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quinta-feira, 20 de setembro de 2012

PUC do Peru: Jesuítas pedem diálogo



A
 Companhia de Jesus é parte essencial da “Universidade rebelde” do Peru, ex-Pontifícia e Católica. Os sacerdotes jesuítas estão presentes nesta instituição desde o seu início. Agora, em meio ao conflito do colegiado com a Santa Sé, a ordem saiu em defesa das autoridades universitárias. Ao fazer isso, lamentou a retirada de títulos emitidos com aprovação papal e convidou a Igreja para retomar o diálogo.


A reportagem é de Andrés Beltrano Álvarez, publicada no sítio Vatican Insider, 22-08-2012. A tradução é do Cepat.

Enquanto a direção da ex-PUCP mantém uma posição de aberto enfrentamento às disposições de Roma, os jesuítas acreditam que ainda é possível salvar a situação. Ao menos foi o que manifestou o provincial da Companhia de Jesusno Peru, Miguel Gabriel Cruzado Silveri, em uma carta a Salvador Piñero, presidente da Conferência Episcopal Peruana.

Um texto com cinco páginas, cujo conteúdo excede as fronteiras do país, pois foi enviado com cópia para o prepósito geral da ordem, Adolfo Nicolás; ao secretário de Estado da Santa Sé, Tarcisio Bertone; ao prefeito para a Educação Católica, Zenon Grocholewski e ao flamejante prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Gerhard Ludwig Müller.

Nesta carta, Cruzado Silveri recordou a presença jesuíta na Universidade, cujo ápice foi alcançado com os reitoresRubén Vargas Ugarte (1947-1953) e Felipe Mac Gregor (1963-1977) e a exaltou como um “instrumento eficaz para a evangelização”, bem como “fonte de crescimento de vocações para o sacerdócio, vida consagrada e apostolado leigo”.

No restante da carta, o provincial defendeu os pontos que determinaram a rebeldia da cúpula universitária. Embora aSanta Sé tenha pedido várias vezes e sem êxito que os estatutos do centro educativo fossem adequados à constituição apostólica “Ex Corde Eclesiae”, para o superior jesuíta a ex-PUCP desenvolve sua missão “no fundamental e de maneira sempre perfectível, dentro do espírito” desse documento.

Cruzado Silveri reconheceu “a presença efetiva de vozes discrepantes em relação ao caráter católico e eclesial”, mas considerou que isto é uma realidade “própria de toda instituição universitária”. Além disso, expressou “profundo pesar” pelo enfrentamento público de irmãos na fé, situação que “prejudica seriamente o serviço eclesial”. E concluiu: “É muito doloroso comprovar que esta situação de conflito deteriorou gravemente a credibilidade de nossa mensagem evangelizadora, principalmente entre os jovens do Peru”.

“O decreto emitido pelo cardeal Secretário de Estado não recebeu, de parte de amplos setores da PUCP e da sociedade peruana, a aceitação que poderia ter sido esperada, e para sua correta aplicação se choca com múltiplos abrolhos de ordem jurídica, até o ponto de poder gerar lamentáveis enfrentamentos entre a Santa Sé e o Estado Peruano”, sustentou.

Por tudo isto, o Provincial convidou as autoridades eclesiásticas para retomar o diálogo com a Universidade, para conquistar uma solução definitiva baseada no acordo do último dia 31 de março. Uma proposta alcançada pelas partes em conflito, mas que a Assembleia Universitária da ex-PUCP nunca quis aceitar.

“Caso não se consiga um acordo, corre-se o risco de que a Igreja perca uma instituição acadêmica da maior qualidade e excelência, e pela polarização das posturas, sejam exacerbados os sentimentos de amargura e animadversão contra nossa Igreja”, advertiu o jesuíta.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Como se formou o poder monárquico-absolutista dos Papas


18.09.12 - Mundo

Leonardo Boff
Teólogo, filósofo e escritor
Adital

Escrevíamos anteriormente neste espaço que a crise da Igreja-instituicão-hierarquia se radica na absoluta concentração de poder na pessoa do Papa, poder exercido de forma absolutista e distanciado de qualquer participação dos cristãos, criando obstáculos praticamente intransponíveis para o diálogo ecumênico com as outras Igrejas.
Não foi assim no começo. A Igreja era uma comunidade fraternal. Não havia ainda a figura do Papa. Quem comandava na Igreja era o Imperador pois ele era o Sumo Pontífice (Pontifex Maximus) e não o bispo de Roma ou de Constantinopla, as duas capitais do Império. Assim o imperador Constantino convocou o Primeiro Concílio Ecumênico de Nicéia (325) para decidir a questão da divindade de Cristo. Ainda no século VI o imperador Justiniano que refez a união das duas partes do Império, a do Ocidente e a do Oriente, reclamou para si o primado de direito e não o do bispo de Roma. No entanto, pelo fato de em Roma estarem as sepulturas de Pedro e de Paulo, a Igreja romana gozava de especial prestígio, bem como o seu bispo que diante dos outros tinha a "presidência no amor” e o "exercia o serviço de Pedro” o de "confirmar na fé” e não a supremacia de Pedro no mando.
Tudo mudou com o Papa Leão I (440-461), grande jurista e homem de Estado. Ele copiou a forma romana de poder que é o absolutismo e o autoritarismo do Imperador. Começou a interpretar em termos estritamente jurídicos os três textos do Novo Testamento atinentes a Pedro: Pedro como pedra sobre a qual se construiria a Igreja (Mt 16,18), Pedro, o confirmador da fé (Lc 22,32) e Pedro como Pastor que deve tomar conta das ovelhas (Jo 21,15). O sentido bíblico e jesuânico vai numa linha totalmente contrária: do amor, do serviço e da renúncia a toda supremacia. Mas predominou a leitura do direito romano absolutista. Consequentemente Leão I assumiu o título de Sumo Pontífice e de Papa em sentido próprio. Logo após, os demais Papas começaram a usar as insígnias e a indumentária imperial (a púrpura), a mitra, o trono dourado, o báculo, as estolas, o pálio, a cobertura de ombros (mozeta), a formação dos palácios com sua corte e a introdução de hábitos palacianos que perduram até os dias de hoje nos cardeais e nos bispos, coisa que escandaliza não poucos cristãos que leem nos Evangelhos que Jesus era um operário pobre e sem aparato. Então começou a ficar claro que os hierarcas estão mais próximos do palácio de Herodes do que da gruta de Belém.
Mas há um fenômeno para nós de difícil compreensão: no afã de legitimar esta transformação e de garantir o poder absoluto do Papa, forjou-se uma série de documentos falsos. Primeiro, uma pretensa carta do Papa Clemente (+96), sucessor de Pedro em Roma, dirigida a Tiago, irmão do Senhor, o grande pastor de Jerusalém. Nela se dizia que Pedro, antes de morrer, determinara que ele, Clemente, seria o único e legítimo sucessor. E evidentemente os demais que viriam depois. Falsificação maior foi ainda a famosa Doação de Constantino, um documento forjado na época de Leão I segundo o qual Constantino teria dado ao Papa de Roma como doação todo Império Romano. Mais tarde, nas disputas com os reis francos, se criou outra grande falsificação as Pseudodecretais de Isidoro que reuniam falsos documentos e cartas como se viessem dos primeiros séculos que reforçavam o primado jurídico do Papa de Roma. E tudo culminou com o Código de Graciano no século XIII tido como base do direito canônico, mas que se embasava em falsificações de leis e normas que reforçavam o poder central de Roma, não obstante, cânones verdadeiros que circulavam pelas igrejas. Logicamente, tudo isso foi desmascarado mais tarde sem qualquer modificação no absolutismo dos Papas. Mas é lamentável e um cristão adulto deve conhecer os ardis usados e forjados para gestar um poder que está na contra mão dos ideais de Jesus e que obscurece o fascínio pela mensagem cristã, portadora de um novo tipo de exercício do poder, serviçal e participativo.
Verificou-se posteriormente um crescendo no poder dos Papas: Gregório VII (+1085) em seu Dictatus Papae ("a ditadura do Papa”) se autoproclamou senhor absoluto da Igreja e do mundo; Inocêncio III (+1216) se anunciou como vigário-representante de Cristo e por fim, Inocêncio IV(+1254) se arvorou em representante de Deus. Como tal, sob Pio IX em 1870, o Papa foi proclamado infalível em campo de doutrina e moral. Curiosamente, todos estes excessos nunca foram retratados e corrigidos pela Igreja hierárquica. Eles continuam valendo para escândalo dos que ainda creem no Nazareno pobre, humilde artesão e camponês mediterrâneo, perseguido, executado na cruz e ressuscitado para se insurgir contra toda busca de poder e mais poder mesmo dentro da Igreja. Essa compreensão comete um esquecimento imperdoável: os verdadeiros vigários-representantes de Cristo, segundo o Evangelho (Mt 25,45) são os pobres, os sedentos e os famintos.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Entrevista – Mercedes Budallés: Apesar do olhar conservador eclesial, ninguém acabará com o amor à Igreja libertadora

28.08.12 - Brasil

Rogéria Araújo
Jornalista da Adital
Adital
"O que o Espírito diz às Igrejas?”. É com essa provocação que acontece nos próximos dias 30, 31 de agosto e 1º de setembro, o Simpósio Teológico sobre os 50 anos do Concílio Vaticano II e os 40 anos da Teologia da Libertação. O evento acontece na cidade de Fortaleza, capital do Ceará e traz uma discussão importante sobre dois marcos para as igrejas brasileiras e latino-americanas.
A Adital conversou com a teóloga Mercedes Budallés, que estará participando do evento com a palestra "Como ser igreja-fermento de emancipação humana dentro de uma igreja-massa de eventos midiáticos”.
"E ainda que seja muito conservador o olhar e agir eclesial atualmente, em certos setores da Igreja, ninguém poderá acabar com a teimosia dos pequenos, com o seu amor a essa Igreja libertadora que lhes dá reconhecimento e dignidade”, afirmou em entrevista.

Adital – São 50 anos do Concílio Vaticano II e 40 anos da Teologia da Libertação. Como a senhora vê a trajetória das Igrejas nos dias atuais tendo como referência esses dois marcos?
Mercedes Budallés – Fazer memória, re(cor)dar ou passar pelo coração, faz bem. Mais ainda, aos que somos de antes, de durante e de depois do Concílio. Por isso, especialmente este ano, agradecemos a Deus, o Pentecostes que o Vaticano II foi para a Igreja. O Concílio foi uma nova vinda do Espírito sobre a Igreja, um kairós, um tempo de salvação. Para minha geração foi uma época de grandes mudanças visíveis na Igreja. Os jovens entusiasmados, acolhíamos as mudanças, sem saber muito bem o que acontecia. De fato, estávamos presenciando a passagem de uma Igreja da cristandade, triunfalista, centrada na hierarquia, com todo o poder na sua mão e por isso, Igreja dominadora... à uma Igreja, mistério (LG 1), povo de Deus (LG II), servidora especialmente dos mais pobres, semelhante à Igreja das primeiras comunidades cristãs e aberta aos novos sinais dos tempos. (GS 4; 11; 44).
O Concílio abriu as janelas da Igreja "para que possamos olhar para fora, e para que as pessoas possam olhar para dentro" como afirmava Joao XXIII. Sim, aconteceu um novo Pentecostes!
Entretanto, agora, eu mesma com a experiência dos anos e como teóloga, reconheço que já não sou tão otimista com o convite de olhar ou tentar olhar para dentro da Igreja. Não avançamos muito em questões que o mundo moderno nos questiona. O Concílio trouxe grandes mudanças, porém, não tratou dos temas já candentes naquela época, como o celibato sacerdotal e a falta de ministros ordenados. Ignorou o papel da mulher na sociedade e na Igreja e a participação de leigos e leigas nas responsabilidades ministeriais. O poder e função da cúria romana ficaram intocáveis, o que deu lugar a retrocessos. Assim, por exemplo, o Sínodo dos Bispos de 1985, convocado por João Paulo II, defendeu a identidade do Vaticano II, porém substituiu vários conceitos importantes afirmados nos documentos conciliares tais como Igreja ‘povo de Deus’ da Lumen Gentium por uma Igreja apresentada como ‘corpo de Cristo’; a mudança da palavra ‘pluralismo’por ‘pluriformidade’. E ainda, certos sintomas como a repetida importância dada à ‘santidade’ na Igreja como se a Gaudium et Spes fosse humana demais.
Adital - Os Documentos do Concílio sinalizaram uma Igreja mais próxima dos pobres, dos excluídos, e foi visto com muito entusiasmo pelos setores, digamos, mais progressistas da Igreja. Este sentimento ainda permanece?
Mercedes Budallés - Já na abertura do Concílio Vaticano II, o dia 11 de Setembro de 1962, o Papa João XXIII afirmou publicamente que "a Igreja sente o dever de assumir sua responsabilidade diante das exigências e necessidades atuais dos povos...” E que "...diante dos países subdesenvolvidos, a Igreja se apresenta tal como é, e quer ser, a igreja de todos, mas, particularmente, a igreja dos pobres."
O fato de que os grandes documentos do Concílio Vaticano II afirmaram que a Igreja é povo de Deus, na Constituição Dogmática Lumen Gentium e comprometida com a vida, na Constituição Pastoral Gaudium et spes,declaravam que o pobres, maioria do povo de Deus e sua vida sofrida, eram as opções fundamentais do novo momento da Igreja, ao igual que foram as opções de Jesus.
Afortunadamente para nós, na América Latina isso foi bem entendido e assumido. Em grande parte, graças a bispos como Dom Manuel Larrain, do Chile, e nosso querido dom Helder Camara, daqui do Brasil, que organizaram uma contínua formação dos bispos latinos com os melhores teólogos da época, o Vaticano II trouxe uma mudança grande.
Durante o Concílio Vaticano II houve um famoso grupo de bispos, provenientes de todos os continentes, que se encontrava, a cada sexta-feira, para refletir sobre a missão da Igreja junto aos pobres e a necessidade de a Igreja ser sinal do Cristo pobre. Ao final do Concílio, no dia 16 de novembro de 1965, quarenta bispos de várias partes do mundo reuniram-se numa catacumba em Roma e assinaram o Pacto das Catacumbas. Cada um assumia o compromisso de viver pobre, rejeitar as insígnias, símbolos e privilégios do poder e a colocar os prediletos de Deus no centro de seu ministério episcopal, explicitando assim a evangélica opção pelos pobres.
Na América latina, o Celam, com aprovação de Paulo VI, bem perto do fim do Concílio, em 1968, convocou a assembleia de Medellin que tirou do Concílio conclusões práticas como a opção preferencial pelos pobres e a legitimação das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) como uma realidade onde os leigos e leigas, a maioria pobre, eram reconhecidas, sujeitos da sua fé. A grande mudança já estava acontecendo e ainda foi reafirmada na Conferência de Puebla e mais recentemente na V Conferência em Aparecida.
Este sentimento ainda permanece, porque na verdade foi a opção de Jesus: "Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisa aos sábios e doutores e as revelaste aos pequeninos” (Mt 11,25).
Adital – Sua palestra no Simpósio Teológico abordará assuntos pertinentes. Afinal, como se (re) configura o jeito de ser e viver Igreja mais comprometida socialmente com as comunidades e seus problemas diante de um outro contexto que cada vez se firma mais, esse da "Igreja-massa”?
Mercedes Budallés - Pediram-me falar sobre as perspectivas que têm, hoje, as "minorias abrâmicas” no interior da Igreja Católica para exercerem sua função de "fermento na massa”.
Dom Helder Camara chamava de "minorias abraâmicas" aquelas minorias frágeis e impotentes, mesmo aparentemente estéreis. Pessoas que esperam, com uma visão cheia de otimismo e com firme compromisso, a construção de uma sociedade justa e fraterna, já que essa é sua profunda aspiração.
Entramos na questão fermento-massa. Eu sempre disse ter aprendido uma nova teologia na minha vida com os mais pobres. Por isso, sinto a obrigação de trazer memórias: Preparando o 9º Intereclesial de Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) que aconteceu em São Luiz (MA), em 1997, com o tema: "CEBs, Vida e Esperança nas Massas”, fui convidada assessorar uma Assembleia de CEBs na Arquidiocese de Goiânia. De entrada perguntei aos participantes: Que é massa para vocês? Um pedreiro explicou com detalhe o que é uma boa massa para a construção, mistura de cimento, areia, água... Uma boleira falou da massa para fazer um bom bolo. Teve quem falou de organizar uma ‘pamonhada’, de como ralar o milho, como temperar a massa etc. Dona Francisca América, mulher corajosa e firme na caminhada das CEBs em Goiânia, até hoje, gritou: A massa é algo que não está pronto!
De fato, a massa é, e sempre será, algo que não está pronto. Por isso, eu estou mais preocupada com o fermento, com a pequena semente... Os frágeis, os pequenos, as minorias abraâmicas, aquelas da margem, são, segundo Evangelho, as primeiras no Reino!
Devemos nos inquietar com a massa, sim. Porém, se "pelos frutos os conhecereis” (Mt 7,16 ) prestemos atenção ao que a experiência nos diz: a maior parte das grandes concentrações e manifestações de fé de massa acontece graças aos meios de comunicação social que são os que sustentam o sistema vigente, um sistema econômico neoliberal focando o sucesso.
Os programas religiosos propagam direta ou indiretamente a teologia da prosperidade e geram igrejas massificadas, individualistas, cheias de emoções passageiras e sem nenhum compromisso com a transformação da sociedade. Em minha opinião, fomentar um cristianismo esclarecido e atuante diante dos grandes problemas que assolam a nossa sociedade, só pode se fazer desde baixo, desde as minorias, com os empobrecidos. A massa é algo que não está pronta. Cuidemos do fermento, dos pequenos. Como Jesus fez!
Adital - Que contribuições específicas podem dar os grupos de reflexão bíblica e de teologia feminista, no nosso contexto?
Mercedes Budallés - A Constituição DEI VERBUM foi o documento que respondeu a um dos objetivos do Concílio Vaticano II que era difundir a Palavra de Deus, em cumprimento ao desejo de Jesus que disse "...anunciai a Boa Notícia a toda criatura” (Mc 16,15).
Penso que a partir daqui deu-se uma verdadeira revolução na leitura e interpretação bíblica. O importante é a vida do povo de Deus! Não temos que procurar na Bíblia verdades científicas ou históricas, mas a verdade sobre Deus e sobre o sentido da vida e do mundo (DV 11). De acordo com a DEI VERBUM, a Palavra de Deus suscita a fé e convoca a comunidade. Foi a fé do povo de Deus que acolheu e guardou esta Palavra para indicar o caminho da nossa salvação. E foi Jesus quem enviou o Espírito para nos introduzir na plenitude desta verdade (DV 20).
É o que fizemos, especialmente na América Latina, lendo e interpretando a Bíblia em favor da vida, animando uma leitura em comunidade. Com isso, constatamos a importância das Comunidades Eclesiais de Base com seu jeito de ser Igreja e nelas a leitura popular da Bíblia, que especialmente o Centro de Estudos Bíblicos, o CEBI, realiza desde faz muitos anos somando com outros centros de aprofundamento bíblico numa ótica libertadora.
Como teóloga feminista, opto por aprofundar uma teologia de gênero, de classe, de etnia (de raça) e de geração. Uma leitura politica! Muito mais abrangente que a luta por recuperar o lugar das mulheres na Igreja. Trata-se de recuperar o sujeito humano na sociedade seja mulher, jovem, criança, idoso, e ainda o mais pobre, o negro.... já que dentro da Teologia da Libertação, fazemos uma opção por ‘outra teologia’, aquela que proclamava a Igreja do Vaticano II, como foi entendida na América Latina, a Igreja de Medellin, de Puebla e até a de Aparecida... Uma Igreja inclusiva onde todas as pessoas tenham seu espaço: Mulheres, homens, pobres, menos pobres, índios, negros e brancos. Crianças, jovens, adultos, idosos... Todas e todos com voz, participantes, dialogantes... A serviço do Reino de Deus!
Adital – Há esperança e fé num novo caminhar mesmo sob o olhar conservador eclesial?
Mercedes Budallés -Tive a graça de Deus de morar e trabalhar pastoralmente na Prelazia de São Felix do Araguaia (MT). Eu sei que outra Igreja é possível, porque já vivi nela! Com muitos limites e problemas. Mas, o compromisso evangélico, a pobreza real entre nós, agentes de pastoral, a vida de comunidade partilhada com os mais pobres, nos dava a liberdade de quem experimenta já o Reino de Deus aqui na terra.
E ainda que seja muito conservador o olhar e agir eclesial atualmente, em certos setores da Igreja, ninguém poderá acabar com a teimosia dos pequenos, com o seu amor a essa Igreja libertadora que lhes dá reconhecimento e dignidade. 

terça-feira, 11 de setembro de 2012

¿Desobedecer al sistema eclesiástico para soñar y construir el proyecto y la utopía de Jesús de Nazaret?


 por Héctor Alfonso Torres Rojas
Por Nós Também Somos Igreja em 11/09/2012

“Hoy ya no tengo más esos sueños”
Cardenal Carlos María Martini
El testamento espiritual, expresado varios años antes, por el recién fallecido cardenal Carlo Maria Martini, conlleva propuestas nuevas, novedosas, inauditas y atrevidas, para la renovación de la Iglesia. Son propuestas de total actualidad, a 50 años de la apertura del Concilio Vaticano II, para la Iglesia que renace con múltiples dificultades, en nuestros tiempos.
Sus escritos y palabras fueron siempre bien recibidas por sectores progresistas, creyentes, indiferentes y ateos. Además, cifraron muchas esperanzas en él, al punto de ser “papabile”, en medio de críticas y de temores de los monseñores del Vaticano y de otros monseñores, allende los muros de la ciudadela vaticana, que lo mal calificaron, inclusive, como “antipapista”. Sus propuestas NO fueron acogidas en esos espacios sino criticadas y temidas.
“”Antes tenía sueños sobre la Iglesia. Soñaba con una Iglesia que recorre su camino en la pobreza y en la humildad, que no depende de los poderes de este mundo; en la cual se extirpara de raíz la desconfianza; que diera espacio a la gente que piensa con más amplitud; que diera ánimos, en especial, a aquellos que se sienten pequeños o pecadores. Soñaba con una Iglesia joven. Hoy ya no tengo más esos sueños”. (Carlo María Martini. “Coloquios Nocturnos en Jerusalén).
Esta frase “”Hoy ya no tengo más esos sueños”, nos lleva a reflexionar con mucha profundidad y angustia. Frase escrita en los años finales de su vida, seguramente en un total desgarramiento interior.
¿Reconoció la imposibilidad de cambios en la Iglesia, él, hombre que conocía muy bien el sistema, la institución, la eclesiástica por dentro y desde adentro. ¿Comprendió que tuvo espacio para hacer sus propuestas y entendió que toda la maquinaria se le vendría encima si promovía una corriente de personas, para su praxis? ¿Tenía muy claro que “El Papa reina pero no gobierna?
El Vaticano, afortunadamente, no tomó medidas negativas contra el cardenal Martini. Pero otra fue la suerte del obispo francés Jacques Gaillot, en la década de los años ochenta, cuando Juan Pablo II lo expulsó de la Eclesiástica por sus escritos, sus palabras y sus acciones. Contra viento y marea, siguió su praxis, en pobreza, en sencillez, en compromiso. Su diócesis se amplió, se creció, se globalizó. . Desde el “exilio eclesiástico”, siguió y sigue su ministerio.
Con relación al cardenal Martini cabe una pregunta: ¿no aceptó ser papa para evitar una confrontación con el sistema vaticano? No se “rebeló” por fidelidad al voto jesuita de obedecer y servir al Papa, a la usanza de los juramentos señoriales, hecho en sus años de joven sacerdote? ¿O por el juramento que hace todo obispo el día de su consagración? O por el juramento que recita todo nuevo cardenal de dar la vida por el Papa, si fuere necesario?
Ante tales situaciones, no le quedó sino el valor de afirmar: “Hoy ya no tengo más esos sueños”. Esa frase, conocida o desconocida en su letra, la han vivido millones de católicos que se han alejado de la Iglesia, con ruido o silenciosamente. Cada cual obra según su conciencia, y es respetable.
Pero, obviamente, por fidelidad a Jesús de Nazaret, se nos plantea un gran interrogante: ¿Qué es mejor hoy: salir o quedarse? Para unos, será conveniente salir silenciosamente. Para otros y otras, como la Iglesia es de todas y de todos, mejor permanecer críticamente y trabajar, desde adentro, a pesar de los sufrimientos en la construcción del Reino de Dios. La razón: la iglesia es de las mayorías creyentes y no de las minorías que son aquellos cardenales, monseñores y otros creyentes que se oponen a la conversión y renovación de la Iglesia, en el espíritu, la letra y la lógica del Evangelio.
Conociendo el autoritarismo y verticalismo de los monseñores del Vaticano y su rotunda oposición a todo cambio, con motivo del quinto aniversario de la elección de Benedicto XVI, Hans Kung, en su carta abierta a los obispos católicos de todo el mundo, los invitaba a tener el valor evangélico de desobedecer al sistema eclesiástico por fidelidad a Jesús de Nazaret. Ninguno se atrevió. ¿Son mejores las prebendas del sistema eclesiástico que el seguimiento de Jesús de Nazaret?
En esa misma lógica del Evangelio, hace dos años, cerca de 400 sacerdotes de Austria se atrevieron a escribir un manifiesto para afirmar que desobedecerían el sistema eclesiástico en varias cuestiones. Y lo han hecho.
¿Seremos testigos de continuos actos de “rebelión” y desobediencia, en la Iglesia? ¿La institución obligará a miles o millones de creyentes a tan extrema praxis? Aquella afirmación teológica según la cual, la rebelión política es necesaria, justa y legítima, cuando se imponen métodos que violentan a las personas en sus conciencias y en sus vidas, ¿se debe aplicar al interior de la Iglesia?
No me refiero, obvio, a la rebelión con métodos violentos, de ningún tipo, sino a la rebelión de las conciencias, en tiempos eclesiásticos en que hay miedo de escribir, hablar y accionar con la libertad de los hijos de Dios.
La acción de los 400 sacerdotes de Austria es una “rebelión” de la conciencia creyente. No sólo han desobedecido, están desobedeciendo y seguirán desobedeciendo, sino que llaman e invitan a desobedecer. Lo mismo el llamado de Hans Küng a los obispos del mundo católico. La ordenación sacerdotal de mujeres católicas es otro acto de desobediencia. Estos son casos ampliamente publicitados, pero se conocen muchos casos, muchísimos casos de desobediencia silenciosa. Tanto en el pasado como en el presente.
El autor es colombiano. Lic. en Teología y en Sociología. Dirigió las revistas Solidaridad, Aportes Cristianos para la Liberación y Utopías, Presencia Cristiana por la Vida. Co-fundador de la red de ONGs de Derechos Humanos
Fonte: ADITAL

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Morreu o profeta do Semiárido [Dom José Rodrigues]


09.09.12 - Brasil
Roberto Malvezzi, Gogó
Equipe CPP/CPT do São Francisco. Músico. Filósofo e Teólogo
Adital

Introdução de Leonardo Boff
09/09/2012

Conheci pessoalmente a DOM JOSE RODRIGES, bispo de Juazeiro do Norte, na Bahia. No exato dia em que recebi a carta do então Cardeal Joseph Ratzinger convocando-me à Inquisição Romana, comecei o retiro que preguei para os padres e leigos daquela diocese. Achei mais importante animar aquela comunidade perseguida do que atender aos oficiais de Roma. Só no fim, depois de uma semana, pude dizer àquele povo, minha situação de convocado. Minha situação não era nada em comparação com as perseguições que o bispo e muitos agentes de pastoral sofriam, vigiados e ameaçados pela repressão militar. Hoje, vivemos tempos invernais na Igreja. Há um vazio de verdadeiros pastores e de autênticos profetas como Dom José. É nosso dever lembrar os pastores fiéis e os profetas destemidos que souberam estar sempre do lado dos fracos e perseguidos. Sem temor e sem subterfúgios. Era pequeno de porte, mas um gigante do espírito. Vi sua biblioteca, cheia de livros novos que lia para se atualizar na teologia, na pastoral e no trabalho com o povo. Publico aqui o artigo de um de seus discípulos e colaboradores ROBERTO MALVEZZI, o Gogó. Em nome nosso e de tantos, ele lhe presta uma justa homenagem. Viver como Dom José é digno. Morrer como morreu por amor aos outros é heroico, obra de um santo e lição de um profeta. Que ele lá da glória, acompanhe a Igreja em crise para que o povo sofredor tenha ao seu lado pastores e profetas da têmpera de Dom José Rodrigues. LBoff


Leia o artigo de Roberto Malvezzi:

D. José Rodrigues foi o homem certo, no lugar certo, na hora certa. Quando chegou a Juazeiro para ser bispo, a barragem de Sobradinho estava em construção. Então, ele assumiu a sorte dos relocados, depois dos pobres em geral e nunca mudou. Chegou em 1975.

Aqui era área de segurança nacional, regime militar, ACM governador, prefeitos nomeados pelo presidente da república. Não havia partidos, nem organizações populares. Então, com poucos padres e religiosas, chamou leigos para apoiar os 72 mi relocados. Assim, a diocese foi durante muito tempo o abrigo para cristãos, comunistas, ateus, qualquer um que movido pela justiça assumisse a causa do povo.

Depois enfrentou o período das longas secas. Criou pastorais populares. Fez a opção radical pelos pobres e comunidades eclesiais de base. Usava as rádios e seu poder de comunicação para defender os oprimidos pelo peso dos coronéis e do regime militar.

Quando um gerente do Banco do Brasil foi sequestrado, ele aceitou ser trocado. Ficou sob a mira dos revólveres por dias, começando sobre a ponte que liga Juazeiro a Petrolina. Depois visitou seus sequestradores na cadeia e ainda fez o casamento de um deles.

Abrigou na diocese toda convivência com o semiárido, muito lembrado nesses tempos de estiagem. Por isso, quando a ASA fez um de seus encontros nacionais, quis fazê-lo em Juazeiro para homenagear esse profeta do semiárido.

Costumava contar que recebeu muitos presentes quando chegou e foi reverenciado pela elite. No terceiro ano ganhou três camisas. No quinto ano ganhou de presente uma única camisa dada por uma prostituta que frequentava a escola Senhor do Bonfim, trabalho feito junto às prostitutas da cidade.

Quando foi embora saiu com toda a mudança que trouxe: uma mala que cabia uma muda de roupas –que ele lavava todas as noites para vestir no dia seguinte– e seu livro de oração.

Na celebração de despedida afirmou na catedral: "nunca trai os pobres, nem em época de eleição”.

D. José faleceu nessa madrugada, dia 9 de Setembro, em Goiânia, comunidade redentorista de Trindade, para onde foi depois de 28 anos em Juazeiro.

Seu corpo será transladado para Juazeiro na segunda-feira (10/09/12), onde será enterrado. Aqui, sua memória jamais será esquecida por aqueles que com ele conviveram, sobretudo, pelos em situação de pobreza, nos corações dos quais ele reside.

http://www.adital.org.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=70314

 

(Um balanço do pontificado de João Paulo II - alguns textos de 2005)



(...)Cumpre observar que o Papa João Paulo II, um dos mais populares líderes mundiais que surgiram no século XX, embora tenha sido uma pessoa de virtudes irrepreensíveis, legou-nos um pontificado de resultados questionáveis, conforme se pode verificar de escritos recentes que têm tratado da morte do Papa, a exemplo, entre outros artigos que seguem abaixo, do pronunciamento do eminente teólogo suíço HANS KÜNG, que, tendo sido assessor do então Arcebispo Karol Josef Wojtyla (antes de sua ascensão ao trono da Igraja) havia sido proscrito pelo Vaticano já no início do pontificado recém concluído, haja vista que, no dia 18 de dezembro de 1979, a Congregação da Fé do Vaticano cassou a licença de lecionar do teólogo em apreço, residente em Tübingen, no sul da Alemanha. 
HANS KÜNG arrebatara o ódio do Vaticano ao questionar por várias vezes o dogma da infalibilidade do Papa.
Relata-se que o cardeal de Colônia, Joseph Höffner, havia convocado uma entrevista coletiva para a tarde de 18 de dezembro de 1979, sem anunciar o assunto. Pouco antes do encontro com os jornalistas, um emissário da embaixada do Vaticano entregou em Tübingen uma carta da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé (ex-Santo Ofício). "O professor Hans Küng - declarou o cardeal Höffner - diverge da integridade da fé católica em seus escritos. Por isso, ele não pode ser considerado teólogo católico nem continuar lecionando como tal".

Era o desfecho de uma briga de dez anos entre KÜNG e o Vaticano. O teólogo suíço, radicado na Alemanha, foi proibido de lecionar teologia em nome da Igreja. "Acredito que o importante para um teólogo é expressar as preocupações e esperanças atuais do povo à luz do Evangelho. Assim ele também será levado a sério em Roma", disse HANS KÜNG, numa entrevista à Deutsche Welle em meados dos anos 1970, quando o conflito parecia ter se acalmado.
Nascido em 1928, em Sursee, no cantão de Lucerna, ele começou a questionar a doutrina da Igreja depois de estudar em Roma. Duvidava que as antiquadas fórmulas de pregação católica ainda fossem assimiláveis pelo homem moderno. KÜNG argumentava que os ensinamentos da Igreja deveriam ser formulados de maneira irrefutável, mas numa linguagem adequada a cada época. Criticou o dogma da infalibilidade do Papa, aprovado sob circunstâncias peculiares, no Concílio Vaticano I, em 1871.

Já em 1957, a Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, sucessora da Inquisição, havia elaborado um "Dossiê Küng" para analisar posições duvidosas de sua teologia. Apesar disso, o Papa João XXIII convocou o teólogo (professor da Universidade de Tübingen a partir de 1960) para ser consultor oficial durante o Concílio Vaticano II, que pretendia modernizar a Igreja. Logo após a conclusão do Concílio pelo Papa Paulo VI, a Sagrada Congregação retomou o dossiê, abriu secretamente um processo para cassar a cátedra de KÜNG e tentou impedir a publicação de seus livros. KÜNG queria, ao menos, que o processo fosse justo. Reivindicava o direito de ver os documentos e à assistência jurídica. "Um processo que não respeite esses direitos básicos é contra o Evangelho", disse. O teólogo, porém, não teve possibilidade de se defender em Roma e, pouco antes do Natal de 1979, o Vaticano lhe cassou, unilateralmente, a licença de lecionar.
Pela lei alemã, KÜNG não podia ser demitido como professor e foi transferido para a cadeira de Teologia Ecumênica na Universidade de Tübingen. Longe de ficar reduzido ao silêncio, prosseguiu sua tarefa esclarecedora, empreendendo dois grandes projetos: tratar da situação religiosa atual e de uma ética global. Realizou estudos sobre as tradições cristã, judaica, islâmica, hinduísta e budista e publicou obras sobre a questão da ética mundial ("Weltethos"). "A globalização requer uma ética mundial que supere as linhas de conflito entre nações, povos e religiões. Se a globalização for apenas um instrumento para a maximização dos lucros, preparem-se para uma séria crise social", advertiu no Fórum Econômico Mundial de 1997, em Davos, na Suíça.
No livro “Uma ética global para a política e economia mundiais” (Editora Vozes, Petrópolis, 1998), KÜNG afirma que "uma nova ética mundial passa pela paz religiosa, sem a qual não haverá paz mundial, e esta exigirá interpretações mais humanas de leis sacras ultrapassadas e anti-humanistas, fundadas na intolerância e na mentira". Outro livro de sua autoria foi “Os grandes pensadores do cristianismo – Paulo de Tarso, Orígenes, Agostinho, Tomás de Aquino, Martinho Lutero, Friedrich Schleiermacher, Karl Barth”, lançado em português pela Editorial Presença, de Lisboa, em 1999. Abaixo vai um artigo escrito por HANS KÜNG na data em que João Paulo II faleceu, publicado pelo jornal “O Estado de S. Paulo” em 03 de abril de 2005:
 
AS CONTRADIÇÕES DE UM PONTIFICADO
HANS KÜNG
Aparentemente, o papa João Paulo II, que esteve ativamente envolvido no combate à guerra e à repressão, era um farol de esperança para aqueles que anseiam por liberdade. Internamente, porém, seu mandato anti-reformista mergulhou a Igreja Católica Romana em uma crise de credibilidade sem precedentes.
A Igreja está em apuros, mas deve continuar seu caminho e, à luz da seleção de um novo papa, vai precisar de um diagnóstico, uma análise interna objetiva. O tratamento será discutido mais tarde.
Muitos se surpreenderam com a permanência no poder deste frágil e parcialmente paralisado chefe da Igreja, um homem que, apesar de todos os medicamentos, mal conseguia falar. Outros se sentiram desprezados por um homem que viam como um mandatário que, ao invés de azeitar o caminho cristão em direção à própria eternidade, usava todos os meios à disposição para se manter no poder em um sistema amplamente antidemocrático. Até para muitos católicos, esse papa no limite de suas forças físicas, recusando-se a entregar o poder, era o símbolo de uma igreja fraudulenta e calcificada.
O clima festivo que prevaleceu durante o Concílio Vaticano II ( 1962 a 1965), ou Vaticano II, desapareceu. A aparência de renovação, entendimento ecumênico e abertura geral do mundo do Vaticano II agora parece superada e o futuro, sombrio. Muitos se resignaram ou até se afastaram por causa da frustração com essa hierarquia auto-imposta. Como resultado, muitas pessoas foram confrontadas com uma impossível variedade de alternativas: 'Jogue o jogo ou saia da Igreja.' A nova esperança só vai começar a criar raízes quando funcionários da Igreja em Roma e no episcopado se reorientarem na direção do Evangelho.
Um dos poucos brilhos de esperança foi a atitude do papa contra a guerra do Iraque e a guerra em geral. O papel do papa polonês na ajuda à queda da União Soviética também foi enfatizada e com razão. Mas foi pesadamente exagerada pelos propagandistas papais.
Além do mais, o regime soviético não fracassou por causa do papa (antes da chegada de Mikhail Gorbachev, o papa estava conquistando tão pouco quanto conquistou atualmente na China), mas implodiu por causa da estrutura do sistema econômico e das contradições sociais soviéticas.
Karol Wojtyla não foi o maior, mas certamente o mais contraditório papa do século 20. Um papa de grandes dons e muitas decisões erradas. Sua política externa exigia a conversão do resto do mundo. Mas isso foi fortemente contradito por sua 'política interna', orientada para a restauração do status quo pré-concílio, obstruindo a reforma, negando o diálogo dentro da Igreja e impondo o domínio romano absoluto. Essa inconsistência é evidente em muitas áreas. Apesar de reconhecer os lados positivos deste pontificado, gostaria de centrar o foco nas nove contradições mais evidentes.
 DIREITOS HUMANOS
Aparentemente, João Paulo II apoiou os direitos humanos, apesar de afastá-los dos bispos, teólogos e especialmente das mulheres. O Vaticano ainda tem de assinar a Declaração de Direitos Humanos, mas muitos cânones da lei da Igreja absolutista da Idade Média teriam de ser corrigidos antes. O conceito da separação de poderes, o marco de toda a prática legal, é desconhecido na Igreja. Nas disputas, uma única agência do Vaticano funciona como legislador, promotor e juiz.
Conseqüência: um episcopado servil e condições legais intoleráveis.
O PAPEL DAS MULHERES
O grande devoto da Virgem Maria pregava um conceito nobre de feminilidade, mas proibia mulheres de praticar controle de natalidade e de ser ordenadas.
Conseqüência: uma diferença entre conformismo externo e autonomia de consciência interna. Isso leva a um êxodo crescente entre essas mulheres que até então tinham se mantido fiéis à Igreja.
MORAL SEXUAL
Este papa, apesar de pregar contra a pobreza e a indigência, tornouse parcialmente responsável por essa indigência com suas atitudes em relação ao controle de natalidade e ao crescimento demográfico.
Durante suas muitas viagens e na Conferência das Nações Unidas sobre População e Desenvolvimento, no Cairo, João Paulo II declarou sua oposição à pílula e à camisinha. Mais que qualquer outro estadista, o papa pode ser considerado parcialmente responsável pelo crescimento populacional descontrolado em alguns países e a disseminação da aids na África.
Conseqüência: Mesmo em países tradicionalmente católicos, o papa e a rigorosa moral sexual da Igreja são rejeitadas.
CELIBATO DOS PADRES
Ao propagar a tradicional imagem do celibato no sacerdócio, Wojtyla pode ser responsabilizado pela catastrófica falta de padres, o colapso do bem-estar espiritual em muitos países e os vários escândalos de pedofilia que a Igreja não consegue mais esconder.
O casamento ainda é proibido para os homens que concordaram em se devotar à vida religiosa. Esse é apenas um exemplo de como o papa ignorou os ensinamentos da Bíblia e a grande tradição católica do primeiro milênio, que não exigia que os padres fizessem voto de celibato. Se alguém é obrigado a passar sua vida sem mulher e filhos, há grande risco de que a saudável integração da sexualidade vá falhar, o que pode levar a atos de pedofilia, por exemplo. Conseqüência: Em breve, quase dois terços das paróquias vão ficar sem sacerdotes e celebrações regulares da eucaristia. 
MOVIMENTO ECUMÊNICO
O papa gostava de ser visto como um porta-voz do movimento ecumênico. Prejudicou, porém, as relações do Vaticano com igrejas ortodoxas e protestantes e se recusou a reconhecer seus escritórios eclesiásticos e serviços de comunhão.
O papa podia ter atendido ao conselho de várias comissões de estudos ecumênicos e seguir a prática de muitos sacerdotes locais reconhecendo a comunhão nas igrejas não católicas. Ele podia ter amenizado a atitude totalitária e medieval do Vaticano em relação às igrejas do Leste Europeu e às protestantes e podia ter suspendido a política de enviar bispos católicos romanos a regiões dominadas pela Igreja Russa Ortodoxa.
O papa podia ter feito essas coisas, mas não quis. Quis preservar e até expandir o sistema de poder romano. E recorreu a expedientes duvidosos: a política de poder e prestígio de Roma foi dissimulada por discursos ecumênicos grandiloqüentes e gestos vazios.
Conseqüência: o entendimento ecumênico foi obstruído depois do Vaticano II e as relações com as igrejas ortodoxa e protestante foram oneradas numa extensão estarrecedora. Esse papado, como seus predecessores nos séculos 11 e 16, mostrou ser o maior obstáculo à unidade entre as igrejas cristãs na liberdade e diversidade.
POLÍTICA PESSOAL
Como um bispo sufragâneo (subordinado a um arcebispo) e mais tarde arcebispo da Cracóvia, Wojtyla participou do Concílio Vaticano II. Mas, como papa, com suas 'políticas internas', traiu o concílio numerosas vezes. Em vez de usar as palavras do programa conciliatório 'atualização, diálogo e colegialidade', o que é válido agora na doutrina e na prática é 'restauração, magistério, obediência, re-romanização'. Os critérios para nomear um bispo não são o espírito do Evangelho nem a abertura de mente pastoral, mas sim ser absolutamente leal a Roma.
Conseqüência: Um episcopado em grande parte medíocre, ultraconservador e servil é possivelmente o mais grave legado desse pontificado excessivamente longo. As multidões de católicos que o aplaudem nas manifestações mais bem encenadas não devem dar margem a enganos: milhões abandonaram a Igreja sob este pontificado ou se retiraram da vida religiosa contrariados.
CLERICALISMO
O papa polonês passava a imagem de um representante profundamente religioso da Europa cristã, mas suas aparições triunfantes e suas políticas reacionárias promoveram hostilidade à Igreja e até aversão ao cristianismo.
Na campanha de evangelização papal, centralizada numa moralidade sexual em descompasso com a época, as mulheres, em particular, que não compartilham da posição do Vaticano em questões controversas, como controle da natalidade, aborto, divórcio e inseminação artificial, são desmerecidas como promotoras de uma 'cultura da morte'. Como resultado de suas intervenções, a Cúria Romana passou a impressão de que tem pouco respeito pela separação entre Igreja e Estado. De fato, o Vaticano também tentou exercer pressão sobre o Parlamento Europeu, exigindo a nomeação de especialistas em questões relacionadas à legislação sobre o aborto que sejam especialmente leais a Roma, por exemplo. Em vez de entrar na corrente central social e apoiar soluções razoáveis, a Cúria alimentou a polarização entre os movimentos pró-vida e pró-escolha, entre moralistas e livre-pensadores.
Conseqüência: A política clericalista de Roma fortaleceu a posição dos anticlericalistas dogmáticos e ateus fundamentalistas.
JOVENS NA IGREJA
Na qualidade de comunicador carismático e astro da mídia, este papa foi atraente para os jovens, mesmo em sua idade avançada. Mas ele obteve isso recorrendo em grande parte aos 'novos movimentos' conservadores de origem italiana, o movimento Opus Dei espanhol e um público fiel acrítico.
Tudo isso era sintomático da abordagem do papa ao lidar com o público leigo e de sua incapacidade de conversar com seus críticos.
Os grandes eventos juvenis patrocinados pelos novos movimentos leigos e supervisionados pela hierarquia da Igreja atraem centenas de milhares de jovens, muitos bem-intencionados, mas poucos críticos. Numa época em que carecem de figuras de liderança convincentes, o magnetismo pessoal de 'João Paulo Superstar' era mais importante que seus discursos.
Seguindo seu ideal de uma Igreja uniforme e obediente, o papa via o futuro da instituição quase exclusivamente nesses movimentos leigos facilmente controláveis e conservadores. Isso incluiu o distanciamento do Vaticano da ordem jesuíta, voltada para as doutrinas do Vaticano II. Preferidos por outros papas, os jesuítas, por causa de suas qualidades intelectuais, de sua teologia crítica e de suas opções teológicas liberais, passaram a ser vistos como um obstáculo à política da restauração papal.
No lugar deles, Karol Wojtyla depositou sua total confiança no movimento Opus Dei, grupo financeiramente poderoso e influente, mas antidemocrático e fechado. De fato, conferindo status legal especial ao Opus Dei, o papa até mesmo tornou a organização isenta da supervisão dos bispos.
Conseqüência: jovens de igrejas e congregações (à exceção dos coroinhas) normalmente ficam longe dos grande encontros juvenis. Organizações juvenis católicas que divergem do Vaticano são enfraquecidas quando bispos locais, sob ordens de Roma, suspendem seu financiamento.
PECADOS DO PASSADO

Apesar de ter se obrigado, em 2000, a fazer uma confissão pública das transgressões históricas da Igreja, João Paulo II não levou a iniciativa a quase nenhuma conseqüência prática. A confissão bombástica dos erros da Igreja, encenada com cardeais na Catedral de São Pedro, permaneceu vaga e ambígua. O papa apenas pediu perdão pelas erros dos 'filhos e filhas' da Igreja, mas não pelos erros dos 'Santos Padres' e da 'própria Igreja'.
O papa nunca comentou as relações da Cúria com a Máfia e na verdade contribuiu mais para esconder do que para revelar escândalos e crimes. O Vaticano também tem sido extremamente lento para processar escândalos de pedofilia envolvendo o clero.
Conseqüência: a tímida confissão papal não teve conseqüências, pois não produziu ações, apenas palavras.
Para a Igreja Católica, este pontificado, apesar de seus aspectos positivos, no geral mostrou ser uma grande decepção e, no fim das contas, um desastre. Como resultado de suas contradições, este papa dividiu a Igreja, afastou-a de inúmeras pessoas e a mergulhou numa crise memorável - uma crise estrutural que, depois de um quarto de século, agora revela déficits fatais em termos de desenvolvimento e uma tremenda necessidade de reforma.
Contra todas as intenções do Concílio Vaticano II, o sistema romano medieval - caracterizado por traços totalitários - foi restaurado graças a uma política pessoal e doutrinal astuta e impiedosa: os bispos foram uniformizados; os padres espirituais, sobrecarregados; os teólogos, postos no cabresto; os leigos, privados dos seus direitos; as mulheres, discriminadas; as iniciativas populares dos sínodos nacionais e das igrejas, ignoradas. E a listagem continua: proibições de discussões, domínio litúrgico, proibição dos teólogos leigos de pregarem, exortação à denúncia, impedimento da eucaristia. De tudo isso será, porventura, culpado 'o mundo'? Se o próximo papa continuar as políticas deste pontificado, apenas reforçará um enorme acúmulo de problemas e transformará a atual crise estrutural da Igreja numa situação insolúvel. O novo papa precisa apoiar uma mudança de curso e inspirar a Igreja a tomar novos rumos - no espírito de João XXIII e de acordo com o ímpeto de reforma trazido pelo Concílio Vaticano II.


O teólogo brasileiro LEONARDO BOFF, um dos teóricos da Teologia da Libertação, foi outra vítima da implacável perseguição imposta por João Paulo II em seu pontificado, quando, cinco anos depois da cassação de HANS KÜNG, no dia 3 de setembro de 1984 receberia punição semelhante, por criticar a estrutura da igreja no livro “Igreja, Carisma e Poder”. Abaixo vai um artigo do teólogo publicado em 07 de abril de 2005 pelo jornal “O Estado de S. Paulo”, em que também se verifica uma crítica severa ao pontificado de João Paulo II:
UM ATRASO NO AJUSTE DE CONTAS DA IGREJA
LEONARDO BOFF*
O pontificado de João Paulo II foi longo e complexo. Só lhe faremos justiça se o considerarmos dentro de um amplo marco de temas que desde há muito preocupam a Igreja.
 
Qual é a característica fundamental desse papado? A restauração e o retorno à grande disciplina. João Paulo II não se caracterizou pela reforma e sim pela contra-reforma. Representou a tentativa de deter um processo de modernização que irrompeu na Igreja desde os anos 1960 e que estava interessando a todo o cristianismo. Deste modo, atrasou o ajuste de contas que a Igreja está fazendo em relação a dois graves problemas que a martirizam há quatro séculos.
O primeiro está ligado ao surgimento de outras igrejas como conseqüência da Reforma Protestante do século 16, que fraturou a unidade da Igreja Católica Romana e a obrigou a tolerar outras igrejas que interpretava como cismáticas e heréticas.
A segunda grande questão deriva da modernidade das luzes, com o surgimento da razão, da ciência e da tecnologia, das liberdades civis e da democracia. Essa nova cultura colocava em xeque a revelação da qual a Igreja se sente portadora exclusiva e denunciava a forma em que a Igreja se organiza institucionalmente: como uma monarquia absolutista espiritual em contradição com a democracia e a vigência dos direitos humanos.
Com relação às igrejas evangélicas, a estratégia do Vaticano apontava para a reconversão a fim de restaurar a antiga unidade eclesiástica sob a autoridade do papa. Para com a sociedade moderna, a relação era de crítica e condenação de seu projeto de emancipação e secularização com vistas a recriar a unidade cultural sob a égide dos valores morais cristãos.
As duas estratégias fracassaram. As outras igrejas cresceram e se afirmaram em todos os continentes. A sociedade moderna com suas liberdades, sua ciência e sua técnica converteu-se no paradigma para o mundo inteiro. A Igreja Católica viu-se transformada num bastião de conservadorismo religioso e autoritarismo político.
Foi obra do bom senso e da ousadia de um papa, João XXIII, a convocação de um Concílio Ecumênico para enfrentar valentemente aquelas duas questões não resolvidas. Efetivamente, o Concílio Vaticano II (1962-65) assumiu como lema não mais o anátema, mas a compreensão, não mais a condenação, mas o diálogo. Com respeito às outras igrejas, inaugurou o diálogo ecumênico que pressupõe a aceitação da existência de outras igrejas. Com respeito ao mundo moderno, colocou-se uma reconciliação com as esferas do trabalho, da ciência, da técnica, das liberdades e da tolerância religiosa.
Mas ainda faltava o terceiro ajuste de contas: com os pobres, que são a grande maioria da humanidade. Foi mérito da Igreja latino-americana recordar que não existe somente um mundo moderno desenvolvido, mas também um mundo subdesenvolvido que suscita uma pergunta incômoda: como anunciar Deus como Pai num mundo de miseráveis? Só tem sentido anunciar Deus como Pai se formos capazes de tirar os pobres da miséria, se convertermos essa realidade má em boa. É precisamente o que fizeram os setores mais dinâmicos na América Latina, animados por alguns profetas, como Hélder Câmara. A ordem era a opção pelos pobres e contra a pobreza. A virada incentivou muitos cristãos a ingressar nos movimentos sociais de libertação e até em frentes armadas, enquanto numerosos bispos e cardeais assumiram um papel destacado no combate às ditaduras militares e na defesa dos direitos humanos, entendidos principalmente como direitos dos pobres.
João Paulo II foi eleito papa quando estava em curso esse processo. Seu pontificado se situou desde o começo na contracorrente dessas tendências que eram dominantes. Seguramente foram determinantes em sua postura sua origem polonesa e os círculos da Cúria Romana, marginalizados, mas não derrotados pelo Concilio Vaticano II. Em Roma, o novo papa se encontrou com a burocracia vaticana, conservadora por natureza, que pensava o mesmo que ele. Estabeleceu-se assim um bloqueio histórico poderoso papacúria com a meta de impor a restauração da identidade e a antiga disciplina.
As condições pessoais de João Paulo II conseguiram realizar da melhor maneira esse projeto, graças à sua figura carismática, à sua inegável irradiação, à sua habilidade de dramatização midiática.
Para realizar seu desígnio de restauração, dotou-se de instrumentos adequados. Reescreveu o direito canônico para que enquadrasse toda a vida da Igreja, fez publicar o Catecismo Universal da Igreja Católica e com isso oficializou o pensamento único dentro da Igreja. Tirou poder de decisão do Sínodo de Bispos, submetendo-o totalmente ao poder papal, assim como limitou o poder das conferências continentais de bispos, das conferências nacionais episcopais, das conferências de religiosos nos níveis nacional e internacional, marginalizou o poder de participação decisória dos leigos e negou plena cidadania eclesial às mulheres, relegadas a funções secundárias, sempre longe do altar e do púlpito.
Junto com seu principal assessor, o cardeal Joseph Ratzinger, o papa professava uma visão agostiniana da historia, para a qual o que realmente conta é somente o que passa pela mediação da Igreja, portadora da salvação sobrenatural. Segundo essa visão, o que passa pela mediação dos homens e da história não alcança a altura divina e é insuficiente perante Deus.
Essa postura o induziu a uma fundamental incompreensão da teologia latino-americana da libertação. Esta afirma que a libertação deve ser obra dos próprios pobres. A Igreja é somente uma aliada que reforça e legitima a luta dos pobres. Para o cardeal Ratzinger, essa libertação é meramente humana e carente de relevância sobrenatural. É preciso destacar que o papa teve uma visão curta e simplista desse tipo de teologia, que interpretou com a lógica de seus detratores e, hoje o sabemos, a partir das informações que a CIA lhe entregava, particularmente sobre a influência dos teólogos da libertação na América Central. A interpretou como um cavalo de Tróia do marxismo que ele era obrigado a denunciar, em razão da experiência adquirida sobre o comunismo em sua Polônia natal. Convenceu-se de que o perigo na América Latina era o marxismo, quando o verdadeiro perigo sempre foi o capitalismo selvagem e colonialista com suas elites antipopulares e retrógradas.
Em João Paulo II prevalecia a missão religiosa da Igreja e não sua missão social. Se tivesse dito 'vamos apoiar os pobres e comprometer a Igreja com as reformas em nome do Evangelho e da tradição profética', outro teria sido o destino político da América Latina. Pelo contrário, organizou a restauração conservadora em todo o continente: afastou bispos proféticos e designou bispos distanciados da vida do povo, fechou instituições teológicas e sancionou seus docentes.
Houve uma grande contradição entre as atitudes do papa e seus ensinamentos. Para fora, se apresentava como um paladino do diálogo, das liberdades, da tolerância, da paz e do ecumenismo; pediu perdão em várias ocasiões pelos erros e condenações eclesiásticas no passado; reuniu-se com líderes de outras religiões para rezar, unidos, pela paz mundial. Mas, dentro da Igreja, calou o direito de expressão, proibiu o diálogo e produziu uma teologia com fortes tons fundamentalistas.
O projeto político-eclesiástico assumido pelo papa não resolveu os problemas que se havia colocado com relação à Reforma, à modernidade e à pobreza. Antes os agravou, atrasando um verdadeiro ajuste de contas.
As limitações de seu estilo de governo da Igreja não impediram que João Paulo II alcançasse a santidade pessoal em um grau eminente. Assim foi, no marco de uma religião 'à antiga' com grande devoção aos santos e, em especial, à Nossa Senhora, às relíquias e aos lugares de peregrinação. Foi homem de profunda oração. Às vezes, ao orar, se transfigurava e empalidecia, outras vezes gemia e vertia lágrimas. Uma vez o surpreenderam em sua capela particular estendido no solo em forma de cruz, como em êxtase, à semelhança dos iluminados espanhóis do século 16.
A quem cabe a última palavra? À história e a Deus. Nós só poderemos aceder à história, que nos dirá qual foi seu real significado para o cristianismo e para o mundo nesta fase de mudança de paradigmas e de mudança de milênio.
*Leonardo Boff, teólogo da libertação, em 1985 foi punido com um ano de 'silêncio obsequioso' e deposto de suas funções editoriais e acadêmicas no campo religioso pelas autoridades doutrinais do Vaticano. Texto retirado do site da Agencia de Información Fray Tito para América Latina (Adital), de 4 de abril de 2005.
Por fim, segue abaixo um artigo publicado pelo “The New York Times” em que seu autor, Thomas Cahill, em tom desolador, chega a afirmar que João Paulo II destruiu a Igreja:
ELE FOI QUASE O PÓLO OPOSTO DE JOÃO XXIII
Thomas Cahill*
Com a mídia mergulhada em homenagens à grandeza do papa João Paulo II, não é hora de perguntar a que tradição ele pertencia? Partidários não familiarizados com a história cristã podem achar a pergunta estranha, já que ele pertencia à tradição católica. Mas não há uma única tradição católica; há, ao contrário, tradições católicas, que vão da pobreza voluntária de São Francisco de Assis à ambição dos papas de Avignon, da tolerância pela diversidade do papa Gregório, o Grande, no século 6.º, à arrogância do papa Pio IX, no século 19, da clandestinidade e dos complôs da Opus Dei à abertura da comunidade de Santo Egídio. Em seus 2 mil anos de história, o catolicismo foi terreno fértil para uma variedade de tradições papais.
Apesar de sua escolha de nome, João Paulo II pouco tinha em comum com seus predecessores. João Paulo I durou pouco mais de um mês, mas nesse período fomos apresentados a um italiano de tendências moderadas, alguém que, antes de sua eleição, parabenizou os pais do primeiro bebê de proveta do mundo - um gesto que não repercutiu bem entre os fundamentalistas da Igreja, que ainda insistem em combater tudo o que vá de encontro à natureza.
Paulo VI, embora cauteloso, permitiu a indicação de bispos que fossem o contrário de aduladores, defensores dos pobres e representantes das partes do mundo de onde vieram, como o cardeal Joseph Bernardin, de Chicago, que no fim de sua vida lutou por espaço em uma Igreja marcada pela divisão. Em compensação, o cardeal Bernard Law, de Boston, reprimiu Bernardin por esse esforço, uma vez que a Igreja sabe a verdade e, portanto, está isenta de algo indigno como o diálogo. Law, que se demitiu depois da revelação de que havia permitido que padres acusados de abuso sexual ficassem na Igreja, não informando o fato nem à polícia nem à comunidade, deve ser considerado o típico representante de João Paulo II - cioso da Igreja, mas muitas vezes negligente em relação às exigências morais para proteger e cuidar de seres humanos.
João Paulo II foi quase o oposto de João XXIII, que levou o catolicismo a confrontar as realidades do século 20 depois das políticas retrógradas de Pio IX, que impôs a infalibilidade papal no Concílio Vaticano I, em 1870, e depois do reinado de terror imposto por Pio X aos teólogos no início do século 20. Infelizmente, este papa estava muito mais próximo das tradições de Pio IX e Pio X do que de seus homônimos.
Em vez de minimizar os absurdos da infalibilidade do Vaticano I, uma declaração que tinha origem na paranóia de Pio IX, João Paulo II tentou ir além com ela. Ao procurar impor conformidade de pensamento, ele intimou teólogos importantes como Hans Küng, Edward Schillebeeckx e Leonardo Boff ao protagonizar inquéritos espetaculares e fez seu grande inquisidor, o cardeal Joseph Ratzinger, divulgar condenações de seus trabalhos.
Mas o legado mais duradouro de João Paulo II ao catolicismo virá das suas indicações episcopais. Para ser indicado a bispo, um padre deve ser contrário a masturbação, sexo antes do casamento, controle de natalidade (incluindo as camisinhas usadas para prevenir a disseminação da aids), aborto, divórcio, relações homossexuais, padres casados, sacerdotes mulheres e qualquer sinal de marxismo. É quase impossível encontrar homens que concordem inteiramente com esse catálogo pleno de certezas; como resultado, os quadros do episcopado estão repletos de lacaios ignorantes e incompetentes intelectuais. Os bons padres foram relegados; e não foram poucos, em sua frustração com o pontificado de João Paulo II, a buscar preenchimento em outro lugar.
A situação é sombria. Qualquer um pode entrar em uma igreja no domingo e ver os bancos, antes repletos, hoje esparsamente ocupados por cabeças brancas. E não há outra solução a não ser começar de novo, como se fosse a Igreja das catacumbas, a seita minoritária em um mundo de crueldade que reuniu seguidores porque era muito diferente da sociedade em torno.
Naquela época, a Igreja chamava a si mesma pela palavra grega ekklesia, usada pelos gregos para sua assembléia aberta, a primeira democracia participativa do mundo. (O apóstolo Pedro, a quem o Vaticano concede o título de primeiro papa, era um dos muitos líderes da Igreja primitiva, tão distante de um monarca absolutista quanto podia ser, um homem cuja característica mais visível era a humilde confissão de que ele estava errado.) Ao usar a palavra, os primeiros cristãos queriam enfatizar que sua sociedade agia não movida pelo poder político, mas pelo poder do amor.
Mas eles foram muito além dos atenienses, por permitir que todos participassem sem restrições: cidadãos e não-cidadãos, gregos e não-gregos, patriarcas e mulheres submissas. Porque, como repetia São Paulo: 'Fomos todos batizados em Cristo para formar um só corpo: judeus e gregos, escravos e homens livres, homens e mulheres.' Tristemente, João Paulo II representou uma tradição diferente, de papado agressivo. Onde João XXIII queria mostrar a validade dos ensinamentos em vez de lançar condenações, João Paulo II foi um condenador entusiasmado. Sim, ele certamente será lembrado como uma das personalidades políticas de sua era, um homem de coragem física e moral mais responsável do que qualquer outro por trazer abaixo o opressivo comunismo do Leste Europeu. Mas ele não era uma grande personalidade religiosa.
Como poderia ser? Ele pode, no futuro, ser creditado como o homem que destruiu a Igreja.
* Thomas Cahill é autor de Como os Irlandeses Salvaram a Civilização, Papa João XXIII e O Desejo das Colinas Eternas, publicados no Brasil pela Objetiva