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quarta-feira, 31 de julho de 2013

Reformas eclesiásticas são insuficientes

José Lisboa Moreira de Oliveira Adital Durante o período entre o anúncio da renúncia de Bento XVI e a eleição do papa Francisco muito se falou sobre a necessidade de uma reforma na Igreja e da Igreja Católica Romana. O assunto continuou mesmo depois da eleição do último papa. Depois o assunto parece ter caído um pouco no esquecimento. Muitas pessoas ficaram empolgadas com certos gestos de Francisco e algumas delas chegaram a pensar que isso seria suficiente para mudar o rosto da Igreja Romana. Porém, o tempo está passando e as mentes pensantes estão se perguntando se já não está na hora do papa ousar um pouco mais e começar a mexer na máquina burocrática eclesiástica. Ninguém discute o valor simbólico de alguns gestos e de algumas declarações do papa Francisco. Sabe-se também que ele precisa agir com muita prudência, pois a aceleração de alguns processos de renovação poderia colocar o sistema eclesiástico em alvoroço e até bloquear qualquer ação ou iniciativa do pontífice. Há mesmo o risco real de uma possível eliminação do papa, como se suspeita que teria acontecido em outras ocasiões com grandes reformadores. Diz a tradição monástica que um grupo de monges beneditinos tentou envenenar São Bento, quando este propôs algumas reformas para a recém-criada ordem monástica. Entende-se, pois, a necessidade da paciência e da prudência em situações como essas. Porém, não é possível realizar profundas transformações na Igreja se não se mexe na paquidermiana máquina burocrática eclesiástica. Se não se toca naquelas estruturas de pecado existentes dentro da Igreja e que foram pensadas e criadas para que as mudanças não aconteçam. Tais estruturas estão relacionadas com vícios como o carreirismo, o nepotismo, as recomendações, a perpetuação de pessoas em determinados cargos, a negligência, a mentira, a hipocrisia, a articulação com o poder civil ultraconservador e assim por diante. Sonhar com mudanças só porque foi eleita para a função de papa uma pessoa simples é pura ilusão, e se algo não for feito o quanto antes a decepção começará a tomar conta das pessoas. Estas considerações mostram que as transformações não virão apenas por conta de uma canetada de um papa. É claro que na atual estrutura burocrática eclesiástica a decisão final será sempre dele. Mas se a comunidade dos "cristãos insatisfeitos” não se mobilizar as coisas continuarão do mesmo jeito e, talvez, por muitas décadas e até séculos. Lembro-me que anos atrás um ilustre teólogo, agora admirador do papa Francisco, disse em um artigo que João Paulo II havia montado um esquema de "retorno à grande disciplina” que iria durar pelo menos um século. Concordo com essa afirmação, pois estou convencido de que se não houver uma mobilização mundial as coisas irão continuar do mesmo jeito. E isso por uma simples razão: a direita católica ultraconservadora, representada hoje pelos grandes movimentos eclesiais internacionais, saberá sempre "domesticar” e desvirtuar as ações do papa Francisco, como mostrei num artigo anterior. As mudanças que esperamos não podem vir apenas do papa. Ele sozinho não dará conta de uma tarefa tão grande. Precisamos nos mobilizar para retomarmos o espírito do Concílio Vaticano II e voltarmos ao Evangelho. Precisamos pensar, refletir e agir para fazer com que a onda de conservadorismo, que invadiu a Igreja nos últimos trinta anos, seja varrida pelos ventos inspiradores do tão sonhado "aggionamento” eclesial que o papa João XXIII tanto queria a cerca de cinquenta anos atrás. E precisamos fazer isso porque o atual conservadorismo eclesiástico se camufla de modernidade. Utilizando a tecnologia e a linguagem moderna, típica das redes sociais e da internet, engana os mais simples e desprovidos de racionalidade crítica. E a mais comum das linguagens utilizadas pelo moderno ultraconservadorismo católico é a emocional, aquela que mexe com a sensibilidade das pessoas. E para se comprovar isso basta entrar nos sites católicos ou assistir a programas de boa parte das redes televisivas ditas católicas. A quase totalidade deles não estimula o pensamento crítico, a reflexão séria, mas alimenta uma religiosidade melosa, intimista, individualista e falsa. No atual contexto eclesial as reformas não bastam. Elas não levarão a nada. Lembro-me muito bem que Regis de Morais, em seu livro Os bispos e a política no Brasil (São Paulo: Cortez, 1982), afirmava categoricamente que "as reformas são maneiras de mudar não mudando” (p. 77). As reformas mexem apenas com a exterioridade, com a aparência, mas deixam o sistema funcionando do mesmo jeito. Elas enganam, dando a impressão de que houve transformações profundas. Porém, quando nos aproximamos da realidade verificamos que tais reformas foram como que uma espécie de verniz aplicado sobre uma madeira podre. Por um tempo houve brilho impressionante, mas depois começam a aparecer as brechas e os buracos feitos pelos cupins que continuaram a roer a madeira, mesmo depois da aplicação da tinta. Regis Morais, na mesma obra (p. 78), nos lembra de que na atual conjuntura é indispensável aruptura, que é o contrário da reforma. A ruptura parte da constatação de que há uma profunda contradição na realidade e que não se pode prosseguir mantendo tal esquizofrenia. Somente a ruptura permite fazer uma avaliação sensata, racional e realista do que está acontecendo e partir para a criatividade e a concretização de uma utopia que não se rende a fantasias e nem a sonhos ilusionistas. Quando nos limitamos a pura reformas, continuamos a manter o sistema. Nós acreditamos que o que já existe é perfeito e que se deve apenas aperfeiçoá-lo, tornando mais adequada e fazendo funcionar melhor a velha estrutura. Assim, por exemplo, troca-se a velha máquina de escrever da secretaria paroquial por um moderno computador ou o folheto dominical por um excelente Datashow, mas a vida da comunidade e a eucaristia dominical continuam do mesmo jeito, entediando as pessoas. Arturo Paoli, há mais de trinta anos, no seu livro Converter-se (São Paulo: Paulinas, 1978), já nos lembrava de que a fé só pode ser conservada se sabemos enfrentar as contradições históricas. Quando o cristianismo se fecha numa atitude apologética, defensiva, obstinada, integrista e agressiva, isso é sinal de que existe falta de fé. A fé é luta, motivação e contestação. "Ou é assim ou não é. Motivação para viver, para fazer esta esfera e todas as galáxias que a cercam girarem. Contestação, isto é, energia capaz de vencer a tendência a sentar-se, a achar bonito e suficiente aquilo que atualmente temos nas mãos” (p. 105). Portanto, quem se senta, achando bonito e suficiente o que o papa Francisco está fazendo, negando a contradição e fechando os olhos para o que aí está, esquece que quando tudo isso esfriar só restará o vazio e a decepção de uma fé estática que não se mobilizou. Terá sido vítima da fé apologética que não se move e nem se mexe. http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=76686

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Cidadania e Estado Laico: reflexões em torno do momento atual brasileiro

Ivone Gebara////// Adital/////////// Carrego em mim um mal estar quando grupos em nome de sua fé religiosa e da necessidade de um estado laico reivindicam leis a favor ou contra as mulheres e outros grupos. Ou ainda, quando grupos religiosos em nome de sua fé querem interferir nas leis do Estado. Embora as posturas possam ser socialmente e politicamente diferentes esses grupos estão usando as mesmas moedas de troca e as mesmas palavras justificando discursos muitas vezes opostos. Quando católicas falam em nome de sua fé católica para exigir que o Estado aprove ou não leis em favor das mulheres, estas estão de certa forma afirmando o contrário de um estado laico. Quando igrejas evangélicas se arvoram a manifestar-se publicamente contra qualquer lei do Estado em nome de sua fé religiosa estão igualmente negando a existência de um estado laico. Será que nossa cidadania não é suficiente? Será que necessitamos sempre do apoio ou do uso de argumentos religiosos interpretados conforme nossos interesses? O problema é bastante complexo e não temos respostas cristalinas para ele. A meu ver, um estado laico não deveria se guiar através de pressões religiosas, mas através da vontade popular manifestada a partir das diferentes instâncias de representação, das manifestações populares de diferentes formas e inclusive dos plebiscitos e meios de comunicação social. Por exemplo, quando mulheres católicas ou protestantes pedem às suas igrejas uma mudança de teologia e de legislação em relação a certos assuntos que tocam a vida dos fiéis as coisas são diferentes. Ficamos no âmbito da comunidade de fé e de uma mesma tradição ético-religiosa apesar da multiplicidade de interpretações e conflitos. Mas, mesmo dentro desse âmbito fica sempre presente a liberdade de consciência que deveria gerir as decisões a ser tomadas. Entretanto, é preciso dizer com clareza, que no cotidiano as decisões que tomo nem sempre são em consonância com a fé religiosa que professo ou da igreja à qual pertenço. Muitas vezes tomo decisões contra a minha consciência e contra aquilo que julgo ser minha convicção, pois preciso naquele instante "salvar” a minha vida. Aqui ‘minha vida’ parece valer mais do que posturas individuais de fé outrora assumidas, muito embora nem sempre seja possível ter clareza sobre esse delicado assunto. Tudo depende das pessoas e das situações. Tudo depende do momento, do sofrimento suportável ou não, da instabilidade psicológica, das pressões de todo tipo, dos medos que assolam minha existência naquele instante. As situações, as circunstâncias podem modificar o comportamento que eu imaginava ser uma aquisição tranqüila, quase uma tradição ética em mim. Por isso, os princípios são linhas norteadoras, mas não funcionam necessariamente na prática onde o "salvar a vida” se impõe como preocupação primeira. Aqui, creio que é minha vida como realidade mais próxima de mim mesma, como eu mesma, que faz as regras imediatas do jogo. É difícil julgar quando se está fora do embate das tensões mortíferas, fora do campo de batalha, fora dos cárceres, fora das pressões do tempo e das instituições. As pessoas excepcionais que conseguem manter firmes suas convicções não podem ser tomadas como exemplos absolutos a serem seguidos, visto que também há muitas coisas que desconhecemos nas razões que as levaram a tomar essa decisão. A vida dessas pessoas serve como ideal e como referência teórica e ética. Tem a sua importância reconhecida, mas uma importância que não é decisiva em muitos momentos da vida. Portanto, aqui de certa forma se impõe a afirmação cara aos Evangelhos do "não julgueis” ou "não atireis a primeira pedra”. Cada vida é uma vida muito embora vivamos em sociedade e necessitemos uns dos outros para dar continuidade ao sopro vital que nos é comum. Vários problemas estão em pauta na conjuntura político-religiosa atual. Enumero apenas três. O primeiro deles tem a ver com uma espécie de controle e legislação da vida privada pelo Estado, expressão do desejo de alguns grupos religiosos. O segundo tem a ver com a nova compreensão das relações entre público e privado presente em nossa sociedade. E o terceiro tem a ver com a intromissão de crenças religiosas nas políticas de um Estado laico e pluralista. A vida privada é a vida de cada individuo nas suas múltiplas relações consigo e com os outros. É bem mais do que a vida doméstica, pois engloba algo da interioridade de cada pessoa, da intimidade que temos conosco mesmas. Nessas complexas relações há aquilo que chamamos de foro interno em que, em última análise, a vontade do individuo passa a ser soberana mesmo que essa vontade atente contra a sua vida ou a vida de outrem. Vontade, decisão, liberdade não podem mais ser considerados conceitos isentos de negatividade, isentos da contradição e da mistura inerentes à própria vida. Muitas vezes as leis, as imposições sociais, as crenças religiosas atuam apenas no nível da exterioridade e só têm certa eficácia enquanto uma situação ameaçadora de minha vida não se apresente. Quando o acontecimento imprevisto/previsto sucede é ele que passa a direcionar nosso comportamento de maneira que nosso bem estar individual e integridade sejam minimamente salvaguardados. Nesse particular os processos educativos desde a primeira infância e os processos sociais de respeito à vida da coletividade e de cada individuo são fundamentais embora não possam sempre impedir os imprevistos e as armadilhas da vida. É na linha da vida íntima que o individuo é soberano, ou seja, sua soberania é pragmática no sentido de ser movida pelo acontecimento do momento ou pela urgência que tem que enfrentar. O respeito a si e aos outros deve sem dúvida continuar como um ideal social, muito embora saibamos que na prática uma sociedade em que todos respeitem a todos seja impossível, ao menos nesse momento de nossa história comum. Continuamos com nossa dose diária de crueldade, injustiça e mentira mesmo falando de amor e de justiça. Nesse sentido querer legislar sobre a vida íntima, dar normas claras à subjetividade parece um empreendimento hoje fadado ao fracasso. As inúmeras tentativas de algumas igrejas de "cura gay”, de proibição do casamento homossexual, de proibição do aborto ou de não uso de preservativos aparecem como uma tutela poderosa que acaba desrespeitando as pessoas. As instituições que acreditam fazer o bem e se erigem em vista do bem acabam por esse mesmo caminho prejudicando a vida individual e social de muitas pessoas. Seus ensinamentos podem provocar em muitas pessoas sentimento de culpa, porém não ajudam a avançar na linha do crescimento pessoal. As relações entre público e privadomerecem ser refletidas segundo as novas situações da história atual. Nelas há uma relação íntima entre público e privado na sua relação atual com o Estado. O Estado é a mediação que permite a administração coletiva das necessidades vitais comuns, que promove a partilha de serviços, que garante os direitos e a segurança das cidadãs e cidadãos. No Estado moderno as preocupações privadas migram para o espaço público e muitas vezes corremos o risco de estabelecer legislações sem discussão e sem participação das cidadãs/aos, sobretudo dos/das mais interessadas. A grande massa de acomodados ou de ignorantes acaba sendo manobrada pelas espertezas dos que têm mais poder sobre os outros. A questão hoje é que muitas vezes as leis impõem um comportamento padronizado aos cidadãos a partir de situações totalmente distantes da realidade vivida, de forma que sua exeqüibilidade se torna problemática e quase impossível. Isso é igualmente verdadeiro no âmbito das prescrições religiosas em relação à vida sexual e outros comportamentos. Nessa linha precisamos ter presente o caráter ao mesmo tempo privado e público de uma prática religiosa. A expressão pública ou o público de uma fé religiosa é diferente do público político embora muitas vezes se toquem e se cruzem. Por isso, uma reflexão mais acurada sobre as relações entre o que chamamos privado e público se faz necessária. As crenças religiosas nos espaços políticos públicos são um fenômeno crescente em nossa época e em nosso meio. Elas invadem os espaços públicos mesmo num Estado que constitucionalmente se afirma como laico. Deputados, senadores, vereadores, juízes eleitos ou escolhidos para servir o bem comum não conseguem estar isentos de suas crenças religiosas. Suas crenças passam a ser bandeiras políticas de forma que estamos continuamente sendo vítimas de um Estado religioso constitucionalmente afirmado e reconhecido como laico. Este paradoxo pode ser observado nas muitas manifestações religiosas que temos assistido nos últimos anos para interferir em políticas públicas, sobretudo as que tocam a sexualidade humana. Vale notar, nesse particular, o uso indevido de textos religiosos para fundamentar posturas políticas através de uma retórica impressionista usada para convencer o público. Creio que isto é um delito que atenta contra a Constituição Nacional e merece ser enfrentado pelo conjunto de cidadãs e cidadãos das mais diferentes formas. A questão é de saber como se pode colocar entre parêntesis sua crença religiosa em favor do bem comum. Ou, como crescer em consciência em relação à diversidade de situações num mundo tão complexo quanto o nosso? Como se educar para uma sociedade pluralista onde minha crença religiosa e política não é verdade para toda a sociedade? Além disso, trata-se de educar-se para discernir entre a necessidade de leis e minha escolha pessoal. Não é porque existe a legalização do aborto ou casamento homossexual que tenho que vivê-los e nem acreditar que as pessoas serão menos morais ou menos responsáveis se uma lei se efetivar. Em outros termos, não é porque o casamento homossexual ou heterossexual existe que vou me casar e nem porque o aborto é permitido por lei que vou abortar. As muitas polêmicas de nosso tempo não chegarão a lugar nenhum se não assumirmos a realidade do pluralismo de nossa nação e de nosso mundo. Pluralismo significa diversidade e diversidade significa que algumas leis devem ter validade para todos os cidadãos/ãs e outras podem ser escolhas de cada um e cada uma diante de sua própria consciência e da contingência em que está vivendo. Significa igualmente não bloquear o caminho e as escolhas de outras pessoas que vivem e pensam diferentemente de mim. Nesse contexto as muitas soluções devem ser relativizadas, isto é, entendidas a partir da diversidade e particularidade das situações. Por exemplo, algumas soluções afirmam a necessidade de leis proibitivas em torno da sexualidade e apostam numa legislação rígida que tenha efeito punitivo das /os infratores. Outras optam por uma legislação permissiva que chame a atenção da responsabilidade individual e coletiva frente aos problemas da sexualidade. Outras ainda propõem medidas educativas com diferentes propostas. E nesse universo de observações há igualmente uma grande maioria da população que está fora do debate e da busca de soluções. Estão numa postura de desinformação política e social aguardando que um problema individual irrompa e venha motivar a sua procura imediata de soluções. Nessa conjuntura somos chamadas/os ao discernimento e a uma reflexão que busque ver os muitos matizes de uma mesma situação. Não há mais lugar para posições absolutas, para princípios imutáveis fundados numa imagem de Deus que é facilmente manipulada pelos diferentes grupos. O desinteresse pelo pensamento é algo que nos choca. Reduz-se o pensamento crítico aos interesses individuais ou partidários sem que se reflita na humanidade plural que constitui a nação brasileira e todas as outras nações do mundo. Estamos necessitadas de uma compreensão não sectária de nossos problemas e da busca de soluções viáveis. Essa compreensão deve ser ampla para ser compatível com as diferentes visões do que se considera vida justa e bem viver. Mas, onde vamos encontrá-la? Creio que o único caminho é o diálogo incessantemente recomeçado pelos diferentes grupos, um diálogo onde desde o início, embora com nossas convicções, estejamos dispostos a ouvir os outros. Ouvir é a grande questão, pois na realidade desaprendemos a ouvir numa sociedade onde predomina o barulho das máquinas, dos muitos sons, dos muitos gritos humanos que de tão fortes não conseguem ser distinguidos pelos ouvidos de uns e de outros. Baixar a nossa voz, talvez até silenciar para ouvir a melodia da música alheia, para aprender outros sons que também constituem as notas da musicalidade humana e da sinfonia do universo. Baixar a voz para aprender a pensar, para escutar a nossa voz interior. E só então, dar alguns passos em conjunto sabendo que estamos todas/os a caminho, com possibilidades inevitáveis de tropeçar e de perder o rumo, mas estamos juntas/os na extraordinária aventura humana. Julho 2013. http://www.adital.org.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=76468

terça-feira, 16 de julho de 2013

Fé cristã e compromisso político

Víctor Codina sj//////// Adital////// Tradução: ADITAL//////// Palavras de Víctor Codina SJ na apresentação do livro "Gregorio Iriarte ¿Quién fuiste y que dicen de ti?”/////// 1. Entendemos por fé cristã a adesão pessoal a Jesus na Igreja e entendemos por compromisso político, não só e nem principalmente o compromisso partidário com a "polis”, com a sociedade política, com a cidadania; em última instância, o compromisso com a justiça e com a humanidade. O binômio fé cristã e compromisso político não é tão simples e óbvio como possa parecer, pois, muitas vezes, a fé cristã e o compromisso político estiveram e estão separados e, às vezes, contrapostos. Existiu e existe ainda um divórcio entre fé cristã e compromisso político. Ditadores latino-americanos que se diziam cristãos, comungavam e assistiam à procissão de Corpus Christi, torturavam e assassinavam seus inimigos políticos; políticos que se dizem cristãos são corruptos. Há em muitos cristãos uma deformação teórica e prática da fé cristã que, muitas vezes, reduz a fé à profissão de umas verdades (o credo e o catecismo) e ao cumprimento de alguns ritos e devoções, sem que tudo isso tenha consequências morais e menos ainda no terreno da justiça social e do compromisso com a cidadania. Para muitos cristãos tradicionais, a moral se reduz à moral sexual e familiar, tudo o mais com algumas ações de beneficência e assistência caritativa. Uma fé individualista que não tem muito a ver com a vida, nem com a história, nem com a política. Nesse caso, a fé cristã se converte em um fato meramente cultural, um verniz para esconder uma atitude individualista, não solidária e injusta. É o que se denomina cristianismo burguês. Porém, além dessa deformação ideológica, existe uma visão negativa da política; para muitos cristãos existe um dualismo entre e Igreja e a política; entre a Igreja e a sociedade; entre a Igreja e o mundo; entre nós e eles; entre o correto e o incorreto, como se a Igreja se identificasse com o bem e a política com o mal; a Igreja com a cultura da vida e a sociedade com a cultura da morte; como se o cristão, para ir a Deus tivesse que fugir do mundo e refugiar-se nos muros da Igreja... Não é estranho que Puebla afirme que na América Latina existe um divórcio real entre a fé cristã e a justiça social, o que, como afirma Puebla, constitui um escândalo e uma contradição com o ser cristão (Puebla, 28). Tampouco é estranho que muitos pensem que a religião, a fé cristã e a própria Igreja são alienação e ópio do povo. Por outro lado, também constatamos como algo muito positivo a existência de muitas pessoas em todo o mundo que praticam a justiça e lutam pelos direitos humanos com um compromisso social e político, sem que adiram à fé cristã. Por exemplo, membros de religiões não cristãs, como Gandhi e Dalai Lama, como os atores da primavera africana, como muitos jovens voluntários, muitas vezes agnósticos ou ateus, que não querem saber de nada com a Igreja; porém, que, no entanto, são muito sensíveis aos direitos humanos, à luta pela justiça e ao compromisso político por uma sociedade mais justa. O compromisso político pela justiça não é algo exclusivo do cristão, mas constitui uma dimensão ética de toda autêntica existência humana. 2. Nada mais distante dessa caricatura do cristianismo alheio à história, à justiça e à sociedade que a visão bíblica da fé cristã. No Antigo Testamento, Yahvé se revela sobretudo através dos profetas, como o defensor do pobre, do órfão e da viúva; aquele que deseja que se pratique o direito e a justiça sobretudo com os mais débeis; o que se comove ante o sofrimento e o clamor do povo e busca sua libertação; ele não quer sacrifícios e nem oferendas; quer justiça e misericórdia; compromisso e solidariedade. Essa revelação alcança sua plenitude em Jesus de Nazaré, que anuncia o projeto do Reino de Deus, um projeto de vida plena e comunhão fraterna para toda a humanidade, para toda a sociedade, simbolizado no banquete messiânico no qual todos participam dos bens da criação e no qual os primeiros destinatários são os pobres e débeis aos quais a sociedade ordinariamente exclui e marginaliza. A esse Reino de Deus Jesus entrega toda a sua vida até a cruz e ao ser ressuscitado pelo Espírito, o Pai confirma a validade desse projeto solidário; projeto que desde o Pentecostes, a Igreja está encarregada de realizar no mundo; uma Igreja que deve ser um recinto de amor e de graça, onde todos encontrem razões para viver e ter esperança. 3. Porém, seríamos injustos se não reconhecêssemos que ao longo da história da Igreja não só houve deformações da vida cristã, divórcio entre fé e justiça, mas também autênticas expressões do evangelho, integrando fé e justiça, fé e compromisso solidário. Certamente, no começo da Igreja, realizou-se mais na linha da beneficência e do assistencialismo (esmolas, hospitais, asilos, restaurantes populares, atenção aos escravos e prisioneiros, proteção à mulheres...). Porém, desde que a sociologia e a economia modernas nos fizeram compreender que a pobreza não é casual, mas que tem causas estruturais, a fé cristã adquiriu uma dimensão mais clara de compromisso político com a justiça e de luta contra as estruturas injustas que produzem a morte do povo. A Doutrina Social da Igreja; Juan XXIII, com seu desejo de uma Igreja dos pobres e sua encíclica Pacem in terris; o Vaticano II, com seu ensinamento sobre os signos dos tempos abriram caminhos claros na conexão entre fé cristã e compromisso político pela justiça. Os gozos e esperanças, as tristezas e angústias do povo, sobretudo dos pobres são gozos, esperanças, angústias e tristezas da Igreja (GS 1). O Vaticano II não fala de Igreja "e” mundo; mas, de Igreja "no” mundo, na sociedade política; passa da anátema ao diálogo, sabendo que o Espírito não somente se acha presente na Igreja como também na sociedade, a qual a Igreja ajuda; porém, da qual também a Igreja recebe ajuda; sabendo que tanto na sociedade como na própria Igreja mesclam-se o trigo e cizânia, e que todos devemos caminhar unidos rumo ao Reino de Deus. Porém, também nas demais Igrejas cristãs, temos exemplos vivos da conexão entre fé e política. Pensemos em Dietrich Bonhoeffer, em Martin Luther King, Dorothe Sölle ou em Nelson Mandela. 4. Nesse caminho de relação entre Igreja e sociedade política situa-se a atual tradição latino-americana que em Medellín fez uma recepção criativa do Vaticano II ao escutar o clamor angustiado de um povo que pede justiça, pão, terras, saúde, educação, trabalho, teto, respeito a sua dignidade, a seus direitos humanos e a suas culturas. A partir de Medellín, a Igreja latino-americana volta a integrar fé e compromisso político pela justiça: surge uma ‘floração’ de bispos, verdadeiros Santos Padres da Igreja dos pobres, que defendem ao povo das injustiças, comprometem-se com uma mudança das estruturas, como Helder Camara [Brasil], Proaño [Equador], Méndez Arceo [México], Pironio e Angelelli [Argentina], Óscar Romero [El Salvador], Samuel Ruiz [México, Chiapas], Aloisio Lorscheider e Mendes de Almeida [Brasil], Enrique Alvear [Chile] e, na Bolívia, Jorge Manrique, Manuel Eguiguren, para citar somente os já falecidos; nascem as Comunidades de Base lideradas, sobretudo por mulheres do povo com um compromisso social e político; a vida religiosa, sobretudo a feminina, se insere nos setores mais pobres e populares, entre mineradores, camponeses, indígenas, acompanhando ao povo em suas lutas e reivindicações; há muitos leigos cristãos comprometidos com a justiça e a política e nos processos de transformação política que buscam um mundo melhor, porque outro mundo é possível; surge a Teologia da Libertação que, com suas limitações e críticas, é uma força profética e evangélica que impulsiona ao compromisso político. A opção pelos pobres está implícita em nossa fé cristológica, tudo o que tem a ver com Cristo tem que ver com os pobres, como afirma Aparecida (Aparecida 393), tudo o que tem consequências sociais e políticas. Porém, tudo isso tem seu preço; há perseguição e martírio, desde bispos, como Romero e Angelelli, a sacerdotes e religiosas, como Mauricio Lefébvre, Luis Espinal, Ignacio Ellacuría, a Irmã Dorothy Stang e quantidade de homens e mulheres do povo, santos inocentes, assassinados pela fé e pela justiça, por seu compromisso com o povo e com a política; verdadeiros mártires jesuânicos... 5. Nesse contexto histórico latino-americano de compromisso cristão pela justiça e pela política, temos que situar a Gregorio Iriarte, sua vocação missionária a América Latina, sua estância na Argentina e no Uruguai; sua chegada a Bolívia, em 1964, às minas do Século XX e à radio Pio XII; sua experiência de impacto do massacre dos mineiros na noite de São João; sua defesa dos mineiros perseguidos; sua luta pela justiça e pelos direitos humanos em tempos de ditaduras; suas análises da realidade nacional; sua difusão da Doutrina Social da Igreja e do Magistério latino-americano; sua preocupação por fazer mudar a mentalidade de muitos cristãos conservadores (leigos, sacerdotes, bispos, religiosos); suas perseguições; todo seu trabalho de conferencista e escritor, sobretudo ultimamente desde Cochabamba. E tudo isso como consequência de sua fé cristã, em coerência com sua adesão e seguimento a Jesus, na Igreja e na vida religiosa, como fruto do evangelho lido no mundo de hoje, a partir do povo, unindo, assim, mística e profecia; amor à Igreja e serviço ao povo da Bolívia, a Bíblia e o diário. http://www.adital.org.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=76364

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Sobre la beatificación de Monseñor Romero

por Jon Sobrino Domingo, 23 de Junio de 2013 09:22////// Jon Sobrino, Universidad Centroamericana-UCA, analiza el cambio de rumbo de la beatificación de San Romero de América, del que don Pedro Casaldáliga dijo aquello de Nadie Hará Callar tu última homilía. Una homilía anti-militarista..///// [SOBRE LA BEATIFICACIÓN] "SAN ROMERO DE AMÉRICA"///// Por Jon Sobrino S.J.//// http://www.kaosenlared.net/component/k2/item/61105-sobre-la-beatificaci%C3%B3n-de-monse%C3%B1or-romero.html //////// Muchos se han preguntado desde hace tiempo cuándo canonizarán a Monseñor Romero. Otros han ido más al fondo: "si Monseñor Romero no es santo, ¿quién lo será?”. Y otros no han ocultado su sorpresa y algún enojo. Ante la rapidez con que se canonizó a la madre Teresa y a Juan Pablo II -por no hablar de José María Escrivá- no comprenden el silencio en que ha quedado Monseñor. Pues bien, parece que ha llegado la hora. El Papa Francisco. Más que "desbloqueo”, "ruptura”. La renuncia de Benedicto XVI fue una ruptura de gran magnitud, un gesto de honradez infrecuente en Roma, y creó el ambiente necesario para otras rupturas. Y así ha ocurrido. El 20 de abril el arzobispo Vincenzo Paglia, tras un encuentro con el Papa, anunció que "la causa de beatificación de Monseñor Romero ha sido desbloqueada”. (Hablaremos de beatificación o, en general, de canonización). Ha habido "desbloqueo” porque la causa había quedado "engavetada” sine die en la Doctrina de la Fe. Pero no parece que las razones fueran sólo burocráticas, fácilmente eliminables por un Papa. Lo que hizo el Papa Francisco tiene las trazas de haber sido una "ruptura”: "jerarcas de diversas curias durante años han hecho lo posible para impedir la canonización. Es bien conocido que, en vida, la oligarquía y demás poderes del mundo salvadoreño trataron a Monseñor con desvergüenza y crueldad. "Monseñor vende su alma al diablo”, publicó un periódico de la oligarquía. Y con estas hojas llenaron las calles de la capital: "Haga patria, mate un cura”. Pero no solo ellos estaban en contra. En curias eclesiásticas, en y más allá de El Salvador, hubo jerarcas que desde el comienzo trataron a Monseñor con prejuicios inflexibles y muchas veces sin justicia. No le perdonaban su apoyo a la teología, aunque fuese buena, si era de la liberación. Ni le perdonaban su apoyo, aunque fuera justo -y crítico-, a las organizaciones populares. Sus enfrentamientos claros y sus denuncias radicales con opresores, ejércitos, escuadrones de la muerte, gobiernos, imperio norteamericano, les causaron sorpresa y pavor. Y para gente de Iglesia la molestia más honda, y menos confesable, es que Monseñor, en su pensar, hablar y comportarse, se parecía mucho a Jesús de Nazaret. Y sus palabras les destanteaban totalmente: "Me alegro hermanos de que la Iglesia sea perseguida… Sería muy triste que en nuestra Iglesia no hubiese sacerdotes asesinados”. Los problemas comenzaron pronto. La nunciatura reaccionó agresivamente contra su decisión de una misa única tras el asesinato del Padre Rutilio el 20 de marzo de 1977, que fue un auténtico clamor de fe, esperanza y compromiso, solo igualada por la misa de funeral del mismo Monseñor el 30 de marzo de 1980. Con la excepción de monseñor Rivera, el resto de los obispos salvadoreños, le fueron contrarios, a veces pública y burdamente. En 1978 publicaron un mensaje, breve y malo, sobre las organizaciones populares, que contradecía frontalmente la larga carta pastoral de Monseñor Romero sobre La Iglesia y las organizaciones políticas populares. Poco antes de su muerte escribió en su diario las tres cosas que le preocupaban. La última era "su situación conflictiva” con los otros obispos. Y recuerdo la alegría que le embargó en Puebla en una reunión con obispos afectos a Medellín. "¡Qué bueno poder estar aquí como entre hermanos!”. A su funeral no asistió ninguno de los obispos de El Salvador, con la excepción de Monseñor Rivera Damas. En la curia vaticana han hablado mal de Monseñor visitantes y residentes poderosos, funcionarios del gobierno de Estados Unidos y obispos como Alfonso López Trujillo. De Roma le enviaron visitadores en repetidas ocasiones, y en un momento dado pensaron retirarle de su cargo o inutilizarlo como Arzobispo, nombrando un obispo coadjutor sede plena, con plenos poderes. Monseñor respondió: "Estoy dispuesto a obedecer. Si me quitan solo les pido que lo hagan con dignidad para que no sufra mi pueblo”. En sus viajes a Roma compartía sus problemas con el Padre Arrupe y con el cardenal Pironio, ambos en dificultades con la curia, y se animaban mutuamente. Y en los últimos años agradeció mucho la visita que le hizo el cardenal Lorscheider. De su visita a Pablo VI en mayo de 1977 salió feliz. De su primera visita a Juan Pablo II salió decepcionado y triste. De la segunda visita salió serenamente confortado. Después de su asesinato, Juan Pablo II, inesperadamente y sin comunicarlo al gobierno, fue a honrarlo a su tumba en Catedral. Lo llamó "celoso pastor”. A Benedicto XVI los periodistas le preguntaron varias veces cuándo será la canonización de Monseñor Romero. En su respuesta a un periodista francés vino a decir que "el retraso no se debía a la persona del arzobispo asesinado, que, por su virtudes heroicas, merecía ser beatificado. Se debía, más bien, a la situación políticamente encontradiza que reina en El Salvador a propósito de la obra de Monseñor”. La pregunta que queda es por qué, en concreto, en esa situación "la canonización no es oportuna”. Monseñor Urioste ha dicho muchas veces que Monseñor Romero ha sido el salvadoreño más amado y el más odiado en el país. Los poderosos, oligarquía, ejército y escuadrones de la muerte, la economía, la política y muchos de los medios, le odiaron en vida. De algunos de ellos salieron quienes lo asesinaron. Y los más recalcitrantes esa noche brindaron con champán. No es fácil para el Vaticano canonizar a Monseñor, estando vivos, y aun teniendo que estar quizás presentes por razones protocolarias en su beatificación, algunos enemigos importantes de Monseñor. Quizás sea eso lo que no se juzga "oportuno”. Quizás tampoco sea oportuno ponerlo públicamente como ejemplo eximio de obispo, pues incomodará a algunos de ellos. Y quizás se repita que "no hay que politizar a Monseñor Romero” porque eso podría dificultar la canonización, manida afirmación repetida sin argumentos. Un santo. No sabemos qué se dirá en el acta de beatificación y de canonización. Nos gustaría que, además de lo que se vea sobre Monseñor desde la Roma universal, el acta diga las cosas importantes del Monseñor que vemos desde aquí. Conversión. En la mejor tradición de las Iglesias cristianas, Monseñor, hombre bueno y ético siempre, en los setenta pasó por un cambio radical o conversión. La causa principal fue el encuentro con los pobres, ya como obispo en Santiago de María y definitivamente en San Salvador. El 12 de marzo de 1977, ante el cadáver de Rutilio Grande y dos campesinos, su vida cambió para siempre. Las innumerables víctimas y los pobres y oprimidos le llevaron a una nueva vida definitiva. Encontró en ellos una ultimidad que coincidía con la ultimidad de Dios, y que no fue rebajada a segundo lugar por Dios. Eso pienso yo es lo que ocurrió en el corazón de Monseñor en aquellos momentos de conversión. Nunca dio marcha atrás. A eso le ayudaron los pobres en primer lugar, pero también lo que ocurrió ya en los primeros días. Los sacerdotes a quienes tenía por izquierdistas y de Medellín le apoyaron sin condiciones, mientras que quienes habían estado con él, como obispo moderado y nada político, le dejaron solo. Y también le convenció de que el nuevo camino era el correcto, el cuerpo eclesial que inmediatamente se formó a su alrededor, con sacerdotes y religiosas, las mayorías pobres y varios profesionales, universitarios de clases medias. Compasión contra la injusticia. Las puertas de su oficina en el arzobispado y en el hospitalito siempre estuvieron abiertas para escuchar y acoger al pobre. Y vivió en profundidad el abajamiento que acompañaba a la compasión: "A mí me toca ir recogiendo atropellos y cadáveres”, dijo en Aguilares. De ese modo se convirtió, como los obispos del siglo XVI, en defensor ex officio de los pobres. Denuncia contra la mentira y el encubrimiento. No hace falta extenderse en esto, pero sí es importante recalcar su forma de hacerlo que no tiene paralelo, especialmente en sus homilías. Todos los domingos sin excepción, mencionaba todas las violaciones a derechos durante la semana, de los que le había llegado noticia. Mencionaba los nombres de las víctimas, el lugar y circunstancias, la situación en que quedaban los familiares. Y siempre mencionó a los victimarios -también de las organizaciones populares cuando era el caso-, muy mayoritariamente miembros del ejército, cuerpos de seguridad y escuadrones de la muerte. Y les conminó: "En nombre de Dios y en nombre de este sufrido pueblo cuyos lamentos suben hasta el cielo, cada día más tumultuosos, les pido, les ruego, les ordeno en nombre de Dios, ¡Cese la represión!”. Contra la idolatría de la riqueza. La condenó, y por ello lo mataron. "Se mata a quien estorba”, había dicho. Estorbó al mencionar la injusticia del dinero y de la riqueza que elevó a idolatría. Y denunció muchas otras idolatrías, sobre todo la de la seguridad nacional. También condenó, a los medios de comunicación: "hoy nadie cree ya en nada”. Y a la corte suprema de justicia. "Gran parte del malestar de nuestra patria tiene allí su clave principal, en el presidente y en todos los colaboradores de la Corte Suprema de Justicia, que con más energía deberían exigir a las cámaras, a los juzgados, a los jueces, a todos los administradores de esa palabra sacrosanta, la justicia, que de verdad sean agentes de justicia”. Monseñor ante el misterio de Dios. Monseñor habló frecuentemente de Dios. Fiel a Puebla y a la teología de la liberación, ante todo condenó a las divinidades de la muerte, los ídolos, "los que necesitan víctimas para subsistir”. Pero por encima de todo habló del Dios de Jesús, el Dios real, el Dios de su vida y el Dios de la historia. Y habló con Dios. Es conocida su oración sentida. Y ante Dios quedaba postrado y se sentía feliz. Días antes de ser asesinado dijo en la homilía: "Ningún hombre se conoce mientras no se haya encontrado con Dios… ¡Quien me diera queridos hermanos que el fruto de esta predicación de hoy fuera que cada uno de nosotros fuéramos a encontrarnos con Dios y que viviéramos la alegría de su majestad y de nuestra pequeñez”. Los pobres de su pueblo. Monseñor los amó y los defendió. Siempre. Corría sus mismos riesgos y se lo decía. ”No abandonaré a este pueblo”. Denunciaba a sus enemigos, aunque fuese el presidente del país, el general Romero, y aunque fuese el presidente Carter a quien prohibió enviar armas. Defendió a los pobres y por ellos arriesgó todo, como sólo lo hacen los amigos de verdad. Y les comunicaba sin pudor lo que sentía por ellos: "Con este pueblo no cuesta ser buen pastor”. El pueblo, su pobrería, le quiso como rara vez se quiere a un personaje, a un obispo. Le lloraron como solo se llora a un padre. Hoy, 33 años después, muchos le siguen queriendo de verdad. En El Salvador, le quieren de manera distinta a como quieren a otros santos populares canonizados. Muy especialmente le quieren y le recuerdan supervivientes de masacres, esposas y madres de esposos e hijos asesinados y desaparecidos, familiares de víctimas de quienes nadie se acuerda. Y sin saber exactamente qué significa "canonización”, "culto público”, "intercesión”, se alegran de que un Papa, proclame su nombre solemnemente y diga a todo el mundo que Monseñor fue una buena persona. Están contentos. Y no es esta pequeña expresión de canonización. El acta vaticana de beatificación después de otras. No sabemos qué se escribirá en el acta vaticana de beatificación y canonización. Ojalá ofrezca al Monseñor Romero, santo tradicional y santo salvadoreño, como hemos intentado describir. Ojalá su nombre sirva de nombre a tantos que han quedado sin nombre, en El Mozote, entre los indígenas de Guatemala, entre los migrantes asesinados en México… Y ojalá dé nombre a tantos pueblos crucificados inocentes e indefensos. Y ya que fue obispo, ojalá en el acta se recuerde a Enrique Angelelli, Gerardo Valencia Cano, Juan Gerardi, Joaquín Ramos… obispos latinoamericanos asesinados. Con muchos otros, son los Padres de la Iglesia Latinoamericana desde Medellín. Solo Dios conoce como será el acta de canonización. Nosotros terminamos diciendo que Monseñor Romero ya ha sido canonizado. Y recordamos los principales momentos de su canonización. Monseñor Casaldáliga, en cuanto conoció su martirio, escribió el poema: "San Romero de América, pastor y mártir nuestro”. Y termina con una convicción: "Nadie hará callar tu última homilía”. Esperamos que la canonización venidera sea expresión de que siempre habrá una homilía de Monseñor. La Iglesia Anglicana, el 31 de marzo de 2005, en presencia de la reina de Inglaterra y del arzobispo de Canterbury, colocó en el centro de la fachada de Westminster la imagen de Monseñor Romero, junto con la de Martín Luther King y las de otros ocho mártires, hombres y mujeres, de todas las iglesias cristianas del siglo XX. Esperamos que la canonización venidera guarde este espíritu ecuménico. En la última Carta a las Iglesias, recordando el aniversario de Monseñor, escribimos: "En ti el huérfano encuentra compasión”. Con toda modestia y gozo decimos de él lo que el Antiguo Testamento decía de Yahvé. Ojalá la canonización venidera remita al Yahvé, Dios de pobres y víctimas. Ignacio Ellacuría en el funeral de la UCA, cuatro días después de su asesinato, dijo estas conocidas palabras, audaces y lúcidas: "Con Monseñor Romero, Dios pasó por El Salvador”. Ojalá Monseñor Romero, con miles de mártires como él, hombres y mujeres, sean canonizados con estas palabras: "Por América Latina, y por muchos otros lugares del tercer mundo, Dios ha pasado entre nosotros”. En una mañana de invierno un hombre harapiento limpiaba con esmero la tumba de Monseñor, valiéndose de sus harapos. Al termina sonríe satisfecho. Me acerqué y le pregunté: "¿Qué hace?”. Y me contestó. "Eso, limpiar la tumba de Monseñor. Porque él era mi padre”. "¿Cómo así?”. "Es que yo no soy más que un pobre. A veces acarreo en el mercado con un carretón, otras veces pido limosna y en veces me lo gasto todo en licor y en guaro, y paso la goma botado en la calle… Pero siempre me animo. Yo tuve un padre que me hizo sentir gente. Porque a los como yo él nos quería y no nos tenía asco. Nos hablaba, nos tocaba, nos preguntaba. Nos confiaba. Se le echaba de ver el cariño que me tenía. Como quieren los padres. Por eso yo le limpio su tumba. Como hacen los hijos, pues”. [Lo cuenta María López Vigil en su libro Piezas para un retrato] Jon Sobrino. UCA. El Salvador

quarta-feira, 10 de julho de 2013

PADRE GUSTAVO GUTIÉRREZ. TEOLOGÍA EN DIÁLOGO CON LA LITERATURA

junio 9, 2013 EXPOSICIÓN QUE PRESENTÉ EN LA UNIVERSIDAD ANTONIO RUIZ DE MONTOYA EL 04 DE ABRIL DE 2012 , CON OCASIÓN DEL CICLO ‘TEOLOGÍA DE LA LIBERACIÓN ENCUENTROS Y DESAFÍOS’ , texto posteriormente publicado con ligeras variantes en la Revista Páginas Nº 229, marzo de 2013 HABLAR DE DIOS DESDE LA LITERATURA En primer lugar, quiero agradecer al Programa de Humanidades de la UARM, la invitación a participar en esta jornada que me significa un verdadero privilegio: Hablar de una persona a la que no solo se admira por la brillantez de su pensamiento sino que se le tiene enorme gratitud por la siempre afectuosa acogida y sabio magisterio a través de varias décadas. Privilegio desafiante porque implica ingresar a aspectos de una disciplina distinta a las que frecuento. Puesta en la tarea y aceptando los riesgos, lo que sigue es la presentación de algunos textos y autores en los que confluyen literatura y Teología de la Liberación, observaciones que hoy adquieren connotaciones especiales al celebrarse en nuestro país, en abril, el mes de las letras. Empezaré mencionando la amistad que Gustavo Gutiérrez, fino escritor, a la par que teólogo, ha sabido cultivar y cultiva con los artistas, en este caso con poetas, narradores y ensayistas. Hecho sugerente pues no se trata solo del lector sensitivo y atento sino que su lectura de las obras se ha visto enriquecida por la cercanía, las vivencias compartidas y el intercambio de ideas. Desde muy joven amigo cercano de Juan Gonzalo Rose; posteriormente de Alejandro Romualdo, Washington Delgado y de tantos otros poetas; lector acucioso y profundo de César Vallejo; amigo cercano de José María Arguedas; lector fecundo de José Carlos Mariátegui. Amigo de Alberto Escobar, Antonio Cornejo Polar, Carlos Iván Degregori, y de tantos otros. LOS ENCUENTROS LA TEMPRANA AMISTAD CON JUAN GONZALO ROSE Es este un punto de partida para cumplir con lo que los organizadores de este conversatorio han denominado ‘encuentros’. Poeta y teólogo mantienen una prolongada amistad. Juan Gonzalo Rose, autor de poemas imborrables como”Epístola a Bartolomé de las Casas” del año 1968 (¡Ah miliciano del amor cristiano! / En nombre de mi pueblo te bautizo: / Fray hombre,/ Fray amigo, /Fray hermano”) y de “La pregunta” de 1954; poema con que Gustavo abre, en 1986, su Hablar de Dios desde el sufrimiento del Inocente: Una reflexión sobre el libro de Job, Mi madre me decía: si matas a pedradas los pajaritos blancos, Dios te va a castigar; si pegas a tu amigo, el de carita de asno, Dios te va a castigar. Era el signo de Dios de dos palitos, y sus diez teologales mandamientos cabían en mi mano, como diez dedos más. Hoy me dicen: si no amas la guerra, si no matas diariamente una paloma, Dios te castigará; si no pegas al negro, si no odias al rojo, Dios te castigará; si al pobre das ideas en vez de darle un beso, si le hablas de justicia en vez de caridad, Dios te castigará. Dios te castigará. No es este nuestro Dios, ¿verdad mamá? Acerca de la temprana amistad que unió a estos admirables creadores, la hermana del poeta, en entrevista dada en noviembre del 2003, narra algunos pasajes de la vida del escritor y responde a la pregunta de por qué salió Juan Gonzalo del Colegio Claretiano, lo siguiente: “De ese colegio lo sacan porque uno de los padres claretianos habló una vez defendiendo a Francisco Franco y Juan Gonzalo lo refutó acusando al dictador de asesino. Tendría unos 15 o 16 años. No era que le interesase en ese momento la política sino que él conocía que Franco había matado a García Lorca y para él, que le gustaba la poesía, no le quedó otra cosa que defender al poeta asesinado.” El entrevistador inquiere ¿Qué hizo entonces? Y María Teresa narra: “Después de ese incidente vino mi papá a Chorrillos, como director del colegio Eguren, donde Juan Gonzalo acabó su media. Allí conoce al padre Gustavo Gutiérrez y se hicieron amiguísimos. El padre Gutiérrez lo adoraba. Con el tiempo los dos se influyeron, eso lo reconoció mi hermano, en el tema político y religioso. Cuando muere Juan Gonzalo lo hace como cristiano.” (Las edades, 2007) En “La pregunta”, precursoramente se encuentra implícita las nociones contrapuestas del Dios castigador y el Dios amor, desarrolladas en la Teología de la liberación. EXTENSO DIÁLOGO CON ALEJANDRO ROMUALDO De la cercanía a Alejandro Romualdo puedo dar fe. En el joven autor de La torre de los alucinados (1949), obra que lleva un epígrafe de Rilke: (“Mira, Dios, un recién llegado/ se aproxima, construyendo, a ti, que ayer, solo un niño era”) los estudiosos advierten no solo la presencia de Rilke sino temas de inmediatas connotaciones religiosas. Cercanía y coincidencias generacionales. Es necesario remarcar que Gustavo Gutiérrez pertenece a la brillante Generación de los años 50’ que tantos nombres ilustres aporta a la cultura del país y que uno de sus más reconocidos poetas es Alejandro Romualdo. En el año 1951, Xano, escribe: “Dios en su temporal, pálido espejo/ humano se revela, está tan hondo/ tan brutal, amarrado a mi reflejo;/ ¡Animal humanísimo en el fondo! /… ¡Ay la humana figura en que lo agarro/ en que lo divinizo y lo constato / del espejo a la piel/ del sueño al barro!” (“Fondo común” En: Mar de fondo, 1951) Como ha señalado Marco Martos, “En los años 50/52, la poesía de Romualdo se distinguirá todavía por una preocupación de orden religioso; la divinidad aparece hermanada con el hombre, y más aún, inventada por él. Después, en el poemario España elemental, el tema es el dolor por el sufrimiento del pueblo español.” Romualdo, más adelante, en En la extensión de la palabra de 1974, en variadas ocasiones aludirá a una religiosidad sin Dios. Libro que todavía reclama una atención más dedicada. Romualdo que en el año 1977 y al lado de Gustavo Gutiérrez, afirmó de José María Arguedas que “no solo logró trazar un sentido de las letras y el pensamiento humano, sino lanzar y tatuar una visión del Perú contemporáneo” (Romualdo 1977:33) Si nos preguntamos sobre la vinculación de los textos creativos con la teología, encontramos que la base estos textos y el hablar de Dios que propone la Teología de la Liberación, está claramente establecida en la postura estético ética de los creadores literarios en defensa de la vida, la adhesión a los más desfavorecidos, a los humildes y ofendidos. GUTIÉRREZ, LECTOR DE VALLEJO La poesía, nos dice Gustavo Gutiérrez, es un lenguaje privilegiado para hablar de Dios. Y en la poesía de César Vallejo, no solo encontrará la fuente para frecuentes citas sino que le dedicará un minucioso estudio. La naturaleza icástica del texto poético y, por ello, su papel revelador de realidades es puesto de manifiesto cuando afirma: “La poesía es un lenguaje privilegiado para hablar de Dios. … no es posible hablar de aquel que la Biblia considera el Amor y la Vida, si no con belleza. Diría que hay un segundo aspecto, y es el que no hay nada más cuestionador que la poesía. Creo que Vallejo hace eso con su poesía: una interpelación permanente al vivir humano, a la relación con Dios, a la sociedad a la que pertenece” (Gutiérrez 1993:117) En su estudio acerca de la poesía de Vallejo, Gutiérrez advierte la que no toda referencia bíblica puede denotar una dimensión de esa naturaleza, por ello sobre la concepción religiosa de Vallejo precisa: “Entiendo por dimensión religiosa de un texto, de un autor: lo que dice en referencia directa a Dios.. Todos sabemos, por ejemplo, que hay en Vallejo numerosas referencias bíblicas, muchas más de las que los estudios nos recuerdan, porque las más de las veces son implícitas. Sin embargo, me parece que estas referencias bíblicas no adquieren sentido religioso si no vamos a lo que me he permitido llamar el núcleo central. Por ello no llamaría dimensión religiosa a una mención bíblica si ella no está sostenida por una actitud del autor ante Dios” (118) Con estos presupuestos el padre Gutiérrez, analiza el carácter universal de Vallejo a partir de la experiencia humana más profunda y cuestionante del dolor. Y citando el poema “Los nueve monstruos” dirá: “Se trata de un dolor que no solamente es personal, sino que abarca la humanidad entera”. (119) Sin embargo, esta exposición reiterada del sufrimiento “alrededor del cual giran muchas imágenes y muchas intuiciones del poeta” (118) no anulan la esperanza. El sufrimiento “no elimina en Vallejo un hálito de esperanza, de alegría, de ganas de vivir”. Señala luego la contradicción que aparece en el poema “Voy a hablar de la esperanza” , “uno de los más dolorosos” del autor de Poemas Humanos. En este punto, el teólogo presenta una interesante distinción entre sufrimiento y tristeza. De esta última dice que “trae cerrazón, amargura”. Y luego llama nuestra atención sobre el poema “Los nueves monstruos” donde se habla del crecimiento del dolor y sin embargo se repite “Hay hermanos muchísimo que hacer” en muestra inequívoca que la voz que habla en el poema no se encierra en sí misma sino que se abre a la solidaridad. Desde la propuesta raigal de la Teología de la liberación, el amor ante el que sufre y el llamado al cambio por la acción solidaria, es leída la poesía de César Vallejo. Poesía que ostenta también como rasgo distintivo el reclamo, el cuestionamiento humano a Dios por el sufrimiento. “Si tú hubieras sido hombre, hoy supieras ser Dios”. Ya en Teología de la liberación, (1972: 262) Gutiérrez había relacionado estos versos, “doloroso reclamo” los llama, al tema de la obra cinematográfica de Buñuel, Nazarín. La lectura de Gutiérrez a este verso que pudiera ser considerado una blasfemia, es sumamente esclarecedora: “Hay un profundo reclamo –permítanme emplear la expresión técnica – de encarnación de Dios en este texto de Vallejo… En una perspectiva cristiana si comprendemos que Dios nos ama, es porque uno de nosotros nos amó. Podemos afirmar que Dios nos ama porque Jesús, el judío, el nazareno, nos amó. Es a través del amor de un ser humano que se nos revela el amor de Dios. Hay aquí, en Vallejo, aunque aparentemente en negativo, una intuición muy profunda. Permítanme decir que si ya el poema de Vallejo (creado a inicios del siglo pasado) era extremadamente interpelante, la explicación del teólogo de la liberación (a fines del mismo siglo) lo es aún más. La exigencia de amor adquiere dimensiones más dilatadas. Cómo hablar de Dios sin el acompañamiento del amor en concreto. El amor universal que hace que Gutiérrez recuerde y cite el poema “Traspié entre dos estrellas” (“Amado el que tiene chinches/ amado el que no tiene cumpleaños / amado el que lleva reloj y ha visto a Dios”): “Esas ‘bienaventuranzas’ son maneras de proclamar el amor por diferentes personas, amor por el pobre miserable, por el pobre pobre. Y aquí viene entonces el tema de la utopía: “Desayunados todos en una mañana eterna” En los párrafos finales Gustavo Gutiérrez señala que Vallejo habla de Dios “a partir de Dios hecho hombre, de aquel que llamamos Jesucristo. Y es por eso que ve en él al Dios – simultáneamente – que crea y al Dios que le duele el corazón”. Para el teólogo de la liberación, “Vallejo prefiere ver a un Dios que muere y que resucita”. Y por ello la cita de “Masa” (Entonces, todos los hombres de la tierra le rodearon; /les vio el cadáver triste, emocionado;/ incorporóse lentamente, / abrazó al primer hombre; echóse a andar…). En palabras de Gustavo, “El amor da vida, vence a la muerte”. Un punto necesario de remarcar es el del respeto con el que Gutiérrez se acerca a las obras literarias y a sus creadores. Nunca desde una postura didascálica sino con la actitud del lector atento y abierto a lo que los textos y autores registran. Como lo advierte al inicio del trabajo sobre la concepción religiosa de Vallejo: “quisiera decir que intento entrar en el asunto con un gran respeto por las convicciones personales de este hombre. Creo que a ese nivel, el de las convicciones personales, hay umbrales que a nadie, salvo al interesado, le está permitido atravesar”. (Gutiérrez 1993:118) Algo parecido responde al ser preguntado en 1977 acerca del suicidio de José María Arguedas: “Ni condeno ni justifico. ¿Quién soy yo para justificar o condenar un acto muy difícil de explicar que se mueve a niveles de profundidad muy grandes? A esto aludía hace un momento cuando dije que hay umbrales que no podemos atravesar y este, para mí, es uno de ellos”. (Gutiérrez 1977:69) GUTIÉRREZ Y ARGUEDAS José María Arguedas es, sin lugar a dudas, el autor literario más estrechamente vinculado a la Teología de la liberación y más citado por Gustavo Gutiérrez. Como se recuerda, Teología de la Liberación. Perspectivas (1971) se inicia con una larga cita de Todas las sangres(1964). Más adelante, refiriéndose a la solidaridad concreta, el teólogo dirá: “La predicación de la palabra sería vacía y ahistórica si pretendiera escamotear esta dimensión, no sería el mensaje de Dios que libera, de aquel que se reintegra, como diría José María Arguedas” (Gutiérrez 1972: 348). Frases estas últimas tomadas del Último diario de El zorro de arriba y el zorro de abajo (1969). Gutiérrez ha indicado de manera explícita que “En Arguedas hay ciertamente un proyecto de liberación, buscado a través de tanteos, pero con honda convicción y amor. Los años en que forjó su obra son particularmente efervescentes. La búsqueda fue atormentada, porque fue hondamente vivida en la encrucijada de marchas y contramarchas históricas de un pueblo” (Gutiérrez 1990: 11) La sintonía entre el narrador y el teólogo es referida por el propio Arguedas en la carta que le dirige a Gustavo el 25 de agosto del 69, cinco días después del primer borrador de ¿Último diario?, como refiere Gutiérrez en su ensayo sobre el narrador: “Querido Gustavo: Creo haber terminado, aunque muy exabruptamente (sic) la novela. Tu tarjeta me llegó un día singularmente oportuno. Tuve días duros, muy duros. Ya habían empezado cuando nos vimos. Tu visita me hizo mucho bien. Con tus palabras que leí en Chimbote y más con el trato directo contigo, se fortaleció mi fe en el porvenir que jamás me falló ¡Qué bien nos entendemos y vemos, juntos, regocijadamente la luz que nadie apagará! Saludos a César (Arróspide) Un abrazo, José María” (Gutiérrez 1990:24) En el plano del lenguaje, César del Masto ubica esta cercanía desde la postura ética: “el lenguaje de las obras del novelista y del teólogo interpela al lector porque nace de una profunda capacidad para hacer suyos y decir, con ‘sangre y no solo por profesión’ los sufrimientos y las esperanzas de los últimos. Gracias a que comparten un mismo mirador que los hace ver la historia y dar testimonio de ella desde el lugar de los pobres, la literatura de Arguedas y la teología de la liberación cuestionan la conciencia del lector desde las heridas de un país…”. Aunque en las anteriores obras de Arguedas – como bien lo demuestra el estupendo ensayo de Gutiérrez Entre las calandrias- se había ido esbozando la distinción entre el Dios inquisidor y el Dios liberador, es en el Zorro de arriba y el zorro de abajo, especialmente en el capítulo final y en el Último diario, donde esta se proclama de manera definitiva. “Es mucho menos lo que sabemos que la gran esperanza que sentimos, Gustavo? ¿Puedes decirlo tú, el teólogo del Dios liberador, que llegaste a visitarme aquí, a Lorena 12 75, donde estuvimos tan contentos a pesar de que yo en esos días ya no escribía nada? Claro; yo te había leído en Lima esas páginas de Todas las sangres en que el sacristán y cantor de San Pedro de Layhuaymarca, le replica a un cura del Dios inquisidor, le replica con argumentos muy semejantes a los de tus lúcidas y patéticas conferencias pronunciadas, hace poco, en Chimbote” (Arguedas 1969:285) Sobre la circunstancia en la que Arguedas le hace conocer el mencionado pasaje de Todas las sangres, Gustavo Gutiérrez narra que fue en 1968, en presencia de C. Arróspide, “José María nos leyó estas páginas…diciendo con cierta picardía “lo siento, pero ya había escrito esto antes de tus conferencias en Chimbote” (Gutiérrez 1990: 84) El trabajo de Gutiérrez sobre Arguedas, por la importancia de los datos que aporta amerita un abordaje independiente que excede los propósitos de esta jornada. Sin embargo, no quiero dejar de mencionar lo señalado por el poeta Washington Delgado en el Prólogo de la obra: “Hay escritores que son religiosos y escritores que no lo son, independientemente de sus convicciones personales… César Vallejo y José María Arguedas se apartaron de la iglesia católica y no asumieron ningún credo, pero ambos son religiosos…. Vallejo ha escrito: ‘Yo no sufro este dolor como católico, como mahometano ni como ateo. Hoy sufro solamente. Si no me llamase César Vallejo, también lo sufriría’. Asimismo escribió Vallejo: ‘Amado sea aquel que tiene chinches/ el que lleva un zapato roto bajo la lluvia,/ …el animal, el que parece un loro/ el que parece un hombre, el pobre rico/ el pobre pobre, el pobre miserable”. Esa es la religiosidad de César Vallejo. Esa es también la religiosidad de José María Arguedas. Puede ser una religiosidad sin Dios, pero tiene un centro de divino: la angustia íntima y el intenso amor al prójimo. Nadie mejor que Gustavo Gutiérrez para estudiarla, comentarla y explicarla” (Delgado 1990: XV- XVI) Muchas son las frases de Gustavo Gutiérrez, en su ensayo Entre las calandrias, que van han centro del mensaje arguediano. Elijo a estas por considerarlas plenas de sugerencia para las tareas del presente y futuro: “Arguedas escribe a partir de una estirpe capaz, tal vez, de darle unidad e identidad a un país dislocado y desgarrado, estableciendo en él una fraternidad de los miserables” (1990:3-4) Frases que leemos 22 años después de publicadas y que me llevan a otra afirmación del autor en la misma obra, cuando hablando de la necesidad de continuar el estudio de la cuestión en Arguedas, señala: “Una visión de la vida fijada en el pasado se cierra en última instancia a la visión cristiana. La fe cristiana implica abertura al futuro, dinamismo histórico, fe en el porvenir”. A más de cuarenta años de publicado Teología de la liberación. Perspectivas, estamos ya en ese ‘porvenir’. En el trayecto Gustavo Gutiérrez, doctor Honoris Causa de multitud de universidades del mundo, miembro de la Academia Peruana de la Lengua desde 1995, ha recibido el merecido amplio reconocimiento que lo ubica como uno de los teólogos más influyentes del siglo XX y lo que va del XXI, “Por su coincidente preocupación por los sectores más desfavorecidos y por su independencia frente a presiones de todo signo, que han tratado de tergiversar su mensaje, el jurado considera que Gustavo Gutiérrez y Ryszard Kapuscinski son dos modelos éticos y admirables de tolerancia y de profundidad humanística. Oviedo, 30 de abril de 2003 (Acta del Jurado. Premios Príncipe de Asturias Comunicación y Humanidades 2003) A inicios del presente siglo, Gustavo nos siguió invitando – como lo hace persistentemente – a la esperanza; Cuando el departamento de Teología de la PUCP lo nombró Profesor Emérito, en el 2004, nos dijo citando una vez más a Arguedas: “Es un tiempo que se puede convertir en un horizonte de esperanza, en una afirmación de libertad, de ruptura con la idea explícita o implícita de un destino inexorable. En este marco debe colocarse la inteligencia de la fe en el Dios de la vida, de su reino y si justicia. Y no solo la teología, el conocimiento en general. Un conocimiento comprometido con un país impaciente por realizarse, como decía José María Arguedas.” (Gutiérrez 2004: 47) COMENTARIOS FINALES Lejos del contexto de mediados del siglo pasado, en el que el pensamiento y el arte se encontraban influidos de la noción liberadora en América Latina, y la literatura jugaba un papel importante en el registro de una dimensión axiológica problematizando las situaciones de inequidad, mientras anunciaba el cambio de estructuras, el panorama hoy presenta nuevos desafíos que tienen que ver con las características del espacio desde el que se enuncia el texto literario y las particulares y complejas condiciones de la difusión, distribución e interpretación. De un lado, la realidad contemporánea pone de manifiesto – cada día con más fuerza y extensión- el individualismo asociado a visiones de mundo marcadas por el escepticismo y la levedad de las experiencias humanas. Circunstancia en la que se constata la fragilidad de proyectos personales o de compromisos para con la sociedad en el contexto de un desarrollo tecnológico nunca antes visto y que puede entrañar el peligro de la estrechez de una lógica tecnológica excluyente de una perspectiva teleológica (negación del pasado y aceptación de un presente efímero como única realidad) y lo que sería más grave con pérdida de la perspectiva ética. En esta época los creadores deben lidiar con la indiferencia. No solo respecto al tema religioso o de Dios sino con todos los llamados “grandes relatos”. Sin embargo, este tiempo que como señala Umberto Eco, está signado por la falta de solidaridad y ve “hordas desheredadas que salen a tocar, a veces con violencia, a las puertas del bienestar, el hambre de continentes enteros, nuevas e incurables pestes, la destrucción interesada de suelos…” (Eco 2006: 28-29) también presenta el surgimiento de interesantes rasgos de nuevas sensibilidades – sobre todo entre los más jóvenes- atentas a temas tales como una efectiva igualdad entre los seres humanos; condena de las exclusiones; , preocupación por el destino del planeta, necesidad de empleo digno, etc. Sensibilidad que se expresa en la obra de los creadores, y tiene que ver, como a lo largo de la historia, con la capacidad o el sentido del asombro y la solidaridad con todo lo humano, especialmente, con los seres más desvalidos: El trabajo con la palabra desde siempre ha registrado en imágenes reflexiones que trascendiendo la literatura, significan un compromiso raigal de quien la construye con su ser íntegro en relación consigo y con los otros. El arte, la literatura – se lo proponga o no el creador – tiene una dimensión ética, que muchas veces se constituye en una suerte de religiosidad laica. La poesía, por ejemplo, intenta llegar a las esencias que reordenen el caos y con frecuencia profetiza en el sentido que interpreta las aspiraciones o los clamores de una época en el sentir individualizado. La conciencia de la fragilidad de la vida y las preguntas que suscita conduce a consideraciones más allá de la materialidad. En estas circunstancias el sentido religioso coincide con un compromiso radical con la vida. Para Luigi Giussani el sentido religioso está en esas emociones inteligentes y dramáticas, además inevitables, aunque el clamor o la obtusidad de la vida pretenda acallarlas… y para quien está comprometido con la problemática de la vida, el sentido religioso es el compromiso con la vida entera. (1998: 72) Una tarea para posteriores estudios podría ser auscultar las nuevas formas en al que, en la sensibilidad de nuestros días se manifiesta el espíritu de’ la calandria consoladora’ y del ‘Dios liberador’ y abordar, asediar con ese propósito los textos literarios producidos en las últimas décadas convencidos que la Palabra puso su tienda entre nosotros. Y continúa su fecunda tarea. FUENTES Arguedas, José María (1969) El zorro de arriba y el zorro de abajo. Lima, Losada Delgado, Washington. (1990) Prólogo a Entre las calandrias. Un ensayo sobre José María Arguedas. Gustavo Gutiérrez. Lima, Centro Bartolomé de las Casas y CEP, Del Masto, César. (2011) “Golpear como un río la conciencia del lector. JMA y la teología de la liberación”. En Revista Páginas Nº 223. Lima; Centro de Estudios y Publicaciones pp. 38-49 Eco, Umberto y Martini, Carlo María. (2006) ¿En qué creen los que no creen?. México, Taurus . Decimoprimera reimpresión. Gutiérrez, Gustavo. (1972) Teología de la liberación. Perspectivas. Salamanca: Sígueme ———————-, Romualdo Alejandro y Escobar, Alberto (1977) Arguedas: Cultura e Identidad Nacional . Lima, EDAPROSPO ——————– (1990) Entre las calandrias. Un ensayo sobre José María Arguedas. Lima, Centro Bartolomé de las Casas y CEP, ———————- (1993) “La concepción religiosa de Vallejo”. En Intensidad y altura de César Vallejo. Autores Varios, Lima: Pontificia Universidad Católica del Perú. ———————- (2004) “Entre la experiencia y la esperanza en el Perú”. En: Cuadernos del Archivo de la Universidad, Nº 35. Lima, PUCP Guissani, Luigi. (2005) El sentido religioso. Lima: Fondo editorial UCSS-Encuentro. FOTOGRAFÍA: Padre Gustavo Gutiérrez y Coordinador Académico del Departamento de Humanidades de la UARM, Profesor Ricardo Lenin Falla C. http://hablasonialuz.wordpress.com/2013/06/09/padre-gustavo-gutierrez-teologia-en-dialogo-con-la-literatura/

terça-feira, 9 de julho de 2013

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VINTE CENTAVOS QUE INCENDIARAM O PAÍS O POVO NA RUA, A MÍDIA E A CLASSE POLÍTICA PARA ONDE VAMOS? - O MPL - Movimento Passe Livre e sua pauta de reivindicações – A mídia e a cobertura das manifestações – Uma análise crítica Fabiano Maisonnave – jornalista da Folha de São Paulo Moderador: Pe. José Oscar Beozzo – CESEEP – Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e Educação Popular Data: Quarta-feira: 10 de julho de 2013 Horário: 19:00 às 21:00 hs Local: AUDITÓRIO PAULINAS: Sobreloja Livraria Paulinas Rua Domingos de Morais, 660 (ao lado do Metrô Ana Rosa). As manifestações dos jovens que se espalharam pelas ruas e praças de nossas cidades mudaram a agenda política e social do país, deixando perplexos governos e opinião pública. As medidas tomadas dão conta da insatisfação que irrompeu e do Brasil que queremos? Venha debater conosco! PROMOÇÃO – FÓRUM DE PARTICIPAÇÃO DA V CONFERÊNCIA Associação de Escolas Católicas (AEC/SP), Assessoria da Comissão Ampliada das CEBs, Casa da Solidariedade da Região Ipiranga/SP, Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e Educação Popular (CESEEP), Centro de Defesa dos Direitos da Criança/SP, Conselho Indigenista Missionário (CIMI/SP), Comissão Pastoral da Terra (CPT/SP), Conselho de Leigos da Arquidiocese de São Paulo (CLASP ), Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB - Regional/SP), Pastoral da Moradia, Grito dos Excluídos, Missionários Combonianos, Pastoral da Mulher Marginalizada; Pastoral Operária, Pastoral do Menor Estado/SP, Paulinas Editora, Serviço de Pastoral ao Migrante (SPM), Jubileu Sul Brasil. MAIS INFORMAÇÕES: Fones: CESEEP: 011-3105-1680; PASTORAL OPERÁRIA: 011- 2695 0404: SPM: 011-2063 7064; PAULINAS: 011-5081-9330. www.forumaparecida.blogspot.com