povo. E ao mesmo tempo ela é devedora das ricas tradições e da sabedoria dos povos indígenas e afro-americanos. Ela aprendeu com o desenvolvimento das teologias que emergiram a partir dessas tradições ancestrais. Com relação ao diálogo com as outras religiões, ela se manteve à margem dos profundos debates que ocorrem entre grupos interessantes de teólogos e estudiosos dessas religiões.
Devido à pouca presença entre nós das religiões da Ásia, como o hinduísmo e o budismo, ela está atenta a esses debates, mas não participou diretamente. Ao mesmo tempo, valoriza os âmbitos especializados de diálogo inter-religioso, por exemplo os estudos realizados pela Associação Ecumênica de Teólogos do Terceiro Mundo. Naturalmente, nos preocupa muito a necessidade de uma profunda reformulação da Mensagem de Jesus Cristo transmitida até agora com as categorias da cultura grega e ocidental. Essa tarefa é prioritária e urgente.

IHU On-Line – A identidade da Ameríndia também é marcada pela reafirmação da “opção por novos modelos de igreja comunitária e participativa e pela teologia da libertação como uma contribuição para a Igreja universal”. Em sua opinião, quais são as características centrais desses novos modelos de Igreja?
Sergio Torres – A história da Igreja na América Latina depois do Concílio Vaticano II está marcada por períodos de profunda renovação e vitalidade e por momentos dificuldades, recolhimento e frustração. No momento do Concílio Vaticano II havia na América Latina um grupo muito valioso de bispos comprometidos espalhados por todo o continente. Alguns nomes são lembrados para sempre, por exemplo: D. Hélder Câmara, do Brasil, e D. Manuel Larraín, do Chile. O teólogo José Comblin, recentemente falecido, propôs a chamar esses bispos de “pais da Igreja latino-americana”. Esses bispos, com a ajuda de teólogos e agentes pastorais de base, contribuíram para ler o Concílio a partir da perspectiva da América Latina na Conferência de Medellín, em 1968.
A partir de então e durante quase 20 anos, a Igreja do subcontinente experimentou um grande crescimento e vitalidade no povo, adquirindo uma nova identidade. Seguindo Jesus Cristo e com uma profunda fidelidade à tradição eclesial, ela assumiu um novo papel junto aos pobres, deixando de lado a sua posição anterior de legitimar as classes dominantes da sociedade. Junto com isso houve uma profunda renovação da liturgia, da catequese, da teologia, da organização eclesial e da evangelização em seu conjunto, levando em conta as orientações de Medellín e da Evangelii Nuntiandi e, posteriormente, da Conferência de Puebla.
Lamentavelmente, a partir da década de 1980, aconteceu algo inesperado nessa renovada Igreja latino-americana. Produziu-se uma divisão em seu interior entre alguns setores da hierarquia e alguns teólogos com relação à interpretação de Medellín e de Puebla, em particular, quanto à maneira de entender a opção pelos pobres. Algumas pessoas acreditaram que a opção pelos pobres poderia ser interpretada como uma expressão marxista. Essa discussão interna levou alguns setores da Cúria Vaticana a tomar partido e, a partir desse momento, produziu-se um grande distanciamento e desconfiança entre essas instâncias romanas e os setores progressistas do continente.
Um momento importante dessa história foram as duas instruções da Congregação para a Doutrina da Fé, de 1984 e 1986, condenando algumas formas da teologia da libertação. Apesar de as instruções dizerem que se tratava de “algumas formas”, os setores mais conservadores consideraram que toda a teologia da libertação estava submetida a suspeitas e, finalmente, condenada. Esse mal-entendido tem estado presente até agora e criou as distâncias e diferenças de opinião e de atitude que impediram uma resposta comum da Igreja aos novos desafios dos tempos presentes. Uma dificuldade séria foi escutar quase exclusivamente a instrução de 1984 e o silenciamento que não permitiu acolher com o mesmo interesse a carta de João Paulo II aos bispos do Brasil, de maio de 1986, em que, depois da primeira instrução, dizia-lhes claramente que “nós e vocês consideramos que a teologia da libertação é útil e necessária”.

IHU On-Line – Em 2012, comemoraremos o 50º aniversário da convocação do Concílio Vaticano II, aniversário que também inspira a promoção do Congresso Continental de Teologia. Como essa data pode iluminar a Igreja no contexto atual?
Sergio Torres – A Igreja da América Latina e do Caribe acolheu com grande entusiasmo o Concílio. Inclusive, estava preparada para fazê-lo. Mais ainda, não só leu e aplicou o Concílio, mas também o reinterpretou a partir da nossa realidade social, econômica e cultural. O conceito de Igreja como Povo de Deus foi acolhido com grande naturalidade, pois, nessa época, estava se desenvolvendo a consciência do povo como um ator importante que assumia o seu papel protagônico e propunha grandes mudanças na estrutura da sociedade. A cultura latino-americana, solidária e fraterna, viveu com alegria e entusiasmo a identidade de uma Igreja comunitária, em que bispos e fiéis, na linguagem da época, se sentiam parte de um projeto comum e horizontal de Igreja missionária e renovada.
A história também mostra que, tanto na Europa quanto na América, depois dos primeiros anos de entusiasmo pelo Concílio, surgiram diversas interpretações sobre o verdadeiro significado de seus documentos com as orientações e conclusões pastorais. Na América Latina, também houve um processo de involução e de restauração. Alguns setores consideraram que o Concílio, em alguns aspectos, havia ido longe demais e que era necessário retomar uma linha mais tradicional em vários níveis.
O 50º aniversário do início do Vaticano II é um momento muito oportuno para reler o Concílio. Os grandes documentos, especialmente a Lumen Gentium e a Gaudium et Spes, têm intuições permanentes que são muito pertinentes para a situação atual. O espírito democrático e o desejo de participação exigem uma Igreja comunitária, participativa e solidária. A abertura ao mundo hoje em dia adquire novos aspectos e enfrenta grandes desafios. Há problemas novos que não foram considerados no Concílio, mas temos as ferramentas que tornam possível enfrentá-los. Tanto a teologia da libertação, por si mesma, como o próximo Congresso de 2012 podem contribuir muito para abordar de uma maneira nova esses novos desafios.
IHU On-Line – Em 2012, também comemoramos os 40 anos da publicação do livro de Gustavo Gutiérrez. A partir dessa obra inaugural, quais foram e são as principais contribuições da teologia da libertação no contexto da América Latina? Qual é o significado da “libertação” hoje?
Sergio Torres – O surgimento da teologia da libertação significou um momento importante na história da teologia em geral. Antes disso, considerava-se que havia apenas uma única teologia universal, de acordo com o que diz São Paulo: “Um só Senhor, uma só fé, um só batismo”. Sem negar de forma alguma esse princípio fundamental, a teologia da libertação abriu a perspectiva contextual. Cremos em um só Senhor, mas fazemos isso a partir dos nossos contextos e das nossas situações sociais e culturais próprias e diferentes. O contexto permite aprofundar alguns aspectos da única mensagem e torná-la mais credível para pessoas de diferentes culturas. Nascida na América Latina, a teologia da libertação se estendeu para a África e Ásia e, além disso, existem experiências de teologia contextual na América do Norte e Europa.
A teologia libertadora contribuiu com outros elementos para a reflexão teológica tradicional. A teologia refletia sobre o mistério de Deus descobrindo-o nos “lugares teológicos” permanentes como a Bíblia, a Tradição, a Liturgia, o Magistério, o ensinamento dos teólogos etc. A teologia da libertação agregou outro “lugar teológico”: descobrir a presença de Deus na “fé que atua pela caridade”, especialmente entre os pobres que, iluminados pela sua fé e pelo seguimento de Jesus, lutam pela sua libertação.
O conceito de libertação ampliou-se e enriqueceu-se. Em um primeiro momento, falou-se da libertação dos pobres entendidos como os operários das indústrias e das fábricas das grandes cidades do continente. Posteriormente, o conceito de pobre também foi se aprofundando. Os pobres são os excluídos, os marginalizados, os que não têm voz, os que são discriminados ou, como se diz hoje, “o outro”. Atualmente, o conceito de liberação expressa a salvação e a libertação que Jesus nos traz com muitos termos que se referem à salvação de setores postergados e oprimidos, na atual situação cultural e social.
Hoje em dia, não existe uma única teologia da libertação. Há um pluralismo teológico, aberto, mas fiel a algumas intuições e princípios básicos da primeira teologia da libertação. Essa teologia ainda tem muito a dar de si mesma. Por exemplo, deve continuar articulando a contribuição própria e complementar dos teólogos acadêmicos e dos teólogos de base. Além disso, também se pede que os profissionais não falem somente para os pobres, mas a partir e com os pobres.

IHU On-Line – Em um momento histórico de maior democracia e desenvolvimento na América Latina, como o senhor vê a Igreja regional?
Sergio Torres – A história econômica, social e política tem sido marcada por grandes etapas que incluem os processos de desenvolvimentismo dos anos 1950 e 1960, as ditaduras dos anos 1970 e 1980 e a recuperação da democracia no novo contexto da globalização neoliberal. A Igreja hierárquica e a Igreja de base têm estado presentes de formas diferentes nesses processos históricos. Atualmente, dá a impressão de que não temos respostas muito definidas frente aos novos desafios. O que aprendemos com as etapas anteriores não é suficiente para atuar no momento presente. Há desafios novos como os que provêm do crescimento da população mundial, das mudanças climáticas globais e do esgotamento dos recursos naturais que ameaçam a própria sobrevivência da vida no planeta.
A teologia da libertação e a ação social da Igreja se baseiam no protagonismo do povo e em uma teoria social crítica que permita interpretar as causas da pobreza e propor estratégias viáveis de desenvolvimento e de libertação. Ambas as coisas hoje em dia são insuficientes. A mobilização popular é fraca e inorgânica, e não há uma teoria social comum que permita enfrentar o neoliberalismo.
No entanto, há um elemento positivo. A teologia da libertação está mais bem preparada do que outras instituições e ideologias para interpretar o que está acontecendo atualmente com o mal-estar global e os protestos dos “indignados”. Esse mal-estar se deve à crise de um paradigma de civilização e exige um novo modelo de sociedade com participação cidadã, regulação e controle da economia financeira. Além disso, seria preciso chegar a ter novos modelos e critérios de governança mundial. Para isso seria necessária uma reforma da organização interna das Nações Unidas.
O Fórum Social Mundial, em suas diversas versões, proporcionou novas ferramentas para animar os movimentos sociais e criar um novo estilo de fazer política. Mas essas inspirações não foram suficientes para criar uma força transformadora e renovadora. Por enquanto, nós, cristãos, estamos chamados a viver o Evangelho em pequenas comunidades e a participar dos movimentos sociais atuais e de outras iniciativas que permitam progressivamente ir abordando os problemas mais globais, tais como as redes sociais da internet.

IHU On-Line – Especificamente com relação à Igreja chilena, recentemente houve o caso do Pe. Fernando Karadima, condenado pelo Vaticano por abusos sexuais de menores. Quais estão sendo os desdobramentos e as consequências desse caso no Chile?
Sergio Torres – O caso desse sacerdote teve uma profunda repercussão em toda a Igreja chilena, porque ele estava relacionado com um amplo grupo de sacerdotes diocesanos, que inclui cinco bispos. Além disso, pessoalmente ele tinha fortes vínculos com leigos de grande influência na vida social e política do país, por seu poder econômico. Tal era a credibilidade desse sacerdote que a hierarquia demorou em dar início à investigação, o que trouxe um maior prejuízo para a Igreja. Felizmente, depois de um vacilo inicial, o caso foi acolhido e investigado.
As consequências foram muito negativas para a credibilidade da Igreja, mas, ao mesmo tempo, há aspectos positivos que é preciso destacar. A opinião pública estava cansada de uma atitude autoritária frente aos problemas éticos relacionados com a sexualidade. Esse caso demonstrou que, na vida de alguns sacerdotes, também ocorriam situações muito condenáveis. Assinalou-se que uma das causas do escândalo legítimo que se produziu vem da falta de transparência e do ocultamento de casos específicos por parte da própria hierarquia. Reconheceu-se com razão que, nos casos de pedofilia, não está incluído somente o problema da sexualidade e dos abusos, mas também, e talvez principalmente, o problema do mau uso da autoridade. Pôs-se em dúvida, e com razão, que a ordenação sacerdotal outorga aos sacerdotes uma autoridade excessiva e sem limites. É hora de atualizar o que o Vaticano II disse, de que a autoridade é um serviço e que na Igreja não deve acontecer, como disse Jesus, o que acontece com as autoridades do mundo.

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