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quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Dom Helder Camara e o Concílio Vaticano II

José Oscar Beozzo

Adital


INTRODUÇÃO

O Concílio Vaticano II (1962-1965), desde seu anúncio pelo Papa João XXIII, a 25 de janeiro de 1959, provocou profundo entusiasmo em Dom Helder Camara (1), acendendo em sua mente, incontáveis sonhos e projetos acerca de uma igreja mais evangélica e ecumênica, mais próxima dos pobres, empenhada no desenvolvimento dos povos e na sua mútua compreensão, capaz de propiciar um diálogo entre o norte e o sul do mundo, de colaborar na promoção da paz e da cooperação internacional, interlocutora dos meios de comunicação social e da cultura moderna.

O entusiasmo inicial foi porém mitigado pelas inumeráveis dificuldades do período preparatório, pelo pesado manto de segredo oficial que cobriu os trabalhos desta fase, fazendo com que os próprios bispos se sentissem à margem de tudo, até às vésperas do grande evento.

Dom Helder, como consultor da Comissão dos Bispos e Governo das Dioceses foi um dos sete bispos, entre os dez brasileiros (2), que tomaram parte numa das dez comissões preparatórias ou num dos quatro Secretariados do Concílio, criados em 5 de junho de 1960. Mas mesmo estes bispos estavam escassamente informados, pois desconheciam o andamento das outras comissões que trabalhavam paralelamente umas às outras, sem comunicação entre si, e encaminhando seus resultados apenas para a Comissão Central.

Dom Helder, às vésperas do Concílio, está inquieto e confia ao fiel amigo Manoelito, Dom Manuel Larrain, bispo de Talca no Chile, suas apreensões e mesmo desalento:

“Vejo o Concílio aproximar-se. Até hoje, nem sequer o Temário nos chegou. Humanamente, não há muito como esperar [...] Mesmo assim, irei ao Concílio. Será a suprema oportunidade, porque o Santo Padre nos mandou falar como Bispos. Na medida em que o pudermos fazer, faremos. De julho para cá, a situação só tem piorado. O Temário do Concílio, até hoje não chegou ao Brasil”. (3)

1. DOM HELDER, ATOR CONCILIAR

Uma vez em Roma, a alocução do Papa João XXIII de abertura ao Concílio, a Gaudet Mater Ecclesia – Alegra-se a Mãe Igreja, na manhã do dia 11 de outubro de 1962, devolveu-lhe novamente a esperança e o entusiasmo.

Dois dias depois, em sua primeira Congregação Geral, a 13 de outubro, os trabalhos conciliares apenas iniciados, foram suspensos dez minutos depois, por intervenção do Cardeal Achille Liénart, secundado pelo Cardeal J. Frings, arcebispo de Colônia na Alemanha, falando igualmente em nome do Cardeal Julius Döpfner de Munique e do Cardeal Franz König de Viena, na Aústria, que se recusavam a votar a lista dos integrantes das Comissões conciliares, sem uma consulta prévia entre os membros do Concílio (4). Diante da perplexidade geral, o Secretário do Concílio, o Arcebispo Pericle Felici consultou o Conselho de Presidência e o Cardeal Eugène Tisserrant que presidia a sessão suspendeu os trabalhos por quatro dias.

A imprensa captou a transcendência desse gesto da Assembléia que aplaudiu as intervenções, deixando transparecer nos títulos das manchetes sua interpretação do evento: “Terminou o predomínio da Cúria Romana”; “A Rebelião dos Bispos”; “A Ala Renovadora impõe uma Lista Internacional”; “Os Bispos europeus rejeitam os candidatos de Ottaviani”; “Luta feroz entre duas tendências” e assim por diante (5). De fato, saia de cena a Cúria Romana, cujos prefeitos haviam presidido cada uma das Comissões Preparatórias do Concílio e ocupavam o cenário novos atores, os episcopados recém-chegados a Roma e, de modo particular, as Conferências Episcopais e o único organismo de caráter continental em toda a Igreja, o Conselho Episcopal Latino-americano, o CELAM.

Dom Helder, secretário da Conferência Episcopal brasileira, a CNBB e vice-presidente do CELAM, lançou-se, de corpo e alma, junto com Dom Manoel Larrain, seu colega na vice-presidência do CELAM, nos esforço de articulação com as demais conferências episcopais, para comporem a nova lista de nomes para as Comissões Conciliares, em substituição às Comissões da fase preparatória que a Secretaria Geral do Concílio, queria ver transformadas nas Comissões permanentes do próprio Concílio. Isto perpetuaria o controle que a Cúria Romana havia exercido sobre toda a etapa de preparação do Concilio.

Começava ali a singular aventura do “Dom”, como era carinhosamente chamado pelos amigos, durante os quatro anos do Concílio Vaticano II (1962 a 1965) que o transformariam, do relativamente pouco conhecido arcebispo auxiliar do Rio de Janeiro, num dos personagens mais influentes na cena internacional da igreja contemporânea.

2. DOM HELDER, UM DOS ARTICULADORES DO CONCÍLIO E O REGISTRO DE SUA AÇÃO NUM SINGULAR “DIÁRIO”: AS CARTAS CONCILIARES

Do Concílio, legou-nos Dom Helder, uma espécie de diário íntimo, consignado em 297 cartas escritas, quase diariamente, durante as quatro sessões do Concílio e durante a intersessão de 1963/64.

Destas, sete que foram escritas durante a primeira sessão conciliar em 1962, encontram-se perdidas. Os originais das demais estão depositados atualmente na Fundação “Obras de Frei Francisco”, no Recife.

Estas cartas foram dirigidas a um pequeno grupo de colaboradores e principalmente colaboradoras do Rio de Janeiro e depois do Recife, que Dom Helder chama de “família do São Joaquim” (6), “família de Messejana (7)” ou ainda “família messejanense e olindo-recifense (8)”. O Concílio Vaticano II foi, para Dom Helder, a ocasião para ingressar numa série de articulações internacionais e grupos de trabalho, muitos das quais por ele sugeridos e animados, ganhando a partir daí uma plataforma de ação de raio cada vez mais amplo. (9).

Dom Helder não chegou porém ao Concílio de mãos vazias. Sua atuação como Assistente Nacional da Ação Católica Brasileira e de todos os seus ramos especializados, colocara-o em contato estreito com o laicato, dera-lhe uma visão geral do Brasil e de sua igreja, com seus valores e problemas, por vezes, dramáticos; o havia inserido na rede latino-americano e internacional estabelecida pela Ação Católica. Esta o levaria, como assistente eclesiástico da delegação brasileira de leigos da Ação Católica, à sua primeira viagem a Roma, durante o Ano Santo de 1950, por ocasião do I Congresso Internacional dos Leigos.

Ali, encontrara-se com o Papa Pio XII que o encaminhara ao seu sub-secretário de Estado, Mons. Giovanni Baptista Montini, o futuro Papa Paulo VI, a quem submeteu, nesta e na viagem seguinte, em 1951, sua proposta de criação de uma Conferência Nacional dos Bispos do Brasil.

Nasceu entre esses dois homens de Igreja, mútua confiança e amizade que possibilitarão a Dom Helder dirigir-se, muitas vezes, durante o Concílio, diretamente ao Cardeal Montini e depois ao Papa Paulo VI, confiando-lhe sugestões e expondo-lhe temores e esperanças.

Veio Dom Helder ao Concílio, não como um bispo isolado, mas como secretário geral, há exatos dez anos (1952-1962) da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, a terceira conferência mais numerosa do mundo todo, só suplantada pela italiana e a norte-americana.

Chegava também no quadro do único continente que contava com um organismo de articulação, a América Latina onde, desde 1955, fora fundado o CELAM, Conselho Episcopal Latino-americano, do qual Dom Helder era um dos dois vice-presidentes, sendo o outro Dom Manuel Larraín do Chile. Este será eleito, logo no ano seguinte, seu presidente (1963-1966). Dom Helder tinha profunda consciência de que a CNBB e o CELAM eram suas “plataformas” de ação e articulação, como deixa claramente consignado em carta de 1963, ao ser eleito Dom Larrain, presidente do CELAM e, ele mesmo, reconduzido à primeira vice-presidência (1963-1965):

“Houve eleição no CELAM. A América Latina inteira quis como presidente o querido Manoelito (Mons. Larraín) e elegeu o Dom (10) para 1 º Vice. Há o consolo de ver que a dupla fraterna não está sem cobertura. A posse, se Deus quiser, será amanhã, na presença do Cardeal Confalonieri e de Mons. Samoré... Telegrafamos ao Santo Padre comunicando a eleição e pedindo a benção... A eleição facilita o trabalho do Ecumênico. Se eu saísse da CNBB e do CELAM (é claro que eu já aceitara a oferenda), em rigor perderia a base para atuar nas reuniões de 6 ª feira [as reuniões do Ecumênico]”. (11).

Da sua formação no Seminário da Prainha, em Fortaleza, havia herdado o domínio da língua francesa transmitida pelos padres lazaristas franceses, além do conhecimento do latim, instrumentos que, durante o Concílio, lhe foram essenciais, junto com o inglês meio periclitante, para seus contatos com os outros padres conciliares, mas também com jornalistas e a televisão.

A imediata cooperação nascida entre Dom Helder e o Pe. Miguel (pseudônimo em suas cartas conciliares, para Leo Joseph Suenens, o cardeal arcebispo de Malinas-Bruxelas, membro da Comissão de Assuntos Extraordinários na primeira sessão conciliar, da Comissão de Coordenação criada ao final da primeira sessão, um dos quatro moderadores que passaram a presidir as Congregações Gerais, a partir do início da segunda sessão e, certamente, um dos mais influentes padres conciliares), assim como com o secretário do Episcopado francês, Roger Etchegaray, permitiram a Dom Helder fazer parte do grupo seleto dos que podiam exercer alguma influência sobre a imensa e heterogênea massa dos padres conciliares.

3. UMA ATUAÇÃO CONCERTADA VIA GRUPOS INFORMAIS:
O “ECUMÊNICO”, “A IGREJA DOS POBRES”, O “OPUS ANGELI”.

Gostaria de destacar, finalmente, alguns dos grupos dos quais participou Dom Helder, ampliando seu raio de ação e influência durante o Concílio.

3.1. O ECUMÊNICO

À raiz da bem sucedida experiência da primeira semana no Concilio, para a constituição da lista de nomes para as comissões conciliares, surgiu a idéia da formação de um grupo de trabalho informal que reunisse representantes das principais conferências episcopais, com vistas a intercambiarem informações e pontos de vista, estabelecer uma coordenação entre si, a proporem iniciativas e a agilizarem o próprio andamento do Concílio. A iniciativa ficou conhecida como “Grupo da Domus Mariae” (12), do nome do local, onde se reuniam os bispos; “Grupo da Terça-feira”, mesmo que, posteriormente, suas reuniões acontecessem na Sexta-feira; “Interconferência” devido ao fato de congregarem representantes de conferências nacionais ou regionais (África, Ásia e América Latina); “Grupo dos 22”, do número inicial das conferências, embora estas já fossem cerca de 30 na quarta sessão (1965) e ainda o “ECUMÊNICO”, como gostava de chamá-lo Dom Helder.

Na pesquisa de Caporale, um jornalista norte-americano que tenta levantar, durante a segunda sessão (1963), as figuras mais influentes do Concílio, Dom Helder surge no grupo das dezoito personalidades de proa e o grupo da Domus Mariae, como o mais significativo:

“[...] pudemos identificar quatro grupos informais de bispos que se encontram regularmente em diversos lugares [...] De longe, o mais importante e eclético destes grupos informais foi o organizado pelos bispos brasileiros na Domus Mariae... entre os animadores deste grupo que se reunia regularmente, cada sexta-feira, estava o arcebispo Helder Câmara”. (13).

Neste intercâmbio entre conferências episcopais, Dom Helder carregava uma preocupação mais entranhada, a de abrir espaço para um verdadeiro diálogo e cooperação entre o norte e o sul do mundo, entre desenvolvidos e subdesenvolvidos. Para isto, moveu céus e terras, primeiro para atrair os episcopados da África e da Ásia e depois para conseguir espaços institucionais para a temática do terceiro mundo como no caso do seu apelo insistente ao Cardeal Suenens para que ajudasse a patrocinar a criação, junto à Comissão de Assuntos Extraordinários do Concílio, de um “Secretariado especial para as questões da Pobreza e do Terceiro Mundo”. (14).

Não esconde seu entusiasmo, depois da conferência que convocara para o “diálogo dos dois mundos”:

“19:30 do dia 29 (29-11-1962). Houve o início do diálogo entre os Dois Mundos. Foi emocionante. Ali, estava na presidência, o sucessor e Mercier (15), que se mostrou absolutamente à altura da missão que a Providência lhe confia... Ali estava um resumo altamente representativo do Mundo sub-desenvolvido e do Mundo desenvolvido. O Pe. Houtart (16) correspondeu de todo às nossas esperanças. Abri o diálogo de que participaram interessadíssimos os dois Mundos. Mas grande mesmo foi Suenens ao encerrar o encontro. Disse verdades fortes e de maneira admirável.” (17).

3.2. A IGREJA DOS POBRES

O outro grupo que ajudou a criar, ao qual foi fiel até o fim e onde se sentia espiritual e humanamente em casa, foi o da “IGREJA DOS POBRES”. Na primeira sessão de 1962, havia juntamente com ele, outros oito brasileiros que se converteriam em 16 na terceira sessão, num total de 86 padres conciliares. Estava inspirado no itinerário de Paul Gauthier que escrevera, a partir de sua experiência de operário em Nazaré, o livro “Jesus, a Igreja e os Pobres”. Acompanhava-o Marie-Therèse Lescase, religiosa carmelita egressa que fora igualmente viver pobremente em Nazaré. Gauthier conseguiu sensibilizar um grupo importante de bispos e peritos, entre os quais o Pe. Yves Congar O.P. que escrevera um texto provocativo e profundo como proposta eclesial: “Pour une Église servante et pauvre”, “Por uma Igreja servidora e pobre”. Ao grupo, juntaram-se bispos que estavam próximos da espiritualidade dos Irmãos e Irmãzinhas de Charles de Foucauld, dos padres operários, da Missão da França e bispos que vinham do terceiro mundo, angustiados com a miséria das grandes maiorias e preocupados em encontrar saídas para sua pobreza e desamparo.

Dom Antônio Fragoso, bispo emérito de Crateús, deixou-nos um depoimento sobre o grupo que se reunia no Colégio Belga:

“O grupo começou na primeira sessão. Tínhamos como secretários Paul Gauthier e Marie-Therèse Lescase. O tema era a Igreja e os Pobres, começando pela identidade entre Jesus e os pobres. Lembro-me do argumento central: quando afirmamos a identidade entre Jesus e o pão consagrado: ‘isto é meu corpo’, nós [o] adoramos e tiramos conseqüências para nossa espiritualidade, liturgia e tudo o mais. Quando [se] afirma a identidade entre ele e os que não tem pão, casa, nós não tiramos as conseqüências para a espiritualidade, liturgia, ação pastoral. Lembro-me de que, na sessão final, fomos celebrar, numa das Catacumbas, a eucaristia final. Assinamos um compromisso nosso com os pobres: dar uma atenção prioritária aos pobres (não ter dinheiro em banco, patrimônio), e este compromisso chegou a ser assinado por 500 bispos”.

Mas o mesmo Dom Fragoso constatava com uma ponta de tristeza:

“[O Concílio] permitiu-me descobrir que os pobres não estavam no coração e no horizonte dos bispos. Por isto, o Concílio não deu maior atenção ao tema. O Concílio permitiu-me sair daquele pessimismo sobre a natureza e dar-me alegria, mas não o vi se reconciliando com os pobres”. (18).

Pode-se reconhecer que o grupo não alcançou o que esperava institucionalmente do Concílio, mas teve uma profunda repercussão espiritual e profética, espelhada no Pacto das Catacumbas, onde estão arrolados os compromissos que assumiam os seus signatários, na sua vida quotidiana e no seu trabalho pastoral, em relação aos pobres e a uma vida pessoal de pobreza. (19).

Com Helder, consciente de que o Concílio não respondera, nem mesmo com a Gaudium et Spes, às necessidades e expectativas do Terceiro Mundo, arrancara de Paulo VI, a promessa de uma encíclica que tratasse do “desenvolvimento dos povos”, que se concretizou na divulgação da Populorum Progressio, em 1967.

Consciente também de que o sonho de João XXIII de uma “Igreja dos Pobres” não conseguira empolgar o Concílio, lutará para que, na América Latina, esta se tornasse a questão eclesial mais importante. De fato, em 1968, na II Conferência Geral do Episcopado Latino-americano, o documento 14, consagrado à eclesiologia, terá como título e conteúdo “Pobreza na Igreja”. (20).

3.3. O OPUS ANGELI

Outro feito decisivo de D. Helder Camara no Concílio foi conseguir que os melhores teólogos e peritos ali presentes começassem a trabalhar em conjunto e em estreita colaboração com os bispos reunidos no “Ecumênico” e na “Igreja dos Pobres”. Esse mesmo grupo de teólogos prestou inestimável serviço aos bispos do Brasil, por meio das conferências da Domus Mariae, que na soma das três últimas sessões alcançaram o respeitável número de 84, às quais devem ser acrescentadas outras dez da primeira sessão (21). A essa força tarefa, já esboçada entre Dom Helder, Larrain e o Pe. François Houtart (22) de Lovaina na Bélgica, que desempenhou o papel de seu secretário, foi dado o nome de “OPUS ANGELI”, a Obra dos Anjos. Esta trabalhou durante as sessões, mas também nas inter-sessões, no sentido de oferecer textos alternativos aos esquemas provindos da etapa preparatória do Concílio, de preparar intervenções para serem lidas na aula conciliar, de assessorar os bispos nas questões mais complexas, de elaborar “modos” substitutivos para determinadas passagens dos esquemas submetidos a votação. Um dos teólogos mais importantes deste século, o Pe. Yves Congar e que colaborou estreitamente com Dom Helder e com os grupos por ele animados, tornando-se um pouco o coordenador do “Opus Angeli”, percebeu logo no primeiro encontro entre ambos, a importância de Dom Helder e de sua liderança que aportava ao Concílio algo mais que faltava aos outros: uma “visão”, no sentido do visionário, daquele que enxerga longe e com largueza de vistas. Congar anota no seu diário a 21 de outubro de 1962:

“Puis arrive Helder Câmara, secretaire du CELAM (23). C’est extraordinaire: aujourd’hui même, à midi, ils ont parlé de moi et ont dit qu’il faudrait me faire venir. Après avoir bavardé un bon moment, nous allons dans une salle, où se réunissent avec nous une douzaine de jeunes évêques. Ils m’interrogent. Mgr. Helder même: un homme non seulement très ouvert, mas plein d’idées, d’imagination et d’enthousiasme. Il a ce qui manque à Rome: la ‘vision’ (24).

Dias depois, em circular à sua “família” de colaboradores no Rio de Janeiro, Dom Helder comentando sobre as pessoas que mais o haviam impressionado como homens de Deus em Roma, chega ao teólogo dominicano:

“- o Pe. Yves Congar, cuja visão da Igreja, cujo ecumenismo, cuja caridade e cuja cultura extraordinária, brilham ainda mais pela humildade que ele encarna.” (25).

4. AULA CONCILIAR x TRIBUNA DOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO SOCIAL

Dom Helder, finalmente, alcançara um agudo senso de que mais do que as palavras e documentos, o que realmente chegava às pessoas e as tocava, eram determinados gestos e símbolos e que era pelas imagens que se fixava no povo o sentido do Concílio.

Estava sempre em busca destes gestos que pudessem causar impacto. Ao Papa João XXIII, havia proposto uma celebração final que abandonasse o fasto barroco da Roma pontifícia e primasse pela simplicidade e profundidade dos gestos. Repete a mesma proposta ao Papa Paulo VI e exulta quando alguns destes sinais são por ele incorporados à celebração de encerramento do Concílio.

Possuía clara consciência de que o Concílio operava em várias plataformas distintas:

- os debates durante as Congregações Gerais e, para tanto, empenhava-se, via Ecumênico, Igreja dos Pobres, CNBB, CELAM, que chegassem à Aula Conciliar intervenções vigorosas e norteadoras para os trabalhos conciliares, de preferência intervenções coletivas e que apontavam para um amplo consenso prévio;
- nas Comissões de Trabalho onde os textos eram elaborados, refeitos e limados para serem submetidos à votação e foi ali operoso, dando sua contribuição sucessivamente nas Comissões dos Bispos e Governo das Dioceses, na do Apostolado dos Leigos e na do Esquema XIII, convertido na Gaudium et Spes;
- na conversão dos corações e das mentes e, neste particular, cuidou para que o episcopado, tanto brasileiro como o latino-americano, estivessem em contato com as correntes espirituais e teológicas que moviam o Concílio. O melhor exemplo deste empenho foram as Conferências da Domus Mariae, em número de 94, ao longo das quatro sessões conciliares, promovidas pelo Episcopado brasileiro e o ciclo de conferências organizado pelo CELAM, embora em menor número e sem o caráter sistemático e a mesma repercussão alcançada pelas da Domus Mariae (26).

Ainda que não tenha falado nenhuma vez na Aula Conciliar, Dom Helder preparou algumas intervenções notáveis depositadas por escrito na Secretaria Geral. Nelas transparece claramente sua preocupação com os rumos do Concílio, com seu método de trabalho. Deixa patente em todas elas sua visão de caráter mais abrangente e estratégico frente aos grandes problemas contemporâneos e às responsabilidades e missão da Igreja (27).

4.1. O “VOTUM” E AS INTERVENÇÕES POR ESCRITO DE DOM HELDER

Logo que o Secretário de Estado, Cardeal Domenico Tardini, escreveu a 18 de junho de 1959, em nome de João XXIII, a todos os bispos e prelados do orbe católico, solicitando suas sugestões para a agenda conciliar, Helder Camara aprestou-se a enviar sua resposta, com data de 15 de agosto de 1959 (28).

Trata-se de um texto conciso de duas páginas e meia, mas que difere extraordinariamente do estilo de respostas enviadas pela maioria do episcopado mundial.

Em primeiro lugar, Dom Helder expressa-se com liberdade e ousadia, propondo logo de início que o latim não seja a única língua do Concílio, pois fora do círculo estreito da Cúria e das Universidades Romanas o idioma de Virgílio não era mais de uso corrente. Afirma que dentre os bispos do Brasil apenas uns 5% seriam capazes de se expressar com fluência, oralmente ou por escrito, em latim e que o panorama não deveria ser muito diverso em outras partes do mundo.

Inquieta-se com a mole imensa de propostas que certamente chegariam às mãos dos encarregados da preparação do Concílio e com um bom método para navegar neste grande mar de temas e problemas. Adianta a sugestão de que várias comissões se ocupassem dos distintos problemas e sob o título de “Por uma situação mais feliz do mundo”, propõe que a matéria conciliar fosse agrupada em seis grandes áreas: economia, artes (belas artes), ciências, política, questões sociais e, finalmente, religiosas.

Sua preocupação maior entretanto é com o enfoque das questões. Para ele, o que deve presidir a reflexão e a ação dos padres conciliares é a situação dos povos e pessoas menos cultos, refletindo a mesma preocupação do bispo Agostinho, quando escrevia o seu De cathechisandibus rudibus.

Enquanto muitos falam do conflito entre as grandes potências do Oriente e do Ocidente no quadro da guerra fria, Dom Helder propõe que o Concílio volte sua atenção para os 2/3 da humanidade que estão submersos na fome e na miséria. Pergunta-se qual a força que poderia vir em socorro desta humanidade sofredora e desamparada: o cristianismo ou o comunismo? Pensa que na América Latina, a Igreja, por intermédio do CELAM, poderia ter uma atuação mais eficaz do que a própria Operação Pan-americana proposta pelos chefes de Estado do continente, para ir de encontro aos seus problemas. Propõe que as igrejas situadas nos países mais ricos do hemisfério (Canadá e Estados Unidos) se empenhassem numa ação conjunta com os demais países da América e do Caribe para superar a grave situação do continente. Pensa, entretanto, que a mesma preocupação devia estender-se aos povos empobrecidos da Ásia e da África, pelas mesmas razões positivas que levaram a Igreja, no passado, a se dirigir aos pagãos e aos bárbaros, e não simplesmente para se opor ao comunismo.

Por conta de suas funções no CELAM expressa ainda o seu compromisso de dedicar-se, de corpo e alma, para melhorar situação de todos os povos da América Latina e do Caribe, compreendidos dentro do raio de ação do Conselho.

Esse respiro amplo, que ultrapassa os limites da Arquidiocese do Rio de Janeiro, onde era arcebispo auxiliar (1952-1964), ou da Arquidiocese de Olinda e Recife da qual se tornou arcebispo em 1964; os limites do Brasil de cuja conferência episcopal era o secretário geral; os limites da América Latina, de cujo principal organismo eclesial, o CELAM, era um dos vice-presidentes, dilata-se em direção às outras regiões do Terceiro Mundo e à humanidade em seu todo. O seu votum já anuncia, em estado nascente, mas com firme convicção, o norte que guiará a sua atuação no Concílio, o da mesma paixão que animava o apóstolo Paulo, a sollicitudo omnium ecclesiaram, a “solicitude por todas as Igrejas”.

Dentre as dez intervenções por escrito de Dom Helder, selecionamos algumas que estão voltadas para os rumos gerais do Concílio.

Em 21 de novembro de 1962, quando chegava ao fim o I período conciliar e que a Assembléia buscava afanosamente definir a pauta dos trabalhos e encontrar um eixo orientador para o Concílio, Dom Helder, soma-se a outros doze bispos da Europa, Oriente Médio, África, Ásia e América Latina (29), para solicitar a João XXIII que, imediatamente depois da discussão sobre a Igreja, Lumen Gentium, o Concílio se voltasse para as grandes questões que afligem a humanidade e que poderiam ser agrupadas em quatro vertentes principais:

a) Problemas relativos ao exercício da justiça e da caridade fraterna, tanto pessoal quanto social, principalmente em relação aos povos em vias de desenvolvimento. Os subscritores evocam a preocupação de João XXIII, expressa na sua alocução radiofônica pronunciada um mês antes da abertura do Concílio: “La Chiesa se presenta quale è, e vuole essere, come la Chiesa di tutti, e particularmente la Chiesa dei poveri” (30).
b) Problemas relativos à paz e à união de todos os povos que formam a grande família humana, insistindo não só na superação dos conflitos armados, mas nas exigências positivas da paz (31).
c) Evangelização dos pobres e dos que se encontram longe da Igreja (32).
d) Exigências de renovação evangélica tanto nos pastores como nos fieis da Igreja, com especial atenção aos conselhos evangélicos e à pobreza que não pode limitar-se a palavras e discursos (33).

Os subscritores pedem finalmente que seja constituída uma Comissão ou Secretariado especial para lidar com essas questões, ainda antes do fim da primeira sessão conciliar, como sinal de que a Igreja está firmemente comprometida a enfrentar, de maneira séria e eficaz, os problemas do mundo moderno, empenhando-se em sua superação (34). Este Secretariado não foi criado naquele momento, mas logo depois do Concílio, Paulo VI instituiu a Pontifícia Comissão Justiça e Paz, voltada toda ela para cumprir os objetivos esboçados na proposta de Dom Helder em 1962.

Trata-se a nosso ver da primeira iniciativa concreta que irá desembocar na elaboração do esquema XVII, convertido em esquema XIII e por fim na Constituição Pastoral Gaudium et Spes e no seu posterior complemento, a encíclica Populorum Progressio de Paulo VI.

Outra intervenção, encabeçada por Dom Helder Câmara, redigida em francês e subscrita por representantes de 23 conferências episcopais, pede ao Papa Paulo VI que, tendo em conta a crucial relevância do esquema sobre a “Igreja no Mundo de Hoje” e a dificuldade em aprofunda-lo no decorrer do exíguo tempo que restava da III sessão conciliar, previsse um novo período conciliar para o ano seguinte, em 1965 (35).

Numa intervenção semelhante redigida em inglês, provavelmente no mesmo dia e subscrita por praticamente os mesmos bispos, pede-se que o Concílio centre sua atenção nos problemas da pobreza no mundo e empenhe-se na formação da consciência dos cristãos nos países mais ricos. Pede-se ademais que seja um leigo, perito no tema, que exponha aos bispos, na Aula Conciliar, o estado da questão do mundo; que se forme uma comissão de especialistas que delineie o tipo de instituições, as formas de cooperação, de contatos e de políticas que a Igreja pode adotar para assegurar sua plena participação num ataque em escala mundial para a erradicação da pobreza (36).

4.2. ATUAÇÃO VOLTADA PARA A OPINIÃO PÚBLICA

Se Dom Helder empenhou-se com todas suas forças para atuar em todas as instâncias da máquina conciliar, tinha por outro lado clareza, de que o Concílio que chegava realmente à opinião pública, era aquele filtrado pelos jornalistas e transmitido ao mundo, a cada dia, pela imprensa escrita, falada e televisiva.

Por isso, o mesmo Dom Helder, que se aplicava a articular a ação dos bispos e peritos, a coordenar as conferências episcopais, mas que nunca interveio na Aula Conciliar, era pródigo em atender à solicitação dos jornalistas para entrevistas, programas de televisão e conferências de imprensa. Via a imprensa não apenas como instrumento para transmitir, de modo compreensível, o que se passava no Concílio, mas igualmente como veículo para lançar novas idéias e para exercer indiretamente pressão sobre a Assembléia Conciliar, fazendo chegar recados às mais altas autoridades da Igreja, interpelando intelectuais e governantes, entusiasmando jovens e formadores de opinião. Preparava acuradamente suas conferências e sermões, submetendo o rascunho de suas idéias e intuições à família Messejanense, a peritos do Concílio, a técnicos e economistas amigos e mesmo à Secretaria de Estado e até mesmo ao Papa, quando abordava temas delicados.

Valha como exemplo dessa complexa avaliação que Dom Helder fazia do papel dos meios de comunicação e da importância da opinião pública, o que escreve, logo depois de uma sua concorridíssima conferência em Roma sobre “Perspectivas de novas estruturas na Igreja”, com o auditório cheio de teólogos e dos observadores não católicos:

“Em que dará minha palestra? Haverá forte reação da extrema direita? A Cúria Romana reagirá?

Que pensará a respeito o Santo Padre?

Agi tranqüilamente. Deus sabe que, nem por sombra, se trata da vaidade de ter intuições, de pensar que sou mesmo profeta.

Agi e agirei e agiria:

- por estar convicto de que meu papel no Concílio é o de agir no Ecumênico e de falar extra-Basílica (talvez, um dia, também falarei na Basílica);
- pela necessidade de ajudar o Santo Padre (um risco e uma loucura como os de ontem, com repercussão na imprensa, em última análise, ajudam o Papa);
- pela necessidade de encorajar os Peritos, os observadores e a imprensa;
- pela necessidade de ajudar toda a geração de amanhã (jovens clérigos e leigos, ansiosos por ver a super-prudência contrabalançada por uma ponta de audácia);
- pela convicção de ter recebido o sopro de Deus, através de José (37)...” (38)

O falar franco e direto, crítico e esperançoso de Dom Helder encantava os jornalistas que o assediavam para entrevistas e reportagens.

Sua grande tribuna no Concílio, não foi a Aula Conciliar na Basílica de São Pedro, mas sim a imprensa de uma parte e, de outra, o incansável esforço de articulação cumprido por meio da CNBB, do CELAM, do Opus Angeli, do Ecumênico, do Grupo da Igreja dos Pobres, da rede de amigos e colaboradores que soube conquistar para suas causas, a dos pobres e a da Igreja servidora dos pobres, aliado ao trabalho escondido nos bastidores, por intermédio de encontros pessoais, cartas, circulares.

Para todo este imenso trabalho, valia-se sempre da oração contemplativa e do fiel grupo de amigas e amigos, provindos de seu tempo de Ação Católica que, no Rio de Janeiro, no Recife e em outras partes do mundo, lhe serviam de retaguarda, alento e apoio.


Pe. José Oscar Beozzo
Rua Oliveira Alves, 164
São Paulo SP
04210-060
BRASIL

E-mail: jbeozzo@terra.com.br


Notas:

(1) Dom Helder Pessoa Camara, bispo e depois arcebispo auxiliar do Rio de Janeiro (1952-1964) e, em seguida arcebispos de Olinda e Recife (1964-1985), nasceu no Ceará em 1909, completou noventa anos a 7 de fevereiro de 1999, falecendo a 27 de agosto deste mesmo ano. Foi vice-assistente nacional da Ação Católica Brasileira e o fundador, em 1952, da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), seu secretário geral de 1952 a 1964, tendo tido destacada atuação no Concílio Vaticano II (1962-1965). Jornalista, conferencista, escritor e poeta exerceu profunda influência na vida cultural, social e religiosa do país, com irradiação no continente latino-americano e também na Europa e na América do Norte.
(2) Na fase preparatória quatro representantes do Brasil foram nomeados membros de comissões: o card. Arcebispo do Rio de Janeiro-RJ, Jaime. de Barros Câmara, para a Comissão Central (Sub-Comissão para o Regulamento); o arcebispo de Porto Alegre-RS, Alfredo Vicente Scherer, para a Comissão Teológica; o bispo auxiliar de São Paulo-SP, Antônio Alves de Siqueira, para a Comissão dos Sacramentos e mons. Joaquim Nabuco, para a Comissão Litúrgica. Outros seis foram nomeados consultores: o arcebispo auxiliar do Rio de Janeiro-RJ, Helder Pessoa Camara e o bispo de Londrina-PR, Geraldo Fernandes Bijos, CMF, para a Comissão dos Bispos; o arcebispo de Aracaju, José Vicente Távora, para o Secretariado de Imprensa; o prelado nullius de Pinheiros-MA, Afonso M. Ungarelli, MSC, para a Comissão dos Sacramentos; Frei Boaventura Kloppenburg, OFM, para a Comissão Teológica e Pe. Estevam Bentia (professor da Faculdade de Teologia N. S. da Assunção), para a Comissão das Igrejas Orientais. Cf. MARQUES, Luiz Carlos Luz, Il Carteggio Conciliare di Mons. Helder Pessoa Camara, Bologna, 1998, p. 754 (tese de doutorado apresentada à Universidade de Bologna, não publicada).
(3) Carta de D. Helder Câmara a D. Manuel Larrain, agosto 1962, Arquivo da CNBB - Secretaria Geral
(4) Para a crônica desta primeira congregação geral decisiva para a marcha posterior do Concílio e do impacto que causou, cfr. CAPRILE, Giovanni, Il Concilio Vaticano II. Il Primo período: 1962-1963. Roma: Civiltà Cattolica, 1968, pp. 20-24; KLOPPENBURG, Boaventura, Concílio Vaticano II – Vol. II. Primeira sessão (Set.-Dez. 1962). Petrópolis: Vozes, 1963, pp. 77-79.
(5) KLOPPENBURG, o.cit. p. 78
(6) O Palácio São Joaquim, residência do Cardeal Arcebispo do Rio de Janeiro, abrigava também as modestas salas onde funcionava a CNBB, desde o Congresso Eucarístico Internacional do Rio de Janeiro, até ser de lá desalojada pelo Cardeal Dom Jaime de Barros Câmara depois do golpe militar de 31 de março de 1964 e a ida de Dom Helder Camara para o Recife, e passar para uma sede própria, a Vila Venturosa, no bairro da Glória, em 1964.
(7) Messejana era um bairro aprazível da cidade de Fortaleza, no Ceará, onde havia nascido Dom Helder Camara.
(8) Depois que toma posse como Arcebispo de Olinda e Recife em abril de 1964, Dom Helder acrescenta aos destinatários do Rio de Janeiro, seus novos colabores na arquidiocese pernambucana.
(9) cfr. MARQUES, Luiz C. L., “Um tesouro ainda escondido”, in O POVO – Personalidades do Século, Fortaleza, 07-02-99, p. 5
(10) O “Dom”, era a maneira simples e familiar, como era chamado e conhecido Dom Helder.
(11) Circular 51/63, 25/26 de novembro de 1963
(12) A Domus Mariae, uma ampla casa de tijolos à vista, situada em meio a um parque na Via Aurélia 480, era a sede da Ação Católica Italiana Feminina e hospedou durante o Vaticano II, o episcopado brasileiro, juntamente com o da Hungria e de alguns outros países da África.
(13) CAPORALE, R., Vatican II: Les Hommes du Concile. Étude sociologique sur Vatican II, Paris, 1965, p. 88. Citado por MARQUES, o.cit., 51. Sobre o Grupo, cfr. ainda J. GROOTAERS, Une forme de concértation épiscopale au Concile Vatican II – “La Conférence des Vingt-Deux” (1962-1965), in “Revue d’Histoire Ecclésiastique”91 (1966), pp. 66-112; P. C. Noël, Gli incontri delle conferenze episcopali durante il concilio. Il “Gruppo dela Domus Mariae”, in FATTORI, Maria Teresa e A. MELLONI, L’Evento e le Decisioni – Studi sulle dinamiche del Concilio Vaticano II, Il Mulino, Bologna, 1997, pp. 95-133; “Le travail post-conciliaire. Les attentes du groupe de la Domus Mariae et l’organisation du l’après Concile”, pp. 1-28, relação apresentada no Colóquio “Vatican II, au but”, Strasbourg, 11-13 de março de 1999 (datilografado).
(14) Rascunho de carta ao arcebispo de Malinas-Bruxelas, Cardeal Leo Joseph Suenens, datado de 23 novembro de 1962 e anexado à sua Circular 39/62 de 19/20 novembro de 1962.
(15) Desiré Mercier (1851-1926), antigo professor de filosofia da Universidade de Lovaina, na Bélgica, um dos animadores da renovação filosófica e teológica do neo-tomismo, em diálogo com as ciências e a filosofia modernas, foi Cardeal Arcebispo de Malinas-Bruxelas, antecessor do Cardeal Leo Joseph Suenens, nesta prestigiosa sede cardinalícia, e um dos responsáveis pela retomada do diálogo entre católicos e anglicanos, nas célebres “Conversações de Malinas”.
(16) François Houtart, professor de sociologia da religião na Universidade de Lovaina, um dos fundadores do FERES, órgão articulador dos institutos e centros de pesquisas sócio-religiosas da Europa e América Latina, tornou-se o secretário do Opus Angeli, a articulação dos teólogos progressistas do Concílio que se colocou a serviço do episcopado brasileiro e também dos episcopados de outros países da América Latina e, de modo especial, do CELAM.
(17) Circular 46/62, 28/29 de novembro de 1962.
(18) Entrevista de Dom Antônio Fragoso ao autor em Ibiúna, a 23-10-1996
(19) KLOPPENBURG, Concílio Vaticano II – 4 ª Sessão (1965) V, 1996, 526-528
(20) CELAM, II Conferência Geral do Episcopado Latino-americano, A Igreja na atual transformação da América Latina à luz do Concílio, Petrópolis, 1969, Doc. 14, pp. 145-149
(21) Sobre as Conferências da Domus Mariae, cfr. BEOZZO, José Oscar, A Igreja do Brasil no Concílio Vaticano II; 1959-1965. São Paulo: Paulinas, 2005, pp. 195-209.
(22) A 23 de setembro de 1999, recebi do Pe. Hourtart, alguns comentários sobre o presente texto:
Querido José Oscar,
Gracias por tu carta y por el texto sobre Don Helder. Es realmente excelente. Me ha traído muchos recuerdos, especialmente del concilio, donde he trabajado con él casi diariamente en lo que el llamaba el Opus Angeli. Siempre me recuerdo también que es gracias a él que he podido organizar el estudio socio religioso de América latina entre 1958 y 1962 y finalmente hacer una síntesis para todos los obispos del concilio en francés, inglés y castellano. Cuando llegué a Rio de Janeiro para una primera reunión de coordinación de los que iban a trabajar en este estudio que duró 4 años, él me aviso que la santa sede había escrito a todos los nuncios para avisarles de cuidarse frente a toda encuesta de sociología religiosa. Don Helder, inteligente como siempre me ha dicho: yo tengo una solución. Él me pidió, en tanto que secretario de la Conferencia Episcopal, de hacer el trabajo para la conferencia. De esta manera, no había ninguna posibilidad de interferencia de Roma. Eso fue una luz para todo el trabajo y en todos los países latinoamericanos he propuesto a las conferencias episcopales de hacer un trabajo para ellos y eso fue aceptado prácticamente en todas partes. Es realmente el que salvo esta operación, que si no, habría sido extremamente difícil.
Gracias por haber enviado tu texto y muy cordial saludo.
F. HOUTART
François Houtart
CETRI
houtart@espo.ucl.ac.be
(23) Há aqui evidentemente um engano de Congar. Dom Helder era sim secretário mas da CNBB e vice-presidente do CELAM.
(24) Y.-M. CONGAR, Mon Journal du Concile, p. 87, citado por MARQUES, o. cit. 50, nota 6. Segue a tradução do autor do original de Congar: “Chega, em seguida, Helder Câmara, secretário do CELAM. Coisa extraordinária: hoje mesmo, ao meio dia, falaram de mim, dizendo que era preciso que me fizessem vir. Depois de ter conversado durante um bom tempo, fomos para uma sala, onde se reuniram conosco uns doze bispos jovens. Eles me interrogam. Dom Helder também: um homem não somente muito aberto, mas cheio de idéias, de imaginação, de entusiasmo. Ele tem o que falta em Roma: a ‘visão’ ”.
(25) Circular 15/62, 29 de outubro de 1962.
(26) Apenas dois bispos latino-americanos estiveram entre os preletores das Conferências da Domus Mariae, sendo um deles justamente Dom Sérgio Mendez Arceo, bispo de Cuernava, no México que falou no dia 16 de setembro de 1965, sobre o tema: “Aspectos do Celibato Eclesiástico”, seguido por Mons. Ramón Argaña Bogarin, Bispo de San Juan Bautista de las Misiones no Paraguai, no dia 6 de outubro de 1965, além do casal mexicano, auditores do Concílio, José e Luz Alvarez Icaza, presidentes do Secretariado para a América Latina do Movimento Familiar Cristão (MFC), cujo tema foi “Investigaciones sobre la actitud de la familia ante el Concilio”, no dia 29 de outubro de 1965. As conferências foram também um espaço importante para a tomada de consciência sobre o tema do ecumenismo e para o encontro pessoal entre os bispos e teólogos, monges e autoridades eclesiásticas vindas da ortodoxia ou do protestantismo. Estiveram entre os conferencistas, alguns várias vezes seguidas, o Pastor Roger Schutz e o teólogo Max Thurian da Comunidade de Taizé na França, Oscar Cullman, o conhecido biblista e teólogo reformado suíço; Andrej Scrima, enviado pessoal de Atenagoras do Patriarcado Ecumênico de Constantinopla.
(27) As intervenções de Dom Helder, em número de dez, encontram-se nos seguintes volumes das Atas Sinodais: AS VI/1 (Periodus I - 1962), 294-98; AS VI/1 (Periodus I - 1962), 298-99; AS II/5, 150-52; AS III/5, 509-10; AS III/7, 941-43; AS III/8, 1039-42; AS IV/2, 893-901; AS IV/III, 860-61; AS IV/3, 350-53; AS IV/3, 496-99
(28) ADA II/7, p. 325-327
(29) Os bispos que subscrevem a petição são, além de Helder Camara, foram C.M. Himmer, N. Edelby, Manuel Larrain, Alfred Ancel, Iulius Angerhausen, Laurentius Satoshi Nagae, Philippe Nguyen-Kim-Dien, Alessandro Olalia, Marcos Mc Grath, Thomas Cooray, Raphael Moralejos, Bernardo Yago, Georgius Mercier.
(30) AS VI/1, p. 295
(31) ibidem, p. 296
(32) ibidem, p. 296
(33) ibidem, p. 297
(34) ibidem, p. 298
(35) AS III/5, pp. 508-509
(36) AS III/5, pp. 509-510
(37) “José”, era o nome que Dom Helder dava ao seu anjo da guarda e às vezes a si próprio quando estava inspirado.
(38) Circular 76/63, 18/19 de novembro de 1963.
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José Oscar Beozzo

Teólogo, diretor do CESEEP

Adital - 09.05.08 - Mundo

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

PACTO DAS CATACUMBAS

O PACTO DA IGREJA SERVIDORA E POBRE

(documento firmado em 16.11.1965, por 40 Bispos da Igreja Católica Apostólica, nas catacumbas de Domitila, em Roma, no período da realização do Concílio Vaticano II, após celebrarem juntos a Eucaristia)

Nós, bispos, reunidos no Concílio Vaticano II, esclarecidos sobre as deficiências de nossa vida de pobreza segundo o Evangelho; incentivados uns pelos outros, numa iniciativa em que cada um de nós quereria evitar a singularidade e a presunção; unidos a todos os nossos irmãos do episcopado; contando sobretudo com a graça e a força de Nosso Senhor Jesus Cristo, com a oração dos fiéis e dos sacerdotes de nossas respectivas dioceses; colocando-nos, pelo pensamento e pela oração, diante da Trindade, diante da Igreja de Cristo e diante dos sacerdotes e dos fiéis de nossas dioceses, na humildade e na consciência de nossa fraqueza, mas também com toda determinação e toda a força de que Deus nos quer dar a graça, comprometemo-nos ao que se segue:
1) Procuraremos viver segundo o modo ordinário da nossa população, no que concerne à habitação, à alimentação, aos meios de locomoção e a tudo que daí se segue. Cf. Mt 5,3; 6,33-34; 8,20.
2) Para sempre renunciamos à aparência e à realidade da riqueza, especialmente no traje (fazendas ricas, cores berrantes), nas insígnias de matéria preciosa (devem esses signos ser, com efeito, evangélicos). Cf. Mt 6,9; Mt 10,9-10; At 3,6. Nem ouro nem prata.
3) Não possuiremos nem imóveis, nem móveis, nem conta em banco etc., em nosso próprio nome; e, se for preciso possuir, poremos tudo em nome da diocese, ou das obras sociais ou caritativas. Cf. Mt 6,19-21; Lc 12,33-34.
4) Cada vez que for possível, confiaremos a gestão financeira e material em nossa diocese a uma comissão de leigos competentes e cônscios do seu papel apostólico, em mira a sermos menos administradores do que pastores e apóstolos. Cf. Mt 10,8; At 6,1-7.
5) Recusamos ser chamados, oralmente ou por escrito, com nomes que signifiquem a grandeza e o poder (Eminência, Excelência, Monsenhor...). Preferimos ser chamados com o nome evangélico de Padre. Cf. Mt 20,25-28; 23,6-11; Jo 13,12-15.
6) No nosso comportamento, nas nossas relações sociais, evitaremos aquilo que pode parecer conferir privilégios, prioridades ou mesmo uma preferência qualquer aos ricos e aos poderosos (ex.: banquetes oferecidos ou aceitos, classes nos serviços religiosos). Cf. Lc 13,12-14; 1Cor 9,14-19.
7) Do mesmo modo, evitaremos incentivar ou lisonjear a vaidade de quem quer que seja, com vistas a recompensar ou a solicitar dádivas, ou por qualquer outra razão. Convidaremos nossos fiéis a considerarem as suas dádivas como uma participação normal no culto, no apostolado e na ação social. Cf. Mt 6,2-4; Lc 15,9-13; 2Cor 12,4.
8) Daremos tudo o que for necessário de nosso tempo, reflexão, coração, meios etc., ao serviço apostólico e pastoral das pessoas e dos grupos laboriosos e economicamente fracos e subdesenvolvidos, sem que isso prejudique as outras pessoas e grupos da diocese. Ampararemos os leigos, religiosos, diáconos ou sacerdotes que o Senhor chama a evangelizarem os pobres e operários compartilhando a vida operária e o trabalho. Cf. Lc 4,18-19; Mc 6,4; Mt 11,4-5; At 18,3-3; 20,33-35; 1Cor 4,12; 9,1-27.
9) Cônscios de exigências da justiça e da caridade, e das suas relações mútuas, procuraremos transformar as obras de “beneficência” em obras sociais baseadas na caridade e na justiça, que levam em conta todos e todas as exigências, como um humilde serviço dos organismos públicos competentes. Cf. Mt 25,31-46; Lc 13,12-14.33-34.
10) Poremos tudo em obra para que os responsáveis pelo nosso governo e pelos nossos serviços públicos decidam e ponham em prática as leis, as estruturas e as instituições sociais necessárias à justiça, à igualdade e ao desenvolvimento harmônico e total do homem todo e em todos os homens, e, por aí, ao advento de uma outra ordem social, nova, digna dos filhos do homem e dos filhos de Deus. Cf. At 2,44-45; 4,32-35; 5,4; 2Cor 8 e 9 inteiros; 1Tm 5,16.
11) Achando a colegialidade dos bispos sua realização a mais evangélica na assunção do encargo comum das massas humanas em estado de miséria física, cultural e moral — dois terços da humanidade —, comprometemo-nos:
— a participarmos, conforme nossos meios, dos investimentos urgentes dos episcopados das nações pobres;
— a requerermos juntos ao plano dos organismos internacionais, mas testemunhando o Evangelho, como e fez o Papa Paulo VI na ONU, a adoção de estruturas econômicas e culturais que não fabriquem nações proletárias num mundo cada vez mais rico, mas sim permitam às massas pobres saírem de sua miséria.
12) Comprometemo-nos a partilhar, na caridade pastoral, nossa vida com nossos irmãos em Cristo, sacerdotes, religiosos e leigos, para que nosso ministério constitua um verdadeiro serviço; assim:
— esforçar-nos-emos para “revisar nossa vida” com eles;
— suscitaremos colaboradores para serem mais uns animadores segundo o espírito, do que uns chefes segundo o mundo;
— procuraremos ser o mais humanamente presentes, acolhedores...;
— mostrar-nos-emos abertos a todos, seja qual for a sua religião. Cf. Mc 8,34-35; At 6,1-7; 1Tm 3,8-10.
13) Tornados às nossas dioceses respectivas, daremos a conhecer aos nossos diocesanos a nossa resolução, rogando-lhes ajudar-nos por sua compreensão, seu concurso e suas preces.
Ajude-nos Deus a sermos fiéis.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Concílio está vivo e levanta discussões

Há 50 anos desde a abertura do Concílio Vaticano II, fervem as pesquisas em vista do 50º aniversário da abertura em outubro de 2012.
A reportagem é de Lucas Rolandi, publicada no sítio Vatican Insider, 11-10-2011.
A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Mais um ano terá que passar antes que mergulhemos nas celebrações, que serão oficiais e independentes, imponentes e mais específicas, a partir das quais, como sempre, surgirão opiniões e reflexões muito diferentes, algumas polêmicas e muito mais.
Mas é assim que o Concílio Vaticano II, apesar de aceito e assumido pela Igreja e retomado com continuidade e perseverança pelos papas que sucederam João XXIII e Paulo VI, continua levantando discussão. A sua aplicação, recepção e completa sedimentação no povo cristão, para muitos, ainda não foi realizada, enquanto outros o consideram como um passo muito além da tradição e da vontade da Igreja de não se "contaminar" com o mundo, na relação com as outras religiões, ao ceder em muitos pontos da sua doutrina.
Exatamente em um ano, a Pontifícia Comissão para as Ciências Históricas organizará, em colaboração com o Centro de Estudos sobre o Concílio Vaticano II, um congresso internacional em Roma (3 a 6 de outubro de 2012) sobre a interpretação do Concílio, no qual serão fixados os critérios para essa pesquisa. "Será o ponto de chegada de uma ampla pesquisa internacional realizada pela Sociedade de História Eclesiástica e pelas Associações de Arquivística Eclesiástica de diversas nações, sob a égide do Pontifício Comitê de Ciências Históricas".
A pesquisa, que será composta dos relatórios realizados por pesquisadores especializados de diversas nações, "se configurará como um verdadeiro mapeamento mundial dos arquivos pessoais dos padres conciliares, e o congresso será o momento final de verificação, confronto e síntese das pesquisas individuais". A definição desse elenco será a premissa para um outro grande congresso previsto por ocasião do 50º aniversário do encerramento do Concílio, que apresentará os resultados da análise desses arquivos periféricos.
O Centro de Estudos sobre o Concílio Vaticano II da Pontifícia Universidade Lateranense também é o promotor de um ciclo de conferências organizadas em colaboração com o Centre Saint-Louis de France. Os encontros serão realizados entre fevereiro e maio de 2012 sobre o tema "Reler os grandes textos do Concílio Vaticano II. História e teologia". Serão convidados falar, dentre outros, o reitor da universidade, Dom Enrico dal Covolo, Jean-Dominique Durand e Giuseppe Lorizio. A ideia é de comparar duas leituras, histórica e teológica, dos grandes documentos do Concílio.
Dom Enrico dal Covolo compartilha a leitura do Concílio proposto pelo Papa Ratzinger no dia 20 de dezembro de 2005, quando escolheu a linha da continuidade à do Vaticano II como ruptura da Tradição, mas esclarece que a Pontifícia Universidade Lateranense pretende examinar "sem preconceitos nem conclusões predeterminadas todas as cartas disponíveis sobre os trabalhos do Concílio, começando com as anotações e os diários dos pais e dos peritos teológicos que participaram da elaboração das declarações e dos outros documentos aprovados".
"Só assim, isto é, com um trabalho verdadeiramente científico e imparcial, será possível verificar qual das duas hermenêuticas, de fato, é a mais correta", e depois do congresso de 2012 até 2015 serão apresentados – em um outro encontro internacional – os resultados obtidos, "sejam quais forem". "Para trazer tudo à luz como nos propomos – explica o reitor –, o trabalho de pesquisa deverá ser absolutamente imparcial". Para o bispo salesiano, a reflexão referente à "vexata quaestio" [questão polêmica] da hermenêutica do Concílio é emblemática da missão de uma universidade como a Lateranense.
Entre os muitos encontros em nível internacional, é impossível elencar mesmo que apenas uma pequena parte. Certamente indicativo, tendo-se em vista a monumental obra realizadas nos anos 1990 por Giuseppe Alberigo e Alberto Melloni, é o calendário das pesquisas e das manifestações da Fundação para as Ciências Religiosas João XXIII, de Bolonha. A esse respeito, é interessante a indicação da bibliografia dos estudos sobre o Concílio organizado por Massimo Faggioli, constantemente atualizada pela revista da fundação dirigida por Giuseppe Ruggieri, Cristianesimo nella storia, ou o desenvolvimento com uma série de aprofundamentos inéditos do primeiro portal dedicado ao Vaticano II, www.vivailconcilio.it.
Para ler mais:
• O Vaticano II, 50 anos depois. Artigo José Comblin (+ 27-03-2011)
• Vaticano II: uma mina ainda por explorar. Entrevista com Kurt Koch
• Vivailconcilio, um sítio patrocinado pelo cardeal Martini
• Continuidade e ruptura: os dois rostos do Concílio Vaticano II
• Dez motivos para lembrar o Concílio Vaticano II
• O retrocesso contra o Concílio Vaticano II
• Os frutos do Concílio
• Um Vaticano II sem rótulos
• Recepção do Vaticano II em discussão

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Como preservar o futuro da Igreja?

Entrevista especial com Johannes Röser

"A tradição não significa simplesmente apenas a recordação de coisas passadas, mas também a transmissão de coisas novas". O desafio do cristianismo, portanto, é buscar "a viabilidade no futuro".
Essa é a opinião do teólogo alemão Johannes Röser, redator-chefe da revista semanal Christ in der Gegenwart, fundada logo após a Segunda Guerra Mundial. A publicação busca, justamente, "acertar as contas" entre a Igreja de hoje com os demais campos do saber, uma forma de apresentar o "Cristo no presente", como indica seu nome.
Nesta entrevista, concedida por e-mail à IHU On-Line, Röser analisa a vida da Igreja contemporânea, passando pelos avanços e impulsos pós-conciliares, o papel dos bispos e das conferências nacionais, do sacerdote do século XXI e dos desafios que se colocam diante dos leigos na sociedade atual.
Para Röser, chegamos, como Igreja, a uma encruzilhada: "A rigor, só há duas alternativas: ou continuar se isolando dos desdobramentos da modernidade na ciência, na arte, na cultura, na sociedade, ou reconhecer as leis próprias da realidade, o mundo do devir, a mudança constante", afirma.
Johannes Röser é redator-chefe da revista semanal Christ in der Gegenwart (Freiburg im Breisgau, na Alemanha), fundada em 1948, como uma publicação de diálogo entre a Igreja e os cristãos com a ciência, a arte, a cultura e a política. Röser estudou teologia em Freiburg e em Tübingen (dentre outros, com Hans Küng e com os então professores e hoje cardeais Karl Lehmann e Walter Kasper). Trabalha como jornalista desde 1981. É autor e editor de diversos livros sobre religião. Os mais recentes são Mein Glaube in Bewegung: Stellungnahmen aus Religion, Kultur und Politik; Mut zur Religion: Erziehung, Werte und die neue Frage nach Gott; Was sag ich Gott? Was sagt mir Gott?; e Jugendgebete und Gedanken, publicados pela Editora Herder.
Confira a entrevista.
IHU On-Line – O senhor afirma que uma das consequências da crise de confiança da Igreja Católica é o reforço do "antimodernismo romano". Como esse fenômeno se expressa concretamente?
Johannes Röser – Há mais tempo já se pode perceber que os acentos, colocados pelo Concílio Vaticano II, que apontavam para a frente estão sendo minimizados, bagatelizados, que os impulsos para a renovação e a reforma estão sendo "inseridos" em noções pré-conciliares. Um marco nesse sentido foi o documento Dominus Iesus da Congregação para a Doutrina da Fé. Ele interpreta o decreto sobre o ecumenismo do último Concílio de forma muito unilateral e restritiva, e nega o ser-Igreja das igrejas protestantes, o que mais tarde foi confirmado, uma vez mais, por um comunicado do Vaticano.
Outro passo da restauração foi a readmissão geral da liturgia tridentina como forma extraordinária de celebração. Nesse sentido, deve-se levar em conta que a liturgia tridentina se baseia em um modelo de compreensão espiritual que não é mais compatível com a atual experiência do mundo marcada pelo Iluminismo e pela demitologização – desde a ideia do sacrifício expiatório até noções mágicas e apegadas a milagres.
Por fim, veio a suspensão incondicional da excomunhão dos bispos de Lefèbvre, sem quaisquer exigências de conversão aos tradicionalistas e à sua postura acentuadamente antimodernista. Aliás, antes disso, muitos bispos já tinham advertido contra tal medida.
Também na ordem relativa a vestimentas e acessórios do atual papa, com sua predileção por vestes barrocas e música antiga etc., mostra-se uma certa aversão à modernidade. Durante certo tempo, Bento XVI usou o báculo de Pio IX (foto), o Papa do antimodernismo.
Acrescenta-se a isso o fato de que, apesar da acentuação da colegialidade dos bispos, a dignidade das Conferências Episcopais está sendo contestada e até minada. Cada vez mais, as Conferências Episcopais estão sendo consideradas meros órgãos administrativos ou consultivos, mas sem autoridade doutrinal. Além disso, tem-se a impressão de que, muitas vezes, os bispos são tratados como recebedores de ordens do Vaticano. Apesar disso, todo bispo tem em si, como sucessor dos apóstolos, autoridade e responsabilidade apostólicas.
Também a interpretação bíblica histórico-crítica foi recentemente relativizada e sofreu restrições por parte do papa Bento XVI em um texto pós-sinodal sobre a palavra de Deus dirigido ao Sínodo dos Bispos de 2008. Segundo ele, a exegese foi distorcida por uma compreensão secularista da Bíblia que exclui todos os elementos divinos.
Além disso, o magistério eclesiástico rejeita estritamente algumas pesquisas da biomedicina moderna. Entretanto, a história da medicina – assim como das ciências naturais de modo geral – prova que, na prática, todos os tabus eclesiásticos jamais erigidos não subsistiram a longo prazo, desde a proibição da autópsia de cadáveres – que atualmente não nos permitiria sequer operar um apêndice inflamado – até o ceticismo para com transplantes de órgãos e a proibição da contracepção hormonal, que, entrementes, se tornou um padrão no mundo todo.
IHU On-Line – Algumas das questões em voga atualmente no debate religioso são a moral sexual, o celibato e a questão dos divorciados. É possível encontrar uma solução conciliatória entre as reivindicações dos fiéis e as posições da Igreja institucional?
Johannes Röser – Essas três áreas devem ser separadas. Quanto ao celibato: também na parte latina da Igreja Católica mundial atua um número crescente de sacerdotes casados. Por exemplo, os que passaram de igrejas protestantes para a Igreja Católica e agora exercem nela o seu ministério eclesiástico. Alguns sacerdotes casados vieram da Igreja Anglicana. Agora, o papa até instituiu sedes episcopais próprias para anglicanos dispostos a trocar de Igreja, em que eles podem conservar suas tradições litúrgicas [os chamados ordinariatos pessoais]. Além disso, através dos muitos cristãos que fugiram do Oriente Próximo e do Oriente Médio, nós estamos conhecendo no Ocidente sacerdotes católicos casados das igrejas orientais unidas ao papa. Esses pastores não são “menos” sacerdotes nem sacerdotes “piores” do que aqueles da parte latina da Igreja.
"Para os cristãos, o acontecimento-Cristo é o centro da existência de fé. Buscamos uma mística que incorpore dimensões cósmicas"
Não se trata da abolição do celibato, que é e deve continuar sendo uma característica essencial da vida monástica. O que está em pauta unicamente é como se pode assegurar a celebração sacramental do mistério pascal face à forte carência de sacerdotes em muitos países mediante a liberação do celibato para sacerdotes seculares, para párocos. Qualquer outra coisa significaria que, com um número cada vez menor de sacerdotes, nós estaríamos a caminho de uma Igreja Católica livre, não obstante todo o respeito que tenho pelo caminho próprio em conformidade com o evangelho das igrejas protestantes livres. Além disso, precisamos de sacerdotes jovens – casados – para pessoas jovens – geralmente ainda não casadas –, inclusive como exemplo.
Quanto à moral sexual: graças às possibilidades contraceptivas, a sexualidade e a reprodução não estão mais vinculadas uma à outra. Por causa dos longos períodos de formação – também das mulheres – e da necessária mobilidade e flexibilidade profissional, os jovens, muitas vezes, só encontram o parceiro ou a parceira de vida bem tardiamente. Não é realista e também seria ingênuo esperar que as pessoas vivam em abstinência sexual até os 30 anos de idade ou até mais tarde. A sexualidade é uma parte essencial do amor, da atratividade e da capacidade de estabelecer relacionamentos dos seres humanos. Naturalmente, é desejável que as pessoas mantenham a fidelidade conjugal e a parceria matrimonial durante a vida inteira. Mas excluir rigorosamente o comportamento sexual nesse processo causa repulsa. O distanciamento dos jovens em relação à Igreja começa, na maioria dos casos, com o despertar da sexualidade. Por isso, a doutrina sobre a sexualidade deve ser repensada de acordo com o que é humanamente possível e faz sentido. A sexualidade é vida e determina toda a nossa vida, mesmo que o tempo para casar só venha bem mais tarde.
Algo semelhante se aplica aos divórcios. Nos países ocidentais, entrementes um de cada três casamentos termina em divórcio. Isso atinge igualmente os católicos. Naturalmente, pode-se criticar e lamentar que hoje em dia os casais se separem mais depressa do que antigamente, que a tolerância à frustração e a disposição para perdoar sejam menores, que exemplos errados tornem mais fáceis os divórcios e as trocas de parceiros. Contudo, as exigências feitas ao amor, ao relacionamento e à parceira também aumentaram, o que sobrecarrega muitas pessoas e acaba acarretando decepções. Entretanto, após um exame de consciência sincero, arrependimento, confissão de culpa, penitência e boa intenção, não se deveriam negar permanentemente o perdão e consolo dos sacramentos da Igreja a pessoas divorciadas que voltaram a se casar. Todavia, a Igreja poderia fazer mais para ajudar os casais em tempo hábil a renovar e salvar seu casamento.
IHU On-Line – Para o senhor, dois grandes problemas da Igreja são o seu fechamento e a sua distância com relação à realidade. Que papel os leigos podem ter para reverter esse quadro?
Johannes Röser – Existe uma vocação especial para o sacerdócio. E existe uma vocação igualmente divina para as profissões seculares. Muitos cristãos são atualmente especialistas em muitas áreas. Como cidadãos do mundo, eles não precisam procurar de propósito um diálogo forçado entre a Igreja e o mundo. Eles são do mundo, como cristãos. Como homem e mulher, como pais, eles são o primeiro sacerdote masculino e feminino de seus filhos. "Deus chega antes do missionário", disse Leonardo Boff certa vez. Os leigos chegam ainda antes do que o sacerdote. Entretanto, eles não substituem o ministério eclesiástico especial de direção espiritual. Alguns abismos entre leigos e clérigos, alguns casos de neoclericalismo constrangedor poderiam ser superados se o princípio sinodal fosse melhor cultivado também na Igreja Católica. Isso quer dizer que, em associações eclesiásticas, os leigos devem ter não só funções consultivas, mas também compartilhar do poder de decisão.
"Os impulsos para a renovação e a reforma [da Igreja] estão sendo 'inseridos' em noções pré-conciliares"
IHU On-Line – Como a Igreja pode encontrar um equilíbrio entre a tradição e a orientação ao futuro?
Johannes Röser – Voltando-se com rigor aos conhecimentos da atualidade e reconhecendo a evolução contínua do mundo, da vida, do saber e da fé. A consciência religiosa também se transforma no decorrer da história pessoal de vida e da história da humanidade. O chefe de Estado soviético Mikhail Gorbachev dizia: "A vida castiga quem chega tarde". Isso também se aplica ao cristianismo. A tradição não significa simplesmente apenas a recordação de coisas passadas, mas também a transmissão de coisas novas: temos de nos direcionar para a viabilidade no futuro.
IHU On-Line – Quais são as instâncias já existentes ou que novos âmbitos de diálogo precisam ser criados para que a "consulta recíproca sobre as necessidades" da Igreja, como o senhor afirma, possa ocorrer?
Johannes Röser – O ponto central e crucial é a questão de Deus. Há muito tempo, consolidou-se no sentimento de muitas pessoas uma espécie de ateísmo popular, sem qualquer intenção combativa, mas, antes, com melancolia e até com tristeza. Segundo ele, Deus, mesmo que existisse e o quisesse, não tem qualquer possibilidade de atuar e intervir no curso do mundo. Onde Deus estava quando não estava lá, por exemplo: por ocasião do tsunami, ou pelo 11 de setembro de 2001, ou no caso de vírus letais ou outras doenças, em relação aos quais o ser humano supostamente livre nada pode fazer? Na melhor das hipóteses, Deus é um grande "talvez" para muitas pessoas. Dizem elas: "Às vezes eu creio, às vezes não creio". É nesses mundos intermediários que a religiosidade ocorre atualmente, na maioria das vezes em uma esfera vaga, incerta, aproximada.
Ora, isso tem consequências para as nossas concepções de Deus. Hoje em dia, "Deus" é, para muitas pessoas, mais um verbo do que um substantivo, mais um acontecimento processual do que uma espécie de "sujeito" ou "objeto". As concepções de Deus anteriores não são mais suficientes para, face ao caráter enigmático do espaço e do tempo, ser tocado ou até abalado pela misteriosidade de Deus. Precisamos de uma escola, de uma nova visão e de um novo pressentimento religioso, justamente para pessoas reflexivas de boa vontade.
"Só há duas alternativas: ou continuar se isolando da modernidade, ou reconhecer a mudança constante"
Para os cristãos, o acontecimento-Cristo é e continua sendo o centro da existência de fé. Mas como a unicidade de Cristo pode ser associada à diversidade e ao caráter contraditório das outras percepções religiosas em todo o globo terrestre? Por que o Filho de Deus só veio a este mundo como Homo sapiens há 2 mil anos, se o Homo sapiens, o ser humano sapiente, já existia há pelo menos 100 mil anos, dotado de um cérebro complexo e inteligência cognitiva moderna? Assim, estamos e continuamos em busca de uma mística em torno de Cristo que, entre outras coisas, incorpore dimensões universais e cósmicas, mas sem se desviar especulativamente para o âmbito esotérico: uma mística que permaneça fiel à história e à terra.
O aguilhão decisivo da descrença é a mortalidade, a finitude. Com isso, porém, intensifica-se, por outro lado, nosso fascínio: que, apesar da mortalidade de tudo, exista algo e não nada, já que o nada seria muito mais plausível do que tudo que se faz sentir. O milagre do que é visível é, para muitas pessoas, bem mais maravilhoso do que o milagre daquilo que é invisível. Ora, se existe o milagre da vida – real – diante dos olhos de todos, por que não haveria de poder existir, na mesma lógica fraca, o milagre da vida eterna – objeto de esperança –, da ressurreição dos mortos? Aqui, para as pessoas crentes, abre-se o caminho para a esperança da ressurreição.
A fé em Deus, a fé em Cristo, a fé na ressurreição são os três campos de diálogo decisivos, os aspectos essenciais. Para isso, precisa-se de um novo entendimento no horizonte de nossa experiência do mundo e até um novo Concílio sobre questões de fé, semelhante aos antigos Concílios sobre questões de fé, que nunca transcorriam harmoniosamente, mas em disputa produtiva e frutífera. Isso também desafia a teologia.
IHU On-Line – Como o senhor analisa o papel das Conferências dos Bispos hoje? Ainda têm validade na conjuntura social e eclesial do século XXI? Como aumentar o diálogo entre as diversas Conferências?
Johannes Röser – Os bispos e as Conferências Episcopais falam demais sobre questões sociais, caritativas e políticas. Tudo isso é importante e necessário, particularmente a opção preferencial pelos pobres. Mas também é importante fazer os temas de casa eclesiásticos e religiosos e não desviar a atenção deles. Muitas crises religiosas são de produção própria. Seria importante revitalizar a tradição dos sínodos regionais, para se entender inicialmente com quem está geograficamente próximo. Disso poderia surgir então um processo sinodal abrangente, até se chegar a um concílio ecumênico. Não há como se esquivar disso.
"Alguns abismos entre leigos e clérigos poderiam ser superados se o princípio sinodal fosse melhor cultivado"
IHU On-Line – Como o senhor analisa a questão do sacerdócio hoje? Que papel os sacerdotes devem ter na Igreja contemporânea e que tendências o senhor percebe para o futuro do sacerdócio?
Johannes Röser – Face à grave carência de fiéis apesar dos 2 bilhões de cristãos nominais no mundo inteiro, a carência de sacerdotes não é um problema secundário. Sem proximidade pessoal, não há fé. Precisamos de algo diferente do "sacerdote administrador" ou do "sacerdote cultual" centrado nos sacramentos. Precisamos de "sacerdotes comunicadores", homens de Deus que sejam capazes de despertar e estimular a religiosidade que muitas pessoas carregam dentro de si em segredo, mas não ousam questionar. Visto que precisamos da melhor qualidade espiritual nesse caso, também precisamos da devida quantidade de qualidade sacerdotal.
O pároco-gerente, que documenta queixosamente seu ativismo com uma agenda superlotada, não interessa às pessoas. Da mesma forma, não interessa aos jovens de hoje um sacerdote-mago. Não, as pessoas da atualidade esperam e amam pastores repletos do Espírito, bem formados, que tenham experiência do mundo e estejam impregnados de Deus, em que se perceba que são realmente servidores de Deus, tanto em seus pontos fracos quanto fortes, que, como vocacionados, também tenham uma noção das vocações divinas dos servidores do mundo, dos grandes anseios e ciladas pecaminosas de toda e qualquer existência.
O sacerdote como servidor dos seres humanos deve ser primeiramente servidor de Deus para levar as pessoas, com autoridade e sensibilidade, para Deus, para chamar a atenção delas para Deus, para levá-las a redescobrir Deus. Os sacerdotes devem preparar as pessoas para o reino de Deus. De certa forma, eles são algo assim como parteiras do nascimento de Deus no ser humano. Eles não tiram do indivíduo o trabalho de parto religioso, mas o orientam com base no bom saber e na experiência profunda e, às vezes, intervêm para facilitar as coisas em meio ao processo doloroso. Os sacerdotes devem ser, nesse sentido, parteiras do religioso, com senso de liderança e responsabilidade de líderes, mas sem bancarem os sabichões.
"A tradição não significa apenas a recordação de coisas passadas, mas também a transmissão de coisas novas"
Uma nova reflexão sobre o fato de o sacerdote ser primordialmente homem de Deus (talvez, a uma certa altura, também mulher de Deus entre os católicos e ortodoxos) poderia libertar o elemento sacramental de suas históricas reduções mágico-mitológicas e abrir o sacerdócio para uma nova espécie de representação sacramental do mistério divino, que torne a matéria de nossa existência transparente para o espiritual divino, especialmente nos dons do pão e do vinho. O santo alimento da alma e a santa bebida celestial devem nos encaminhar para uma santa comunicação, a uma santa comunhão mística – união – de Deus e do ser humano. O sacramental pode, assim, tornar-se novamente antegosto de uma grande promessa sacerdotal, para além da morte. Na celebração do sacramental, dos mistérios da salvação, poderá de fato transparecer, então, algo daquele além que ilumina a realidade deste mundo, em uma nova relação mais profunda com Cristo.
IHU On-Line – Que cenários futuros da Igreja o senhor prevê no confronto ou diálogo com a contemporaneidade?
Johannes Röser – A rigor, só há duas alternativas: ou continuar se isolando dos desdobramentos da modernidade na ciência, na arte, na cultura, na sociedade, ou reconhecer as leis próprias da realidade, o mundo do devir, a mudança constante. A compreensão da fé também tem que enfrentar as mudanças de paradigma, a mudança dos modelos conceituais, para preservar o futuro do cristianismo. Nesse sentido, ele também precisa aprender de novo a ser modesto para com o mundo, para com as pessoas, para com Deus. Jesus Cristo é o ícone do Deus desconhecido, e não simplesmente de alguém que se conhece bem. O pesquisador do cérebro Gerhard Roth disse certa vez: "Se Deus existe, ele é inteiramente diferente do que qualquer teólogo do mundo imagina". Eu acrescento: também inteiramente diferente do que alguns não crentes imaginam por "Deus".
Ser cristão significa tornar-se cristão. Isso se aplica às primeiras pessoas que creram em Jesus Cristo da mesma forma como se aplica a nós no terceiro milênio. Nossa esperança é grande.
(Por Moisés Sbardelotto. Tradução de Luís Marcos Sander)

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Alvorecer ou declínio do Concílio?

Os rios cársticos correm debaixo da terra, mas mais cedo ou mais tarde retornam à luz. Foi o que ocorreu no sábado, 16, em Firenze, no encontro que reuniu 350 pessoas de toda a Itália, indivíduos cristãos e representantes de grupos, paróquias, comunidades de base. O rio cárstico do mundo que se reconhece em uma Igreja mais conciliar e mais sinodal voltou à luz. Uma Igreja que não se reduz aos movimentos, à hierarquia, à religião civil que – apontando a natureza como referência para a ética – busca reencontrar uma centralidade na sociedade como instituição, apontando mais para a relevância social do que para a força do Evangelho.
O relato é de Christian Albini, publicado no blog Sperare per tutti, do jornal La Stampa, 19-05-2009.
A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A iniciativa teve um porte nacional, apesar de a informação ter sido difundida em grande parte pelo boca a boca informal, por causa do mal estar que uma parte do povo de Deus sente, "o sofrimento de justamente não ver o Evangelho do Reino, anunciado por Jesus aos pobres, aos pecadores, aos que jazem sob o domínio do mal, no centro da atenção comum, enquanto cresce exageradamente a pregação da Lei". "Gostaria, no entanto, que ficasse claro que esse encontro não é contra ninguém, mas é por algo", explicou Pe. Paolo Giannoni, oblato camaldolense e um dos principais promotores da iniciativa. Do seu ermo em Mosciano, na Toscana, ele indica que "ninguém está excluído desse caminho. A atitude é inclusiva, de abertura, e afirma uma Igreja que, como a veste de Jesus, toda tecida em uma parte, é unida, mas não uniforme".
"Uniformizá-la significaria perder a sua grande riqueza. Diante de um método que há anos vem se afirmando numa via excludente, queremos uma abertura que diga claramente que o Senhor nos chamou para edificar não uma Igreja que condena, mas uma Igreja que manifeste a misericórdia do Pai, que viva na liberdade do Espírito, que saiba sofrer e se alegrar com toda mulher e com todo homem que lhe é dado encontrar".
A intenção, enfim, era dar alento, voz e esperança àqueles fiéis que não se reconhecem plenamente nas orientações do atual período eclesial. Havia os "filhos" de Dossetti, de Turoldo, de Balducci: estudiosos como Alberto Melloni; padres que conjugam o serviço aos últimos e o aprofundamento da Palavra como Giovanni Nicolini; teólogos como Giuseppe Ruggieri e Serena Noceti; padres operários; realidades locais e nacionais de todo o tipo como "Noi siamo Chiesa", "Pax Christi", "Il chicco di senape" de Turim, "Il gallo" de Gênova, grupos de fiéis homossexuais e muitos outros... Chegaram mensagens de Luigi Bettazzi e Camillo De Piaz, entre os últimos protagonistas do período conciliar. Pessoas e ambientes com uma história muitas vezes importante se encontraram. Os dois troncos principais eram o do dissenso católico e o do catolicismo democrático, nem sempre capaz de colaborar ao longo dos anos.
Enrico Peyretti e Ugo Rosenberg de Turim iniciaram com um reconhecimento das cerca de 40 contribuições que foram enviadas em vista do encontro, fazendo emergir cinco pontos centrais: a mudez do laicato, a mundanização da sociedade e da Igreja, o esquecimento do Concílio, o analfabetismo bíblico e o déficit de gratuidade e pobreza no agir eclesial. Foi retomada também a pergunta de Helder Câmara que eu havia proposto no texto enviado por mim: "Se os bispos são os sucessores dos apóstolos, onde estão os sucessores dos profetas e dos doutores?", interrogação que expressa o desejo de uma Igreja una, mas não uniforme, marcada pela riqueza da variedade. Como é a Igreja narrada pela Bíblia.
As duas relações principais foram as de Paolo Giannoni e Giuseppe Ruggieri.
O primeiro deteve-se na força do Evangelho proclamado por Jesus, que assumiu todas as realidades humanas, "tocou" os corpos para infundir a cura, se sentou à mesa com os pecadores, tornando o mistério do amor trinitário visível aos nossos olhos e palpável às nossas mãos. Um amor que contém dentro de si o outro e que constitui a forma da Igreja. Cristo não exclui ninguém, mas assume tudo e todos. Isso tem diversas consequências para a vida da Igreja, entre as quais o fato de estarmos todos em busca, em crescimento, e a necessidade de um "convir".
Giuseppe Ruggieri, pelo contrário, expôs os elementos de uma Igreja da fraternidade e da amizade, conduzida não por uma doutrina, mas por algumas experiências fundamentais: a liturgia como fonte da liberdade da Igreja e como base da sua sinodalidade (na "Sacrosanctum concilium", a liturgia é apresentada tanto como dom de Deus, como participação); o chamado da Igreja a seguir Jesus pobre no anúncio do Evangelho (pelo qual o Evangelho basta a si mesmo, sem necessidade de sustentações temporais); enfim, a misericórdia contínua do Pai como fundamento da Igreja (a qual subsiste só sobre o fundamento da graça e não dos próprios méritos) e o anúncio aos homens e às mulheres (uma Igreja sem pecado, então, é ilusão e até o fim dos tempos ela leva consigo a cizânia. Por isso, só é possível voltar-se aos outros com a ternura e a misericórdia recebidas de Deus).
A proposta final de Ruggieri foi a de um fórum permanente dos cristãos, um evento de Igreja que seja a atuação da sinodalidade tão evocada.
Nas breves intervenções que se sucederam durante a tarde, a necessidade de um encontro desse tipo e o desejo de seguir adiante foram uma constante. Além do fórum, falou-se sobre um conselho de leigos, de Internet, de coordenação e expressões semelhantes. Em algumas prevaleceu a denúncia, a invectiva (nascidas muitas vezes de feridas profundas), mas o que é verdadeiramente decisivo são as perspectivas futuras, para que o encontro de Firenze não seja um fogo de palha. Perder-se nas condenações significaria replicar o estilo que não é aceito por parte da hierarquia e seria um exercício leviano, além de estar em contradição com o pedido de uma comunidade cristã verdadeiramente acolhedora. Não por acaso, Giannoni convidou que fossem recolhidas as razões de todos e afirmou que, em uma ocasião do gênero, teria sido significativo se bispos e lefebvrianos também tivessem participado.
A necessidade de mais liberdade, de ter mais voz, de busca, de contribuir com a missão da Igreja requerem uma tradução em um percurso e em uma idealização que faça surgir essa opinião pública hoje ausente na Igreja. Não para transformar a comunidade cristã em um parlamento ou em uma organização, mas para dar espaço à ação do Espírito que sopra sobre todos os discípulos do Senhor, e não só sobre estes.
Os temas colocados sobre a mesa foram muitos: os últimos, a paz, a laicidade, a imigração, as mulheres na Igreja... Todos importantes, mas se estivemos reunidos para fazer uma experiência de Igreja (antes que política ou cultural), que não é possível nos contextos "oficiais", então o objeto de estarmos reunidos foi, antes de tudo, a Igreja, o modo de concebê-la e de vivê-la na fé, que se reflete na aproximação a outros temas e nas escolhas operativas dos fiéis. Aprofundar e praticar uma outra face de Igreja é tornar operante a própria fé, como disse Ruggieri, isto é, uma fé que saiba desenvolver a energia nas coisas em que se acredita. De fato, entre as breves intervenções da tarde, achei particularmente incisiva a de Serena Noceti, que, com grande capacidade sintética e força conceitual, indicou na eclesiologia a direção para a qual prosseguir a partir dos textos conciliares. Sem ignorar os fortes momentos de oração, como pediu Gianni Geraci.
A meu ver, ao se dar seguimento ao encontro de Firenze, será decisiva a dimensão da comunicação. Há um abismo a ser ultrapassado, é preciso manter a lâmpada alta, para que ilumine. Mesmo que positivo e enriquecedor, foi um momento para os "adeptos aos trabalhos". Havia pessoas de grande valor e estatura, mas a idade média elevada era índice do pertencimento a mundos que os 30 anos de "freio de mão" sobre o Concílio esvaziaram e destruíram, empurrando para a periferia do espaço eclesial. É tempo de fazer crescer uma nova geração. Eis porque é decisivo trabalhar a comunicação.
Se houver, como se projetou, outros encontros (um ou dois por ano, talvez alternando entre o norte e o sul da Itália), a comunicação se torna indispensável para ampliar o envolvimento e a participação. O dia 16 de maio não deveria ser repetido, mas deveria ser um ponto de partida para criar momentos de Igreja inclusivos e abertos, para fazer crescer vozes que saibam verdadeiramente fazer-se ouvir, para fazer crescer uma consciência conciliar. Senão, o risco é criar um círculo fechado, elitista, em que só se fala para dentro.
Agora há duas eventualidades (e uma grande responsabilidade) para os promotores: o encontro de Firenze pode ser um alvorecer ou um declínio para o Concílio na Itália, o canto do cisne de uma geração, ou o início de uma nova história. A minha sugestão é que se use a Internet para manter o contato entre os participantes, recolhendo ideias sobre os passos futuros e mantendo assim o estilo de acolhida de cada contribuição que caracterizou a preparação desse encontro.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Igreja mergulha em longo processo neoconservador

Entrevista especial com João Batista Libânio


Recentemente, teólogos e teólogas alemães, suíços e austríacos, lançaram um manifesto propondo reformas para a Igreja em 2011. A convite da IHU On-Line, o teólogo João Batista Libânio leu o documento e analisou as propostas, concedendo por e-mail a entrevista a seguir. Resumindo, ele é enfático: “A tônica do projeto do Papa e a do manifesto divergem”.
Com a experiência de quem presenciou “nítidos momentos no processo eclesiástico” da Igreja nas últimas décadas, Libanio ressalta que o manifesto “alude ao fato de que em 2010 ‘tantos cristãos, o que jamais ocorrera antes, deixaram a Igreja e apresentaram à autoridade da Igreja a desistência de sua pertença ou privatizaram sua vida de fé para defendê-la da instituição’”. A constatação do êxodo cristão, entretanto, “não abala a convicção do projeto de manter uma Igreja, embora minoritária, mas fiel aos ensinamentos dogmáticos, morais e à prática disciplinar eclesiástica”, assinala.
Para ele, Roma reforça a autoridade sobre as igrejas locais porque elas a solicitam. “A geração profética do porte de Dom Helder deixou-nos ou já está envelhecida. E a nova safra eclesiástica revela outro corte”, lamenta.
Libânio também comenta a nomeação de bispos brasileiros para integrarem a Cúria Romana e diz que as atuais nomeações “respondem ao atual perfil de Roma. (...) Isso não vem de nenhum prestígio especial do episcopado brasileiro, como tal, além do peso estatístico”.
João Batista Libânio é padre jesuíta, escritor e teólogo. É doutor em Teologia, pela Pontifícia Universidade Gregoriana (PUG) de Roma. Atualmente, leciona na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia e é Membro do Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais. É autor de inúmeros livros, dentre os quais Teologia da revelação a partir da Modernidade (5. ed. Rio de Janeiro: Loyola, 2005), Qual o caminho entre o crer e o amar? (2. ed. São Paulo: Paulus, 2005) e Qual o futuro do Cristianismo? (2. ed. São Paulo: Paulus, 2008).
Confira a entrevista.
IHU On-Line – Qual sua reação ao manifesto que propõe reformas para a Igreja em 2011, elaborado por teólogos alemães, suíços e austríacos?
João Batista Libânio – Impressiona, logo à primeira vista, o conjunto de assinaturas de teólogos da mais alta competência e responsabilidade. Portanto, não subscreveriam nenhum manifesto superficial, imprudente. Concordemos ou não com as proposições, ele merece séria consideração e detida atenção.
Parte do inegável mal-estar que afetou não só a Igreja Católica alemã e de alguns países por causa do escândalo da pedofilia, mas de toda a Igreja por ver-se nele a ponta de um iceberg de maior amplitude: a falta de liberdade e de transparência no interior da Igreja devido ao cerceamento das instâncias de poder eclesiástico. Por isso, o manifesto bate forte na tecla das estruturas de governo da Igreja Católica.
IHU On-Line – A partir da sua trajetória sacerdotal, o senhor também concorda que a Igreja precisa ser reformada? Quais seriam as reformas urgentes?
João Batista Libânio – Os anos me permitem perceber três nítidos momentos no processo eclesiástico das últimas décadas. Ainda conheci estruturas hieráticas no pontificado de Pio XII, que lançava a imagem do poder eclesiástico onisciente e onipotente. Roma pronunciava-se sobre os mais diversos assuntos e com a consciência de dizer verdades inquestionáveis. Não se percebia sinal de dúvida ou perplexidade. Isso acontecia com duplo efeito. Positivamente, oferecia aos católicos fieis enorme segurança sobre temas desde a astronomia até a intimidade da vida conjugal. Para aqueles que já tinham recebido o impacto da modernidade liberal, democrática, marcada pela subjetividade, autonomia das pessoas, consciência história, práxis transformadora, tais declarações romanas produziam enormes dificuldades e mal-estar.
Veio então João XXIII. Convoca o Concílio Vaticano II que inicia, com certa coragem, o diálogo da Igreja com a modernidade. Usando a imagem da música “andante ma non troppo”, a Igreja caminha em direção ao repensamento doutrinal e pastoral, provocado pelos questionamentos teóricos e práticos levantados nos últimos séculos. No entanto, o tempo de aggiornamento não durou muito. Já no próprio Pontificado de Paulo VI, a partir de 1968, despontam sinais de contenção e retrocesso. E depois a Igreja Católica mergulha em longo processo neoconservador que dura até hoje. As inovações iniciadas no Vaticano II se interromperam e outras não surgiram, exceto em um ou outro gesto ousado de João Paulo II, como a Oração pela Paz em Assis com os líderes das diferentes religiões do mundo. Ainda que o clima geral não fala de abertura, entretanto percebe-se-lhe a necessidade.
IHU On-Line – O manifesto também propõe uma reconversão da Igreja. O que o senhor entende por esta proposta?
João Batista Libânio – A Igreja tem a enorme graça de pôr como referência última, principal, insuperável a pessoa de Jesus Cristo. E quanto mais se conhece o Jesus histórico, mais se percebe a força revolucionária de sua pessoa. Ele não deixa nenhuma estrutura esclerosar-se, sem que lhe seja acicate de mudança. Menciono de passagem o maravilhoso livro de J. Pagola, Jesus: aproximação histórica (Petrópolis: Vozes, 2010), que nos descreve e narra um Jesus colado à realidade no projeto maior de devolver às pessoas a dignidade.
Diante dessa figura de Jesus, muitas estruturas eclesiásticas sofrem terrível crítica. A partir dele, cabe falar de contínua reconversão da Igreja. Basta comparar a figura de Jesus andarilho, de Pedro pescador e crucificado em Roma com certas aparências poderosas clericais para ver a gigantesca distância e a força crítica de Jesus. Santo Inácio de Loyola apostava na força de conversão da contemplação dos mistérios de Jesus. Isso vale em nível pessoal, comunitário e eclesiástico. Em confronto com a pessoa de Jesus, a Igreja se vê questionada continuamente a assumir formas de humildade, simplicidade, pobreza, abandonando o luxo, o esplendor, a arrogância triunfante.
IHU On-Line – O manifesto diz ainda que somente através de uma comunicação aberta a Igreja pode reconquistar confiança. Em que consistiria uma comunicação aberta com a sociedade?
João Batista Libânio – Só existe comunicação aberta se se abrem canais de entrada e saída. De entrada nos recônditos dos segredos, nas manipulações e jogadas maquiavélicas, nas tramas urdidas na noite do anonimato. Existe limite difícil de ser traçado do direito ao sigilo de consciência, de reputação das pessoas e comunicação transparente. Portanto, não se trata de questão fácil. Entre os extremos da cultura Big Brother – da total e perversa transparência – e dos sigilos cabalísticos de verdades a que os fiéis têm direito de conhecer, existe um meio termo de clareza e de possibilidade de acesso. O canal de saída refere-se à liberdade de expressão das pessoas no interior da Igreja a respeito da vida da Igreja. No embate da discussão encontram-se melhores caminhos que na proibição da mesma.
IHU On-Line – É possível a Igreja romper com tradições, se renovar sem perder seus princípios básicos?
João Batista Libânio – Não se trata nem de romper nem de engessar a Tradição, ou mais corretamente as tradições. Na polêmica com Mgr. Lefebvre, que defendia a literalidade da Tradição e das tradições, Paulo VI insistia na necessidade de interpretá-la (s). Eis a questão! Os princípios permanecem no nível universal, abstrato. Importa ver como eles são entendidos nas situações concretas. E aí está o problema. O trabalho interpretativo tem exigências. Implica esforço da inteligência de captar três coisas. O significado da questão no contexto primeiro em que ela foi formulada e respondida. Esta mesma questão como se entende hoje. E, então, como o significado de ontem se reinterpreta para hoje. Por exemplo, a usura, cobrar mais do que se emprestava, até o nascimento do capitalismo se considerava roubo, portanto eticamente condenável. Hoje, ela se chama juros e ninguém os considera imorais. Então, como se fez a transposição de um princípio ético no pré-capitalismo para o capitalismo?
Numa economia estável sem circulação monetária parecia injusto receber mais do que se emprestava. Nisso consistia a injustiça. Numa sociedade em que o dinheiro se tornou fonte de renda, se considera injustiça só quando as taxas de juros superam de muito a força de rentabilidade. Recebe o nome de agiotagem. Mas cobrar taxas razoáveis não contradiz o princípio ético pré-capitalista no significado, embora materialmente pareça opor-se a ele (usura). Problemas semelhantes se levantam em muitos campos.
IHU On-Line – O documento também chama a atenção para a necessidade de reconhecer a liberdade de consciência individual, referindo-se também a opção sexual dos indivíduos. Entretanto, observa que “a alta consideração da Igreja pelo matrimônio e pela força de vida sem matrimônio está fora de discussão”. Parece algo contraditório?
João Batista Libânio – A consideração anterior que fiz no campo das finanças vale no campo da sexualidade. Os ensinamentos morais da Igreja sobre o matrimônio permanecem válidos na linha dos princípios. E cabe perguntar-nos pelo seu significado profundo que diz respeito à dignidade humana, ao respeito das relações afetivas. Que significam o respeito e a dignidade nas relações humanas na união homoafetiva? Não se responde em abstrato, mas a partir das experiências que se fazem no concreto da vida. Tanto nas relações matrimoniais como nas homoafetivas existem tanto dignidade, respeito como o oposto. E as considerações éticas descem ao concreto de tais relações para aí interpretar o princípio fundamental da dignidade humana, do respeito entre as pessoas, o projeto de amor de Deus.

IHU On-Line – O que significam os casos de pedofilia na Igreja?
João Batista Libânio – Revelam a face pecadora dos homens e mulheres de Igreja em todos os níveis: do simples fiel até pessoas da alta hierarquia. Em face do pecado, cabem, em primeiro lugar, a conversão e o perdão de Deus. Quando o direito de outras pessoas é lesado, como no caso da pedofilia que fere gravemente a criança envolvida, entram fatores de reparação desde a econômica até a judicial. Nada justifica o ocultamento, mas importa tomar as medidas concretas para evitar outros casos, sanear o acontecido, reparar o estrago feito.
Evidentemente, não tem sentido entrar no sensacionalismo da mídia. Está em jogo algo sério demais para ser simplesmente assunto de folha policial em ocasião para jogar pedras na Igreja. Não se pensa em acabar com a família, embora nela aconteça a imensa maioria dos casos de pedofilia. A mesma mídia que divulga, “escandalizada” casos de pedofilia, termina sendo uma das causas importantes da decadência moral da sociedade com a enxurrada de programas de banalização do amor, de sexualização das crianças, de exibicionismo e voyeurismo sexual, da perda de senso de responsabilidade social. A luta contra a pedofilia exige programa complexo de purificação das fantasias, de presença maior de educação sadia, de melhoria de cultura veiculada pela mídia.
IHU On-Line – Quais são as perspectivas e os desafios da Igreja para esta segunda década do século XXI?
João Batista Libânio – Distingamos os níveis. No momento, em nível das estruturas internas da Igreja não se veem perspectivas animadoras. Durante o longo pontificado de João Paulo II, a Igreja Católica viveu o paradoxo, de um lado, de rasgos de abertura na prática do diálogo inter-religioso, na defesa dos direitos humanos, na oposição a toda guerra enfrentando, inclusive, as pretensões americanas, na proximidade com o mundo dos pobres e, de outro, de enrijecimento doutrinal e disciplinar interno. No horizonte, não se percebe que a Igreja enfrentará os novos desafios da cultura contemporânea por meio de mudanças internas, como fez, em parte, logo depois do Concílio Vaticano II. Falta o clima de abertura, de otimismo e de profetismo para lançar-se em transformações profundas. Em termo de hierarquia, reina antes momento de silêncio, de prudência sem muita inspiração e lanço de coragem inovadora. A geração profética do porte de Dom Helder deixou-nos ou já está envelhecida. E a nova safra eclesiástica revela outro corte.
No universo dos leigos há sinais de esperança nas comunidades de base, na crescente participação consciente e ativa das mulheres, no maior desejo de espiritualidade e teologia, na vitalidade de novos ministérios, na criatividade litúrgica, no acesso amplo às Escrituras pela via da leitura orante. Em algumas igrejas particulares a Assembleia do povo de Deus anuncia algo de novo, desde que a clericalização não a prejudique.
IHU On-Line – O senhor concorda com a tese de que o Vaticano está enquadrando a Igreja no Brasil?
João Batista Libânio – Cícero chamou a história “mestra da vida”. Lancemos um olhar para os últimos séculos a fim de entender a relação entre o Vaticano e as igrejas locais. Gregório VII, no século XI, deu a decisiva guinada da autonomia das igrejas locais para crescente poder de Roma. Ele pautou o governo pontifício pelo dictatus papae, que ressuda centralismo, autoritarismo desmedido. Esse longo processo de quase mil anos marcou uma linha de comportamento em que Roma exerce imensa influência sobre as Igrejas particulares ou regionais. O Concílio Vaticano II, com a colegialidade, tentou diminuir tal tendência, mas com pouco resultado. Faz parte, portanto, da consciência comum eclesiástica a dependência em relação a Roma. E a dialética de dependência de uma parte pede o exercício de domínio da outra.
A criança que pergunta a mãe que meia vai usar pede uma mãe cada vez mais absorvente que termina ditando-lhe tudo. Assim na Igreja. Roma responde com autoridade e a reforça porque as próprias igrejas locais a solicitam e ficam à espera. A liberdade se entende como relação entre duas liberdades. Não há liberdade de um lado só. Que o diga Erich Fromm no magistral livro Medo da liberdade. As análises que lá faz, baseadas em sua experiência do nazismo, valem para toda relação de submissão e de autoritarismo, onde ela se dê. No dia, porém, em que as igrejas locais tomarem maior consciência de outra eclesiologia, então a Igreja de Roma também lentamente afinar-se-á com ela. O processo se institui de ambas as partes simultaneamente em mútua relação e influência.
Quanto mais a Igreja do Brasil marcar a originalidade, a liberdade, a autonomia, tanto mais Roma a reconhecerá. Se ela, porém, está a esperar para cada palavra que disser um sorriso aprobatório de Roma, a liberdade se encurtará e a autonomia se dissolverá. Quem age sob o olhar de um outro, termina condicionando-se de tal modo que perde a própria identidade.
IHU On-Line – Como avalia a notícia de três nomeações de bispos brasileiros para ocupar cargos importantes na Cúria Romana? O que isto significa? Terá algum impacto na CNBB?
João Batista Libânio – A nomeação dos membros da Cúria Romana obedece ao difícil jogo de interesses e preocupações. Não creio que o caráter nacional, no caso, o fato de ser brasileiro, seja predominante. Entram em questão outros critérios de linha teológica, ideológica, de indicações de pessoas influentes, de vinculação a movimentos de igreja, de serviço prestado. Em termos modernos, falamos de “perfil”. As firmas, as instituições contratam ou dispensam funcionários dando como razão o fato de corresponderem ou não ao seu perfil. Analogamemte vale no caso da Igreja. Julgo que os bispos brasileiros escolhidos para cargos romanos respondem ao atual perfil de Roma. Coincide que vários brasileiros corresponderam a tal retrato e então foram escolhidos. Isso não vem de nenhum prestígio especial do episcopado brasileiro, como tal, além do peso estatístico.
IHU On-Line – Como vê a atual internacionalização da Cúria Romana? Como propõe o manifesto, a sociedade deveria ajudar a escolher os representantes?
João Batista Libânio – A internacionalização traz vantagens. Mas não decide por si mesma. Acontece que a cor internacional desaparece facilmente por homogeneização ideológica por força da instituição. Se cada nação levasse para dentro da Cúria Romana a própria originalidade e a conservasse em contínuo diálogo com a predominante cultura europeia e romana, então a internacionalização causaria outro efeito.
Bispos latino-americanos, africanos ou asiáticos que arribam a Roma se romanizam a ponto de não se distinguir muito dos outros. Outra coisa significaria se as igrejas locais se fizessem presentes em Roma por meio de seus representantes, escolhendo-os e eles fazendo-se porta-voz delas. Mais: se elas mesmas decidissem na escolha dos ministros que as servem ou vetassem aqueles que não as satisfizessem. Assim evitaríamos casos desastrosos que tivemos de bispos, párocos ou pessoas em outras funções que durante décadas exerceram funções com detrimento da vida eclesial em vez de construí-la e os fieis tiveram de suportá-los calados e sem poder de mudança. Certos aspectos da sociedade democrática não contradizem, teologalmente falando, a maneira de designar membros da hierarquia. A escolha pode ser democrática, embora a conferição se faça pela graça do sacramento.
IHU On-Line – O que significa, para a Igreja brasileira, a nomeação de Dom Odilo Scherer no Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização?
João Batista Libânio – Como disse acima, os critérios de escolha das pessoas respondem antes ao perfil buscado pelo Vaticano para determinada função e ao peso de influências indicativas que à origem nacional. E o perfil se define pela combinação do histórico do bispo em questão e as conveniências da Instituição. Para alguém que está fora desse jogo fica muito difícil fazer juízo objetivo sobre as indicações. No início de cada governo no mundo da política, assistimos ao delicado jogo da escolha das pessoas para os cargos. Nem todos os indicados e escolhidos respondem ao desejo do presidente ou do papa, no caso da Igreja, mas entram na lista para cumprir uma série de acordos necessários para o governo. A política eclesiástica não escapa totalmente dessa regra.
IHU On-Line – Está em curso a consolidação do programa ratzingeriano para a Igreja do Brasil?
João Batista Libânio – Teríamos que conhecer de antemão o programa do Papa. Os papas, em geral, não fazem discursos programáticos, mas dogmáticos. E supõe-se arguta análise para perceber sob as afirmações doutrinais que tipo de prática de governo subjaz. Aventuraria dizer que Bento XVI atribui relevância especial à qualidade da pertença à Igreja e não se impressiona tanto com a diminuição estatística. O manifesto dos teólogos alude ao fato de que em 2010 “tantos cristãos, o que jamais ocorrera antes, deixaram a Igreja e apresentaram à autoridade da Igreja a desistência de sua pertença ou privatizaram sua vida de fé para defendê-la da instituição”. Enquanto percebo, tal constatação não abala a convicção do projeto de manter uma Igreja, embora minoritária, mas fiel aos ensinamentos dogmáticos, morais e à prática disciplinar eclesiástica.
No projeto de Igreja em curso, a fidelidade, a exatidão doutrinal e a coerência prática disciplinar merecem relevo preponderante mesmo que à custa de êxodo de católicos.
O manifesto pondera a questão do isolamento da Igreja em relação à sociedade. Tal fato, porém, não se entende na percepção pontifícia de modo negativo, enquanto fechamento, mas como exigência de coerência com a própria mensagem a despeito da incompreensão por parte da mentalidade moderna.
Outra coisa, como parece supor o manifesto, tal aspecto implicaria incongruência com o projeto salvífico de Jesus. A questão teológica se desloca. Até onde tal programa eclesiástico afasta-se do reino anunciado por Jesus? Acusação grave que precisa ser bem pensada e discutida de ambos os lados. A tônica do projeto do Papa e a do manifesto são divergentes. No primeiro caso, volta-se para a Igreja e quer mantê-la na sua atual estrutura e, a partir daí, cumprir melhor sua função. No outro, propõe-se o projeto de Jesus e se pergunta como adequar as estruturas da Igreja a ele. Pontos divergentes que geram leituras diferenciadas. Só o diálogo mostra o limite e a positividade de cada perspectiva. O manifesto acentua: primeiro a liberdade individual e de consciência e a partir dela a fidelidade. A atual disciplina eclesiástica: primeiro a fidelidade à doutrina e à prática e aí dentro a liberdade.
O mesmo vale de outros pontos acentuados pelo manifesto: participação dos fiéis, comunidade de partilha, reconciliação dos pecadores e celebração ativa, enquanto o projeto eclesiástico em curso entende tais demandas a partir dos quadros jurídicos traçados para a participação, para a vida de comunidade, para a reconciliação e celebração e não à sua revelia ou à exigência da sua mudança. Nessa tensão consiste, segundo minha leitura, a divergência maior entre o manifesto e o que está em curso atualmente no seio da Igreja Católica.