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quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Conflitos internos podem ter provocado renúncia do Papa

Conflitos internos podem ter provocado renúncia do Papa///// Enviado por luisnassif,/////qua, 13/02/2013 - 09:46 Do Estadão Disputa de poder na Igreja pode ter provocado renúncia de Bento XVI Fontes próximas ao Vaticano afirmam que exaustão declarada pelo pontífice está ligada aos confrontos internos, e não apenas à idade avançada; corrupção no Banco do Vaticano e roubo de documentos por seu ex-mordomo contribuíram para o desgaste Jamil Chade CIDADE DO VATICANO - Cansado e sem energia, mas também isolado politicamente. O papa Bento XVI de fato renunciou ao pontificado por conta de sua fragilidade. Fontes próximas ao Vaticano, porém, afirmam que a exaustão não tem a ver apenas com a sua saúde, mas também com a disputa de poder que marcou seus últimos meses no trono. A renúncia teria sido uma reação extrema ao que muitos classificam de governo paralelo, que teria se formado à sua sombra e sob comando do cardeal Tarcisio Bertone. Por seus aliados, Bento XVI optou por sacrificar seu próprio cargo, na esperança de recolocar a Igreja num caminho de maior coesão, forçando uma nova eleição. Fontes nas embaixadas estrangeiras junto à Santa Sé relataram ao Estado os bastidores dos últimos meses de Bento XVI. Dizem que o papa renunciou de livre vontade, mas consciente de que já não mandava sozinho na Santa Sé e, com os poucos anos que lhe restavam, não conseguiria fazer o que havia planejado diante de resistência de seus ex-aliados. De forma indireta, a Santa Sé confirmou que a fragilidade não vinha de sua saúde. "O papa é uma pessoa de grande realismo e conhece os problemas e as dificuldades", disse o porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi. "A renúncia foi uma mensagem à Cúria, mas também a todos nós", disse. "Foi um ato de humildade, sabedoria e responsabilidade." Segundo Lombardi, não havia um problema específico, mas sim uma visão "mais ampla da Igreja no mundo. "Não foi uma decisão improvisada. Foi algo muito lúcido." A possibilidade de renúncia era cogitada por Bento XVI desde abril de 2012, após viagem ao México e a Cuba. O papa chegou ao trono com a promessa de que conduziria uma limpeza na Igreja. O resultado, porém, foi o oposto e o equilíbrio de poder que havia durante os anos de João Paulo II ruiu. Suas decisões de punir cardeais simplesmente foram ignoradas ou levaram anos para serem cumpridas, em um desafio claro ao poder do papa. Foram os casos de Roger Mahony ou de Thomas Curry. Marcial Maciel, fundador dos Legionários de Cristo, foi outro que acabou sendo protegido por anos, apesar das denúncias. Por mais que tenha tentado, Bento XVI jamais conseguiu implementar sua ideia "de tolerância zero" em relação à pedofilia. "Quanta sujeira na Igreja", chegou a declarar. Bento XVI também deu indicações de que poderia rever algumas de suas posições, como a questão do preservativo. Cardeais mostraram-se irritados e se apressaram em negar o debate. Esse não seria o único caso de desobediência. Bertone tomaria medidas à sua revelia, até mesmo punindo aliados do papa. Em uma ocasião, teria chorado. Amigo pessoal do papa, Bertone foi a pessoa que mais recebeu poder dentro da Igreja em 2005. Mas, em alianças com membros da Cúria, teria criado situações em que colocava Bento XVI contra esses cardeais. Para evitar uma disputa direta, o papa optou inicialmente por não questionar as decisões de seu ex-aliado. Mas isso teria ido longe demais. Um dos casos que revelou o poder de Bertone foi o do cardeal Carlo Maria Vigano, que alertou Bento XVI sobre suspeitas de corrupção nos contratos do Vaticano. O caso chegou até a imprensa italiana. Imediatamente, Bertone decidiu nomear Vigano como núncio nos Estados Unidos. Outros fatos. Também pesaram a revelação de corrupção no Banco do Vaticano, seguido pelo descobrimento de que próprio mordomo, pessoa que o vestia e estava em sua intimidade, havia roubado documentos que expunham a corrupção na Igreja. Para diplomatas, um indício de que Bento XVI não acreditava que o mordomo havia agido sozinho foi sua decisão de perdoá-lo, mesmo depois que um tribunal do Vaticano o condenou. Em agosto, Bento XVI foi à casa que o Vaticano dispõe nos arredores de Roma para descanso. Fontes no Vaticano confirmaram que já naquele momento ele estava isolado. Nos últimos meses, o papa abandonou o confronto. Aos que chegavam com alguma intriga doméstica, respondia: "Eu sou um papa velho". http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/conflitos-internos-podem-ter-provocado-renuncia-do-papa

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Mística e alegria

04.02.13 - Mundo - Adital/ Marcelo Barros, Monge beneditino e escritor /
Nesses primeiros dias de fevereiro, o mundo parece invadido pelo clima de alegria do Carnaval. Este envolve pessoas de todas as classes sociais. Suas danças e folguedos representam culturas que, a depender do lugar, revivem em expressões indígenas, negras ou europeias. Embora o Carnaval tenha origens religiosas, muitas vezes, as Igrejas cristãs ainda o olham com desconfiança, assim como suspeitam de todo tipo de diversão e prazer. É verdade que, cada vez mais, na estrutura atual do mundo, o Carnaval é dominado por interesses econômicos e expressa as contradições dessa sociedade. Entretanto, não se pode negar: de uma forma ou de outra, em todas as épocas e nas mais diferentes culturas, a atração pela festa e a busca da alegria fazem parte essencial da vocação humana. As religiões deveriam assumir e expressar isso. No Cristianismo, Evangelho significa boa notícia. No primeiro testamento, Deus se revela para libertar o povo oprimido do cativeiro, dar terra a quem não a tinha e criar na humanidade uma comunhão de vida. No Novo Testamento, cada vez que o Espírito de Deus se manifesta, a consequência imediata é a alegria. Sempre que Jesus fica cheio do Espírito, exulta de grande regozijo. Ele compara o projeto divino no mundo com uma festa de casamento. Conforme o quarto evangelho, o primeiro sinal que ele fez para revelar sua missão ao mundo foi fazer com que não falte vinho e, portanto, alegria, em uma festa de casamento na Galileia. Durante muito tempo, a doutrina da Igreja parecia dar mais valor à penitência, à reparação das faltas e à luta contra o pecado do que à graça divina e à alegria do amor. A visão sobre o ser humano e sobre nós mesmos era pessimista e predominantemente negativa. Hoje, as comunidades cristãs são chamadas a valorizar a natureza como criação divina, sinal da bênção amorosa de Deus e reflexo da divindade. Um comentário judaico do Gênesis diz que, quando o universo surgiu do útero do Criador, centelhas da divindade se espalharam por todas as criaturas. Estas não são divinas em si mesmas, mas são divinizadas pela luz do Criador. E o ser humano, criado à própria imagem divina, deve se tornar, pelo seu modo de viver, semelhante ao Espírito, cuidador amoroso do universo e dos seus outros irmãos, assim como de si mesmo. O objetivo da espiritualidade é nos ajudar a atingir essa divinização de todo o ser. Mesmo com métodos e formas que podem ser estranhas à educação da fé, o Carnaval pode recordar às Igrejas cristãs que a alegria e o espírito de festa são elementos essenciais do projeto divino no mundo. Na Carta aos Filipenses, Paulo escreveu: "Alegrem-se sempre em Deus. Eu insisto: alegrem-se, porque o Senhor está perto” (Fl 4, 4). Hoje, dizemos: ele está em nós.

Mística e alegria

04.02.13 - Mundo - Adital - Marcelo Barros Monge beneditino e escritor /
Nesses primeiros dias de fevereiro, o mundo parece invadido pelo clima de alegria do Carnaval. Este envolve pessoas de todas as classes sociais. Suas danças e folguedos representam culturas que, a depender do lugar, revivem em expressões indígenas, negras ou europeias. Embora o Carnaval tenha origens religiosas, muitas vezes, as Igrejas cristãs ainda o olham com desconfiança, assim como suspeitam de todo tipo de diversão e prazer. É verdade que, cada vez mais, na estrutura atual do mundo, o Carnaval é dominado por interesses econômicos e expressa as contradições dessa sociedade. Entretanto, não se pode negar: de uma forma ou de outra, em todas as épocas e nas mais diferentes culturas, a atração pela festa e a busca da alegria fazem parte essencial da vocação humana. As religiões deveriam assumir e expressar isso. No Cristianismo, Evangelho significa boa notícia. No primeiro testamento, Deus se revela para libertar o povo oprimido do cativeiro, dar terra a quem não a tinha e criar na humanidade uma comunhão de vida. No Novo Testamento, cada vez que o Espírito de Deus se manifesta, a consequência imediata é a alegria. Sempre que Jesus fica cheio do Espírito, exulta de grande regozijo. Ele compara o projeto divino no mundo com uma festa de casamento. Conforme o quarto evangelho, o primeiro sinal que ele fez para revelar sua missão ao mundo foi fazer com que não falte vinho e, portanto, alegria, em uma festa de casamento na Galileia. Durante muito tempo, a doutrina da Igreja parecia dar mais valor à penitência, à reparação das faltas e à luta contra o pecado do que à graça divina e à alegria do amor. A visão sobre o ser humano e sobre nós mesmos era pessimista e predominantemente negativa. Hoje, as comunidades cristãs são chamadas a valorizar a natureza como criação divina, sinal da bênção amorosa de Deus e reflexo da divindade. Um comentário judaico do Gênesis diz que, quando o universo surgiu do útero do Criador, centelhas da divindade se espalharam por todas as criaturas. Estas não são divinas em si mesmas, mas são divinizadas pela luz do Criador. E o ser humano, criado à própria imagem divina, deve se tornar, pelo seu modo de viver, semelhante ao Espírito, cuidador amoroso do universo e dos seus outros irmãos, assim como de si mesmo. O objetivo da espiritualidade é nos ajudar a atingir essa divinização de todo o ser. Mesmo com métodos e formas que podem ser estranhas à educação da fé, o Carnaval pode recordar às Igrejas cristãs que a alegria e o espírito de festa são elementos essenciais do projeto divino no mundo. Na Carta aos Filipenses, Paulo escreveu: "Alegrem-se sempre em Deus. Eu insisto: alegrem-se, porque o Senhor está perto” (Fl 4, 4). Hoje, dizemos: ele está em nós.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Pobreza urbana: uma decisão política. Entrevista com Ana Tereza Coutinho Penteado

10.01.13 - Brasil IHU - Unisinos Instituto Humanitas Unisinos Adital Quinta, 10 de janeiro de 2013 "As grandes metrópoles, por terem uma concentração de mão de obra, serviços especializados, infraestrutura urbana como aeroportos e rodovias, entre outros, têm sido tratadas como um grande negócio. Os megaeventos são um bom exemplo disso”, afirma a especialista. A pobreza urbana não é uma "situação econômica, decorrente de poucos recursos financeiros, mas de escolhas políticas que fazem das pessoas pobres cada vez mais pobres, pela dificuldade de terem acesso aos bens e serviços que deveriam ser assegurados para todos os habitantes da cidade”. A constatação é da assistente social Ana Tereza Coutinho Penteado, que acompanha o desenvolvimento de metrópoles urbanas a exemplo de Campinas, em São Paulo. Ao avaliar a urbanização das cidades, ela enfatiza que os "recursos são dirigidos para os investimentos econômicos e não sociais, há o estímulo à especulação e consequentemente a periferização da população mais pobre, que vai sendo cada vez mais empurrada para locais distantes da cidade, que contam com nenhuma ou pouca infraestrutura urbana”. Em entrevista à IHU On-Line, concedida por e-mail, ela aponta que "a chegada dos megaeventos” tem atualizado os "mecanismos de repressão das pessoas pobres e pessoas em situação de rua”. Diante desse contexto, destaca-se a preocupação com as políticas sociais, que ficam submetidas às operações urbanas. Apesar dos conflitos entre as políticas sociais e urbanas, Ana Tereza assinala que a "política de assistência social tem avançado no país. No entanto, é preciso superar o ranço assistencialista e repressor, principalmente quando as unidades, as ações e os serviços assistenciais são implementados nos municípios e estados. A política de assistência social não pode ficar submetida aos interesses econômicos, nem ser utilizada para adequar ou controlar as pessoas atendidas”. Ana Tereza Coutinho Penteado é graduada em Serviço Social pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas, especialista em Serviço Social pela Universidade de Brasília – UnB, e mestre em Geografia pela Universidade Estadual de Campinas – Unicamp. Confira a entrevista. IHU On-Line – Como caracteriza o processo de urbanização na cidade de Campinas? Ana Tereza Coutinho Penteado – Campinas, seguindo a tendência das demais cidades brasileiras, tem passado por um processo de urbanização, denominada por Milton Santos(2009b) de "urbanização corporativa", que longe de pensar a cidade para todos os seus habitantes, gera diversos problemas sociais. Neste tipo de urbanização os recursos são dirigidos para os investimentos econômicos e não sociais, há o estímulo à especulação e consequentemente a periferização da população mais pobre, que vai sendo cada vez mais empurrada para locais distantes da cidade, que contam com nenhuma ou pouca infraestrutura urbana. Verificamos que o tratamento dispensado pela sociedade e pelo Estado à população pobre tem importância para o desenvolvimento deste tipo de urbanização, pois historicamente os mecanismos de assistencialismo e repressão controlam e contêm a população pobre. No caso de crianças e adolescentes em situação de rua, as grandes instituições que durante muitos anos "cuidaram” dos chamados "menores abandonados” também tinham a função de conter, e funcionaram longe dos espaços urbanos que recebiam investimentos para a revalorização urbana voltada a uma minoria. Verificamos que este processo está presente em diversas cidades brasileiras e, igualmente, em Campinas. IHU On-Line – Essa tem sido uma tendência nas metrópoles brasileiras? Ana Tereza Coutinho Penteado – Sim. Tem ocorrido em cidades brasileiras e, na medida em que ocorre a expulsão ou a contenção dos pobres nos locais mais distantes das áreas centrais – consideradas ativas economicamente (pois contam com maior fluidez, com infraestruturas e serviços diversos) –, essas pessoas também se distanciam do acesso aos serviços públicos e direitos sociais, passando a ter maiores dificuldades para a mobilidade urbana. Enfim, enfrentam inúmeros problemas que são considerados por muitos estudiosos como característicos da exclusão social. Essa situação tem sido enfrentada pelas políticas sociais que tentam assegurar os direitos a todos. No entanto, é sabido que somente as políticas sociais não têm condições de enfrentar a infinidade dos problemas existentes, enquanto o processo de urbanização das cidades continuar a gerar mais pobreza e desigualdades socioespaciais. A pobreza urbana, como afirma Milton Santos (2009a), não é uma situação econômica decorrente de poucos recursos financeiros, mas de escolhas políticas que fazem das pessoas pobres cada vez mais pobres, pela dificuldade de terem acesso aos bens e serviços que deveriam ser assegurados para todos os habitantes da cidade. IHU On-Line – Sua pesquisa aponta que há um choque entre as políticas sociais e urbanas em Campinas. Em que sentido? Ana Tereza Coutinho Penteado – Os direitos sociais estão expressos na Constituição da República, de 1988, e foram regulamentados por diversas normatizações no decorrer dos últimos anos. As políticas sociais vêm sendo regulamentadas e ampliadas e têm buscado garantir os direitos à população que historicamente não teve acesso aos bens e direitos que deveriam ser para todos. No entanto, sua implementação nas cidades brasileiras é feita de modo distinto conforme os direcionamentos municipais, e vimos que muitas vezes elas acabam ficando submetidas às ações de revalorização urbana, comandadas pelos gestores municipais, que querem, por exemplo, diminuir o fluxo de pessoas em situação de rua, por vezes de forma repressiva, fazendo mau uso inclusive das políticas sociais. Quando o território é utilizado como recurso pelas empresas e pelo Estado, temos que questionar onde estão os princípios das políticas sociais, quer dizer, neste contexto de choque ou submissão às ações de revalorização urbana, é preciso retomar e analisar se estão sendo garantidos os direitos do cidadão que está nas ruas, ou os interesses das empresas, da revitalização urbana, das grandes corporações, ou do tráfego que não pode ser obstruído. IHU On-Line – O que é possível vislumbrar em termos de política urbana com eventos como a Copa do Mundo de 2014 e as Olímpiadas de 2016, especialmente em São Paulo? Ana Tereza Coutinho Penteado – O que temos visto tanto em São Paulo como em diversas cidades é uma atualização dos mecanismos de repressão das pessoas pobres e pessoas em situação de rua com a chegada dos megaeventos. Eles dinamizam o turismo, provocam valorização do território, e as cidades precisam estar "limpas”, bonitas, atrativas. Portanto, todas as manifestações de pobreza, dentre elas as pessoas em situação de rua, precisam ser retiradas. Desse modo, há que se preocupar com o sentido das políticas sociais, para que não fiquem submetidas às operações urbanas. IHU On-Line – Em que medida, nas metrópoles brasileiras, o espaço urbano é tratado como um grande negócio? A que atribui essa prática? Ana Tereza Coutinho Penteado – As grandes metrópoles, por terem uma concentração de mão de obra, serviços especializados, infraestrutura urbana como aeroportos e rodovias, entre outros, têm sido tratadas como um grande negócio. Os megaeventos são um bom exemplo disso. Outro exemplo que vimos na cidade de Campinas é um documento intitulado "Campinas: Guia de Investimentos” que ficou nos últimos anos disponível no site da prefeitura municipal, apresentando o dinamismo da região e a cidade e o país como alvo de investimentos mundiais e instalação de grandes negócios pela disponibilidade de infraestrutura e recursos humanos. Um dos incentivos fiscais é até denominado "Compre Campinas”. No mesmo sentido podemos dizer que o processo de especulação é muito violento e que acaba impedindo de a cidade ser usufruída igualmente por todos os seus habitantes. As operações de revitalização de áreas degradadas demonstram este processo, pois em geral, após as obras e embelezamento dos locais, as pessoas em situação de rua passam a ser impedidas de circular neles. IHU On-Line – A senhora critica o programa Tolerância Zero por ter desmantelado as políticas sociais em Campinas. Por quais razões? Ana Tereza Coutinho Penteado – Havia uma rede de serviços e infraestruturas das políticas sociais de assistência social e de saúde constituída, que vinha há alguns anos num processo de aproximação, construção e realização de algumas ações intersetoriais para garantias de direitos de meninos e meninas em situação de rua. A imposição do programa governamental Tolerância Zero, principalmente para a participação destes serviços na ação chamada de "Bom dia morador de rua”, criou grande tensão entre os profissionais das unidades, serviços públicos e cofinanciados que foram chamados a participar das operações, pois era visível que a forma como vinham sendo executadas essas ações e encaminhamentos criminalizava ainda mais a pobreza e violava os direitos das pessoas que estavam nas ruas. Além disso, a partir desta operação urbana alguns programas e serviços públicos foram fechados, outros passaram por transformações significativas, ou seja, houve uma mudança no sentido das ações que vinham sendo construídas, o que impactou no atendimento direto que era realizado para com os meninos e meninas que estavam nas ruas. IHU On-Line – Como vê as políticas públicas na área de assistência social no país? Quais os avanços e limites nesse sentido? Ana Tereza Coutinho Penteado – Anteriormente, as ações assistencialistas não consideravam os pobres como sujeitos de direitos, e sim os rebaixavam ainda mais, sujeitando-os à condição de ajudado, de inferior. As mudanças ocorridas na assistência social foram paradigmáticas, pois estamos falando de uma transformação na direção e no sentido das ações historicamente realizadas pela sociedade. A assistência social foi inserida na Constituição da República, de 1988, como um direito do cidadão e dever do Estado. A partir de então suas ações passaram a ser regulamentadas. Atualmente a Política de Assistência Social é organizada num sistema, o Sistema Único de Assistência Social – SUAS, que possui serviços e ações normatizadas dentro de diferentes Proteções Sociais (de básica, média e alta complexidade). A partir dessa organização temos visto a ampliação dos benefícios e de unidades de atendimentos, assim como há um estudo do IPEA (2011) que revela a grande ampliação de recursos financeiros para a execução da política de assistência social, a partir dos anos 2000. De acordo com este estudo, dentre as políticas sociais, a assistência social foi a que mais apresentou evolução dos recursos. Por isso, podemos analisar que a política de assistência social tem avançado no país. No entanto, é preciso superar o ranço assistencialista e repressor, principalmente quando as unidades, as ações e os serviços assistenciais são implementados nos municípios e estados. A política de assistência social não pode ficar submetida aos interesses econômicos, nem ser utilizada para adequar ou controlar as pessoas atendidas. IHU On-Line – Como o processo de urbanização pode dialogar com as políticas públicas sociais? É possível ter um projeto de urbanização sem implicações sociais? Ana Tereza Coutinho Penteado – O planejamento e as ações urbanas dialogam com todas as políticas setoriais, pois ele é como um guarda-chuva. Todas as ações que ocorrem na cidade possuem implicações, para melhor ou para pior, nas condições de vida da população. Muitas vezes ações realizadas pela política urbana geram novos investimentos econômicos, atraem empresas, aumentam o valor dos imóveis; no entanto, socialmente estas ações podem acabar piorando as condições de vida de muitas pessoas, principalmente as pobres. Nesse sentido, o planejamento urbano precisa considerar a cidade como um espaço de todos, não apenas da esfera econômica. E precisa dialogar com as políticas sociais, e com as unidades e serviços públicos que realmente conhecem as condições de vida e as maiores necessidades da maioria da população. http://www.adital.org.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=73112

domingo, 6 de janeiro de 2013

90 anos de transformações na Igreja. Entrevista com Dom Tomás Balduíno

04.01.13 - Brasil
IHU - Unisinos Instituto Humanitas Unisinos Adital Quarta, 02 de janeiro de 2013 "Num país como o nosso, que tem tantos recursos e onde muitas igrejas são florescentes de templos invejáveis em tamanho, conforto etc., pastorais de fronteira estão empobrecidas”, declara bispo emérito de Goiás. Dom Tomás Balduíno, bispo emérito de Goiás, pertence a uma geração de bispos brasileiros que identifica na missão da Igreja uma transformação social. Ele esteve à frente da criação da Comissão Pastoral da Terra – CPT e do Conselho Indigenista Missionário – Cimi, onde, ainda hoje, atua com bastante entusiasmo. Na entrevista a seguir, concedida por telefone à IHU On-Line, Dom Tomás recorda sua trajetória na Igreja e enfatiza que a "CPT aconteceu num momento de muita animação, decisão, caminhada e energia a favor dos pobres. Foi fruto do Concílio Vaticano II e de Medellín”. Para ele, tanto a CPT quanto o Cimi "trouxeram para dentro da Igreja uma abertura, porque a convivência com esses povos trazia, na pessoa dos agentes de pastoral das CPTs, para o interior da Igreja a preocupação com a situação deles”. E conclui: "Houve um crescimento dentro da própria instituição eclesiástica”. Poucos dias antes de completar 90 anos de idade, Dom Tomás Balduíno conversou com a IHU On-Line e diz se sentir "livre”. "Não tenho mais o governo de uma diocese, mas se eu pastoreio, eu pertenço ao Colégio Episcopal. Então, tenho na Igreja a atuação referente à missão de pastor”. Depois de ter presenciado momentos difíceis na Igreja, como o período militar, Dom Tomás gosta de pensar o futuro da Igreja numa perspectiva de "esperança”. "O futuro próximo é a continuidade. Agora, o futuro mais remoto a Deus pertence. Eu acho que tem muito elemento dentro da Igreja no sentido de uma renovação. Será que isso terá acesso ao governo mundial da Igreja na pessoa do Papa? Não sei”, conclui. Dom Tomás Balduíno nasceu em 31 de dezembro de 1922, e no final do ano passado completou 90 anos. É teólogo católico, bispo emérito de Goiás e assessor da Comissão Pastoral da Terra. Pertence à Ordem Dominicana. Confira a entrevista. IHU On-Line – Quando e por que decidiu seguir a vida religiosa e entrar na Ordem Dominicana? Dom Tomás Balduíno – Desde menino eu já tinha vontade de ser padre. Talvez por influência familiar dos tios padres por parte da minha mãe, ou de um tio padre por parte do meu pai. Na cidade onde morava, Formosa-GO, havia uma comunidade de religiosos dominicanos franceses. Admirava estes monges pela vida missionária deles, pelo sacrifício de rodar boa parte do estado de Goiás a cavalo. Então, me engajei na Igreja, e quando era adolescente fui encaminhado para o seminário, depois para o noviciado em Uberaba. Mais tarde estudei em São Paulo e cursei Filosofia; na França, mais tarde, estudei Teologia, porque faltam professores no Brasil. Nessa época tivemos uma influência interessante dos precursores do Concílio Vaticano II. Fui ordenado padre na França e, ao voltar ao Brasil, depois de um certo tempo de lecionar nas faculdades de Filosofia, meu provincial me designou para a missão indigenista. Esse foi o início de uma nova etapa. Não que eu escolhesse, mas fui levado a isso pelas circunstâncias, porque eu era o superior da missão, e a partir de um certo momento, na década de 1960, fui procurado pelos lavradores que estavam sendo pressionados pelos proprietários da terra no estado do Pará. Acabei me envolvendo com esse mundo. Depois também trabalhei com os povos indígenas. Tive mais contato com o povo Xikrin, do Alto do Itacaiúnas; aprendi a língua convivendo com eles. Injustiça social O que me marcou profundamente foi a questão da injustiça social no sentido de o governo do estado do Pará vender terras sem levar em conta a população que estava dentro daquele território. Houve conflitos e eu participei deles no início, porque depois fui transferido para Goiás, como bispo diocesano, onde fiquei durante 31 anos. Lá me deparei novamente com a questão da terra, porque é uma região de muito latifúndio, de dominação da elite dos caiados. Nesse tempo que vivi em Goiás, ajudei a inaugurar duas fundações importantes para a Igreja e para a sociedade: o Conselho Indigenista Missionário – Cimi, que foi substituindo pouco a pouco as antigas missões de caráter paternalista; e a Comissão Pastoral da Terra, que surgiu graças a Medellín e ao Concílio Vaticano II, nos anos de1972 e 1973. O Cimi surgiu como opção pelos pobres, mas considerando os pobres como sujeitos, autores e destinatários de sua própria caminhada, como protagonistas de sua própria luta. Quer dizer, mudou, naquele tempo, completamente a postura da Igreja com relação aos povos indígenas e com relação aos camponeses. As experiências que se tinham eram de criar organizações, confrarias de operários, trabalhadores rurais ligados religiosamente à Igreja. Na posição da Comissão Pastoral da Terra, que nasceu em 1975, houve uma revolução Copernicana, assim como houve no Universo Indígena Pastoral Indigenista de respeitar a condição de sujeito dos trabalhadores rurais e não objeto de nossa ação caritativa. IHU On-Line – O senhor foi cofundador do Conselho Indigenista Missionário em 1972 e seu segundo presidente. Como avalia a questão indígena no país 40 anos depois? Dom Tomás Balduíno – Houve avanço no sentido das organizações indígenas. O próprio Conselho Indigenista Missionário tem numa nova política de tratamento aos povos indígenas. Em vez de querer confiná-los em um determinado lugar pastoral, como era antigamente, sugeriu uma proposta – que no início nos chocou e depois se viu que era o "ovo de Colombo” – de favorecer assembleias de chefes de tribos diferentes. Tínhamos receio, porque eram tribos muitas vezes hostis entre si, mas constatamos que eles atenderam ao convite para se reunirem. Passamos a reunir chefes indígenas em assembleias, e eles saíam convictos de que o inimigo do índio nunca era outro índio, e que precisavam recuperar sua cultura e, consequentemente, as terras. Para isso, eles começaram a se organizar em diversas articulações, associações regionais e nacionais. Assim, do lado dos índios houve avanço e eles continuam avançando. O retrocesso foi do lado do governo que, aliado aos grupos capitalistas do agro e hidronegócio, se negou a demarcar as terras indígenas e enfraqueceu o próprio organismo da Funai, sucateando, de outro lado, o Incra. A mesma falta de vontade para com os povos indígenas é a falta de vontade para com os camponeses em relação à reforma agrária. IHU On-Line – Como começou seu trabalho na Comissão Pastoral da Terra – CPT? Em que contexto histórico e político ela surgiu e como vê sua atuação nos dias de hoje? Dom Tomás Balduíno – A CPT aconteceu num momento de muita animação, decisão, caminhada e energia a favor dos pobres. Foi fruto do Concílio Vaticano II e de Medellín. Havia um clima geral de entusiasmo dentro da própria igreja, na diocese, sobretudo nas congregações religiosas. Portanto, a CPT nasceu com a aceitação da Igreja , e tanto ela quanto o Cimi são pastorais de fronteira, diferentemente das outras pastorais litúrgicas, ecumênicas, bíblicas, de formação catequética ou presbiteral de seminaristas. A CPT e o Cimi trouxeram para dentro da Igreja uma abertura, porque a convivência com esses povos trazia, na pessoa dos agentes de pastoral das CPTs, para o interior da Igreja a preocupação com a situação deles. Houve um crescimento dentro da própria instituição eclesiástica. Mas essas pastorais mudaram no governo de João Paulo II. Houve um retrocesso dentro da Igreja, no sentido de desconfiança com relação a este mundo externo, essas pastorais, a própria Teologia da Libertação, que é fruto dessas duas pastorais. Então, a Igreja acompanhou um pouco, nesse movimento pendular, o fechamento das pastorais. A CPT chega a ser proibida em determinadas dioceses e isso mostra um pouco o clima que nós vivemos hoje. Com relação ao seu trabalho, foi um trabalho samaritano, eu diria. O que fez o samaritano? Ele se inclinou diante do caído. Mas ela não criou uma instituição para recolher aquele caído e outros caídos; o levantou e no dia seguinte aquele caído já podia levantar outro caído. A CPT criou vários instrumentos. Quer dizer, na evolução da pastoral, percebeu que direitos humanos, terra e água são três prioridades. Para ajudar o pessoal da terra, ela criou um corpo de advogados, porque ela luta contra o latifúndio, contra o próprio Judiciário, contra todas as forças da elite para garantir o status quo, ao passo que os camponeses vinham trazer uma transformação, por exemplo, contra o latifúndio. Eles ocupavam a terra e o que fazia a CPT diante de toda a aula de legalidade da propriedade? Ela simplesmente apoiava as ocupações de terras numa nova perspectiva que, aliás, é constitucional de prioridade à função social da terra. Isso não era muito bem aceito, nem dentro da Igreja nem dentro da sociedade. O próprio poder Judiciário era muito preso às normas antigas de direitos absolutos à propriedade privada. Isso foi sendo quebrado. A CPT, em um tempo mais remoto, ajudou com agrônomos, porque muitas vezes o pessoal recuperava a terra, mas não sabia mais trabalhar. IHU On-Line – Quais são as dificuldades de manter a CPT no Brasil e também dentro dos atuais rumos que a Igreja vem seguindo? Dom Tomás Balduíno – Com relação à manutenção, a CPT está "ralada”, sem recurso. Ela sofre disso, porque desde o início foi apoiada com recursos externos da Europa. Mas devido à crise econômica e à diminuição no contingente católico, os recursos diminuíram. Outro fenômeno é que essas entidades entraram em convênio com o governo, e passaram a se deparar com exigências capitalistas. Então, a CPT está com esse desafio para resolver. Não se trata do fim ou da dissolução da CPT por faltas de recursos. Mas num país como o nosso, que tem tantos recursos e onde muitas igrejas são florescentes de templos invejáveis em tamanho, conforto etc., pastorais de fronteira estão empobrecidas. IHU On-Line – Como o senhor se tornou bispo? Que aspecto destaca da sua atuação como bispo de Goiás? Dom Tomás Balduíno – Eu era prelado –um padre com direitos de bispo – numa prelazia, que é uma área confiada a uma ordem religiosa. Fui parar em Goiás porque sou goiano. O povo cuidadosamente foi atrás do núncio e disse: "Nós queremos um bispo goiano!”. Ele olhou assim, no elenco deles, e me achou lá no sul do Pará. Eu fui então nomeado o bispo de Goiás, o bispo diocesano por pedido do povo. Muitos se arrependeram. (Risos) IHU On-Line – Será? Dom Tomás Balduíno – Eles queriam um goiano, mas de outro tipo. IHU On-Line – Por quê? Dom Tomás Balduíno – No meu episcopado, iniciado em 1967, propus fazer uma caminhada na linha do Concílio do Vaticano II. Foi interessante, porque era um momento de muito entusiasmo na Igreja como um todo, e eu comecei a receber voluntários de diversas partes do país, que iam para lá colaborar com esse trabalho. Temos um hospital na diocese, e médicos que tinham um futuro promissor em outras áreas deixaram suas carreiras para vir trabalhar aqui. Com isso, houve um fortalecimento da caminhada. Desde o início valorizamos a participação popular na Igreja, não a Igreja Clerical, reservada aos padres, aos religiosos, mas a Igreja Comunhão e Participação. Iniciei meu episcopado no final de 1967, e no início de 1968 tivemos a convocação da Primeira Assembleia Diocesana. A maioria dos membros da Assembleia já era de leigos e pessoas das comunidades eclesiais de base. Então, você vê o que isso significa como revolução, como transformação. Claro que houve problemas, sobretudo em Goiás, onde há muita tradição das celebrações tradicionais. Eu esclareci que assumiria aquela pastoral do jeito que o povo queria. Bispos Como era um momento propício dentro da Igreja, nos ligamos a bispos de outras dioceses, com Dom Pedro Casaldáliga, Dom Antônio Fragoso, Dom Paulo Evaristo Arns, Dom Fernando Gomes dos Santos. Além das assembleias da CNBB, nós tínhamos um grupo informal de bispos, que tinha muita liberdade de sentar e chamar a assessoria, coisa que era muito difícil naquele tempo na assembleia dos bispos. Esse grupo informal se reunia com muita cautela, porque tudo era vigiado naquele tempo. Facilmente a polícia e o DOPS entravam em alguma reunião. Então, fazíamos as reuniões às sombras das assembleias da CNBB, que eram muito respeitadas. Isso ajudou a cada um de nós na nossa diocese, e ajudou a própria CNBB, até na escolha de seus presidentes. Não pensem que a aparição de Dom Aloísio Lorscheider, Ivo Lorscheiter caiu do céu; foi trabalho desse grupo. IHU On-Line – Quais as dificuldades de atuar no período da ditadura? A Igreja esteve bastante dividida nesse período. Dom Tomás Balduíno – Houve até apoio ao Golpe, "porque nos livrou do comunismo sem derramamento de sangue”, diziam os próprios bispos. O sistema ditatorial tem muita tensão com a Igreja; um coronel inclusive declarou: "Nós conseguimos barrar os estudantes, silenciar a imprensa, está faltando só o púlpito das igrejas”. Nós sabíamos da resistência militar às nossas propostas, porque eram propostas não apenas de aprimoramento da pastoral interna da Igreja, mas de apoio às organizações populares. Segundo José de Souza Martins, o Golpe Militar de 1964 foi dado não exclusivamente, mas principalmente, para quebrar a espinha dorsal das organizações camponesas. Os militares achavam que através delas o comunismo internacional entraria no Brasil. IHU On-Line – Como o senhor se sente hoje sendo bispo emérito depois de toda a sua atuação na Igreja? Dom Tomás Balduíno – Me sinto muito livre. O bispo tem um grande espaço em que pode atuar dentro da Igreja. Isso é tradição, desde Santo Agostinho, Santo Ambrósio, Santo Irineu. Há bispos que eu reconheço, são tímidos, que, aliás, foram ordenados porque são mais piedosos, às vezes, medíocres. Então, depois de emérito, podemos dizer: "Ah, o bispo agora é general de pijama e não tem mais problemas”. Não tenho mais o governo de uma diocese, mas se eu pastoreio, eu pertenço ao Colégio Episcopal, sou membro do Concílio Ecumênico. Então, tenho na Igreja a atuação referente à missão de pastor. Sou conselheiro da CPT nacional, e assessor do Cimi. Então, sou convidado a participar das assembleias, dos encontros, de maneira que estou presente. Quando mudei de Goiás e vim morar na casa de dominicano, trouxe minhas caixas, meus pertences de serviços, de utilidades, livros etc. Levei quatro meses para começar a abrir aquilo. Eu era chamado para todo o canto. Por isso muitas vezes eu digo, lembrando a palavra de Mandela: "Eu preciso aposentar da aposentadoria”. Mas, por outro lado, isso me estimula. IHU On-Line – Como o senhor avalia a situação de Dom Pedro Casaldáliga? E de outros bispos, como Dom Erwin, que também são ameaçados de morte pelo trabalho que desenvolvem? Dom Tomás Balduíno – O Pedro para mim é um ícone. Ele me considera como padrinho, porque no dia em que ele ia responder a carta desistindo de ser bispo, conversou comigo e mudou de ideia. Ele me chamou no quarto e mostrou aquela carta. Eu falei na cara dele: "Olha, Pedro, eu não entendo você! Você aceitou ser prelado, pastor dessa Igreja como presbítero, e na hora de receber o sacramento, a consagração desse pastoreio, você recusa?”. Aí ele pensou um pouco mais, reuniu o pessoal, conversou e a resposta foi favorável. Por causa desse incidente, ele me considera como padrinho. Eu o considero como um verdadeiro irmão e exemplo para a minha vida. É um homem de uma vida extraordinária, uma profunda vida espiritual, mística, um profeta e também um poeta da melhor estirpe. Pedro ultimamente deu apoio à entrada dos Xavantes na antiga fazenda Suiá-Missu, que estava ocupada por inúmeros fazendões. Mas graças a Deus o Judiciário deu ganho de causa aos Xavantes. Dom Pedro deu apoio, estímulo, e sempre cutucou o governo para não retroceder. O processo está caminhando firmemente. O que fizeram então? Ameaçaram Dom Pedro: "Esse aqui tem poucos dias para ser eliminado”. Então, Pedro está refugiado. IHU On-Line – Que perspectiva vislumbra para a Igreja brasileira a partir de agora? Dom Tomás Balduíno – A Igreja depende 99,9% do Papa. Então, o Concílio e o Pós-Concílio aconteceram graças primeiro a um papa, um homem extraordinário que foi colocado ali como transição. Ele revirou a igreja de pernas para o ar. O Concílio Vaticano II foi uma coisa notada não só nas Igrejas, mas também no mundo não cristão. Depois Paulo VI aplicou pacientemente o Concílio Vaticano II, e o papa João Paulo II trouxe outra perspectiva. Então, quando muda o Papa, muda tudo. Não tudo, porque a Igreja é plural. Mesmo com toda a perspectiva de unidade, ela é plural. O futuro próximo é a continuidade. Agora, o futuro mais remoto a Deus pertence. Eu acho que tem muito elemento dentro da Igreja no sentido de uma renovação. Será que isso terá acesso ao governo mundial da Igreja na pessoa do Papa? Não sei. O futuro a Deus pertence. Mas tem potencial. E o potencial, a meu ver, aponta para outro rumo, não na linha da hierarquia, do clero, do masculino. Mas na linha do leigo e na valorização da mulher. IHU On-Line – Gostaria de acrescentar algo? Dom Tomás Balduíno – Acho importante, com relação a esse conjunto que eu falei, a perspectiva de esperança diante de uma situação de muito sofrimento, de angústia e tristeza. Sucedeu uma coisa na região da Serra da Mesa onde estão os Avá-Canoeiro: nasceu uma criança chamada Pantio. Fazia 22 anos que não nascia nenhuma criança naquela etnia, que é um grupo destinado à extinção. E, de repente, nasce o Pantio, uma linda criança. Isso tem um sabor de Natal, você não acha? Uma estrela que aponta um caminho bonito, um caminho de esperança, um caminho da boa nova, como aconteceu para os magos. Isso que eu queria colocar aqui como perspectiva. De onde se esperava a morte nasceu a vida. E essa vida não é só para os povos indígenas, não é só para o grupo Avá-Canoeiro, mas para todos nós, para o mundo todo. Amém! http://www.adital.org.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=73046

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Jung Mo Sung (ADITAL) Faleceu hoje, 26/12/2012, às 06h20minhs da manhã, em São Paulo, o frei GILBERTO GORGULHO (dominicano). É provável que muitos dos leitores não o conheçam ou nunca tenham ouvido falar no seu nome. Ele nunca foi uma "estrela” no campo da teologia, nem escreveu grandes livros ou esteve envolvido em alguma polêmica que tenha ido parar nos meios de comunicação. Mas, ele foi alguém que marcou gerações de cristãos que se comprometeram com a causa da justiça social e a defesa da vida dos pobres nas décadas de 1980 a 2000. Acima de tudo, ele foi um professor de Bíblia que ensinou gerações de estudantes de teologia, agentes de pastoral, lideranças populares, sem falar nas irmãs e padres que fizeram cursos de aprofundamento na leitura "popular” da Bíblia. A sua prioridade na formação de agentes de pastoral e lideranças populares das comunidades eclesiais aparece na forma de publicação que ele – e sua parceira de muitos anos no ensino bíblico, Ana Flora – mais se dedicou: cadernos populares de guia para leitura de textos bíblicos. É claro que ele também publicou livros na forma clássica, mas as suas intuições e textos mais vibrantes se encontram ou eram publicados em primeiro lugar nesses cadernos. Além de biblista, ele era um intelectual erudito capaz de lidar com filósofos, teólogos ou com grandes questões do mundo científico ou político. Tenho orgulho de dizer que fui seu aluno por 6 anos (4 na graduação e 2 no mestrado em teologia) e que ele foi um dos professores que mais marcou a minha formação. Lembro-me de um curso especial que lhe pedimos: São Tomás de Aquino e Teologia da Libertação. Foi marcante! Durante um semestre, ele nos explicou os 10 artigos da primeira questão da Suma Teológica de S. Tomás mostrando o que estava em jogo ou em discussão por detrás de cada afirmação. Mais do que isso, ele nos fez ler textos da teologia da libertação e da tradição marxista para aprofundar no final do século XX as questões estudadas por Tomás no seu tempo. Ele nos introduziu no caminho denso, longo e difícil de reflexão teológica séria, interdisciplinar e, acima de tudo, comprometida com as questões reais e fundamentais do nosso tempo. Foi em curso sobre profetas e a reforma deuteronomista, que tive com ele, que escrevi meu primeiro texto acadêmico na direção que tenho seguido desde então: reflexão teológica sobre economia. Estimulado por suas aulas e por suas provocações, escrevi um trabalho semestral sobre a reforma deuteronomista e o modo de produção tributário. Como texto de exegese, é claro, deixa muito a desejar, mas foi o meu primeiro passo nesse caminho que tenho percorrido há mais de 20 anos. A influência de um professor não se mede somente por aulas que ele dá, mas pelas "janelas” que abre aos seus alunos. No segundo ano de teologia, ele me disse: "Jung, você precisa ler o livro ‘As ideológicas da morte’, de Franz Hinkelammert!”. Li e isso fez a grande diferença na minha vida intelectual. No mestrado, ele me indicou outro autor que eu não poderia não estudar: René Girard. Esses dois autores fazem parte do meu modo de pensar e refletir o mundo e a teologia. E isso eu devo ao frei Gorgulho. Frei Gorgulho, ou simplesmente "frei” como eu costumava me dirigir a ele, fez muitos dos seus alunos e alunos a ver como a questão da "justiça e direito em favor dos pobres, órfãos, viúvas e estrangeiros” é o tema central da Bíblia, que perpassa todos os seus livros da Bíblia; e que, como nos ensina profeta Jeremias, fazer essa justiça é conhecer a Deus. Que Deus o receba nos seus braços e nos envie mais pessoas como ele que articule seriamente a reflexão teórica com a "meditação” bíblica no serviço à vida das comunidades e das pessoas mais pobres e vulneráveis do nosso mundo. (Jung Mo Sung, Jung Mo Sung - Diretor da Faculdade de Humanidades e Direito da Univ. Metodista de S. Paulo.Autor com Hugo Assmann, de "Deus em nós: o reinado que acontece no amor solidário aos pobres”. Twitter: @jungmosung) http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=73020

2012 e o Concílio

D. Demétrio Valentini O ano de 2012 está chegando ao fim. Seria o momento oportuno para recordar os seus principais acontecimentos. Mas não é esta a intenção. Ao longo de 2012 foi lembrada, com insistência, uma data, através da qual dá para captar o recado especial que este ano queria nos dar. Esta data foi o dia 11 de outubro. Em princípio, ela merecia o devido destaque, por lembrar os 50 anos da abertura do Concílio Ecumênico Vaticano Segundo. Mas o que chamou a atenção foi a forte insistência da Igreja, em apontar para aquele dia, fazendo dele não só uma recordação histórica, mas o ponto de referência para balizar o seu posicionamento diante dos novos desafios que ela tem para a frente. De tal modo que, ao redor do dia 11 de outubro, foi criada uma forte expectativa. A esta data ficaram vinculadas algumas iniciativas que mostravam o amplo envolvimento da Igreja com o referido Concílio Ecumênico. Foi realizado, por exemplo, ao longo do mês de outubro, o Sínodo sobre a Nova Evangelização e sobre a Transmissão da Fé. Mas sobretudo, foi inaugurado no dia 11 de outubro o Ano da Fé, com uma proposta de celebração muito envolvente ao longo de 2013. A insistência em vincular a agenda de agora com uma data do passado, parece mostrar com evidência a grande validade deste Concílio, mesmo que já tenham passado 50 anos de sua abertura em 1962. Mas afirmar sua validade não significa apostar na implementação dos seus objetivos. Depende de como nos posicionamos agora, sobretudo, diante das propostas de renovação eclesial, formuladas pelo Concílio, mas deixadas em aberto, para serem implementadas depois, gradualmente, num amplo processo que agora pode estar perdendo força. De tal modo que a celebração dos 50 anos de sua abertura revelou a grandeza do Vaticano Segundo, que se mostrou muito generoso nas suas intenções. Mas mostrou também que ele foi muito tímido na efetivação de mudanças estratégicas, que fortaleceriam a efetividade do processo de renovação eclesial. De tal modo que dá para concluir este ano de 2012, com uma tarefa bem cumprida: foi construído um amplo consenso sobre a importância do Vaticano II. Ao mesmo tempo, este ano nos deixa com uma clara inquietação: o processo eclesial em andamento, ele favorece a aplicação do Concílio, ou conspira contra as suas intenções fundamentais? Seria conveniente lembrar as grandes intuições pastorais do Concílio, para conferir qual a dinâmica que agora as caracteriza. Por exemplo, qual a aplicação prática da Colegialidade Episcopal para garantir uma tranqüila postura de unidade,e ao mesmo tempo o suporte seguro para uma salutar descentralização eclesial. E assim daria para lembrar a importância das “Igrejas Locais” como referência eclesial indispensável para todos os que querem participar da vida da Igreja. Igualmente a importância imprescindível das comunidades eclesiais, como encarnação concreta da vida de Igreja. Em outras palavras, estamos avançando, ou retrocedendo, na aplicação do Vaticano II? Algumas iniciativas dão a clara impressão de marcha a ré. Para uma viagem tranqüila, é importante que todas as marchas possam ser bem engrenadas. Também a marcha à ré, cuja utilização às vezes se torna imprescindível para garantir que o veículo siga em frente. O problemático seria engatar esta marcha para voltar atrás e desistir do rumo traçado.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Natal: a festa da fragilidade divina

20.12.12 - Mundo José Lisboa Moreira de Oliveira Adital "Quando chegou a plenitude do tempo, Deus enviou o seu Filho. Ele nasceu de uma mulher” (Gl 4,4). Assim "a Palavra se fez fragilidade (sárx), vindo armar a sua tenda no meio de nós” (Jo 1,14). O Filho abriu mão da sua igualdade com Deus, abraçou o esvaziamento total (kénosis), assumiu livremente uma postura de servo e optou por viver como um homem comum, aceitando inclusive ser assassinado da forma mais ignominiosa então existente (Fl 2,6-8). Este deveria ser o espírito do Natal, mas, infelizmente, não é o que vemos acontecer na prática. A celebração da fragilidade divina foi usurpada pela sociedade de consumo, que, com as bênçãos do próprio cristianismo, transformou o Natal em trocas de coisas inúteis, cujo personagem principal é um velho de barbas brancas, vestido segundo os costumes das regiões frias do polo norte. Porém, biblicamente falando, o Natal é a celebração da fragilidade divina. Fragilidade aqui entendida no sentido de que Deus se humaniza e vem ao encontro da humanidade. Fragilidade aqui não quer dizer frouxidão e incapacidade, pois Deus, com a potência do seu braço, continua dispersando os soberbos e derrubando os poderosos de seus tronos (Lc 1,51-52). Significa que Deus abre mão da sua grandeza e onipotência e vem se comunicar conosco usando a nossa linguagem. Para os simples Deus não se manifesta de forma gloriosa e pomposa, mas na fragilidade da condição humana. Para falar conosco e manifestar a sua bondade e misericórdia, Deus não só se torna humano como nós, mas aceita passar por situações humanas humilhantes, como foi o caso da morte na cruz do Filho Jesus. As anotações do Novo Testamento são poucas, mas suficientes para mostrar a densidade desta verdade. Antes de tudo o registro feito por Paulo na Carta aos Gálatas, afirmando que Jesus, o Filho de Deus Pai, nasceu de uma mulher. Numa cultura andocêntrica, na qual tudo passava pela decisão e pela vontade do macho, Deus decide que o seu Filho nasceria de uma mulher, sem a participação direta do sujeito do sexo masculino. Trata-se de uma revolução fantástica, numa época em que a linhagem era reconhecida através da descendência masculina. Deus, revolucionando e revirando a lógica andocêntrica, coloca o macho numa função secundária. "José levou Maria para a sua casa, e, sem ter relações sexuais com ela, Maria deu à luz um filho. E José deu a ele o nome de Jesus” (Mt 1,24-25). Outro registro importante do Novo Testamento é o fato de que o Filho de Deus vem ao mundo para viver como um homem qualquer, sem nenhum sinal especial, totalmente submetido ao escondimento da condição humana. Este é o verdadeiro significado da expressão grega "sárx” usada por João no seu evangelho (1,14). As traduções "se fez homem” ou "se fez carne” não estão erradas, mas não expressam o sentido do termo grego. Ao dizer que Jesus se fez "sárx” o evangelista está querendo afirmar que o Filho de Deus, pela encarnação, assumiu para si a fragilidade e as fraquezas que marcam qualquer ser humano normal. Jesus não foi alguém que fez de conta que era homem. Ele realmente foi totalmente humano e quis viver assim. Por isso toda imagem de um Jesus divino, brincando de ser homem, é uma tremenda heresia. Como foi plenamente humano, Jesus livremente se submeteu a todos os limites e fragilidades que marcam a vida de um ser humano aqui na Terra. E quando a Carta aos Hebreus diz que ele foi humano em tudo, exceto no pecado (Hb 4,15), está apenas afirmando que ele não cedeu às inúmeras tentações. Porém, experimentou na carne a tentação e as consequências disso. Além disso, Jesus quis experimentar a humilhação e a morte injusta, participando assim do destino da humanidade sofrida. Não quis ser Cristo-Rei, mas Cristo-Servo, lavando os pés da humanidade prostrada. E para completar essa participação na humilhação da humanidade, seguindo fielmente o projeto do Pai, se opôs ao poder religioso e civil e terminou assassinado. Poderia ter escapado de tudo isso se tivesse cedido às pressões dos poderosos e celebrado um pacto com eles. Mas isso faria dele um traidor; alguém que não levaria a sério o compromisso assumido com o Pai de levar até o fim a sua mensagem de libertação da humanidade (Lc 4,18-19). Nós nos acostumamos com certas coisas e, depois de dois milênios, não percebemos mais o caráter revolucionário do Natal. O macho não tendo participação direta na concepção de uma criança. O Filho de Deus vivendo como um homem qualquer, sem manifestação gloriosa nenhuma. E, por fim, vivendo como escravo e sendo ignominiosamente assassinado na cruz. Tudo isso era assustador para a sua época. Por isso José, paradigma de todo macho de ontem e de hoje, tem dificuldade de entender uma gravidez que acontece sem sua participação direta. O povo da época de Jesus não entende como um Filho de Deus seja capaz de aparecer de maneira tão simples (Jo 1,46). Pedro não entende um Jesus, Senhor e Mestre, exercendo funções de um escravo (Jo 13,6-9). A morte dele na cruz causou horror e pânico nas pessoas e foi tida como sinal evidente de que ele não era um homem de Deus (Gl 3,13). Precisamos, pois, rever a atual maneira cristã de celebrar o Natal, infestada de consumo e de consumismo. É claro que não se trata de deixar de lado a alegria, principal característica desse tempo litúrgico (Lc 2,10.20), mas de rimar a alegria com a fragilidade do Menino que nasce num curral (em grego: fátnê) ou numa cocheira de colocar comida para animais (Lc 2,7). Trata-se da necessidade de celebrarmos o Natal como a festa da revelação da bondade, da misericórdia e da ternura de Deus. Trata-se de alegrar-se com a vinda de um Jesus frágil, simples, escondido. Mas para que isso aconteça é indispensável repensar e rever muitas práticas dentro das próprias Igrejas. Antes de tudo transformar atitudes machistas e excludentes que deixam fora de certos espaços eclesiais – como é o caso dos ministérios – mulheres e pessoas consideradas de "má fama”. A prática de Jesus era bem outra (Mc 2,15; Lc 8,1-3). As lideranças (bispos, padres, pastores, ministros, ministras) precisam despir-se de toda pompa, de todo luxo e de toda arrogância, para vestir o avental da simplicidade, humildade e serviço. Além disso, as Igrejas precisam renunciar à pretensão de serem infalíveis, admitindo e confessando publicamente seus erros e pedindo humildemente perdão à comunidade. Fatos como a pedofilia dos padres, o desvio de dinheiro das comunidades e vários outros escândalos revelam a fragilidade das Igrejas. E elas só poderão celebrar de verdade o Natal se admitirem publicamente suas fragilidades e renunciarem à pretensão de "serem como deuses” (Gn 3,5). Oxalá estas e outras coisas aconteçam para que o verdadeiro espírito do Natal seja recuperado e as Igrejas adquiram mais credibilidade, podendo proclamar solenemente: "anuncio para vocês a Boa Notícia, que será uma grande alegria para todo o povo” (Lc 2,10). Sem isso o Natal seguirá adiante com a lógica do mercado, sendo apenas uma festa de troca de presentes e de mero consumo de coisas inúteis. Portanto, bem distante do seu verdadeiro significado. http://www.adital.org.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=72953 José Lisboa Moreira de Oliveira Filósofo. Doutor em teologia. Ex-assessor do Setor Vocações e Ministérios/CNBB. Ex-Presidente do Inst. de Past. Vocacional. É gestor e professor do Centro de Reflexão sobre Ética e Antropologia da Religião (CREAR) da Universidade Católica de Brasília Adital

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Análise de Contexto

José Oscar Beozzo jbeozzo@terra.com.br São Paulo, setembro de 2012 O contexto em que se move o CESEEP é continental, por ser um centro de formação de caráter latino-americano e caribenho, com laços crescentes com a África e abertura para os outros continentes. Recebe, entretanto, influências que ultrapassam esses limites devido ao mundo globalizado, em que vivemos. Seu enraizamento mais próximo encontra-se no Brasil e seu entorno imediato é a área metropolitana de São Paulo, onde desenvolve boa parte de suas atividades. Destacamos em âmbito mais geral, quatro tipos de desafios, buscando articular sua incidência no panorama latino-americano/caribenho e brasileiro: 1. O desafio ambiental - A Rio + 20, com a Cúpula dos Povos, mostrou o crescimento da consciência ambiental, a multiplicação e diversificação de organizações, movimentos e grupos de pressão em favor de outro modelo de economia socialmente justa e ambientalmente sustentável, na linha da humanização ou do que os povos andinos chamam do “bem viver e bem conviver”, “Sumak Kawsay”, na língua quéchua, ou ainda “Tekoporã”, no idioma Guarani. - Enfatizou-se a urgência de se encontrar saídas a nível local, nacional, regional e global e foram apresentadas milhares de experiências concretas na direção de um futuro sustentável para o planeta e a humanidade. - Foi denunciada, ao mesmo tempo, a aliança dos maiores poluidores com o grande capital e a mídia, no intuito de se prosseguir pelo mesmo caminho de sobre-exploração dos recursos naturais, sem limites e sem responsabilidades socioambientais consistentes e não apenas maquiadas. Tenta-se vender a velha economia de mercado, sem limites de exploração, produção e consumo, travestida agora com o epíteto de “economia verde”. - Ficou patente ainda a dificuldade de se obter consensos sólidos entre os Estados acerca de metas e compromissos com a sustentabilidade, com a mudança da matriz energética baseada nos combustíveis fósseis (carvão, gás, petróleo), para outra apoiada em energias limpas e renováveis (eólica, solar, geotérmica, de biomassa e hidráulica), a fim de se reduzir as emissões dos gases de efeito estufa e o aquecimento global. - Faltaram compromissos verificáveis para a contenção da sobre-exploração predatória de recursos naturais finitos e não renováveis (água, florestas, minérios e combustíveis fósseis); para limitação do consumo irresponsável e para se por um freio a uma economia baseada em produtos descartáveis. Estes submergem as cidades com montanhas de lixo, sem políticas que imponham aos que produzem o lixo, cuidar de seu destino e reciclagem, tanto em se tratando de plástico, papel, vidro, metais, como de lixo orgânico ou de efluentes tóxicos. - Cresce a consciência e aprimora-se a legislação para que quem destrói e polui seja responsabilizado por despoluir o solo, ar, rios, lagos e oceanos e reparar os danos provocados. - Não foi possível criar a Agência Mundial de Meio Ambiente, com poderes de coordenação e intervenção e recursos capazes de fazer a diferença nesse campo, o que denota a falta de vontade ou incapacidade política dos Estados para implantar uma agenda comum global em defesa do meio ambiente. - No CESEEP, a questão ambiental e seu agravamento, assim como as iniciativas para reverter seus impactos têm sido tema central em vários Cursos do CESEEP, como os de Verão sobre a Água e outro sobre Ecologia; o de Formação Pastoral sobre a crise ambiental nas cidades; o de Ecumenismo e Diálogo Inter-religioso sobre o empenho comum das Igrejas e religiões em favor da integridade da criação; o de Pastoral e Relações de Gênero e o de Militantes sobre a contribuição do ecofeminismo, para uma nova visão de nossas relações com todo o criado. A temática ambiental tornou-se tema transversal em todos os Cursos do CESEEP, sempre apoiado em visitas a locais de reciclagem, de tratamento de água e efluentes, a prefeituras e escolas com programas consistentes nessa área e a ONGs ambientalistas. 2. O desafio econômico-financeiro - A crise desencadeada em 2008 com a quebra do Banco Lehman Brothers e aparentemente superada pelo resgate com dinheiro público dos grandes bancos e financeiras que a provocaram, ressurgiu com toda força em 2012. - A ajuda estatal aos Bancos, que alcançou a casa de trilhões de dólares, trouxe de volta a crise, agora do lado dos Estados que se endividaram para socorrê-los. O epicentro deslocou-se dos Estados Unidos para a Europa, tornando-se uma crise da moeda comum, o euro. A UE foi obrigada a socorrer a Irlanda, a Grécia e agora a Espanha, Portugal e Itália, à custa de fundos de estabilização bilionários, programas de contenção de gastos, dispensa de funcionários e de brutal superávit primário nas contas públicas, para o resgate da dívida dos Estados com os bancos. - Está se pagando a dívida com aumento de impostos, corte generalizado do dispêndio público com os programas sociais em saúde, educação, aposentadorias e pensões. - A crise elevou o desemprego em países como Irlanda, Grécia, Espanha para perto de 25% da população economicamente ativa. Entre a juventude, o desemprego já supera a casa dos 50%, uma verdadeira hecatombe social. Desempregados e jovens têm sido o núcleo motor da ocupação de praças e de protestos multitudinários dos “indignados” na Espanha, Grécia, Itália e noutros países europeus. - O resultado tem sido o aprofundamento da recessão que já contamina as economias dos outros continentes e é visível na América Latina, cuja taxa de crescimento econômico, com exceção do México, despencou. - Em todo mundo, voltou a crescer o número de pobres e desamparados pela crise econômica aliada a catástrofes ambientais que vão de secas a inundações e à perda de colheitas e rebanhos. Subiram os preços dos alimentos penalizando as populações mais vulneráveis, de modo particular mulheres, crianças e idosos. Ronda-os a fome endêmica, com a redução dos aportes dos países ricos a todos os programas de ajuda ao desenvolvimento e uma generalizada queda da solidariedade internacional, cada um tentando salvar-se a si mesmo, sem se importar com os demais. A onda de protecionismo é apenas a ponta do iceberg dessa atitude. - No CESEEP, a temática social, econômica e política é sistematicamente trabalhada no Curso de Militantes; nas análises de conjuntura do Curso de Verão e de Formação Pastoral e permanece como pano de fundo da reflexão tanto bíblica, como teológica, pastoral e de empenho transformador, em todos os cursos e assessorias do CESEEP. 3. O desafio das migrações - Ela é generalizada, mas com focos mais agudos. Na Europa, as fronteiras se fecharam para os extracomunitários, mormente os africanos e os oriundos do leste europeu. Há certa tolerância em relação às mulheres migrantes, sem as quais haveria colapso nos serviços de saúde a domicilio (home-care), na limpeza doméstica e nos hospitais e edifícios públicos e privados, no cuidado com as crianças (baby sitter). Leis cada vez mais xenófobas, com simpatia e respaldo em setores importantes da população e nos partidos políticos, não apenas de direita, vêm facilitando a deportação dos migrantes definidos como “ilegais”, além de penalizar os que lhes dão trabalho, abrigo ou socorro. Com o crescimento do desemprego, os imigrantes são acusados de “roubar” empregos dos nativos, sem atentar para o fato de que perfazem aqueles trabalhos mais pesados ou considerados sujos e de risco e que a mão de obra local há tempos abandonou. - No continente americano, agravou-se a situação migratória na fronteira México-Estados Unidos, com a entrada em vigor de leis migratórias draconianas e xenófobas em estados fronteiriços, como o Arizona; superlotação de prisões com centenas de milhares de “indocumentados” e retorno forçado de migrantes por conta do desemprego e da recessão nos Estados Unidos. - No Haiti, a destruição da economia e da infraestrutura com o terremoto de 2010 continua penalizando a população por causa da lentidão da reconstrução. Passado o primeiro ímpeto de solidariedade internacional, a situação da ilha foi relegada ao esquecimento e descaso, enquanto permanecem as dificuldades em se utilizar eficazmente a pouca ajuda que continua chegando. Com o desemprego aberto superando os 70% da população, os haitianos tentam emigrar a qualquer custo, sendo barrados por toda parte ou recebidos a conta-gotas. Mesmo assim, há cerca de 700 mil prófugos haitianos em países como os Estados Unidos, Canadá, República Dominicana, Cuba e crescentemente, Brasil. - Na zona fronteiriça do Paraguai, os brasiguaios continuam em situação jurídica e politicamente instável, sob pressão do movimento campesino paraguaio por reforma agrária e atitude ambígua por parte do Estado, tanto no sentido de impulsar ampla reforma agrária em favor dos trabalhadores rurais sem terra, quanto de garantir segurança jurídica aos vivem e trabalham em seus lotes, legalmente adquiridos. - Muitos países, como México, El Salvador, Nicarágua, Guatemala, Equador que dependem fortemente, para obter divisas, das remessas dos migrantes aos seus familiares, sentem mais de perto os efeitos da crise em suas economias, por conta do declínio dessas remessas em moeda forte. - Na migração, num primeiro momento, mulheres e crianças são deixadas para trás e as novas leis dificultam cada vez mais a reunificação familiar, criando dramas familiares quase insolúveis. - Internamente, em todos os países, persiste o fluxo migratório do campo para as cidades e, sobretudo, das cidades menores para as maiores. - Por isto, a problemática migratória é um pano de fundo obrigatório dos cursos do CESEEP. De maneira mais específica, o Curso Latino-americano de Formação Pastoral tomou as migrações como tema central de um de seus cursos e converteu-o, posteriormente em tema regular a cada ano. 4. O desafio urbano. - O último censo revelou que, no Brasil, 85% da população já se encontra em cidades. Na América Latina esse índice é de 80%. Em que pese os avanços nas políticas públicas de combate à pobreza, a América Latina continua sendo o continente mais desigual do mundo. A nova face da pobreza é urbana e feminina, atingindo duramente os mais vulneráveis, em especial crianças e jovens, anciãos e adultos sem qualificação profissional. - Nas grandes cidades do continente, a crônica crise urbana na área de habitação, transporte, distribuição de água e implantação de saneamento básico, coleta e tratamento do lixo, da infraestrutura de educação e serviços de saúde, agravou-se pela dimensão e gravidade dos problemas, mas também incapacidade ou inércia do poder público no seu enfrentamento. Nos conflitos entre demandas dos movimentos populares e da cidadania em geral, interesses privados e políticas públicas, tem prevalecido a lógica do capital, da especulação imobiliária e da privatização dos espaços e serviços públicos, com a degradação do espaço urbano e da convivência social. - Há um quase colapso da segurança pública frente à explosão da violência tanto das quadrilhas, quanto da polícia. - O tráfico de drogas já domina setores inteiros das cidades e corrompe o aparato do estado, da polícia aos magistrados, dos legisladores ao executivo. O tráfico elege seus deputados, prefeitos e governadores e compra seus juízes e desembargadores. - As chacinas que se multiplicam do México ao Brasil, país em quejovens negros compõem ¾ da população carcerária. Os presídios superlotados, a ponto de explodir em todo o continente e onde se multiplicam as revoltas por conta das condições de vida insuportáveis, apontam para a gravidade do problema. - Novidade é a crescente presença de mulheres na população carcerária, ligada principalmente ao seu envolvimento com o tráfico de drogas. - A repressão ao tráfico e à narco-guerrilha tornou-se pretexto para crescente presença militar norte-americana em países como Colômbia e Honduras e agora Paraguai, após o golpe contra o presidente Lugo. - As zonas metropolitanas, sobretudo em sua periferia próxima, continuam atraindo a população, criando mega aglomerações, como as cidades do México e São Paulo, com cerca de 20 milhões de habitantes, outras que ultrapassam os 10 milhões, como Rio de Janeiro e Buenos Aires e ainda outras que já se aproximam deste patamar, como Lima, Santiago, Bogotá. - O estudo da problemática urbana, que afeta a quase totalidade da população do continente, por conta de sua irradiação e penetração até mesmo nas zonas rurais mais afastadas, via meios de comunicação social, facilidade de transportes, produtos e serviços oferecidos e hábitos de consumo, tornou-se a espinha dorsal do Curso Latino-americano de Formação Pastoral. Ali, se estudam seus desafios para os movimentos populares, as Igrejas e as políticas públicas, com imersão programada na complexa, rica e profundamente desigual realidade urbana de uma megacidade como São Paulo e seus municípios vizinhos. O curso é complementado por um intenso programa de visitas a prefeituras da região, a iniciativas dos movimentos urbanos por moradia, melhoria do transporte, implantação de redes de água, esgoto, luz elétrica e aos esforços coordenados de igrejas, escolas e movimentos populares junto aos poderes públicos para criação de oportunidades de estudo, trabalho e lazer para os jovens e implantação de bases de polícia comunitária. Em vários lugares, obteve-se uma queda de mais de 70% nos níveis de violência e assassinato de jovens. O curso leva também seus participantes a colaborarem nos fins de semana de iniciativas das Igrejas junto a moradores de rua, a crianças e adolescentes em situação de rua. Completamos essa análise do contexto, com breve incursão pelo campo econômico, político, dos movimentos sociais, a nível local e latino-americano, concluindo com o campo religioso. 1. Campo econômico Neste panorama, há mudanças sensíveis: - Em vários países do continente, a China vem deslocando os tradicionais parceiros comerciais, Estados Unidos e União Europeia, tornando-se a maior parceira comercial de países como Brasil, Peru, Chile, Paraguai e a segundo maior parceira de México e Argentina. Cresceram também vertiginosamente seus investimentos em energia (petróleo, gás, carvão), matérias primas minerais (ferro, cobre, manganês...), logística (portos e ferrovias) e produção de alimentos, soja e proteínas animais (aves, suínos e bovinos), com ativo papel de seus bancos estatais no financiamento do comércio, produção e compra de ativos minerais e de grãos. Seu peso econômico, não se traduz ainda em equivalente influência política. - A hegemonia no continente continua sendo norte-americana, em que pesem os esforços da parte de vários países, para a criação de instituições mais autônomas, sem a presença dos Estados Unidos, como oMercosul, agora alargado com a entrada da Venezuela; CAN (Comunidade Andina de Nações) e UNASUL (União de Nações Sul-Americanas), com seu banco de fomento, o Banco Sul. - Na esfera internacional, Brasil integra o grupo dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), enquanto Chile, Peru e México estão associados à APEC (Cooperação Econômica da Ásia e do Pacífico) da qual fazem parte igualmente Estados Unidos e Canadá. - O difícil panorama internacional com a freada na atividade econômica dos Estados Unidos, União Europeia, Japão e mesmo da China, vem afetando o crescimento de praticamente todos os países da América Latina, com declínio na quantidade e, sobretudo, valor das exportações de matérias primas e insumos. 2. Campo político - Um grupo de países, Argentina, Equador, Bolívia, Venezuela, Nicarágua, El Salvador, leva uma política mais decidida de recuperação por parte de seus governos do controle público sobre seus recursos naturais. Água, gás, petróleo, eletricidade, telecomunicações e a biodiversidade nas matas, rios e oceanos são reconquistados como bens comuns estratégicos a serviço de seus povos e patrimônio a ser legado para as gerações futuras. Seus governos entraram em choque com as multinacionais que controlavam e exploravam esses recursos, com os bancos que as financiavam, com os investidores que aplicavam seus ativos nessas empresas e com os países de origem que lhes davam cobertura politica, de modo especial, Estados Unidos, Canadá, Espanha, com respaldo da União Europeia. Também empresas brasileiras como a Petrobrás foram afastadas ou tiveram que renegociar seus contratos de exploração energética nesses países. - Motivo de desavenças entre Estados Unidos e a maioria dos países latino-americanos foi também o golpe militar que derrocou o governo democraticamente eleito de Honduras (2009) e o golpe branco que afastou o presidente Fernando Lugo do Paraguai (2012). O país foi suspenso de imediato do Mercosul, por conta da cláusula democrática, até a realização de novas eleições em abril de 2013. A entrada da Venezuela no Mercosul, solicitada em 2001, aprovada pelos quatro países (Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai) em 2006, ficara empacada pela recusa do Senado do Paraguai, todo ele de oposição ao Presidente Lugo, em ratificá-la. A suspensão do Paraguai e sua consequente ausência da reunião de cúpula do Mercosul em Mendoza, ensejou a admissão da Venezuela, a terceira maior economia do continente sul-americano, e sua entrada oficial no bloco no último dia 31 de julho. O bloco torna-se estratégico no cenário energético internacional por conta de suas ingentes reservas de petróleo e gás, além de ganhar uma porta de saída para o mar Caribe, encurtando as distâncias em relação aos mercados do hemisfério norte: Nafta e União Europeia. O Mercosul completa, assim, com a saída para o norte e o Caribe, sua atual projeção no Atlântico sul, voltada para a África e a Ásia e sua saída pelo Pacífico, via o estreito de Magalhães em direção ao Japão, Coréia e China e ao conjunto da Ásia do sudeste. O bloco ampliado pode sofrer com as incertezas da situação político-econômica da Venezuela. Em que pese a eleição de governos conservadores no Chile, Colômbia e o retorno do PRI ao poder no México, persistem os esforços por maior integração continental. 3. Campo dos movimentos sociais Mesmo em países, como Bolívia e Equador, cujos governos foram eleitos com forte apoio dos movimentos populares, hoje, os movimentos indígenas se insurgem contra políticas governamentais que violam seus territórios, com a construção de estradas, concessões para a exploração de gás e petróleo ou construção de hidroelétricas. No Peru, as populações indígenas obrigaram o governo a recuar na sua concessão de licenças para grandes mineradoras operarem em áreas de proteção ambiental, enquanto negociam compensações por danos ambientais e sociais para a construção de hidroelétricas na Amazônia peruana. Conflitos semelhantes vêm eclodindo sistematicamente no Brasil por conta das hidroelétricas em construção na região amazônica: Belo Monte no Rio Xingu; Santo Antônio e Jirau, no Rio Madeira e 22 outras planejadas, licitadas ou já em início de construção no Rio Teles Pires (seis usinas previstas, incluindo a da foz do Apiacás), Juruena, Jamanxin (Cachoeira dos Patos, Cachoeira do Caé, Jamanxin),Tapajós (São Luiz e Jatobá) e noutros rios amazônicos. Outros movimentos sociais, com exceção do MST que vive porém divisões e contradições, perderam força e incidência social e política. No Chile, no entanto, de maneira surpreendente, é o movimento estudantil secundarista e depois universitário que vem colocando em cheque a política educacional herdada dos anteriores governos, tanto militar quanto civil da concertação socialista/democrata cristã, de se privatizar praticamente todo o ensino do país. À medida que se prolongaram as greves e outros setores sociais aderiram aos protestos é o próprio modelo de economia e de sociedade que passou as ser contestado. Em que pese o prolongado crescimento econômico do Chile, país que levou ao extremo a economia de mercado, seguindo o modelo econômico neoliberal, persistem, como no restante da América Latina, profundas desigualdades sociais e bolsões de pobreza extrema. De maneira fragmentária, sem capacidade de transbordar para o conjunto da sociedade, manifestam-se movimentos ligados a moradia e transporte nas grandes cidades; o movimento negro contra discriminações por raça e cor, por regularização das terras quilombolas ou por quotas raciais nas universidades; populações indígenas quando são violados seus territórios pela abertura de estradas, desmatamentos, construção de hidroelétricas e instalação de projetos de mineração. Somem-se a isto movimentos pelos direitos dos aposentados, das pessoas com deficiência, por atendimento digno na saúde. Essas lutas e mobilizações ganham atenção apenas pontual da mídia ou são literalmente ignoradas. Não se pode negar que nos anos recentes, em países como Brasil, graças a políticas públicas de inclusão social, houve ingresso no mercado de trabalho formal, melhoria econômica e ascensão social de milhões de pessoas. Deve-se dar especial destaque às mulheres, que avançaram mais do que os homens em anos de estudo, qualificação profissional e ingresso no mercado de trabalho, mormente nos serviços, com diminuição na diferença salarial paga para igual trabalho. Persistem diferenças, mas que vêm se estreitando, graças à luta organizada das mulheres e das políticas públicas específicas para a diminuição de desigualdades e descriminações por razões de gênero, raça, cor ou deficiência física. Fenômeno semelhante se observa em países orientação política distinta, como Peru, Colômbia, México. É visível o efeito demonstração e o impacto de suas políticas por equidade de gênero, eliminação da pobreza e direitos humanos, que a ascensão de mulheres à presidência de seus países: Michelle Bachelet no Chile (2006-2010), Cristina Fernández de Kirchner (2007-2011), reeleita para novo termo presidencial (2011-2015), na Argentina; Dilma Rousseff no Brasil (2011-2015); Laura Chinchilla (2010-2014), na Costa Rica, vem exercendo sobre a vida de mulheres e homens de seus países e no restante do continente. Elas impulsaram políticas de equidade de gênero e trouxeram para seus ministérios grande número de mulheres, além de nomeá-las ministras da Suprema Corte e de outros Tribunais Superiores ou dirigentes das maiores empresas públicas, como a Petrobrás no Brasil, com sua nova presidente, Graça Foster. Por outro lado, grandes mobilizações e concentrações populares têm acontecido apenas em torno a três eixos: - o da música: cantores bandas e populares tocando em praias, praças e estádios atraem multidões, tendo sido criada uma verdadeira indústria de caráter internacional, a do “show bussiness” do qual o “Rock in Rio”, é um bom exemplo. - o da religião, com eventos como “A marcha por Jesus”, iniciativa multitudinária de igrejas e movimentos evangélico/pentecostais, com grande apelo entre os jovens pela presença de bandas e cantores de música gospel, unindo ritmos modernos com mensagens religiosas. O formato dessas manifestações de cunho religioso aproxima-se do “show bussiness” musical. Na mesma linha, concentram-se multidões atraídas por padres cantores da Igreja Católica, como Marcelo Rossi e Fábio de Melo. Indício de que se movem no mesmo universo, é oepíteto que ganharam essas celebrações: “Show missa”. - o da diversidade sexual com as Paradas do Orgulho Gay. As manifestações por direitos humanos, com forte conotação política, marcaram os anos das ditaduras militares, assim como as mobilizações pelo estado do direito, por anistia, pelo fim das prisões arbitrárias e torturas. O período posterior conheceu lutas, com marcado caráter social, contra a carestia, o desemprego, o arrocho salarial ou em favor da reforma agrária. Foram depois deslocadas para questões ligadas à equidade de gênero, ou aos direitos reprodutivos e descriminalização do aborto nas lutas feministas. Agora o cenário vem sendo ocupado por reivindicações relacionadas à diversidade sexual, como oficialização de uniões civis entre pessoas do mesmo sexo; adoção de crianças por casais de gays e lésbicas; aplicação das normas previdenciárias e de seguro saúde, das leis que regem partilha e herança de bens a uniões de pessoas do mesmo sexo. As outras lutas e reivindicações persistem, mas em tom menor e incapazes de mobilizações multitudinárias como a das Paradas do Orgulho Gay que se multiplicam pelas grandes cidades do continente. 4. Campo religioso O panorama religioso latino-americano e caribenho sofre uma rápida e profunda mutação, em termos da sociedade, das igrejas e do ordenamento jurídico dos Estados, que têm alterado suas constituições, para contemplar o atual quadro de pluralismo religioso, oferecendo iguais garantias para todas as igrejas, religiões e para os que se declaram sem religião, suprimindo o estatuto diferenciado ou antigos privilégios da Igreja Católica. Assinalamos algumas das tendências em curso: a) Crescente pluralismo religioso. Sempre houve na América Latina e no Caribe uma variedade de caminhos religiosos presentes nos mais de dois mil povos originários existentes anteriormente à chegada dos europeus; nos milhões de escravos trazidos de diferentes regiões, culturas e sistemas religiosos existentes na África; na diversificada colonização europeia que determinou hegemonia católica nas áreas colonizadas por Espanha, Portugal e França (Quebec no Canadá, Louisiana, nos Estados Unidos, Haiti, Guadalupe, Martinica no Caribe, Guiana Francesa na América do Sul), presença anglicana nas ilhas inglesas do Caribe, na Guiana Inglesa, na antiga Honduras Britânica (Belise), presença reformada nas ilhas holandesas e no Suriname, presença luterana nas Ilhas Virgens dinamarquesas. A substituição dos escravos nas lavouras por trabalhadores chineses adeptos das religiões tradicionais da China (Peru e Cuba); indianos hindus e muçulmanos (Trinidad Tobago, Guiana Inglesa, Jamaica e noutras ilhas britânicas), indonésios muçulmanos (Antilhas Holandesas e Suriname), japoneses shintoistas e budistas (Peru e Brasil) e a posterior imigração europeia, particularmente intensa para a Argentina, Uruguai, Brasil, Chile, Venezuela, diversificou ainda mais o panorama religioso do continente a partir da segunda metade do século XIX em diante. Isto não impediu que a América Latina fosse vista como continente, majoritariamente católico, pelo menos nominalmente. A novidade, hoje, é a multiplicação de experiências religiosas de toda índole, reflorescimento de cultos indígenas e afro-americanos, aliados ao fato de grande número de pessoas mudar de religião. Há dois fenômenos aparentemente contraditórios nesse campo: de um lado, uma verdadeira explosão religiosa, particularmente vistosa no multiplicar-se de movimentos e igrejas pentecostais e neopentecostais e, de outro, uma desafeição frente às formas religiosas mais institucionalizadas das Igrejas tradicionais. No limite, as pessoas se declaram “sem religião”, sendo este o segmento que, nos últimos trinta anos, mais rapidamente cresceu na população em geral, em especial nos centros urbanos, seja na Argentina, no Brasil, no Chile ou no México. Há outra novidade nessas formas de descrença. Elas permeiam também os setores populares tradicionalmente religiosos. Nesse sentido, elas diferem do clássico agnosticismo dos meios intelectuais à raiz dos conflitos entre fé e ciência na segunda metade do século XIX. Diferem também do movimento de “perda de fé” da classe operária, nas primeiras décadas do século XX, por acomodamento da Igreja Católica e de outras Igrejas cristãs aos interesses dos setores burgueses da sociedade e por sua aliança política com partidos conservadores contra os partidos socialistas, anarquistas, comunistas ou de esquerda alinhados com os interesses dos trabalhadores, nos conflitos entre capital e trabalho. Difere ainda da aproximação de intelectuais e universitários ao marxismo e concomitante desafeição religiosa. O fenômeno atual de abandono da religião é particularmente visível nos cinturões populares das grandes aglomerações urbanas, nas cidades dormitório ao lado de zonas industriais, nas favelas e cortiços dos centros urbanos. b) Pentecostalização do cristianismo.Se é possível distinguir três grandes expressões históricas do cristianismo, a do antigo oriente, a do ocidente latino católico e a da reforma protestante, é necessário acrescentar uma quarta, a do pentecostalismo que é reivindicada hoje por um quarto dos atuais dois bilhões de cristãos. Ao lado das igrejas e movimentos pentecostais, é visível a força do movimento carismático, tanto no seio do anglicanismo, das igrejas protestantes, como a luterana, a metodista, as presbiterianas, como ao interior da igreja católica. Nesse sentido, paralelamente ao crescimento pentecostal na América Latina e no Caribe está em curso igualmente uma pentecostalização de amplos setores do catolicismo, mormente entre as classes medias e altas. Basta o exemplo recente do Brasil para se medir a força do movimento pentecostal. Os dados do último censo (2010) no campo religioso, divulgados há poucos dias, indicam o persistente crescimento do mundo evangélico/pentecostal e o declínio dos fieis católicos e das Igrejas protestantes tradicionais: EVOLUÇÃO DA DISTRIBUIÇÃO DA PERTENÇA RELIGIOSA NO BRASIL CENSOS: 1970, 1980, 1991, 2000, 2010 ANOS POPULAÇÀO TOTAL - MILHÕES CATOLICOS EVANG. MISSÃO EVANGÉLICOS PENTECOSTAIS EVANG TOTAL OUTRAS RELIGIÕES SEM RELIGIÃO 1970 93 470 85 775 -- -- 4 833 2 157 0,704 91,8% -- -- 5,2% 2,5% 0,8% INDICE 100 100 -- -- 100 100 100 1980 119 009 105 860 4 022 3 864 7 885 3 310 1 953 89,0% 3,4% 3,2% 6,6% 3,1% 1,6% INDICE 127 123 100 100 163 153 277 1991 146 814 122 365 4 388 8 768 13 157 4 345 6 846 83,3% 3,0% 6,0% 9,0% 3,6% 4,7% INDICE 157 142 109 227 272 201 972 2000 169 870 125 517 8 477 17 975 26 452 5 409 12 492 73,9% 5,0% 10,6% 15,6% 3,2% 7,4% INDICE 182 146 210 374 547 250 1774 2010 190.775 123,289 7.686 25370 42.276 9621 15.335 64,63% 4,02% 13,30% 22,16% 5,04% 8,03% INDICE 204 143 191 656 880 446 2178 FONTE: DADOS DEMOCRÁFICOS: CENSOS IBGE: 1970, 1980, 1991, 2000 e 2010. INDICES DO AUTOR. Nota bene: O Censo de 1970 englobou todos os evangélicos, de missão e pentecostais, numa única categoria. Porcentagens e índices permitem visualizar as principais tendências nos últimos quarenta anos: - A população do país pouco mais do que dobrou entre 1970 e 2010 (Índice de 100 para 204). Os católicos não seguiram o ritmo do crescimento populacional (100 para 143) e, por primeira vez, entre 2000 e 2010, declinaram em números absolutos, caindo de 125.516 milhões para 123.289 (Índice de 146 para 143). - Declinou igualmente o número dos Protestantes de Missão que engloba luteranos, metodistas, presbiterianos, congregacionais e batistas. Baixaram de 8.4 milhões, para 7.8, entre 2000 e 2010. Se excluirmos deste grupo os batistas que representam metade desses fieis e é uma igreja que continua crescendo fortemente, o declínio seria mais acentuado (Índice de 210 para 191). - Os pentecostais e neopentecostais continuam crescendo e muito. Passaram na última década de 17.9 milhões para 25.3 (Índice de 374 para 656). Há algumas surpresas internas: A Igreja Universal do Reino de Deus, dona da Rede Record, que tivera crescimento fulminante entre 1991 e 2000, perdeu fieis na última década, assim como sua vistosa bancada de deputados na Câmara Federal. Outro fenômeno é do numeroso grupo de pessoas que se declaram “evangélicas”, sem indicar uma Igreja específica e que alcançou 9 milhões de pessoas. Consolidou-se a posição da Assembleia de Deus como a grande Igreja pentecostal, com 12.3 milhões de fieis. Ela congrega mais da metade de todos os pentecostais afiliados. - O conjunto dos evangélicos passou a somar 42,2 milhões de fieis, 22,16% da população brasileira, com um índice de 880 a partir da década de 70. Multiplicaram-se quase por nove, seus adeptos, nos últimos 40 anos. - O bloco das “Outras religiões” também cresceu. Seu índice passou de 100 a 440 entre 1970 e 2010. Neste bloco, o grupo mais importante é o dos espíritas que somam 3.8 milhões de adeptos, fazendo do Brasil o país com o maior número de espíritas em todo o mundo. Dentro desse bloco, encontram-se também as religiões indígenas e afro-brasileiras. Nestas, é marcante a liderança feminina das mães e filhas de santo. - Finalmente, o segmento que mais cresceu é o daqueles que se declaram sem religião. Este engloba ainda ateus e agnósticos. Seu índice saltou de 100, em 1970, para 2.178, em 2010. Isto significa que, nesse período, há 21 vezes mais pessoas que se declararam sem religião, notadamente no meio urbano e, de modo particular, nas grandes cidades. Seu ritmo de crescimento, entretanto, foi menor entre 2000 e 2010, se confrontado com o da década anterior (1991 a 2000), quando este grupo mais do que dobrou. Secularização e explosão religiosa convivem lado a lado nas grandes cidades brasileiras, mas espraia-se de maneira mais rápida a mancha dos que se declaram “sem religião”, sem nos aprofundarmos sobre os múltiplos significados que pode esconder essa expressão. - Não com o mesmo ímpeto, mas com tendências semelhantes em direção a uma ampla e crescente diversificação religiosa da sociedade, caminha toda a área centro-americana, de modo particular em países que foram duramente afetados pela guerra e deslocamentos massivos de população, como Nicarágua, El Salvador e Guatemala, mas também países como Chile, Argentina, Peru, Equador, Colômbia e México, em que pese a formação social relativamente diferente entre eles. c) Mediatização da mensagem religiosa. As igrejas que tiveram crescimento mais acelerado foram as que se apoiaram mais diretamente na utilização maciça dos meios de comunicação social, em especial, do radio, da televisão e agora da internet. O fenômeno das Igrejas eletrônicas dos Estados Unidos vem se replicando na América Latina e no Caribe, com a difusão de uma cultura “gospel” que permeia as várias igrejas cristãs indistintamente. Pastores e padres cantores, grandes festivais musicais religiosos vem se tornando a forma mais recorrente desta corrente religiosa, que alia emoção e subjetividade, com grandes “happenings” coletivos, mas com raso embasamento doutrinal e escasso compromisso social ou político, a partir de sua fé. e) Massificação e o anonimato no mundo urbano. Nos últimos 50 anos, todo o continente conheceu altíssimas taxas de urbanização sustentadas pela maciça imigração do campo para a cidade, dos pequenos e médios centros urbanos para as grandes metrópoles. Megalópoles, como a cidade do México ou São Paulo, metrópoles como Santiago do Chile, Bogotá, na Colômbia, Lima, Rio de Janeiro, no Brasil e Buenos Aires, na Argentina, mudaram a paisagem humana e social do continente. Para um catolicismo e determinados ramos do protestantismo que floresceram em ambientes rurais e em pequenas cidades, tornou-se um ingente desafio responder às novas interrogações e demandas do mundo urbano e encontrar formas de inserção criativas e proféticas nas megacidades, num ambiente de franca concorrência religiosa e de formas alternativas de vida, secularizadas e sem maiores referências ao transcendente. Para o mundo latino-americano, a teologia da libertação que nasceu ecumênica, desenvolvendo-se simultaneamente entre evangélicos (Rubem Alves, José Miguel Bonino, Julio de Santa Ana) e entre católicos (Gustavo Gutierrez, Leonardo Boff, Jon Sobrino, Juan Luiz Segundo, entre outros), os 40 anos do livro seminal de Gustavo Gutierrez, Teologia da Libertação, é um chamado para que as questões da exclusão e da justiça, dos pobres e de sua libertação continuem no centro da vida e dos sonhos dos seguidores de Jesus e das comunidades que lhe são fieis muitas delas até o martírio. Nessa linha, desempenham papel fundamental as pastorais sociais nos vários países. O CESEEP veio colaborando para a organização, junto com Ameríndia e outras instituições, do “Congreso continental de teología a los 50 años del Vaticano II y 40 años de la Teología latinoamericana y caribeña” que irá acontecer naUniversidade UNISINOS de São Leopoldo, RS, de 07 a 11 de outubrodeste ano. Para o mundo católico e cristão em geral, os 50 anos do Concílio Vaticano II (1962-1965) são uma oportunidade para revisitá-lo e reinventá-lo nas suas grandes intuições frente aos desafios de hoje, em particular o da erradicação da pobreza, do compromisso ecumênico e do diálogo inter-religioso, na linha de sua recepção mais criativa traçada pelas Conferências gerais do Episcopado latino-americano em Medellín (1968), Puebla (1979), Santo Domingo (1992), Aparecida (2007). Nesta retomada do Concílio, a CNBB propôs um itinerário bíblico: que as comunidades aprofundassem a cada ano um dos evangelhos, tendo como tema: “A formação de um discípulo missionário segundo a pedagogia de Jesus”. No ano de 2012, marcando os cinquenta anos do início do Concílio (1962), o evangelho escolhido foi Marcos, tendo por lema a palavra de Jesus a Bartimeu, ao cego de Jericó: “Coragem! Levanta-te! Jesus está te chamando!” (Mc 10, 49). Nos próximos anos, permanece o tema da formação de um discípulo missionário segundo a pedagogia de Jesus, no evangelho de Mateus (2013), de Lucas (2014) e de João (2015). O coordenador geral do CESEEP foi convidado pela presidência da CNBB para integrar a Comissão especial do Concílio Vaticano II eleita pela Assembleia Geral para cuidar do cinquentenário do Concílio. Foi ainda nomeado pelo Pontificio Comitato di Scienze Storiche, como coordenador geral para o Brasil do projeto internacional de pesquisa sobre os arquivos dos padres conciliares do Vaticano II. A esfera ecumênica encontra-se diante de quatro grandes desafios: o da extrema fragmentação do campo cristão; o do recrudescimento dos fundamentalismos; o do enrijecimento das Igrejas em suas identidades confessionais; o do proselitismo, como estratégia de crescimento numérico. Por outro lado, é alentador todo o trabalho ecumênico impulsado pelo CEBI e outros grupos em torno da leitura popular da Bíblia, que liga fé e vida e permite destravar fundamentalismos, superar confessionalismos ensimesmados e estabelecer diálogo em torno das demandas populares e do sentido da Palavra de Deus para o compromisso cristão na família, na comunidade e na sociedade. As CEBs e seus encontros intereclesiais no Brasil e latino-americanos pelo continente, têm impulsado um espaço importante para um ecumenismo de base. A V Conferência do Episcopado Latino-americano em Aparecida (2007) devolveu legitimidade às CEBs e ao seu compromisso transformador. Em toda a América Latina, prossegue uma fecunda cooperação nesse campo entre cristãos de diferentes confissões religiosas. O CESEEP em cada um dos seus cursos e de modo particular os Cursos Bíblicos participa desse esforço de retornar sempre às referências fundantes da fé cristã e à comum obediência à Palavra de Deus. No Brasil, por mais de vinte anos o coordenador geral do CESEEP acompanhou em nível nacional a Ampliada Nacional das CEBs, encarregada de organizar os Encontros Interclesiais. A partir de 2.000, essa tarefa vem sendo exercida pelo presidente do CESEEP, Pe. Benedito Ferraro. Biblistas, teólogas feministas e teólogos da libertação têm sido exemplares neste trabalho comum levado de maneira ecumênica. Centros de formação teológica, como ISEDET na Argentina, Universidade Bíblica de Costa Rica, o Seminário Evangélico de Teologia de Matanzas, em Cuba, a Comunidade Teológica do Chile; a Universidade Metodista de São Bernardo, a Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia de Belo Horizonte, a Escola Superior de Teologia (EST) da IECLB em São Leopoldo e muitos outros espaços mantém orientação ecumênica nos seus programas, no corpo de professores e de estudantes. Biblistas e teólogas como Elza Tamez na Universidade Bíblica da Costa Rica e Ofélia Ortega no Seminário de Matanzas em Cuba desempenharam papel importante nesse compromisso ecumênico e libertador no campo da formação teológica, trazendo a contribuição da leitura feminista da Bíblia e da teologia. Pelo aspecto mais oficial das Igrejas, em quase todos os países da América Latina e do Caribe, há Conselhos de Igrejas cristãs. Poucos, entretanto, contam com a participação da Igreja Católica. Uma das exceções é a Caribbean Conference of Churches (CCC) que congrega 33 Igrejas, presentes em 34 territórios do Caribe inglês, holandês, francês e espanhol, com o seguinte propósito: “Promover o Ecumenismo e a Transformação Social na obediência a Jesus Cristo e na solidariedade com o pobre”. A Conferência Episcopal das Antilhas que reúne os bispos católicos do Caribe inglês, holandês e inglês, mas não espanhol, é membro pleno do CCC. Outra exceção é o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC), no Brasil. O CONIC reúne Igrejas orientais, Igrejas saídas da Reforma, a Episcopal Anglicana e a Igreja Católica, mas nenhuma Igreja pentecostal, o segmento mais importante do mundo evangélico no país. O Conselho Latino-americano de Igrejas (CLAI), por outro lado, congrega igrejas evangélicas, com crescente abertura aos movimentos e Igrejas pentecostais, mas deixa de fora a Igreja Católica, embora mantenha laços de boas relações e cooperação, em países, como o Brasil. O CESEEP, por sua vez, é membro fraterno tanto do CLAI em nível latino-americano, quanto do CONIC, em nível nacional, podendo assim conviver, transitar e colaborar com as iniciativas de ambos os organismos buscando dar sua contribuição no sentido de construir pontes entre mundos por vezes afastados entre si. O CESEEP participa igualmente de modo permanente no grupo Fé-Brasil e mantêm laços estreitos com os vários centros e instituições ecumênicas do Brasil, da América Latina e do Caribe. Nas duas últimas décadas, vem se dedicando ainda a estabelecer diálogo e cooperação com as religiões não cristãs, seja com as religiões indígenas, as de matriz afro-americana, a umbanda e o espiritismo, seja com o judaísmo, o islamismo, o budismo e o hinduísmo. Seu Curso de Ecumenismo e Diálogo Inter-religioso comporta intenso programa de visitas aos locais de reunião e culto dessas religiões; diálogo com sua espiritualidade e sua contribuição frente a desafios atuais, como a violência, a crise ambiental, a injustiça, a pobreza, a disseminação da AIDs e das drogas entre a juventude. Por último, o crescimento do segmento de pessoas, que se declaram sem religião, o que mais cresce entre a população dos centros urbanos, tem trazido novo desafio ao CESEEP: o de jovens desconectados de qualquer pertença eclesial ou prática religiosa e que se inscrevem para os seus Cursos, preocupados em buscar um sentido para suas vidas, uma espiritualidade e um engajamento em ações cidadãs em favor da justiça, da vida, do meio ambiente e da promoção humana de excluídos e discriminados. O CESEEP tem buscado se situar frente a esses diferentes desafios e apostar no processo formativo de pessoas e grupos, capaz de ampliar seus horizontes, oferecer uma experiência de partilha e vivência latino-americana e ecumênica e propor elementos de discernimento para suas escolhas de fé e de cidadania.