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domingo, 28 de outubro de 2012

Teologia da Libertação, M. Weber e capitalismo como religião

(Jung Mo Sung) (Adital)/// Max Weber, um dos "clássicos” das ciências sociais modernas, famoso pela tese de desencantamento do mundo, escreveu um texto que merece ser retomado com seriedade hoje. Ele disse: "Tudo se passa, portanto, exatamente como se passava no mundo antigo, que se encontrava sob o encanto dos deuses e demônios, mas assume sentido diverso. Os gregos ofereciam sacrifícios a deus das cidades; nós continuamos a proceder de maneira semelhante, embora nosso comportamento haja rompido o encanto e se haja despojado do mito que ainda vive em nós. [...] O máximo que podemos compreender é o que o divinosignifica para determinada sociedade, ou o que esta ou aquela sociedade considera como divino. [...] A religião tornou-se, em nosso tempo, ‘rotina quotidiana’. Os deuses antigos abandonam suas tumbas e, sob a forma de poderes impessoais, porque desencantados, esforçam-se por ganhar poder sobre nossas vidas, reiniciando suas lutas eternas.” (Ciência e política: duas vocações). Normalmente se pensa que a modernidade Ocidental expulsou a religião da esfera pública – secularização – e a reduziu ao campo do privado. Além disso, acredita-se que a compreensão religiosa do mundo e a fé foram substituídas pela cosmovisão fundada na ciência e pela racionalidade moderna que não admite, por ex, a crença nos milagres relatadas na Bíblia ou na religiosidade popular. Diante do mundo moderno compreendido dessa forma, uma boa parte das igrejas cristãs pensam que uma das tarefas fundamentais da teologia é resignificar os símbolos e ensinamentos cristãos de tal modo que sejam compatíveis com a cultura moderna. Ou então, se posicionar contra o mundo moderno e pós-moderno por serem ateus e secularizados e tentar recuperar o poder das instituições religiosas na sociedade. Contudo, Weber –que é citado por muitos para justificar essa visão da modernidade– diz algo bem diferente. Para ele, não há grande diferença entre cidades gregas que ofereciam sacrifícios aos seus deuses e o nosso mundo. Os sacrifícios continuam sendo oferecidos, só que agora não mais a "deuses pessoais”, mas a deuses que se aparecem sob a forma de "forças impessoais”. Isso por dois motivos básicos: a) hoje não se acredita mais que a natureza, por ex., seja prenhe e movida por espíritos sobrenaturais – o que chamamos de "mundo encantado”–, por isso a concepção de deuses da sociedade mudou; b) o aumento da complexidade do sistema socioeconômico criou forças impessoais que regem a dinâmica da vida social. A diferença de a quem os sacrifícios são oferecidos não apaga o mais fundamental: a continuidade dos sacrifícios. Hoje, os sacrifícios de vidas humanas e da própria "natureza” são exigidos e justificados em nome das "leis do mercado”, essas forças impessoais que assumiu a função do divino. Isso aparece claramente hoje nas declarações que justificam os ajustes econômicos que estão sacrificando os idosos (com corte nas pensões), os enfermos (corte na saúde) e nas crianças e jovens (corte na educação) nos países europeus em crise. Ajustes para salvar o sistema financeiro. Assim como foi na América Latina nas décadas de 1980 e 1990. O que Weber "intuiu” no início do século XX nos mostra um lado muito "esquecido” ou ocultado da modernidade: o seu aspecto sacrificial, portanto, religioso. O mundo moderno, com o seu capitalismo, não é ateu ou secularizado (no sentido de a religião estar fora da esfera pública), mas é, no discernimento bíblico, idólatra. Isto é, é um sistema baseado em uma divindade – feita de forças impessoais – que exige sacrifício de vidas humanas. Um setor importante da Teologia da Libertação, na década de 1980, denunciou isso e fez desse tema um dos centrais da sua reflexão. (Dois livros de referência dessa crítica são "A luta dos deuses” e "Idolatria do mercado”). Se não compreendermos bem o caráter idolátrico, portanto religioso (segundo Weber, religião na forma de "rotina cotidiana”) do capitalismo global não seremos capazes de ter clareza na missão do cristianismo no mundo de hoje. Para isso, continua atual o desafio para teólogos/as da libertação de dialogar com cientistas sociais que continuam refletindo a partir desta intuição de Weber, da teoria de fetiche em Marx e/ou da crítica de W. Benjamin ao "capitalismo como religião”. [Autor, com J. Rieger e N. Miguez, de "Para além do espírito do império: novas perspectivas em religião e política”, Paulinas. Twitter: @jungmosung].

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Congresso Continental de Teologia – Assista aos vídeos das principais conferências e momentos do evento

23.10.12
 - Mundo



Adital
De 7 a 11 de outubro, a cidade de São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, sediou o Congresso Continental de Teologia. Foram cinco dias ricos em discussões que ofereceram um panorama dinâmico de como caminha, nos tempos atuais, a Teologia. O Congresso aconteceu em meio a dois marcos importantes: os 50 anos do Concílio Vaticano II e os 40 anos da publicação "Teologia da Libertação – Perspectivas”, de Gustavo Gutiérrez.
Abaixo, listamos todas as conferências e principais momentos do evento.
07 de Outubro
Discurso Inaugural Demetrio Valentini del Congreso Continental de Teología
Conferencia Inaugural con Rector de la Universidad de Unisinos
Contexto y Pretexto del Congreso
Geraldina Céspedes
Jon Sobrino
08 de Outubro
Pedro Ribeiro de Oliveira
Jung Mo Sung
Socorro Martínez y José Sanchez
Maria Clara Bingemer
Chico Whitaker
09 de Outubro
Andres Torres Queiruga
Homenaje a José Comblin
Gustavo Gutiérrez
10 de Outubro
Leonardo Boff
Peter C. Phan
Luis Carlos Susin
Andrés Torres Queiruga
11 de Outubro
Joao Batista Libanio
Marilú Rojas y Carlos Mendoza
Congreso Teológico Brasil
Narración Síntesis de los Talleres
Oración y Mensajes Finales

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

TEOLOGIA: A NECESSÁRIA REFLEXÃO


Informações da Diocese ( 28/10/12)
               
                                                                                               D. Demétrio Valentini
       Foi surpreendente a participação no Congresso Teológico Continental, realizado nas dependências da Unisinos, em São Leopoldo, no Rio Grande do Sul. A expectativa era de trezentos participantes.  Mas o número chegou a 750, e não foi maior por motivo de espaço no salão das conferências.
        Foram cinco dias intensos, com programação para cada dia, alternando grandes conferências de manhã e de noite, com oficinas temáticas, painéis diversos, e apresentação de trabalhos teológicos na parte da tarde. Todas as atividades sempre precedidas de momentos de espiritualidade, que aconteciam também nas celebrações litúrgicas em horários antecipados.
        Um clima de grande interesse, de atenção às temáticas apresentadas, e de esforço de captar bem a caminhada feita por beneméritos teólogos e teólogas da América Latina, sobretudo a partir do processo de renovação conciliar, que encontrou  por aqui uma generosa acolhida, mesmo em meio a contrariedades,  que acabaram caracterizando não só a renovação eclesial, mas também uma teologia própria, que procurou acompanhar e dar respaldo à caminhada eclesial em nosso continente.
           As datas simbólicas que motivaram a realização deste Congresso Continental situavam bem o processo de caminhada conjunta, entre renovação eclesial e reflexão teológica. O Congresso se situou na marca dos 50 anos da abertura do Concílio Vaticano Segundo, e dos 40 anos da publicação do livro do Pe. Gustavo Gutiérrez, Teologia da Libertação, que acabou dando nome à teologia latino americana que procurou “dar as razões da esperança” deste Continente. 
          Olhando com serenidade este processo de busca de sintonia entre vivência eclesial e reflexão teológica, se chega a uma constatação simples, mas profunda. Toda caminhada eclesial necessita do respaldo de um processo de reflexão, que ofereça referências consistentes e motivações autênticas. Toda caminhada própria de Igreja requer uma teologia própria, que dê razões adequadas para as situações que interpelam a fé e pedem o suporte da razão.
          Assim dá para dizer que fazia o Cristo, de acordo com os relatos do Evangelho. Com frequência ele explicava em particular as parábolas aos seus discípulos, ou se retirava à parte  com eles, instruindo-os melhor a respeito do Reino.
          Assim fizeram Paulo e Barnabé, quando se detiveram um ano inteiro com a comunidade de Antioquia, dando fundamento consistente à incipiente vida eclesial, que em seguida se tornaria ponto de partida para a missão no império romano.
         Assim fizeram nos primeiros séculos da Igreja, aqueles que hoje chamamos de “santos padres”, que sentiram a necessidade de respaldar a fé cristã, que estava tomando forma explicita, com o suporte da razão.
          Daí resultaram  os primeiros grandes tratados de teologia. E´ bom conhecê-los, não só porque iluminam ainda hoje nossa fé, mas para nos incentivar a fazer como eles fizeram: na medida que percorremos novos caminhos, e enfrentamos novas dificuldades, precisamos refletir, colocando em ação a capacidade humana que Deus nos deu para pensar, e desta maneira fazer brilhar melhor a fé, que continua iluminando também as realidades próprios de nosso continente.
      A urgência de pensar a fé, a partir de nossa realidade, à luz da Palavra de Deus, em comunhão eclesial, foi certamente um recado precioso deste grande Congresso Teológico.
       Neste contexto soam bem as palavras de João Paulo II, em carta dirigida à CNBB, em abril de 1986, afirmando bem claramente que “a teologia da libertação é não só oportuna, mas útil e necessária”.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Crise e salvação da e na Igreja


22.10.12 - Mundo
Maria Clara Lucchetti BingemerTeóloga, professora e decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio
Adital

Figura polêmica na Igreja por suas posições ousadas e provocativas, o teólogo católico suíço Hans Küng não deixa de ser uma das cabeças teológicas inteligentes dos dias de hoje. A teologia deve a ele algumas obras importantes de seu acervo de pensamento, muito concretamente no que diz respeito ao papel das religiões no mundo de hoje e às propostas para uma ética global. Antes disso, Hans Küng se ocupou com questões candentes de eclesiologia, tendo escrito inclusive um livro questionando a infalibilidade papal.

Chamado à ordem e advertido inúmeras vezes pelo Vaticano, Küng perdeu a "missio canônica”, ou seja, a permissão eclesiástica para ensinar em qualquer faculdade de teologia católica. No entanto, continuou a publicar e permaneceu ligado à Universidade de Tübingen, Alemanha, até sua aposentadoria. Apesar da idade (mais de 80 anos), continua produtivo e dá conferências e entrevistas em várias partes do mundo.

É assim que caiu-nos nas mãos e sob os olhos uma entrevista recente, por ele concedida à revista Le Point, de 27 de setembro de 2012. Ali fala sobre seu último livro intitulado A Igreja tem salvação?, no qual critica severamente a Igreja Católica que teria, segundo ele, traído suas origens. Essas mostram uma comunidade democrática e não monárquica, governada por homens que não desejavam ser senhores, mas servidores do povo de Deus. Segundo o teólogo, a Igreja hoje é centralizadora, absolutista e clerical, em nada parecida à comunidade primeva.

Após essa primeira afirmação, Küng critica outros pontos delicados da disciplina católica, como o lugar da mulher na comunidade eclesial, impedida de receber o sacramento da ordem e assumir funções de maior destaque; o celibato dos padres etc. Pela interpretação de Hans Küng, o fato de tais reformas ainda não terem se efetivado na Igreja se deve a uma traição ao Concílio Vaticano II levada a cabo pelos pontificados posteriores a Paulo VI.

Em 2005, Küng foi recebido pelo atual Papa –seu antigo colega de docência e amigo em Tübingen- para uma conversa de quatro horas, gesto que ele até hoje agradece. No entanto, se confessa decepcionado porque não se seguiu a essa conversa nenhuma mudança substancial na orientação do pontificado de Bento XVI em questões de fé e moral.

O mais belo dessa entrevista, dada por um homem brilhante e amargurado em muitos aspectos, porém, encontra-se em sua confissão de fé situada na parte final da mesma. Arguido pelo repórter sobre o porquê de permanecer católico, Hans Küng confessa desassombradamente sua fé: "Não sou católico por causa do papa, mas pelo Evangelho e o povo cristão... A Igreja Católica é minha pátria espiritual, na qual tive uma história às vezes difícil, mas apesar disso muito feliz. Há milhões de católicos que partilham de minhas convicções”.

Küng toca aí –talvez apesar de si mesmo– no coração do mistério da Igreja. Santa e pecadora, "casta meretriz” que o Cristo desposa a cada dia. A comunidade eclesial sempre estará atravessada de ambiguidades e contradições. E estas serão do tamanho e da proporção dos homens e mulheres que a compõem, seus membros e chefes, filhos amados do Pai, que faz nascer seu sol e cair sua chuva sobre todos e todas em toda ocasião.

A entrevista de Hans Küng não é carente de esperança e amor pela Igreja. Se ele não amasse essa Igreja que chama ternamente de sua pátria espiritual, sofreria tanto pelos males que a afligem? Estaria tão angustiado pelo fato de ver seus efetivos decrescerem, seus templos se esvaziarem e tantas pessoas debandarem de suas fileiras?

Ao final, perguntado se Jesus, vindo ao mundo hoje, reconheceria seus ensinamentos diante do atual Papa, Küng responde com alguma acidez, mas deixando entrever uma abertura afetuosa em relação ao atual Pontífice Bento XVI, seu antigo colega e amigo Joseph Ratzinger. Responde que Jesus não se reconheceria na riqueza das vestes e adereços papais, nem veria nisto algo adequado ao sucessor de seu apóstolo Pedro. Igualmente não se encontraria refletido no Cristo que o Papa descreve em seus livros. Porém, termina, "está persuadido que, se ele olhasse no interior do coração de Joseph Ratzinger, encontraria traços de seu ensinamento”.

Enquanto o coração humano for fiel a Jesus de Nazaré, reconhecido e proclamado Cristo de Deus, a Igreja terá salvação. Ainda que entre todos os seres humanos espalhados pelo planeta existisse apenas o coração de Joseph Ratzinger..., ou o de Hans Küng..., batendo ao ritmo do coração amante de Jesus, Verbo Encarnado e salvador do mundo.

[Maria Clara Bingemer é autora de "A Argila e o espírito - ensaios sobre ética, mística e poética" (Ed. Garamond), entre outros livros.
Copyright 2012 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato – MHPAL – Agência Literária (mhpal@terra.com.br)].

 

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Teologia em Congresso


16.10.12 - Mundo
Frei Betto

Escritor e assessor de movimentos sociais
Adital

Na segunda semana de outubro, a Unisinos, em São Leopoldo (RS), abrigou o congresso teológico que comemora 50 anos do Concílio Vaticano II (1962-1965) e 40 anos da Teologia da Libertação (TdL).
Convocado pelo papa João XXIII, o Concílio reuniu em Roma quase todos os bispos católicos do mundo. Os documentos ali aprovados representam uma profunda renovação na doutrina e na prática da Igreja Católica.
À luz do Concílio, a Igreja deixa de ser uma instituição triunfalista e clerical para ser compreendida segundo o conceito dinâmico de povo de Deus a caminho na história. A missa em latim dá lugar à liturgia em língua vernácula. A confissão auricular entra em desuso e a comunitária passa a ser valorizada. As Igrejas protestantes deixam de ser encaradas como inimigas ou concorrentes para serem acolhidas no diálogo ecumênico.
Os judeus não são mais acusados de deicídio, e tanto eles quanto os muçulmanos se tornam parceiros dos católicos no diálogo inter-religioso. O papel dos leigos ganha destaque na missão da Igreja. Teilhard de Chardin é reabilitado e a ciência é vista como complemento à fé e não adversária.
A versão latino-americana do Concílio foi a reunião dos bispos da América Latina em Medellín, Colômbia, em 1968. Inaugurada com a presença do papa Paulo VI, a conferência de Medellín aprovou documentos pastorais tidos como os mais avançados na história da Igreja em nosso Continente.
Algo de novo já vinha brotando no seio da Igreja antes mesmo do Concílio: as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). Devido à carência de sacerdotes, o povo simples da periferia e da roça, na ânsia de adubar sua vida cristã, começou a se organizar em CEBs, ativadas pelo método Ver-Julgar-Agir e pela contribuição pedagógica de Paulo Freire.
Em suas reuniões e celebrações, os militantes das CEBs cotejavam fé e vida, Bíblia e realidade social, prática de Jesus e desafios atuais aos cristãos. Dessa reflexão, colhida por teólogos, nasceu a Teologia da Libertação.
A TdL não é, portanto, um sumário de conceitos surgidos da cabeça de teólogos progressistas. É a sistematização teológica da vivência de fé de militantes inseridos em movimentos populares, sindicatos e partidos. Vivência de fé no interior de lutas guerrilheiras das décadas de 1960 e 1970, e do martírio de padres revolucionários como Camilo Torres, na Colômbia, e Henrique Pereira Neto, no Brasil. A TdL é fruto do diálogo frutífero entre cristãos e marxistas engajados em lutas libertadoras.

Ora, todo esse processo, tão vigoroso na Igreja Católica latino-americana entre 1960 e 1990, entrou em retrocesso a partir do pontificado de João Paulo II. Anticomunista ferrenho, o papa polonês, instigado pelo cardeal Ratzinger, teve o cuidado de não nomear bispos, padres progressistas, e não valorizar as CEBs como alternativa pastoral.
Embora jamais tenha condenado a TdL, como sugere certa mídia, João Paulo II apoiou as duas Instruções do cardeal Ratzinger, então presidente da Congregação para a Doutrina da Fé, contendo reservas e censuras a essa linha teológica. Iniciou-se um acelerado processo de "vaticanização” da Igreja Católica latino-americana. Aos poucos, ela perdeu seu caráter profético de "voz dos que não têm voz”.

Morto João Paulo II, assumiu o papado, sob o nome de Bento XVI, o próprio cardeal Ratzinger. Terminada a Guerra Fria e desabado o Muro de Berlim, a conjuntura da América Latina também sofrera substanciais mudanças, como o fim dos movimentos guerrilheiros, das ditaduras militares e da militância revolucionária em prol do socialismo.
A TdL, apregoaram seus críticos, morreu! Nem ela nem as CEBs morreram, apenas refluíram - na Igreja, por falta de apoio da hierarquia; no noticiário, pelo desinteresse da mídia.
Agora o congresso de São Leopoldo faz o balanço dos frutos do Concílio e dos 40 anos de TdL. Hoje, essa reflexão teológica abrange também os temas candentes neste início de século XXI, como a questão ambiental, a astrofísica e a física quântica, as relações de gênero, a leitura feminina da Bíblia etc.

O congresso na Unisinos quer, em suma, apenas encontrar respostas a esta pergunta: em um Continente com tanta opressão, o que significa, hoje, ser discípulo de Jesus libertador e fazer teologia em meio a uma população cuja maioria padece pobreza e falta de direitos humanos elementares?
[Frei Betto é escritor, autor, em parceria com Leonardo Boff, de "Mística e espiritualidade” (Vozes), entre outros livros. http://www.freibetto.org - Twitter:@freibetto.
Copyright 2012 – FREI BETTO – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização do autor. Se desejar, faça uma assinatura de todos os artigos do escritor. Contato –MHPAL – Agência Literária (mhpal@terra.com.br)].

 

terça-feira, 16 de outubro de 2012

A 50 años del Concilio Vaticano II


Un aporte de hno. Ronaldo Lazarte. Atte. Enrique

DOMINGO, OCTUBRE 14, 2012


Vicente S. Reale
Sacerdote católico
Los Andes, 11 – 10 – 12 
Aquel 11 de octubre de 1962 se abrían las sesiones del Concilio Ecuménico de la iglesia católica de nuestro tiempo. Al decir de Juan XXIII, su inspirador y propulsor, “se abrían las ventanas de la iglesia a fin de que entrara un nuevo aire desde el exterior que posibilitara una oxigenación y una renovación”.

Germinaban, también, las ansias y las esperanzas de muchos católicos (teólogos, biblistas, pastoralistas y laicos) que desde muchos años antes venían trabajando por una renovación en las estructuras bíblicas, de operatividad e institucionales de la iglesia.

En aquel mismo año (en el mes de mayo), fui ordenado como “ministro” (servidor) de la comunidad católica en lo referido a la predicación, a la catequesis y a la facultad de ofrecer los sacramentos. Podría decirse que mi servicio eclesial nació “marcado” por aquel tan esperado Concilio. A medio siglo de distancia, ofrezco mi reflexión sobre aquella asamblea: sus logros, lo que aún queda por concretarse y el camino que hoy debería transitar nuestra Iglesia.

Dos realidades fundamentales 

Los acuerdos (documentos) del Vaticano II sobre la constitución interna de la comunidad-iglesia ('Lumen Gentium') y sobre la mutua relación entre la iglesia y nuestro mundo ('Gaudium et Spes'), constituyen la base sobre la que el Concilio deseaba que nuestra comunidad se oxigenara y renovara. Iglesia, comunidad de creyentes que ofrece la vida y el testimonio de Jesucristo, e iglesia que dialoga con las realidades de su tiempo y ofrece su servicio a las gentes de hoy.
Esos documentos vuelven a las raíces de las vivencias de las primeras comunidades cristianas, a la vez que indican senderos operativos para hacer presente, hoy, en nuestra cultura, el “camino de Jesús”.

Es del caso preguntarse en qué medida aquellas propuestas, deseos y esperanzas se han hecho realidad.

Cuando miramos la vida de la iglesia y los desafíos para la evangelización en los tiempos presentes, caemos en la cuenta de que hay temas que recién están empezando a estrenarse y otros que podrían desaparecer a causa de retrocesos y olvidos de lo querido y propuesto por el Concilio.

Sí. Se han dado pasos, pero mi impresión es que esos pasos han terminado siendo más de forma que de actitudes de fondo.

Un ejemplo: el espíritu de diálogo, tan característico del Concilio y del posconcilio, muestra síntomas de agotamiento, tanto hacia el interior de la iglesia como hacia las otras confesiones religiosas y hacia la cultura de nuestro tiempo. El diálogo en y con la iglesia fracasa, como en otros ámbitos, cuando una de las partes (o las dos) pretenden poseer toda la verdad y se rechaza la posibilidad de realizar un itinerario compartido de búsqueda y debate adulto, en el cual todos podamos aprender y enriquecernos mutuamente.

Otro ejemplo: el reconocimiento de la vocación laical con igual dignidad que las vocaciones del sacerdocio ministerial y la vida consagrada, y la participación activa de los fieles en diversas tareas eclesiales. Como contrapartida, se observa el comienzo de un proceso de alejamiento de la iglesia por parte de muchos laicos y laicas que no encuentran en ella espacios de libertad y participación para desarrollar su vocación.
¿Qué habría que hacer hoy? 
1- Poner en funcionamiento, de verdad, una iglesia pobre y servidora de los pobres, renunciando al lujo, a los títulos y a los privilegios.

2- Ejercer una “colegialidad efectiva” entre el Papa y los obispos, evitando intermediaciones espurias que alejan a los responsables de las realidades concretas en que viven las comunidades.

3- La “búsqueda de la verdad”, en la iglesia, no debe ceñirse solo a los principios, sino que debe insertarse en la realidad cultural y social de tantos que esperan respuestas por parte de ella.

4- Terminar con la desconfianza y la excomunión a la cultura actual al afirmar que “esta crisis de civilización se debe a la descristianización”. Toda cultura tiene sus luces y sus sombras. Quien desee acompañar y ayudar a la gente de hoy no debe partir de preconceptos duros y cerrados, sino considerarse “prójimo” y caminante con ellos.

5- Volver a las “pequeñas comunidades” (en tamaño humano y geográfico) de manera que puedan ser mejor atendidas y que, a la vez, sean signos efectivos y eficaces en la labor evangelizadora.

6- Buscar personas que procedan del interior de esas comunidades, hombres casados, con cierta autoridad humana y espiritual que los habilite como personas idóneas para asumir la responsabilidad de ser los “ancianos” (presbíteros) de sus compañeros y capaces de incrementar la vitalidad espiritual de sus hermanos y sus hermanas.

7- Hacer realidad la plena igualdad de la mujer en la vida y en los ministerios de la Iglesia.

8- Estimular la libertad y el servicio reconocido de nuestros teólogos y teólogas, abriendo así las posibilidades de un diálogo intraeclesial maduro y respetuoso.

9- Insistir, en la línea de Jesús, en que “la autoridad” - dentro de la Iglesia - no es poder sino servicio. En este sentido habrá que repensar el funcionamiento de la curia vaticana; el Vaticano deberá dejar de ser estado y el Papa no será jefe de estado.

10- Rechazar, en todas las formas posibles, el capitalismo neoliberal, el neo imperialismo del dinero y de las armas y una economía de mercado y de consumismo que sepulta en la pobreza y en el hambre a la gran mayoría de la humanidad.

11- Exigir, imperiosamente, la transformación sustancial de los organismos mundiales (ONU, FMI, Banco Mundial, OMC, etc.) a fin de que no continúen siendo funcionales a los poderosos de turno, y se conviertan en defensores de la justicia - en todas sus formas - entre los pueblos, siendo garantes de una verdadera paz y convivencia.

A modo de conclusión, cabría esta reflexión: El Concilio Vaticano II intentó trazar un derrotero para que la iglesia católica, siendo fiel a Jesús y a sus orígenes, pudiese renovarse en su interior y, comprendiendo la cultura de nuestro tiempo, pudiese entablar un diálogo fructífero con ella a fin de contribuir evangélicamente al sano progreso - material y espiritual - de una humanidad que busca superar todo tipo de discriminación en procura de una existencia digna para todos, especialmente para quienes han sido deliberadamente excluidos de “la mesa de la vida”.

Un mundo distinto es posible.

Y una iglesia distinta, también.


quinta-feira, 11 de outubro de 2012

O que resta do Vaticano II

Nesta semana, celebramos o Jubileu do Concílio Vaticano II. Hoje, 11 de outubro, especialmente, 50 anos do histórico discurso de abertura, em 1962, pelo Papa João XXIII.
Celebrando esta data, oferecemos aos amigos e amigas, uma reflexão do Pe. José Comblin, pouco antes de seu falecimento, no início de 2011.  

O que resta do Vaticano II

Atualmente, as reformas alcançadas pelo Vaticano II nos parecem muito tímidas e inadequadas pela sua insuficiência. Era preciso ter avançado muito mais, pois o mundo mudou mais nos últimos 50 anos que nos dois mil anos anteriores.
Do Vaticano II destacamos o seguinte, que deve permanecer como uma base para as reformas futuras:
- O retorno à Bíblia como referência permanente da vida eclesial, acima de todas as elaborações doutrinais posteriores, acima dos dogmas e das teologias.

- A afirmação do Povo de Deus como participante ativo na vida da Igreja, tanto no testemunho da fé como na organização da comunidade, com uma definição jurídica de direitos e com recursos nos casos de opressão por parte das autoridades.

- A afirmação da Igreja dos pobres.

- A afirmação da Igreja como serviço ao mundo e sem busca de poder.

- A afirmação de um ecumenismo de participação mais próxima entre Igrejas cristãs.

- A afirmação de um encontro entre todas as religiões ou pensamentos não religiosos.

- Uma reforma litúrgica que utilize símbolos e palavras compreensíveis aos homens e mulheres contemporâneos. As comissões formadas após o Vaticano II deixaram muitas palavras e símbolos totalmente sem significado para os cristãos de hoje e um obstáculo para a missão.

.....

É pouco provável que um Concílio que reúna unicamente bispos possa descobrir as respostas aos desafios do tempo atual. As respostas não virão da hierarquia, nem do clero, e sim de leigos que vivem o Evangelho em meio ao mundo que entendem. Por isso, temos que estimular a formação de grupos de leigos comprometidos ao mesmo tempo com o Evangelho e com a sociedade humana na qual trabalham.

 

(Pe. José Comblin, in Vaticano II: 50 anos depois, Revista Vida Pastoral, nov-dez 2012, n.287, pg. 9 e 10)

 

 

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Cinquenta anos carregados de recordações. O Congresso Continental de Teologia volta a ler a realidade à luz do Concílio Vaticano II [artigo]

09.10.12 - Mundo
José Guadalupe Sánchez Suárez
Centro de Estudios Ecuménicos / Observatorio Eclesial São Leopoldo
Adital
Tradução: ADITAL
O poeta uruguaio Eduardo Galeano nos lembra que "recordar” é mais do que rememorar; é voltar a passar, profundamente, pelo coração. Isso é o que está acontecendo no ainda jovem desenvolvimento do Congresso Continental de Teologia: 50 anos de caminhar eclesial, em um piscar de olhos, passaram pelos corações das/dos mais de setecentos congressistas, enchendo-os de gozos e esperanças, tanto quanto de angústias e tristezas, que moveram as igrejas católicas a abrir-se ao mundo naquela primavera no início dos anos sessenta; porém, também, foram as que, anos depois, provocaram no coração da igreja latino-americana o despertar de libertação frente à opressão e à injustiça; e, digamos, também as que hoje nos convocam por quatro dias, em São Leopoldo, Brasil; e urgem uma resposta das igrejas latino-americanas e caribenhas frente a um inesperado e catastrófico cenário mundial, onde a exclusão e a exploração da humanidade pela própria humanidade estão no ápice, levando-nos à beira de destruição global.
Após um dia do início do Congresso, há um alvoroço crescente entre os animados participantes. Ao calor primaveril do sul do continente, soma-se o calor humano da congregação, seu colorido, sua dinâmica. Definitivamente, esta não é uma igreja calada frente à violência sistêmica que nos assola. Entre a espada (do poder econômico mundial) e a parede (da instituição eclesiástica), levantou a voz para denunciar a voracidade dos poderosos e anunciar que outro mundo é possível, necessário e urgente. Com essa voz em aumento, diz que a teologia latino-americana continua viva, pois mais viva do que nunca está a pobreza e a necessidade de libertação; e para angústia das hierarquias vaticanas e latino-americanas, essas vozes do Congresso, como o barulho dos pássaros que nos despertam pela manhã, dizem também que não são de uma única teologia da libertação; mas, de muitas teologias que têm sido gestadas, reinventando frente à involução eclesial e à crise do mundo, nascendo das práticas de muitas mulheres e homens comprometidos com a justiça em nosso continente e no mundo. E agora congregaram-se muitas, apesar de que não estão presentes todas.
Vivida a primeira de quatro etapas programadas, a das interpelações e perguntas que o mundo atual faz às teologias da libertação, foram antecipadas importantes contribuições, múltiplas aproximações e leituras da realidade, certeiras interpretações das causas econômicas da débâcle mundial. Não havia acontecido ainda um encontro de tão ampla confluência e representatividade onde àqueles que viveram a experiência conciliar congregaram-se com os que lhe deram continuidade com criatividade na América Latina e com os que, atualmente, a mantêm viva. É alentador descobrir a presença de muitasõs jovens que a tantas décadas de distância, encontram-se contagiados pelas ideias conciliares e, melhor ainda, contagiam à teologia da libertação com novas forças, expressões, intenções. Exceto Gustavo Gutiérrez, Pilar Aquino e Ivone Gabara, ausentes por circunstâncias diversas, alheias a suas vontades, congregaram-se todas/os os considerados máximos representantes das teologias de libertação na América Latina: Leonardo Boff, Pedro Trigo, Jon Sobrino, Elsa Támez, Maria Clara Bingemer, Víctor Codina, Jung Mo Sung, Pablo Richard, Paulo Suess, Maricarmen Bracamontes, José Oscar Beozzo, Chico Whitaker, Carlos Mesters, Eleazar López, José María Vigil, João Batista Libanio… Bem como teólogos europeus e norte-americanos: Andrés Torres Queiruga, Juan Carlos Scanonne, Peter Phan, entre outros e outras, e mais que irão chegando e que convivem e intercambiam pensamento com as novas gerações de teólogos/as de hoje. É desse diálogo intergeneracional e intergênero que fecundam as teologias da libertação, abrem-se passo entre a gama de pensamentos sociais e científicos contemporâneos e pós-modernos e nos oferecem um colorido e inacabado tecido de propostas cristãs presentes no Congresso Continental de teologia e todo o continente latino-americano e caribenho. É cedo ainda para fazer uma avaliação desse importante acontecimento; porém, podemos dizer que o ânimo cresce, da mesma forma que as expectativas e o ambiente reflete igrejas vivas em meio ao desalento de muitas/os; definitivamente, em palavras de Pedro Trigo, é um momento de graça, kairós evangélico, signo de esperança para a práxis de libertação e para as teologias que dela nascem; oportunidade para que o mundo creia e a igreja não se esquive mais de seu compromisso por um mundo justo para tantas/os que, desde a mesma ou de diversas fés religiosas, ou sem elas, creem poder transformar o mundo (Andrés Torres Queiruga), realizar aqui e agora o outro mundo possível. Poderíamos afirmar sem equivocar-nos muito que o espírito ecumênico do Concílio Vaticano II está se derramando sobre a Assembleia, não só através da oração aberta e diversa de cada dia, mas, sobretudo, pela presença de diversas confissões cristãs, de movimentos e organizações sociais juntamente com sacerdotes, religiosas, leigas/os católicos; pela atitude de escuta, diálogo e abertura que se respira; também pela forma como enfrentamos o medo e nossas diferenças; e, no entanto, permanecemos juntas/os.
O terceiro dia do Congresso nos recebeu como uma espessa névoa que, longe de alimentar nossas incertezas, repara nossos corpos, refresca nossas mentes, nos coloca em alerta, pois falta ainda uma parte do caminho a percorrer; o melhor ainda está por vir para esse encontro, para nossas igrejas, para todas as pessoas de boa vontade.
Brasil, 9 de outubro de 2012.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Decadência da Igreja Católica?


04.10.12 - Mundo 
Eduardo Hoornaert

Padre casado, belga, com mais de 5O anos de Brasil, historiador e teólogo, mais de 20 livros publicados. Mora em Salvador. Dedica-se agora ao estudo das origens do cristianismo
Adital

2 de outubro de 2012

Ouve-se falar hoje, aqui e acolá, em decadência da igreja católica. Efetivamente, há sinais de que essa igreja não esteja mais conseguindo corresponder aos anseios dos tempos em que vivemos, algo que a médio ou longo prazo pode significar o fim do projeto formulado 1500 anos atrás por Agostinho em sua obra ‘A cidade de Deus’, que está na base da igreja católica tal qual a conhecemos hoje. O grande teólogo apresentou, no século V, um dilema: ou você vive e milita na ‘cidade de Deus’, ou pertence à 'massa damnata' marcada pelo 'pecado original'. O projeto funcionou por longos séculos e agora chega ao fim.

O historiador inglês Arnold Toynbee formulou uma lei da história que me parece interessante para a discussão. É a ‘lei do desafio e resposta’, exposta no final de seu livro monumental ‘Um Estudo de História’ (Martins Fontes, São Paulo, 1986). Depois de estudar o surgimento, apogeu e declínio de 21 civilizações, Toynbee conclui: todo projeto humano é formulado para responder a determinados desafios, o que faz com que seja necessariamente incompleto, provisório e passageiro. Nenhum projeto humano pode aspirar à eternidade. Ora, escreve Toynbee, o fato de o papado ter reagido negativamente aos esforços de Cavour para unificar a Itália (início século XIX) marca os primeiros sinais da passagem para a lenta decomposição do sistema católico. O papa deixa de pensar no mundo e pensa em preservar seus privilégios. Isso é fatal.

A questão, hoje, consiste em ver se há condições de reformar o modelo, tornando-o capaz de responder aos desafios do momento. Não se pode responder a tudo, há sempre deficiência, mas penso que a atual situação consiste numa inaptidão generalizada.

Comparemos a atitude do papa diante da unificação da Itália (início século XIX) com os rumos que a França tomou no final do século anterior. A revolução francesa constitui um exemplo paradigmático de um projeto que responde de forma apropriada aos anseios do tempo. Dai seu sucesso. Os povos querem ‘liberdade, igualdade e fraternidade’, e a revolução responde positivamente. Uma postura totalmente diferente é a do papa, que vai assumindo sempre mais posturas reacionárias.

Toynbee vê nessa recusa do papa o início da decadência do sistema católico. Por encarnar o poder supremo por tantos séculos, o papado não tem mais sensibilidade diante do que se passa na realidade e isso constitui um sinal de decadência. Seguindo o raciocínio de Toynbee, não se sabe o que pode acontecer com a igreja católica. É possível que ela mude totalmente de feições ou mesmo desapareça do cenário histórico. De qualquer modo, aqui não se trata de um drama. Os projetos passam, a história passa. Os projetos humanos são todos provisórios.

O sonho de Agostinho deu origem a um grande projeto, que moldou o Ocidente. Mas ficou na contramão do desejo de liberdade hoje se manifesta de mil maneiras. Os tempos mudam e isso é bom.

O importante consiste em apoiar as energias positivas que atuam dentro do catolicismo, da mesma forma em que se devem apoiar as forças vivas existentes no candomblé, na igreja universal do reino de Deus, no pentecostalismo e em todos os projetos que procuram trabalhar para melhorar a vida da humanidade.

Enquanto o papa se afasta da vida vivida e se recolhe em seu 'Apartamento' e enquanto o vaticano se vê enredado em escândalos, os cristãos conscientes não enxergam nada de trágico em tudo isso. Só os que gostam de montar uma tragédia grega de paixões pelo poder, intrigas, hipocrisias é que comentam o tempo todo esses noticiários.

Os mais conscientes preferem ocupar-se de outros assuntos. Eles pensam no real drama de nosso mundo de hoje. Hoje, o drama é outro, o desafio é outro. O que importa é que o cristianismo signifique algo para os 50% da população mundial que vive curvada sob pobreza e miséria. No planeta em que vivemos, 25 mil pessoas morrem por dia de inanição e 16 mil crianças de fome. 852 milhões de pessoas passam fome. As fortunas das três pessoas mais ricas do mundo é superior ao PIB de 48 países. Os 5 % mais ricos ganham 114 vezes mais que os 5 % mais pobres. As pessoas que dormem na rua, as 864 favelas do Rio, as 20 a 25 pessoas que morrem por dia de forma violenta, no Rio, e que nem merecem mais uma menção no noticiário. Isso dá vergonha, isso é o drama. Que entre as 20 cidades mais desiguais do mundo, 5 são brasileiras (Goiânia, Belo Horizonte, Fortaleza, Brasília e Curitiba), eis o que dá vergonha. Que mais de 10 milhões de brasileiros vivem com menos de 39 reais por mês e que a Globo nunca dá esses números, eis a vergonha, eis o apelo para o cristianismo. O drama é que 10% das pessoas que vivem neste país detêm 75% da riqueza que o país produz, que 5 mil famílias (1%) controlam 45% da riqueza do país.

http://www.adital.org.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=71018

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Congresso Continental de Teologia terá transmissão via internet

04.10.12 - América Latina
 
Adital
Começa no próximo domingo, dia 7, e segue até o dia 11 de outubro em São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, o Congresso Continental Teológico, evento de grande importância para a região que acontece no marco de dois momentos históricos para a Igreja: os 50 anos do Concílio Vaticano II e os 40 anos da publicação de Teologia da Libertação, de Gustavo Gutiérrez. O Congresso acontecerá nas instalações da Unisinos e poderá ser acompanhado, ao vivo, através da internet, pelo link: www.ustream.tv/channel/congresoteologicobrasil
Entre alguns dos objetivos estão reunir a comunidade teológica do continente em torno ao Vaticano II e à teologia latino-americana, para discernir os novos desafios de uma época marcada por profundas transformações e as consequentes tarefas para uma teologia como serviço à Igreja e à humanidade, em um mundo pluralista e globalizado.
Além disso, contribuir para que a teologia latino-americana continue sendo instância retroalimentadora das comunidades eclesiais inseridas no mundo em perspectiva libertadora, frente aos novos desafios oriundos de um mundo pluralista e globalizado.
Para quem não puder estar presencialmente ao Congresso, há a possibilidade de assistir as chamadas "grandes conferências” ao vivo, via internet, pois elas serão transmitidas, através de uma iniciativa do Observatório Eclesial do México.
Para isso, basta ir no link: www.ustream.tv/channel/congresoteologicobrasil
Abaixo, as conferências que irão ao ar (horário de Brasília).

7 de outubro – ABERTURA
16h30min – Centrando-se no Congresso: O Concílio Vaticano II e a Teologia da Libertação –Agenor Brighenti
17h00min – Conferência Inaugural: Um novo Congresso e um Congresso novo –Jon Sobrino eGeraldina Cespedes
8 de outubro – Novas interpelações
09h10min – Conferência de apertura: A situação sóciocultural, econômica e política no contexto mundial - Pedro Oliveira Ribeiro
11h – Painel: As Interpelações das Jornadas Teológicas Regionais - José Sánchez Sánchez e Socorro Martínez, Economia e Teologia - Jung Mo Sung
20h00min Conferência: Outro mundo possível e o contexto latino-americano -Francisco Whitaker
9 de outubro – Hermenêutica CRISTÃ
9h10min – Conferência: As Igrejas no Continente 50 anos depois: questões pendentes - Victor Codina
11h00 – Conferência: Teologia e novos paradigmas - Andres Torres Queiruga
20h00 – Conferência: A teologia Latino-Americana: Trajetória e Perspectivas -Gustavo Gutiérrez
10 de outubro – PRÁXIS e mística
09h10min – Conferência: O lugar e o papel da teologia nos processos de mudança do continente no contexto mundial -Leonardo Boff
11h00min – Painel: Mundialização, pluralismo religioso e teologia cristã - Peter C. Phan – Novos sujeitos e interculturalidade (Raúl Fornet)
11h00min – Painel: Obra e vida do Mestre Comblin - Luis Carlos Susin, Eduardo Hoornaert
20h00min – Conferência: Teologia americana e europeia: interpelações mútuas -Andres Torres Queiruga
11 de outubro – PERSPECTIVAS
09h10min Conferência: Novos desafios e tarefas para a teologia na América Latina e no Caribe hoje, a partir das contribuições do Congresso João Batista Libânio
11h00min – Painel: Teologia e Espiritualidade libertadora - Marilu Rojas– Extra pauperes nulla salus Carlos Mendoza-Álvarez
14h30min Síntese e projeções do Congresso
As informações são do site oficial do evento:

terça-feira, 2 de outubro de 2012

50 anos depois do Vaticano II. Indicações para uma semântica do mistério da Igreja, segundo José Maria Vigil


 José Maria Vigil, teólogo espanhol naturalizado nicaraguense e que vive atualmente no Panamá, proferirá a última conferência do XIII Simpósio Internacional IHU. Igreja, Cultura e Sociedade: a semântica do Mistério da Igreja no contexto das novas gramáticas da civilização tecnocientífica, que ocorrerá de 2 a 5 de outubro de 2012, na Unisinos (São Leopoldo).
A temática dessa conferência será O Concílio Vaticano II 50 anos depois: indicações para uma semântica do mistério da Igreja hoje. Esse evento fará a ponte entre o Simpósio e o Congresso Continental de Teologia, a ser realizado de 7 a 12 de outubro, também na Unisinos, e que terá como um dos temas centrais os 50 anos da inauguração do Concílio Vaticano II, celebrada pelo Papa João XXIII.
A reportagem é de Luís Carlos Dalla Rosa, doutor em teologia.

Vigil, que é padre claretiano, tem formação em Teologia pela Universidad Pontificia de Salamanca. Na Universidade de Santo Tomás de Roma, licenciou-se em Teologia Sistemática. Em Salamanca, Madri e Manágua estudou Psicologia. É doutor em educação pela Universidade La Salle de San José, Costa Rica. Dentre seus livros, destaca-se Teologia do pluralismo religioso. Para uma releitura pluralista do cristianismo (Paulus, 2006). Vigil é o responsável pela Comissão Teológica na América Latina da Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo (ASETT/EATWOT). Também colabora com o sítio Servicios Koinonía.

Em entrevista concedida à revista IHU On-Line, falando sobre sua própria experiência de acompanhamento do Concílio e suas novidades na Igreja, Vigil expressa: “posso dizer que o Concílio Vaticano II faz parte de minha vida pessoal, como um dos acontecimentos que mais profundamente a marcaram. Sou daquela geração que chegou à maioridade da fé com o próprio Concílio. Tivemos a fortuna de ser formados na experiência religiosa anterior, no tempo de Pio XII, quando éramos meninos e adolescentes… Ou seja, pudemos conhecer o cristianismo pré-conciliar, que é quase o mesmo cristianismo medieval... No Concílio, a Igreja mudou em sete anos mais que nos sete últimos séculos. Por isso, para nós, os convencidos da mudança epocal que o Concílio supunha, a sua implementação constituiu-se na nossa tarefa para toda a vida, a nossa vocação. Foi maravilhoso! O acompanhamento do pós-concílio tem sido diferente, doloroso com certeza, mas cheio de esperança. Porque, como disse Neruda, ‘poderão cortar todas as flores, mas não poderão deter a primavera’. Nem o inverno mais longo...”

No artigo O Concílio Vaticano II e sua recepção na América Latina, publicado na Revista Eclesiástica Brasileira (n. 262), Vigil compreende que a recepção do Concílio teve dois momentos: um primeiro pós-concílio que compreende o período de 1965 a 1980, no qual as decisões conciliares foram recepcionadas de forma fiel e criativa, sobretudo na Igreja latino-americana; e um segundo pós-concilio, que se inicia em 1980 e prossegue até hoje, em que há uma ‘involução vaticana e mundial’ e que tem repercussão também na América Latina.

O teólogo entende que as dificuldades que impediram o avanço das decisões conciliares têm origem nos próprios setores conservadores da Cúria vaticana que estiveram presentes no tempo de Paulo VI e que, a partir do papado de João Paulo II, fortaleceram-se. Vigil afirma à IHU On-Line que “os historiadores deverão dizê-lo, mas eu acho que, ao menos em relação dos grandes concílios da Igreja, não houve na história um outro caso de concílio que fosse desfeito pela própria Igreja. Foi o Concílio que suscitou maior e mais entusiasta aceitação da parte do Povo de Deus, e também a maior resistência do próprio povo ao movimento de ‘restauração’, implementado pela hierarquia contra ele. Isso tudo já é história, religiosa e civil, pública e conhecida até pela sociedade civil”.

Tendo presente o atual momento da história da Igreja, Vigil defende que é necessário retomar o Concílio, pois ele “está na fé e no coração de toda uma geração que não pode voltar atrás. O Concílio não foi um livro, nem uma teologia, nem algumas ideias… Foi uma mudança epocal, foi um novo paradigma, uma nova forma de crer, não impulsionada por alguns teólogos ou bispos, mas por um novo Pentecostes… Isso não é reversível. O Concílio, então, está aí: reprimido, esquecido, marginalizado por muitas autoridades, mas está aí nos corações e na fé do povo e de infinidade de agentes de pastoral. Muita hierarquia não quer ver, nem escutar; olha para outro lugar. É uma situação de esquizofrenia na Igreja, que só será superada quando se voltar a reconhecer e acolher o que o Espírito fez pela Igreja no Concílio”.

Defendendo a retomada do Vaticano II, Vigil entende que não há necessidade imediata de um novo concílio. Isso não seria possível, nem conveniente, pois “essa situação de esquizofrenia [na Igreja] continua, e não é um ambiente sadio para fazer um concílio. Sobretudo porque, durante o último quarto de século, os bispos católicos foram eleitos confessadamente conservadores, reservando a representação e o governo da Igreja a só uma mentalidade, excluindo precisamente os cristãos mais representativos do espírito conciliar”.

Desse modo, a partir de um olhar crítico e, ao mesmo tempo, esperançoso, Vigil analisa as possibilidades da Igreja na perspectiva do Concílio Vaticano II, evento eclesial que celebra, em 2012, 50 anos de abertura.
30 de junho de 2012
http://www.ihu.unisinos.br/noticias/511014-o-concilio-vaticano-ii-50-anos-depois-e-as-indicacoes-para-uma-semantica-do-misterio-da-igreja-uma-analise-a-partir-jose-maria-vigil